Bem-Visto E Como Já
Falei
Quando
vi, praticamente em cima, já era tarde. Quando vi o cão, ele já andava andara
farejava arrastava o focinho no chão pra lá e pra cá. Farejava os cantos da rua
Vacaria. Descia em sentido ao centro da cidade. Mas sem pressa, claro. Cheirava
postes, cheirava as imbuias, cheirava cestas de lixo e esguichava. Sempre
urinava. Cão sem dono e procurando. De portão em portão, às vezes provocando o
morador. Uma ou outra ruela de terra vermelha solta. Pelo bairro São João Bosco
e adjacências.
Hora
dia talvez apropriado para milagres. Que rua esta, que sol este, que árvore bicuíba-cheirosa
esta e eu me perguntei.
Taí,
depois... Depois sei lá, o cão parou, olhou os quatro cantos do mundo, olhou
especialmente para trás, nem me viu ou nem me levou em conta, e voltou.
Esquecera alguma coisa com certeza, se lembrou, e voltava para pegar.
Olhei
o cão, sim. E pensei em nada.
O cão nem me viu. E o mundo girava para um lado acostumado e
prático.
Eu
mesmo queria estar em Linhares, Águas Mornas, Brejo do Cruz...
Pronto,
taí! A gente mesmo nunca sabe o que quer, o que nem quer. E por quê? Porque nem
falar. Porque assim mesmo.
***
Eu
queria dormir porque já era hora de dormir e já era tarde. Eu estava com sono atrasado
tendo calafrios de sono. Caindo de sono e preguiça e fadiga e delírios
intermitentes. E alguma coisa nem dava jeito. Nem conseguia me acomodar. Nem
estava com sorte. O ritual é importante, nessa hora. E eu precisava dormir
àquela hora. Tudo dava errado.
Do
mesmo lado que saiu o sol vinte trinta anos depois apareceu a lua.
Me
deitei e alguém veio atrapalhar. Me deitava novamente e aparecia um empecilho
uma irritação uma raiva uma humilhação. Agora vai? Que nada. Sempre faltava alguma
coisa do ritual algo para completar o ritual.
Quando
faz chuva, quando faz vento, quando faz uma nhampupê e eu me perguntei.
Até que enfim
eu ia deitar e esquecer e dormir o meu sono dos justos apóstolos. E quando me
deitei, quando coloquei a cabeça no travesseiro... um ruído lá no pátio... espichei
o pescoço, era o quê, era quem? A Pavussu. Eu já tentara namorar ela uma vez,
mas... O que que ela veio procurar? Me procurar? Aí, acordei mesmo e nem
consegui mais dormir. Pra que dormir numa hora dessas, hein?!
***
Um
joão-de-barro unípede. Vivia no colégio Oiapoque - que depois da emancipação do
município passou a se chamar Onze de Agosto -, num dos pavilhões, entre o forro
e as telhas. E juntamente com a esposa: dona maria-de-barro. Ali, na aba das
telhas de amianto, eles fizeram uma casinha, faziam o seu lar e isso já há
tempos.
As
crianças do colégio bem que queriam espantá-los. Pronto. Nem se sabia o porquê
de tanta raiva. E o joão e a maria se sentiam sim perseguidos. Todo dia. Claro,
menos nos fins de semana, feriados, férias, que nem havia aula.
Toda
manhã, toda tarde, aquele arrepio de perigo de existir. E joão e maria odiavam
também aquela gentalha gritadeira. Sofriam com tentativas de assassinato e tal.
Sempre desconfiados e alertas e espertos. Catando migalhas pelo chão da
cantina, etc. Procurando bichinhos rastejantes e ou subterrâneos entre os
canteiros do jardim misteriosamente conservado, alcaçuzes-da-terra,
papos-de-peru, begônias-sempre-floridas, olhos-de-gato, alfazemas-bravas...
Porque
sim todos os dias os milagres se aproveitam do sol da lua das cores das alfavacas-de-cobra.
As
crianças, entrava ano e saía ano, procuravam o casal de passarinhos. Assim, aquele
ódio de pedra, aquele rancor serial, era a cruz de joão e de maria de barro
para o resto dos seus dias. E por que as crianças perseguiam aos dois
passarinhos? Uma mania de criança é jogar pedra em tudo que se mexe. Vício preconceito
adquirido dos pais. Que mania de passarinho se misturar com gente! E por que joão
e maria nem se mudavam? Nem dava para saber com certeza. Talvez porque acreditassem
em dias melhores, ou porque pensassem que o mundo era todo igual e assim mesmo.
Talvez pelo território conquistado, embora perigoso, minado. E ponto.
Uma
vez no recreio, o atentado, uma pedra pegou joão na perninha e o aleijou para
sempre. Daquele dia em diante, quando queria ou precisava caminhar, tinha que
andar no pulo do saci.
O
casal inseparáveis criava filhotes ano após ano. E cantava nas manhãs e nas
tardes com gosto de se ouvir. E se escondia do sol no meio-dia, quando havia
sol forte. E se guardava da chuva, quando havia chuva forte. E se encolhia no
inverno, quando havia muito frio. Mas joão e maria gostavam de sol e chuva e
frio e calor. O mundo era, praticamente, um pavilhão do colégio Oiapoque. Vezes
ou outras apareciam japiins, bicos-assovelados, cochichos, tesouras-do-brejo,
noivinhas, guiramombucus e até o alarmante sobrevoo do gavião-preto.
E
a cada temporada o casal dava conta de pôr no mundo dois filhotinhos. Pimpolhos
comiam muito, berravam, faziam os pais voar e revoar atrás de comida de todo
tipo o dia todo. Mas depois, quando já grandinhos, em vez de ficar com os coroas,
eles arrumavam suas coisas e davam o fora. Como faz todo mundo ano após ano.
Como fizeram naquele ano. Olhavam o céu e saíam fora. Os que nem saíam por
conta própria eram expulsos pelos velhos.
Pois
joão e maria sabiam ouvir e escutar. Quando tocava a sirene já se recolhiam
para o teto do pavilhão da escola e esperavam a avalanche avassaladora passar
correr gritar berrar. Depois, o casal ia cuidar da vida, se alimentar, cuidar
da casa, passear, cantar, catar piolho entre as penas, recolher as sobras,
catar as migalhas, pinicar o pátio e o jardim cercado, cravos-do-mato,
avencas-estreladas, mandaravés, cordões-de-são-francisco, taquaras-trepadoras,
cardos-da-praia...
A
sorte de joão e de maria seria sempre aquele perigo, aquele susto dos tsunames,
aquele horror à gritaria, correria, atropelos. Em horas específicas,
cronometradas. Por quê? Por quê?
***
Estava
em casa, era de noite e era pena muita pena. Por mim teria saído. Precisava
sair, era o que pensava. Mas o temporal que desabou sobre o mundo me aprisionou.
Desmotorizado e a pé. Clarões incríveis, trovões de sacudir a casa. Me instruí:
-
Vou secar esse litrão, enquanto isso.
Pronto.
Tudo às escuras. Apagão mesmo. Faltou luz. Um terrível estrondo aqui por perto
e o mundo apagou. Nem calor, nem frio. Era chuva, o chuáaa!... Lá fora, tudo o
que fora dito e muita água e vento. Gaguejei:
-
C-cenário p-para o f-fim dos t-tempos, e d-daí?!
Enchi
o copo outra vez. Nem podia fazer nada. Outras vezes. Derrotarei o litrão,
pensei. Disse ainda, murmurando, balbuciando:
-
Sou mais forte... e inteligente... que esse litrão, meu!
De
onde, de quem, para quê, vem tudo isso abaixo?, pensei.
Acendi
o cigarro. Os cigarros. Sentado na cadeira da mesa da cozinha, no escuro. Sem
velas. Sem freio. Sem chão. Com o tato o faro eu encontrei o gelo. Breu puro. Sem
teto. Os trovões nos seus alôs estrugidos e bradados. Tremor que começava no
céu e entrava pelo centro da terra.
Se
desse para dormir, pelo menos! Será que era hora de fazer perguntas e mais
perguntas? Se desse para esquecer, pelo menos!
No
cochilo no sono sonhei notei que esperava embarcar para Caruaru. Mas como? E de
trem. Nunca fui pretendo mas nunca estive em Recife, meu!
Pensei
em Parnaíba. Ela
tinha medo de trovões e relâmpagos. Eu gostava dela. Eu gostava? Onde andará a
guria? A terra tremeu e balançou. Parnaíba se agarrava aos pilares da casa
quando trovoava assim, de tremer o céu e o inferno. Eu gostava dela como
gostava. A maior Parnaíba de todos os meus tempos de guri! Ela tinha uma foto
minha 3x4 que andava com ela e mostrava o tempo todo na carteira.
Nem
havia saída daquela escuridão, daquela ventania. Nem havia solução. Só o
destilado. Só o líquido brabo, engarrafado em frasco quadrado. Pensei que estava
no olho do furacão. Um litro de aguardente nem é melhor do que eu, pensei. Sou
mais eu mais inteligente mais brabo que um litrão de cachacha, né, meu!
Nunca
mais verei a Parnaíba. Estranho, nem?!
Foi
onde vi pela última vez? Na praça XV de Novembro, na praça Esteves Júnior, na
praça Clóvis Beviláqua, na praia de Caieira da Barra Sul, na praia de Ipioca...
Lá
fora talvez enchente ou pior. E se a casa caísse, voasse, fosse carregada pela
tempestade extratropical? Talvez o teto desabasse na minha cabeça. Com toda certeza
algumas árvores serão torcidas e retorcidas, arrancadas e destroçadas,
garapuvus, taquaris, caopiás, sombras-de-touro, pindaúbas, cedros-batatas...
Mal
escutava meus pensamentos. O barulho era grande, assustador. O mundo estava
brabo comigo. Parecia comigo o negócio. E se nem era comigo eu estava pelo
menos predestinado até o pescoço. E nunca mais conhecer passear passeio Piquerobi,
Guaramirim, São José, Camanducaia, Guaraciaba do Norte, Paraguaçu...
Meu
primo Tachã sempre me dizia numa hora assim:
-
Isso nem é bolinho de chuva frito, o em!
Eu
retrucava:
-
O jogo é jogado e o lambari é pescado, né, meu!
Abracei
aquele litrão sócio... litrão liso com rótulo de Itaubal... e se era para
morrer... morria... ali e naquela horinha. Pronto, me desisti. Era preciso?
Então, tá. Me conformei e nem falei mais nada, nem pensei mais grandes ou pequenas
coisas, tá?!
O
que me chegava na cabeça, bem no meio das ideias naquela hora, com pulos de
sapo-martelo e rabanadas de ururau e agilidades de cotia e ceceios de narceja?
O caminho do fim dos tempos, no mínimo.
O
que de maior poderia acontecer ali num ou dois minutos.
***
O
avião caiu em todos os seus pedaços. E explodiu por todos os poros lá dele. O
trem descarrilou e bateu no fundo de abismo igual uma tripa metálica. E explodiu
bem no meio. O barco virou e foi ao fundo como bacia emborcada. E nem explodiu,
enfeite de aquário com borbulhas. A casa voou até as estrelas e se espalhou pelo
zodíaco. Em todos os sentidos. E sublimaram. E foram ma-ra-vi-lho-sos!
Deixar
de pensar era difícil, deixar de sonhar também era. Ninguém deixa de ser, assim,
no mais.
Eu
precisava de um bar com jogo de futebol no quadro da parede.
***
Um
trabalho. Constituir um pequeno pátio com brita. O proprietário:
-
É pegar ou largar.
-
Aceito. Me explique.
Com
gestos e palavras e recorridos:
-
Quero que você forre o chão do meu pátio com esta brita aí, hem?! Só isto, meu!
-
E como? Com que traquejo?
-
Pegue os dois baldes de plástico e a pá. Aí, vai até o monte de brita e encha
os baldes a força de pá. Importante: você deve contar os baldes que encher antes
de descarregá-los. Anotar tudo. Depois eu verifico e confirmo e te pago, se for
o caso.
Então,
eu pensei e nem disse nada para que o tio nem me confundisse com um idiota
completo:
“É
preciso tanto assim para ganhar uns cobres? Será que preciso deste serviço de
tolo? Ninguém merece!”
Bem,
aí todo mundo já sacou, né?! Aí, tive vontade de ir ao banheiro. Olhei pros
lados, os quatro cantos do pátio cercado de muros altos pintados com a cal. E
acordei, fazer o quê?! Onde, onde?!
***
Não,
nem fora nada sério ou importante. Fora apenas interessante.
Eu
peguei a Guaribas para dançar. As luzes rodavam daquele jeito. Às vezes a gente
se encostava e eu esbarrava sem querer minha mão socando no seio. A camisa dela
desabotoada ali deixando ver o vão dos melões. Caía em tentação.
Guaribas
tinha sempre o seu sorriso fácil, solto, cantante, e também muita disposição
para rir e pular. Às vezes parecia assustadora, e sobrar. Tipo assim: muita
areia.
A
banda “Maria-Faceira” conjunto de quatro caras e mais a vocalista tocava todos
os ritmos sucessos existentes. Inexplicavelmente ainda nem correra briga
nenhuma dentro ou fora do recinto.
Pensei
abotoar a camisa dela. Ela riu e tal. Fui tocando os seios. Um vale profundo e hipnotizador.
Tudo era muito interessante. Depois ainda ela me olhou com cara de esperta
safada. Um sorriso nos lábios de menina sacana. Me olhou nos olhos, minhas mãos
tremeram, etc. O vale suave. Era interessante. Parecia um vale aconchegante e
tal. Nem só interessante como necessário e perspicaz.
***
Juntou
gente e cães famélicos.
Saltaram
perguntas. Mais perguntas. Perguntas e nada de respostas. Uns juravam aos céus.
Outros acusavam aos infernos. Mais uns ao dinheiro.
Fui
e voltei e me recolhi a tempo de ver a lua nova sentei debaixo do pé de
goiabeira-brava. A lua bonita em julho e lua um orgulho na veia. Lua sim como
um satélite como aposta como esposa como Nova Prata. O melhor dos mundos era
esperar que a lua caísse e ela nem caía.
Trouxeram
um rapaz. Vinha todo machucado de socos e pontapés e pauladas e pedradas. Todos
gritavam e balançavam o dedo indicador. Todos blasfemavam contra o rapaz. Todos
gritavam para os altos fornos dos infernos. O rapaz espancado gritava, agitava
os braços, tremia as pernas e chorava. Todos ainda queriam bater mais e mais no
rapaz que já apanhara muito.
Apareceu
meio galão de gasolina. Despejaram tudo encharcaram o escudo do penta na cara
do cliente. Alguém tacou fogo. O rapaz saiu que saiu rasgando. Correu para o
meio estreita da rua Pavuna. Os cães se esquivaram latiram. O tocha-humana
incrível correu em
ziguezagues. Depois de um breve exercício, tropeçou na vala e
caiu. Ficou rolando e se debatendo levantando poeira. Berrava muito. Parou.
O fogo
continuou até acabar o carvão. Virou tudo uma fumaça com odor de cravinho-de-defunto.
O
povo foi vazando, foi saindo de fininho. O povo saiu rapidinho, quase correndo.
A rua Pavuna casas acolheredas ficou deserta. Os olhos e ouvidos ficaram por
trás das portas e janelas e muros caídos. O carvão ficou abandonado na valeta.
E fumegando na noite endemoninhada. Um valor de coisa imprestável.
Vinte
e cinco ou vinte e seis minutos depois chegou a polícia. Armas nas mãos. Os
home da doze olharam e lamentaram com cara feroz, uma vez. Um brigadiano
apontou nem atirou para o ar. Olharam em volta. Dois minutos juntou crianças cães
desconfiados sem camisa. Ninguém viu nada? Um policial:
-
Quem é? Quem era?
***
Para
além de tudo e nem fica e nem para, o sono.
E
eu estava no bar-restaurante Rio Crespo, em Cururupu. Não conhecia e nem reconhecia
ninguém do local. Olhava o atendente espremer umas laranjas na máquina. Eu,
valente, me disse:
-
Isso eu posso fazer também e com uma mão.
Do
outro lado da rua Paissandu tinha uma árvore se nem me enganava uma pindobeira
e fazia sombra dia ensolarado passarinho bico-chato-de-cabeça-cinza carros
correndo e pessoas passando.
Pensei,
hoje é sol, amanhã vai ser sol e daqui a pouco estarei nos braços de
Enigmática. Enigmática e neutra. E mais Enigmática do que nunca.
Então,
me pegou a ligeira ideia de pedir um emprego ali no bar e restaurante Rio
Crespo, a comunidade de Cururupu. Mas, nem sei por que nem me mexi nem mugi. E
por que nem me comovi?
Sei
nem. Vai ver que era tarde demais. Umas dezessete horas. Ninguém pede por emprego
depois das 16h.
E
eu sumi no outro mundo; no mundo do sem tempo. E me perguntei:
-
Qual é a dessa procura por emprego? Eu preciso de emprego? Já nem estou satisfeito
com o emprego de atendente de farmácia ou drogaria?
Um
rio Peperi-Guaçu barcos a vela a remo a motor a jusante a montante os camalotes
plantados de aguapés e povoados de inhaúmas.
Eu
queria um emprego onde se espremessem laranjas e se fizessem muitos sucos e
servissem muitos sanduíches todos os dias, de segunda a domingo. Então? Pois é.
Horizontes,
viagens, gurias e assim por diante.
***
A
minha rua Itália era sete dias da semana. A minha rua era demais. E a minha rua
nem era só minha. Ainda outra coisa: a minha rua está ali, aos elementos, e
daí?!
Cão
marrom-clarinho passou cheirando tudo, arrastando o focinho no chão, farejando
latões de lixo, urinando em coiramas-de-pernambuco, marcando território,
cuidando da rua e do bairro todo, daqueles que nem param em casa.
Me
perguntei interrogativo:
-
Por que insisto nesse naquele emprego?
Depois
de largar a farmácia, acompanhei Sambaqui até a casa dela. Foram algumas ruas
paralelepipóides e quase ou totalmente no escuro. Para mais das vinte e duas.
Fomos trocando ideias sobre tudo. Ideias de arrastão. Chegando lá os carinhas
queriam o meu couro. O bairro Santa Cruz era muito ciumento das suas gurias. Os
carinhas nem aceitavam invasão. Que são ideias de arrastão? Nem sabia, nem sei.
Se nem fosse a própria Sambaqui teriam me linchado. Ela me beijou de selinho e
disse:
-
Tudo bem, querido. Pode voltar daqui e em paz.
A
Sambaqui gostava de mim. Por isso ela apaziguou a turma dos carinhas lá da rua
Duque de Caxias e me convidou para um cafezinho. Talvez um pouco tarde, onze
horas da noite. Eu nem aceitei e precisava sair dali o mais rápido possível. Era
um pouco tarde para os padrões do bairro. Mas Sambaqui me convidou e talvez
quisesse apresentar a filhinha a Cida de quem falava muito e maravilhas. E os
velhos dela até pareciam chateados. Por quê? Nem gostavam de mim. Por quê? O
que eu fiz ou faço ou deixo de fazer para eles me detestarem?, pensei. Sambaqui
empurrou os cabelos longos para trás, para trás das orelhas. Sambaqui tinha um
defeito a meu ver uma demasia pro meu gosto e a meu ver tinha os peitos maiores
que a bunda.
***
Alta
noite e de madruga, acordei acordei. Nem era sempre que gostava de acordar na noite
calada. Aquele sonho insistente e revisto: eu estava perdido na cidade grande e
na cidade estranha nem sei que cidade. Procurava as ruas e todas eram muito
ameaçadoras e virtuais. As pessoas eram ameaçadoras. Ruas perigosas com muros
de cacos de vidro. Caminhava e passava por becos perigosos e pessoas fechadas
atrás de grades. Ruas de terra batida e pessoas me olhando de tudo que era
jeito. Asfalto perigoso e carros velozes me ameaçando.
Também
sonhara com as filhas do seu Piraputanga. Eu as vira passar três dias atrás pela
calçada da farmácia. Será? Mas por quê? Por que tudo aquilo? Eram duas meninas aconchegantes,
mas nem tanto assim, gente! Viviam me olhando, mas outras também eram
simpáticas. Por que o sonho queria aquelas coisas sem explicação? Que canal era
aquele? Elas frequentemente faziam compras em Santana do Livramento ou Rivera,
e Foz do Iguaçu ou Cidade do Leste, e Ponta Porã ou Pedro Juan Caballero. Elas
faziam bombas caseiras artesanais de diferentes sabores e queriam vender como
todo mundo que precisa vender para ganhar dinheiro.
Bem,
nem sabia a resposta, nem entendia. Nem tinha elementos para responder. O
último livro que havia lido de ponta a ponta e fazia uma cara fora o “A Marca
do Adultério”, de Cassandra Rios.
E
já que estava acordado, fui até a cozinha beber um copo de água. Caminhei no
escuro, pé ante pé, igual um fantasma, igual um rato, como um gato, como um
gambá, parecidíssimo com socoí-vermelho uma ave que vi uma vez na vida voando
por aí. Nem queria acordar ninguém. Passei a mão pelos cabelos. E, então, me
lembrei e me perguntei:
-
É, por que nem um gole de canha? Canha tradicional de alambique e de Minas,
meu!
A
sede me mandava. Lambi os lábios. Cheguei até o balcão, abri a portinhola. Tudo
no silêncio. Com muito cuidado, etc. Nem queria acordar ninguém e tal. Pronto,
peguei a garrafa. Voltei ao quarto.
Sentei
na cama e fiquei muito tempo sem pensar. Mas nem podia pensar em nada mesmo.
Quase nada. E dispensei muita coisa sem pé nem cabeça.
Tinha
visto me lembrava do forte de Santana do Estreito na tevê e pensei: como era a
sorte de alguém naquele lugar numa época aquela e tal e coisa. Um dia vou lá e
conhecer? Em o Estado de Tocantins ave símbolo a cigana e tal e coisa.
Pensei
naqueles sonhos que me assaltavam quase todas as noites. Nem merecia. E eles me
assaltavam sem explicação sem consideração. Que era, hein?! Coisas que comia,
ou deixava de comer? Pensei, meditei e avaliei. Pensei mal e mal. Quer dizer,
passei mal.
Aquele
petróleo que bebia me descia pelos peitos com força de gasolina. Uma avalanche
de fogo. Uma cavalaria de fogo. Um trem de fogo. Pura gasolina, meu! Estalei a
língua só porque era coisa do diabo. A pinga muito boa, se diga de passagem.
Sentado
na cama, abraçado ao travesseiro e à garrafa da branca, eu via o fim do mundo
desbarrancar e fazer poeira. O monstro dinossauro estava de verde. Filho ou pai
da floresta? Filha ou mãe das profundas do oceano? Da floresta escura e assustadora.
Dos meus pesadelos. Do fundo do mar gelado. Deviam ser de coisas que nem comi,
isso sim.
E
o etê se sentou na cadeira perto da janela de veneziana fechada. A criatura que
aparecia verde se mexeu, se torceu, se esticou e se encolheu. Ficou parecendo
uma coisa esponjosa. Ela ou ele passou a mão pelos cabelos lá dela, também
verdes e escorridos. Penteou o cabelo, verde e longo, com os dedos de planta. O
deus ou deusa de vinte e oito olhos me olhou, me cheirou, me soprou, como me
ofendendo:
-
Está doente.
-
Doente? E de quê?!
O
defunto fumegante me respondeu, já que perguntei:
-
Hesitação.
A
canha estava para terminar no fundo da garrafa. O rio Joanes. Apenas com
papagaios-moleiros algazarra em palmeiras-barrigudas catulés-babões
palmitos-amargosos... Eu nem tinha mais sede. Nem tinha ódio a ninguém mais.
Também nem precisava de ninguém mais. Perdera as estribeiras? Nem sabia. Nem sabia
mais nada. Nem tinha mais perguntas nem sabia mais falar. Nem queria saber da
palavra bicarbonato, da cravina-do-campo, do mundo empreendedor das tapiúbas. Nem
sabia de que lado da garrafa.
-
Doente? E de que, meu?!
-
Mis-tificação.
A
casa enterrada, submersa, enfiada no túnel da noite. A casa fechada, se
protegendo da escuridão. Eu preso na casa na escuridão na garrafa como assim no
papo da baleia jubarte mais próxima. Nem tinha nome. Nem tinha sol estrela lua
rua praça. Uma falta de qualquer espaço, enterrado, afogado.
-
Doente? E de quê?!
-
Abstração.
E
a coisa se mexeu, se levantou, andou pelo quarto, os braços medindo mais que as
pernas, queria abrir a janela a gaveta a geladeira. A noite lá fora seria
impossível. Dor de cabeça. Sentei, levantei, bebi, deitei no chão que era mais
prático e frio.
Eu
perguntei, minha cabeça pendendo pro lado como jabuti:
-
Que coisas?
O
tipo do outro mundo me respondeu, nem se aproximava, ainda bem!, respostou do
fundo do espelho:
-
Timidez. Pequenez.
A
noite quase respirava sem os grilos. A noite quase brilhava verdes sem
vaga-lumes. Olhei o rótulo da canha: Serra do Navio. Era bonito. Uma moça
segurando um feixe de canas-de-açúcar. Vi e revi e revirei. Ela sorria
provocadora. Achei bom. E a moça estava linda. E eu achei também que podia
estar lá e do lado dela. Nós dois correndo na plantação em mar de verde. Eu
precisando mais que ela. Ela com aquele vestido de prenda e segurando o chapéu de
cabelos sobrando, e que cabelo destacando as pontas!
Eu
provoquei o esverdeado filho da ronca e fuça:
-
Medo? Medo de quê?!
-
Multidões. Máquinas.
Nem
sei se o fim dos tempos cochilou ou nem. Nem sei se o famigerado evaporou da
cadeira ou nem. A moça da imagem do rótulo nem descolava o sorriso. Muito
melhor assim. Tinha muito vestido e de prenda.
-
Qual o meu crime?
-
Fuga.
-
E agora?
-
Esquece tudo apaga tudo joga fora o que nem pensa que possui.
Como
era fácil entender aquela gente, uta! Sempre assim, eu nem precisava nem beber.
A moça do sorriso continuava passeando no meu canavial de ondas fáceis. Seria
que ela dançava bem o congado? Eu apostava e gostava que sim.
-
Já vai? Quer um caldo de cana?
E
a pedra cantou para que eu dormisse. No meio do sono eu quase acordei. Ainda
falei, um pouco gira, claro. Falei, acho que gritei:
-
Você é uma meeen-ti-ra!
E
o mundo ficou monocultura da cana-de-açúcar canavial mar verde de ondas e engenho
de açúcar.
***
No
dia 20 de março o ano nem me lembro eu estava de pé, acordado, me olhando no
espelho chanfrado do banheiro. Parei ali no espelho e me achei. Depois, com
calma, me comuniquei:
-
Vou empurrar e de ombros a Enigmática.
E
saí, e fui para a rua. A minha rua Itália e outras ruas no labirinto. Peguei e
dobrei pela direita, caí na rua São Pedro do Butiá. Um primor.
Comadre
Sururuca cuidava do jardim da frente da casa puxava uma enxadinha ajoelhada
arrancava plantava jasmim-do-mato junto com a madressilva-verdadeira perto da
cavitinga e da anhangapiri, se queixando de dores nas costas que isso mata uma
pessoa de bem.
E
fui pela aquela rua até uma altura. Aí, olhei as horas no relógio de pulso e
cheguei no emprego, entrei na farmácia e faltavam menos que dois minutos.
Vamos
dizer que trabalhei, olhei o jornal do dia, o jornal local, o jornal estadual,
o rádio na FM Abaporu, e já no meio da tarde eu estava cansado e mais que
cansado enjoado e enojado e nojento. Ano de 85 era um luxo.
Espião
espiei respirei aspirei conspirei suspirei transpirei expirei sentei para comer
um lanche feito e entregue da padaria Arabutã espirei espionei. Pensei e me
comuniquei:
-
Sim. Vou comprar uns enfeites desses orixás para dar de presente e sorte a quem
eu quiser, é.
Voltei
para casa por outro caminho, eram o quê: dez e dez da noite sem lua e com
poucas estrelas. Umas nuvens caminhando. Uns cães latindo nos pátios das casas,
janelas acesas, tevês ligadas. Antes de chegar em casa eu já sabia e me perguntei,
por que eu sempre me pergunto:
-
Por que nem tive a oportunidade ocasião imponderável de empurrar acepipe e de ombros
com a Enigmática?