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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 14




Bem-Visto E Como Já Falei

            Quando vi, praticamente em cima, já era tarde. Quando vi o cão, ele já andava andara farejava arrastava o focinho no chão pra lá e pra cá. Farejava os cantos da rua Vacaria. Descia em sentido ao centro da cidade. Mas sem pressa, claro. Cheirava postes, cheirava as imbuias, cheirava cestas de lixo e esguichava. Sempre urinava. Cão sem dono e procurando. De portão em portão, às vezes provocando o morador. Uma ou outra ruela de terra vermelha solta. Pelo bairro São João Bosco e adjacências.
            Hora dia talvez apropriado para milagres. Que rua esta, que sol este, que árvore bicuíba-cheirosa esta e eu me perguntei.
            Taí, depois... Depois sei lá, o cão parou, olhou os quatro cantos do mundo, olhou especialmente para trás, nem me viu ou nem me levou em conta, e voltou. Esquecera alguma coisa com certeza, se lembrou, e voltava para pegar.
            Olhei o cão, sim. E pensei em nada. O cão nem me viu. E o mundo girava para um lado acostumado e prático.
            Eu mesmo queria estar em Linhares, Águas Mornas, Brejo do Cruz...
            Pronto, taí! A gente mesmo nunca sabe o que quer, o que nem quer. E por quê? Porque nem falar. Porque assim mesmo.
                                                                       ***
            Eu queria dormir porque já era hora de dormir e já era tarde. Eu estava com sono atrasado tendo calafrios de sono. Caindo de sono e preguiça e fadiga e delírios intermitentes. E alguma coisa nem dava jeito. Nem conseguia me acomodar. Nem estava com sorte. O ritual é importante, nessa hora. E eu precisava dormir àquela hora. Tudo dava errado.
            Do mesmo lado que saiu o sol vinte trinta anos depois apareceu a lua.
            Me deitei e alguém veio atrapalhar. Me deitava novamente e aparecia um empecilho uma irritação uma raiva uma humilhação. Agora vai? Que nada. Sempre faltava alguma coisa do ritual algo para completar o ritual.
            Quando faz chuva, quando faz vento, quando faz uma nhampupê e eu me perguntei.
Até que enfim eu ia deitar e esquecer e dormir o meu sono dos justos apóstolos. E quando me deitei, quando coloquei a cabeça no travesseiro... um ruído lá no pátio... espichei o pescoço, era o quê, era quem? A Pavussu. Eu já tentara namorar ela uma vez, mas... O que que ela veio procurar? Me procurar? Aí, acordei mesmo e nem consegui mais dormir. Pra que dormir numa hora dessas, hein?!
                                                                       ***
            Um joão-de-barro unípede. Vivia no colégio Oiapoque - que depois da emancipação do município passou a se chamar Onze de Agosto -, num dos pavilhões, entre o forro e as telhas. E juntamente com a esposa: dona maria-de-barro. Ali, na aba das telhas de amianto, eles fizeram uma casinha, faziam o seu lar e isso já há tempos.
            As crianças do colégio bem que queriam espantá-los. Pronto. Nem se sabia o porquê de tanta raiva. E o joão e a maria se sentiam sim perseguidos. Todo dia. Claro, menos nos fins de semana, feriados, férias, que nem havia aula.
            Toda manhã, toda tarde, aquele arrepio de perigo de existir. E joão e maria odiavam também aquela gentalha gritadeira. Sofriam com tentativas de assassinato e tal. Sempre desconfiados e alertas e espertos. Catando migalhas pelo chão da cantina, etc. Procurando bichinhos rastejantes e ou subterrâneos entre os canteiros do jardim misteriosamente conservado, alcaçuzes-da-terra, papos-de-peru, begônias-sempre-floridas, olhos-de-gato, alfazemas-bravas...
            Porque sim todos os dias os milagres se aproveitam do sol da lua das cores das alfavacas-de-cobra.   
            As crianças, entrava ano e saía ano, procuravam o casal de passarinhos. Assim, aquele ódio de pedra, aquele rancor serial, era a cruz de joão e de maria de barro para o resto dos seus dias. E por que as crianças perseguiam aos dois passarinhos? Uma mania de criança é jogar pedra em tudo que se mexe. Vício preconceito adquirido dos pais. Que mania de passarinho se misturar com gente! E por que joão e maria nem se mudavam? Nem dava para saber com certeza. Talvez porque acreditassem em dias melhores, ou porque pensassem que o mundo era todo igual e assim mesmo. Talvez pelo território conquistado, embora perigoso, minado. E ponto.
            Uma vez no recreio, o atentado, uma pedra pegou joão na perninha e o aleijou para sempre. Daquele dia em diante, quando queria ou precisava caminhar, tinha que andar no pulo do saci.
            O casal inseparáveis criava filhotes ano após ano. E cantava nas manhãs e nas tardes com gosto de se ouvir. E se escondia do sol no meio-dia, quando havia sol forte. E se guardava da chuva, quando havia chuva forte. E se encolhia no inverno, quando havia muito frio. Mas joão e maria gostavam de sol e chuva e frio e calor. O mundo era, praticamente, um pavilhão do colégio Oiapoque. Vezes ou outras apareciam japiins, bicos-assovelados, cochichos, tesouras-do-brejo, noivinhas, guiramombucus e até o alarmante sobrevoo do gavião-preto.
            E a cada temporada o casal dava conta de pôr no mundo dois filhotinhos. Pimpolhos comiam muito, berravam, faziam os pais voar e revoar atrás de comida de todo tipo o dia todo. Mas depois, quando já grandinhos, em vez de ficar com os coroas, eles arrumavam suas coisas e davam o fora. Como faz todo mundo ano após ano. Como fizeram naquele ano. Olhavam o céu e saíam fora. Os que nem saíam por conta própria eram expulsos pelos velhos.
            Pois joão e maria sabiam ouvir e escutar. Quando tocava a sirene já se recolhiam para o teto do pavilhão da escola e esperavam a avalanche avassaladora passar correr gritar berrar. Depois, o casal ia cuidar da vida, se alimentar, cuidar da casa, passear, cantar, catar piolho entre as penas, recolher as sobras, catar as migalhas, pinicar o pátio e o jardim cercado, cravos-do-mato, avencas-estreladas, mandaravés, cordões-de-são-francisco, taquaras-trepadoras, cardos-da-praia...
            A sorte de joão e de maria seria sempre aquele perigo, aquele susto dos tsunames, aquele horror à gritaria, correria, atropelos. Em horas específicas, cronometradas. Por quê? Por quê?
                                                                       ***
            Estava em casa, era de noite e era pena muita pena. Por mim teria saído. Precisava sair, era o que pensava. Mas o temporal que desabou sobre o mundo me aprisionou. Desmotorizado e a pé. Clarões incríveis, trovões de sacudir a casa. Me instruí:
            - Vou secar esse litrão, enquanto isso.
            Pronto. Tudo às escuras. Apagão mesmo. Faltou luz. Um terrível estrondo aqui por perto e o mundo apagou. Nem calor, nem frio. Era chuva, o chuáaa!... Lá fora, tudo o que fora dito e muita água e vento. Gaguejei:
            - C-cenário p-para o f-fim dos t-tempos, e d-daí?!
            Enchi o copo outra vez. Nem podia fazer nada. Outras vezes. Derrotarei o litrão, pensei. Disse ainda, murmurando, balbuciando:
            - Sou mais forte... e inteligente... que esse litrão, meu!
            De onde, de quem, para quê, vem tudo isso abaixo?, pensei.
            Acendi o cigarro. Os cigarros. Sentado na cadeira da mesa da cozinha, no escuro. Sem velas. Sem freio. Sem chão. Com o tato o faro eu encontrei o gelo. Breu puro. Sem teto. Os trovões nos seus alôs estrugidos e bradados. Tremor que começava no céu e entrava pelo centro da terra.
            Se desse para dormir, pelo menos! Será que era hora de fazer perguntas e mais perguntas? Se desse para esquecer, pelo menos!
            No cochilo no sono sonhei notei que esperava embarcar para Caruaru. Mas como? E de trem. Nunca fui pretendo mas nunca estive em Recife, meu!
            Pensei em Parnaíba. Ela tinha medo de trovões e relâmpagos. Eu gostava dela. Eu gostava? Onde andará a guria? A terra tremeu e balançou. Parnaíba se agarrava aos pilares da casa quando trovoava assim, de tremer o céu e o inferno. Eu gostava dela como gostava. A maior Parnaíba de todos os meus tempos de guri! Ela tinha uma foto minha 3x4 que andava com ela e mostrava o tempo todo na carteira.
            Nem havia saída daquela escuridão, daquela ventania. Nem havia solução. Só o destilado. Só o líquido brabo, engarrafado em frasco quadrado. Pensei que estava no olho do furacão. Um litro de aguardente nem é melhor do que eu, pensei. Sou mais eu mais inteligente mais brabo que um litrão de cachacha, né, meu!
            Nunca mais verei a Parnaíba. Estranho, nem?!
            Foi onde vi pela última vez? Na praça XV de Novembro, na praça Esteves Júnior, na praça Clóvis Beviláqua, na praia de Caieira da Barra Sul, na praia de Ipioca...
            Lá fora talvez enchente ou pior. E se a casa caísse, voasse, fosse carregada pela tempestade extratropical? Talvez o teto desabasse na minha cabeça. Com toda certeza algumas árvores serão torcidas e retorcidas, arrancadas e destroçadas, garapuvus, taquaris, caopiás, sombras-de-touro, pindaúbas, cedros-batatas...
            Mal escutava meus pensamentos. O barulho era grande, assustador. O mundo estava brabo comigo. Parecia comigo o negócio. E se nem era comigo eu estava pelo menos predestinado até o pescoço. E nunca mais conhecer passear passeio Piquerobi, Guaramirim, São José, Camanducaia, Guaraciaba do Norte, Paraguaçu...
            Meu primo Tachã sempre me dizia numa hora assim:
            - Isso nem é bolinho de chuva frito, o em!
            Eu retrucava:
            - O jogo é jogado e o lambari é pescado, né, meu!
            Abracei aquele litrão sócio... litrão liso com rótulo de Itaubal... e se era para morrer... morria... ali e naquela horinha. Pronto, me desisti. Era preciso? Então, tá. Me conformei e nem falei mais nada, nem pensei mais grandes ou pequenas coisas, tá?!
            O que me chegava na cabeça, bem no meio das ideias naquela hora, com pulos de sapo-martelo e rabanadas de ururau e agilidades de cotia e ceceios de narceja? O caminho do fim dos tempos, no mínimo.
            O que de maior poderia acontecer ali num ou dois minutos.
                                                                       ***
            O avião caiu em todos os seus pedaços. E explodiu por todos os poros lá dele. O trem descarrilou e bateu no fundo de abismo igual uma tripa metálica. E explodiu bem no meio. O barco virou e foi ao fundo como bacia emborcada. E nem explodiu, enfeite de aquário com borbulhas. A casa voou até as estrelas e se espalhou pelo zodíaco. Em todos os sentidos. E sublimaram. E foram ma-ra-vi-lho-sos!
            Deixar de pensar era difícil, deixar de sonhar também era. Ninguém deixa de ser, assim, no mais.
            Eu precisava de um bar com jogo de futebol no quadro da parede.
                                                                       ***
            Um trabalho. Constituir um pequeno pátio com brita. O proprietário:
            - É pegar ou largar.
            - Aceito. Me explique.
            Com gestos e palavras e recorridos:
            - Quero que você forre o chão do meu pátio com esta brita aí, hem?! Só isto, meu!
            - E como? Com que traquejo?
            - Pegue os dois baldes de plástico e a pá. Aí, vai até o monte de brita e encha os baldes a força de pá. Importante: você deve contar os baldes que encher antes de descarregá-los. Anotar tudo. Depois eu verifico e confirmo e te pago, se for o caso.
            Então, eu pensei e nem disse nada para que o tio nem me confundisse com um idiota completo:
            “É preciso tanto assim para ganhar uns cobres? Será que preciso deste serviço de tolo? Ninguém merece!”
            Bem, aí todo mundo já sacou, né?! Aí, tive vontade de ir ao banheiro. Olhei pros lados, os quatro cantos do pátio cercado de muros altos pintados com a cal. E acordei, fazer o quê?! Onde, onde?!
                                                                       ***
            Não, nem fora nada sério ou importante. Fora apenas interessante.
            Eu peguei a Guaribas para dançar. As luzes rodavam daquele jeito. Às vezes a gente se encostava e eu esbarrava sem querer minha mão socando no seio. A camisa dela desabotoada ali deixando ver o vão dos melões. Caía em tentação.
            Guaribas tinha sempre o seu sorriso fácil, solto, cantante, e também muita disposição para rir e pular. Às vezes parecia assustadora, e sobrar. Tipo assim: muita areia.
            A banda “Maria-Faceira” conjunto de quatro caras e mais a vocalista tocava todos os ritmos sucessos existentes. Inexplicavelmente ainda nem correra briga nenhuma dentro ou fora do recinto.
            Pensei abotoar a camisa dela. Ela riu e tal. Fui tocando os seios. Um vale profundo e hipnotizador. Tudo era muito interessante. Depois ainda ela me olhou com cara de esperta safada. Um sorriso nos lábios de menina sacana. Me olhou nos olhos, minhas mãos tremeram, etc. O vale suave. Era interessante. Parecia um vale aconchegante e tal. Nem só interessante como necessário e perspicaz.
                                                                       ***
            Juntou gente e cães famélicos.
            Saltaram perguntas. Mais perguntas. Perguntas e nada de respostas. Uns juravam aos céus. Outros acusavam aos infernos. Mais uns ao dinheiro.
            Fui e voltei e me recolhi a tempo de ver a lua nova sentei debaixo do pé de goiabeira-brava. A lua bonita em julho e lua um orgulho na veia. Lua sim como um satélite como aposta como esposa como Nova Prata. O melhor dos mundos era esperar que a lua caísse e ela nem caía.
            Trouxeram um rapaz. Vinha todo machucado de socos e pontapés e pauladas e pedradas. Todos gritavam e balançavam o dedo indicador. Todos blasfemavam contra o rapaz. Todos gritavam para os altos fornos dos infernos. O rapaz espancado gritava, agitava os braços, tremia as pernas e chorava. Todos ainda queriam bater mais e mais no rapaz que já apanhara muito.
            Apareceu meio galão de gasolina. Despejaram tudo encharcaram o escudo do penta na cara do cliente. Alguém tacou fogo. O rapaz saiu que saiu rasgando. Correu para o meio estreita da rua Pavuna. Os cães se esquivaram latiram. O tocha-humana incrível correu em ziguezagues. Depois de um breve exercício, tropeçou na vala e caiu. Ficou rolando e se debatendo levantando poeira. Berrava muito. Parou.
O fogo continuou até acabar o carvão. Virou tudo uma fumaça com odor de cravinho-de-defunto.
            O povo foi vazando, foi saindo de fininho. O povo saiu rapidinho, quase correndo. A rua Pavuna casas acolheredas ficou deserta. Os olhos e ouvidos ficaram por trás das portas e janelas e muros caídos. O carvão ficou abandonado na valeta. E fumegando na noite endemoninhada. Um valor de coisa imprestável.
            Vinte e cinco ou vinte e seis minutos depois chegou a polícia. Armas nas mãos. Os home da doze olharam e lamentaram com cara feroz, uma vez. Um brigadiano apontou nem atirou para o ar. Olharam em volta. Dois minutos juntou crianças cães desconfiados sem camisa. Ninguém viu nada? Um policial:
            - Quem é? Quem era?
                                                                       ***
            Para além de tudo e nem fica e nem para, o sono.
            E eu estava no bar-restaurante Rio Crespo, em Cururupu. Não conhecia e nem reconhecia ninguém do local. Olhava o atendente espremer umas laranjas na máquina. Eu, valente, me disse:
            - Isso eu posso fazer também e com uma mão.
            Do outro lado da rua Paissandu tinha uma árvore se nem me enganava uma pindobeira e fazia sombra dia ensolarado passarinho bico-chato-de-cabeça-cinza carros correndo e pessoas passando.
            Pensei, hoje é sol, amanhã vai ser sol e daqui a pouco estarei nos braços de Enigmática. Enigmática e neutra. E mais Enigmática do que nunca.
            Então, me pegou a ligeira ideia de pedir um emprego ali no bar e restaurante Rio Crespo, a comunidade de Cururupu. Mas, nem sei por que nem me mexi nem mugi. E por que nem me comovi?
            Sei nem. Vai ver que era tarde demais. Umas dezessete horas. Ninguém pede por emprego depois das 16h.
            E eu sumi no outro mundo; no mundo do sem tempo. E me perguntei:
            - Qual é a dessa procura por emprego? Eu preciso de emprego? Já nem estou satisfeito com o emprego de atendente de farmácia ou drogaria?
            Um rio Peperi-Guaçu barcos a vela a remo a motor a jusante a montante os camalotes plantados de aguapés e povoados de inhaúmas.
            Eu queria um emprego onde se espremessem laranjas e se fizessem muitos sucos e servissem muitos sanduíches todos os dias, de segunda a domingo. Então? Pois é.
            Horizontes, viagens, gurias e assim por diante.
                                                                       ***
            A minha rua Itália era sete dias da semana. A minha rua era demais. E a minha rua nem era só minha. Ainda outra coisa: a minha rua está ali, aos elementos, e daí?!
            Cão marrom-clarinho passou cheirando tudo, arrastando o focinho no chão, farejando latões de lixo, urinando em coiramas-de-pernambuco, marcando território, cuidando da rua e do bairro todo, daqueles que nem param em casa.
            Me perguntei interrogativo:
            - Por que insisto nesse naquele emprego?
            Depois de largar a farmácia, acompanhei Sambaqui até a casa dela. Foram algumas ruas paralelepipóides e quase ou totalmente no escuro. Para mais das vinte e duas. Fomos trocando ideias sobre tudo. Ideias de arrastão. Chegando lá os carinhas queriam o meu couro. O bairro Santa Cruz era muito ciumento das suas gurias. Os carinhas nem aceitavam invasão. Que são ideias de arrastão? Nem sabia, nem sei. Se nem fosse a própria Sambaqui teriam me linchado. Ela me beijou de selinho e disse:
            - Tudo bem, querido. Pode voltar daqui e em paz.
            A Sambaqui gostava de mim. Por isso ela apaziguou a turma dos carinhas lá da rua Duque de Caxias e me convidou para um cafezinho. Talvez um pouco tarde, onze horas da noite. Eu nem aceitei e precisava sair dali o mais rápido possível. Era um pouco tarde para os padrões do bairro. Mas Sambaqui me convidou e talvez quisesse apresentar a filhinha a Cida de quem falava muito e maravilhas. E os velhos dela até pareciam chateados. Por quê? Nem gostavam de mim. Por quê? O que eu fiz ou faço ou deixo de fazer para eles me detestarem?, pensei. Sambaqui empurrou os cabelos longos para trás, para trás das orelhas. Sambaqui tinha um defeito a meu ver uma demasia pro meu gosto e a meu ver tinha os peitos maiores que a bunda.
                                                                       ***
            Alta noite e de madruga, acordei acordei. Nem era sempre que gostava de acordar na noite calada. Aquele sonho insistente e revisto: eu estava perdido na cidade grande e na cidade estranha nem sei que cidade. Procurava as ruas e todas eram muito ameaçadoras e virtuais. As pessoas eram ameaçadoras. Ruas perigosas com muros de cacos de vidro. Caminhava e passava por becos perigosos e pessoas fechadas atrás de grades. Ruas de terra batida e pessoas me olhando de tudo que era jeito. Asfalto perigoso e carros velozes me ameaçando.
            Também sonhara com as filhas do seu Piraputanga. Eu as vira passar três dias atrás pela calçada da farmácia. Será? Mas por quê? Por que tudo aquilo? Eram duas meninas aconchegantes, mas nem tanto assim, gente! Viviam me olhando, mas outras também eram simpáticas. Por que o sonho queria aquelas coisas sem explicação? Que canal era aquele? Elas frequentemente faziam compras em Santana do Livramento ou Rivera, e Foz do Iguaçu ou Cidade do Leste, e Ponta Porã ou Pedro Juan Caballero. Elas faziam bombas caseiras artesanais de diferentes sabores e queriam vender como todo mundo que precisa vender para ganhar dinheiro.
            Bem, nem sabia a resposta, nem entendia. Nem tinha elementos para responder. O último livro que havia lido de ponta a ponta e fazia uma cara fora o “A Marca do Adultério”, de Cassandra Rios.
            E já que estava acordado, fui até a cozinha beber um copo de água. Caminhei no escuro, pé ante pé, igual um fantasma, igual um rato, como um gato, como um gambá, parecidíssimo com socoí-vermelho uma ave que vi uma vez na vida voando por aí. Nem queria acordar ninguém. Passei a mão pelos cabelos. E, então, me lembrei e me perguntei:
            - É, por que nem um gole de canha? Canha tradicional de alambique e de Minas, meu!
            A sede me mandava. Lambi os lábios. Cheguei até o balcão, abri a portinhola. Tudo no silêncio. Com muito cuidado, etc. Nem queria acordar ninguém e tal. Pronto, peguei a garrafa. Voltei ao quarto.
            Sentei na cama e fiquei muito tempo sem pensar. Mas nem podia pensar em nada mesmo. Quase nada. E dispensei muita coisa sem pé nem cabeça.
            Tinha visto me lembrava do forte de Santana do Estreito na tevê e pensei: como era a sorte de alguém naquele lugar numa época aquela e tal e coisa. Um dia vou lá e conhecer? Em o Estado de Tocantins ave símbolo a cigana e tal e coisa.
            Pensei naqueles sonhos que me assaltavam quase todas as noites. Nem merecia. E eles me assaltavam sem explicação sem consideração. Que era, hein?! Coisas que comia, ou deixava de comer? Pensei, meditei e avaliei. Pensei mal e mal. Quer dizer, passei mal.
            Aquele petróleo que bebia me descia pelos peitos com força de gasolina. Uma avalanche de fogo. Uma cavalaria de fogo. Um trem de fogo. Pura gasolina, meu! Estalei a língua só porque era coisa do diabo. A pinga muito boa, se diga de passagem.
            Sentado na cama, abraçado ao travesseiro e à garrafa da branca, eu via o fim do mundo desbarrancar e fazer poeira. O monstro dinossauro estava de verde. Filho ou pai da floresta? Filha ou mãe das profundas do oceano? Da floresta escura e assustadora. Dos meus pesadelos. Do fundo do mar gelado. Deviam ser de coisas que nem comi, isso sim.
            E o etê se sentou na cadeira perto da janela de veneziana fechada. A criatura que aparecia verde se mexeu, se torceu, se esticou e se encolheu. Ficou parecendo uma coisa esponjosa. Ela ou ele passou a mão pelos cabelos lá dela, também verdes e escorridos. Penteou o cabelo, verde e longo, com os dedos de planta. O deus ou deusa de vinte e oito olhos me olhou, me cheirou, me soprou, como me ofendendo:
            - Está doente.
            - Doente? E de quê?!
            O defunto fumegante me respondeu, já que perguntei:
            - Hesitação.
            A canha estava para terminar no fundo da garrafa. O rio Joanes. Apenas com papagaios-moleiros algazarra em palmeiras-barrigudas catulés-babões palmitos-amargosos... Eu nem tinha mais sede. Nem tinha ódio a ninguém mais. Também nem precisava de ninguém mais. Perdera as estribeiras? Nem sabia. Nem sabia mais nada. Nem tinha mais perguntas nem sabia mais falar. Nem queria saber da palavra bicarbonato, da cravina-do-campo, do mundo empreendedor das tapiúbas. Nem sabia de que lado da garrafa.
            - Doente? E de que, meu?!
            - Mis-tificação.
            A casa enterrada, submersa, enfiada no túnel da noite. A casa fechada, se protegendo da escuridão. Eu preso na casa na escuridão na garrafa como assim no papo da baleia jubarte mais próxima. Nem tinha nome. Nem tinha sol estrela lua rua praça. Uma falta de qualquer espaço, enterrado, afogado.
            - Doente? E de quê?!
            - Abstração.
            E a coisa se mexeu, se levantou, andou pelo quarto, os braços medindo mais que as pernas, queria abrir a janela a gaveta a geladeira. A noite lá fora seria impossível. Dor de cabeça. Sentei, levantei, bebi, deitei no chão que era mais prático e frio.
            Eu perguntei, minha cabeça pendendo pro lado como jabuti:
            - Que coisas?
            O tipo do outro mundo me respondeu, nem se aproximava, ainda bem!, respostou do fundo do espelho:
            - Timidez. Pequenez.
            A noite quase respirava sem os grilos. A noite quase brilhava verdes sem vaga-lumes. Olhei o rótulo da canha: Serra do Navio. Era bonito. Uma moça segurando um feixe de canas-de-açúcar. Vi e revi e revirei. Ela sorria provocadora. Achei bom. E a moça estava linda. E eu achei também que podia estar lá e do lado dela. Nós dois correndo na plantação em mar de verde. Eu precisando mais que ela. Ela com aquele vestido de prenda e segurando o chapéu de cabelos sobrando, e que cabelo destacando as pontas!
            Eu provoquei o esverdeado filho da ronca e fuça:
            - Medo? Medo de quê?!
            - Multidões. Máquinas.
            Nem sei se o fim dos tempos cochilou ou nem. Nem sei se o famigerado evaporou da cadeira ou nem. A moça da imagem do rótulo nem descolava o sorriso. Muito melhor assim. Tinha muito vestido e de prenda.
            - Qual o meu crime?
            - Fuga.
            - E agora?
            - Esquece tudo apaga tudo joga fora o que nem pensa que possui.
            Como era fácil entender aquela gente, uta! Sempre assim, eu nem precisava nem beber. A moça do sorriso continuava passeando no meu canavial de ondas fáceis. Seria que ela dançava bem o congado? Eu apostava e gostava que sim.
            - Já vai? Quer um caldo de cana?
            E a pedra cantou para que eu dormisse. No meio do sono eu quase acordei. Ainda falei, um pouco gira, claro. Falei, acho que gritei:
            - Você é uma meeen-ti-ra!
            E o mundo ficou monocultura da cana-de-açúcar canavial mar verde de ondas e engenho de açúcar.
***
            No dia 20 de março o ano nem me lembro eu estava de pé, acordado, me olhando no espelho chanfrado do banheiro. Parei ali no espelho e me achei. Depois, com calma, me comuniquei:
            - Vou empurrar e de ombros a Enigmática.
            E saí, e fui para a rua. A minha rua Itália e outras ruas no labirinto. Peguei e dobrei pela direita, caí na rua São Pedro do Butiá. Um primor.
            Comadre Sururuca cuidava do jardim da frente da casa puxava uma enxadinha ajoelhada arrancava plantava jasmim-do-mato junto com a madressilva-verdadeira perto da cavitinga e da anhangapiri, se queixando de dores nas costas que isso mata uma pessoa de bem.
            E fui pela aquela rua até uma altura. Aí, olhei as horas no relógio de pulso e cheguei no emprego, entrei na farmácia e faltavam menos que dois minutos.
            Vamos dizer que trabalhei, olhei o jornal do dia, o jornal local, o jornal estadual, o rádio na FM Abaporu, e já no meio da tarde eu estava cansado e mais que cansado enjoado e enojado e nojento. Ano de 85 era um luxo.
            Espião espiei respirei aspirei conspirei suspirei transpirei expirei sentei para comer um lanche feito e entregue da padaria Arabutã espirei espionei. Pensei e me comuniquei:
            - Sim. Vou comprar uns enfeites desses orixás para dar de presente e sorte a quem eu quiser, é.  
            Voltei para casa por outro caminho, eram o quê: dez e dez da noite sem lua e com poucas estrelas. Umas nuvens caminhando. Uns cães latindo nos pátios das casas, janelas acesas, tevês ligadas. Antes de chegar em casa eu já sabia e me perguntei, por que eu sempre me pergunto:
            - Por que nem tive a oportunidade ocasião imponderável de empurrar acepipe e de ombros com a Enigmática?