A menina Lilás, dez primaveras,
atirava pipoca aos macacos, aos macacos e micos e saguis, no zoológico de
Sapucaia do Sul. Estava nessa lida quando, duma jaula ao lado, um jacaré de
asas a chamou, tartamudeou:
- Ei, psiu!... Menina!... Ei, você,
venha cá, plique!...
A guria tão galante foi ver o que
aquele jacaré alado, e que cuspia, plique!... sem parar, queria com ela.
- Pois sim. Qual é o babado?
- Seguinte, plique!... Tô aqui nesse
parque zoológico, preso nessa jaula úmida faz já uma cara e enjoei, plique!...
Será que você poderia me libertar? Plique!...
- Tem certeza? Tem razão? Tem por
quê? Tem compaixão? Tem time pra torcer?
- Claro, plique!... que tenho. Quem
é que gosta de ficar preso? Plique!...
- Bem ou mal... Aqui fora pode
sofrer mais perseguição, levar um tombo, terá que trabalhar rastejar pelo
próprio sustento...
- Você acha, plique!... que é melhor
aqui? Plique!... Então porque nem fica no meu lugar? Plique!...
- Tá, tá bom, entendi!
- Vou pra minha terra, plique!... lá
ficarei bem, plique!... lá sou amigo dos ricos parentes, plique!... lá sou
amigo do cacique, plique!... lá sou amigo do dono do time da cidade, plique!...
lá sou amigo dos amigos do soberano imperador, plique!...
- Se é assim!... Você que manda e eu
obedeço!
A garotinha tirou um grampo do
cabelo e enfiou no cadeado. Virou, revirou, empurrou, bateu, debateu, até que,
plaque!... abriu. O réptil rapidamente pulou fora, feliz e aliviado e
sorridente, e só faltou agarrar e beijar Lilás.
- Plique!... Sensacional! Valeu,
boneca, plique!... Nossa, como é bom este ar puro, livre, plique!... livre,
leve e solto, uau!... plique!...
- Vai pra onde mesmo?
- Plique!... Voltar pra minha terra,
plique!... igapós das Navilhanas, plique!...
- Me leve contigo?
- Se estiver a fim... plique!...
- Tô mesmo, gostaria de conhecer
aquelas bandas.
- Então monte aí na minha carona,
plique!... e se segure, menina. Simbora, plique!...
- Aeiouuuuu!...
Lilás embarcou no lombo carapaça do jacaré
alado. Alçaram voo, subiram aos céus e rumaram para o deserto verde. Era um dia
de sol. O sol se manifestava no seu calor exposto e efervescente. Bem-te-vis
também saíam voando. Outras aves saíam voando, arapapás, piaçocas, iraúnas,
japus, chuãs... Poucas nuvens, poucos aviões comerciais. Um horário calmo e
equilibrado. Lilás vibrava, dizia, dialogava:
- É bom! É bom interminável!...
Sobrevoaram mares, oceanos, ilhas e arquipélagos, cidades,
cadeias de montanhas, serras, chapadas, a sombra arrastando no chão, e o vento
batia na cara na cara. E a menina cantava, falava, gesticulava, gritava,
trilava:
- É bom! É prático!...
Desceram junto a um igapó, em
qualquer ponto do arquipélago, grande enorme colossal arquipélago fluvial de
Anavilhanas. Beberam uma água fresca e
descansaram na sombra dos jurutés mais próximos.
- Aaaah!... Nada como a volta ao
lar, plique!... o cheiro do vento quente, cheiro de água pura, mormaço, plique!...
Tô ouvindo música, aquela dos gorjeios vários dos pássaros aves passarinhos,
você nem? As noites estreladas, plique!... O alarido das jias e sapos após o
jantar, plique!... Saudade, saudade e saudade, plique!... Vejo minha terra, o
meu deserto verde, e me aparecem as lembranças...
- Qual é o rumo a partir de agora?
Vai procurar sua família?
- Plique!... Nem necessariamente.
Acho que vou atrás de emprego, plique!... Talvez no mundo artístico, plique!...
ou então numa dessas aldeias cheia de índios, plique!... que atravessam a
floresta úmida e escaldante levando e trazendo coisas diversas, plique!... nem
sei, plique!...
- Onde você trabalhava, antes de ser
preso?
- Num igarapé riquíssimo, plique!...Eu
era um dos melhores amigos do mandachuva local, plique!... Mas aí houve uma
guerra, uma revolta, uma greve trabalhista, plique!... perdemos, plique!... e o
inimigo, plique!... me vendeu, plique!... Tiraram bom preço por mim, plique!...
um bom negócio, plique!... negócio da Amazônia, plique!...
- Realmente nem existem muitos jacarés-de-óculos
voadores por aí.
- É, plique!... minha família nem é
numerosa, plique!... Somos de uma linhagem nobre, encantada, exótica, exibida, difícil
e em extinção, plique!...
- Me diz uma coisa, para matar a
minha curiosidade: por que você fica cuspindo o tempo todo? Que mania é essa,
meu?!
- Plique!... Foi um hábito que
adquiri depois que inventaram o sorvete de açaí, plique!... Viciei nessa delícia
útil chamada sorvete de açaí, plique!... e com o sabor sempre na boca a espuma
na boca eu faço muita saliva, entendeu, plique!... aí eu cuspo, plique!... entende?!
- Mas precisa ser tão deselegante,
ficar o tempo todo, plique!... plique!... hein?
- Plique!... Já disse que é uma
mania, um tique nervoso, plique!... que posso fazer? Faço isso sem saber,
plique!... Na jaula, plique!... lá no zoológico plique!... muito me ajudou a
passar o tempo, plique!... treinando pontaria nos turistas, plique!...
treinando distância, plique!...
Nesse momento começou uma terrível ventania
temporal de verão. Ventos fortes. O dia ficou tapado de nuvens escuras. Os dois
aventureiros ficaram no escuro. Nem enxergaram um palmo, nem mesmo um palmo, à
frente do nariz. Só se ouvia o vrrrrr!.... poderoso do vento descabelado.
Escureceu e se perdeu todo ponto de referência, tiveram que tapar a boca, os
olhos, se agarrar às raízes e rezar a Tupã. Tudo muito rápido.
Foram para mais de dois ou três dias até tudo acalmar.
Até a poeira baixar. Quer dizer, até a tormenta parar. Até o tempo sossegar. Quando
o vento parou, tudo calmo e o sol voltou forte, Lilás estava só, e no meio do
deserto verde sem fim. Perdera a noção da hora, do rumo, de tudo. Estava no meio
do nada e sem jacaré voador, sem bússola, sem mapa, sem telefone. Aliás, apenas
o sol queimando a cara, somente o sol esquentando o ambiente.
Perdida por perdida e meia, resolveu andar. E andou. Caminhou,
caminhou até o limite de suas forças. Subiu e desceu dezenas de morros e pulou
riachinhos e se espinhou nos espinhos. De dia era quente e alagado que nem dava
para suportar, de noite era frio e úmido que nem dava para suportar. O verde
sem fim, o pântano sem fim, a paisagem sempre a mesma e misturada de plantas.
Água, por todo lado; planta de todos os tamanhos; gente nem com ônibus de
turismo.
Um dia, sob o sol do meio-dia, depois de uma montanha
de árvore espinhentas, e igual a esta e essa e aquela, igual a todas as outras
mil, a menina avistou uma cidade. Com a língua já arrastando nos pés, cortada
de espinhos e gravetos, cambaleou para lá.
A menina disse isso, para si mesma,
delirando:
- Gra... ças a Tupã, o maior...
dos... ca-ci-ques, uma ci... da... de, comi.. da no al-mo-ço, su... co de… ca-ju, de a... ba... ca... xi...
A cidade pareceu, à menina, ser a
surpreendente e fabulosa cidade de Manaus. Caminhou aos trancos e barrancos,
como uma tonta, suou, tropeçou e ao chegar nem chegou, ao pegar pegou apenas um
punhado de terra vermelha. Onde existiam casas e ruas e trânsito de jacarés e
capivaras e tuiuiús e pessoas, casas e bazares, só restou terra e barro e lodo
vermelho. Era tudo miragem. Esgotada, frustrada, faminta de almoço e janta, virou
os lindos olhos do avesso e caiu desmaiada, tchibum!...
De repente acordou, nem sei quantas
horas depois, numa cama de vento, num quarto com paredes e teto de palma, num
acampamento de índios autóctones pescadores.
- Qual!... Onde estou? Será o céu? Mas
no céu há camas de vento e paredes de palha? E este cheiro de vento da floresta,
e este cheiro de água corrente, e este ar de verão escaldante tropical?
Se levantou e foi ao pátio tomar pé
da coisa. Encontrou um índio canoeiro ali no pátio fazendo o jantar, tomando
suco de pequi, bem no estilo.
- Ufa!... que preguiça. Olá! O moço
vai bem?
- Tudo como Tupã deseja e agradeço -
respondeu o índio.
- Que lugar é este? Será periferia
de Manaus? Será Belém do Pará? Será Cacique Doble? Será Araraquara? Será Paraí?
Me chamo Lilás e sou lilás...
- Estamos a cinco dias de Rio Branco,
no meio da selva. Jaraqui Bonari é meu nome. As árvores transpiram muito e
chove todo dia ali por perto da noite no fim da tarde.
A menina olhou em volta, rodeou e
girou, suspirou. Era outro daqueles igapós ou igarapés perdidos no meio das matas.
E ali muitos homens, e algumas mulheres, raros curumins, cuidavam de suas histórias,
das suas mercadorias, das suas canoas de tronco de árvore, do jantar para logo
à noite.
- Dormiu bem? Sabe, encontramos você
apagadinha e de boca nas folhas do chão. Como é que veio parar ali sozinha,
menina cunhantaim?
- Uma tempestade subtropical? A
tempestade de altos ventos fortes me separou do meu amigo jacaré de asas e...
- Por Tupã! Jacaré de asas? Você tem
um amigo voador?
- Acho que tinha, pois o perdi.
- Uma pena.
- Para que lado vocês estavam indo?
- Amanhã, depois da primeira hora,
seguiríamos para Porto Velho. Se assim tivesse sido uma nossa sorte sortuda
sortida.
- Vocês têm negócios por lá, é?
- Sim. Família, negócios, diversões,
afazeres, estudos ainda no começo...
- Nem tem uma caroninha para este
índio velho, em?
O céu, toda a noite, era outro
deserto, nem de árvores, mas de escuridão, com ilhas de estrelas. E uma grande
lagoa de prata, a lua. E uma grande lagoa em forma de meia-lua, em forma de
pedaço de rua crescente.
No outro dia útil e prático. No
outro dia cheio, manhã muito cedo, após as abluções, após a oração, após o café
da manhã, partiram partiram. A caravana ia lenta, conversando, muares
abarrotados de mercadorias, jacarés sem asas, antas com cara de anta. Paravam
nos pequenos quiosques para beber, comer, orar, descansar do sol forte, ou, à
noite, do frio incômodo. Debaixo da sombra das marias-rosas, ou em torno às
fogueiras durante as noites, jogavam dados, cantavam, se protegiam da
chuvarada, contavam histórias e anedotas, riam, olhavam as estrelas,
cochilavam, dormiam, acordavam.
Entraram em Esteio, cidade redonda,
num fim de tarde. A grande, circular e cintilante Esteio. Ruas, praças, pontes,
rio dos Sinos. Bazares e lojas e ruas apinhadas de gente automóveis. As
lâmpadas já acesas. E se ouviam, do alto das torres, os gritos os chamados as
ofertas de preço baixo. De dentro das casas vazavam o cheiro de comida, o choro
de crianças, a reclamação das mães, o som das novelas de tevê, o latido dos
cães, as reclamações, o miado dos gatos. Enjoados da viagem, mas felizes por
chegar, os excursionistas riam e cumprimentavam conhecidos parentes amigos.
Estacionaram finalmente no pátio de um supermercado, diante de uma hospedaria-churrascaria.
Um dia depois do outro e já na
chegada, Lilás foi levada por Jaraqui Bonari à presença do mandachuva do lugar.
A casa desse cacique era enorme, bela, limpa, riquíssima, dourada, decorada com
aqueles arabescos, arborizada, ajardinada, dividida de muitos cômodos e
atendida por inúmeros serviçais. No meio do jardim, do lado de um chafariz
bonito e decorado, uma palmeira uruá muito crescida e enorme e alta. Lilás nem
sabia por quê. Tudo isso ia dar numa praia do mar num campo de futebol num
pomar.
E Lilás nem se conteve e ficou
falando, falando nervosa e braba:
- Por Tupã! Que história é esta?
Você vai me vender à família deste comerciante?
- Bem, você nem conhece ninguém por
aqui, está sozinha, e junto com a gente, essa vida nômade que levamos, essa
vida errante de tropeiros, nem vai dar certo, nem vai lhe fazer bem. Você vai
ver, vai gostar, o ricaço é gente boa, é gente finíssima - tentou explicar o muambeiro
sacoleiro.
- É contra a lei maltratar crianças,
hein? Vê lá o que vai fazer.
- Calma, nem tem que ter receio ou
entrar em pânico. O ricaço é gente ótima, rico, poderoso, mandachuva. Vai dar a
você uma vida de princesa, tudo do bom e do melhor, joias, vestidos, conforto, tapetes,
festas de aniversário e casamento.
- Quantos quilates de ouro estou
valendo nesse mercado negro?
- Bem, você é menina, bonita,
inteligente... uns quinze, uns vinte, talvez.
- Só isso? Tá me vendendo a preço de
banana!
- Vinte e cinco carros novos, de
marca, potentes, 500 cavalos...
- Mesmo assim. E que vou eu fazer na
sala de estar dessa família ricaça? Trabalhar pra eles, e quando crescer virar
mais uma das suas serviçais de salário mínimo?
- Nem sei. Isso é com a família. Eu
só quero meus quilates de ouro. Tivemos despesas com sua alimentação, entende?!
- Que Tupã nem te ouça. Como pode
vender uma pobre e boa menina igual a mim? Olhe, cara, tô de queixo caído,
magoei.
- Menininha é ente que dá muita
despesa, é. Se pelo menos você soubesse cozinhar, lavar pratos, lavar roupas...
- Nem vou dizer mais uma palavra
sequer.
A menina foi trocada por dez contos,
nem mais, nem menos, talvez sim e talvez nem. E a partir de então passou a
viver no palácio da família do grande comerciante, a conviver com outras tantas
mil serviçais empregadas domésticas secretárias babas.
Entre tantas, Lilás conheceu a Aline,
muito bonita, muito esperta, muito narrativa, muito falante. Pouco mais velha
que a menina. Fizeram grande amizade e parceria.
- Você é mais uma das empregadas da
família, hem, Aline?
- É, mas resumidamente ano que vem
isso vai acabar.
- Por quê? Eles enjoaram de sua
pessoa?
- O tempo está passando e a idade
está chegando. E chega para todos.
- E você voltará pra casa? Voltará
para a sua cidade?
- Aí é que tá o caso e o problema. E
eu nem quero mais ser empregadinha doméstica e sem futuro e sem faculdade.
Sabe, aqui temos uma vida boa, temos comida à vontade, o palácio pra morar,
vivemos em calma, vivemos sem sustos, passeamos as tardes pelos jardins, passeamos
as noites estreladas pelos jardins e pomares, mas... porém...
- E nem tem mesmo nenhum jeito de
você permanecer aqui na cidade? - perguntava a menina, insistindo.
- É difícil e estranho, sim senhora!
Bem que gostaria de encontrar uma saída. Quase nem durmo, me alimento mal,
passo o dia na piscina sem vontade de estudar.
A vida no palácio era tranquila,
monótona, quase toda certinha, muito lenta. As empregadas muitas empregadas ficavam
pelos corredores, quartos, piscinas e pátios papeando, jogando baralho,
assistindo tevê ou cuidando dos longos cabelos negros. Nem trabalhavam muito,
levavam umas horas despreocupadas de princesa, levavam os dias na moleza e na
preguiça. Lilás, que era muito criança e energia de sobra, resolveu aprender a
pintar quadros de parede. Mandou comprar os pincéis tintas e pôs mãos à obra.
- Coisa linda! - falou em voz alta a
Lilás.
Os meses passavam depois de muitos
dias. As horas demoravam um dia todo. O ano ainda nem chegara ao fim. Um dia,
pela manhã, dez e vinte daquela manhã, a menina Lilás teve a visita da amiga
Aline. Esta vinha toda agitada e intempestiva e bem arrumada:
- Já me disseram qual a mania da
família - veio dizer, toda precipitada, a bela e sagaz Aline.
- E qual é? Assistir corridas de
cavalos no hipódromo? Presidir concursos de beleza numa ilha paradisíaca? Tomar
água de coco numa praia do Ceará? Contar moedas de ouro? Comprar jatinhos de
luxo e ouro? Contratar craques de futebol pra jogar no time local?
- Que nada. A mania deles todos é
ouvir histórias com final feliz. De preferência lendas dos índios da Amazônia.
E digo mais: Eu sei tantas tantas!...
- Histórias, lendas, mitos? Mas haja
histórias, minha amiga! Quantas lendas eles desejam? São todas as histórias do
mundo aquático? Histórias de bichos falantes? Lendas de rios que se transformam
em bichos rastejantes gigantes?
- Estou começando a lembrar de
algumas muito longas longas e fabulosas. Minha avó era grande contadora,
aprendi com ela, aprendi muitas.
- Que a certeza e a paciência te
iluminem.
- Sim, que eu tenha a inspiração.
A menina Lilás, por seu lado,
continuava a pintar seus quadros e para vender. Levou dias. Teve paciência. Mais
uns dias. Quando pintou o último quadro do último conjunto da última série de
paisagens e panoramas... ora, vejam!... começou a levitar, subir, querer voar. Lilás
vibrou na hora:
- Coisa linda e mágica!!
Voar é coisa fácil para quem tem a alma pura. Alma
pura é alma leve como pluma. E a alma da Lilás era nova. Lilás esticou os
braços, bateu os braços e, assim mesmo, ela mesma, saiu voando pela janela... Olhos
arregalados, rodeou a palmeira uruá, empolgada, quase assustada, olhando o
palácio do alto... Muito bem! A menina veio outra vez e exclamando:
- Coisa linda e aérea!!
Sobrevoou o palácio dos ricaços, olhou os jardins assim
do alto, e eram mais bonitos, contornou as torres as casas os prédios com as
decorações de luxo, a cidade em todo seu labirinto, e foi porta afora pelo
mundo... A Lilás nadando no ar livre:
- Aeiouuuuu!....
Lilás nem tinha controle sobre o
porquê, o rumo, pensava pouco, falava menos ainda, e flutuando, quase nada
batendo asas. O vento a empurrava para onde bem entendia. Sobrevoou outras
cidades, Barreirinha, Cantá, Ferreira Gomes, Machadinho d’Oeste... e outras
montanhas, rios, bosques de bambus, sangas, caponetes, beira-rios, banhados,
faxinais, restingas, açudes... Na altura encontrava pássaros curiosos, japiins,
gaviões, andorinhas, asas-delta, aviões de patrulha, nuvens brancas e leves,
satélites artificiais, nuvens pensativas... E Lilás já nem sabia como, quê, nem
por quê.
- Oh, que altura, meu! Quer me
dizer... pra onde estamos indo? Estou zanzando a torto e a direito... já tô que
tô tonta tontinha...
O voo parecia nem acabar o
combustível. Atravessou nuvens e tempestades e raios e trovões até que....
opa!, se revirou de costas e caiu jogada desde o alto, tipo assim lá do trecentésimo
andar do céu. E de lá do céu ela veio caindo, aaaaah!... esbarrou na copa das
árvores, das plantas, dos arbustos, trepes!... e chepes!... e encontrou o solo,
tumpe!!... Prontamente, e dolorida, e doída, mas sem deixar a coragem de lado,
a Lilás se ergueu, cerrou os punhos e gritou:
- Nem doeu, uma vez! A verdade
verdadeira que nem doeu nada de nada! E nem tive medo de nada nada, ora!
A menina Lilás, cansada e dolorida e
corajosa, nervosa por cima, ainda olhou para o alto das nuvens e:
- Aeiouuuu!...
A menina bateu o pó, sentiu o corpo
para ver se estava tudo como antes, se nada havia quebrado, torcido,
arrependido... e andou. Deu a volta por cima. Caminhou beirando um pequeno rio
sem saber aonde chegaria. Andou, cruzou os braços, olhou a paisagem nova. Nem
sabia onde estava e nem o lugar que queria chegar.
Viu uma figueira-brava e foi até sua sombra. Encontrou
o caapora moço deitado sob essa uma figueira e o acordou:
- Desculpe!... Por um favor muito
simples!... O moço nem poderia me dar uma luz?
O ente caapora então abriu os olhos,
piscou os olhos, se esticou todo ou em parte, bocejou preguiçosamente, piscou
várias vezes os olhos para acostumar a vista, colocou a mão em pala sobre os
olhos para protegê-los do sol, olhos negros, bocejou, ooofe! nhã-nhã-nhã!...
esticou os braços (provocando aqueles estalinhos gostosos nas juntas), abriu
bem a boca, ooofe! e disse, e falou, e compôs:
- Como ousas interromper o sono do chefe
de todas as florestas? Quer que eu mande te prender a pão e água?
- Tô perdida, caí das nuvens e agora
procuro o caminho pra cidade. Quer mais? Poderia me dizer se é por aqui, por
ali, por acolá?
- Tupã reside em todas as coisas,
ouviu?
- Sei mas... e o caminho para a
cidade mais próxima? Me empresta o celular?
- Tupã governa os homens, as
mulheres, as crianças... os bichos em geral, as árvores, os rios, as pedras... Todas
as coisas são um só Tupã e distribuído.
- Tá bom. Será que eu poderia beber
um suco de maracujá, ou de abacaxi, mandar texto de e-mail?
- Essa árvore que nos acolhe com sua
sombra, essa figueira-brava que já viveu cem anos... está percebendo? Pois bem,
também é Tupã.
- É por isso que a árvore é legal, a
sombra é legal, tudo é legal.
- Nem é bonito? - discursava o caapora
moço.
- Olhe como caí das nuvens plácidas!
E fui cair justamente neste fim de verão! O verão do céu também é Tupã.
- Eu, você, todos nós somos Tupã.
Tupã brinca com ele mesmo.
- Já ouvi dizer que Tupã é o perfume
da luz. Nem, peraí... Acho que me disseram que Tupã é luz perfumosa. Ou mais
que isso.
A menina, de repente, queria brincar
de correr ao redor daquela figueira-brava. O caapora ente falava e com razão. A
menina nem correu e nem brincou. O moço ensinava ou queria ensinar:
- Tupã é muito comum mesmo. É
mistura fina.
- Já entendi tudo. Tupã é a jabuticaba
que cai, a jabuticabeira que escalamos, a jabuticaba que esqueceu de virar jabuticaba.
- Veja bem: Tupã é jaó é vidro-do-ar
é apaiari é capeba-do-campo...
A guria ficou ouvindo aquele moço
até que pôde, depois apagou, dormiu ali mesmo, escorada na figueira-brava. O
universo nem precisou da menina Lilás para nada. A menina restou em algum lugar
ali recostada na tal figueira-brava.
Depois, uma ou
duas horas após, alguns ruídos a fizeram voltar. Olhou pro lado e nem viu mais
o ente caapora moço. Nem rasto do dono das matas. Vinham, isso sim, pela pobre
estradinha de terra vermelha, umas carroças puxadas por cavalos quadrúpedes,
carroças e carretas carregadas de tralhas e pessoal de circo ambulante mambembe.
A menina se levantou rápida e foi até eles e correndinho.
- Oi, gente! Poderiam me dar uma
carona até a próxima cidade? Posso trabalhar pra pagar a comida.
Dentre os poucos integrantes do pequeno
circo ambulante, se destacou um homem, vestido todo em cinza, chamado Caiçara:
- Noto que você é lilás. Muito bem! E
poderá ser útil ao circo. Venha, embarque aqui na carroça de toldo. Sou Caiçara,
dono e gerente e mágico da companhia. Estamos viajando pelas várias capitais do
país do mundo e arredores. E apresentamos nossos apreciados e sensacionais
números, atrações sem igual, etc e tal.
- Realmente! Alguns destes tipos eu
nunca vi na história da arte circense - se surpreendeu a menina Lilás.
O senhor Caiçara foi apresentando,
assim mais ou menos, os atrativos estranhos habitantes componentes atores do
seu circo ambulante:
- Temos cobra com asas, temos cavalo
vaivém (xifópago), temos galinha que põe ovos de ouro e prata, temos porquinho
cantor sertanejo de raiz, temos... e temos...
- Como é conviver o tempo todo com
estes seres esquisitos? Deve ser muito curioso e instrutivo e esportivo e
alegre, né? Quando no fim história do outro mundo, hein?!
- Sou um homem de espetáculos, sou um
máscara, sou um mágico, sou um elefante branco, sou um artista, sou um
excêntrico, sou muitos em um e etc. E pra mim tudo é teatro. Sempre digo: os
talentosos fazem rir e chorar; e os comuns mortais fazem aplaudir. Temos ainda
a mulher barbada, temos o homem de olho só, temos o anão com cauda de pavão,
temos a menina com boca na barriga...
- E aquela senhora ali? - indagou a Lilás,
indicando com o dedo.
- É minha mulher e esposa e senhora
e dona. O nome dela se diz Juju. Juju é nome que dá sorte. Ela nem gosta de
falar pras histórias de ficção. Ela é habilidosa na hora de fazer sopas de
legumes, sopas de arroz, sopas de massa, sopas de letrinhas consoantes. Uma
ótima cozinheira e nem deixa ninguém passar fome. Embora praticamente e
ultimamente apenas nos alimentamos com as sopas de legumes.
A próxima parada foi numa vila de
catadores de cogumelos, Vila Quitungo. O circo foi montado na única rua do
lugar, sem as arquibancadas, sem o sobrecéu, sem foguetório, sem anúncios na
imprensa. Ficariam dois dias. Fariam um espetáculo na tarde de domingo.
- Para o espetáculo de domingo eu
bolei uma atração extra, única no mundo. Exclusiva. Inédita. Ao vivo e em cores.
- Mais uma atração sensacional? E
qual é? - perguntou Lilás.
- Quero ser enterrado no picadeiro
durante o transcorrer do show dos nossos atores e atrizes. E só sair de dentro
da terra no final do espetáculo, duas horas depois. E receber os aplausos mais
entusiasmados e vibrantes.
- Você quer ficar enterrado nas duas
horas do espetáculo? E se você sufocar? E se você perecer por falta de ar, seu Caiçara?
- Nem há problema. Sou iogue e
desenvolvi um método de concentração que me permitirá aguentar por horas e
horas e horas sem respirar. Estou acostumado.
E foi feito de acordo com a vontade
do dono do cirquinho. Caiçara se colocou dentro de um buraco aberto no palco
quando do começo do espetáculo, foi encoberto de cinzas e ficou lá até o seu
término. Desenterrado no final, tirou a cartola da cabeça, bateu a poeira dos
ombros, sacou um botão de cravo branco do bolsinho do casaco, e se curvou
respeitosamente diante do público para receber aplausos e vivas e assobios. O
público nem havia entendido quase nada, mas aplaudiu de pé e pediu bis.
No dia seguinte levantaram
acampamento rumo a uma cidadezinha na caatinga. Talvez fosse Teresina, no seu
começo. Antes, porém, tiveram um contratempo. O dono do armazém em vila
Quitungo, que fornecera a alimentação para as pessoas e bichos do circo, queria
receber o seu justo dinheiro. Como dinheiro nem havia, devido à baixa bilheteria,
seu Caiçara teve que deixar em troca o cavalo vaivém, e mais a cobra alada. Os
dois coelhinhos da cartola, branquinhos, morreram de fadiga. A pomba da cartola
voou para a igrejinha da vila e nem retornou mais, e por desistência.
No caminho para a próxima cidade,
talvez fosse o arraial do Desterro, hoje Florianópolis, o seu Caiçara foi tendo
ideias e falando:
- Tive uma ideia para minha
apresentação na aldeia da futura Florianópolis.
- De repente, né?!
- Seguinte. No palco, diante da
distinta e numerosa plateia, comerei cacos de vidro. Muitos cacos de vidro.
Cacos de vidro coloridos.
- Impressionante! E se der
indigestão ou congestão? Nem prefere uma sopa de beterrabas? Uma sopa de jiló?
Uma sopa de chuchu?
Ficaram na cidadezinha do Desterro
cinco dias e seis noites. Talvez fosse mesmo Florianópolis, na infância. Em
cada dia de espetáculo, Caiçara mastigava um prato com cacos de vidro quebrados
na hora.
Tiveram o desconforto de pegar
alguns dias de chuva, ali em Florianópolis, onde o público foi escasso, fraco,
pequenino, mirrado. E como o acaso nem poupa ninguém e muito menos dá fama nem
história, perderam o homem de olho só que fugiu mais a mulher barbada. O casal
fugiu por conta dos salários atrasados e a comida racionada. O casal ainda carregou
o porquinho cantor e a galinha dos ovos de ouro e prata. Nem se soube para qual
destino se mandaram. Com certeza muito além da pedra da Divisa.
Mais uma vez seu Caiçara nem sabia
de onde tirar o sustento do circo. E tinha esperanças e ideias na cartola na
cachola, isso sim:
- Que contratempo. Devem ter sido
raptados, pois jamais me deixariam a ver navios - tentou se convencer o mágico fulano
Caiçara.
- É sem dúvida uma grande perda -
suspirou Lilás.
- Mas tudo bem. Vamos em frente que
chorar o leite derramado nem é comigo. Para a próxima cidade pretendo
apresentar uma nova e surpreendente atração.
- Mais uma das bótimas. Que seja tão
boa quanto ótima.
- Seguinte. Vou tapar meus olhos e,
de uma só vez, jogar vinte facas em volta do alvo.
- E quem será o corajoso alvo das
facas, mestre Caiçara?
- A minha mulher, a minha cara
metade, a dona de casa Juju, é claro. O nome Juju já diz tudo: é sorte.
A cidade mais próxima ficava ao pé
de uma montanha. Era uma cidade que aproveitava escalar a montanha nos fins de
semana, e por prazer. De nome a cidade se chamava: Vitória. Uma bela montanha
toda polida pela chuva e pelo vento, parecia estar ali a uns 50 ou 60 ou 70 ou
200 milhões de anos. A montanha essa era uma rocha, uma pedra, a pedra da
Gávea. E quem nem a conhece, conhecerá?!
Foi nessa área que o circo do seu Caiçara foi aportar
e apostar e pousar. Tiveram a concorrência de um circo local: o fabuloso Santos-de-Roca.
Mas Caiçara confiava no seu braço para arremessar as facas. Dona Juju confiava
na esperança em D que ela mesma tinha. Seu Caiçara pensava, e tinha certeza,
que todo o povo da cidade correria para ver seu número espetaculoso perigoso
inventivo ousado e arriscado.
Tiveram três noites de razoável
público e seguindo. Mas na quarta apresentação, um problema. Caiçara se
distraiu e acertou a perna da mulher com uma das facas, e sua dedicada esposa,
a dona Juju, zelosa do lar, mãe dos seus futuros filhinhos. Socorreram
imediatamente a vítima, mas o hospital cobrou os olhos da cara. Tiveram que
vender ao concorrente local todas as melhores atrações, e que já eram as
últimas: a menina com boca na barriga, o anão com cauda de pavão, a dupla de
morcegos cantores sertanejos universitários, o bugio que imitava o presidente
da república e com faixa presidencial verde-amarela e tudo.
Seu Caiçara nem se dava por vencido.
Nem se deu por achado. Sempre pensava o depois, o que viria, o que restaria a
fazer, olhos no futuro, no por vir. E disse:
- Nem importa. Tive outra ideia
excelente excelente. Iremos pra capital do país, cidade de Curitiba, e lá
desafiarei o mundo. Baterei o recorde da fome: sessenta e dois dias sem comer
uma migalha sequer.
- Mas o senhor já é um faquir, pra
que exagerar? Nem seria hora de arrumar um emprego, hem?! - opinou a menina
Lilás.
- Com esse desafio ficarei poderoso,
ganharei dinheiro e notoriedade internacional. Meu nome irá parar no Livro de Aço
dos Heróis da Pátria Amada, salve! salve!
Foram para a capital Curitiba, a
menina Lilás, seu Caiçara, a dona de casa Juju - que agora puxava levemente por
uma perna. O circo acabara e nem restava mais nenhuma carroça ou cavalo ou
atração, mais nada. Era só isso mesmo. Somente eles três.
E numa praça muito movimentada da capital, praça
Tiradentes, colocaram uma caixa de vidro, e dentro desta uma cama de pregos com
as pontas para cima. O mágico entrou e deitou mesmo, como um faquir, no colchão
de pregos. Tudo tudo seria acompanhado dia e noite por câmaras de vigilância e milhares
de passantes, curiosos, invejosos, debochados, zangados, irônicos...
E o tempo escorregou pela ampulheta e mais outros
relógios. E o tempo escorreu para as horas dos tique-taques. Foram realmente
sessenta e três dias e noites sem comer e beber ou tomar banho. O mundo deu
todas essas voltas. Aconteceram coisas muito bacanas e chatas pelo mundo
justamente nesse tempo que Caiçara ficou entocado na caixa de vidro. A menina
Lilás e dona Juju tiveram de pedir esmolas na praça para sobreviverem.
Enfim, quando Caiçara saiu da caixa de vidro, levantou
do colchão de pregos, depois dos sessenta e três dias com noites, os meios de
comunicação os jornais, rádios e tevês do mundo todo caíram em cima dele como
moscas como cobras ratos gatos urubus cachorros famintos. O mundo inteiro
queria saber tudo e mais um pouco. Queriam saber segredos do sucesso e outros
detalhes. Choveram convites e contratos milionários de publicidade. Vieram os
contratos, as famas, os autógrafos, as fotos e os dinheiros. Caiçara se cercou
de conforto, boa comida e bebida, contratou serviçais, contratou seguranças, alugou
dois amplos apartamentos, alugou helicóptero e seis carros caríssimos - um para
cada dia da semana. No domingo descansaria, nem sairia de carro nem de casa, assistiria
futebol pela tevê. Até o governador do Estado o recebeu no palácio Piratini. Até
o presidente da república o recebeu no palácio da Alvorada, e o vice na granja
do Torto.
Foi o próprio presidente que o
convidou para ser o candidato a governador do Estado de Goiás. Caiçara aceitou
muito lisonjeado o convite e botou toda sua fama e grana no desafio. E perdeu.
Todo mundo perde, mas ninguém sabe perder, ninguém aprende a perder. Caiçara
foi à falência totalmente e os amigos foram embora, sumiram, escapuliram, se
escafederam. Caiçara saiu da política pela outra porta, a dos fundos. Já devia
na praça e teve que sumir da cidade na calada da noite. Estava novamente
perdido, sem dinheiro, apenas ele próprio, a mulher Juju - que puxava levemente
por uma perna a da direita -, e a menina Lilás. A menina tentou consolar o
mágico naufragado desterrado:
- É o acaso, seu Caiçara! A sorte cheia
das estatísticas dos altos e baixos, em curvas ascendentes e descendentes. Um
dia se perde e outro se vai levando. D sabe o que faz e nem adianta discutir
com alta autoridade. Há pessoas que só têm jiló pra comer, e comem. Pra cada
ser que D aponta o dedinho divino e promissor, um milhão e oitocentos mil
carregam o piano.
Seu Caiçara já pensava outra coisa.
Nunca deixou por menos. Era um artista bom e talvez até um artista ótimo.
Pensou alto, e no nosso português comum e quarta ou quinta do mundo
contemporâneo:
- Vou voltar aos espetáculos de rua.
Afinal é o que sei fazer melhor. Sou um artista.
- É mais uma ideia perigosa, difícil
e tentadora?
- Serei JC, no teatro ao ar livre.
Foram para uma cidade abandonada do
interior. Uma cidade que nem tinha nem pracinha. Uma vilinha com nome
diferente: aldeia Brinquedo-de-Mola, Estado de Tocantins. Uma cidade tudo por
fazer e acontecer e progredir.
Ali ergueram uma cruz tosca num terreno baldio. O
artista aceitou a coroa de espinhos, os açoites, os flagelos, os pregos nos pés
e nas mãos. A esposa Juju, a mando do próprio esposo, o pregou na cruz. Ela se
sentiu mal, desconfortável, abandonada, vomitou várias vezes, mas obedeceu
comprometida.
E o povo chegou para se lastimar e pedir e chorar
diante de JC crucificado. Era sem dúvida o próprio filho de D. E tão bem
representou o papel que o padre da aldeia nem gostou. A polícia foi chamada,
veio, chegou, olhou sem entender, retirou o ator da cruz e o trancafiou numa
cela por vinte dias, a pão e água ou sopa de legumes ou quentinha da dona Juju.
Seu Caiçara nem via as horas. As horas eram longas na
cadeia. Seu Caiçara fazia só olhar a paisagem quadrada da janela gradeada. Uma
cadeia despovoada, pequena, quente, fria, pobre. Os guardas e os outros
presidiários acharam aquele JC muito gozado. Riram aquele risinho, ih ih ih!...
debochado. Caiçara somente bebia a água da torneira. O pão deixava para
repartir com os ratos, as lagartixas e os passarinhos que vinham visitá-lo todo
santo dia. E de noite e de dia.
Fulano Caiçara foi solto num dia
claro de verão. Era uma terça-feira, mas parecia domingo. O céu era todo azul,
sem nuvens, sem passarinhos, sem aviões. A esposa dona Juju e a menina Lilás o
aguardavam na rua Presidente Vargas. As duas sobreviveram aquele tempo todo com
caridade, esmola, favor, sopa de cebola, sopa de alface, sopa de repolho, sopa
de couve-flor. Ficaram felizes quando viram o grande ator saindo da
cadeia. Caiçara estava bem, e bem magro,
também sorria e com outra ideia dentro do coco. Uma ideia luminosa no interior
da cabeça giratória.
- Vou entrar na jaula com o leão. Me
trancarei com ele e ali permanecerei por seis dias ou sete.
- E se o animal nem for com sua
cara? - alertou-o Lilás.
- Tenho um incrível controle sobre
os seres inferiores, te contei? Consiste somente em nem demonstrar medo que
eles nem te atacam. Sangue totalmente frio, entende? É preciso mostrar logo de
cara quem é que manda. Muito controle, muito controle e força mental. Usar da
psicologia.
Depois de uma série interminável de
autógrafos, entrevistas e fotos e poses, a todos os veículos de comunicação, o
mágico entrou na jaula com o leão. Era um leão africano de juba arrepiada. Um
leão altivo olho amarelo vindo importado clandestino das savanas africanas Moçambicanas.
Nem deu tempo para nada. Nem deu tempo. Nem houve
tempo. Nem dois minutos depois o rei dos animais já tinha papado o mágico. Dona
Juju, figurante na história, teve um treco e caiu dura, mortinha da silva.
Era uma tarde como outra qualquer. Final
de história. Parecia feriado. Parecia domingo à tarde. Nada queria fazer. De
repente, e só por acaso, começou a cair uma tímida chuvinha que nem interessava.
E a ninguém mais.