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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Enviados do Céu (conto juvenil)



           
            A menina Lilás, dez primaveras, atirava pipoca aos macacos, aos macacos e micos e saguis, no zoológico de Sapucaia do Sul. Estava nessa lida quando, duma jaula ao lado, um jacaré de asas a chamou, tartamudeou:
            - Ei, psiu!... Menina!... Ei, você, venha cá, plique!...
            A guria tão galante foi ver o que aquele jacaré alado, e que cuspia, plique!... sem parar, queria com ela.
            - Pois sim. Qual é o babado?
            - Seguinte, plique!... Tô aqui nesse parque zoológico, preso nessa jaula úmida faz já uma cara e enjoei, plique!... Será que você poderia me libertar? Plique!...
            - Tem certeza? Tem razão? Tem por quê? Tem compaixão? Tem time pra torcer?
            - Claro, plique!... que tenho. Quem é que gosta de ficar preso? Plique!...
            - Bem ou mal... Aqui fora pode sofrer mais perseguição, levar um tombo, terá que trabalhar rastejar pelo próprio sustento...
            - Você acha, plique!... que é melhor aqui? Plique!... Então porque nem fica no meu lugar? Plique!...
            - Tá, tá bom, entendi!
            - Vou pra minha terra, plique!... lá ficarei bem, plique!... lá sou amigo dos ricos parentes, plique!... lá sou amigo do cacique, plique!... lá sou amigo do dono do time da cidade, plique!... lá sou amigo dos amigos do soberano imperador, plique!...
            - Se é assim!... Você que manda e eu obedeço!
            A garotinha tirou um grampo do cabelo e enfiou no cadeado. Virou, revirou, empurrou, bateu, debateu, até que, plaque!... abriu. O réptil rapidamente pulou fora, feliz e aliviado e sorridente, e só faltou agarrar e beijar Lilás.
            - Plique!... Sensacional! Valeu, boneca, plique!... Nossa, como é bom este ar puro, livre, plique!... livre, leve e solto, uau!... plique!...
            - Vai pra onde mesmo?
            - Plique!... Voltar pra minha terra, plique!... igapós das Navilhanas, plique!...
            - Me leve contigo?
            - Se estiver a fim... plique!...
            - Tô mesmo, gostaria de conhecer aquelas bandas.
            - Então monte aí na minha carona, plique!... e se segure, menina. Simbora, plique!...
            - Aeiouuuuu!...
            Lilás embarcou no lombo carapaça do jacaré alado. Alçaram voo, subiram aos céus e rumaram para o deserto verde. Era um dia de sol. O sol se manifestava no seu calor exposto e efervescente. Bem-te-vis também saíam voando. Outras aves saíam voando, arapapás, piaçocas, iraúnas, japus, chuãs... Poucas nuvens, poucos aviões comerciais. Um horário calmo e equilibrado. Lilás vibrava, dizia, dialogava:
            - É bom! É bom interminável!...
Sobrevoaram mares, oceanos, ilhas e arquipélagos, cidades, cadeias de montanhas, serras, chapadas, a sombra arrastando no chão, e o vento batia na cara na cara. E a menina cantava, falava, gesticulava, gritava, trilava:
- É bom! É prático!...
            Desceram junto a um igapó, em qualquer ponto do arquipélago, grande enorme colossal arquipélago fluvial de Anavilhanas.  Beberam uma água fresca e descansaram na sombra dos jurutés mais próximos.
            - Aaaah!... Nada como a volta ao lar, plique!... o cheiro do vento quente, cheiro de água pura, mormaço, plique!... Tô ouvindo música, aquela dos gorjeios vários dos pássaros aves passarinhos, você nem? As noites estreladas, plique!... O alarido das jias e sapos após o jantar, plique!... Saudade, saudade e saudade, plique!... Vejo minha terra, o meu deserto verde, e me aparecem as lembranças...
            - Qual é o rumo a partir de agora? Vai procurar sua família?
            - Plique!... Nem necessariamente. Acho que vou atrás de emprego, plique!... Talvez no mundo artístico, plique!... ou então numa dessas aldeias cheia de índios, plique!... que atravessam a floresta úmida e escaldante levando e trazendo coisas diversas, plique!... nem sei, plique!...
            - Onde você trabalhava, antes de ser preso?
            - Num igarapé riquíssimo, plique!...Eu era um dos melhores amigos do mandachuva local, plique!... Mas aí houve uma guerra, uma revolta, uma greve trabalhista, plique!... perdemos, plique!... e o inimigo, plique!... me vendeu, plique!... Tiraram bom preço por mim, plique!... um bom negócio, plique!... negócio da Amazônia, plique!...
            - Realmente nem existem muitos jacarés-de-óculos voadores por aí.
            - É, plique!... minha família nem é numerosa, plique!... Somos de uma linhagem nobre, encantada, exótica, exibida, difícil e em extinção, plique!...
            - Me diz uma coisa, para matar a minha curiosidade: por que você fica cuspindo o tempo todo? Que mania é essa, meu?!
            - Plique!... Foi um hábito que adquiri depois que inventaram o sorvete de açaí, plique!... Viciei nessa delícia útil chamada sorvete de açaí, plique!... e com o sabor sempre na boca a espuma na boca eu faço muita saliva, entendeu, plique!...  aí eu cuspo, plique!... entende?!
            - Mas precisa ser tão deselegante, ficar o tempo todo, plique!... plique!... hein?
            - Plique!... Já disse que é uma mania, um tique nervoso, plique!... que posso fazer? Faço isso sem saber, plique!... Na jaula, plique!... lá no zoológico plique!... muito me ajudou a passar o tempo, plique!... treinando pontaria nos turistas, plique!... treinando distância, plique!...
            Nesse momento começou uma terrível ventania temporal de verão. Ventos fortes. O dia ficou tapado de nuvens escuras. Os dois aventureiros ficaram no escuro. Nem enxergaram um palmo, nem mesmo um palmo, à frente do nariz. Só se ouvia o vrrrrr!.... poderoso do vento descabelado. Escureceu e se perdeu todo ponto de referência, tiveram que tapar a boca, os olhos, se agarrar às raízes e rezar a Tupã. Tudo muito rápido.
Foram para mais de dois ou três dias até tudo acalmar. Até a poeira baixar. Quer dizer, até a tormenta parar. Até o tempo sossegar. Quando o vento parou, tudo calmo e o sol voltou forte, Lilás estava só, e no meio do deserto verde sem fim. Perdera a noção da hora, do rumo, de tudo. Estava no meio do nada e sem jacaré voador, sem bússola, sem mapa, sem telefone. Aliás, apenas o sol queimando a cara, somente o sol esquentando o ambiente.
Perdida por perdida e meia, resolveu andar. E andou. Caminhou, caminhou até o limite de suas forças. Subiu e desceu dezenas de morros e pulou riachinhos e se espinhou nos espinhos. De dia era quente e alagado que nem dava para suportar, de noite era frio e úmido que nem dava para suportar. O verde sem fim, o pântano sem fim, a paisagem sempre a mesma e misturada de plantas. Água, por todo lado; planta de todos os tamanhos; gente nem com ônibus de turismo.
Um dia, sob o sol do meio-dia, depois de uma montanha de árvore espinhentas, e igual a esta e essa e aquela, igual a todas as outras mil, a menina avistou uma cidade. Com a língua já arrastando nos pés, cortada de espinhos e gravetos, cambaleou para lá.
            A menina disse isso, para si mesma, delirando:
            - Gra... ças a Tupã, o maior... dos... ca-ci-ques, uma ci... da... de, comi.. da no al-mo-ço, su... co de… ca-ju, de a... ba... ca... xi...
            A cidade pareceu, à menina, ser a surpreendente e fabulosa cidade de Manaus. Caminhou aos trancos e barrancos, como uma tonta, suou, tropeçou e ao chegar nem chegou, ao pegar pegou apenas um punhado de terra vermelha. Onde existiam casas e ruas e trânsito de jacarés e capivaras e tuiuiús e pessoas, casas e bazares, só restou terra e barro e lodo vermelho. Era tudo miragem. Esgotada, frustrada, faminta de almoço e janta, virou os lindos olhos do avesso e caiu desmaiada, tchibum!...
            De repente acordou, nem sei quantas horas depois, numa cama de vento, num quarto com paredes e teto de palma, num acampamento de índios autóctones pescadores.
            - Qual!... Onde estou? Será o céu? Mas no céu há camas de vento e paredes de palha? E este cheiro de vento da floresta, e este cheiro de água corrente, e este ar de verão escaldante tropical?
            Se levantou e foi ao pátio tomar pé da coisa. Encontrou um índio canoeiro ali no pátio fazendo o jantar, tomando suco de pequi, bem no estilo.
            - Ufa!... que preguiça. Olá! O moço vai bem?
            - Tudo como Tupã deseja e agradeço - respondeu o índio.
            - Que lugar é este? Será periferia de Manaus? Será Belém do Pará? Será Cacique Doble? Será Araraquara? Será Paraí? Me chamo Lilás e sou lilás...
            - Estamos a cinco dias de Rio Branco, no meio da selva. Jaraqui Bonari é meu nome. As árvores transpiram muito e chove todo dia ali por perto da noite no fim da tarde.
            A menina olhou em volta, rodeou e girou, suspirou. Era outro daqueles igapós ou igarapés perdidos no meio das matas. E ali muitos homens, e algumas mulheres, raros curumins, cuidavam de suas histórias, das suas mercadorias, das suas canoas de tronco de árvore, do jantar para logo à noite.
            - Dormiu bem? Sabe, encontramos você apagadinha e de boca nas folhas do chão. Como é que veio parar ali sozinha, menina cunhantaim?
            - Uma tempestade subtropical? A tempestade de altos ventos fortes me separou do meu amigo jacaré de asas e...
            - Por Tupã! Jacaré de asas? Você tem um amigo voador?
            - Acho que tinha, pois o perdi.
            - Uma pena.
            - Para que lado vocês estavam indo?
            - Amanhã, depois da primeira hora, seguiríamos para Porto Velho. Se assim tivesse sido uma nossa sorte sortuda sortida.
            - Vocês têm negócios por lá, é?
            - Sim. Família, negócios, diversões, afazeres, estudos ainda no começo...
            - Nem tem uma caroninha para este índio velho, em?
            O céu, toda a noite, era outro deserto, nem de árvores, mas de escuridão, com ilhas de estrelas. E uma grande lagoa de prata, a lua. E uma grande lagoa em forma de meia-lua, em forma de pedaço de rua crescente.
            No outro dia útil e prático. No outro dia cheio, manhã muito cedo, após as abluções, após a oração, após o café da manhã, partiram partiram. A caravana ia lenta, conversando, muares abarrotados de mercadorias, jacarés sem asas, antas com cara de anta. Paravam nos pequenos quiosques para beber, comer, orar, descansar do sol forte, ou, à noite, do frio incômodo. Debaixo da sombra das marias-rosas, ou em torno às fogueiras durante as noites, jogavam dados, cantavam, se protegiam da chuvarada, contavam histórias e anedotas, riam, olhavam as estrelas, cochilavam, dormiam, acordavam.
            Entraram em Esteio, cidade redonda, num fim de tarde. A grande, circular e cintilante Esteio. Ruas, praças, pontes, rio dos Sinos. Bazares e lojas e ruas apinhadas de gente automóveis. As lâmpadas já acesas. E se ouviam, do alto das torres, os gritos os chamados as ofertas de preço baixo. De dentro das casas vazavam o cheiro de comida, o choro de crianças, a reclamação das mães, o som das novelas de tevê, o latido dos cães, as reclamações, o miado dos gatos. Enjoados da viagem, mas felizes por chegar, os excursionistas riam e cumprimentavam conhecidos parentes amigos. Estacionaram finalmente no pátio de um supermercado, diante de uma hospedaria-churrascaria.
            Um dia depois do outro e já na chegada, Lilás foi levada por Jaraqui Bonari à presença do mandachuva do lugar. A casa desse cacique era enorme, bela, limpa, riquíssima, dourada, decorada com aqueles arabescos, arborizada, ajardinada, dividida de muitos cômodos e atendida por inúmeros serviçais. No meio do jardim, do lado de um chafariz bonito e decorado, uma palmeira uruá muito crescida e enorme e alta. Lilás nem sabia por quê. Tudo isso ia dar numa praia do mar num campo de futebol num pomar.
            E Lilás nem se conteve e ficou falando, falando nervosa e braba:
            - Por Tupã! Que história é esta? Você vai me vender à família deste comerciante?
            - Bem, você nem conhece ninguém por aqui, está sozinha, e junto com a gente, essa vida nômade que levamos, essa vida errante de tropeiros, nem vai dar certo, nem vai lhe fazer bem. Você vai ver, vai gostar, o ricaço é gente boa, é gente finíssima - tentou explicar o muambeiro sacoleiro.
            - É contra a lei maltratar crianças, hein? Vê lá o que vai fazer.
            - Calma, nem tem que ter receio ou entrar em pânico. O ricaço é gente ótima, rico, poderoso, mandachuva. Vai dar a você uma vida de princesa, tudo do bom e do melhor, joias, vestidos, conforto, tapetes, festas de aniversário e casamento.
            - Quantos quilates de ouro estou valendo nesse mercado negro?
            - Bem, você é menina, bonita, inteligente... uns quinze, uns vinte, talvez.
            - Só isso? Tá me vendendo a preço de banana!
            - Vinte e cinco carros novos, de marca, potentes, 500 cavalos...
            - Mesmo assim. E que vou eu fazer na sala de estar dessa família ricaça? Trabalhar pra eles, e quando crescer virar mais uma das suas serviçais de salário mínimo?
            - Nem sei. Isso é com a família. Eu só quero meus quilates de ouro. Tivemos despesas com sua alimentação, entende?!
            - Que Tupã nem te ouça. Como pode vender uma pobre e boa menina igual a mim? Olhe, cara, tô de queixo caído, magoei.
            - Menininha é ente que dá muita despesa, é. Se pelo menos você soubesse cozinhar, lavar pratos, lavar roupas...
            - Nem vou dizer mais uma palavra sequer.
            A menina foi trocada por dez contos, nem mais, nem menos, talvez sim e talvez nem. E a partir de então passou a viver no palácio da família do grande comerciante, a conviver com outras tantas mil serviçais empregadas domésticas secretárias babas.
            Entre tantas, Lilás conheceu a Aline, muito bonita, muito esperta, muito narrativa, muito falante. Pouco mais velha que a menina. Fizeram grande amizade e parceria.
            - Você é mais uma das empregadas da família, hem, Aline?
            - É, mas resumidamente ano que vem isso vai acabar.
            - Por quê? Eles enjoaram de sua pessoa?
            - O tempo está passando e a idade está chegando. E chega para todos.
            - E você voltará pra casa? Voltará para a sua cidade?
            - Aí é que tá o caso e o problema. E eu nem quero mais ser empregadinha doméstica e sem futuro e sem faculdade. Sabe, aqui temos uma vida boa, temos comida à vontade, o palácio pra morar, vivemos em calma, vivemos sem sustos, passeamos as tardes pelos jardins, passeamos as noites estreladas pelos jardins e pomares, mas... porém...
            - E nem tem mesmo nenhum jeito de você permanecer aqui na cidade? - perguntava a menina, insistindo.
            - É difícil e estranho, sim senhora! Bem que gostaria de encontrar uma saída. Quase nem durmo, me alimento mal, passo o dia na piscina sem vontade de estudar.
            A vida no palácio era tranquila, monótona, quase toda certinha, muito lenta. As empregadas muitas empregadas ficavam pelos corredores, quartos, piscinas e pátios papeando, jogando baralho, assistindo tevê ou cuidando dos longos cabelos negros. Nem trabalhavam muito, levavam umas horas despreocupadas de princesa, levavam os dias na moleza e na preguiça. Lilás, que era muito criança e energia de sobra, resolveu aprender a pintar quadros de parede. Mandou comprar os pincéis tintas e pôs mãos à obra.
            - Coisa linda! - falou em voz alta a Lilás.
            Os meses passavam depois de muitos dias. As horas demoravam um dia todo. O ano ainda nem chegara ao fim. Um dia, pela manhã, dez e vinte daquela manhã, a menina Lilás teve a visita da amiga Aline. Esta vinha toda agitada e intempestiva e bem arrumada:
            - Já me disseram qual a mania da família - veio dizer, toda precipitada, a bela e sagaz Aline.
            - E qual é? Assistir corridas de cavalos no hipódromo? Presidir concursos de beleza numa ilha paradisíaca? Tomar água de coco numa praia do Ceará? Contar moedas de ouro? Comprar jatinhos de luxo e ouro? Contratar craques de futebol pra jogar no time local?
            - Que nada. A mania deles todos é ouvir histórias com final feliz. De preferência lendas dos índios da Amazônia. E digo mais: Eu sei tantas tantas!...
            - Histórias, lendas, mitos? Mas haja histórias, minha amiga! Quantas lendas eles desejam? São todas as histórias do mundo aquático? Histórias de bichos falantes? Lendas de rios que se transformam em bichos rastejantes gigantes?
            - Estou começando a lembrar de algumas muito longas longas e fabulosas. Minha avó era grande contadora, aprendi com ela, aprendi muitas.
            - Que a certeza e a paciência te iluminem.
            - Sim, que eu tenha a inspiração.
            A menina Lilás, por seu lado, continuava a pintar seus quadros e para vender. Levou dias. Teve paciência. Mais uns dias. Quando pintou o último quadro do último conjunto da última série de paisagens e panoramas... ora, vejam!... começou a levitar, subir, querer voar. Lilás vibrou na hora:
            - Coisa linda e mágica!!
Voar é coisa fácil para quem tem a alma pura. Alma pura é alma leve como pluma. E a alma da Lilás era nova. Lilás esticou os braços, bateu os braços e, assim mesmo, ela mesma, saiu voando pela janela... Olhos arregalados, rodeou a palmeira uruá, empolgada, quase assustada, olhando o palácio do alto... Muito bem! A menina veio outra vez e exclamando:
- Coisa linda e aérea!!
Sobrevoou o palácio dos ricaços, olhou os jardins assim do alto, e eram mais bonitos, contornou as torres as casas os prédios com as decorações de luxo, a cidade em todo seu labirinto, e foi porta afora pelo mundo... A Lilás nadando no ar livre:
- Aeiouuuuu!....
            Lilás nem tinha controle sobre o porquê, o rumo, pensava pouco, falava menos ainda, e flutuando, quase nada batendo asas. O vento a empurrava para onde bem entendia. Sobrevoou outras cidades, Barreirinha, Cantá, Ferreira Gomes, Machadinho d’Oeste... e outras montanhas, rios, bosques de bambus, sangas, caponetes, beira-rios, banhados, faxinais, restingas, açudes... Na altura encontrava pássaros curiosos, japiins, gaviões, andorinhas, asas-delta, aviões de patrulha, nuvens brancas e leves, satélites artificiais, nuvens pensativas... E Lilás já nem sabia como, quê, nem por quê.
            - Oh, que altura, meu! Quer me dizer... pra onde estamos indo? Estou zanzando a torto e a direito... já tô que tô tonta tontinha...
            O voo parecia nem acabar o combustível. Atravessou nuvens e tempestades e raios e trovões até que.... opa!, se revirou de costas e caiu jogada desde o alto, tipo assim lá do trecentésimo andar do céu. E de lá do céu ela veio caindo, aaaaah!... esbarrou na copa das árvores, das plantas, dos arbustos, trepes!... e chepes!... e encontrou o solo, tumpe!!... Prontamente, e dolorida, e doída, mas sem deixar a coragem de lado, a Lilás se ergueu, cerrou os punhos e gritou:
            - Nem doeu, uma vez! A verdade verdadeira que nem doeu nada de nada! E nem  tive medo de nada nada, ora!
            A menina Lilás, cansada e dolorida e corajosa, nervosa por cima, ainda olhou para o alto das nuvens e:
            - Aeiouuuu!...
            A menina bateu o pó, sentiu o corpo para ver se estava tudo como antes, se nada havia quebrado, torcido, arrependido... e andou. Deu a volta por cima. Caminhou beirando um pequeno rio sem saber aonde chegaria. Andou, cruzou os braços, olhou a paisagem nova. Nem sabia onde estava e nem o lugar que queria chegar.
Viu uma figueira-brava e foi até sua sombra. Encontrou o caapora moço deitado sob essa uma figueira e o acordou:
            - Desculpe!... Por um favor muito simples!... O moço nem poderia me dar uma luz?
            O ente caapora então abriu os olhos, piscou os olhos, se esticou todo ou em parte, bocejou preguiçosamente, piscou várias vezes os olhos para acostumar a vista, colocou a mão em pala sobre os olhos para protegê-los do sol, olhos negros, bocejou, ooofe! nhã-nhã-nhã!... esticou os braços (provocando aqueles estalinhos gostosos nas juntas), abriu bem a boca, ooofe! e disse, e falou, e compôs:
            - Como ousas interromper o sono do chefe de todas as florestas? Quer que eu mande te prender a pão e água?
            - Tô perdida, caí das nuvens e agora procuro o caminho pra cidade. Quer mais? Poderia me dizer se é por aqui, por ali, por acolá?
            - Tupã reside em todas as coisas, ouviu?
            - Sei mas... e o caminho para a cidade mais próxima? Me empresta o celular?
            - Tupã governa os homens, as mulheres, as crianças... os bichos em geral, as árvores, os rios, as pedras... Todas as coisas são um só Tupã e distribuído.
            - Tá bom. Será que eu poderia beber um suco de maracujá, ou de abacaxi, mandar texto de e-mail?
            - Essa árvore que nos acolhe com sua sombra, essa figueira-brava que já viveu cem anos... está percebendo? Pois bem, também é Tupã.
            - É por isso que a árvore é legal, a sombra é legal, tudo é legal.
            - Nem é bonito? - discursava o caapora moço.
            - Olhe como caí das nuvens plácidas! E fui cair justamente neste fim de verão! O verão do céu também é Tupã.
            - Eu, você, todos nós somos Tupã. Tupã brinca com ele mesmo.
            - Já ouvi dizer que Tupã é o perfume da luz. Nem, peraí... Acho que me disseram que Tupã é luz perfumosa. Ou mais que isso.
            A menina, de repente, queria brincar de correr ao redor daquela figueira-brava. O caapora ente falava e com razão. A menina nem correu e nem brincou. O moço ensinava ou queria ensinar:
            - Tupã é muito comum mesmo. É mistura fina.
            - Já entendi tudo. Tupã é a jabuticaba que cai, a jabuticabeira que escalamos, a jabuticaba que esqueceu de virar jabuticaba.
            - Veja bem: Tupã é jaó é vidro-do-ar é apaiari é capeba-do-campo...
            A guria ficou ouvindo aquele moço até que pôde, depois apagou, dormiu ali mesmo, escorada na figueira-brava. O universo nem precisou da menina Lilás para nada. A menina restou em algum lugar ali recostada na tal figueira-brava.
 Depois, uma ou duas horas após, alguns ruídos a fizeram voltar. Olhou pro lado e nem viu mais o ente caapora moço. Nem rasto do dono das matas. Vinham, isso sim, pela pobre estradinha de terra vermelha, umas carroças puxadas por cavalos quadrúpedes, carroças e carretas carregadas de tralhas e pessoal de circo ambulante mambembe. A menina se levantou rápida e foi até eles e correndinho.
            - Oi, gente! Poderiam me dar uma carona até a próxima cidade? Posso trabalhar pra pagar a comida.
            Dentre os poucos integrantes do pequeno circo ambulante, se destacou um homem, vestido todo em cinza, chamado Caiçara:
            - Noto que você é lilás. Muito bem! E poderá ser útil ao circo. Venha, embarque aqui na carroça de toldo. Sou Caiçara, dono e gerente e mágico da companhia. Estamos viajando pelas várias capitais do país do mundo e arredores. E apresentamos nossos apreciados e sensacionais números, atrações sem igual, etc e tal.
            - Realmente! Alguns destes tipos eu nunca vi na história da arte circense - se surpreendeu a menina Lilás.
            O senhor Caiçara foi apresentando, assim mais ou menos, os atrativos estranhos habitantes componentes atores do seu circo ambulante:
            - Temos cobra com asas, temos cavalo vaivém (xifópago), temos galinha que põe ovos de ouro e prata, temos porquinho cantor sertanejo de raiz, temos... e temos...
            - Como é conviver o tempo todo com estes seres esquisitos? Deve ser muito curioso e instrutivo e esportivo e alegre, né? Quando no fim história do outro mundo, hein?!
            - Sou um homem de espetáculos, sou um máscara, sou um mágico, sou um elefante branco, sou um artista, sou um excêntrico, sou muitos em um e etc. E pra mim tudo é teatro. Sempre digo: os talentosos fazem rir e chorar; e os comuns mortais fazem aplaudir. Temos ainda a mulher barbada, temos o homem de olho só, temos o anão com cauda de pavão, temos a menina com boca na barriga...
            - E aquela senhora ali? - indagou a Lilás, indicando com o dedo.
            - É minha mulher e esposa e senhora e dona. O nome dela se diz Juju. Juju é nome que dá sorte. Ela nem gosta de falar pras histórias de ficção. Ela é habilidosa na hora de fazer sopas de legumes, sopas de arroz, sopas de massa, sopas de letrinhas consoantes. Uma ótima cozinheira e nem deixa ninguém passar fome. Embora praticamente e ultimamente apenas nos alimentamos com as sopas de legumes.
            A próxima parada foi numa vila de catadores de cogumelos, Vila Quitungo. O circo foi montado na única rua do lugar, sem as arquibancadas, sem o sobrecéu, sem foguetório, sem anúncios na imprensa. Ficariam dois dias. Fariam um espetáculo na tarde de domingo.
            - Para o espetáculo de domingo eu bolei uma atração extra, única no mundo. Exclusiva. Inédita. Ao vivo e em cores.
            - Mais uma atração sensacional? E qual é? - perguntou Lilás.
            - Quero ser enterrado no picadeiro durante o transcorrer do show dos nossos atores e atrizes. E só sair de dentro da terra no final do espetáculo, duas horas depois. E receber os aplausos mais entusiasmados e vibrantes.
            - Você quer ficar enterrado nas duas horas do espetáculo? E se você sufocar? E se você perecer por falta de ar, seu Caiçara?
            - Nem há problema. Sou iogue e desenvolvi um método de concentração que me permitirá aguentar por horas e horas e horas sem respirar. Estou acostumado.
            E foi feito de acordo com a vontade do dono do cirquinho. Caiçara se colocou dentro de um buraco aberto no palco quando do começo do espetáculo, foi encoberto de cinzas e ficou lá até o seu término. Desenterrado no final, tirou a cartola da cabeça, bateu a poeira dos ombros, sacou um botão de cravo branco do bolsinho do casaco, e se curvou respeitosamente diante do público para receber aplausos e vivas e assobios. O público nem havia entendido quase nada, mas aplaudiu de pé e pediu bis.
            No dia seguinte levantaram acampamento rumo a uma cidadezinha na caatinga. Talvez fosse Teresina, no seu começo. Antes, porém, tiveram um contratempo. O dono do armazém em vila Quitungo, que fornecera a alimentação para as pessoas e bichos do circo, queria receber o seu justo dinheiro. Como dinheiro nem havia, devido à baixa bilheteria, seu Caiçara teve que deixar em troca o cavalo vaivém, e mais a cobra alada. Os dois coelhinhos da cartola, branquinhos, morreram de fadiga. A pomba da cartola voou para a igrejinha da vila e nem retornou mais, e por desistência.
            No caminho para a próxima cidade, talvez fosse o arraial do Desterro, hoje Florianópolis, o seu Caiçara foi tendo ideias e falando:
            - Tive uma ideia para minha apresentação na aldeia da futura Florianópolis.
            - De repente, né?!
            - Seguinte. No palco, diante da distinta e numerosa plateia, comerei cacos de vidro. Muitos cacos de vidro. Cacos de vidro coloridos.
            - Impressionante! E se der indigestão ou congestão? Nem prefere uma sopa de beterrabas? Uma sopa de jiló? Uma sopa de chuchu?
            Ficaram na cidadezinha do Desterro cinco dias e seis noites. Talvez fosse mesmo Florianópolis, na infância. Em cada dia de espetáculo, Caiçara mastigava um prato com cacos de vidro quebrados na hora.
            Tiveram o desconforto de pegar alguns dias de chuva, ali em Florianópolis, onde o público foi escasso, fraco, pequenino, mirrado. E como o acaso nem poupa ninguém e muito menos dá fama nem história, perderam o homem de olho só que fugiu mais a mulher barbada. O casal fugiu por conta dos salários atrasados e a comida racionada. O casal ainda carregou o porquinho cantor e a galinha dos ovos de ouro e prata. Nem se soube para qual destino se mandaram. Com certeza muito além da pedra da Divisa.
            Mais uma vez seu Caiçara nem sabia de onde tirar o sustento do circo. E tinha esperanças e ideias na cartola na cachola, isso sim:
            - Que contratempo. Devem ter sido raptados, pois jamais me deixariam a ver navios - tentou se convencer o mágico fulano Caiçara.
            - É sem dúvida uma grande perda - suspirou Lilás.
            - Mas tudo bem. Vamos em frente que chorar o leite derramado nem é comigo. Para a próxima cidade pretendo apresentar uma nova e surpreendente atração.
            - Mais uma das bótimas. Que seja tão boa quanto ótima.
            - Seguinte. Vou tapar meus olhos e, de uma só vez, jogar vinte facas em volta do alvo.
            - E quem será o corajoso alvo das facas, mestre Caiçara?
            - A minha mulher, a minha cara metade, a dona de casa Juju, é claro. O nome Juju já diz tudo: é sorte.
            A cidade mais próxima ficava ao pé de uma montanha. Era uma cidade que aproveitava escalar a montanha nos fins de semana, e por prazer. De nome a cidade se chamava: Vitória. Uma bela montanha toda polida pela chuva e pelo vento, parecia estar ali a uns 50 ou 60 ou 70 ou 200 milhões de anos. A montanha essa era uma rocha, uma pedra, a pedra da Gávea. E quem nem a conhece, conhecerá?!
Foi nessa área que o circo do seu Caiçara foi aportar e apostar e pousar. Tiveram a concorrência de um circo local: o fabuloso Santos-de-Roca. Mas Caiçara confiava no seu braço para arremessar as facas. Dona Juju confiava na esperança em D que ela mesma tinha. Seu Caiçara pensava, e tinha certeza, que todo o povo da cidade correria para ver seu número espetaculoso perigoso inventivo ousado e arriscado.
            Tiveram três noites de razoável público e seguindo. Mas na quarta apresentação, um problema. Caiçara se distraiu e acertou a perna da mulher com uma das facas, e sua dedicada esposa, a dona Juju, zelosa do lar, mãe dos seus futuros filhinhos. Socorreram imediatamente a vítima, mas o hospital cobrou os olhos da cara. Tiveram que vender ao concorrente local todas as melhores atrações, e que já eram as últimas: a menina com boca na barriga, o anão com cauda de pavão, a dupla de morcegos cantores sertanejos universitários, o bugio que imitava o presidente da república e com faixa presidencial verde-amarela e tudo.
            Seu Caiçara nem se dava por vencido. Nem se deu por achado. Sempre pensava o depois, o que viria, o que restaria a fazer, olhos no futuro, no por vir. E disse:
            - Nem importa. Tive outra ideia excelente excelente. Iremos pra capital do país, cidade de Curitiba, e lá desafiarei o mundo. Baterei o recorde da fome: sessenta e dois dias sem comer uma migalha sequer.
            - Mas o senhor já é um faquir, pra que exagerar? Nem seria hora de arrumar um emprego, hem?! - opinou a menina Lilás.
            - Com esse desafio ficarei poderoso, ganharei dinheiro e notoriedade internacional. Meu nome irá parar no Livro de Aço dos Heróis da Pátria Amada, salve! salve!
            Foram para a capital Curitiba, a menina Lilás, seu Caiçara, a dona de casa Juju - que agora puxava levemente por uma perna. O circo acabara e nem restava mais nenhuma carroça ou cavalo ou atração, mais nada. Era só isso mesmo. Somente eles três.
E numa praça muito movimentada da capital, praça Tiradentes, colocaram uma caixa de vidro, e dentro desta uma cama de pregos com as pontas para cima. O mágico entrou e deitou mesmo, como um faquir, no colchão de pregos. Tudo tudo seria acompanhado dia e noite por câmaras de vigilância e milhares de passantes, curiosos, invejosos, debochados, zangados, irônicos...
E o tempo escorregou pela ampulheta e mais outros relógios. E o tempo escorreu para as horas dos tique-taques. Foram realmente sessenta e três dias e noites sem comer e beber ou tomar banho. O mundo deu todas essas voltas. Aconteceram coisas muito bacanas e chatas pelo mundo justamente nesse tempo que Caiçara ficou entocado na caixa de vidro. A menina Lilás e dona Juju tiveram de pedir esmolas na praça para sobreviverem.
Enfim, quando Caiçara saiu da caixa de vidro, levantou do colchão de pregos, depois dos sessenta e três dias com noites, os meios de comunicação os jornais, rádios e tevês do mundo todo caíram em cima dele como moscas como cobras ratos gatos urubus cachorros famintos. O mundo inteiro queria saber tudo e mais um pouco. Queriam saber segredos do sucesso e outros detalhes. Choveram convites e contratos milionários de publicidade. Vieram os contratos, as famas, os autógrafos, as fotos e os dinheiros. Caiçara se cercou de conforto, boa comida e bebida, contratou serviçais, contratou seguranças, alugou dois amplos apartamentos, alugou helicóptero e seis carros caríssimos - um para cada dia da semana. No domingo descansaria, nem sairia de carro nem de casa, assistiria futebol pela tevê. Até o governador do Estado o recebeu no palácio Piratini. Até o presidente da república o recebeu no palácio da Alvorada, e o vice na granja do Torto.
            Foi o próprio presidente que o convidou para ser o candidato a governador do Estado de Goiás. Caiçara aceitou muito lisonjeado o convite e botou toda sua fama e grana no desafio. E perdeu. Todo mundo perde, mas ninguém sabe perder, ninguém aprende a perder. Caiçara foi à falência totalmente e os amigos foram embora, sumiram, escapuliram, se escafederam. Caiçara saiu da política pela outra porta, a dos fundos. Já devia na praça e teve que sumir da cidade na calada da noite. Estava novamente perdido, sem dinheiro, apenas ele próprio, a mulher Juju - que puxava levemente por uma perna a da direita -, e a menina Lilás. A menina tentou consolar o mágico naufragado desterrado:
            - É o acaso, seu Caiçara! A sorte cheia das estatísticas dos altos e baixos, em curvas ascendentes e descendentes. Um dia se perde e outro se vai levando. D sabe o que faz e nem adianta discutir com alta autoridade. Há pessoas que só têm jiló pra comer, e comem. Pra cada ser que D aponta o dedinho divino e promissor, um milhão e oitocentos mil carregam o piano.
            Seu Caiçara já pensava outra coisa. Nunca deixou por menos. Era um artista bom e talvez até um artista ótimo. Pensou alto, e no nosso português comum e quarta ou quinta do mundo contemporâneo:
            - Vou voltar aos espetáculos de rua. Afinal é o que sei fazer melhor. Sou um artista.
            - É mais uma ideia perigosa, difícil e tentadora?
            - Serei JC, no teatro ao ar livre.
            Foram para uma cidade abandonada do interior. Uma cidade que nem tinha nem pracinha. Uma vilinha com nome diferente: aldeia Brinquedo-de-Mola, Estado de Tocantins. Uma cidade tudo por fazer e acontecer e progredir.
Ali ergueram uma cruz tosca num terreno baldio. O artista aceitou a coroa de espinhos, os açoites, os flagelos, os pregos nos pés e nas mãos. A esposa Juju, a mando do próprio esposo, o pregou na cruz. Ela se sentiu mal, desconfortável, abandonada, vomitou várias vezes, mas obedeceu comprometida. 
E o povo chegou para se lastimar e pedir e chorar diante de JC crucificado. Era sem dúvida o próprio filho de D. E tão bem representou o papel que o padre da aldeia nem gostou. A polícia foi chamada, veio, chegou, olhou sem entender, retirou o ator da cruz e o trancafiou numa cela por vinte dias, a pão e água ou sopa de legumes ou quentinha da dona Juju.
Seu Caiçara nem via as horas. As horas eram longas na cadeia. Seu Caiçara fazia só olhar a paisagem quadrada da janela gradeada. Uma cadeia despovoada, pequena, quente, fria, pobre. Os guardas e os outros presidiários acharam aquele JC muito gozado. Riram aquele risinho, ih ih ih!... debochado. Caiçara somente bebia a água da torneira. O pão deixava para repartir com os ratos, as lagartixas e os passarinhos que vinham visitá-lo todo santo dia. E de noite e de dia.
            Fulano Caiçara foi solto num dia claro de verão. Era uma terça-feira, mas parecia domingo. O céu era todo azul, sem nuvens, sem passarinhos, sem aviões. A esposa dona Juju e a menina Lilás o aguardavam na rua Presidente Vargas. As duas sobreviveram aquele tempo todo com caridade, esmola, favor, sopa de cebola, sopa de alface, sopa de repolho, sopa de couve-flor. Ficaram felizes quando viram o grande ator saindo da cadeia.  Caiçara estava bem, e bem magro, também sorria e com outra ideia dentro do coco. Uma ideia luminosa no interior da cabeça giratória.
            - Vou entrar na jaula com o leão. Me trancarei com ele e ali permanecerei por seis dias ou sete.
            - E se o animal nem for com sua cara? - alertou-o Lilás.
            - Tenho um incrível controle sobre os seres inferiores, te contei? Consiste somente em nem demonstrar medo que eles nem te atacam. Sangue totalmente frio, entende? É preciso mostrar logo de cara quem é que manda. Muito controle, muito controle e força mental. Usar da psicologia.
            Depois de uma série interminável de autógrafos, entrevistas e fotos e poses, a todos os veículos de comunicação, o mágico entrou na jaula com o leão. Era um leão africano de juba arrepiada. Um leão altivo olho amarelo vindo importado clandestino das savanas africanas Moçambicanas.
Nem deu tempo para nada. Nem deu tempo. Nem houve tempo. Nem dois minutos depois o rei dos animais já tinha papado o mágico. Dona Juju, figurante na história, teve um treco e caiu dura, mortinha da silva.
            Era uma tarde como outra qualquer. Final de história. Parecia feriado. Parecia domingo à tarde. Nada queria fazer. De repente, e só por acaso, começou a cair uma tímida chuvinha que nem interessava. E a ninguém mais.