Substrato Instintivo
da Psique
Nem
foi assim mesmo que sonhei àquela noite e acordei bem cedo. Eu ia solto pela
rua, que rua?, era a rua Flores da Cunha, e carregava uma pilha de tijolos? de
livros usados. Acho que comprara ganhara os livros num sebo qualquer ou da
minha avó materna que gostava de ler e que eu mesmo lera ou nem lera e os
levava para doar ao depósito? à biblioteca pública municipal. Ultimamente vira
muita gente fazer isso e imaginei igualmente pra mim também. Cheguei lá, tá
entregue! e doei os livros. Assim os funcionários escolheriam os que quisessem os
que mais lhes agradassem e o resto jogariam fora fora.
Se
eu morasse no Rio ou Belém ou Sampa nem precisaria conhecer muitos outros
lugares viajar muito ir a tantos outros recantos. Eu pensava.
Sinceramente
o sol brilhava a chuva caía a lua espiava o rio corria casamento da cotia.
Era
outra vez de os diários de o sol que vinha deslizando a encosta e desde lá de o
outro mundo planetário. O sol abria os braços e as árvores nem tinham tempo de
pensar, andás-açus, canelas-brancas-do-brejo, matacalados, carandás... Sol que
fazia buraco em o ar a rua as casas os carros.
E
eu descia pela rua do Trabalhador com a pilha enorme de livros pacotes nas mãos
sobrecarregando os braços. Eram uns vinte sete vinte oito por aí. Uns grossos
que minha avó gostava de ler livro grosso e capa dura e história colonial. Um
equilibrista malabarista na corda bamba na bicicleta de uma roda. Ia andando pisando
em ovos ou como no trapézio. As pessoas me olhavam e pediam se eu queria
descansar um pouco na varanda na cadeira de balanço. Estava pesado também, mas
sempre pensei que podia suportar até chegar ao meu destino destino. Pediam
emprestado sugeriam que deixasse no banco da praça para que alguém recolhesse
incidentalmente. Finalmente isso de deixar os livros livres pelaí virara moda
em nem sei quantos países idiomas e aqui também. Às vezes a pilha ameaçava cair
e eu me preocupava. D escrevia certo por linhas ziguezagues. As pessoas iam me
olhando rua afora e se perguntando. Me lembravam que eu podia pegar um carro de
praça o urbano a carona. Umas comadres diziam para parar descansar tomar um
mate. Eu preocupado com nem deixar a pilha vacilante se esparramar pelo chão,
etc., sujar inutilizar os livros as revistas os gibis as encomendas, provocar a
ira de um vira-lata famélico qualquer.
-
Quem é esse lunático?
-
É um poeta da nova safra! Só pode!
-
Tá roubando livros? Pra quê?
-
Vai vender no ferro velho.
-
Em vez de fazer alguma coisa útil e proveitosa...
-
Talvez acho que nem seja daqui. Tem muita gente que vem de fora. Deve tá
procurando emprego no comércio...
E
recordei essas coisas se associavam sempre na minha ideia que vira o casal de
escritores sentados junto à mesa de magnólia-branca fabricada em Itagibá acomodados
lá na sala de estar da casa espaçosa deles. Os dois liam quietos e atentos e
comendo bolachinhas secas. Vez ou outra comentavam o sabor e a detonação de uma
palavra robusta. Hábito deles depois do jantar antes de dormir abrindo mão da
televisão nem tendo festa de formatura para abrilhantar. Lado a lado os dois,
cada um na sua poltrona, cada um na sua cor, cada qual com seu abajur, um par
de óculos exclusivo, um pratinho artesanato de Pareci Novo com as bolachinhas. Ela
comia com geleia de açaí encomendada de Capela de Santana, ele com manteiga de
Campos do Jordão. E eu já os reconhecia, sabia os nomes mais ou menos, eram
sempre vistos na tevê no jornal especializado, nem lera nada mas já os vira
pelaí, e frequentadores participantes indispensáveis em tudo que era julgamento
de concurso lançamento e feira de livro desse e outros rincões. Ela sempre de
cachecol e devia ter muitos, ele sempre de óculos na mão nunca sobre o nariz (nem
menos agora que estava lendo).
Às
21h e 12min era uma hora boa e bonita de se ver. A mulher lia e relia o mesmo
capítulo da noite passada: ela poupava o livro porque estava gostando da
leitura e o autor um dos seus prediletos. O homem parava a cada estrofe e pedia
atenção da mulher: ele tinha mania, para entender bem e melhor o que lia, de
comentar com a esposa cada verso lido cada verso com metáfora inusitada
extravagante estratosférica.
Quando
tocou o telefone, a mulher que ainda fora atriz de tv na juventude, mais perto
do aparelho fixo, se ergueu e foi atender, limpando os lábios no guardanapo de
pano bordado importado de Aracaju. Atendeu e chamou o marido que a ligação era
pra ele. Ele olhou por cima dos óculos pesados de lentes compradas em Curitiba,
conferiu a hora no relógio de pulso presente de um grande amigo de Brasília, fechou
guardou os óculos na palma da mão e sorriu um sorriso nem bom nem amarelo nem
aborrecido. Depois foi e pegou e atendeu. O sorriso se manteve de papo cheio
durante os cinco minutos. Enquanto isso a mulher voltava a sua poltrona e
continuava a comer bolachinhas de Pelotas com receita antiga.
***
Um
dia muito bom para o grito do Ipiranga? Quem sabe! Quem viu? Um dia esperançoso,
com os olhos mergulhados no passado, eu ia viajar. Um dia como outro qualquer.
Um dia para começar uma aventura pelo país dos meus avôs e avós.
O
município ocupava uma extensão territorial do tamanho de 1 milhão e 850 mil
campos de futebol.
Que
um céu azul, azul irrecorrível, irrespondível como o vento sacudindo as folhas
das árvores, plantas verdes, canas-do-mato, batatas-do-rio, cabeças-de-frade,
taquarembós...
Os
elementos se entendiam e faziam a festa no mundo todo, uma vez por dia. Eu
tinha a vontade de me confundir com o mundo. E contar estrelas, e procurar o
meu rio. Viver uma lenda paracatejê-gavião, tsunhum-djapá, caiabi...
Eram
onze e cinco: 11 era cavalo e 5 era cachorro. Dia vinte dois: 22 era tigre. O
mês de dezembro: 12 era elefante. Ano de mil novecentos e oitenta e três: 1 era
avestruz, 9 era cobra, 8 era camelo, 3 era burro.
Já
estava indo, ainda nem ia, e já a cidade me comovia com as meninas abandonadas
desperdiçadas. Vou olhar pra trás? Que saudade que nada!
Seja
o que for ou o que vier, um recomeço qualquer, com gurias sempre melhores
especiais que as outras, viagens a outros lugares, e troféus, e campeonatos.
Isabel,
Bel, Zabelinha, Belinha, Isa, etc...
Nem
temos noção do perigo que nada, mas os macacos estão por toda a parte. Agora
mesmo sempre tem algo ou alguém nos vigiando nos espionando nos espreitando procurando
levar proveito diante da nossa notória ignorância. Eles são de bando mas
preferem pegar vítimas desacompanhadas fracas e incautas. E os macacos são
livres desocupados malandros para comentar entre si:
-
Nem é esse aquele que tem pavor de altura?
-
E fuma, ainda por cima!
-
Um dia desses ele morre e nem deixa nada de bom.
-
Sei lá, né! Todo mundo acha que é a última batatinha do pacote.
Embora
o rio Tijipió corra sempre para o mar, embora o rio Parauapepas nem cessasse de
correr para a foz... Mas tudo seria diferente, o próprio rio Taquari, laguna
Araruama, o barco, o periantã, o céu, o vento, a alfazema-brava, a cidade com o
palácio das Esmeraldas, a itamaca, o oceano...
Enigmática,
meu tesouro patriótico, cabelos ao vento, vendaval na floresta, talvez nunca
mais voltarei - achava que nem voltaria.
Pronto,
eu estava uma pessoa correta normal e nem fizera prejudicar quem quer que
fosse. E isso ao longo de muitos anos de nada. Folha corrida linha transversal
nada consta.
Em
bando de macacos famintos pulam a minha frente. Todos os tamanhos e idades de
macaquices. Eu estou tranquilo na floresta e de repente dos galhos da guatambu.
E a braveza deles é comigo:
-
Pensamentos ao alto!
-
Jogue fora suas parcas economias!
-
Deixe seus pertences onde eu possa vê-los!
-
Fique de joelhos e nem se mexa se nem quer levar bala!
-
Você nem é filho de mãe-do-rio?
-
Só o sol fecha os olhos e nunca erra!
Ia
partir, estava partindo, ia chegando a hora, e lá no fundo eu sentia frio vendo
chegar a hora h. Gostando e nem gostando. Disfarçando e nem disfarçando. Eu
ainda, praticamente, nem tinha acontecido nada de história de geografia. E
minha pessoa nem sequer tinha saído do casulo de debaixo da asa da aba.
-
Já viajou de avião? E de trem?
-
Sabe a capital de Porto Velho? Em que bacia descem as águas do rio Içá? Quantos
peixes-bois se encontram em plena natureza?
-
Você sabe nadar?
Eu
mesmo tinha dor de barriga. Eu ia ser analista de sistemas. Eu ia ser biólogo,
químico, fisiologista. Eu ia ser policial por uns tempos, só para experimentar,
só para aprender a atirar ou me defender. Eu ia ser trocador em ônibus urbano.
Eu ia ser médico voluntário. Eu nem ia ser jogador de futebol, eu nem ia ser interprete
da mpb, eu nem ia ser vereador e para nem mesmo depois querer ser deputado e o
escambau.
Há
muitas árvores na floresta, mas o pinheiro-do-paraná é imperador é governador.
Pois ele aposta tudo e procura a luz todo dia e encontra.
Simbora
de ônibus, de carro de bois, de jatinho, de navio, de roupas leves e esportivas,
de janeiro a fevereiro. Sentado na janela e olhando a partida, a paisagem, a
despedida, certa certeza e incerteza, cinquenta por cinquenta no copo meio
vazio.
Subir
o alto morro bem no alto da árvore e falar com D. Olhar o horizonte ver longe e
falar de D.
Com
certeza eu esperava tudo do mundo, o mundo me olhando com olho clínico. Eu
conheceria uma guria chamada Guanumbi, outra de nome Amanaci, outra como
Anileira, mais outra como Acuri... e todas estavam me esperando animadamente de
braços abertos.
Os
piores bandidos do planeta quando atacam em bando, os macacos nem sossegam
enquanto nem trucidam a vítima ou as vítimas. São ótimos assaltantes e nem nada
pode ficar no caminho deles ou entre eles e a comida. Eles comem de tudo e
principalmente sugam o sangue humano pelas ideias.
Meus
cabelos, meu nariz, minhas mãos e meus pés, meu sorriso e meus olhos, particularmente
meus olhos, meu fígado, meus pulmões, tudo tudo em ordem. Nem tinha do que me
queixar. Eu quase nem comia. Cronometrei uma corrida de pelo menos 3 km de casa
até o bairro Santa Cruz, voltei a passo tomando uma água da pedra. Controlava
meu peso entre 75 e 80 kg.
Vontade
de ver capital, que eu ia ver. Vontade de ver uma guria de nome Neusa, que podia
ser ruiva. Vontade de ver a Keila... que seria estudante de filosofia e só
sabia poetas surrealistas. Vontade de ver Junara, a querida... De ir a pé, sem
guarda-chuva, sem boné, mas com mais dinheiro. Vontade de embarcar num
transatlântico, ter um amor em cada porto. E sair pelo campo verde de flores do
campo.
E
os pensamentos estão ostensivamente diante de mim de nós perfilados e nem
querem saber, nem nos deixam passar. Os macacos que se posicionam bem aí
comendo cenoura parecendo lebres, outros comendo amendoim parecendo tatus, mais
ainda comendo abóboras parecendo porcos-do-mato, os que bicam tuvira no banhado
parecendo socós-grandes.
Começarei
pelo mar. Conhecerei o mar, e o mar azul ou verde, e o mar aberto rolando na
praia, e o mar com barco a vela em cima. O porto o cais do porto. Nem vou
conhecer o mar só pela televisão.
As
coisas acontecendo, e iam acontecendo, que acontecessem de uma vez e pronto.
***
Primo
Imaruí se encontrava na praia Costa do Sol em Cidreira, ou foi na lagoa do
Bacopari, ou num dos tantos igaparás do rio Madeira do rio Nhamundá. Como todo
mundo do interior, adorava rio água sombra e coco verde e fazia de tudo para
passar o verão na praia. Além disso, meu primo era formigão, rastelão, rodão.
Talvez ainda seja com toda a certeza com toda a calma do mundo. E como se nem
bastasse e por cima de tudo era meio frívolo, banal, otário.
Uma
manhã de muito sol, navegando no céu, sal, sul, visualizou a Imbituba. Uma
libélula dona da areia branca. A praia era longe e tinha mais de trinta
quilômetros ou uma área de 789 mil campos de futebol. Conversaram, conversa
foi, conversa veio. Pediu para namorá-la, foi sugerido casamento, foi conhecer
a família dela dela. Passaram num quiosque e comeram uma espiga de milho verde
sal manteiga. E já se conheciam de data; eram todos de Nova Prata e do bairro
Pati.
Imaruí
começou a namorar Imbituba bem ali no bar de frente pro mar lancheria Itacuã. Uma
roda de amigos e brincadeiras de cerveja e batatas fritas. E Imaruí entrou na
casa de 4 mulheres, Imbituba, as irmãs dela, Mel-de-Arara, Anajás, a mãe das
três, dona Quiriri, viúva do seu Chapéu-de-Couro. E dona Quiriri fez gosto
bateu palmas deu três pulinhos pra frente um pra cada. Sorria sempre bonachona e
fazia cada bolo gostoso de chocolate com recheio de amendoim, hum... meu!
Mais
uma semana e duas e voltaram para o Prata. A Imbituba dirigindo o carro verde
modelo 76. Provavelmente por isso, de carona no banco de trás, Imaruí se
afeiçoou demais com Mel-de-Arara. Na altura de, entre Paverama e Gentil,
aconteceu uma química. Em Caseiros já era fato. Mãe Quiriri lembrou que podiam
dar um pulo em Salto do Jacuí ver a hidroelétrica, mas nem dava tempo. E Imaruí
ele de menino ordeiro ajuizado criativo se tornou um rapaz inútil, bobo,
subserviente.
Resultado
dos quilômetros cochilando no ombro da cunhada? Chegando na localidade dos
neopratenses Imaruí pediu para namorar Mel-de-Arara. E esta aceitou com beijos
e desenvoltura abraços apertados e olhares de fera à queima roupa e a ser
ferida. Dona Quiriri fez muito gosto e sorriu complacente. Fazia cada bolo de
chocolate que já-já viravam lenda no bairro e arredores. Vinha gente pra casar
até de cidades vizinhas e encomendá-los.
E
por outras ocasiões e circunstâncias, um dia foram num baile em Nova Bassano,
sociedade recreativa Suiá, e Imaruí dançou com Anajás o tempo todo, ela estava
de aniversário e nem tinha namorado, etc., se beijaram muito o som todo, um
pouco altos do chão, passaram uma hora lá fora no escuro se cutucando, as duas
outras irmãs chupando o dedo ou dançando com estranhos de vez em quando, etc.,
e tal e qual. O sol apareceu tão cedo que atrás dos butiás-da-serra, dos
palmitos-amargosos, das línguas-de-tucano e enxame incidental de borrachudos. Imaruí
era liso prepotente inconsequente.
Aliás,
todas as três irmãs tinham qualidades que Imaruí adorava muito e há muito nem
podia dormir sossegado sem. Principalmente as qualidades da vontade de brincar
de índia. Adoravam carnaval. As irmãs todas nem tinham sangue de índio, mas
adoravam brincar de índia nheengaíba só de pena de cauda de araquã no cabelo.
Imaruí sabia ouvir falava quando necessário segurava a mão da prenda com desdém
era um perfeito fingido e elas adoravam isso. Meu próprio primo por parte de
materna era paciente frio calculista.
Dona
Quiriri, sempre discreta e nada metida nos namoros das filhas, muito fez gosto,
fazia bolos de vender no mercado de vender na feira de leiloar na festa dos
Três Mártires, de tão ótimos. Imaruí se acomodava no meio do sofá grande sempre
cercado de fêmeas trescalantes de desejos. Dona Quiriri nem interferia no gosto
das filhas nem se metia nos namoricos para nem criar confusão em casa, etc., e
fazia gostosos bolos de chocolate, paçoquinhas, mandolates, beijus, pés de
moleque...
Imbituba,
por fim, arrumou outro pretendente uma guria de flor no cabelo e água na boca a
Itaipaba e se desinteressou por completo de Imaruí. No dia seguinte, no fim de
semana seguinte, depois de uma pescaria frustrada de camarões-de-água-doce e
guaiamuns no rio dos Sinos, Imaruí, vingativo que era, ciumento que sempre fora,
continuou atuando na mesma casa e se apaixonou teimoso impacientemente pela
Imbituba. Disse isso e escancarou. Queria voltar a qualquer preço, subiu no
capô do carro da família e abriu a boca e os braços como no Corcovado, o
babaca, o terneiro, o sem noção.
Ela,
a Imbituba, era a mais tímida das três irmãs e compensava sua timidez com belos
e grandes seios quase sempre precipitados em decotes generosíssimos, cabelos
redondos, boca pequena, seios túrgidos e práticos, sorriso do aperolado, um jeitinho
debochado de fazer muxoxos com a boquinha torcida pro lado. Imbituba nem mais quis
olhar pra cara da ex e nem pintada de ouro. Imaruí chorou entre seus braços e
seios e cabelos redondos, e tanto que comoveu e afligiu a beldade. Ele era do
tipo que só admitia pegar e se apegar. O par reatou e para comemorar
encomendaram uma pizza do restaurante dona Guaruba forno a lenha. Imaruí era
bem frívolo, frajola, afoito.
Mel-de-Arara
no dia seguinte às 11h e 21min também se compadeceu de Imaruí, ficou com pena e
se ofereceu para namorá-lo nem que fosse em horário vago nem que fosse para
sempre ou por uns dias até passar a ressaca. Imaruí foi para a casa dele pensar
no assunto, pesar a possibilidade, tentar ver um filme, procurou dormir, tirou
par ou ímpar. No mesmo dia, à tarde, convidou Mel-de-Arara para um passeio no
Horto Florestal. Quando chegaram lá, cada um na sua bicicleta e de mãos dadas, o
Horto estava fechado e os funcionários de férias coletivas. Era uma quinta de
tarde. Mas o namoro de Imaruí com Mel-de-Arara foi um caso de verão, desses que
nem duram mais que dois fins de semana ou três quatro dias. Imaruí era mesmo pastoso,
confuso, detergente.
Então,
num dia de chuva que os céus mandaram, com permissão de D, e Imaruí gostava
muito de chuva, Imaruí percebeu que Anajás tinha esse mesmo impulso. Então, os
dois gostavam de chuva estendiam as palmas na chuva botavam a língua na chuva. Foi
até a casa dela, agarrou-a pela mão olhando dentro dos olhos claros verdes e
foram passear na chuva sem guarda-chuva sem capa de chuva sem chapéu
impermeável. E caminharam horas sob o temporal que vinha com tudo e do noroeste.
Quase tinham receio de raios e trovões. De repente, se abraçaram num relâmpago
mais forte. Na calçada da rua Bom Jesus. Beijos na chuva tão gostosos molhados
entre os dois, cabelos encharcados, roupas ensopadas, ruas alagadas, casas lavadas,
cidade de trânsito inundado. Parecia que agora sim tudo ia sim senhora sim
senhor. E Imaruí frívolo, pacóvio, vadio.
E
Imaruí já namorava Anajás batendo um recorde dele na casa fazia quatro semanas.
Ele se sentia um felino e desfilava sem camisa orgulhando o tanquinho. Anajás
gostava de perfumes e Imaruí a presenteava com vários frascos de aromas e
desodorantes e cremes e tinturas para cabelo. Imaruí chegava com um perfume,
mostrava pra ela, ela mostrava pras irmãs e pra mãe e saíam experimentar.
Anajás corria para o banheiro, tomava banho, se perfumava e pedia para sair
seja onde for. E saíam dar uma volta na praça da Bandeira, eventualmente iam a
pé mesmo, até o aeródromo até a hípica até o CTG até pra lá das perobeiras e
macambiras e cipós-de-imbé... Dona Quiriri fazia muito gosto ficava aliviada e
fazia bolo de qualidade como ninguém, sonhos recheados com creme de laranja, quindim,
sagu com cravo canela.
Foi
por certa altura que Imaruí se queixou com dona Quiriri que Anajás andava preferindo
sair com um outro alguém que ele nem queria saber quem era para nem dar em rolo
ou forrobodó. Dona Quiriri o consolou por umas horas passou a mão nos cabelos
do choroso e ainda fez um bolo de chocolate com cerejas de enfeite. Imaruí
gostou tanto do bolo que tomou café repetiu o café e esperou o jantar. Onde e
como dona Quiriri arrumava cerejas tão naturais ninguém sabia eram raros os que
sabiam. Imaruí era um político oposicionista, um patrocinado, um come quieto.
Essa
aproximação, entre Imaruí e dona Quiriri, deu em afeto carinho e namoro e
paixão e rosto coladinho no peito. Ela estava enjoada de dormir cedo antes das
galinhas, ele tava cansado de carne tenra. Ela tava cansada de programas de
auditório no domingo de tarde, ele tava esgotado com as tais e quais greves de
silêncio das gurias por qualquer motivo mesmo sem motivo por motivo de dar aqui
aquela palha. Quando viram, Imaruí já amava de cama mesa e banho e dona
Quiriri. Quando Imaruí viu, dona Quiriri o queria para dormir em casa e mandar
nas cunhantãs. Quando as gurias viram, em vez do sofá, Imaruí já preferia a
poltrona do papai. E Quiriri fez muito gosto muito sorriso muito café com
biscoito e muito bolo de chocolate nega maluca. Sobremesas de encher os olhos e
paladares desses tais e quais com o olho maior que a barriga. Que seu Imaruí
era arteiro, manhoso, solícito, melífluo.
Imaruí
e Quiriri namoraram um ano e meio os tais e quais idílios por hoteizinhos de
cidades circunvizinhas Veranópolis, André da Rocha, Paraí, Matupá, Bela Vista...
e daí sim o casamento no juiz com festa na sociedade São Cristóvão. Foi uma
noite de chuva intensa. A chuva começou de tarde e só foi parar na hora de
repartir o bolo de chocolate com camadas de chocolate encimada com casal de
bonecos em chocolate. Assinaram os papéis festejaram e lá pela meia-noite
saíram em lua de mel montados no cavalo cardão Tucá e foram veranear em a praia
de Balneário da Fortaleza em Cidreira para retornarem quinze dias depois à casa
delas e deles.
***
Quando
passamos Bocaina do Sul e São José do Cerrito paramos em Lages por meia hora. Foi
ali que tomei conta que estava viajando e andando para a frente, buscando o sossego,
quem sabe.
Primeiro
que eu estava ansioso de tudo, e sem saber de quê. Segundo que as letras do
jornal balançavam com o gingado do ônibus. Eu nem era de ler jornal, uma vez. Terceiro
que estava desencorajado demais e querendo conhecer tudo demais e só olhava pra
fora a extensa paisagem da serra Catarinense, jatobás, carrapichos-de-calçada, carandazal,
palácio Araguaia, Paty do Alferes, Miguel Pereira, os jaminauá na aldeia proprietários
que exercitavam a dança do poracé para a tv do canal Boca-de-Sapo...
Os
macacos se agrupam em mais de 20 indivíduos. Fazem isso para se protegerem e
ficar imbatíveis. Numa negociação exigem o que lhes der na telha. Quem já viu
um bando desses pensamentos sabe do que estou falando. E os macacos só nem são
piores porque nem são totalmente humanos. E quem pode com eles.
Eu
bem o centro do mundo. Eu bem humorado. Eu nem nada de sentir sono preguiça dor
de cabeça. O pensamento divagando em os contrafortes de Enigmática.
Nem
teria problemas em arrumar apoios psicológicos e materiais, caso fosse o caso.
Era receio de perder a esportiva.
A
viagem demorava o que D servia. Tinha uma expectativa, mais de uma. Fechei os
olhos e fui realizando coisas milagrosas. Podia até saborear de olhos abertos. Seguia
olhando a paisagem nova linda como nunca vira. Ia pensando e trocando vantagens
comigo mesmo. O último amasso em Cotia sábado carnaval bloco Cacho-de-Mosquitos...
Uma
borboleta voa quilômetros e quilômetros pra fazer filhotes; vive de três a seis
meses. Uma tartaruga-verde vive até quinhentos anos, põe mil ovos por ano, mantém
um filhote a cada ninhada em média. Um zangão voa atrás da bem-amada, voa como
um doido alucinado, dá um creu e morre. O tangará-dançarino faz de tudo para
atrair a fêmea consegue superar a concorrência e depois nem fica sabendo da descendência.
Mas eu, em
aquela encarnação, nem era borboleta ou filhote de tartaruga-verde ou pássaro
ou zangão com prazo de validade. Nem sabia de idade bíblica ou cronológica ou
biológica ou mitológica. Talvez tinha uma rara ideia de almas que iam e vinham.
Levava carregava comigo o patuá, banho de sal grosso, oração de santo Expedito,
canivete multiuso, sinal da cruz, signo do zodíaco, tatuagem de provérbio árabe.
Queria
passar os dias e as noites dentro do mundo maravilhoso das mil e uma noites.
Virar uma lenda e ficar pelaí eterno. Ficar precioso e mundial como um rio
amazônico.
Os
problemas são quando os macacos assaltam na estrada e querem os tais e quais
pensamentos tintim por tintim com os pingos nos ii. Eles pulam na frente e
gritam e guincham e demonstram garras e dentes e exigem exigem mesmo:
-
Mãos ao alto que isto estão os seus pensamentos vacilões!
-
De joelhos, seu corno!
-
Se o primeiro piar leva uma rajada de palas, oquei?!
-
Por conta de nem carregar dinheiro no bolso nóis já corta fora! Está
entendido?! Quer que desenhe?!
Ia
mesmo para a terra desconhecida, mas me sentia bem, me sentia interrogativo, me
sentia talvez, me sentia precipitado. Queria chegar, nem queria chegar. Ia
chegar que horas? A qualquer hora do dia ou da noite ou dezembro. Vou escrever
isso mesmo só chegar, pensei, para Cotia.
Saberia
fazer de tudo na hora que precisasse. Nem queria pensar nada antes do tempo. O
tempo que nem passava. E parecia, absurdo!, que viajava contra o tempo. Bom com
Enigmática totalmente na cabeça.
Descansamos
no caminho por volta de São Joaquim, e fomos até perto do mato na sombra, uns
para olhar as árvores que nunca tinham visto outros para acompanhar os que iam
ver as plantas os pássaros, tiribas, sebinhos, curutiés, arara-vermelha-grande
ave símbolo do Acre...
E assim mesmo,
do nada, de repente, mexendo absurdamente os galhos das árvores saltam nos
assaltam os pensamentos uma turma de macacos de papo grosso e voz rouca e
dentes estrelas de ver o dia e olhos alterados. Corro sem pensar duas vezes
tentando agarrar o ônibus. Os que ficam para trás, tropeçam se atrapalham perdem
a direção, sem dúvida nenhuma são possuídos de pavor e sequestrados raptados. É
estranho e inesperado. Ouço os berros e gritos e xingos e pedidos de
misericórdia sem poder ajudar os que padecem:
-
Mãos ao alto que isto são só os seus próprios pensamentos, oquei?!
-
Quem reagir ou bancar o engraçadinho vai morrer pela boca!
-
O que que eu quero? Eu quero dinheiro arame carvão batata moeda cobre ouro
prata faz-me rir!
-
Quem nem tiver grana vai virar presunto vai se foder, tá ligado?!
-
Ei! Você aí! Você que é filinho de papai! É, você mesmo, seu barbicha
desgraçado! Dá um passo pra frente!...
Achei
um encosto amarrado agarrado em mim. A mesma tolice chatice de sempre. E insistia
e se repetia e era uma obsessão. Eu caía de uma certa altura. Às vezes caía do
barranco, caía no poço, caía do edifício de vinte andares, caía com o avião e abraçado
em Cotia. Eu caía do perau, sensação de cair, caía e sumia de mim mesmo para
dentro do buraco. Caía da árvore onde fui buscar jabuticabas maduras. Caía do
perau, ia caindo e batia, toque!... a cabeça no chão. Muitas oportunidades eu
nem chegava a bater a cabeça, ia caindo e caindo e caindo... caindo num escurão
num vácuo num isolamento... e nem parava mais de cair... Muitas vezes pegava no
sono caindo antes de chegar a bater, toque!... a cabeça nas pedras. Parecia que
caía do araticum-do-mato quando ia tirar a fruta lá na copa. Nem sabia o que fora
fazer no alto da pedra do perau. Estava no alto do morro e caía, caía, caía... ia
caindo até dizer chega. O chão se aproximava e eu olhando... Olhava o chão
muito de perto esticava as mãos e às vezes batia, toque!... a cabeça. O chão vinha
na minha direção com rapidez com média velocidade com câmera lenta... O chão
era superfície de rio limpo e fundo... Eu caía do quinto andar? Era pouco. Eu
caía de mais alto, nem sabia quanto, mas era mais alto que viajar de avião. E nem
suportava olhar a altura. Eu ia na direção do chão e, toque!... Eu tinha pavor
de alturas. O elevador me apavorava subir em árvores nem se fala subir numa
escada eu já vomitava. Olhar para baixo me deixava estressado. Nem sabia por
que subira naquela jabuticabeira, como fora parar ali, cair por quê? E eu caía,
caía... e acabava dormindo, desmaiando de sono... sem tempo de puxar paraquedas...
como um saco de lixo atirado na rua lá do sexto andar... sem lembrança de Enigmática...
O
vidro da janela do ônibus estava embaciado e frio. Desenhei uns arabescos que
já vinham desde os tempos dos cadernos do colégio. Lá fora a noite estranha. Eram
riscos de desenhos geométricos de triângulos quadrados, nem sei por quê. O
veículo sacolejava para todos os lados. Parecia que nem andava, mas também podia
ser que andava muito rápido. Estava à deriva. Podia estar parado e tremendo na
beira de uma ponte? O cara do volante podia errar o caminho dormir na direção e
cair na ribanceira. Um silêncio um escuro um anonimato. Fiquei quieto. Me
comportei como um experimentado. O ônibus desequilibrava à beira de um mergulho
nas profundidades. O motora tomou cachaça em vez de café, na última parada.
Bergamoteiras
festejam com bergamotas amarelas suculentas; pitangueiras comemoram com frutinhas
doces e vermelhas; pinheiros araucária desenvolvem pinhas que contêm pinhões. E
era uma vez a gente ia bem de manhã no frio do inverno até o pinheiral catava
os pinhões do chão fazia monte de grimpas e tacava fogo e comia pinhão assado.
Eu
se eu bobear os macacos vêm e me assaltam na estrada. Nem posso com eles em
bando de 20 a 30 indivíduos farsistas teatrais. São muito nervosos e com dentes
grandes e afiados, os caninos pronunciados, se aparecerem estou frito. Eles
exigem comida e quem nem tem corre risco de morrer asfixiado. Os macacos são tipos
sem alma que pulam dos barrancos para dentro dos autos de cima dos barrancos
para dentro dos veículos.
O
dia nascia e eu estava vazio, confuso, frustrado, querendo voltar. Queria beber
um café. Todo meu ser voltado para um café. Nem queria mais sair de casa. Primeiro
preferia beber um café do jeito que eu gosto. Nem queria ver Enigmática, queria
meu café de sempre. Que o ônibus estacionasse para um café com pastel de queijo
feito na hora.
Alá
ao redor de mim, Alá sobre mim. O dia novo seria o mesmo caminho de seguir. ***
Escrevi
Cotia na areia úmida da praia da Armação, pensava na Enigmática todas as horas,
nem queria voltar, estava longe, tinha ainda um prazo para ir tentando Solange
e se encontrar Ana Paula pelaí, pensava, seria de muita boa sorte e ajuda e
cura.
Acho
que preciso voltar daqui, eu sinto isso, e eu sinto muito ter que fazer isso, vou
pegar o busão e retornar, é, é isso que vou fazer, vou voltar - pensava.
Fui
muito bem obrigado a entrar na água salgada me estender na areia muito obrigado
meus parabéns dia quente praia morna ir e voltar e procurar coisas pra fazer eu
nunca tinha visto mulheres de canga na areia e topless o mar a praia a duna frutos
do mar camarão frito com limão e cerveja.
De
longe eu vi o mar impressionante que atordoava, depois da duna, que também
nunca tinha pisado e o azul da praia até as nuvens sem uma nuvem no céu e do
azul do mar até o azul do outro lado do mundo e o horizonte um traço perfeito
semicircular ainda pra lá até a África, dia bom de se ver aconchegado de céu
claríssimo e parei o tempo... que parou... para olhar... em o alto da duna que
inundava os olhos de calor sob o sol que me escolhia.
-
É bom ser o sol.
-
É evidente.
Cheguei
na rodo fazia muito abafado e havia muita gente me esperando nem conhecia ninguém
e foi estranho e tentei me beliscar porque era uma capital pegamos o bus para a
praia que praia que tal a praia Mole onde as gurias fazem nu e havia de tudo e
muita gente andando por toda parte prédios trânsito e peguei o latão para a praia
da Joaquina.
Isso
tudo importava de quantos reais valores quilates cifrões em moeda sonante
nacional atualizado...
Passamos
a ponte nova e olhei de lado a ponte velha cartão-postal da cidade de tudo da
ilha da magia, era de brincadeira.
Os olhos meus que
viam cada coisa invisível.