Mostrando postagens com marcador catarinense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador catarinense. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 34




Substrato Instintivo da Psique

            Nem foi assim mesmo que sonhei àquela noite e acordei bem cedo. Eu ia solto pela rua, que rua?, era a rua Flores da Cunha, e carregava uma pilha de tijolos? de livros usados. Acho que comprara ganhara os livros num sebo qualquer ou da minha avó materna que gostava de ler e que eu mesmo lera ou nem lera e os levava para doar ao depósito? à biblioteca pública municipal. Ultimamente vira muita gente fazer isso e imaginei igualmente pra mim também. Cheguei lá, tá entregue! e doei os livros. Assim os funcionários escolheriam os que quisessem os que mais lhes agradassem e o resto jogariam fora fora.
            Se eu morasse no Rio ou Belém ou Sampa nem precisaria conhecer muitos outros lugares viajar muito ir a tantos outros recantos. Eu pensava.
            Sinceramente o sol brilhava a chuva caía a lua espiava o rio corria casamento da cotia.
            Era outra vez de os diários de o sol que vinha deslizando a encosta e desde lá de o outro mundo planetário. O sol abria os braços e as árvores nem tinham tempo de pensar, andás-açus, canelas-brancas-do-brejo, matacalados, carandás... Sol que fazia buraco em o ar a rua as casas os carros.
            E eu descia pela rua do Trabalhador com a pilha enorme de livros pacotes nas mãos sobrecarregando os braços. Eram uns vinte sete vinte oito por aí. Uns grossos que minha avó gostava de ler livro grosso e capa dura e história colonial. Um equilibrista malabarista na corda bamba na bicicleta de uma roda. Ia andando pisando em ovos ou como no trapézio. As pessoas me olhavam e pediam se eu queria descansar um pouco na varanda na cadeira de balanço. Estava pesado também, mas sempre pensei que podia suportar até chegar ao meu destino destino. Pediam emprestado sugeriam que deixasse no banco da praça para que alguém recolhesse incidentalmente. Finalmente isso de deixar os livros livres pelaí virara moda em nem sei quantos países idiomas e aqui também. Às vezes a pilha ameaçava cair e eu me preocupava. D escrevia certo por linhas ziguezagues. As pessoas iam me olhando rua afora e se perguntando. Me lembravam que eu podia pegar um carro de praça o urbano a carona. Umas comadres diziam para parar descansar tomar um mate. Eu preocupado com nem deixar a pilha vacilante se esparramar pelo chão, etc., sujar inutilizar os livros as revistas os gibis as encomendas, provocar a ira de um vira-lata famélico qualquer.
            - Quem é esse lunático?
            - É um poeta da nova safra! Só pode!
            - Tá roubando livros? Pra quê?
            - Vai vender no ferro velho.
            - Em vez de fazer alguma coisa útil e proveitosa...
            - Talvez acho que nem seja daqui. Tem muita gente que vem de fora. Deve tá procurando emprego no comércio...
            E recordei essas coisas se associavam sempre na minha ideia que vira o casal de escritores sentados junto à mesa de magnólia-branca fabricada em Itagibá acomodados lá na sala de estar da casa espaçosa deles. Os dois liam quietos e atentos e comendo bolachinhas secas. Vez ou outra comentavam o sabor e a detonação de uma palavra robusta. Hábito deles depois do jantar antes de dormir abrindo mão da televisão nem tendo festa de formatura para abrilhantar. Lado a lado os dois, cada um na sua poltrona, cada um na sua cor, cada qual com seu abajur, um par de óculos exclusivo, um pratinho artesanato de Pareci Novo com as bolachinhas. Ela comia com geleia de açaí encomendada de Capela de Santana, ele com manteiga de Campos do Jordão. E eu já os reconhecia, sabia os nomes mais ou menos, eram sempre vistos na tevê no jornal especializado, nem lera nada mas já os vira pelaí, e frequentadores participantes indispensáveis em tudo que era julgamento de concurso lançamento e feira de livro desse e outros rincões. Ela sempre de cachecol e devia ter muitos, ele sempre de óculos na mão nunca sobre o nariz (nem menos agora que estava lendo).
            Às 21h e 12min era uma hora boa e bonita de se ver. A mulher lia e relia o mesmo capítulo da noite passada: ela poupava o livro porque estava gostando da leitura e o autor um dos seus prediletos. O homem parava a cada estrofe e pedia atenção da mulher: ele tinha mania, para entender bem e melhor o que lia, de comentar com a esposa cada verso lido cada verso com metáfora inusitada extravagante estratosférica.
            Quando tocou o telefone, a mulher que ainda fora atriz de tv na juventude, mais perto do aparelho fixo, se ergueu e foi atender, limpando os lábios no guardanapo de pano bordado importado de Aracaju. Atendeu e chamou o marido que a ligação era pra ele. Ele olhou por cima dos óculos pesados de lentes compradas em Curitiba, conferiu a hora no relógio de pulso presente de um grande amigo de Brasília, fechou guardou os óculos na palma da mão e sorriu um sorriso nem bom nem amarelo nem aborrecido. Depois foi e pegou e atendeu. O sorriso se manteve de papo cheio durante os cinco minutos. Enquanto isso a mulher voltava a sua poltrona e continuava a comer bolachinhas de Pelotas com receita antiga.
                                                                       ***
            Um dia muito bom para o grito do Ipiranga? Quem sabe! Quem viu? Um dia esperançoso, com os olhos mergulhados no passado, eu ia viajar. Um dia como outro qualquer. Um dia para começar uma aventura pelo país dos meus avôs e avós.
            O município ocupava uma extensão territorial do tamanho de 1 milhão e 850 mil campos de futebol.
            Que um céu azul, azul irrecorrível, irrespondível como o vento sacudindo as folhas das árvores, plantas verdes, canas-do-mato, batatas-do-rio, cabeças-de-frade, taquarembós...
            Os elementos se entendiam e faziam a festa no mundo todo, uma vez por dia. Eu tinha a vontade de me confundir com o mundo. E contar estrelas, e procurar o meu rio. Viver uma lenda paracatejê-gavião, tsunhum-djapá, caiabi...
            Eram onze e cinco: 11 era cavalo e 5 era cachorro. Dia vinte dois: 22 era tigre. O mês de dezembro: 12 era elefante. Ano de mil novecentos e oitenta e três: 1 era avestruz, 9 era cobra, 8 era camelo, 3 era burro.
            Já estava indo, ainda nem ia, e já a cidade me comovia com as meninas abandonadas desperdiçadas. Vou olhar pra trás? Que saudade que nada!
            Seja o que for ou o que vier, um recomeço qualquer, com gurias sempre melhores especiais que as outras, viagens a outros lugares, e troféus, e campeonatos.
            Isabel, Bel, Zabelinha, Belinha, Isa, etc...
            Nem temos noção do perigo que nada, mas os macacos estão por toda a parte. Agora mesmo sempre tem algo ou alguém nos vigiando nos espionando nos espreitando procurando levar proveito diante da nossa notória ignorância. Eles são de bando mas preferem pegar vítimas desacompanhadas fracas e incautas. E os macacos são livres desocupados malandros para comentar entre si:
            - Nem é esse aquele que tem pavor de altura?
            - E fuma, ainda por cima!
            - Um dia desses ele morre e nem deixa nada de bom.
            - Sei lá, né! Todo mundo acha que é a última batatinha do pacote.
            Embora o rio Tijipió corra sempre para o mar, embora o rio Parauapepas nem cessasse de correr para a foz... Mas tudo seria diferente, o próprio rio Taquari, laguna Araruama, o barco, o periantã, o céu, o vento, a alfazema-brava, a cidade com o palácio das Esmeraldas, a itamaca, o oceano...
            Enigmática, meu tesouro patriótico, cabelos ao vento, vendaval na floresta, talvez nunca mais voltarei - achava que nem voltaria.
            Pronto, eu estava uma pessoa correta normal e nem fizera prejudicar quem quer que fosse. E isso ao longo de muitos anos de nada. Folha corrida linha transversal nada consta.
            Em bando de macacos famintos pulam a minha frente. Todos os tamanhos e idades de macaquices. Eu estou tranquilo na floresta e de repente dos galhos da guatambu. E a braveza deles é comigo:
            - Pensamentos ao alto!
            - Jogue fora suas parcas economias!
            - Deixe seus pertences onde eu possa vê-los!
            - Fique de joelhos e nem se mexa se nem quer levar bala!
            - Você nem é filho de mãe-do-rio?
            - Só o sol fecha os olhos e nunca erra!
            Ia partir, estava partindo, ia chegando a hora, e lá no fundo eu sentia frio vendo chegar a hora h. Gostando e nem gostando. Disfarçando e nem disfarçando. Eu ainda, praticamente, nem tinha acontecido nada de história de geografia. E minha pessoa nem sequer tinha saído do casulo de debaixo da asa da aba.
            - Já viajou de avião? E de trem?
            - Sabe a capital de Porto Velho? Em que bacia descem as águas do rio Içá? Quantos peixes-bois se encontram em plena natureza?
            - Você sabe nadar?
            Eu mesmo tinha dor de barriga. Eu ia ser analista de sistemas. Eu ia ser biólogo, químico, fisiologista. Eu ia ser policial por uns tempos, só para experimentar, só para aprender a atirar ou me defender. Eu ia ser trocador em ônibus urbano. Eu ia ser médico voluntário. Eu nem ia ser jogador de futebol, eu nem ia ser interprete da mpb, eu nem ia ser vereador e para nem mesmo depois querer ser deputado e o escambau.
            Há muitas árvores na floresta, mas o pinheiro-do-paraná é imperador é governador. Pois ele aposta tudo e procura a luz todo dia e encontra.
            Simbora de ônibus, de carro de bois, de jatinho, de navio, de roupas leves e esportivas, de janeiro a fevereiro. Sentado na janela e olhando a partida, a paisagem, a despedida, certa certeza e incerteza, cinquenta por cinquenta no copo meio vazio.
            Subir o alto morro bem no alto da árvore e falar com D. Olhar o horizonte ver longe e falar de D.
            Com certeza eu esperava tudo do mundo, o mundo me olhando com olho clínico. Eu conheceria uma guria chamada Guanumbi, outra de nome Amanaci, outra como Anileira, mais outra como Acuri... e todas estavam me esperando animadamente de braços abertos.
            Os piores bandidos do planeta quando atacam em bando, os macacos nem sossegam enquanto nem trucidam a vítima ou as vítimas. São ótimos assaltantes e nem nada pode ficar no caminho deles ou entre eles e a comida. Eles comem de tudo e principalmente sugam o sangue humano pelas ideias.
            Meus cabelos, meu nariz, minhas mãos e meus pés, meu sorriso e meus olhos, particularmente meus olhos, meu fígado, meus pulmões, tudo tudo em ordem. Nem tinha do que me queixar. Eu quase nem comia. Cronometrei uma corrida de pelo menos 3 km de casa até o bairro Santa Cruz, voltei a passo tomando uma água da pedra. Controlava meu peso entre 75 e 80 kg.
            Vontade de ver capital, que eu ia ver. Vontade de ver uma guria de nome Neusa, que podia ser ruiva. Vontade de ver a Keila... que seria estudante de filosofia e só sabia poetas surrealistas. Vontade de ver Junara, a querida... De ir a pé, sem guarda-chuva, sem boné, mas com mais dinheiro. Vontade de embarcar num transatlântico, ter um amor em cada porto. E sair pelo campo verde de flores do campo.
            E os pensamentos estão ostensivamente diante de mim de nós perfilados e nem querem saber, nem nos deixam passar. Os macacos que se posicionam bem aí comendo cenoura parecendo lebres, outros comendo amendoim parecendo tatus, mais ainda comendo abóboras parecendo porcos-do-mato, os que bicam tuvira no banhado parecendo socós-grandes.  
            Começarei pelo mar. Conhecerei o mar, e o mar azul ou verde, e o mar aberto rolando na praia, e o mar com barco a vela em cima. O porto o cais do porto. Nem vou conhecer o mar só pela televisão.
            As coisas acontecendo, e iam acontecendo, que acontecessem de uma vez e pronto.
                                                                       ***
            Primo Imaruí se encontrava na praia Costa do Sol em Cidreira, ou foi na lagoa do Bacopari, ou num dos tantos igaparás do rio Madeira do rio Nhamundá. Como todo mundo do interior, adorava rio água sombra e coco verde e fazia de tudo para passar o verão na praia. Além disso, meu primo era formigão, rastelão, rodão. Talvez ainda seja com toda a certeza com toda a calma do mundo. E como se nem bastasse e por cima de tudo era meio frívolo, banal, otário.
            Uma manhã de muito sol, navegando no céu, sal, sul, visualizou a Imbituba. Uma libélula dona da areia branca. A praia era longe e tinha mais de trinta quilômetros ou uma área de 789 mil campos de futebol. Conversaram, conversa foi, conversa veio. Pediu para namorá-la, foi sugerido casamento, foi conhecer a família dela dela. Passaram num quiosque e comeram uma espiga de milho verde sal manteiga. E já se conheciam de data; eram todos de Nova Prata e do bairro Pati.
            Imaruí começou a namorar Imbituba bem ali no bar de frente pro mar lancheria Itacuã. Uma roda de amigos e brincadeiras de cerveja e batatas fritas. E Imaruí entrou na casa de 4 mulheres, Imbituba, as irmãs dela, Mel-de-Arara, Anajás, a mãe das três, dona Quiriri, viúva do seu Chapéu-de-Couro. E dona Quiriri fez gosto bateu palmas deu três pulinhos pra frente um pra cada. Sorria sempre bonachona e fazia cada bolo gostoso de chocolate com recheio de amendoim, hum... meu!
            Mais uma semana e duas e voltaram para o Prata. A Imbituba dirigindo o carro verde modelo 76. Provavelmente por isso, de carona no banco de trás, Imaruí se afeiçoou demais com Mel-de-Arara. Na altura de, entre Paverama e Gentil, aconteceu uma química. Em Caseiros já era fato. Mãe Quiriri lembrou que podiam dar um pulo em Salto do Jacuí ver a hidroelétrica, mas nem dava tempo. E Imaruí ele de menino ordeiro ajuizado criativo se tornou um rapaz inútil, bobo, subserviente.
            Resultado dos quilômetros cochilando no ombro da cunhada? Chegando na localidade dos neopratenses Imaruí pediu para namorar Mel-de-Arara. E esta aceitou com beijos e desenvoltura abraços apertados e olhares de fera à queima roupa e a ser ferida. Dona Quiriri fez muito gosto e sorriu complacente. Fazia cada bolo de chocolate que já-já viravam lenda no bairro e arredores. Vinha gente pra casar até de cidades vizinhas e encomendá-los.
            E por outras ocasiões e circunstâncias, um dia foram num baile em Nova Bassano, sociedade recreativa Suiá, e Imaruí dançou com Anajás o tempo todo, ela estava de aniversário e nem tinha namorado, etc., se beijaram muito o som todo, um pouco altos do chão, passaram uma hora lá fora no escuro se cutucando, as duas outras irmãs chupando o dedo ou dançando com estranhos de vez em quando, etc., e tal e qual. O sol apareceu tão cedo que atrás dos butiás-da-serra, dos palmitos-amargosos, das línguas-de-tucano e enxame incidental de borrachudos. Imaruí era liso prepotente inconsequente.
            Aliás, todas as três irmãs tinham qualidades que Imaruí adorava muito e há muito nem podia dormir sossegado sem. Principalmente as qualidades da vontade de brincar de índia. Adoravam carnaval. As irmãs todas nem tinham sangue de índio, mas adoravam brincar de índia nheengaíba só de pena de cauda de araquã no cabelo. Imaruí sabia ouvir falava quando necessário segurava a mão da prenda com desdém era um perfeito fingido e elas adoravam isso. Meu próprio primo por parte de materna era paciente frio calculista.
            Dona Quiriri, sempre discreta e nada metida nos namoros das filhas, muito fez gosto, fazia bolos de vender no mercado de vender na feira de leiloar na festa dos Três Mártires, de tão ótimos. Imaruí se acomodava no meio do sofá grande sempre cercado de fêmeas trescalantes de desejos. Dona Quiriri nem interferia no gosto das filhas nem se metia nos namoricos para nem criar confusão em casa, etc., e fazia gostosos bolos de chocolate, paçoquinhas, mandolates, beijus, pés de moleque...
            Imbituba, por fim, arrumou outro pretendente uma guria de flor no cabelo e água na boca a Itaipaba e se desinteressou por completo de Imaruí. No dia seguinte, no fim de semana seguinte, depois de uma pescaria frustrada de camarões-de-água-doce e guaiamuns no rio dos Sinos, Imaruí, vingativo que era, ciumento que sempre fora, continuou atuando na mesma casa e se apaixonou teimoso impacientemente pela Imbituba. Disse isso e escancarou. Queria voltar a qualquer preço, subiu no capô do carro da família e abriu a boca e os braços como no Corcovado, o babaca, o terneiro, o sem noção.
            Ela, a Imbituba, era a mais tímida das três irmãs e compensava sua timidez com belos e grandes seios quase sempre precipitados em decotes generosíssimos, cabelos redondos, boca pequena, seios túrgidos e práticos, sorriso do aperolado, um jeitinho debochado de fazer muxoxos com a boquinha torcida pro lado. Imbituba nem mais quis olhar pra cara da ex e nem pintada de ouro. Imaruí chorou entre seus braços e seios e cabelos redondos, e tanto que comoveu e afligiu a beldade. Ele era do tipo que só admitia pegar e se apegar. O par reatou e para comemorar encomendaram uma pizza do restaurante dona Guaruba forno a lenha. Imaruí era bem frívolo, frajola, afoito.
            Mel-de-Arara no dia seguinte às 11h e 21min também se compadeceu de Imaruí, ficou com pena e se ofereceu para namorá-lo nem que fosse em horário vago nem que fosse para sempre ou por uns dias até passar a ressaca. Imaruí foi para a casa dele pensar no assunto, pesar a possibilidade, tentar ver um filme, procurou dormir, tirou par ou ímpar. No mesmo dia, à tarde, convidou Mel-de-Arara para um passeio no Horto Florestal. Quando chegaram lá, cada um na sua bicicleta e de mãos dadas, o Horto estava fechado e os funcionários de férias coletivas. Era uma quinta de tarde. Mas o namoro de Imaruí com Mel-de-Arara foi um caso de verão, desses que nem duram mais que dois fins de semana ou três quatro dias. Imaruí era mesmo pastoso, confuso, detergente.
            Então, num dia de chuva que os céus mandaram, com permissão de D, e Imaruí gostava muito de chuva, Imaruí percebeu que Anajás tinha esse mesmo impulso. Então, os dois gostavam de chuva estendiam as palmas na chuva botavam a língua na chuva. Foi até a casa dela, agarrou-a pela mão olhando dentro dos olhos claros verdes e foram passear na chuva sem guarda-chuva sem capa de chuva sem chapéu impermeável. E caminharam horas sob o temporal que vinha com tudo e do noroeste. Quase tinham receio de raios e trovões. De repente, se abraçaram num relâmpago mais forte. Na calçada da rua Bom Jesus. Beijos na chuva tão gostosos molhados entre os dois, cabelos encharcados, roupas ensopadas, ruas alagadas, casas lavadas, cidade de trânsito inundado. Parecia que agora sim tudo ia sim senhora sim senhor. E Imaruí frívolo, pacóvio, vadio.
            E Imaruí já namorava Anajás batendo um recorde dele na casa fazia quatro semanas. Ele se sentia um felino e desfilava sem camisa orgulhando o tanquinho. Anajás gostava de perfumes e Imaruí a presenteava com vários frascos de aromas e desodorantes e cremes e tinturas para cabelo. Imaruí chegava com um perfume, mostrava pra ela, ela mostrava pras irmãs e pra mãe e saíam experimentar. Anajás corria para o banheiro, tomava banho, se perfumava e pedia para sair seja onde for. E saíam dar uma volta na praça da Bandeira, eventualmente iam a pé mesmo, até o aeródromo até a hípica até o CTG até pra lá das perobeiras e macambiras e cipós-de-imbé... Dona Quiriri fazia muito gosto ficava aliviada e fazia bolo de qualidade como ninguém, sonhos recheados com creme de laranja, quindim, sagu com cravo canela.
            Foi por certa altura que Imaruí se queixou com dona Quiriri que Anajás andava preferindo sair com um outro alguém que ele nem queria saber quem era para nem dar em rolo ou forrobodó. Dona Quiriri o consolou por umas horas passou a mão nos cabelos do choroso e ainda fez um bolo de chocolate com cerejas de enfeite. Imaruí gostou tanto do bolo que tomou café repetiu o café e esperou o jantar. Onde e como dona Quiriri arrumava cerejas tão naturais ninguém sabia eram raros os que sabiam. Imaruí era um político oposicionista, um patrocinado, um come quieto.
            Essa aproximação, entre Imaruí e dona Quiriri, deu em afeto carinho e namoro e paixão e rosto coladinho no peito. Ela estava enjoada de dormir cedo antes das galinhas, ele tava cansado de carne tenra. Ela tava cansada de programas de auditório no domingo de tarde, ele tava esgotado com as tais e quais greves de silêncio das gurias por qualquer motivo mesmo sem motivo por motivo de dar aqui aquela palha. Quando viram, Imaruí já amava de cama mesa e banho e dona Quiriri. Quando Imaruí viu, dona Quiriri o queria para dormir em casa e mandar nas cunhantãs. Quando as gurias viram, em vez do sofá, Imaruí já preferia a poltrona do papai. E Quiriri fez muito gosto muito sorriso muito café com biscoito e muito bolo de chocolate nega maluca. Sobremesas de encher os olhos e paladares desses tais e quais com o olho maior que a barriga. Que seu Imaruí era arteiro, manhoso, solícito, melífluo.
            Imaruí e Quiriri namoraram um ano e meio os tais e quais idílios por hoteizinhos de cidades circunvizinhas Veranópolis, André da Rocha, Paraí, Matupá, Bela Vista... e daí sim o casamento no juiz com festa na sociedade São Cristóvão. Foi uma noite de chuva intensa. A chuva começou de tarde e só foi parar na hora de repartir o bolo de chocolate com camadas de chocolate encimada com casal de bonecos em chocolate. Assinaram os papéis festejaram e lá pela meia-noite saíram em lua de mel montados no cavalo cardão Tucá e foram veranear em a praia de Balneário da Fortaleza em Cidreira para retornarem quinze dias depois à casa delas e deles.
                                                                       ***
            Quando passamos Bocaina do Sul e São José do Cerrito paramos em Lages por meia hora. Foi ali que tomei conta que estava viajando e andando para a frente, buscando o sossego, quem sabe.
            Primeiro que eu estava ansioso de tudo, e sem saber de quê. Segundo que as letras do jornal balançavam com o gingado do ônibus. Eu nem era de ler jornal, uma vez. Terceiro que estava desencorajado demais e querendo conhecer tudo demais e só olhava pra fora a extensa paisagem da serra Catarinense, jatobás, carrapichos-de-calçada, carandazal, palácio Araguaia, Paty do Alferes, Miguel Pereira, os jaminauá na aldeia proprietários que exercitavam a dança do poracé para a tv do canal Boca-de-Sapo...
            Os macacos se agrupam em mais de 20 indivíduos. Fazem isso para se protegerem e ficar imbatíveis. Numa negociação exigem o que lhes der na telha. Quem já viu um bando desses pensamentos sabe do que estou falando. E os macacos só nem são piores porque nem são totalmente humanos. E quem pode com eles.
            Eu bem o centro do mundo. Eu bem humorado. Eu nem nada de sentir sono preguiça dor de cabeça. O pensamento divagando em os contrafortes de Enigmática.
            Nem teria problemas em arrumar apoios psicológicos e materiais, caso fosse o caso. Era receio de perder a esportiva.
            A viagem demorava o que D servia. Tinha uma expectativa, mais de uma. Fechei os olhos e fui realizando coisas milagrosas. Podia até saborear de olhos abertos. Seguia olhando a paisagem nova linda como nunca vira. Ia pensando e trocando vantagens comigo mesmo. O último amasso em Cotia sábado carnaval bloco Cacho-de-Mosquitos...
            Uma borboleta voa quilômetros e quilômetros pra fazer filhotes; vive de três a seis meses. Uma tartaruga-verde vive até quinhentos anos, põe mil ovos por ano, mantém um filhote a cada ninhada em média. Um zangão voa atrás da bem-amada, voa como um doido alucinado, dá um creu e morre. O tangará-dançarino faz de tudo para atrair a fêmea consegue superar a concorrência e depois nem fica sabendo da descendência.
Mas eu, em aquela encarnação, nem era borboleta ou filhote de tartaruga-verde ou pássaro ou zangão com prazo de validade. Nem sabia de idade bíblica ou cronológica ou biológica ou mitológica. Talvez tinha uma rara ideia de almas que iam e vinham. Levava carregava comigo o patuá, banho de sal grosso, oração de santo Expedito, canivete multiuso, sinal da cruz, signo do zodíaco, tatuagem de provérbio árabe.
            Queria passar os dias e as noites dentro do mundo maravilhoso das mil e uma noites. Virar uma lenda e ficar pelaí eterno. Ficar precioso e mundial como um rio amazônico.
            Os problemas são quando os macacos assaltam na estrada e querem os tais e quais pensamentos tintim por tintim com os pingos nos ii. Eles pulam na frente e gritam e guincham e demonstram garras e dentes e exigem exigem mesmo:
            - Mãos ao alto que isto estão os seus pensamentos vacilões!
            - De joelhos, seu corno!
            - Se o primeiro piar leva uma rajada de palas, oquei?!
            - Por conta de nem carregar dinheiro no bolso nóis já corta fora! Está entendido?! Quer que desenhe?!
            Ia mesmo para a terra desconhecida, mas me sentia bem, me sentia interrogativo, me sentia talvez, me sentia precipitado. Queria chegar, nem queria chegar. Ia chegar que horas? A qualquer hora do dia ou da noite ou dezembro. Vou escrever isso mesmo só chegar, pensei, para Cotia.
            Saberia fazer de tudo na hora que precisasse. Nem queria pensar nada antes do tempo. O tempo que nem passava. E parecia, absurdo!, que viajava contra o tempo. Bom com Enigmática totalmente na cabeça.
            Descansamos no caminho por volta de São Joaquim, e fomos até perto do mato na sombra, uns para olhar as árvores que nunca tinham visto outros para acompanhar os que iam ver as plantas os pássaros, tiribas, sebinhos, curutiés, arara-vermelha-grande ave símbolo do Acre...
E assim mesmo, do nada, de repente, mexendo absurdamente os galhos das árvores saltam nos assaltam os pensamentos uma turma de macacos de papo grosso e voz rouca e dentes estrelas de ver o dia e olhos alterados. Corro sem pensar duas vezes tentando agarrar o ônibus. Os que ficam para trás, tropeçam se atrapalham perdem a direção, sem dúvida nenhuma são possuídos de pavor e sequestrados raptados. É estranho e inesperado. Ouço os berros e gritos e xingos e pedidos de misericórdia sem poder ajudar os que padecem:
            - Mãos ao alto que isto são só os seus próprios pensamentos, oquei?!
            - Quem reagir ou bancar o engraçadinho vai morrer pela boca!
            - O que que eu quero? Eu quero dinheiro arame carvão batata moeda cobre ouro prata faz-me rir!
            - Quem nem tiver grana vai virar presunto vai se foder, tá ligado?!
            - Ei! Você aí! Você que é filinho de papai! É, você mesmo, seu barbicha desgraçado! Dá um passo pra frente!...   
            Achei um encosto amarrado agarrado em mim. A mesma tolice chatice de sempre. E insistia e se repetia e era uma obsessão. Eu caía de uma certa altura. Às vezes caía do barranco, caía no poço, caía do edifício de vinte andares, caía com o avião e abraçado em Cotia. Eu caía do perau, sensação de cair, caía e sumia de mim mesmo para dentro do buraco. Caía da árvore onde fui buscar jabuticabas maduras. Caía do perau, ia caindo e batia, toque!... a cabeça no chão. Muitas oportunidades eu nem chegava a bater a cabeça, ia caindo e caindo e caindo... caindo num escurão num vácuo num isolamento... e nem parava mais de cair... Muitas vezes pegava no sono caindo antes de chegar a bater, toque!... a cabeça nas pedras. Parecia que caía do araticum-do-mato quando ia tirar a fruta lá na copa. Nem sabia o que fora fazer no alto da pedra do perau. Estava no alto do morro e caía, caía, caía... ia caindo até dizer chega. O chão se aproximava e eu olhando... Olhava o chão muito de perto esticava as mãos e às vezes batia, toque!... a cabeça. O chão vinha na minha direção com rapidez com média velocidade com câmera lenta... O chão era superfície de rio limpo e fundo... Eu caía do quinto andar? Era pouco. Eu caía de mais alto, nem sabia quanto, mas era mais alto que viajar de avião. E nem suportava olhar a altura. Eu ia na direção do chão e, toque!... Eu tinha pavor de alturas. O elevador me apavorava subir em árvores nem se fala subir numa escada eu já vomitava. Olhar para baixo me deixava estressado. Nem sabia por que subira naquela jabuticabeira, como fora parar ali, cair por quê? E eu caía, caía... e acabava dormindo, desmaiando de sono... sem tempo de puxar paraquedas... como um saco de lixo atirado na rua lá do sexto andar... sem lembrança de Enigmática...
            O vidro da janela do ônibus estava embaciado e frio. Desenhei uns arabescos que já vinham desde os tempos dos cadernos do colégio. Lá fora a noite estranha. Eram riscos de desenhos geométricos de triângulos quadrados, nem sei por quê. O veículo sacolejava para todos os lados. Parecia que nem andava, mas também podia ser que andava muito rápido. Estava à deriva. Podia estar parado e tremendo na beira de uma ponte? O cara do volante podia errar o caminho dormir na direção e cair na ribanceira. Um silêncio um escuro um anonimato. Fiquei quieto. Me comportei como um experimentado. O ônibus desequilibrava à beira de um mergulho nas profundidades. O motora tomou cachaça em vez de café, na última parada.
            Bergamoteiras festejam com bergamotas amarelas suculentas; pitangueiras comemoram com frutinhas doces e vermelhas; pinheiros araucária desenvolvem pinhas que contêm pinhões. E era uma vez a gente ia bem de manhã no frio do inverno até o pinheiral catava os pinhões do chão fazia monte de grimpas e tacava fogo e comia pinhão assado.
            Eu se eu bobear os macacos vêm e me assaltam na estrada. Nem posso com eles em bando de 20 a 30 indivíduos farsistas teatrais. São muito nervosos e com dentes grandes e afiados, os caninos pronunciados, se aparecerem estou frito. Eles exigem comida e quem nem tem corre risco de morrer asfixiado. Os macacos são tipos sem alma que pulam dos barrancos para dentro dos autos de cima dos barrancos para dentro dos veículos.
            O dia nascia e eu estava vazio, confuso, frustrado, querendo voltar. Queria beber um café. Todo meu ser voltado para um café. Nem queria mais sair de casa. Primeiro preferia beber um café do jeito que eu gosto. Nem queria ver Enigmática, queria meu café de sempre. Que o ônibus estacionasse para um café com pastel de queijo feito na hora.
            Alá ao redor de mim, Alá sobre mim. O dia novo seria o mesmo caminho de seguir.                                                                         ***
            Escrevi Cotia na areia úmida da praia da Armação, pensava na Enigmática todas as horas, nem queria voltar, estava longe, tinha ainda um prazo para ir tentando Solange e se encontrar Ana Paula pelaí, pensava, seria de muita boa sorte e ajuda e cura.
            Acho que preciso voltar daqui, eu sinto isso, e eu sinto muito ter que fazer isso, vou pegar o busão e retornar, é, é isso que vou fazer, vou voltar - pensava.
            Fui muito bem obrigado a entrar na água salgada me estender na areia muito obrigado meus parabéns dia quente praia morna ir e voltar e procurar coisas pra fazer eu nunca tinha visto mulheres de canga na areia e topless o mar a praia a duna frutos do mar camarão frito com limão e cerveja.
            De longe eu vi o mar impressionante que atordoava, depois da duna, que também nunca tinha pisado e o azul da praia até as nuvens sem uma nuvem no céu e do azul do mar até o azul do outro lado do mundo e o horizonte um traço perfeito semicircular ainda pra lá até a África, dia bom de se ver aconchegado de céu claríssimo e parei o tempo... que parou... para olhar... em o alto da duna que inundava os olhos de calor sob o sol que me escolhia.
            - É bom ser o sol.
            - É evidente.
            Cheguei na rodo fazia muito abafado e havia muita gente me esperando nem conhecia ninguém e foi estranho e tentei me beliscar porque era uma capital pegamos o bus para a praia que praia que tal a praia Mole onde as gurias fazem nu e havia de tudo e muita gente andando por toda parte prédios trânsito e peguei o latão para a praia da Joaquina.
            Isso tudo importava de quantos reais valores quilates cifrões em moeda sonante nacional atualizado...
            Passamos a ponte nova e olhei de lado a ponte velha cartão-postal da cidade de tudo da ilha da magia, era de brincadeira.
Os olhos meus que viam cada coisa invisível.