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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 12




Nas férias em Estrela, cidade guia e vizinha de Cruzeiro do Sul e Fazenda Vilanova e Veríssimo, a filha de Aline já andou de bíci e subiu em árvores, amendoim-bravo, araçarana, pitombeira, braço-de-mono... Então, lembrou que as pedras falavam de vez em quando, as flores riam do riso dos pássaros, e por quê?, as nuvens estendiam cortinas brancas vertiginosas no varal do verão.
- Era uma ocasião... minha vez, esta hora anos atrás, uma menina linda e que continua gostando de sorvete de açaí com chocolate, etc., por ex.
As abelhas uruçus-amarelo procuravam flores do mato. Os pássaros balançavam no capim-da-colônia, nos talos de paratudo-do-campo, nos cipós-violetas... Pronto, os pássaros foram procurar água no riachinho. As gralhas-do-peito-branco pulavam de galho em galho. As aves faziam ninhos os camuflados nas touceiras do banhado.
E ainda a filha de Aline correu com seus cães e abraçou outras árvores, angico, pinheiro-do-paraná, leiteira, ibabiraba... e ensinou os vira-latas a nem pegar perdizes incautas. Bando de periquitos-ricos atravessando velozes aéreos para o sudeste. Um tronco caído de ajuruatubira, a flor parasita e anônima, orelha-de-pau, cogumelos, musgo, liquens... Um cavalo do lado da cerca no campo vizinho. Como ele a olhava e aos cães? Com perguntas e ressalvas. Ou com dúvidas atrás das orelhas móveis. Pastava um tanto e voltava a conferir dos intrusos. De repente o cavalo pingo podia mostrar que também sabia voar. Nem se importava com as horas mas era ruminante.
As tardes de janeiro sempre procuravam sintonizar uma chuva repentina tromba extratropical. As árvores os pássaros os autos são displicentes. De noite quem nem são os sapos as rãs dormem. E ficam o tempo todo comentando os acontecimentos. De modo que à hora do lanche todos estavam. A chuva partiu mesmo partiu depois de 4 dias. Quem manhã em curso e amazônica. Um vento uma brisa airada e coleiro-de-sapé e utuapoca e varredeira e aí-mirim e gravatá-das-rãs...
Ela filha de Aline olhava tudo ali sempre e sorriso e às vezes rindo. Ela tinha os olhos negros, aquele dia. Ela tinha os dentes sorrindo. Perfume bom compatível com seu perfil aroma persistente. Uns tufos de cabelos louros caíam nos ombros uns fios pela frente dos olhos de horizontes. Sabia montar a cavalo? Gostava de nadar na piscina do hotel olímpica.
- Agora quero respirar, olhe!... e beber água natural da chuva.
Praia da Armação, ela molhada correndo descalça, deixando pegadas na areia úmida. Calor e o sol escondido. O mar babando como impossível. Ah! ela estava correndo como nem sei, correndo por precisão de paixão, por precisão de um êxtase, por precisão de chegar logo logo naquelas pedras da ponta da praia.
Guria abanou a persiana e socorreu o belo dia qualquer lá fora. Uma quarta-feira de domingo em bem diante da praça Barão de Corumbá em Paranapanema. Trânsito de nuvens em forma de sapato, árvore, chapéu, trevo de três folhas. Ela parou olhando o céu azul com manchas brancas. Estava em centro do universo e nem queria incomodar ninguém com seu bocejo. Corpo flexível olhar flexível sorriso flexível peitinhos pequenos no ponto...
- Estou decididamente muito melhor ganhando salário e vencimentos perto muito já do que ganha um deputado. Também continuarei me sentindo muito bem e autoproprietária.
A filha de Aline viu a noite, ouviu a noite, ficou ouvindo e vento. Deixou a tevê para ver a noite da varanda décimo quinto andar e avenida Campos Sales. Ouviu sons de buzinas. Ouviu a tevê do apartamento ao lado noutro canal. A noite falava de estrelas e o som de uma tevê no alto do mundo. Sentiu fome e gosto flexível e foi ver um o corroló doce.
O sol e depois como elas as árvores passam bem o dia em Buri em Prata em Campo Florido em Leandro Ferreira... O panorama nem existe e é espantoso de bom. E os pássaros são inexoráveis. Conversa entre os próprios na colmeia onde se trabalha colheita. Quem anda muito é a anta que é vegetariana. E a conversa é sempre em torno das flores do campo. Algumas cigarras tocam na banda em de Angatuba. O casaca-de-couro-da-lama sujeito ponderado alto do poste bate no peito de namorada nova. Mais tarde a corujinha-orelhuda vem olhar a lua, e esta mesma queijo que passeia. Se vence o sono xajá apaga a luz.
12-superprodução.
O pai do Joel foi até a sombra da caviúna e segurou um dos galhos como de apoio. O olhar sempre por aí e à vista. O traçado da praça 19 de Dezembro e o trânsito das pessoas e cães e pombas-rolas e abelhas guiruçus. Uma borboleta seda-azul procurava pólen na flor do cipó-de-são-joão. Os passarinhos sempre brincando de pegar. Muitas gentes sabiam pouco, mas tinham comum muita esperança. Os sinos das igrejas despertavam durante o dia, mas um ou outro morador sempre havia que mantinha a fé. Sete aposentados jogando dominó na sombra do pé de araticum-do-campo. O povo alado parecia dizer que nem ia chover naquele dia.
O trem passou por baixo do túnel tremendo a praça e uivando como bicho feroz selvagem inquebrável, e era um monstro apavorante feroz terrível assustador inquebrável. Os pássaros se espantaram e correram aos gritos para os parapeitos das lojas do outro lado da rua Barra do Jacaré. As horas se inclinavam sobre o chafariz para lavar as longas cabeleiras. Os humanos conformes prometeram nem perder a hora. Apareceu um homem de calça xadrez branco e preto. Uma mulher verde combinando com as árvores da praça 19 de Dezembro, sombrinha tatuada de bichos e flores, bolsa estilizada marrom num couro falso pendendo do ombro, filhinha tão galante (combinando com a mãe) pela mão. Era dia santo, e dia da Santa Luzia dos bons olhos.
Alguém lá de cima do prédio Laurare acenava para alguém ali embaixo na praça. A praça estava quase intransitável apinhada tumultuada congestionada. Quem seriam os que acenavam e fazendo combinações secretas águas-de-oxalá? Alguém lá em cima no décimo andar se voltou e sumiu no interior do quarto e pronto apagou tudo.
Faltavam uns minutos para as 8h quando o pintassilgo elegante e com jogos de amarelo e cinza veio se benzer na água do bebedouro público. Bebeu e olhou para todos os lados, bebeu e reolhou para todos os lados, bebeu e sem parar de olhar para todos os lados e bebeu fugiu.
Ali na praça 19 de Dezembro as árvores se conheciam. E eram importantes. Às vezes se sacudiam em discussões ao vento. Outras vezes se empurravam. Ainda ocasiões viviam abraçadas atrapalhadas engalfinhadas. Um ou outra tinham vindo da Amazônia quando a adaptação fora muito delicada e perigosa para a saúde. Haja vista o problema que aconteceu com o ibirapitanga que sucumbiu ao frio, etc., por ex.
O CTG Tocaio veio todo aprender a tocar gaita ao ar livre na praça. Tocou gaita, trovou, mostrou a dança da lança, a prenda bonita estendendo os braços para a esquerda e para a direita com gestos lentos e voz profunda. Bom mesmo foram as crianças para ver cavalos tobiano, zaino, azulego, colorado, gateado, baio, malacara...
Soltaram os automóveis na manhã do dia cheio de gente nas ruas. Umas já 6h e 26min e muito espinho pela frente. Todos andando para o futuro. Carros de tipos estrangeiros com milhões de cavalos e buzinas soltas. E as ruas Boa Esperança do Iguaçu, Diamante do Sul, Balsa Nova, Alto Paraná já cercavam delimitavam a praça 19 de Dezembro e há muito tempo desde a fundação. O busto da princesa Isabel reparava sempre qualquer coisa no pequeno horizonte de prédios, coisas até quem sabe já cansada de olhar.
O pai do Joel estudou o jeito tonto da temperatura do dia oscilante. Almoçou no restaurante Ximbé depois da rua. Um conhecido da praça e de anteontem, se aproximou e rimou:
- Por que nem adquires um cão farejador? Talvez o rastro do teu guri esteja por aí, hein?! Já pensastes que pode ser? Podes tentar, nem podes?!
Pois o pai do Joel concordou e completou, dizendo:
- Já estava pensando nisso, etc., e várias vezes ao longo do dia.
12-superestrutura.
Frases sentenças de Pedro:
- As esmeraldas querem ir longe, demoram de voltar, mas quando retornam surpresas surpreendidas já são gurias de olhos verdes hortelã menta.
- Pássaros feito bromélias e orquídeas riscados de raios divididos bem próximos onde as cunhantãs encontram água limpa para tomar banho.
- E ela pensou correr o dia todo e de hoje com amanhã.
- Apareceu no carnaval o bloco, o rancho, o cordão, a tribo, a escola, a agremiação.
- O teatro do bonifrate, fantoche, títere, boneco.
- Verdades com anexins, provérbios, máximas, ditos e nem ditos.
12-superestimar.
A filha de Aline se acomodou na pedra e falou com o riachinho arroio Feitoria. Os pássaros pululavam vieram mais perto, japu-vermelho, parurus, saí-açu-azul, canários-da-terra... O sol foi passando de hora em hora. A brinco-de-princesa falou balançou:
- Um minuto.
A moça olhou admirada e retrucou, aduladora:
- Conforme.
Acordou com os cabelos curtos ruivos e vontade de brincar de nuvem branca. Lá embaixo na calçada da avenida Cafelândia observou o pé de jurujuba e pensou. Contou os carros na avenida os quais passavam e faltavam uns oitenta mil. Pronto, que as árvores cresciam até o nono andar. Antes da tarde cair as árvores carregaram, pendiam os galhos os araçás em março.
Cansada da mesma cor dos olhos azuis ou verdes, a filha de Aline viajou até São Carlos. Lá conversou propostas com algumas figuras. Cada pessoa, inclusive a guria, tinha seu lado verde e seu lado maduro. E ela conheceu flores e plantas anônimas. Pedras trancadas em caixas de vidro. Ossos em gavetas de geladeiras. Visitou um lago barrento, deu voltas e nem perguntou o nome. Subiu e desceu escadarias sem dizer: “boa tarde!” Leu um capítulo de livro, para o futuro.
O dia veio vindo sem as nuvens e foi se servindo. E tesoureiras, tico-ticos, almas-de-gato, andorinhas, teiteis... Faltavam aviões no aeroporto, automóveis sob os viadutos, trem bala de Belém a Porto Alegre, satélites artificiais, submarinos nucleares.
Apareceu a manhã de dezoito de fevereiro ou janeiro. O vento também amanheceu arisco solto vigoroso e foi se tranquilizando vitorioso com a saída do sol forte. Tudo em Campo Grande. O passaredo se atirando e algazarrando para todos os lados e tons. Tribo xambioá aparecendo na tevê desde o bairro Messejana em Fortaleza. O chão evaporava sob aquele sol alto escaldante abrasador centro-oeste. O bate-estaca que nasceu já encontrando na sua vocação de passarinho cantor dos melhores. O sol tinia tilintava trescalava de quente. Os urumutuns gargalhavam pelos palanques galhos montes de cupins, as lavadeiras-de-cabeça-branca estrilavam nos galhos desfolhados mais altos da quixabeira. O tempo, porém, se encarregaria do resto.
O que é a chuva, bomba de água, fuzilaria elétrica, saraiva, trovoadas de sacudir o prédio a rua a calma, e o vento açoitando, agitando, sacudindo, ondulando, assobiando, rangendo, estalando, abraçando as árvores plantas verduras plantações, rua da Quitanda em Rio de Janeiro.
12-supersistema.
Frases sentenças de Pedro:
- Concertos orquestras coros cartazes festas matrimônios almoços para de vez ensurdecer os ecos da serra do Caraça a cidade de Passos.
- Uma lua para cada um uma de muita platina, uma vez.
- Já disse que as coisas as utilidades os utensílios as matérias vão e vêm sem que se possa fazer nada de bom.
- A tranquilidade de Buda encontra no respirar, a totalidade de Buda alcança na paciência: felicidade.
- Enfim, eu nem entendo de uma coisa e é tudo.
- Carro bom novo em folha pegou a larga avenida Marquês de Tamandaré e agora a rua do Guaracavuçu.
12-superveniente.
Pouco antes da era da internet, do telefone móvel, do advento das lojas de conveniência junto aos postos de gasolina... uma quinta-feira de calor e pouco vento, 18h e 18min.
O pai Bateira Covo Gurinhém chegou em casa e... olhando firme a mulher dona Ana Ricarda Jereré adquirido Gurinhém, perguntou (ouçamo-lo):
- Você tá tremendo de frio de febre de frevo de sono?
A esposa que disse, senão vejamos:
- Não, é de hilaridade.
- Por quê?
- As gurias nem me deixam ver a novena bíblica.
- São os novos hábitos e costumes. Uma moda vai e outras vêm. E deixa comigo que eu tenho um plano b, letra minúscula.
Depois, eles todos, a família toda padronizada, resolveu que iriam às águas termais em dia de domingo aproveitar o verão as águas as piscinas. Um dia de outono nem pra lá nem pra cá nem tanto frio nem muito calor. Domingo próximo.
Pelas onze horas, quando o sol já batia de chapa nos paralelepípedos da rua Arthur Cezar Ferreira Reis, bairro Mangarito, mais adiante já nas terras vermelhas dos sítios à beira estrada linha Gamboa, a família Gurinhém rodava contente rumo do rio da Prata. E todos olhando a paisagem de mata nativa, caavurana, alfazema-brava, macaibeira, jandu, anileira... várias delas em espécies, e por enquanto.
Azul ou verde e dourado. Exatamente.
E cada guria gostava de um cantor, um ator, um jogador, uma cor, um perfume ou cor de perfume, uma cidade no país ou fora do país ou longe do planeta. Uma nem tava nem aí e olhava as árvores passando sem parar, pinheiros-do-paraná, tento-amarelo, mucajeiro, guatambus... e sem perceber sem se dar conta sem ver. Precisava pouco mais que ainda.
- Um dia vou conhecer o rio Ibicuí o rio Goitá o rio Tapacurá, é.
- Vou irei pra Timbaúba pra Angico pra aldeia dos macu-iuhupde.
- Me lembro como se fora anteontem. Eu era uma menininha tão galante e tinha um trem um rio um trem acompanhando o rio, etc., por ex.
Era da idade da escola pra casa e de casa para a escola. Mas havia fins de semana. Passeios em algum lugar da cidade, aniversários, sons da galera, festa de São João, gritos de carnaval. Só não gostavam de comer verduras e legumes e dormir cedo.
Perto de uma altura, capitel de São Cristóvão, a menina Ana Emília, exclamou:
- Olha ali! O rio da Prata corre já bem limpo e de prata lisa!
As gurias eram quase iguais no rosto e altura e idade, embora. Uma escadinha bonita e agradável e sorridentes a maior parte. Mais conhecidas ou distinguidas pela cor do cabelo penteado amarras arquinhos fitas, vários.
- Eu acho legal ir à praia de Torres. Lá houve já até imperador D. Pedro I - disse Ana Paula.
- Mas a praia do Cassino é bem maior extensa e mais cheia de dunas - rebateu Ana Emília.
- As de Garopaba têm consequentemente os mano surfistas, etc - foi a Ana Carolina.
Iam atrás no carro e se falando de vez em quando. As três nos melhores dias: quem tinha melhores tênis, quem tinha melhores óculos escuros, quem tinha menores biquínis, quem nadava melhor, quem mergulhava mais longe, quem olhava debaixo da água. E prometendo. E apostando.
Ao chegarem nas águas, nem já continham mais a ansiedade, os olhos arregalados, até a euforia, várias sensações agraveis ao mesmo tempo. Correram as três para o primeiro lugar. No fundo do cenário, lá para dentro das piscinas, a zoada do povo, a gritaria dos banhistas, o vozerio da multidão. Podia estar já tudo lotado tomado indisciplinado, perfeitamente.
Mas, nem não. O que dali para dentro conta, para as gurias, são os carinhas e quem as olhará e de que modo e de quando em quanto.
O sol estava por toda parte azul magnífico, as piscinas cheias de azul e banhistas e gritos e urros e assobios, uma algazarra total. E quem ia e quem vinha. E música ambiente de dupla sertaneja e os pássaros das árvores, papa-capim, xexéus, curiós, casaca-de-couro, curicacas-de-pescoço-branco...
Tipos de gente pulando dentro da água, nadando, gritaria, espadanando água por todos os lados, gargalhadas, qué! qué! qué!... amizades encontradas.
E a tarde ficou muito cansada para uma tarde perfeita de sol e céu e água e gritarias o tempo todo sem parar. Convenhamos.
12-supersubstancialidade.
Com as palavras de Aline: conspícuo, auspicioso, profícuo, diletante, inaudito, epiceno, chão-parado, xará, ancila, galeio.
12-superpositivo.
O pai do Joel atravessou por baixo da latada de viuvinha ou viuvinhas. Fazia sombra gostosa e acalmou um pouco, procurou um banco, nem queria assustar os joões-de-barro que procuravam o de-comer. Sol curtindo o verão e o asfalto da cidade impulsiva.
Um piá magro como um papel foi subindo os lados da praça. Tinha três dentes para fora e sorria sem parar sem necessidade sem querer. Os olhos maiores que duas bolas de tênis. Tinha pouca trajetória e ia fazendo outras pequenas histórias e fantasiando a sua grande história até concretizar a história como um todo. Lendo seu pensamento, que passou rápido, ele queria ganhar de presente um cavalo alazão e de corrida. E dizia de si para si antes de qualquer coisa, contente, somente débil, subitamente:
- Nem quero carro não quero avião nem quero barco não quero viagem tudo pago para Caiabu e Flora Rica, quero isso sim um cavalo de nome Marcial que me reconheça.
A praça dos Mártires recebia já o sol no dia alto. O arroio Duro descendo desde o morro da Borússia. Um laguinho com burburinho de água caindo de cascatinha artificial. Uma garça-branca fazendo exercícios matinais. Os maipurés esperando o dia a dia. Pés de curuatás, salvas-de-marajó, caaguaçus, ajubas... vegetando ao sol.
Ninguém tinha presente que era ela a beleza Siriúba dentes brancos brancos e com o que mais. Ao mesmo tempo era calma e agitada. Um pano verde redobrado segurava os cabelos ruivos. Nariz azul, olhos verdes, cabeça e pescoço e o corpo todo verde, orelhas de samambaia verde. Quando sonhava virava invisível. Viajante da estrela longa longa cabeleira desde a terra até a noite. Andava perdida no vento com requebros de peixe. Tranquila como a praia do Hermenegildo, uma praia no Espírito Santo, marolas. Era ela de movimentos vegetais. Guria por dentro e bonita por fora. Perfeita minuciosa mimosa. Pendiam duas maduras bergamotas na frente ondulando. Era ela que sabia que ninguém mais nem existia. Nunca se viu ninguém que a tivesse visto primeiro. Mexia objetos, vestia calça apertada, almoçava fora com as pernas encavaladas, olhava no espelho para colocar o brinco, natural de Arroio Grande, ensino médio com-ple-ti-nho. Cheirava cinco seis cores de perfumes sete oito tipos de sabonetes nove dez desodorantes. Olhando para trás como passarinho fruxu, ela percebia que a tarde falava coisas no seu ouvido e que a fazia rir. Ela Siriúba elegante fazia tudo para aparecer gostosa mas nem queria sexualizar. Nem parecia estar ali.
Um camarada de camisa aberta e de bicicleta equipada entrou pela praça dos Mártires pedalando anunciando no seu alto-falante, anunciou:
- O vice-rei do B, em Olinda, de nome Jacuba Icpengues, pretendeu casar a filha Jandaíra com um grande mercador dos cinco rios seis lagunas sete oito mares. E ele pensou nisso muitos dias e noites ali andando pra lá e pra cá no jardim no terraço do seu palacete da rua Campo Magro.
“A filha, porém, nem concordou e, às escondidas, casou com o filho Abaité do pedreiro-mor a quem amava muito.
“Então, o vice-rei expulsou a filha de casa e a deserdou. O filho e auxiliar do pedreiro-mor por sua vez assassinou o vice-rei e tomou as terras e o cargo que a esposa tinha direito.
“Jandaíra, a filha do ex-vice-rei assassinado, e o assassino Abaité, filho do pedreiro-mor, governaram o Pernambuco e tiveram dois filhos: Ayty e Ira, e duas filhas: Iu e Puçá.
“A fulana de nome Iu, sabendo da história horrível dos pais, decidiu vingar o avô e matou os progenitores assassinos. Por sua vez, os seus três irmãos a perseguiram e também deram cabo da assassina dos pais patricida.
“Desse modo dividiram o reino em três partes funcionais. Puçá ficou com a parte do litoral; Ayty ficou com a parte da zona da mata; Ira ficou com a parte da caatinga. A caatinga era maior que a zona da mata que era maior que a faixa litorânea. O litoral era mais rico que a zona da mata e esta que a caatinga. A caatinga tinha cavalos e cabras, a zona da mata tinha carros de boi transportando cana-de-açúcar, o litoral tinha navios e praias para turistas daqui e de fora. O litoral tinha muito pré-sal junto à plataforma continental, a zona da mata tinha muito agronegócio, a caatinga tinha muita caverna pré-histórica de valor incalculável com direito a patrimônio da humanidade. A capital federal do país da zona da mata era Presidente Prudente, a capital do litoral Quaraí, a capital do sertão da caatinga era Votuporanga. Tudo parecia lógico. Tudo aos cuidados do planejamento.
“Os anos e anos foram passando e transcorrendo com muito o que fazer. O mundo foi dando voltas e batendo no barranco de terra vermelha. O barranco do tempo desmoronava um pouco a cada ano e gostava muito muito de fazer farinha de mandioca tapioca. O mundo calado e nem dizia nada pra ninguém. Todos que iam e passavam por dentro do buraco da agulha iam e nem voltavam mais. Com certeza alguns até que retornavam em forma de urundeúvas, por exemplo.
“Olhe só o que as coisas aconteceram e prosseguiram progressivo!
“Por volta do dia 3 de dezembro de 1659, Puçá se apaixonou infinitamente foi algo fulminante repentino por um ente que se transformava em rio encachoeirado no inverno e que cruzava as três regiões para desaguar no mar Atlântico. Um colosso.
“O mesmo ente, de nome complicado Pará, que no verão se convertia num jegue, desejou vice-governar com Puçá os três Estados todos totais. Assim mandou um bando de caracarás caçar e matar os dois irmãos da esposa e com seus todos descendentes. A história parecia se repetir mesmo embora o círculo nem estivesse fechado ou se fechando, ainda.
“Um dos irmãos, o de nome Ayty, escapou da perseguição das aves de rapina e se escondeu nos subterrâneos da cidade do Recife. Ali, úmido obscuro, aguardou os acontecimentos e enquanto isso arquitetava sua volta e sua vingança e sua desforra e sua farra. Procurou se ausentar um pouco e quem sabe seria esquecido, etc., para voltar mais forte e com a estratégia da surpresa.
“Trinta anos, então, se passaram. Três décadas sempre é muito tempo. Até mesmo para quem só pensava em doce vingança. Trinta anos não são trinta dias.
- Fico aqui procuro acho e faço sempre os preparativos - dizia o Ayty.
“E Ayty pensava muito em cobrar toda essa conta. As cavernas e buracos e túneis de Recife já o deixaram, sim senhor!, com cara de rato-da-taquara e olhos e sorriso de morcego frugívoro carpófago.
“Assim, num verão rigoroso atípico, Ayty juntou um bando de jagunços armados até os dentes e saíram da escuridão lamacenta. Preferiu optou por caminharem de noite para já se acostumarem com os espaços abertos e o ar mais solto. Aproveitaram bem a noite para reconhecer a cidade e andar muito por ruas e bairros. Matar as saudades antes de outra matança mais grave. E na manhã imediata... sem parada para o café da manhã...
“Ayty e seu bando invadiram o palácio dos Leões e mataram o vice-rei Pará e sua esposa Puçá, irmã dele próprio Ayty. Ayty reconquistou o vice-reino, se apossou do vice-reinado, se fez vice-rei do B absoluto sem inimigos aparentemente. Apareceu na varanda do prédio e acenou para a multidão que correspondeu. Prometeu muitas coisas, principalmente acabar com o jogo do bicho e a falta ausência de teatros populares.
“Isso, quem sabe?, até que os sobrinhos e filhos e filhas (de Puçá com Pará assassinados por ele Ayty), crescessem e se unissem e tramassem a revanche. Porque a história continua adiante.”
E, depois, quando o pai do Joel despertou, tinha a sua disposição na tarde uma sombra gigantesca de pinheiro-do-paraná. Logo em frente no meio da praça. Os pinheiros araucárias típicos da região, admiráveis pela inteligência importância imponência e proporções que sempre adquirem. Os frutos servem de rico alimento a muitas famílias de humanos e de animais e de insetos. Altos, monumentais, orgulhosos, cheios de si e de galhos robustos e taças espinhosas, por demais atravessando décadas de uso contínuo. Maiores de todos e de todas as árvores da mata, esplendorosos, todos muito prestigiados e poleiros favoritos das aves em geral ariscas, pacíficos. Fabricam por conta própria uns frutos muito apreciados no inverno sementes muito substanciais nutritivas das gralhas-azuis, curicacas, jacuguaçus, arapaçus-de-bico-preto, grimpeiros, quatis, tatus-mulitas, bugios-pretos, etc.
12-supervisor.
O filho do Gaudêncio estava perdido estava perdido no meio da floresta subindo e descendo montanhas. E já se parecia com um fugitivo, um bicho condenado um animal muito louco, etc., sedição, motim, sublevação. Nem via gente fazia seis meses e oito dias. Muito longe das fazendas e a cada dia mais longe mais e mais perdido.
Era o último dia que comia tantas pitombas, goiaba-do-mato, gabiroba, sete-capotes... Era o último dia que caçava tantos grilos debaixo de galhos podres, tanta formiga tracuá, tantos mangangás... Era o último dia que colhia tantos ovos de passarinhos e aves do banhado.
À noite não tinha o que aguentar de ruídos enigmáticos e variados e entonados. Na escuridão nem tinha o que ver e os olhos acesos dos bichos que o vigiavam noite toda. Na madruga nem podia dormir com insetos e aracnídeos a subir e descer seu arrepiado corpo. Na calada do breu não tinha o que o fizesse suportar os esturros e uivos e chamados das feras onças-pintadas e dos sorrateiros lobos-guarás.
Nem se acostumou sozinho com a noite toda e os fantasmas sempre do mesmo jeito amedrontando. Prestava atenção em tudo fantasmagorias a sua volta absolutamente.
Parava no rochedo procurando ovos de pássaros rasteiros, douradinhas, chorrós-bois, terém-teréns... Parava na fonte para a água boa e limpa e pura. Parava para subir no alto do pé de azedinha a fim de se proteger do chão da noite dos répteis.
Muitos meses, muitos pés machucados, muito corpo todo riscado e lanhado e lascado, cabelo e barba longo longa, o frio cortando sem cessar, chuva nas noites sem fim nem começo; mundo desconhecido, mundo difícil.
Sempre prevenido, andava as trilhas e restingas e passos com umas pedras amarradas no cós do calção, uma estaca fazendo as vezes de punhal, um espeto para a fim de lançar, etc., por ex.
Foi descobrir alguns peixes incautos na sanga os surubins-limas, bagres, piabinhas, traíras... umas aves inocentes nos galhos os guaxes, tietês, pia-sóis... uns lagartos tontos pelo calor e sobre a laje... para ver se mudava um pouco o cardápio. Espreitou filhote de macaco, filhote de ema, filhote de tuiuiú, paturis... e chupar o sangue.
Provou outras coisas para provar que merecia continuar muito tempo ainda, e cuspiu fora a maior parte.
O mundo amanheceu e o sol pôde notar que era tudo tão espaçoso rio Guajará-Mirim, e para todos. As normas da casa, sumaúmas, tentos-amarelos, araticunzeiros, cauchos, capim-chatinho, lebre, gavião-pinhé, puruís-grandes-da-mata... e dali em diante como D quer.
12-superpule.
A filha de Aline nem podia imaginar sem chocolate em de por barras. Cacau da Bahia, do Pará, nunca se importou, exportavam. Chocolate chocolate seja com o recheio que for e natural de onde mais for. Chocolate de que forma ou com que forma. Mas principalmente chocolate em de por barras, que era mais prático. E depois, sorvete de chocolate. E chocolate quente no frio do inverno do RGS gelado antártico. Dizia sempre para as colegas de profissão de sorte de voo:
- Quer me fazer um regalo a mais? Chocolate chocolate no más!
Então, ficou ouvindo música popular brasileira urbana, mpbu. Já tinha seu gosto matriculado registrado e passado a limpo. Ligou o rádio e telefonou para a estação elogiando o programa e entrando ao vivo na programação e falando com o locutor e até rindo muito pedindo músicas desejando alegrias a todos os ouvintes e lembranças às colegas de profissão, a fulana, a sicrana, a beltrana, mineira, cearense, neopratense, Jandira, Janaína, Inaê... E cantou junto com a canção da rádio, soltou a voz no apartamento, falou sozinha na tarde praticamente toda. Nem tinha muito sossego aquele dia porque rolou muito no chão, a forma apurada e flexível, rolou demais na cama e tomou muito banho de 3h direto.
- Que cor seus olhos? Nem pude ver, nem pude rever...
Já estava totalmente agitada e pressurosa. Tinha que ser naquele dia! Perderia o voo para Campo Grande? De Campina Grande com conexão em Campinas para enfim Campo Grande. O trânsito engarrafado lento, a chuva alagando os trechos mais importantes, o acidente no viaduto com caminhão carregado de morangas maduras. Formigas tocandiras ou baratas de casco grosso carregando morangas maduras para suas casas com grades nas janelas parecendo prisão federal. Os ombros cheios. Pelo menos duas por cada.
- Você viu que chuva.
- Que chuva você viu.
Em Estrela, perto de Lajeado e Teutônia e Caém, ela andava na bicicleta e à vontade. Sem disfarce, sem maquilagem, sem roupas da moda, sem joias, sem tecnologias. Clima tropical, distrito de Novo Paraíso. A cidade rodo-hidro-ferroviária, cidade do festival anual do chucrute era legal com ela e vice-versa. As ruas muito calmas e comuns, quase todas calmas de muita tranquilidade. Tinha uma bicicleta sem garupa e muito lilás. Divertido pedalar pela manhã, nas manhãs do porto Estrela. Parava sempre no mesmo ponto tal, trilhos da ferrovia do trigo ou ia até o aeroporto. Para apreciar o rio e ficar olhando a paisagem. Um lugar aprazível. Tudo bem pronto desde o tempo dos dinossauros e já servido pelo mundo. Ficava ali toda descabelada, desalinhada, trocando beijos com o vento nordeste.
- Onde se viu a chuva.
- A chuva onde se viu.
Pintou uma tarde no shopping Brisal por uma tarde com aquela cor aquele odor de corno que só pensando muito pensando bem. Trocou um fim de semana em Macaé, por um fim de semana em Vassouras. Alterou a visita aos museus de Petrópolis, por uma pedalada na beira do mar de Ipanema. Substituiu uma operação de mamas e tudo pago, clínica de Botafogo, por uma tatuagem na ilharga e tudo pago, clínica em Duque de Caxias. Bacabaís são plantas espetaculares mas muito pouco procuradas.
Depois veio o entardecer e as estrelas de diamante e ouro e visão e etc. Embaixo tinha uma entrada de mar ou enseada ou pessoas andando simplesmente se banhando que parecia o primeiro capítulo. Era tudo novo e diferente e possível e Lagoa da Conceição. A tainha já nem andava escassa.
Estava pensando plantar os araticuns-do-mato e as sete-capotes e as pitangueiras no sítio em Estrela. Terras de muitos pampas e coxilhas e sentinelas. Aí, sim, ia chover nas épocas as tesoureiras, beija-flores-cinza, os curiós, os anambés-azuis, japiaçocas... Quem sabe nem veria por lá uns tucanos-de-bico-verde, uns nambus, saracuras, umas seriemas, uns tatus-canastras, graxains, uns bacuraus-pituís... estava com o ambiente deles.
- Quando foi que a chuva viu o sol.
- O sol que viu quando foi a chuva.
A filha de Patrícia nem sabia explicar pra ninguém. Mas ela elegeu a terça-feira como seu dia da semana mais propício mais preferido mais amigo ou amiga. O melhor dia da sorte e o mês de dezembro com as festas se aproximando as férias se programando. E olhou o céu côncavo. E pensou visitar os índios da tribo juma. E pensou que Buda já foi e nem voltou porque também tinha se achado perfeito.
- E a chuva que se viu no verão tropical.
- E no tropical verão que a chuva se viu.
Mês passado já ficara parada no vento e gostando imenso respiração profunda. E ficara por lá se gostando como nunca, se abraçando com força e fechando os olhos de alegria de sucesso de criança de bonita de apetitosa. Se achando com um sorriso no corpo todo, pele arrepiada. Os cabelos novos, principalmente. As pernas roliças. O vim-vim disposto cantando nas ramas da ipeca-de-cuiabá. Os cabelos alçados com cachos nas pontas, encachados. Um sorriso de pérolas.
12-supernaturalidade.
As perguntas de Paulo:
- Veja bem aí se você já nem caiu resvalou levou um pealo um tombão no meio da rua de todo mundo?
- Por que nem tentar a mais próxima e bonita?
- Mas nem terá a noite também desaparecido?
- Quer saber de duas coisas do tempo ao mesmo tempo?
- O que vai acontecer com cada qual o seu rio do Vieira e tributário?