Num
bom dia claro, Alice, a filha Marcelle e a amiga Margarida, chegaram à Bahia,
São Salvador da Baía de Todos-os-Santos. Tentariam ali outras alegrias. Tá
certo, foram na escura, foram na sorte, foram na loteria. E puxaram dois meses
até que arrumaram um emprego. Assim a conjuntura. Quem descolou o trampo foi
Margarida, num evento de turismo, ela falava muito bom o turco e o ucraniano e
o persa. Bahia de todos os baianos e santos e orixás. A cidade era tudo, as
ruas eram automóveis, o dia era da chegada, primeira olhada, as sílabas
esticadas ao máximo:
- Oooooooh!,
mãiiiiiinha...
Os
ventos - nessa altura do país - podem ser fracos para médios e chove
intermitentemente. Na Bahia o vento, a maré, a lua regulam a sorte dos
pescadores.
Quem
vem de fora vê a cidade pronta; quem nasceu na cidade sabe que a cidade carece
de uma ponte, um ancoradouro novo, uma estação de metrô, uma praça a mais.
Então,
o ano de dois mil e quatorze já tinha oito dias de vida. Obrigação as pessoas
carregam de ruminar as ideias, pastar os olhos no azul, andar, correr, viajar.
Alice
cuidava da casa e educava, em detalhes, a filha Marcelle. Marcelle que repetia
às vezes elétrica, às vezes distraída, às vezes ainda sardônica, às vezes
fingida:
-
Já sei, já sei!
As
turmas dos homens pretos, árvores pretas, tambores pretos, já dominavam os
morros que dominam a cidade. Fizeram parede contra o sol. A tarde caiu. O sol
sumiu. A noite entrou de boca aberta e mostrando estrelas. Nem assim a cidade
se aquietou. Praça Castro Alves um remoinho de brincantes, berimbaus, tambores,
pandeiros, caminhões elétricos.
Porque
o vento despertou o mundo, passou sobre o mar, e sobre o oceano, passou sobre a
floresta, e sobre o pasto do gado, e sobre as cidades o vento passou, passou
voando como um carancho, e passou em redor dos cabelos de Alice, entrou pela
boca e saiu nos ouvidos, entrou pelo nariz e saiu nos olhos, ela ficou
estupefata.
-
Eu sei que meu olhar é do outro mundo. Fundo que afunda.
Tem
um vento que percorre estradas, teve um outro vento que gostou de coxilhas e
canhadas, o vento que entrava pelos arvoredos.
Margarida
se sentia melhor sustentando a casa, eram uma família, e quando Margarida
chegava cansada, sempre cansada e satisfeita e com bombons, beijava Marcelle na
ponta dos lábios, dizendo também:
-
Ai, gente, olha, estou num dia mais pra lá que pra cá.
Alice
pegava e ia à feira, Marcelle cavalgando o seu quadril, e dia sim e dia não
fazer as compras, parava para ver o preço do tomate, do amendoim torrado, do
caju a granel:
-
Sabe lá o que é isso, filhinha?
-
Já sei, já sei!
O
preço do maxixe, da alface, da escarola, da endívia, da abobrinha paulista. E
pegava, apertava, cheirava, a mesma coisa com as frutas. A amora preta
silvestre custava os olhos da cara. O coco verde, o pequi, o abacaxi, a maçã
verde para que Marcelle crescesse com dentes saudáveis. Apalpar frutas e
apalpar legumes e conferir verduras e tatear grãos. E saía da feira já sabendo
o que aconteceria no almoço.
Marcelle
encontrou umas pedrinhas brancas e começou a bater papo. Depois, uma imbuia
jovem e bate papo. Logo mais umas formiguinhas nervosas atarefadas e bate papo.
Formiguinha correndo, carregada, apressada, trabalhando, vermelha.
Certo
dia apareceu em casa um buquê de rosas amarelas, e vindas sabe-se lá de onde,
ninguém sabia, da praia ou da zona da mata, da ilha ou do continente, e as tais
rosas amarelas bateram à porta de Alice, por trás um rapaz da banca de flores,
e os dois se olharam.
-
São pra mim?
-
São pra você, Alice.
-
Como soube que eu adoro rosas amarelas?
Por
estrada comprida, vermelha, desidratada, ensolarada. Um sol muito útil, um
vento suave, uma estrada poeirenta, árvores passando, uma pequena ponte,
árvores umbrosas, passarinhos pendurados em galhos, fios elétricos, palanques,
casas espaçadas cada vez mais longe da cidade.
O
floricultor levava as moças, uma vez ou outra, para passeios na granja onde
cultivava rosas amarelas e muitas outras espécies, bromélias, orquídeas,
onze-horas, margaridas, dálias, três-marias, mosquitinhos, lírios do campo,
camélias, rosas vermelhas, cravos roxos, dentes-de-leão, cristas-de-galo. Lá as
moças cheiravam as espécies, as cores, perfumes fracos, picantes, fortes,
doces, suaves, amargos, nacionais, exóticos, num longo domingo onde só se via flores
em toda a paisagem. Flores e borboletas e besouros e escaravelhos e
beija-flores e nuvens brancas. Também muito mais abelhas e vespas.
-
Há muitas pessoas que não passam um dia sequer sem flores. Precisam tê-las em
casa em vasos com água, em vasos com terra, em canteiros, em floreiras na
janela. Querem olhar pelo dia todo as flores de cores. Gostam de presentear.
Amam as cores e as presenças e os aromas. Aí, então, espalham vasinhos pela
casa toda. E estas flores sempre atraem abelhas, besouros verdes, beija-flores
verdes de coleira branca e testa preta, zebelinhas pulcras, doidas e
translúcidas.
-
Zebelinhas doidas? Por quê?
-
Dizem elas mesmas que não se chamam libélulas nem helicópteros.
Bem,
mas então, um dia baixou a chover e não parou mais. Dia e noite chuva sem parar
e mais chuva, chuva que chuva. Choveu muito e ainda não chovia tudo o que era
capaz. Chovia como nunca. Chovia de dar gosto. Choveu dias incontáveis. Dias
infrutíferos.
-
Tst!, se me contassem que as histórias se repetem...
A
manhã acordou procurando uma clareira, mas ao olhar o céu baixíssimo... chuva.
Cerração no morro, chuva no couro. Nem a terra suportou ter que beber tanta
água. Soterópolis, então, começou a boiar, as ruas criaram rios, e os rios
pegaram ondas da pororoca. Peixes doces naufragaram no mar, e peixes salgados
encalharam na foz.
-
É o desequilíbrio ambiental global?
-
Talvez, quem sabe.
- Não, aqui
não, nunca ouvi falar.
Alice,
aproveitando o dilúvio, saía pouco de casa, numa extrema necessidade já alugava
um bote para ir à feira, o rapaz das rosas amarelas não aparecia, as chuvas e
as águas encheram as medidas das paciências, talvez o planeta todo estivesse
debaixo da água, se afogando, as coisas naufragando, boiando, a água e a lama
invadindo lojas e residências, vários pontos de alagamento, sábados ou
segundas-feiras.
-
Isso é o que dá! Efeito estufa, brincar com a mãe-natureza! Aqui se faz e aqui
se afoga!
-
Taí, vamos e venhamos: viraremos anfíbios!
Alice
mesmo, só por ela, gostava de ver a chuva, a bênção dos céus, apesar que muita
água aqui podia fazer falta ali e acolá, o sertão viraria mar e o mar viraria
pedregulho. As pessoas até se esqueceram do sol, dançavam para parar de chover,
o trânsito de peixes engarrafava nas esquinas, cardumes de jundiás invadiam os
armazéns de secos e molhados. Marcelle por trás do vidro da janela:
-
Já sei! Já sei! E os botos-cinzas?! E os golfinhos satisfeitos?!
Um
perigo o anúncio de piratas, bandeiras com caveiras sobre duas tíbias,
corsários, bucaneiros e seus galeões, caravelas, bergantins, naus ou fragatas.
Invasões de franceses, holandeses, paranaenses, tocantinenses. Uma garça-branca
alta como um bambu, seca como um caniço, voz de taquara.
O
sol apareceu dois e três meses depois. Mais uma semana ou duas, um mês, e
então, foi como destampar a banheira. A água acumulada, ou a que transitava por
todas as ruas, foi se escoando, puxada pelo rabo. A cidade foi se secando ao
sol. Se estabeleceu uma trégua entre o céu e a terra. Tudo que andava sobre a
terra voltou, as árvores voltaram, os prédios, as ruas, os carros e as pessoas
que agora já tinham visto um dilúvio e podiam contar às futuras gerações. O sol
voltou enchendo a terra com seu bombardeio de luzes, cintilações, dourando os
prédios de vidro do centro da cidade, da cidade alta, da cidade baixa. O mundo
tomara banho e agora esperava secar os pés.
Alice
e Marcelle foram ao aeroporto se despedir de Margarida. E Alice sorria quieta e
Marcelle sorria e Margarida sorria distraída. Esta queria retornar a Curitiba
por questões já pensadas e ditas, e disse mais estas palavras:
-
Quanto mais quero fazer o que quero, mais faço o que não quero. Para tantos
caminhantes o mundo é exigente e caprichoso.
E Alice
acordou, dizendo:
-
Que posso dizer além do que já disse?
Amigas
são amigas, embora, esportivamente, não precisam ser cem por cento. E vestidas
com camisas de futebol de times rivais.
O
avião virou para o fim da pista, correu fazendo a terra e o céu cair, subiu no
ar e foi foi sumir numa esquina de céu azul e poucas nuvens, sobre o Atlântico,
voando na rota dos petréis, talhamares, mumbebos, albatrozes... Alice e
Marcelle ainda se entreolharam em silêncio, Marcelle, esta, falou:
-
Já sei, já sei!
- Vem que a
mãe compra uns cajus dourados de dar água na boca.
Alice
soçobrou contemplativa, ensimesmada, por duas ou três semanas, e já era o
suficiente. Marcelle dormia cedo para levantar de manhãzinha e ir à escola.
Então, Alice abria a janela e ficava olhando as estrelas ou a lua - quando
estavam lá -, até que, pensando uma noite até o dia nascer, achou que era bom,
e perguntou:
-
Filhinha, você gostaria de ter uma avó de estimação?
Uma
tarde no shopping, logo no meio do almoço, Alice sentiu um vazio em outras
partes do corpo, algumas sensações mal amadas, uns incômodos no íntimo, uma
falta de mão pesada pelos quadris, uma falta de puxão no cabelo. E também uma
imensa carência de abraçar Marcelle. Assim, correu para a escola, chegou cedo e
abraçou a filha. Já em casa:
-
O que você fez lá hoje na escola?
-
Já sei, já sei!
-
E o que mais?
- Primeiro a
gente saiu para abraçar as árvores do pátio... E a professora disse: Abracem a
pitangueira! E os alunos abraçaram a pitangueira...
Assim,
as duas sentaram no chão da sala, brincaram, riram. Alice olhou os desenhos no
caderno, Marcelle falava, Alice reparou a letra fácil de se ler. Gostou muito
disso porque comprovava que a filha era calma, sossegada, paciente e daria uma
aluna estudiosa.
-
De todos qual o desenho que você mais gosta?
-
Já sei, já sei!
Os
pés de Alice sobre o mundo, tomou mais um bom banho e se deitou e sonhou,
abraçou os pés. Preso ao pescoço, acariciando, o muiraquitã de pedra verde com
cara de sapo. Pés leves de asas nos calcanhares. Pés caminhando na entrada da
estrada sobre tapete vermelho e mais fofo. Uma estrada de terra batida,
vermelha, desenxabida, cheia de paisagens e festival de passarinhos saltitando
e chilreando em tucuns, sibipirunas, jacarandás-da-bahia.
Seis
horas já manhã fazia tempo, o sol já maduro, o vento nas árvores. Alice vinha
com Marcelle pela feira na manhã, e Marcelle apontou:
-
Já sei, já sei!
- É mesmo,
filhinha. É o moço das flores.
Alice
reconheceu o ex-floricultor, agora atrás de uma banca de peixes. Disfarçado e
sumido atrás de um bigode que não era para disfarce. Um ser humano ameno, outro
sim, afável, e mais outro sim, cordato. A última vez que conversaram fora
naquele dia antes do dilúvio. E o próprio peixeiro contava que a enchente
acabara com as plantações de flores, e que lhe veio, então, a ideia de criar
tucunarés em tanques.
E
mais um dia, depois da aula, Marcelle ensinou tudo que aprendera à mãe Alice.
Marcelle nasceu passarinho emplumado, depois, com os fatos, se tornou um
passarinho plástico, mais tarde, outra fase, virou um passarinho de metal,
quase um avião. Para perto de ir dormir, Marcelle virou uma boneca de pano. Uma
coisa ou quase uma pessoa. Mas por enquanto Marcelle, ainda bem, continuava
passarinho ronronando. E Marcelle parecia não se importar.
Um
dia a cidade se mobilizou e foram todos plantar ibirapitangas. Parque de
Pituaçu. Luvas verdes de látex. Quatro cinco para plantar um pezinho de
pau-brasil. Um tatupeba surpreendeu todo o mundo saindo da capoeira: ninguém
fez nada e ficaram estupefatos e de mão na boca.
Já
em seguida que o tatupeba cheirou e fugiu, Marcelle logo passou a se sentir
melhor. Um vento sacudiu umas copas de baraúnas. A menina ergueu a cabeça,
apertou os olhos para ver e ouvir e acompanhar. E ficou cuidando, acompanhando,
até passar. E ela ainda brincou com o pescoço, sacudindo a cabeça. Marcelle
andou, correu. Parecia uma potrinha branca, crinas ao vento. Parecia um
cavalinho preto voando. O dia foi tão muito bastante curto. Passeio de aspectos
fascinantes.
A
menina era um anúncio, era uma potrinha batendo as patas no chão, pastando,
esperando, relinchando e esperando. Cheia de atenções nos brincos, nos
pircengs, nas pulseiras, nas tornozeleiras. E descobrindo tudo que podia
significar cores vivas, pedras bonitas, louva-a-deus quietinho, cigarras
gritando no tronco do angelim-pedra. Um pai bem-te-vi cantou para imitar o
filhote, cantavam.
Naquele
dia e naquela hora em Pituaçu, não foi a primeira vez que Marcelle viu chover.
Mas sempre há uma primeira vez para tudo. E naquele dia e naquela hora foi a
primeira vez que viu chover caminhando ela mesma por dentro do aguaceiro. E ela
olhou a chuva de dentro da chuva, e adorou, e quis aproveitar.
Alice
não comunicou nada a ninguém. Recolheu de um anúncio um tratamento espiritual,
e que também era saudável para a postura corporal. Tudo isso induzida por um
lama tibetano de sotaque baiano. O pacote todo se chamava: Seita Muro de
Pedras. Que basicamente consistia em se sentar no chão, em posição iogue,
apreciando um papel de parede com desenho de certo muro de pedras. Muro este
fotografado no Tibete ou no Nepal. Um enorme painel retratando uma parede de
pedras num mosteiro antigo do Tibete ou de Sarnath. Também concorriam
exercícios de contorcionismo, tratamento com pedras lisas, com acupuntura, com
pétalas de flores coloridas, comida verde, recitação de mantras,
nhã-nhã-nhãs!... No fundo do universo um som indiano saindo de guitarra
grandona que ninguém nunca vira igual. Dizia o mestre baiano tibetano natural
de São Sebastião do Passé:
-
Vamos erguer o muro pedra por pedra? Vamos. Vamos olhar e sentir o muro? Vamos.
Vamos passar além do muro? Vamos. Vamos esquecer o muro? Vamos.
Alice
adorava o muro de pedras segundas, quartas e sextas. Nesses dias não se podia
contar com sua consciência ocidental, ultrapassada, uniforme, metódica. Nesses
dias de tais sessões Marcelle corria perigo de ser esquecida na porta da
escola, entregue à própria sorte. Alice ficava aérea, fora dessa realidade, zen
budista, abrindo os olhos para coisas além das coisas, metáforas vindas pelo
ar, suspiros de plantas. O corpo sintonizando outro planeta, acreditando no
sobrenatural, subindo os sete céus ao encontro do nirvana, voando por lugares
exclusivos dos deuses e deusas. O que era, evidentemente, sempre um susto.
-
Sou porque quero ser essa folha que se vê solta ao vento, presa ao vento,
seguindo o caminho do grande planeta, ouvindo um vento que não para, e que me
leva, me leva, leve e suave...
Bastou
as poucas sessões para que Alice se sentisse bem, e ótima, suficiente para se
obrigar na divulgação da mensagem e distribuir panfletos da Seita Muro de
Pedras pela cidade, e se vestir como uma monge, raspar a cabeça, adotar a dieta
macrobiótica, estender os potes para os vizinhos doar arroz ou macarrão,
economizar muito nas palavras, no máximo três grunhidos ao dia, até menos,
cabisbaixa, iogue, abstinência de carne, pois a carne era alegre, e havia
muitos livros para ler, e leu alguma coisa de filosofia oriental,
principalmente banhos frios nas noites ardentes.
Alice passou
por passarinhos azuis cruzando o céu em nuvens de confusão, bonitos de azuis,
azuis de não parar mais, cantores, mensageiros. Ela passou por árvores com suas
duzentas a trezentas e cinquenta mil folhas, contar uma a uma, agora as
caobeiras, as bergamoteiras, as ingaranas, as paineiras. Alice dormia nas
nuvens paraquedas. Alice tinha os olhos verdes ou azuis mudando de cor, mudando
para violetas ou lilases. E Alice tinha tudo ali, ali mesmo.
Moça
singela, Alice caminhava pelo Pelourinho, subiu, desceu, circulou, subiu as
paredes, olhou as janelas, se sentou no meio-fio, comprou um acarajé, abraçou
mãiiiinha e paiiiinho, parou na lojinha de badulaques, candomblé, entrou no
terreiro de mãe Anacleta, terreiro dentro de um enorme cajueiro:
-
Minha voz está quente, e meus pés de vento andam no vento e de cabeça para
baixo.
Sim,
de fato, não parecia que a cidade fosse toda essa dúvida. Igreja de Nosso
Senhor do Bonfim. Turistas sentados descansando nas escadarias. Amanhã outro
dia bem cedinho mais outra igreja também.
Marcelle
agora tinha os próprios cabelos para pentear. A menina também tinha o dia. E
elazinha tinha muito mais, muito pouco:
-
Já sei! Já sei!
Alice
estava vivendo por etapas, vivendo as etapas, vivendo correndo, viajando, ela
mesma sabia disso:
- O destino
que me leva, o mesmo que eu tenho, que não concorda comigo.
Alice passava
por pensamentos, passava por fatos, passava por cidades, passava por coisas,
passava por devaneios de memória: os matinhos ainda assoviando passarinhos,
pássaros feitos de sol, a guriazinha tem prazer em subir no pé de caiapiá e
esperar que a mãe a chame, chame, olhar a chuva cair, andar de bicicleta na
calçada, criança que brincava de manhã à noite. Uma fogueira de são João e umas
meninas por aí e os meninos querendo se exibir, um vôlei no meio da rua e umas meninas
por aí e os meninos querendo se mostrar, um som ou um baile no clube ou no
aniversário e umas meninas por aí e os meninos tímidos querendo se
aparecer.
Após
esses seis meses de nhã-nhã-nhãs!... sem saber de que jeito, Alice foi parar e
se sentar na mesa de uma pizzaria. Se sentou muito sim senhora e pediu uma
pizza muito incrementada e apetitosa. E já decidia, enquanto matava a fome com
o olho maior que a barriga, que nunca, nunca mais mesmo encontraria graça e
tempo para colecionar pensamentos e frases e provérbios e ditos e sabedorias e
gestos daqueles lamas que nunca vieram do Tibete ou do Camboja e nunca foram ao
Tibete ou ao Vietnã. Alice enjoara de muro de pedras e pose de santa ou guru ou
iogue. Porém, Alice ainda precisava dormir um pouco, muito, e acordar. Alice
precisava dormir para acordar. Nada mais que isso.
-
Eu, A de Alice, sou uma aventura ausente.
Alice
visitou o asilo Santa Marta, perto do forte de Santo Antônio. Frequentou uma,
duas e três vezes sem tomar a decisão. Alice já segurava na mão das velhinhas e
dos velhinhos e se inclinava para escutá-los. Fazia isso sozinha mais nos dias
de semana e, vez ou outra, na companhia de Marcelle.
Depois
das visitas, quase sempre, as duas voltavam a pé pela rua. Uma vez foi perto do
Farol da Barra, Marcelle viu primeiro:
-
Já sei! Já sei!
-
É um cachorro. Cão ou cachorro.
Marcelle
ficou... ficou assim esperando a ficha cair, e aí destravou outra vez:
-
Já sei! Já sei!
-
Tem coleira e anda sozinho. Então, é fugitivo.
-
E ele fala?
-
Não só fala como late, rosna e mia.
Inesperadamente
para os terráqueos, nem tanto para os astros e as estrelas, então, então os
rios começaram a se revoltar contra o litoral. O mar começou estranhamente a
escalar pela foz dos cursos d’água. O céu parado num azulzinho magro e
sorridente, isso meses e meses. Não chovia mesmo há meses e meses, e a
população obrigada a se virar com a água salobra. Os rios não podiam mais
descer para o oceano. O oceano foi obrigado a subir pelas calhas dos rios. Era
a importante greve dos rios serpentinos, peregrinos. As pessoas enchiam as
praças e escadarias de igrejas e templos e terreiros pedindo água e tocando
tambor para chover. Mãe-de-santo Clementina avisou que o futuro não podia
chegar tarde demais:
-
Oh!, rios de sempre, rios estradas, rios plantadores. Mundo de rios e mar de
rios. Mar, estômago de Deus...
O
peixeiro tomara chá de sumiço. Os tucunarés morreram afogados nos tanques
secos. E por todos os lados, por todo o mundo, pequenas e grandes calamidades:
grandes plantações de pedras: grandes desertos de areia: a terra ardida e seca,
a terra que não produzia e se deixava queimar e virar cinza. Alice se escondeu
em casa, impaciente. Quando um dia, afinal, ouviu bater à porta, atendeu, e era
o vendedor de água mineral.
-
Água mineral! Esta, importada de Minas Gerais.
Alice
olhou muito bem o vendedor de água mineral com ou sem gás:
-
Você não estava ex-peixeiro, ex-floricultor?
Era
ele mesmo, que para a ocasião deixara crescer as suíças e as costeletas. E
tinha um sorriso de padeiro, de leiteiro, de atendente de padaria ou leiteria.
Se beijaram na boca com longo abraço sem precedentes, e daqueles. E os dois se
olharam.
Quantas
ruas para se fazer a cidade do Salvador. As pessoas, por atitude, plantavam
orquídeas nas janelas. O surrealismo inventou sem avisar um tamanduá-bandeira,
um tucano-de-bico-verde, um carumbé, uma preguiça-de-máscara, um
mico-leão-da-cara-preta.
A
Marcelle, como era de se esperar, acordava sempre disposta. A menininha pulava,
pulava com vontade de pular:
-
Já sei! Já sei! Vem vê que que eu achei!
O
mundo todo rodando. As pessoas tratavam negócios, assuntos, shows, festas com
festões para Iemanjá, tirar penas de pedras, tirar pedras de pedras, tirar
igrejas de pedras, amontoar pedras soçobradas, atirar pedras na lua de pedras.
Alice pegou
Marcelle e foram ao asilo Santa Marta rever as velhinhas e os velhinhos. Pelas
ruas da cidade um reboliço de véspera de carnaval, sacis pequenos ditando
redemoinhos nas praças, cães passeando o tempo pelas calçadas, automóveis nas
sombras apetitosas das gororobas.
-
Vimos para contratar uma vovó. Minha filha Marcelle não pode mais continuar a
infância sem uma avó.
-
Temos várias opções, ofertas. Por exemplo, no aluguel de duas avós o cliente
pode levar totalmente de graça um titio ranzinza.
Alice
e Marcelle escolheram uma avó ideal e sorridente. Esta sempre apoiada na sua
bengalinha, cabelos brancos como papel novo, sabia contar histórias de índios,
sacis, salamancas camufladas e secretas, piratas, bandeirantes caçadores de
ouro e diamantes, lendas amazônicas, histórias de orixás, tesouros dos tempos
dos jesuítas. A avó disse, olhando Marcelle:
-
Sabe por que Deus te fez assim?
-
Já sei, já sei!
Nesse
tempo, os elementos nos quatro cantos do mundo, voltaram a se encontrar,
voltaram a se entender, voltaram a negociar, voltaram a se olhar nos olhos, e
os astros retornaram as suas antigas rotas e - que maravilha das maravilhas! -
voltou tudo a chover. A natureza se corrigiu, tudo retornou aos eixos, voltou à
ordem ou suas variantes conformes. Os rios voltaram a dar corda. Os rios,
aleluia!... voltaram a se despejar até o mar e entrar de cabeça no mar. Os rios
voltaram a dar de mamar ao mar.
Alice
olhou um instante o tampo da penteadeira. Espalhados os frascos de perfumes de
várias cores e sabores e perfumes. Alice deixou Marcelle com a avó e,
sossegada, foi ao passeio, na verdade sem rumo e devagarzinho, olhando todas as
vitrinas sem pressa, caía a tarde com todos os tons de vermelho e dourado, no
céu de nuvens esparsas um fim de dia imperdível.
Ela
mesma ansiosa para sair fora, ânsia de sair. Os carros, as meninas, os homens,
um vira-lata, um túnel, uma praça, uma mulher de longo vestido florido, muitas
árvores verdes em fila indiana, um viaduto, um cavalo sendeiro pastando no
canteiro da praça, um homem lendo jornal escorado na parede, reunião de ônibus,
dois policiais e viatura, uma igreja de São Francisco de Assis, as janelas de
um prédio, Mercado Modelo, os cheiros, as barracas, as gentes, os gritos, uma preguiça
no lombo do vendedor de erva-mate, algumas senhoras calmas sentadas bebendo
sombra do cajueiro, uma música do carnaval, um artista de rua que pulava, que
pulava, e pularia sempre no meio da roda de facas, no círculo de gente e tinha
mais. Alice vacilou e parou.
Estava
anoitecendo? Parecia. A luz do sol que restava. A lua já vinha? Como são esses
baianos? Como são os soteropolitanos? Salvador pode ter dois milhões de
habitantes, talvez mais, talvez pouco menos.
-
Por que não ser poetisa numa hora assim? Ou uma pintora das bem nervosas, que
na adolescência aproveitou a vida nos becos de Parati, Tiradentes, Porto
Seguro, Sousa, hein?!
Comprou
um sorvete misto pitanga-açaí, continuou pelo calçadão, e pelo bairro de
casario colonial, sempre em calma, e desatenta, girondona, gavionando. Viu um
cãozinho se exibindo, se erguendo nas patas, se erguendo nas mãos, balançando a
cauda, mostrando a língua, pedindo moedinhas. O Pelourinho, o lugar da compra
dos escravos, das turmas de turistas, dos berimbaus, capoeiras. Era uma moça de
olhos pretos e enormes olhos pretos e cabelos de corda. Lembrou de Margarida?
Tinha um sorriso de dentes e boca larga de grossos lábios, grossos lábios. O
cabelo já era longo, e crescia. O cabelo assim todo em corda preso por fitinhas
de pano uma de cada cor. A moça... lembrou Margarida? A moça, assim, chamava a
atenção. Era mesmo muito parecida com uma orixá. A parte dos olhos era
deslumbrante e abundante e jabuticaba. Era só ela sorrir que o mundo acabava. E
rasgava o sorriso rapidinho, e rasgava constantemente. Era uma legítima
autóctone africana de Itaparica ou de Mata de São João ou de Vera Cruz. E num
modo simples e extrovertido de dizer, a moça disse, simplesmente:
-
Que você acha da gente beber um chope de colarinho num copo de alça, outras
batatas fritas, na sombra de um bar a sua escolha?
Chegara
a cadeira de balanço da vovó. Aí, a avó riu sozinha. Vivia no quarto e na sala
e na sacada atenta ao movimento da rua. Não deixava escapar nuances de
paisagem, variações no tempo e no clima, os movimentos humanos na rua, falou
certa manhã:
-
Por que esse passaredo todo se tornou urbano e invadiu a cidade, hein?! E mais:
tico-tico come pitangas?
-
Já sei, já sei!
-
Olha que não são somente os pardais, os pombos e as andorinhas!
Verdade
mesmo, não eram somente urbanos os pombos, as andorinhas e os pardais, havia
bem-te-vis-cinzas, pombas-rolas, sabiás-laranjas, gaviões-carijós,
joões-de-barro, canários-da-terra, uns raros bicos-de-lacre. Os beija-flores
vinham lamber o mel das bem tratadas orquídeas.
A
avó deu bom dia ao sol, não pensou em nada especificamente, não queria
preocupações, somente curtir a doçura dos primeiros raios, Marcelle também, se
sentaram na cadeira de balanço, na espreguiçadeira:
-
Existiu um homem que caminhava, caminhava... Se chamava Peregrino. Todos o
chamavam Peregrino. Comia de favor, se vestia de favor, descansava de favor.
Não comia muito, quando comia. Caminhava toda vida. Não tava nem querendo saber
aonde ia ou deixava de ir, se ia ou se voltava, não lia placas de sinalização.
Encontrava um rio e se tava a fim parava e mergulhava. Na caatinga caminhava
coberto de poeira, curtindo o sol puro, se cortando nos xiquexiques. As pessoas
em geral achavam que era amaldiçoado, que era analfabeto. Viajava sempre sozinho,
na dele. O caminho era o seu tempo. Se tinha fé? Mas o que é a fé? Não dava
explicações. Não tinha essas frescuras de verão ou inverno. Pedrinha no
calçado, pé descalço, de cabeça para baixo. O novelo da existência ele
carregava nas costas. Se ele acreditava no destino? Um dia ao sair de uma vila
um cão vira-lata quis acompanhá-lo. Aí, Peregrino enxotou o bichinho. Caminhava
sempre com os pés descalços, ou com sandálias tipo franciscanas, sapatos ou
botas de segundo pé. Não escolhia caminho. Não tinha labirinto que o prendesse
ou perdesse. Não era feliz e nem infeliz. O caminho, o atalho, a estrada, a
rua, a trilha era que o escolhia. Era liberdade ou prisão? Começou moço, ficou
maduro e já de cajado estava idoso. Na aparência tinha a figura de um monge-profeta.
As pessoas olhavam para ele e tinham na cabeça todos os palpites, que era
doido, que era castigado, que fugia da cidade natal, que era fugitivo da
justiça, que tinha naufragado no parcel das Paredes. Qual justiça?
Eventualmente dormia na sombra de uma árvore à beira do caminho, ou de favor.
Tinha sonho e virava escorpião. Um dia desses podia ficar doente e cair na
beira da estrada, certo?! Eram umas estradas perigosas. Caminhar por aí era
perigoso. Mas Peregrino, como bom peregrino, nem se importava. E ele atorrava
campos, caminhava pela caatinga, pela floresta, pelo pedregulho, pelo banhado
plantado de gravatás, pela capoeira plantada de chircas e carurus-amargos e
milhãs-de-pendão.
Era
isso, a avó dormia com as galinhas, acordava com o cantar do galo, havia também
galos urbanos e quero-queros e corruíras e curiós. Antes já da algazarra geral
dos pássaros pegava o alpiste e a quirerinha e os esperava na sacada para dar
bons dias!, o sol logo espiava, os pássaros cantavam ali, se chovia ou fazia
sol, a avó conversava:
-
Oh!, bebe um gole de água. Seus unhas de fome! Então, com quê, humm... Que
horas, hem?! O que que você quer? Xerém? Que belezinha!!
Mais
tarde o movimento minguava, a avó tomava o seu café, se balançava lentamente na
sua cadeira de vime, Marcelle aparecia esfregando o olho de sono, de sonho.
-
Que que a Marcelle quer da vida?
-
Já sei, já sei!
-
Havia uma menina que gostava de sorvetes, aprendera com a mãe a gostar de
sorvetes. E saía para a rua correndo nos dias de sol e calor e sorvetes. E, de
repente, parava perplexa para entender que não sabia qual sabor apreciava mais,
nem quais os sabores que existiam no mercado. Não lembrava dos tipos de
sorvete, nem por que o cabimento de existir mais de um tipo já que um bastava e
era bom demais.
“Essa
tal menina ficava na dúvida e indagava para todo mundo: Existe o sorvete de
caju? Existe o sorvete de guabiju? Existe o sorvete de bergamota? Existe o
sorvete de abacaxi-pequi-chocolate?
“Os
lugares que vendiam bolas de sorvetes eram muitos e todos, padarias, açougues,
esquinas, sorveterias, rodoviárias, pizzarias, estações de metrô, livrarias,
casas lotéricas, mercearias. Quem lhe dava o dinheiro era a mãe ou o pai, uma
vez ou outra a avó ou o avô. E era um dinheiro para comprar sorvetes, pois ela
preferia sorvetes. Uma vez ou outra ela mudava um pouco de pensamento e pedia:
E picolés?
“A
menina conseguia andar na calçada de mão com o sorvete. Embora o sorvete não a
esperasse com paciência de muita calma e se derretia. Era também arriscado
correr com sorvete na mão, sorvetes vermelhos, amarelos, brancos, bicolores,
tricolores, com bolas, com amendoim, pedaços de frutas, com água na boca. O
paladar já se atiçava bastava ver a imagem no anúncio, o cheiro frio, o
pensamento da delícia. E quando passava para a língua, aí o sabor imperava como
uma explosão na boca e nas ideias e na pele. Era o mundo da delícia e da doçura
que chegava para doer no ouvido. Tudo isso num dia só, uma hora, cinco minutos.
“A
menina não sabia o que fazer com todos os sorvetes esperando aí pelo mundo. Se
ela não falasse bobagens podia tomar sorvetes pelo verão afora, quantos
quisesse, essa a condição, para todo o verão. Só engordam as pessoas que
engordam, quem não engorda com sorvetes se desobriga de temer sorvetes.”
Marcelle
não resistiu mais:
-
Já sei, já sei!
-
Assim a menina dos sorvetes aprendeu a fazer o seu próprio sorvete caseiro. Era
muito atenta na escola. Fez a faculdade estudando muito. Se casou para ter dois
filhos, um casal. E todo mundo passou a elogiá-la como a uma mulher muito culta
e ajuizada e fazedora de sorvetes caseiros para a família. E não esperava que
os outros gostassem mais ou menos de sorvete do que ela mesma.
Avó
e Marcelle ali na sacada olhando o tanto de céu, a altura do sol. Já acostumadas
com os telhados e prédios, as montanhas espremidas por trás no horizonte. E
alguns passarinhos sempre visitando, observando com o coraçãozinho suspenso,
cuidadosos no andar, olhos espertos, se atirando no resto das migalhas, uns já
mais íntimos catavam entre os pés da mesa, os pés das pessoas. Ora entravam
pelo apartamento a bisbilhotar, folgados, pousando num espaldar de cadeira,
beijando um desenho de flor no quadro da parede.
Bateram à
porta? Alice foi atender e era uma surpresa, pois estava ali parado o rapaz da
água mineral, e ele sorriu divertido. E sem demora puxou das costas a mão que
segurava escondida, e apresentou, então, um buquê de rosas amarelas. Alice
avisou a casa toda:
-
Gente! As rosas amarelas voltaram!
-
Metade para você Alice; um sexto para Marcelle; e duas rosas amarelas para a
vovó.
Muito
bem, à tarde a avó recebia visitas dos passarinhos. Eram quase sempre os
mesmos. Ao meio-dia davam uma trégua por causa do calor, talvez. Mas à
tardezinha vinham outra vez, chegavam sempre desconfiados. O amarelo e a carijó
reconheciam o ambiente, virando e revirando as cabeças desconfiados, cantavam
satisfeitos. A avó conversava ao mesmo tempo que bebericava o seu chá de
camomila, ou de folha de laranjeira. As visitas caminhavam soltas pelo chão,
aos saltinhos sem cansar, irrequietos, se pendurando pelos móveis, e
conversando lá entre eles lá na língua deles. Uns até pensavam em dormir por
ali mesmo e morar no apartamento. Outros e uns ciscavam por aí, namoravam
baixinho, discutiam em voos temerários, não usavam banheiro para nada, usavam
banheiro só para beber água.
Com
a granja reconstruída, a família foi convidada a passear no campo, caminhar
pela propriedade. Rosas amarelas e rosas vermelhas aqui, e do lado de lá as
instantâneas orquídeas. Confusão, conspiração, profusão de espécies, tipos,
gêneros, classes de orquídeas.
Marcelle
tocava nas cores, olhava os aromas, se escandalizava com as borboletas besouros
abelhas libélulas colibris. Assim estavam as rosas amarelas, e não só as rosas
amarelas, lá estavam todas as outras, muito cheias de si, brincando ao som da
brisa leve e trás, rodeadas de insetos ou prestigiadas de insetos. A avó sorria
permanente. As cattleyas labiatas cor de céu, cor de ouro, cor de alegria, cor
de guria, cor de pôr do sol. E, num gesto desenhando com a mão no ar, o rapaz
das rosas, rapaz de cabelos longos e provocativos, acrescentou:
-
O mundo é bonito, e chega.
-
O mundo não é difícil.
-
Já sei, já sei!
E
Alice não pôde deixar passar:
-
Eu tive uma amiga Tê.
-
T muda.
As
três aceitaram o convite para morar no sítio. Marcelle andava solta. A avó teve
o pátio para seus passarinhos e plantas de chá. Alice acordava antes do sol,
pois ia à feira vender rosas amarelas, rosas de outras cores, orquídeas
cattleyas walkerianas. A avó desde sua cadeira de balanço:
-
Quer ouvir a história do gato xadrez?
-
Já sei, já sei!
-
Era uma vez um gato xadrez, quer que lhe conte outra vez? Era uma outra vez o
gato xadrez. Pois, então. Uma história com começo, meio e fim, mas sem pé nem
cabeça. Era um mundo distante, um país estranho, pouco conhecido, quase
desabitado, rodeado de altas montanhas, harpias esvoaçando o tempo todo a
partir das montanhas de pedra à vista. Na maior cidade desse império, vivia o
gato xadrez e seus parentes e contraparentes e aderentes. O gato xadrez, chefe
político, nadava em seu próprio ouro, usava de manias excêntricas, muitos
empregados o abanavam no calor, passeava muito e trocava de cavalo todo fim de
semana. Tinha já 10 gatas escolhidas e 80 filhotes. Esse coronel-cacique
comemorava seu aniversário de 4 em 4 anos. Nascera num dia 29 de fevereiro, num
ano bissexto. Quando chegava essa data exata era muita festa e muito carnaval,
um mês inteiro, era como se o país ganhasse a copa do mundo. Durante um mês o
povo felino ganhava regalias, tudo liberado, nada era proibido, tudo era
permitido. O ponto alto das comemorações era a escolha da nova gata do gato
xadrez. Sim, a cada aniversário, a cada quatro anos, a cada copa do mundo, a
cada olimpíada, o coronel-cacique tinha direito a somar mais uma nova esposa.
Era uma lei que ele mesmo tinha criado para o seu próprio prazer. A nova
felizarda era tirada em concurso nacional de beleza felina. A pretendente podia
ser de família tradicional, rica, ou família remediada, ainda de família pobre,
de pedigree, etecétera. As jovens candidatas à esposa do cacique tinham que ser
lindas belas e com tudo em
cima. Um júri de dez especialistas, ao longo de uma semana,
ia examinando uma a uma as concorrentes, as candidatas mais próximas da
perfeição. As dez mais bem escolhidas eram convidadas a comparecer diante do
gato xadrez para a última eliminatória. Uma época que não havia copa do mundo,
a copa do mundo era a escolha da nova esposa do coronel. E todas as gatas solteiras
queriam morar na fazenda sensacional, passear no telhado da casa de campo. E o
caudilho finalmente apontava, dentre as dez felinas finalistas, a que ele
sentia mais amor e pronto. Estava escolhida a futura esposa do gato xadrez. A
escolha ia parar nas manchetes e nas tevês e nas internetes e tudo ficava bem
feliz.
Bem
antes do sol pensar em despertar, Alice e o rapaz das rosas amarelas e
orquídeas malucas, colhiam as rosas maduras, as rosas brancas, as rosas
vermelhas, as rosas cor-de-rosa, as rosas amarelas, as orquídeas cor-de-rosa,
as orquídeas azuis, as orquídeas vermelhas com riscos brancos, as orquídeas
lilases, as flores mais procuradas e iam para a feira vender. Chegavam bem cedo
à feira. A aurora ainda guardando a fina capa de seda escura e estrelada. Os
fregueses chegando, a cidade se espreguiçando, esquentando os motores,
estalando as juntas, clientes olhando rosas amarelas e já sorrindo, senhoras
cheirando orquídeas oncidium papilio e já gostando, as pessoas que compravam já
saíam felizes e cheirando o buquê. Rosas são as flores dos sentimentos bons.
Orquídeas existem para mais de vinte mil tipos. Assim as flores em geral. E senhoras e
senhores compravam flores-manhãs acompanhadas acompanhados de seus cães
prediletos.
Alice e o
rapaz das rosas amarelas, das orquídeas especiais e folgadas, na feira ao ar
livre. A avó alimentando seus passarinhos incidentais e regando na horta seus
pés de camomila. Marcelle sempre encontrando uma borboleta disfarçada de folha
seca ou um caracol fugindo de casa ou ainda um besourinho treinando para voar.
Marcelle ainda viu canário-da-terra na janela:
-
Ooooooh!...
Alice
curtia aquela vida de começar o trabalho ainda em plena madrugada, reparar que
o dia ia sendo puxado ou empurrado da noite pela cauda, as luzes artificiais
pela natural, a cidade como um formigueiro aos poucos se assanhando até entrar
na guerra, se agitando até o frigir do trânsito. Como nascer de novo. Nascer na
manhã calma, com calma, o dia se abrindo. Tudo amanhecendo, o mundo acordando e
as pessoas procurando. O coleirinha se equilibrando no trilo, a corruíra
escalando o chilreio, a tesoureira casquinando, o bem-te-vi-do-brejo
conversando em voz alta. As pessoas todas com cara de quem não estão nem aí. Os
ônibus passando com as lâmpadas acesas. Os polícias voltando pra casa.
Uma
manhã Marcelle acordou, ou ressuscitou, com profundas olheiras, olhos parados,
nublados, que a avó parou preocupada. Os olhos de Marcelle tinham recuado
dentro das órbitas, e tanto que a avó parou preocupadíssima:
-
Se não é fome... o que será, então?
Marcelle
passou pelas horas sem melhorar. Os chás não conseguiram reverter o quadro. Mal
comia, falava bem menos que o necessário, esquecera de rir, esquecera de
correr, esquecera de brincar, esquecera de perguntar, esquecera de fazer
companhia aos mais velhos, esquecera de ir à escola, esquecera de pentear os
cabelos da avó. Esquecera a expressão: já sei e já sei! Até que aí, por volta
das 10h, então, Marcelle realizou seu primeiro milagre.
Milagre
não era e não é coisa banal, coisa comum, coisa para qualquer mortal, coisa
para qualquer dia, coisa para se olhar e ver e esquecer. Não vivemos mais numa
época de milagres - porém quem sabe? Milagre é coisa difícil, coisa de pessoas
com parte divina, como anjos, santos, budistas iluminados, sacis, iaras,
meninas simples e satisfeitas. E milagres continuam sendo ainda mais difíceis a
cada século que passa. E o milagre aconteceu. Milagre assim como raramente
acontece, de repente, de supetão, de arrepiar. E a avó contou tudo à Alice:
-
Eu vi. Marcelle apontou simplesmente para a plantação de rosas amarelas e
outras rosas e outras flores e o mundo das orquídeas fantásticas. Desenhou no
ar um gesto com a mão, os dedos, o dedo indicador. Desenhou no ar como em
gestos e cacoetes e tiques. Acho que eu mesma ouvi sinos ressoando,
bimbalhando, badalando, tocando. E Marcelle fez desse modo seu pedido: “Gosto
muito de nuvens, nuvens de pétalas, nuvens de rosas cor-de-rosa, nuvens de
rosas brancas, nuvens de rosas vermelhas, nuvens de orquídeas lilases e azuis,
e principalmente nuvens de rosas amarelas.”
-
E Marcelle fez assim mesmo, vovó?!
-
E nuvens de pétalas de rosas e orquídeas espetaculares imediatamente se
ergueram de toda a plantação. Todas as pétalas obedeceram à ordem de Marcelle,
incrível. Principalmente muitas nuvens de pétalas de rosas amarelas. Aconteceu
mesmo, incrível. Como ideia de artista genial, milagroso. Que todo milagre tem
algo mais: milagres. Surrealismo puro. Nuvens que despertaram a partir das
palavras da boca da menina Marcelle. Foi milagre, incrível.
Naquele
dia não perderam Marcelle de vista um minuto sequer. Esta parecia sublimada,
sobrenatural, levíssima, andando em sonhos, olhos no céu, andando de costas,
não olhando os passos pelo quintal. E o céu lhe sorria seus restos de pétalas,
após a chuva de pétalas de rosas amarelas e orquídeas vermelhas com riscas
amarelas.