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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 1




Fato Consumado

            Onde hoje está o povoado onde hoje é a cidade a comuna, os anos novos vão se somando aos que foram os anos velhos e passados e nas efemérides que sempre são impertinentes e interessantes e irresistíveis. E depois parabenizá-la.
            Onde estava o lugar de Nova Prata na hora e dia e mês e ano e vez das 10h de 21 de abril do ano da graça de Nosso Senhor de 1500?
            - Vou, vou mandar enrolar!
            Entre outras coisas uma que ainda hoje nem me deixa dormir mentir: o que se fazia aqui justamente no momento do descobrimento do B. Que que estava acontecendo neste meio ambiente? E eu já sei já sei, uma vez.
E vicejavam bichos e aves e árvores por todos os lados e aqui e ali e acolá era um mesmo mato muito cerrado e muito verde sempre umas mais altas que outras e mais verdes que outras, guamerins, leiteiras, angicos, ucuubas-punãs... espalhados de conforme a se alastrarem. Voavam em algazarra muitos arbustos e bichos e passarinhos pássaros aves, corruíras, tuques, quero-queros, colibris... espalhados de forma a se divertirem. Trilhavam farejando o chão por entre plantas e aves e bichos mais comuns do lugar, onças-pardas, tatus-canastras, porcos-espinhos, cutias, teiús, jararacas... espalhados de maneira a se evitarem.
Tudo comum e em tons e verdes variados com o sol muito quente a lua muito platinada. E bem no meio do lugar que nasceria a cidade, no fundo dos banhados, já corriam uns riachinhos sem nome, desciam dos morros em redor próximos geralmente de leste para o oeste. Olhando em volta, se viam insetos fazendo os ruídos de cigarras abelhas borboletas borrachudos besouros centopeias... Era tudo um mistério completamente caprichado e autossuficiente.
            Onde estava o aconchego da Capital Nacional do Basalto na hora e dia e mês e ano das 16h e 30min de 7 de setembro de 1822?
            - Vou, vou mandar tirar!
            Ao alcance de todos e de cada um na hora certa no lugar certo.
            Na maior parte do mais novo império do mundo fazia um sol esfuziante todo aquele dia. A maior parte da província de São Pedro do Rio Grande do Sul pela manhã com pouco nevoeiro muito sol no decorrer do período inverno de saída e chuva incidental. No lugar da futura a manhã acordou fria meio-dia um sol de rachar chuva de molhar bobo perto do anoitecer com ventos moderados a partir do noroeste.
            O exemplar a conchinha onde seria depositada a sede do município estava verde e o dia caloroso e a mata toda paisagem. Os tais e quais riachinhos corriam calmos à vontade perguntando para as pedras as pedras elementares. Vez ou outra o riozinho parava e fazia piscina para as traíras ou jundiás ou charutinhos ou cascudos ou lambaris...
As árvores esbatiam folhas com folhas, alcançavam galhos com galhos, tramavam raízes com raízes, perfilavam troncos, e cipós com lianas com trepadeiras com buvas. O vento sobrevoava tudo e misturava os polens.
Bandos de periquitos-verdes que grasnavam sem parar sem sossegar sem entender. Curicacas daqui pra lá e de lá pra cá em as araucárias. E joaninhas borboleteavam, sapos roncavam, escaravelhos zumbizavam, grilos coaxavam, lacraias rechiavam... Toda a família numerosa das antas chegava chegando para a beira da água e tchibum!... e chuá!... Uma jaguatirica estirada sobre a laje na sombra cem metros acima sozinha ouvindo tudo que os passarinhos falavam que as árvores farfalhavam que as capivaras resmungavam, e tentando dormir e enxotar as mutucas ao mesmo tempo.
            Mais o clã o grupinho da tribo coroado dando um rolê pela região uns 800m acima do nível do mar. Esses estavam acampados ali pela volta do riachinho e se banhavam num poço devido o calor abrasador e tal. Esperavam a época do pinhão das jabuticabas dos araticuns-do-brejo das goiabas-do-mato dos araçás-de-comer dos palmitos-doces dos guabijus... já que a região era muito premiada com pinheiros-do-paraná.
Por acaso os primeiros habitantes eram nômades e circulavam percorrendo a serra Gaúcha em pequenos grupos de 40 a 50. Os alimentos eram escassos e só havia fartura na época dos pinhões. Quando chovia se recolhiam a uma toca ali mesmo ao pé de uma pequena parede de rocha basáltica. Além dos pinhões, que dependia da época do inverno, se alimentavam de seriemas, nambus, suaçutingas, mel, ovinhos, formigas, gafanhotos, brotos... Cada grupo familiar era dono de um território de uns 100 a 150 quilômetros quadrados.
            À noite os autóctones tinham medo de viver de morrer de passar frio. Dormiam na gruta encolhidos atirados sobre folhas secas ou caso de muito calor debaixo de um jirau coberto de ramos verdes. Dormiam todos juntos e sempre havia alguém que ficava de vigia para cuidar de animais bravos, especialmente o jaguarapinima. Nem sabiam como fazer o fogo. Nem sabiam como fazer peças de barro. Nem como plantar qualquer coisa. Nem sabiam armar palhoça. Nem tinham coragem de dormir no alto das árvores como faziam seus pratos prediletos, os bugios. De dia de sol eram felizes como nunca ninguém viu.
            Onde estava o ninho esse mesmo do Prata na hora e dia e mês e ano das 11h de 15 de novembro de 1889?
            - Vou, vou mandar devolver!
            Taí, o núcleo estava para nascer a qualquer momento. Se ouviam uns ruídos estranhos absurdos diferentes vindos pelo interior do mato fechado. E eram bichos grandes e bípedes. Vinham uns tropeiros dos lados do rio das Antas e puxando rebocando as suas mulas carregadas. Eles abrindo mato a facão e alardeando bastante demorando muito conversando quase nada. Cansados famintos arrasados pois o mato era grande e sempre tudo igual. Nem sabiam por onde andavam pioneiros mas queriam encontrar uma saída ou uma passagem ou um atalho até São Paulo da Lagoa Vermelha, por exemplo. Mais ou menos seguiam o rumo do sol nascente e para perto das aguadas. Era difícil e relativamente perigoso e levaria quem sabe um mês ou dois para atravessar todo o sertão.
            Depois de mais algumas horas pararam para comer alguma coisa dar de beber aos burros ali no espraiado do corregozinho fazer um fogo tomar um mate descansar. Essa hora das 17h e de muito calor pernilongos pegando parelho. E resolveram mesmo armar as barracas pouco mais acima junto ao paredão de arenito entre as guajuviras-brancas e coqueiros-piaçabas.
            O chefe dos tropeiros o José Português original das ilhas da Madeira lastimou o dia tão quente quentíssimo. Olhou para os três sócios, enxugou o suor da testa com a costa da mão e declarou - traduzido:
            - Ô, camaradas! Vamos descansar porque acho que estamos no mato sem cachorro, pois.
            Os companheiros suspiraram alto e se acostaram de vez. Um puxou o naco de fumo do bornal, espírito vigilante perplexo, e começou a fazer o palheiro. Outro procurou gravetos e grimpas, espírito divergente dissimulado, para assar um pedaço de charque. Mais um terceiro tirou as botas cambaias, espírito insólito disperso, e foi procurar umas folhas para o travesseiro improvisado. Todos armados de facão três listas, adaga atrás na cintura e garrucha de um tiro. O líder, espírito minudente preocupado, também levava uma espingarda a bandoleira.
            O mais brasileiro do grupo, mestiço índia charrua com português, o mesmo que fizera o palheiro e já soprava fumaça com gosto que só vendo, que inclusive era uma espécie de guia baqueano conhecedor de plantas e bichos, chamava Piraju Rudá, nascido nas barrancas do rio Caí pros lados de Pareci Novo ou Montenegro ou Triunfo, esse mesmo trepou na guabirobeira e foi se servindo. Os outros olharam, esperaram um pouco para ver se o mestiço nem comia veneno, e depois também foram se servir e acharam muito bom.
            E na manhã seguiriam e adiante e começariam a andar andar novamente assim coisa estranha porque abriam sei lá um caminho que logo logo seria entrada de muitos. E num futuro nem muito distante. Outros tempos quando os tais e quais ocasionais tiverem de vir porque virão.
            Onde estava o ponto de Capoeiras na hora e dia e mês e ano das 8h e 34min do dia primeiro de abril de 1964?
            - Vou, vou mandar parcelar!
            Eu quase que fiquei sabendo, e podia saber? mas tinha apenas cinco idades de meses. Pouco sabia olhar para fora de mim, quanto mais olhar o lugar as pessoas os jogos de azar as invenções. E o porquê dos vários nomes da cidade mudanças que geraram sempre certas controvérsias e despachos e pajelanças e geomancias.
            Na hora certa no lugar certo ao alcance de todos e de cada um. 
            Mas a cidade o burgo quase ninguém estava ouvindo rádio e nem ouvia música e nem ouvia coisa boa coisa com coisa. Muita assombração pelo país. Notícias militares. Muita calma nessa hora nesse lugar. As coisas estavam grandes e pegando fogo fogo. Os neopratenses ouviram e os poucos que souberam nem acreditaram. Muitos e a maioria foram trabalhar e nem ligaram muito pra coisa em si ou de si pra si. Mesmo assim, olhando bem ouvindo bem aqui de longe nem acontecia nada de mais e o que que podia ser esse um chiado no rádio promessas e mais discursos e 90 milhões em ação.
            Onde estava a capela de São João Batista do Herval na hora e dia e mês e ano das 11h e 55min do dia 14 de dezembro de 2006?
            - Vou, vou mandar enquadrar!
            E eu estava no rumo certo do Centro e passava pelo tal riachinho que toda vida cruza a cidade de leste a oeste ainda anônimo e perfeito correndo por baixo das ruas canalizado em galeria tamponada e se alimentando modicamente dos bueiros, todo praticamente invisível. Continuava quase limpo, mas o povo nem tava nem aí pra ele por ele. Como se nem existisse como se nem precisassem do seu concurso e do seu consumo. Mais que o riachinho, muitas ruas de paralelepípedos e árvores e carros e casas e pessoas e cachorros. À força de procriar. Uns 20 mil habitantes humanos mais outro tanto de mascotes, assim ou mais ou menos.
            Nesse dia me-morável, e por volta desse meio-dia, fato consumado, metade da cidade come-morou um título internacional. A outra metade se comeu de raiva. Metade pulou e vibrou e estourou foguetes e fez carreata num louco estado de êxtase de euforia de eugênio. A outra metade se mordeu de raiva. A carreata então foi estacionar na praça da Bandeira, e buzinaram e tocaram hino e rodearam a praça mil vezes e foram aos diferentes bairros e voltaram para a mesma praça sem parar sem parar. A outra metade se irritou e com razão. Metade estendeu bandeira no carro na janela da casa pendurou no mastro, e nem mais sabiam o que fazer para extravasar a doideira que nem tinha tamanho nem media esforços nem as consequências aprontando um carnaval fora de época. A outra metade se dobrou ao meio cheia de nojo. E foguetes por todos os cantos na aldeia das águas termais.
            Como nem há mais nada a considerar prego e tendo em vista que as perguntas com as respostas foram satisfeitas prego está fechada a sessão.
            Principalmente também as cabiúnas-do-campo bem festivas de lilases e que perseguem seguem em fila indiana e num progresso organizado até de mãos dadas pés postados junto ao meio-fio pelos ambos os lados da avenida Borges de Medeiros. Andam andam de cima desse morro de cá ao sul até em cima no morro do lado de lá ao norte. Estão largando as flores no chão no meio da rua pavimentada e do passeio calçado e em outubro novembro grande número. A enfeitando tapete um cidade.