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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Era Era Diferente



         Quando a gente tinha coragem de pular fogueira e caminhar descalço sobre as brasas. Estourar bombinhas no bolso. Tomar quentão muito cheiroso que a vizinha fazia a troco de nada bastava fornecer os ingredientes, comer pinhão e amendoim e puxa-puxa e pipoca com caramelo.
         Pensar pensava que o mundo todo era assim.
         Jarina ria. Riso reluzente. O rosto afogueado vermelhão pegando fogo. Onde a lua terminava onde a lua começava.
         A noite era pouca e procurávamos apontando o dedo a melhor constelação o Cruzeiro do Sul as Três Marias. Estrelas como os olhares que faiscavam aos poucos para os lados. O céu no escuro como um poço fundo ou um capoeirão lotados de vaga-lumes. Os animais gigantes dinossáuricos andando dentro da noite no forro do teto. O voo determinado bufando ruflar das asas a coruja-do-mato a mãe-da-lua.
         Outra hora se passava. Tinha mês tinha dia e hora. Olhávamos o calendário as horas e ouvíamos o zunir cadenciado dos tique-taques.
         Ana Paula ria. Tiara segurando os cabelos quase curtos tiara. Espichava o olhar circular por tudo, parecia satisfeita, de repente distante, ria e falava voz estrídula sem se mexer.
         Seja lá de onde partiam, demoravam mais de quatro séculos para chegar até ali. Viajavam de lá até ali, assim. As estrelas eram ou são animais fortes altas mais de dois metros gigantes caudalosas bem criadas e instruídas. Entre elas mesmas até sobreviviam mesmo alguns planetas. Ainda estão por ali e aqui para quem quiser ver. O caminho aberto e na hora que apertar a vontade... zabumba!, aparecer.
         - E dá gosto acordar estrela com tantas miríades ao redor.
         A rua Itália poeirenta com árvores em fila emparelhadas manacá-cheiroso, oaimirijuru, guatambu-vermelho, mata-cacau, jutaí-mirim, pau-d’arco dos dois lados nas janelas as cortinas puxadas pelo vento agitavam mostravam a língua para os quintais de jabuticabeiras bergamoteiras imbuzeiros bananeiras-do-mato jubatãs, casinhas de cachorro.
Foguetório de atemorizar cães e outros bichos. As pessoas se assustavam e aplaudiam. Acender soltar peidinho chinês perto dos mais velhos. As chamas brilhavam vermelhas faceiras coruscantes. E sob um céu todo gelado de estrelas que nós pensávamos só esticar o braço para tocar o infinito e... mungangas, as gurias.
A ansiedade em atravessar a rua e subir ao potreirinho. Uns barbantes esticados bandeirinhas de outras cores. A dona do campinho vó Ajará ficava na janela, olhando enrolada numa bata num xale um cachecol, depois vinha mais perto quando restavam as brasas as risadas e dava vivas e distribuía doces de banana. A professora Tê de matemática veio como disse que viria e com o marido e a filha real Maria Clara se despediram antes das vinte e meia o carro estacionado em frente da casa da Jô.
Tudo seriam miragens? Chegando chega chegava. As coisas saltando dos lugares das nossas fantasias vivas. O cãozinho Guiné sapeca da Marília girava em torno da fogueira acelerado assustado dos estouros dos gritos dos tiros de taquara procurava a própria cauda escondia no mato pulava nos braços da dona acoava muito agitado cascavilhava rodava como pião pedia socorro de língua de fora.
Marcela ria. Seios perfumados. Se mostrava radiante. E eu ficava olhando seus lábios doido para experimentá-los. Cascata de cabelos caracóis nas costas até a cintura.
         Fogueiras de São João São Paulo São Pedro Santo Antônio a lenha buscávamos no mato pra cima do aeródromo, quebra-foice, quina-do-campo, vassoura, mata-olho, caruru-de-espiga, mulungu, juazeiro ou pegávamos o que encontrávamos por aí. Era tudo coletivo e mal organizado. No fim dava certo porque era assim mesmo, de qualquer jeito já servia. Uma pilha quadrada tipo pagode ou uma pirâmide.
         Sempre esperei conhecer Valinhos, Rio Claro, São Bento do Una, Angra dos Reis, ilha do Ouriço, maitacas-verdes nadando no azul incomparável, etc. As estremas dos lotes com cercas vivas muros pegados de trepadeiras tiriricas solidônias cunabis papa-terras ervas-de-santa-luzia cerquinhas de ripa em ponta de lança pintadas de branco.
         Junara ria. Uma touca tentação de roubar pompom. Os brincantes riam e provocavam o riso. E todos riam também. Outros gritavam estridentemente estrepitosamente como os índios na tribo em círculo de mãos dadas os barauana os cariri os majubim os matanaui.
         Aos poucos a lenha queimava baixava devagarzinho no começo as labaredas os altos estouros de taquara os uivos dos presentes a luz tremente em faíscas lampejos de luzes.  
         Botávamos a bombinha sob uma latinha de conserva e corríamos. As meninas tapavam os ouvidos fechavam os olhos a boca aberta. O estouro, tum!... e lá ia então voava zumbindo a latinha desafiando a gravidade.
         Era bem diferente aquela noite ali. Depois vinham pedaços de bolo de chocolate que eu gostava muito num prato coberto de toalinha bordada milho verde pamonha beiju e eram gerais os, nhume! nhume!... Enfim, uma história possível.
         Agora, guri de coragem era aquele que riscava bombinha e a punha no bolso. Doía como arrancar dente no seco, a perna paralisava, tremia o corpo todo, saía um cheiro doce de pólvora, a calça ficava aberta na altura da coxa, mas esse sofrimento logo passava porque as meninas respeitavam seus heróis. Umas vinham tocar o rasgo com seus dedos de pluma. A dor passava na hora. Nos olhavam com surpresa, a mão na boca, com espanto, com consideração, sopravam tão de mancinho, ninguém ria.
         As plantas favorecendo mais as sombras o capãozinho. Os ramos se envolviam se trançavam vergavam. O verde confuso, o alaranjado das chamas espelhadas, pacaris, marajaús, sumarés-do-campo, quebra-pedras, candeias-de-caju, movimento das folhas orvalhadas.
         Uma noite juntei seis bombinhas na mão. Como um troféu uma espada desafiando o inimigo independência ou morte um feixe de palitos de fósforo. Os camaradas me auxiliaram. Que explodiram de uma vez só, tuuum!!... abrindo os dedos em calos quentes pretejando a palma da mão.
         O casamento caipira as quadrilhas a música de fitacassete qualquer ritmo com dente faltando chapéu de palha desfiado emboladas catupés toadas desafios declamações declarações o coco dançado rodado e cantado em coro. Se davam as mãos as mãos nos ombros como trenzinho e tentavam a aventura de passar no meio do brasedo do brasil com gritinhos histéricos cômicos de falsete.
         Jurema ria. Nunca a vira tão contente. As pessoas gostavam sempre dos seus cabelos de fogo e as sardas no rosto, que da juventude pra frente se perderiam desapareceriam.
         - Quantos anos?
         - Treze. Quer dizer, quinze.
         Os ferimentos foram profundos. Tanto que nem pude ir à escola dia seguinte. Deitei no chão, o braço embaixo do corpo, a mão quente dormente doente, o cérebro faiscando e via o rasto de estrelas adormecer. Procurei dentro de mim no chão na noite fria fumaça entre os dedos por respostas a possíveis perguntas.  
Me levaram carregado abraçado até em casa. Principalmente algumas meninas, uma carregava o meu boné do Inter, os dedos em gretas ressequidas, deitei no sofá da sala, um jogador lecionado, me consolaram me deram dicas de pomadas e manteigas e outros santos óleos e ervas milagrosas.
Keila ria. O riso jorrava alegria. E aquele lindo sorriso. Ela soprava o cabelo caindo sempre em franja diante dos olhos espertos matreiros esverdeados de jaguatirica.
Brrru!... que calor, e sentia que meus dedos iam e nem voltavam, sentia que meus dedos eram e nem estavam, sentia que meus dedos abriam e nem fechavam. E eu ficava restava ardendo de sede a cabeça estalando.
Nádia ria. Lábios pintados de café. Colar de miçangas. Unhas de cada cor. Sem eu falar ela se apresentou pegou meus dedos de garra bafejou doce doce tatuagem árabe no pulso e com outra mão terna penteou meus cabelos com os dedos leves. Ela concordava agastada:
- É mesmo.
Eu só ouvia o que elas diziam, que nem iria de jeito maneira perder os dedos a mão os dias de aulas. Nem entendiam por que eu fizera aquela prova tão arriscada e corajosa e ousada e suicida. Mas aplaudiam assim mesmo.
Da janela aberta via o clarão da fogueira e gente tentando aos gritos e risos e ajuda de vamos juntos pular na lua com os dois pés e pela primeira vez. As coisas foram se ampliando como em círculos crescentes a fogueira no meio do campinho as goleiras de cada lado o casal de espanta-boiada o matinho capão de árvores associadas abraçadas, canela-branca-do-brejo, embiú-amarelo, jequirioba, alastrado, baraúna, o escuro encobrindo guardando toda a noite.
Majuba ria. Uma covinha no centro do queixo. Ela pegou meus dedos e me beijou lentamente a palma da mão carbonizada. Agora eu via. O cabelo de pontas em tamanhos diferentes moldurava seu rosto cheio cobrindo as orelhas. Naquela hora concordava com tudo risos e emboanças e conversas fiadas. Eu era um fenômeno.
Bem e bem à espera do que viesse e acontecesse. De onde vai a lua para onde vem a lua. A fogueira pegava sol. O silêncio subia para o fundo do universo.