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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 22




Será Beijus Por Aí Será

            Um dia de temporal na certa. Os perfis majestosos das árvores copas globosas se dobravam vinham até o chão. O vento corria baixo zoando zumbindo azoando zuindo zombando e sem paciência para qualquer diálogo confraternização. A chuva grossa e fria atirando para todos os lados, ta-ta-tá!... Eu queria justificar meu voto minha presença ali mas nem me socorria razão alguma.
            Que pensei cidades pensei Maracaju, Estrela de Alagoas, Mariana, Amparo de São Francisco, Monte do Carmo... Que cidade pensei vem aí Pedras Altas, Malhada dos Bois, Imbituba, Araras, Laguna...
            - Eu estive lá, eu!
            A melhor coisa que eu fazia que eu tinha que eu queria lá na tenra idade era era a bicicleta sair pedalando bíci, e então?
            Peixes árvores capivaras pássaros assim desenhados emergiam desciam à tona e ali mesmo nuvens esguichavam água pela boca. Choveu mais que ontem menos que anteontem mais ou menos que amanhã.
            Meu amigo Pomomba veio me procurar com ideias absolutamente. E fomos com o carro dele. Umas nove horas da noite e ainda chuviscava. Chegamos na vendinha com nome legal e tudo: bodega do tio Itapuca. Será que vende tapioca?, pensei. Pouca gente, alguns gringos tomando samba, o bodegueiro tomando mate, duas mesas vagas de sinuca, tevê no canal da novela bíblica, aguardamos mais um pouco mais um pouco. Parafernália.
            A loira do cartaz oferecia um copo cheio transbordante sorriso a toda prova esclerótica chope pupilas acesas xorte sungado em v língua de fora apontava e dizia:
            - Que dúvida!
            Eu por mim mesmo comigo meu sim, pensei, ensimesmado.
            Nas sextas-feiras e sábados chegavam ao Itapuca umas beldades. E aquele dia que eu e Pomomba resolvemos era um sábado. Umas dez e dez da noite. Umas gurias muito maneiras. Eu pensava em deixar de fumar, no dia seguinte, claro, mais certo.
            Pegamos umas fichas no balcão e fomos jogar uma sinuca. Um samba, um pastel de queijo, umas fichas e lá pelas dez e quarenta chegou umas meninas bem produzidas bem educadas muito perfumadas. Arregalamos os olhos e esfregamos as mãos e coçamos as melenas. A gente já se coçava todo e por vários motivos. Engraçado. 
            Nem demorou muito, Pomomba já foi falar com uma delas, a de cabelos negros e lisos e longos até a cintura. Ela balançava bastante a cabeça pro cabelo nem cair no rosto. Uma minissaia verde ou lilás com blusinha de umbigo. Ela parecia uma índia sanamaicã muito jeitosa, e podia pedir e fazer o que bem entendesse. Podia até viajar em balão de gás, lá fora, uma vez. Pomomba e ela falaram uma língua que nem entendi donde vinha para onde ia. E se acertaram. Ele riu e ela riu com conteúdo com ruído com categoria entortando o corpo elegante flexível habituada para trás.
            Eu e amigo fomos rumo do carro e saímos e nos escoramos no carro. Logo logo chegaram a de cabelos pretos lisos e longos até a cintura e mais a amiga dela uma loura de cabelos crespos até os ombros. Esta vestia uma minissaia xadrez cruzando vermelho-preto e blusinha branca até com o umbigo de fora.
            A calada do cosmo desconhecido fugitivo. Trepadeiras unhas-de-gato se alastravam subiam pelas pilastras dos caramanchões da praça Caetés. Habitada de tais e quais árvores inteligentes desinibidas versáteis atraentes distraídas território delas cheio de pássaros e outros bichos pequenos móveis. Um lugar sob o universo esbranquiçado diante das horas das luas das estrelas dos planetas giratórios das galáxias espiraladas, e agora sim, tum! tum! tum!...
            Uma ânfora nas mãos abraçada uns cabelos longos fartos a estátua moça molhava os pés e esperava um jardim ali grega e romana antiga fora do contexto enrolada em pequeno lençol da jarra nem vertia água no lado fazendo sombra a pitangueira sem pitangas um araçá-do-brejo sem araçás um bacurau-tesoura meio que se mexeu com suspeição.
            A noite a meia-lua pareceu bonita confortável e bem vantajosa. O que viu hoje de bom.
            Pomomba, obviamente, foi dirigindo o carro. Eu fui no banco de trás. No assento do carona sentou a loura de cabelos crespos até os ombros. Atrás e comigo entrosados sentou a de cabelos negros e lisos e longos até a cintura.
            Os transeuntes se distraíam. A lua punha e dispunha. A maioria ou quase todos se dispersava distanciavam. Ao longo da minha longa e só longe paisagem, o tempo o rio a montanha que nem ia nem vinha nem ia. As pessoas mais ou menos passeavam desordenadas.
            Entramos no carro, nem nos apresentamos, cada um com seu cigarro na boca, partimos e o rádio cantava uma canção de corno que já fazia enorme sucesso em mais de 70% da nação do Brasil (um país com ilhas e arquipélagos esbanjando cores luz água plantas verdes e de outras tonalidades parque do Itacolomi e papagaios-do-mangue).
            A noite comprou uma madrugada esbranquiçada que vendeu ao dia um novo sol, o sol que fez se apartar do dia e a lua inaugurou a sobreloja da noite estrelada, e o sol dourou a paisagem que era verde até onde a vista alcançava.
            Tudo levava a crer que era Itaporã. Fomos andando andamos andar mais um pouco. Céu alto altíssimo transparente cheio de limpeza transcendência completo de límpido. Uma pequena praça Antônio Francisco Lisboa com caxins mangabeiras arnicas-do-campo sucupiras mates-de-minas batiputás... zumbidos de manduris gorjeios de primaveras e corruíras e pegas e estrelinhas-ametistas... já com os galhos e ramos e braços a dançar ao redor do vento sul. Transferência.
            Várias cidades na beira de uma estrada sem começo sem término, talvez uma que nem me esquecia era a Lagoa Vermelha.
            Tudo parecia lento sol árvores e poucas nuvens, lento e longe. O vento que mexia os cabelos as folhas e distribuía grandes encomendas e as ultrapassagens em pista de faixa dupla. Deixei de pensar encerrei a missão naquelas horas circunstâncias escorreguei no banco saturei de conversas risos do dia, pelaí.
                                                                       ***
            Olhava o pé da palmeira babaçu carregado cheio de pássaros e aves. Subi para ver os pássaros bem de perto. Ergui os braços para abraçar os alados. Eram muitos e de todas as cores, de todos os pios e chios e penas. De repente nem havia mais pássaros e nem aves e nem pios. Todos voaram, acreditei. Ouvi cantos e bater de muitas asas sumindo que rumavam para longe para oeste principalmente serra de Paranapiacaba. As aves já estavam nas nuvens. O cheiro e o sabor eram de dia claro e verão solto frouxo largado. Os pássaros cantavam o que podiam e eram muitos, xexéus-de-bananeira, vim-vins, pia-vovós, grimpeiros, tiatãs, sanhaços-reis, tesoureiras... 
            O que será, vai ser. Voar é uma dádiva um dom um tom. Chegar é engraçado. Fazer anos, fazer aniversário é razoável genetlíaco. Faz tempo associaram o ano ou tantos dias com a idade as primaveras as gerações o horóscopo.
            Andei subi atravessei desci e quase ainda nem cansei. Nuvens coloriam os dias revoluteavam faziam acrobacias por pouco aterrissavam navegavam suspensas por um fio. Na altura de Vacaria conheci 4 lendas gurias lindas por igual plena sexta-feira irmãs em escada e que queriam por força por força casar comigo mais eu:
            A primeira era ótima informante;
            A segunda era ótima aprendiz;
            A terceira era ótima assistente;
            A quarta era ótima agente.
            Então, fiquei sem saber o que fazer. Com qual das 4 penso me ajuntar e para ser para sempre bem muito bem conforme?, pensei.
            Nem consegui dormir. Nem consegui me levantar. Nem consegui praticamente nada de bom e agradável e último. Teteté.
            Logo de manhã se espalhou uma grande e açucarada notícia invadindo a cidade os morros as canhadas os boqueirões as altas esferas: o dia claro que o dia claro começava tudo de novo; o cabeça solta do sol já baloneava pelo espaço azul distendido; a serpente do rio serpenteava já correndo por entre colinas atrás de montanhas em meio às árvores ciliares; os alados já saíam cantando rumo frutíferas para o café da manhã. Aconchegante.
            - Me vende um suco de abacaxi com bolo de chocolate e muita cobertura também de chocolate. Senão eu desacorçoo, uma vez.
            Tinha de subir no quarto andar pelo lado de fora do apartamento. Fui tentar com uma escada improvisada. Degrau por degrau, cuidado com o degrau. Tinha de arriscar. Fui subindo. A coisa toda começou a titubear tremer periclitar vergar aí pelo meio. Perto da minha janela... uta!, começou a me dar um terror de altura. E travei. E congelei. E me colei na escada portátil flexível as pernas quentes de calafrios. Nem consegui mais subir ou descer. Me amarrei. A escada bambeava. Eu suava nervoso. Um terror e pânico. Nem conseguia mais olhar para baixo ou para cima, estava cego, surdo, mudo, etc., o vento embalava meu terror. Nem queria ver o meu tombo. Me agarrei com tudo. Nem queria ver meu tchibum!...
            - Estou sem cálculo de voo nem para nadar nem para flutuar. Estou sem projeto sem currículo roteiro rumo razão social profissão sem paradeiro sem plano b.
            Tive muitas primas tenho e foram uma mais interessante que as outras uma mais bonita que as outras uma mais importante que as outras uma mais loura que as outras uma mais olhos que as outras. O dia que fez o mundo grande. Todas atenciosas chamativas apetitosas mais que frutas maduras do mato. Berimbau.
                                                                       ***
            O sol ocupando o dia, o dia ocupado de sol até as cinco e meia. Essa então a famosa delirante ditosa terça-feira compreensiva quase e por nem uma Enigmática.
            - Olha lá olha lá, um maracujá-pintado... uma quina-vermelha!...
            Outro sim, a prima Iriri ia se casar, faltava um tanto, ria à toa, etc. Conhecia a pomba-rola muito bem, ou quase muito bem, às vezes pra lá de muito bem. Tinha um riso parecido com o de cigarra em os zizizios. Sabia fazer torta de chocolate que era uma delícia. Conheceu o Caverá numa roda de amigos do clube recreativo bochófila Ibiraquera. Caverá, como o nome já dizia, era muito alto e forte e vozeirão. O contrário de minha prima que era loura e saltitante e petiça. Fora coisa de dois meses para se conhecerem, se fresquearem, sorrirem uma para o outro, trocarem uns beijinhos, um ou dois óleos, um ou dois tapas na bunda e pronto, casamento na obrigada. Obrigado. E parabéns.
            Iriri se mexeu sentou matutou lá os qis dela suspirou e colou com ela mesma de protagonista:
            - Vou me recolher a minha simplesmente.
            As aves se regozijavam para a abertura do dia andorinhas zinzilulavam tizios gorjeavam soldados-do-bico-preto trissavam a luz acelerava paisagem o rio Cotinguiba desfilava entre as árvores alecrins-bravos cambarás-de-meia-légua petúnias mamas-de-cachorra azedinhas-de-corumbá cabeças-de-monge acarás sabidos pedras auxiliares sem nenhuma para que pressa afobação.
            Convencer os velhos dela era que era que foram elas. Mas o caso já estava, biblicamente falando, esportivamente falando, naturalmente falando, resolvido ou adiantado ou arrombado ou extirpado. Não havia outro jeito e nada faltando. É, nem havia. Então, marcou-se a penalidade na cal da grande área.
Prima Iriri e Caverá casavam cedo demais, os dois muito novinhos e tal, mas já houve casamentos assim apressados que deram certo que vieram juntos até que a sorte. Quem sabia dizer se aquele nem era mais uma exceção? Então, uns temeram por isso. Outros acharam arrasador. Outros sorriram. E outros ainda nem estavam nem aí. Os parentes de Dourados os de Belo Vale os de Morro Grande nem se abalaram pois nem chegariam a tempo.
Simpática a lua. Alada a lua. Queijo a lua. Gatos e gatas vagarezas espertezas radares superligados. Prato a lua. A lua os dedos apontando apertando as bochechas desfazendo muxoxos.
            E foi uma festa muito grande. Nem sei onde arranjaram tanto dinheiro para pôr num lugar só, numa noite só e com tudo que tinham direito. O casal nem tinha nem onde morar sem jeira sem eira sem beira. É, foi um festão. Uma farra regada à cerveja e vinho de garrafão. Um churrascão com sopa de capeleti na entrada. Mais de quatrocentos convidados, fora os penetras, as visitas, os convidados de última hora, os amigos que nem podiam ficar de fora. E filmaram tudo. Por tudo e por todos pareceu uma coisa exagerada além da conta. Alguém poderia dizer, ali na hora, isso nem vai dar certo, será?
            Na festa, por exemplo, o Tarumaí, sorrateiro e matreiro que ele era, namorado da Jacundá, passou o braço com mão espalmada mão boba, pelo menos uma vez que eu vi, nos peitos adiantados da Saru, que era namorada do Iaco. A Saru que essa fresquinha muito da caprichada, tá sabendo! E se ela me parecia assim... eu também queria, ora! Já o Iaco, nem prestei tanta atenção, mas estava possivelmente muito pra lá de Garopaba. O que aliás acontecia com muitas outras cerimônias que nem largavam o copo. Toda a gente estava rindo e bebendo a dar-de-mamar. Um conjunto Os Caraíbas de músicas gauchescas e sertanejas e sambas de marchinhas carnavalescas.
            Os marimaris-grandes-da-várzea sorvendo bebericando a chuva em grátis e crescendo em si mesmos folhas e depois flores e após ainda frutos bondosos horas e horas preguiçosas respirando respirando hospedavam insetos dançavam os sanharões mentiam os micos-de-topete passeavam formigas-de-novato e mais outros bichos. Quem nem queria ser uma árvore.  
            Os pombinhos muito empolgadinhos e apegadinhos e tontinhos e zoados foram morar no porão da casa dos sogros, pais dele. Uma coisa à toa de caverna com um quarto, uma sala e um banheiro, uma tevê improvisada com esponja de aço na antena, uma porta, uma janela; úmido no inverno e sufocante no verão. Ali o paraíso terráqueo. Ali o sonho de para sempre. Ali o mundo todo junto incluído decorado por uma quarubarana posta para fora da porta. Ali a sorte sortida. Ali a toca dos tatus-bolas. Ali a sina que nem acontece em São Paulo capital do Brasil - país amazônico da Amazônia povoado de originais autóctones os manitsauá os pojixá urupá panhame canamari.
            Ele quem sabe quem viu D sabe perguntou a ela:
            - Tá contente agora, meu querer bem bastante?!
            E ela, muito sorrisona, linda, fofa, peitos empinados e durinhos e apetitosos e carentes e divinos, dos primeiros momentos juntos em diante, também correspondeu editou:
            - Começou assim muito bem a minha história, comecei com você e eu te garanto e te agradeço, meu bento meu tudo!
            Depois veio o primeiro almoço. E tanto que o sol e tanto que a lua. Depois as poucas horas que uma nem viu o outro. O que viu hoje de bonito.
                                                                       ***
            A dita é nossa, de todos que ditosos ditam, de todos que estão ditados, dos que esperam ditando e dos que dão a volta por dita. E é por todo o espaço e todo o tempo que persiste essa dita cuja. Mas todos todos acabam ditados fazer por onde fazer o quê? Então, todos nós é que jogamos dita afora e fora dita.
É assim então que todos já, desde já, se acostumam e vão se acostumando a um olhar de boi em fila corrigida linha uniforme. E boi puxa carroça, e se esforça para nem levar açoites, e puxa o todo dia todos, e pasta o capim-dos-pampas, e dorme na estrebaria, e tem o tempo de boi mugir, e os chifres de boi protetores da cabeça, e tudo de boi ou vaca, puxa arado e leva açoites de deixar vergão quando cansa quando empaca quando tranca quando balança. E boi que é boi que foi acha que nasceu para puxar carroça de três eixos.
Nuvens novas e desenhos de criança distraída. Vento lento... pasto verde saboroso nutritivo ondulante... e ladridos arquejos assobios trauteios murmúrios de riacho rolando entre as rochas... e o que falta ou acrescenta para o começo do dia. Águas cheias, marreca-carijó de chapéu novo camisa na moda cheia de predicados desenhos artísticos encantos almoçando plantas aquáticas... jacarandá-do-campo-coberto dividindo o mato da capoeira embora subindo um morrinho sacudindo o vento que já chegava morno de leste...
            Comprei uma lata de abacaxi em calda. Nem estava em promoção no supermercado Sapará nem em lugar algum. Olhei a lata e na embalagem uma imagem de abacaxi maduro de amarelo procedente de Douradina. Nem resisti de água na boca comprei e trouxe. Já vinha pensando com o prato cheio de sumo e seria muito bom. Mas aí também pensei comigo, e faltavam dois quilômetros para chegar em casa, quinze para as duas da tarde, pensei alto:
            - O que verdadeiramente dá rio a um ca-marada? O que é sorte, hein?! Onde arrumamos destino, o bom e conduzido rio? Beleza é sorte? Rio de Janeiro em fevereiro é rio? Quem quer destino levanta mais cedo e desce a corrente de jangada desfraldada vela amarela ou vermelha.
            E eu me falei e me perguntei isso aí. Fiquei pensando no rio e outras coisas relacionadas. Queria minha opinião. Cidade Rio Pomba bem distante diferente de cidade Águas de São Pedro. Caminhando com apetite nos olhos rio abaixo. Outros lugares Barbacena e Ibaté e Capivari de Baixo. Queria até ser interessante por um dia. É aventura Acaiaca, é lindeza Jaceaba, é riqueza Venturosa, é última lembrança Nossa Senhora da Glória.
                                                                       ***
             Por aqueles dias por força inventei de voltar às aulas. Eu precisava por fora desse atalho. Eu fui. E tal dia, primeiro dia, tive uma surpresa de supetão de inopino. Surpresa de tudo e subitamente. Surpresa de todos de repente de violência. Coisa que jamais... Surpresa em completamente tudo: a Enigmática estudava comigo, então! Mesmo colégio mesma sala mesma aula mesma hora. Eu iria vê-la todos os dias, dali para frente até. Nem a-cre-di-to!, gritei. Não acreditei. Triturei trinquei meu cérebro. Aquilo era coincidência, minha gente! O território que eu estava era do Brasil - um país tranquilo arborícola colossal futebolístico e lugar para um pindorama. Chamamento.
            Convidei Guamá para um cinema um rolê comer um lanche mais eu:
            - Eu faço.
            - Nem é ou seja por isso.
            Modéstia à parte, eu já sabia fazer já uma torrada, meu! Bem, aí ela topou e fomos lá pra casa. Foi também muito agradável e aprazível. Ficamos um tempo conversando, ouvindo gravação de boré dos índios parintintim e se olhando, eu preparei as torradas com suco de caju para ela e suco de abacaxi para mim. Falamos de tudo - embora já estou esquecido, foi uma emoção - falamos de nada, falamos de viagens, falamos de lugares planaltos, posso nomear alguns, Itapoá, Guaratuba, Garuva, Pariconha, Herval, São Miguel do Aleixo, Brumado, Imaruí e todos os bairros inclusive incluindo as praias e o Centro de Florianópolis. Mastigamos com modos. Comemos devagar com talheres e guardanapos de papel. Por estratagema que minha família nem estava em casa. Nos olhamos nos olhos conversadores e foi muito conservador e tocante ela tongalante.
            Continuamos a viagem fomos andando e com curiosidades. Cruzamos miragens e assuntos. Guamá gostou de ouvir o nome de cidades novas pontes de rio rochedos de montanha a serra da Mantiqueira, Jacuí, Antônio Dias, Pedra, Serro, Catas Altas da Noruega... todas cidades que eu já tinha visto falar.
            - Pois lá se pratica a tirolesa.
            Olhei a janela atrás do quadro da janela os prédios lá longe depois os morros. Uma sensação de dormir de preguiça sem ser de cansaço com acompanhamento de fechar os olhos e pensar em nada.
            - Tudo querer e nada fazer.
            Ela logo logo muito bonita assim isso e muito mais. Todo lugar onde ela tocava eu marcava com um xis. Todo lugar onde ela passava eu anotava num caderninho de bolso. Todo lugar que eu inventava um frio ela apontava o dedo. Eu mesmo ficava muito cheio de calor e paralisado e a cidade toda também hipnotizada. Eu sabia via ouvia e admirava agradecia também ria mostrava.
            Olhei a janela atrás do quadro da janela os prédios lá longe depois os morros. Eu estava já muito com vontade de mergulhar. Vento empurrasse o sol para o meio-dia do céu, etc., ainda que a alma saltasse saltasse.
            - Muito por fazer e nada poder.
Guamá prometeu que viria outras vezes. E eu prometi convidá-la outras oportunidades. Coisa que nunca mais foi acontecer, sim senhor. Eu era muito chato mesmo. Eu era muito ansioso mesmo. Eu era muito para ontem mesmo. Eu era muito seletivo mesmo. Eu era muito conchóide mesmo até hoje.
            Mas queria dizer principalmente que Enigmática estudava estudou comigo. Aquilo fora inédito lindo. Como era que podia, gente! Eu nunca quis acreditar em coincidências pois nem quero ser supersticioso e bater três vezes na madeira ou dar o passo maior que a perna primeiro com o pé direito. No entanto, assim estávamos eu e ela. E ela respirava como uma pessoa comum normal simples e contraditória. Ela até levava dúvidas de português entre o diacrônico e o sincrônico, e volta e meia a gente se tocava no ombro, eu cheirava e ela respirava, eu olhava e ela bocejava, eu sonhava acordado e ela toucava o cabelo, calada distante misteriosa, inclinada no meu flanco, eu digitava o trabalho e ela achava um erro de português com ou sem cê-cedilha:
            - Ambiente com agá, meu?!
            Uma guria tão linda e próxima que cheguei a me duvidar.
            O sol dia claro 2h da tarde surgiu e intimou o calor o verde o azul o adivinha-quem-vem-hoje a congonha-amarela a xaiá o tracajá a arruda-do-mato e mesmo até mesmo o vento.
            O fato verídico ou nem e que aquilo me fez espionar quando muito bem assim me intrigou.
            E ela era de perto muito linda, bonita, agradável e querida. Muito simpática. Nem éramos vizinhos de carteira, mas quase. Já cheirava seus cabelos. Um pouco longos, lisos, morenos, um perfume de flores da Amazônia. Nem sabia identificar o perfume, mas eram de flores da Amazônia preservadas em reservas identificadas com selo verde. Era uma menina de lei. Uma moça de árvore de lei grumixameira. Sempre digo e repito iterativo volto a insistir a mesma coisa mas então é porque é a pura simples verdade. Que vontade que eu tinha de virar em pedra e atirar!
            A chuva gostou do dia e o dia se acostou na chuva. Pitiguaris casquilhantes casquilhavam super à vontade. Me perguntei a realidade dos fatos e acasos onde eu estava pousado que a temperatura registrava 20°C que eu gostaria imenso de Petrolina, Branquinha, Pedro Osório, Jaguarão, bairro da Glória em Porto Alegre... e breve sucinto limitado lacônico.
            Eu a olhava e ela me olhava. Eu a olhava e ela parecia me olhar. Olhava para mim ou através de mim. Me virava e eram os colegas se fingindo de decoração. Vai ver... A gente se falava. Para onde iam nossos olhos nossos sonhos? Que sonhos ela olhava? A Jamari precisava muito de mim, eu nem queria saber de Jamari, eu queria olhar e pensar a Enigmática. Aonde vão parar nossos rios afluentes no Paraopeba?, perguntava.
            Veio um vento de boa viagem que nasceu no meio das capoeiras e chegou, veio o mesmo vento tocado de miragem que nasceu nos altos morros em relevo, mais ainda o mesmo comprido vento nos olhos e que nasceu na serra do Mar, veio um vento nômade do alto-mar azul e grande mar-oceano. Abri o livro na página 16 bem na hora das 16 e 15.
            Enigmática era tão espetacular especial. Cabelos e rosto e olhos surpreendentes. Espacial em encantos. Igualzinha nítida perfumada.
            - Ei, meu! Cadê firme a minha coragem de subir em altas copas de curupicaís, macaúbas, guabirobas-de-são-paulo, jacitaras, hein?
            Fui acordado pela árvore me chamando aqui pela janela desde o quintal o sol gargalhando mais a manhã se esbanjando.
            Me lembro. E agora me recordo de alguns traços ali acolá. A noite esta está quente e me sinto bem aqui. A única coisa que me falta e nem sei o quê. Mas isso é normal e... Enig-mática.
                                                                       ***
            O garoto Caapiranga ainda saía de casa para o colégio municipal Humaitá ali por perto e ele disse tchau ao cachorro:
            - Tchau-au-au-au!...
            O cachorro, que por acaso se chamava Mussum, o acompanhou até o portão e nem disse nada e ficou olhando dali todo atrás das altas grades de ferro retorcido pintadas de marrom.
            Pouco ou nada se acrescentava ali. As árvores que viam nem viam nem se sabe nem diziam de repente até nem iam. Os dias de rápida rapina e sem se agradar jamais do já alcançado. Fazer depressa e mais ainda. Espiritual.
            - Quem sou eu, gente?!
            Uma pessoa que viaja sabe de tudo. Quando vai ver vira famoso. Quando já famoso porque D apontou o dedo. Exponencial.
            Uns quinze anos de idade torcedor de um time grande de Porto Alegre Caapiranga virou a esquina olhou o portão última vez viu o Mussum olhando desapareceu na esquina, o cachorro se voltou subiu a escada de fora procurou alguma novidade na varanda e deitou diante da porta principal sobre o capacho:
            - Seja bem-vindo!
            D é cobra. O bairro São Cristóvão reamanhecia iluminado e aromado de pitangueiras as andorinhas-do-campo o início do mundo a luz refletia as pedras nas paredes nos armazéns nos postos de gasolina o pensamento absurdo. E D era lebre alma-de-caracará-preto arabutã urutu. Novidade.
            Na sala de aula Caapiranga contou o que havia nem havia. Olhou como ver a paisagem líquida, ouviu como ouvir, gostou embora como gostar. Imaginou narrou com detalhes. Coisas de longe e também de ali por rente. Extremamente.
                                                                       ***
            Afagável infatigável cidade, à noite, talvez Cuiabá, Estado do RN símbolo a ema. Comprei um aparelho e fui no orelhão telefonar. Eu já tinha um, mas comprei outro ainda melhor e mais caro e menor. Telefonei e esqueci o aparelho novo ali no orelhão - orelhão que era parecido com uma geladeira -, e eu deixei o aparelho na porta, por fora, ou seja, nem fechei a porta da cabine, a porta do orelhão, sei lá. Aí, eu fui embora.
            No meio do dia (que rua?) eu lembrei que havia deixado ou esquecido o aparelho novo na gaveta da porta aberta do orelhão. Pensei em voltar com receio que me furtassem o aparelho o celular ou sei lá o quê. Repensei melhor:
            - Que nada. Volto lá daqui a pouco e o apanho numa boa. Ninguém vai reparar no aparelho e ninguém vai olhar e mexer e levar e roubá-lo.
            Eu pensei assim e me acalmei e fui dar minhas voltas (por onde?). Então, eu encontrei o meu amigo Tietê. Falei pra ele da minha rateada e tal. Ele balançou a cabeça tossiu uma tosse de fumante crônico e me disse:
            - Mas nem vão afaná-lo, né, meu!
            - Acho que nem. Ah, quê! Acho que nem.
            A noite esbarrou na subida da montanha acendeu fogueiras entre os prédios. Os fogos pirotécnicos fizeram mitos e faíscas e os vaga-lumes foram tentar a sortida no alto do céu noturno. Viraram estrelas piscantes olhinhos de piás arteiros fogueiras de são João. A paineira da praça da Alfândega botou um queijo que logo logo virou ovo. Passou rugindo baixo um avião de asas abertas. Faltavam outras coisas, mas quais outras coisas: bater na cancela e abrir uma porteira?
            Pois aí decidimos ir logo atrás do aparelho antes que me roubassem. E de longe eu já via a porta aberta da geladeira do orelhão com a gavetinha onde deveria estar o meu aparelho novo. O aparelho ainda estava me esperando. E eu e Tietê nos apressamos correndo para chegar a tempo. Quase chegando apareceram dois carinhas e viram o aparelho ali dando sopa furaram fila e o levaram imediatamente embora. Eu gritei na hora:
            - Ei, o meu aparelho!
            Eles nem ouviram ou fingiram nem ouvir e foram correndo embora e se internaram num boteco com cara de cinema com cara de inferninho ou sei lá o quê. Eu e Tietê entramos atrás e nos deparamos com um ambiente de bodega lotada de caras bebendo e mastigando. Quem eram os dois que pegaram meu aparelho? Vai saber!
            O bar tinha uma dona de gerente e a mesma dona de atendente que veio pedir o que eu ia beber eu disse:
            - Alguém aqui presente roubou meu aparelho que eu deixei sem querer na porta da geladeira. Vim buscá-lo. Sabe quem são os piratas e que entraram aqui gritando correndo, hein, dona do estabelecimento e atendente?
            A patroa nem sabia e ainda sorriu dizendo que eu deveria ter uma pista ou uma descrição melhor do ladrão ou larápios. Eu olhei em volta e me pareceu mais ou menos me lembrar daquele que pegou o aparelho e ele tinha uma roupa uma jaqueta preta de pano com gola de outra cor mais clara. Olhei bem os presentes. Eram todos da mesma idade e nem me lembro se havia mulheres além da dona do botequim. Me resolvi decidir a parada e arrisquei e apontei o meu suspeito.
            - Nhi-nha-nhu-nhéeee!...
            A matrona do bar era muito viajada. Não era vendedora nem entregadora nem assinante de contratos de negócios, mas viajara muito. Muito viajava com interesse particular. Ela contando se riu gesticulou nem deixava eu falar e se empolgou maravilhas venturas quilometragens. Quando nem conseguia ir pessoalmente era uma imaginação que se virava e ia pelos cantos e recantos exemplos os bastantes, Rio Brilhante, Mata Grande, Umbaúba, Arroio Grande, Santana do Paraíso, chafariz do Alto da Cruz em Ouro Preto.
            - Quem sabe um dia... Tomara!
            Quando apontei o cara ele já veio para o meu lado com ironias dizendo que eu era milionário, que eu estava iludido, que nem fora ele e assim por diante. Eu sustentei até o fim e fomos conversando andando em volta quase amigavelmente. Eu mais amigavelmente que ele, pois tinha receio dos presentes que pareciam estar do lado dele. E lembrei também que ele tinha um comparsa no roubo. Fui levando a conversa e tentando usar palavras boas e tranquilas para nem irritar o cara. E depois eu o convenci a me devolver o aparelho. O que achei maravilhoso e quase caí das nuvens nimbos-estrato.
            As estrelas os planetas foram saindo para muito distantes. Eu nunca vi uma estrela distante de perto mas dizem que são sóis maiores que o sol. Nunca vi um planeta vermelho ou azul de perto nem de longe mas dizem que nem respeitam a velocidade dos anos-luz.
            - O que estou fazendo aqui, homem de D?
            O cara que eu desapontava finalmente deu o braço a torcer e me devolveu o aparelho o celular o que seja. Eu e Tietê, satisfeitos com a parada resolvida, fomos embora, saímos do bar e lá fora, na luz mais forte dos postes de luz clara, eu conferi o aparelho e nem era o meu. Aliás, um aparelho que nem era o meu e um modelo velho e ultrapassado. Ah, nem! Voltamos para o bar com certa alergia do famigerado, meu!
            A cidade se desacomodava da ressaca mal dormida da noite sem olhos farinhenta da cerração baixa fria. Daí pra frente só vibração trepidação de carros nas ruas e automóveis que iam e vinham pelo labirinto dos tímpanos das ruas.
            O sol surgiu voando e perguntando rapidamente:
- Cadê meus vinte mil caminhões-truques carregadinhos de ouro puro em pó, hum?!
 A lua rapidamente com urgente pressa necessitada sumiu entre os matos, orelhas-de-onça, cardeais-do-pantanal, goitis, ervas-de-fogo, caxiús-pretos, inhabentos... mega super formigueiro das curupés:
- Vamos vamos logo pra Santa Efigênia de Minas!
            Fui falar com o cara outra vez e o cara sorria e me tentava convencer que aquele era o meu aparelho e até mesmo beber com eles que a noite era uma miçanga de cunhantã poianaua.
            - É esse o aparelho que eu achei no orelhão! Nem vem que nem tem, oh, carinha!
            - O meu é novo com cheiro de novo em folha e você tá de palhaçada comigo! Eu só quero o meu aparelho de volta, enfim!
            Pois aí apareceu o segundo tipo, eram em dois, e o sujeito esse outro me mostrou um aparelho e me disse:
            - Pronto, tá aqui o teu aparelho novíssimo. Nem precisa chorar, né!
            Eu peguei o aparelho e olhei com calma e paciência me concentrando fora dos risos e gargarejos. Nem, nem era o meu aparelho moderno. Era um modelo muito exótico, parecia uma chuteira de jogador de futebol. E eu pirei de bombas mais minas terrestres dos dois figuras. E aí eles se riram e continuaram rindo como dois papagaios ou periquitos ou maracanãs.
            - Ué, meu! Que tempo faz? - me perguntei abalado.
            Depois disso eu e Tietê estávamos aparecemos na rua ou na estrada (quanto?). Tietê disse que ia para outro lado e se despediu. Eu me voltei e fui em direção ao Centro da cidade, ou o que eu achava ser o sentido do Centro da cidade.
            - Onde já se viu uma coisa dessas assim!
            Ora era rua com casas na beira ora era estrada com descampado ou terras improdutivas. E eu nem sabia como chegar ao Centro. Eu nem fazia ideia de como parar um ônibus, nem tive ideia de táxi, de trem. E fui indo a pé, no mais. Eu ficara com descarga elétrica do bar e nem voltei lá para pedir informação de como chegar são e salvo ao Centro.
            - Quem foi eremita? Por que eremita? Que eremita é esse aquele e se fala muito por aí, hein?
            De repente, apareceu de surpresa na minha frente, já andando na minha frente, uma carruagem de aluguel, talvez, e toda suja de barro respingado como se tivesse chovido muito e a estrada ou rua toda de barro lamacenta, no meio dos carros e caminhões e máquinas fora-de-estrada. Tudo bem.
            Aí, o que eu fiz? Eu peguei carona na traseira da carruagem e me achando muito com sorte boa. Mas já notava que o condutor, que ia sentado na boleia guiando os cavalos a galope, tinha me visto e se preparava para me chicotear o lombo. Eu imediatamente pulei fora e caí na rua sem me machucar. Bem na hora h que o condutor resolveu chicotear a traseira da carruagem pensando que eu ainda estivesse pendurado. Me safei por pouco. Mas ainda não nem.
            O condutor parou a carruagem e veio me buscar, ali na rua. Eu ainda sentado no chão. Veio até bem perto com hálito de bife acebolado e disse:
            - Qual que é, meu! Se eu te pego ali na traseira eu te corto a relho, morô, pescô?!
            Eu nem lembro se me desculpei, se disse água, se tapei o nariz e cuspi, se falei alguma coisa ou nem falei nada. O cara disse ainda:
            - Ei, olha! Vem aqui que vou te apresentar ao meu patrão, um cara muito rico e politiqueiro e legal.
            Eu segui o condutor e fomos até o carro, carro importado, carro muito valoroso e de luxo, que o patrão pilotava ele mesmo. Todo carrancudo nem me olhou e nem baixou o vidro. Era tão milionário que nem falava com qualquer um ou com um inferior por baixo. 
            Pois eu e o condutor (que se chamava?), fomos andando mais uns metros e ele me disse:
            - Eu trabalho aqui nesta mansão que tem até dois elevadores.
            Assim, olhei para o lado e vi uma mansão parecida com um forte militar ou uma fortaleza de empresa transportadora de valores. Um muro alto em volta cercando um extenso retângulo... orelhas parabólicas voltadas para os quadrantes... ziguezagues aéreos das uiriris... talás-verdadeiros de dois em dois... abacates-do-mato de três em três... manjeronas-do-campo de quatro em quatro... jardins suspensos com as flores coloridas.
            - Eu trabalho aqui nesta mansão que nem te preciso te provar mais nada.  
            O condutor disse que trabalhava ali de dia, e de noite fazia bico com a carruagem. Ganhava um a mais. O colega dele, também ali no serviço da mansão, um cara que nem me lembro de ter visto, nem fazia os tais bicos e meu amigo achava que era otário pois deixava de ganhar uma grana extra e por fora.
            - Eu trabalho aqui nesta mansão que foi um casarão dos senhores bisavôs do meu patrão e tempos do café-com-leite.
            Nem demorou muito que nada e o condutor pediu se eu queria trabalhar com ele e morar ali pela redondeza, alugar um quarto. Eu pensei... Quando eu resolvi e devolvi que sim, o condutor disse que nem ia dar certo e que era bem melhor eu procurar coisa mais em conta e tal. Achei estranho, mas nem esquentei. Eu nem tava a fim sério de trabalhar de mordomo para rico nenhum e nem virar amigo de mordomo de ricaço algum.
            Assim, eu estava de tocaia na estrada ou na avenida atrás de pegar um ônibus para o Centro da cidade. E ainda perdido. Acho que nem perguntei ou me esqueci de perguntar para o condutor o que eu deveria fazer para chegar ao Centro se ele poderia me ajudar.
            Sem contar o rio rolando ali que destilava das pedras enxugando pedregulhos chupando cascalhos e as tais e quais grupiaras. Os curupuruís comendo das frutinhas maduras exalantes bebendo água e piando alto e em soberba. Sublime.
            Era ainda de noite e tudo era mais difícil. Eu esticava o braço e ninguém parava e nenhum ônibus. Táxi eu nem via ou nem me lembrei que existiam. Trem ou metrô nem passava pela minha cabeça. Mas principalmente eu nem entendia as ruas e por que estava a pé por uma rua qualquer.
            Os poucos ônibus que surgiam apareciam de repente e nem paravam. Eu esticava o braço e já era tarde. Ia andando e quando me alcançavam eu sempre estava fora da parada. Só deixavam o vento de poeira. Fui andando a pé e bem perdidinho. Parecia uma sina. Era abichornante. Parecia aloprado.
            Entre morros e morros ziguezagueavam o desfiladeiro a estrada o rio. Cada caso lado a lado com seu caso ao lado, então sua árvore predileta frutífera florida frondosa guachamaca, embiú-amarelo, cachimbo-de-jabuti, cedro-batata, trapoeraba-vermelha, almecegueira-mansa...
            Lá pelas tantas andando sempre, eu vi umas louras rindo e conversando chegando perto. Pensei em perguntar e gritei:
            - Ei, tias! Onde é a parada do ônibus que vai pro C?
            Elas eram umas cinco ou seis e riam muito e eram todas louras de cabelos louros cacheados uma maravilha. Todas muito risonhas e falantes e bonitas, parecendo irmãs, bem parecidas, louras naturais do verão da praia Mole, da Joaquina, da Galheta.
            Elas me apontaram, ou uma delas me apontou que era para lá e eu fui e olhei umas vezes para trás. Caminhei mais um tanto e parei. Era a parada mesmo, tinha até uma placa no chão (que horas?). Nem me lembro de placa nenhuma. E esperei um ônibus abençoado passar.
            Reunião da paisagem estiquei o braço peguei a mancha de árvores mais bonita que fugia embora. Rápidas incontroláveis as plantas timbó-catinga, rabo-de-lagarto, taiuiá-grande... Uma montanha levantava rochas e pedras para o céu.
            E passava caminhão e deixava poeira, e passava carro e deixava o rasto, e nada de ônibus. Vinha um ou outro de vez em quando, mas nem parava, nem me via, passava muito rápido e nem me via e só deixava vento de poeira. Eu fiquei cabreiro.
            Cuidei melhor e vi que o lugar nem era adequado para ponto de ônibus, afinal estava numa curva muito de cotovelo. Os poucos ônibus que passavam passavam e nem me viam, ora! E buzinas estertoravam, bêbados faziam estardalhaço e que nhe-nhe-nhé!, meu!
            O céu por completo tinha muito interesse nisso sim isso mesmo. Profundo interesse e muito que queria. E isso era para perceber e se percebia.
            Olhei para longe e vi que chegavam dois ônibus atrás de um caminhão-truque. Levantei o braço e o caminhão bi-trem passou, deixou poeira, os dois ônibus passando passaram e eu desesperado querendo que um deles parasse, nem pararam e se foram na nuvem de poeira. A poeira passou também baixou e eu vi os ônibus se mandando para lá do adeus. Que palhaçada, meu!
            Eu voltei para a parada e tentar mais e mais. Me sentei numa pedra com as duas mãos segurando o queixo. Testemunha.
E sacudi a cabeça para afastar os cabelos dos olhos e o dia apareceu, tudo clareou, tudo melhorou, ou melhor ainda, acordei, me senti roncando, acordei.