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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 9




Os três irmãos Corticeira mais uma irmã que ficava em casa e cuidando da casa junto com a mãe mas nem sempre. A quarta na linha do tempo e que fechou a fábrica a fila. Um pouco loirinha mas nem muito. Tinha os olhos calmos e curiosos. Gostava de estudar e queria morar em Nova Mamoré ou Guajará-Mirim para trabalhar na usina de Jirau e Santo Antônio. E era o que ela sempre explicava fosse custar o que custasse.
- De manhã no rio Corumbá: nuvens esparsas com sol aparente.
- De tarde no rio Guamá: névoa úmida com vento de leste e fracos.
- De noitinha no rio Benfica: temperatura ainda por volta em os 27°C.
O nascer do sol e o dia começando todo aberto como cor esmeralda comovia os bichos as árvores os automóveis os tucanos-de-bico-verde que vinham pastar nas bacabas-brancas os nambus os guaribas os araçaris o independente quiriri...
Já os irmãos cedo desceram a escada atrás da casa para chegar na frente da garagem e abrir o negócio da família e pararam e foram os três de mãos vazias. Quem abria o portão. Esqueceram a chave automática pois alguém tinha de voltar. Um aguardou pelo outro, etc., ex. Braços alongados para o alto do céu em preguiça comovente e vontade de continuar dormindo dormindo.
A sempre disposta festiva guria da vizinhança da direita cumprimentou atirando um “oi!” da rua. E ela que saía sempre mais ou menos àquela hora e para trabalhar no café Pirera-Sajica da base naval de Val-de-Cães.
Da janela do quarto dos três a irmã jogou a chave que veio parar no chão de lajes basálticas tilintando. Os olhos consagrados castanhos desfilando panorâmicos o céu sem nuvens por onde passavam. Ela fez o gesto sem pontaria e se voltou para dentro.
A chave do portão escolheu o irmão mais velho como sempre. Pois ele se abaixou recolheu e acionou o botão. Um deles já flexionava os dedos das mãos, o outro de mãos nos bolsos. Entraram e já sabiam o que fazer ou continuar em consertar ou raspar ou bater ou engraxar ou lixar ou limar... Ninguém precisava falar nada por enquanto e nenhum deles abriu a boca por mais de uma hora e meia.
O dia continuou lá fora em todo lugar e todo amplo e automóveis na avenida calor aumentando em novembro casas ao sol pelas 9:45 deu um pouco de fome normal. Sempre os irmãos subiam em fila indiana do mais moço para um café rápido e geralmente com doce cada um com sua preferência doce de sonho doce de bolo de chocolate doce de massa folhada com cobertura de creme de caju.
- Lá isso é, punaru! Vamos com o bloco dos Farrambambas, tá?!
- Lá isso é, monômio! Sempre gostei de fantasia de índio ou polícia, hein?!
- Lá isso é, mameluco! De preferência nos bailes de Cotiporã de Rafard ou ilha das Onças, tudo bem?!
9-carqueja-de-bico-manchado.
O escravo Gaudêncio, por volta do meio para o fim do século dezenove, foi presenteado com uma negrinha de uns 16 anos. Negrinha nova e brilhante e arteira e magra magricela magriça. Fora comprada no dia anterior lá em Rio Grande. Fora um lance alto do dono. Aí, o dono trouxe para casa, ali em Soure.
Gaudêncio recebeu a negrinha muito bem. O nome dela era Paxiúba. O dono patrão seu Curaca Tangapema disse para Gaudêncio:
- O nome dela é Paxiúba. É tua mulher para muitos filhotes e eu aposto nisto.
E Gaudêncio ficou contente e ficou feliz e foi dormir com a Paxiúba ali assim no mesmo barraco. Ela tinha os olhos arregalados. Ele apagou o lampião. Os olhos brancos no escuro. Os olhos brancos dos dois se procurando e tímidos.
Eis por que seria difícil o choque o entrechoque os contrastes os confrontos de personalidades. Daí haver razão suficiente etc., ex. para se afirmar, progressos e retrocessos, ensaios e estudos, facilidades e vantagens... A expressão do abstrato na busca na captura na pintura do inconsciente.
Aí, Gaudêncio foi buscá-la de lá junto da parede na palhoça. Ela meio que não queria e travou dos pés as garras. Ele teve de arrastá-la pelos braços. Ele dizia com calma e paciência, ela esperneava com desdém e o desdenhar. Se deitaram na esteira. Ele segurando ela para ela não escapar. Depois dormiram agarrados sem se mexer. Mas não dormiram e fizeram barulho para assustar os cachorros os filas. Os olhos brancos de ambos no escuro se procurando. Dormiram no fim da madrugada. Ela tremia toda vibrante renovada pisoteada ampliada revolucionada... Ele tremia todo derreado adusto queimado completo abrasado...
9-arara-de-barriga-amarela.
Frases sentenças de Pedro:
- Governa seus olhos, de guria jubilosa, um rio com cidades crescentes rio avolumando de rios e a baía e a capital.
- Tenho a impressão de hora em hora que o sol voa aterrissa árvore no vento nem interfere faz chover chove corre rio percorre cidade conta as horas até virar lua ou disco voador.
- Há muito que fazer rio abaixo muito que ver Caiçara do Rio do Vento praia de Galhetas reserva baníua pindobeiras cajazeiras olhos-de-onça...
- Com o incêndio o que se faz é comparar ela Janatuba em boa hora nem se compara com fogo chama fogueira o calor dela.
9-marreca-toicinho.
Com as palavras de Aline: cosmético, empuxo, socavão, calaveira, pasticho, borderô, estuante, porta-fólio, busílis, epítome.
9-macuco.
O pai do Joel entrou na praça Primeiro de Maio, parou ali de mãos nos bolsos, um vento assombrando a ponta dos cabelos, a sinfonia dos automóveis na avenida Valparaíso de Goiás. Tinha um comerciante que vendia giz para baratas. Depois um cachorro sem dono que farejava tudo que era poste de luz. O cachorro parecia sempre procurando alguma coisa que perdera que pensava encontrar. E tinha para onde ir? O nome dele, do cão? Se chamava Tupi, é claro.
O vento, àquela hora da manhã, estava lotado preenchido de sons e ainda atingia a copa das grandes árvores. Ou seria o caso do vento estar barrado pelos edifícios em volta, que eram altos e mais ou menos sem realeza? Prédios de apartamentos funcionais e pronto. O barulho dos autos era constante e até agradável. Uns pios gorjeios chilreios de curiós gralhas-do-campo tuins... eram bem melhores. Eram dois três desses passarinhos bem-vindos em casais em família em pares em bando.
E passou uma pessoa apressada. Por que misteriosa? Talvez porque ninguém a entendia. Nem na rua nem em casa nem no trabalho. Talvez porque pintara cabelos verdes, usava vestido e não calça, óculos escuros até nos dias sem sol, deixava o carro na garagem e preferia ir a pé ou de ônibus, tirava o fim de semana para estudar em vez de festar com o namorado ou os amigos e os colegas...
Assim como o dia é claro, o pai do Joel via bolhas via casas via árvores via bolhas subindo estourando no ar. Ouvia bolhas, tofe!... explodindo casas automóveis bolhas de todas as cores. Uma família de guigós pendurados todos mais ou menos juntos nos galhos da pajurá-da-mata...
O pai do Joel nunca foi gênio. Procurou um banco vago e achou. Trepadeiras floridas em latadas e estacas e barba-de-cabra e douradinhas e cambará-de-capoeira e figueiras-vermelhas... Se sentou. Logo em seguida, meio de lado, se encostou no encosto do banco de ferro, botou uma perna pra cima do banco, abraçou a perna para afirmar melhor e ficou olhando na direção principal do nariz o vetor. A cidade e seu comércio local intermunicipal. Que engraçado! A cidade funcionando e ele ali parado, sentado no banco da praça do Imigrante, olhando. Todos pareciam atrás do pão-pão e queijo-queijo se matando de trabalhar e ele ali sentado olhando relaxado vadio. E a cidade funcionando com tudo, quarta-feira, 10h e 9min no relógio digital. E no relógio da torre da catedral. As palmeiras caranambuubas cocares coroas copas ao vento.
Depois da praça, ou em torno dela, a rua Papanduva. O prédio do banco de crédito. Cheio de vidro fumê e pontos de luz. As bandeiras para todos os tamanhos de territórios, tremulando, cores horizontais, estatuais. E umas andorinhas temerárias. O canto ensaiado da corruíra. Onde não tem corruíras neste país do B?
Apareceu do nada um senhor de certa idade indiscreta. O mesmo cara foi destravando uns miados e murmúrios e grunhidos:
- Perdi meu cavalo de estimação. Veja a foto dele...
Mostrou uma foto mal e mal ele e o cavalo no celular um autorretrato. Depois recolheu e ficou contemplando com certo jeito olhando de lado, de cabeça derrubada, de moral baixo, fazendo biquinho. Suspirou e continuou a ronronar sapatear quadruplicar:
- Não sei onde ele anda agora. Talvez com fome sede frio. Pensei encontrá-lo aqui nesta praça e comendo grama pastando. Tenho sempre esperança das praças largos espaços sociais. Vou de praça em praça. Todo mundo um dia passa pela praça que for.
A igreja tocou as horas da agradável manhã sul-americana e nacional. Olhe só os bem-te-vis-cinzas nos galhos da gonçalo-alves! Turma de alunos em risadas sem fim e empurrões bobos correndo para o mesmo lado. A senhora de bermuda verde estilo soldado camuflado e a cadelinha xereta, passeavam de guia dada. Assim hoje e ontem.
Pai do Joel tinha o poder de separar as pessoas e trejeitos e movimentos no caos total da praça. Muitas gentes e bichos e carros circulavam ali no dia a dia e do começo ao fim. Nem era nem aquela das mais confusas praças que já vira e revistava. A praça da cidade é o centro do mundo físico político anímico artístico. Precipuamente nas segundas-feiras.
Veio a Temperatura e se sentou do lado do pai do Joel. Que que houve? A Temperatura tinha um penteado descido nos olhos, o sol era forte, etc., o dia se encaminhava e era setembro. A Temperatura foi contando e da própria bolsa:
- E a temperatura esperou uma hora aprazível. Tinha razão. Tinha garrafas vazias pra vender e na feira livre.
“Uma feita, nem se sabe, a temperatura teve uma ideia sexteira, comum, noturna, natural, esportiva.
“Durante o dilatado da temperatura o mundo o universo o acaso o D, se debateu sobre essa calma, esse nada, esse todo, esse movimento espiralado.
“E a temperatura chegou aí pelos seus 20°C. A temperatura solta no ar. Esta mesma. Sujeita da tardezinha. Que pensamento oculto teria essa uma?
“Pouco mais a temperatura se sentou na rede da varanda, olhando, pensando, o olhar no horizonte, o olhar virado para a lagoa Rodrigo de Freitas. Ouvia até as vozes chilreios dos passarinhos nos timboúvas da rua Barão de Drummond...
“Mas... Se levantou, supetão, circulou mais meio minuto caminhando pra cá pra lá no espaço pequeno da sacada, se decidia, decidiu: foi ao jogo de vôlei.
“Em casa aguardaram os poucos familiares. Estes já sabiam: se a temperatura voltasse logo depois do jogo, o time perdera; se a temperatura voltasse mais tarde, o time também perdera; se a temperatura voltasse bem mais tarde e cheio de autógrafos é porque o time ganhara. Mas as probabilidades são sempre de cinquenta por cento enquanto o mundo for mundo.
“E a temperatura saiu decidida e contente para assistir ao jogo federal. Pensou se era bom ir de carro metrô carona a pé táxi. E foi, pegando a rua Tapiraí bordada de aroeiras-de-campoeira, ximbiúvas, perobas-tabuadas... A temperatura ia confiante firme sorriso na cara, aplaudida pelos citadinos turistas, cheirada pelos pets.
“Todo o bairro Itaquera vivendo horas de calor barulho mafuá buzinaço gritedo, trânsito engarrafado.
“No meio do centro de compras se via um quiosque muito largo com porta estreita trabalhada. De longe parecia de uma cor bege, mas com certeza eram mais cores associadas. De perto uma mulher jovem sentada na frente ouvindo o celular enlouquecer com os polegares em alto movimento muito ágeis e rápidos e etc., por ex.
“Cinco graus baixaram. Cinco anos rolaram. Cinco séculos desde que inventaram a roda para rolar a bola quicar a bola sacar a bola no Viagem.
“A temperatura apareceu reapareceu em casa abriu a porta, e vestida de camisa de atleta toda rabiscada de desenhos de nomes próprios apelidos codinomes fantasias. E todo meio mundo já sabia do resultado da disputa. Ela quis mostrar, e prestigiada, para todo mundo e foi de pessoa em pessoa ali presente.
“Dali pra frente a temperatura resolveu sonhar e pendurar a camisa num quadro da parede e todo envidraçado, se for o caso.
“Esse fato durou praticamente o mundo todo. Ela acompanhou o time do coração da cidade em todos os jogos pelo país federal, e de ônibus de carro de carona de avião.
“Por décadas na sequência foi fã e seguidora das jogadoras nas redes sociais etc., por ex. Trocava fotos conselhos esperanças vitórias derrotas medalhas e datas de aniversário. E mais que nunca, recomendou para amigos colegas vizinhos parentes filhos e netos. Sentia o sabor de pertencer ao mundo todo. Expectativa a cada temporada mês de maio na renovação do contrato, aqui ou no exterior. 
“O próximo campeonato o mundial a liga a olimpíada, e fazer o quê.”
As horas estavam quentes. O pai do Joel via ideias penduradas no ar nas árvores nos prédios como se fossem enfeites de natal. Ouvia nuvens estourar, pofe!... nos prédios nas casas nos autos no trem nas tembetarus da avenida.
Dependendo do dia localizado dentro do ano, o pai do Joel procurava escolher e sentar num banco ao sol ou num banco à sombra. Nesse dia, na praça Primeiro de Maio, ele se sentou à sombra da prestigiada coronilha. E esperou.
Passou um auto dois autos todos assim na rua Janduí, passou bicicleta, passou caminhão carregado de mudança, passou lambreta levantando poeira, passou a senhora dona Caçuá, passou o cachorro Panema, passou o carteiro, o homem do gás na camionete carregada de bujões de gás, passou o caminhãozinho das frutas caju juá cajá carnaúba mari tapiá mutamba quixaba cardeiro... passou o carro de som, passou o ônibus lotado de estudantes para Chapecó, o teco-teco no céu, passou Alice e Marcelle de mãos dadas, passou a filha de Aline e vestido verde até o meio da coxa bem bronzeada torneada, repassou o bando de andorinha, foi passando a manhã num risco...
Uma guria passou, sem olhar, olhando o chão e raramente à frente, com um lenço engraçado de seda colorido, ou florido, no pescoço. Devia se chamar Ana Paula. Pelo porte e pela certeza e pela natureza e pela beleza Ana Paula na paisagem.
Depois o pai do Joel foi contando os bancos, dando volta na praça. Bancos de pedra basalto, granito, mármore, cimento, madeira, vários materiais combinados, bancos patrocinados, bancos de frente pro sol horário de verão e político.
Parou perto do monumento ao Patriarca. Ouvindo os joões-de-barro soprando os trinados, correndo na grama, correndo na terra vermelha, quicando na brita. Do outro lado a rua Rio do Campo temperada de pessoas apressadas e carros resplandecentes.
9-corocoxó.
Com as palavras de Aline: estardalhaço, avassaladora, perfilhar, algoritmo, compunção, terso, estiolar, corografia, âmbula, quituteira.
9-periquito-de-asa-branca.
O filho ou neto ou bisneto etc., ex. do Gaudêncio e o Gaudêncio pegou suas coisas sua família de esposa e casal de filhos botou tudo no caminhão de aluguel e foi e saiu fora e se despediu do velho tambo trocou a roça de meia pela sorte de operário de fábrica. Rumo da estrada de Jerumenha, São Caetano de Odivelas, São José do Rio Pardo, serra da Contamana, fronteira arcifínia de rio Tarauacá, por ex. Nem importa, mais velho quantos anos, 29 anos, e foi com razão convicção vontade e certeza. Pelo meio da cidade nova pequena onde raramente o conheciam.
Chegou abraçou a mulher Juruviara os filhos o filho Purupaqui a filha Aquáua a rua Raymundo Morais bairro Cidade Velha em Belém. Olhou pros lados foi descarregando os trecos os trens todos etc. A guria o guri já corriam pela calçada procurando conhecer tudo.
O casal de chora-chuvas numa comum pequena esvoaçante distraída discreta dança de acasalamento. Sendo assim, só rindo. E o passarinho para a passarinha:
- Hei de lhe mostrar o meu próprio o nosso único alvitre...
- Calqué?
Pois que o passarinho a beijou ela passarinha no bico. Até porque ela alada avezinha estava complexa e sutil, destes sentimentos.
Cabeça nova renovado o Gaudêncio. Casa alugada bairro a ser explorado cidade nova emprego na fábrica de brinquedos que nem era brincadeira. Depois o aluguel etc., ex. o dia a dia.
Gaudêncio foi o que viu na cidade de Westfália, o que notou em Rondon do Pará, o que comprovou na progressista São Luiz do Paraitinga, conheceu ainda terra índia paumari do lago Paricá, o que todos falavam de Seropédica, Brodowski, Badajós distrito de Codajás, ilha do Combu... E foi então ali estava e tudo muito claro. Passa um filme.
Falou sempre para a nega veia dona dos seus cuidados:
- Correria nossa minha de práticas evitações e comportamentos, uma vez.
- Toda a história descendo rio afluentes lagos ilhas cascatas rochedos casas... e é o que é.
Então, de dia Gaudêncio cuidava de ir à fábrica, voltava, entrava no bar Reriú perto de casa e batia papos futebolísticos até as 20h. A dona Juruviara por enquanto cuidava dos afazeres domésticos dos filhotes mas com admiração por também um emprego de carteira assinada.
O Gaudêncio e o sol o rio em seu caminho diário corrente, correnteza iluminando meio mundo. E quem diria.
9-tuiuti.
A praça da Sé fazia um quadrado, um retângulo, um pentágono, etc., ex. e o pai do Joel olhou a igreja por fora, por alto, mãos nos bolsos, vontade de fumar mas se controlando para nem fazer fumaça. Tinha uma sombra de arbusto pé-de-papagaio ali e foi e se sentou no banco de cimento, o braço esticado no encosto, a vontade de fumar já fora embora. Olhando em volta. E à direita e à esquerda.
Andorinhas trissando a todo custo, alimentação aérea, voando muito rápidas. Vivem em média 8 anos. É pouco? É muito? Pra quê?
As praças se parecem em boa parte. Ao menos na maioria. Se repetem na figura. Há muitas em forma triangular. Praças para o povo esperar e as gentes sentadas. Praças para o deputado prometer tudo de errado tudo de mentira. Praças para os camelôs negociarem quinquilharias.
Qualquer figura faz uma praça. Qualquer praça já é uma figura geométrica. Mas isso mesmo nem importa. Praças para os pássaros urbanos adaptados.
Uma idosa, bolsa marrom das grandes com fivelas e fechos, começou a contar uma história. Ela veio descendo lá da rua Lindoia do Sul. Parou ali na frente do pai do Joel e disposta a contar. Parou e foi puxando a história de dentro dela mesma. Uma coisa assim:
O pai do Joel aprendeu nesses anos de procura em procura, de praça em praça, que as praças se parecem com as cidades. Uma praça é uma ilha, punhado de árvores grandes. E as cidades começam sempre na praça da Matriz. As cidades começam nas praças o marco zero e depois dali vão embora para os bairros.
Crianças apostando risos e gargalhadas nos balanços, escorregadores, gangorras. Nem só gritos e berros e risos. Entrando na fila para subir no tobogã.
Praça é assim mesmo. Árvore é assim. Pássaro é assim. E o resto não importa nem nunca importou. Nasceu virou mexeu largou pegou acabou.
Chuva caindo atravessada e miúda e friinha, etc. Ninguém poderia dizer que era chuva. Uma garoa peneirada. Um pouco desequilibrada pelo ventinho do nordeste.
- A moça do boné de aba curva. Ontem eram duas. Dizem que esta se casou com o jogador de vôlei do Barueri. Ou foi Osasco.
Os pequenos redutos de aves silvestres. Cercados de tela de arame pelos lados e por cima. Uns pios estranhos, uns guinchos surpreendentes, cicios, grugulhos, trilos, jaó-do-sul, tiriba-fogo, papa-lagarta-do-mangue, juriti-vermelha, inhambu-anhangá, cujubi, pato-corredor, aracuã-de-sobrancelhas, pariri, chimango, saracura-do-mangue, batuíra-de-esporão... Até que os ambientalistas defensores dos animais selvagens consigam tirá-los dali e levá-los para um retiro mais sossegado menos estressante menos humano mais ou menos decente.
9-maçarico-do-campo.
Frases sentenças de Pedro:
- E era uma ocasião e a rua por onde eu passava rua muito engraçada rua muito automóvel hora de voltar da escola olhava as nuvens lia a evolução das aves parava para ouvir as folhas das árvores.
- Saber ser chuva é o máximo e piraquara também amigo das águas piraju das lagoas das alagoas marinho das alagoanas.
- A árvore vem com o rio sintagmático o rio vem da montanha onde cresce a lua e também o dia tranquilo, araponga, pequizeiros, chopim-gaudério, freirinhas, ganha-saia, sim-senhor, cunhantãs dos tembé, lago das Brisas, rio Avecuia...
9-gente-de-fora-vem.
O gliptodonte se pergunta: “E por que não? E por que eles sim e eu não?” Ser enterrado com a bandeira nacional sobre a tampa do caixão. “E precisa ser famoso?” Serviços prestados relevantes. E repensa: “O importante é que eu nem me separe mais ou menos de mim.” Quando o brutamontes vai indo pela estradinha picada vereda no meio do chavascal. Casca grossa lento pesadão desajeitado antigo inverossímil. Vai por ali e de repente curioso afasta umas folhas secas gravetos secos limpa a terra seca a terra úmida o musgo o liquem e tenta decifrar a inscrição do monumento enterrado do pedaço de artefato abandonado... Dizem que os monumentos são vestígios da passagem de extraterrestres superinteligentes ou até divinos. Os monumentos e as grandes obras erguidas sem mais nem por que em honra ao sol à lua às estrelas ao jequitibá ao gato-do-mato-grande ao gavião-vaqueiro...
E vem a rua Pedra Bonita com a rua Catete, na Barroca, na BH.
Então eu me amarro em coincidências milimétricas. Acho isso interessante e... (vou ver a próxima palavra). Mas eu estava lendo o segundo capítulo de “O Proscrito” de Ruy Tapioca e que começou assim, “Em certa manhã ensolarada de setembro...” E a coincidência (eu gosto do mês de setembro) comigo é que estamos em setembro numa manhã ensolarada cheia de sol e nenhuma nuvem tudo aberto. Cara!, se tivesse acertado o dia da semana a hora h, enfim, seria muita demais mesmo coincidência. E seria bem legal. Até porque nem faz um mês fui e comprei uns 10 ou 12 livros em diversos sebos, etc., ex., alguns no Rio outros em Curitiba outros ainda em Porto Alegre. Aqui em casa fui lendo fui lendo. E a coincidência: no Rio comprara um “O nobre sequestrador”, de Antônio Torres, que a história seria em 1711 um corsário francês invade a baía de Guanabara com sua armada e toma a cidade exigindo resgate, etc. Já em Porto Alegre adquirira “Revisão criminal: o assassinato de Duclerc”, este de Paulo Rangel. E conta que em 1711 um corsário francês, um tal Duclerc, invadiu o Rio e tentou tomar a cidade. Este o mesmo caso narrado nos dois livros e que comprara por acaso em sebos diferentes cidades diferentes praticamente no mesmo tempo sem saber sem querer na mesma leva. A diferença de leitura entre um e outro livro foi de um mês, e é pouco. Que é sim muita coincidência interessante.
9-fura-mato.
A praça da Bandeira estava ótima aquele dia e nos outros dias. Naquele dia muito também. Feira de artesanato, flores em vasinhos, rendas, cataventos, sorvetes, picolés, carrinho de pipocas e tocando música, cocadas, olhos-roxos, ervas que curam.
Uma ou duas vendedoras de orquídeas explicavam as necessidades das plantinhas, o sol, a água, o clima, a temperatura, as mudinhas, o ideal, os perigos... Ofereciam diversas espécies, cores, tamanhos, procedências, preços, ideologias...
O pai do Joel pisou o pé direito na praça. Aquele dia se lembrou do pé direito. Não acreditava, mas já que lembrou... A praça para os lados da rua Arroio Trinta fervilhava com a feira de artesanato e afins. O jogo de bola no areião. Automaticamente se encaminhou para lá, devagar, deixando os olhos absorver tudo, aproveitar tudo, as barraquinhas com músicas sortidas, com cheiros de doces, com conversas, risos de crianças libertas e cachorros nos seus trâmites legais.
- É, o governo quer acabar com o barulho das buzinas.
- Com certeza.
- Todas as cidades, inclusive a menores, nem poderão buzinar em hora alguma do dia ou da noite.
- E por falar nisso...
O sol estrela caminhava sua sorte sua parte lá da estação central do universo. Voava e andava por trás das árvores e prédios em volta da praça, fazendo sombras, fazendo árvores, fazendo gente, fazendo de tudo um pouco.
A praça é a roda da cidade. Quem inventou a praça? Dizem a notícia de que Manaus está afundando. Muita chuva todo dia, sabe como é que é. Um lugar úmido e movediço. Dia por dia por causa da umidade e do peso do concreto.
Olhou o céu como quem nem quer nada.
Uma plantinha de bromélia, um vaso decorado com estilo, a plantinha perfeitamente arranjada. Tinha nascido frágil de seis meses, incubadora, prematura, estufa, cabia numa caixinha de fósforos ao nascer, parecia que nem ia vingar. Uma tia dela jurou que nem ia passar dos seis dias.
A corruíra de canto rebuscado, o bem-te-vi-de-bico-largo no alto da ficheira. Eram os tempos bons, os novos tempos, o dia todo, os outros verões. Os gerânios-brasileiros pela hora do além. Os descendentes dos arachane vendendo os cestos ombrãs de carregar às costas os instrumentos jupurutus que já ensinavam a tocar.
Moça com nome bonito, cabelos vermelhos, talhe de palmeira de açaí, lábios pintados de roxo pegando fogo e vestida de calça azul bem justinha colante. E os olhos bonitos e cor indefinida. E o tudo mais nem falar.
O vento começou a mover pás de cataventos, ou melhor, o vento murmurou, sussurrou, ziziou...
Moça de Itaim Bibi passando na praça...
Dos quatro símbolos nacionais o mais conhecido vinte e sete estrelas de primeira à quinta grandezas. E até para constar: a vigésima quinta é o Rio Grande do Sul, a número um e acima da faixa é o Pará.
Muru é uma planta pequena, dois metros, flores geralmente de vermelho. Já viu?!
O pai do Joel rodou os olhos pela praça em congestão de feira livre. Correu os olhos no geral. Muita gente descia à praça desde a rua Capinzal. Também dele um olhar longo, vazio, parado, conforme. Um olhar tipo olhar em compota em conserva.
Moça que tivera, de certo, uma infância acolhedora e multiassessorada e empoderada:
- Eu sonho eu posso eu faço!
As estrelas e a posição do céu em quinze de novembro de mil oitocentos e oitenta e nove em a cidade do Rio de Janeiro.
As garrafas de cerveja artesanal chegaram, pousaram, molharam, enxugaram e foram embora. Tem gente que gosta de raspar o rótulo, e quando rótulo há.
Todos vinham de algum lugar até a cidade e rodavam, passavam, iam voltando, carros estacionados no meio-fio embicados de atravessado, Tombos, Tremembé, Caracol, Elias Fausto, Guabiruba...
Moça filha de dona Tadiane e seu Quaji. Moram na mesma casa, a rua Bela Vista do Toldo. Uma casa antiga de material, embora preferissem, quando for possível, sem pressa, quando for de D, morar em apartamento no terceiro ou quarto andar e com vista para a praça. E moça tinha um aspecto. Boné azul de pala reta. Tinha a cara de sempre com leves caminhadas. Uma cara de Cecília, a Ceci, a namorada do Peri, o guarani.
Um carro automóvel de passeio desenfreado bateu no pé de tingui. O auto veio da rua Fraiburgo e a toda. Fez as andorinhas-de-dorso-acanelado sumir de susto. O homem estava bêbado. O mais importante foi que a árvore nem morreu nem deu parte.
A bandeira na torre, e grande tatalando. Praticamente um retângulo um losango um círculo mais uma faixa com letras maiúsculas em verde. Verde amarelo azul e branco.
A moça para e compra um sorvete abacaxi-pequi-caju. Andando e olha o sorvete o chão o sorvete... E ela para outra vez para conferir as horas e minutos 11:21 no relógio de pulso esquerdo. Caminha e olha o sorvete, o chão, o sorvete... Tanto calor que ela perde pro calor.
Dia da bandeira dezenove de novembro quando foi adotada em 1889.
Moça pensava bem antes de comer o sorvete e andando. E continuou a pensar somente depois de tomar o sorvete e andando...
O sol, com aquela permanente luz branca intensa superior avassaladora interna, atravessa cuidadoso o planeta das gentes, atravessava - e virou foi mesmo a noite aqui.
Estrelas móveis parecem cair.
9-tié-vermelho.
Frases sentenças de Pedro:
- O indelével sorriso abonador.
- Lavrar uma cunhantã é como colher a fruta a jabuticaba na árvore depois da chuva de verão todo dia dia sim e outro também, porém a resistência física delas é muito mais sinuosa coleante serpentinas.
- Tenho pensado outras coisas a ver se entro definitivamente para o céu onde dizem que há e vão os plantadores de árvores frutíferas.
- Quem diria! mas as estrelas nascem crescem se comunicam se transubstanciam e igual às árvores os bichos os animais os vertebrados os invertebrados os empedernidos.
- As pessoas sentadas aí mesmo e sem uma explicação às vezes bocejam parecem sapos rãs batráquios anfíbios répteis teiús de sangue frio.
9-coleira-de-sapé.
Com as palavras de Aline: resolutamente, corombó, tiçuna, itapeba, octogonal, batelão, monçoeiro, fisiatria, sapará, chantar.
9-beija-flor-azul-de-rabo-branco.
Quantas vezes as pessoas pensaram o fim do mundo e dos tempos e da história. E já chegaram perto. Pensaram e aceitaram e desistiram. Programaram as férias antes ou depois. Ali vêm eles todos juntos outra vez. E vêm muitos, vêm debochando dos políticos dos juízes dos sacerdotes dos empresários dos mendigos dos jogadores de baralho dos colecionadores de sapatos dos fisioterapeutas dos emboabas dos auspiciosos. Quantas vezes o mundo pensou o fim das pessoas e outras coisas. Uma multidão em greve de fome, em greve de melhores salários, em greve de melhores governos, em greve de melhores lazeres, em greve de bons estudos profissionalizantes, em greve de gêneros, em greve de ótimo terrário para os iguanas resgatados.
Daquele momento em diante, pois o pai do Joel já estava vagabundeando pela praça.
- Vejo o cavalo, o bicho!
Havia cavalo, havia vento, havia tumulto e buzinas na esquina das ruas em volta cruzamento da rua Guarapari com a rua Rio Manso. Inauguravam uma nova farmácia.
Um cavalo zaino pastava as flores suculentas brancas e amarelas. Ninguém por perto de sobreaviso? Ninguém dizia nada, ninguém relinchava nada. Passaram vinte fregueses da praça Sport Club Internacional, olhavam, e continuavam andando e indo embora. Três ciclistas amantes das pedaladas passaram pedalando. O zaino pastava flores com gosto de orvalho. Os cascos estalavam, a cauda concordava, as orelhas olhavam, a crina descaída do lado esquerdo da tábua.
O prédio ostensivo ali na rua Capão Alto, subindo a ladeira, tão vendo?! As pessoas pareciam nem dar muita importância a tanta coisa por aí em volta, etc. Particularmente as sombras se esgueirando afobadas de luz.
E pai do Joel cumprimentou o cavalo zaino. O equino parou o que estava comendo mascando e o olhou de orelha trocada. Não disse nada e voltou a atenção para o repasto. Tinha exercícios quatro patas e dois estômagos.
Depois das 8h e 18min uma moça decorada para o futuro. Os braços decorados. Mulher decorada chama chuva, chama árvore de amarelo, chama peixe aracupinima? De relance se viu que os olhos dela combinavam com os desenhos do caderno escolar, a chuva, a noite, a sessão de cinema do cine Uruaçu.
- Pensei comigo: 8h e 01min, tô dentro!
Algumas coisas deste planeta nem dão pra entender e levar em consideração, etc., ex. Uma mãe dá uma gargalhada os vidros da vitrine do salão de beleza Espiriteira se estilhaçam e recomenda pro guri:
- Nem vá na rua, filho racional! Fazendo favor!
O rapaz veio decidido tocar violão na praça. Olhou o alto bordado de espuma. Depois cansou. Contou a moedinhas nem olhou em volta e meia foi. E tudo indicava que pegaria a rua General Flores da Cunha foi naquele rumo mas de repente mudou de ideia fez uma curva e embicou violão às costas e chapéu na cabeça em direção absoluta da avenida Córrego do Bom Jesus. Se lembrou de algo de algo.
E é difícil não pensar em mulheres num ambiente desses. Pouco para as duas da tarde. Pronto, as pombas-rolas vêm beber na fonte que brinca com água o tempo todo.
Um casal de humanos se demorou e se olhou atentamente sorrisos nos lábios testas franzidas quem piscaria primeiro. E conversaram. Ficaram falando a respeito do bairro a Água Branca, o primeiro motivo da conversa tais e quais:
- Mar é parte a parte reparte à parte de oceano.
- Pois ilha já é manifestação de superfície da montanha.
- Pegaremos a rua General Jardim e já estaremos no bairro Vila Buarque, uma vez.
- Pois arquipélago é manifestação de superfície da cordilheira.
- Se um dia isso acontecer...
- ...o lugar mais próspero viraria um charravascal, por exemplo.
A guria passou, ele o pai do Joel pensou sorrir, mas não sorriu, não deu tempo, ela nem tomou conhecimento e ocasião.
Num lugar da terra deste planeta uma égua tordilha voltou a pastar florezinhas de plantas de azedas-do-prejo no pampa. Naquele espaço de tempo tinha nada pra fazer e pastava. Tinha liberdade de pastar e era tudo branco branco.
- Vejo as gurias, divindades!
Meninas perturbadas pelo futuro, cheias de alegrias incontidas e simples e pequenas, e convencidas, voltavam do colégio General Daltro Filho, um punhado embolado e de cabelos ao vento. Taí, o mundo era muito ma-ra-vilhoso! Mas só quê:
- Quando vc vai voltar? Com quem vc andará?
- Por que vc voltou?
- Como tudo aconteceu?
A tarde trovejou como todas as tardes do verão no sul, a igreja de NS do Carmo da Antiga Sé tocou o relógio como todas as tardes às seis horas, não era tardezinha que não chovia, as andorinhas-de-coleira nem se apressaram em nada mais porque já se apressavam toda vida.
O cavalo zaino viu meninas de pernas longas e nariz alto e cabelos compridos e sorriso caprichado. E risos estilhaçados soltos dobrados para trás. Tinha uma que falava muito alto mais alto e parecia a mais bonita.
E o pai do Joel trabalhava sem cessar para ver se seu filho cruzasse com ele um dia ali na praça, numa praça qualquer, esta praça, aquela praça, praça Buri, praça do Ferreira, praça Solumá, praça Maurício Cardoso... qual praça?
Depois da chuva gostosa e exagerada, o sol amarelo. Os prédios espelhando o sol amarelo, ruas alagadas. Pousaram chegaram os parentes todos as primas os tios os cunhados, sabiás-laranjeiras, junqueiros-de-bico-reto, capitães-de-saíra, gaturamos-rei, marias-barulhentas, tiribas...
A imaginação da guria era maior e fértil. Não cabia nos olhos. Nem cabia nos abraços. Não cabia nem no sorriso, nem na cor dos olhos verdes. Quando encontrou com a imaginação, perdeu o resto, que resto?, todo o tempo possível.
Esperou a resposta em silêncio.
Um auto preto passou tocando uma música nervosa, um locutor varrido, e retornou com uma música agitada ou enérgica ou aloprada ou endemoninhada.
Estrelas pontiagudas nem precisavam se incomodar. Sim, eram profissionais e voltariam amanhã. Pronto decidido decisivo a partir deste momento instante minuto já é outro dia.
Oitenta-e-oito, azulão-do-nordeste, garoupa-senhor-de-engenho, pó-de-araroba... marimbondos, cachorrinha-d’água, pico da Bandeira, oceanos, subterrâneos... estes todos andam no ar porque nem podem mais ficar ausentes do nosso mundo do nosso dia a dia.
9-sanhaço-rei.
Com as palavras de Aline: adereço, anacoreta, quesito, talude, ziriguidum, sarobá, outorgar, taraguirapeva, edícula, esquindô.
9-gaturamo-itê.
A praça Largo do Café um calorão dos verões típicos, os ventos por cima passando dos prédios de vidro bem altos. Algumas nuvens acompanhavam o toma-lá-dá-cá do dia.
Quando o pai do Joel subiu o meio-fio da praça o mundo já estava todo enfeitado do dia novo, manhã e tudo mais, cada coisa separada da sua sombra. Um cheiro dessa planta de flor aí a abricó-de-macaco.
A mulher segurou os cabelos. O vento fez um movimento de deboche. A mulher mudou de oeste para nordeste, os cabelos contra o vento. As árvores soltando algumas folhas secas de outono poucas porém e pereiros-da-serra, tipuana, aguaraquinhás... O mundo ali idealizado pelo menos fantasiado por milhões bilhões de cabeças. A maioria ia para o trabalho ou e voltava.
Quilômetros de asfalto das ruas e avenidas ao redor da praça. A avenida Sul-Brasil, que se via bem dali, com invasão de autos a cada 3 ou 4 metros. Da janela de um deles, um azulzinho com buzina estridente, o cabelo em corda da bronze.
Dia claro com a sorte de poucos. Dia conforme, claro, pássaros, aviões, tarefas para cumprir.
- Hu-uuu! hu-uuu!... o B é nosso!
Mulheres andando, e chegando de onde?, para onde?, mulheres andando para as pontas bicudas das estrelas. As mulheres mais interessantes e são muito principalmente.
O seu Hugo Baqueano, rádio de pilha na orelha direita, escutava futebol no dial de sempre, rádio difusora Mamorana-Grande:
- Vim até aqui para te desejar um abraço, compadre.
- Sim, pode ser.
- Você não trabalhou na marmoraria Mamangaba, e aí por volta de 2011 ou 2013?
A estátua cumprimenta toda vida os que vêm e vão. O monumento fala, os passantes saem procurando. O monumento sugere e os transeuntes vão à caça. O monumento notifica o povo agradece e vai em frente. O monumento pega chuva pega frio e o pessoal enaltece.
Havia monumento dentro do jardim principal. Canteiros de flores em volta da estátua. Um busto de Getúlio mais a placa com fragmento da carta.
A mãe e a filha andando pela calçada popular da praça Largo do Café. Lado a lado muito animadas e saudáveis e confiadas. Contornando a praça por caminhos calçados de pedra basalto. Caramanchões e ou pérgulas e a pinacoteca. Vez em quando olhando as saracuras do lago, tímidas, avermelhadas, ariscas, lentas. Riam algumas coisas no meio do passeio, coisas do imprevisto das mulheres e fêmeas. Faziam um atalho para a rua do lado, a rua Xavantina. A mãe não pensava, a filha também. Mas se a mãe pensasse: minha filha é 50 anos no futuro na minha frente; mas se a filha pensasse um pouco: minha mãe é 50 anos para trás as minhas costas a minha retaguarda. E riam juntas, então, mãos dadas ou não, porque tinham ainda mais 100 anos somados e para fazer ao mesmo tempo.
Jardins matemáticos, gramados cuidados, canteiros com cerquinhas baixas de metal, flores amarelas, caapiás-miúdos, vermelhas, juncos-mansos, azuis, sambaíbas-da-baía, roxas... abelhas uruçus-bois lambedoras de pólen. Cachorros em guias procurando farejando sei lá.
A noite veio rápida meio exagerada de ruídos automóveis as lâmpadas fortes dos postes, o dia parece estar emagrecendo, as aberturas dos prédios na roda da praça pombais e buracos de caverna comemorando janelas acesas vigiando quando possível fila na padaria Maria-Farinha, e parece que está anoitecendo.