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domingo, 15 de janeiro de 2017

Contos de Santa Luzia (22)




         Eram duas as moças - em suas bícis irmãs gêmeas - e queimadas torradas do sol, maiores, vacinadas, donas do próprio nariz, livre arbítrio, a tal e qual escolha livre, seguras de si. Vinham pedalando ao léu e de déu em déu e de lés a lés ao natural. Vinham trocando pequenas ideias ao normal livremente. E lé com lé e cré com cré, pois que cada uma com o seu pé. As duas já cobertas do pó da estrada, devidamente maquiadas, suadas e cheirando a burros de carroça. Ambas cansadas, derretidas, desgrenhadas, e um tanto quanto enfadadas.
Naquele momento, ou agora mesmo, entravam pela rua Única da aldeia de Santa Luzia. Rua poeirenta, britada, única rua e descalça. Casebres feitos de barro trazido de longe e cobertas de santa-fé. Uma poalha sempre assim, sempre ali no ar, sempre bailando no ar tornando o ambiente difícil de respirar. As duas tiveram o acaso de nem furar pneu no caminho até ali, até ali, até que enfim.
         A que usava de batom rosinha tinha um cabelo ruivo e curto, nos casos borrado e empastado. Trazia a tiracolo uma bolsinha de couro bordada com fios de ouro. E alguém poderia dizer: prefiro as mocinhas assim: com sardas no nariz e tudo mais.
A outra, que agitava o rabo de cavalo como um pêndulo, era loira, ou no caso amarelada. Trazia um lenço floreado de pescoço, um embornal de couro, uma bermuda com muitos bolsos e alças. Alguém já poderia dizer dela: necessito de moça assim: afável espontânea e boca rasgada.
A moça da direita, de quem vem, se chamava Manduri - nome de apelido de infância. A moça da esquerda, de quem vem, se chamava Maria - nome mundial.
         As gurias largaram âncoras na escadinha da capela. Um silêncio alimentado de poeira e difíceis guinchos de entes sobrenaturais. Olharam a novidade que era a vila de Santa Luzia. Tudo nem era sorteio? Tudo nem era acaso? Tudo nem era um jogo? Se sentaram nos degraus e sentiram fome e sentiram sede e muito sufoco. Estavam cansadas, cobertas de poeira, olhos cansados de paisagens ordinárias e poeirentas, sem muita paciência para conversar e pensar o por vir.
Continuavam observando ao redor. E também uma olhou a outra. A outra estava olhando os tocos das ex-árvores altas da praça, e tentando adivinhar o nome ou a espécie. Para a tal que olhava, a outra falou, boca cheia de poeira, proseou:
         - Será tudo real, Maria? O que vejo é o mesmo que você vê? Nem será um sonho idiota? Nem será domingo de feriado e eu sem vontade de me levantar?
         - Nem, nem é miragem. Nem, nem chega a tanto.
         - En-tão...
         - Hum...
         Depois, foram empurrando as magrelas até a extinta desativada padaria. Lá na porta da ex-lojinha uma pergunta do dia a dia:
         - Pra onde que foi todo o mundo, meu?
         - Então, nem vê que é o dia sufocante?
         As moças se dirigiram para as sobras das ex-paineiras da pracinha. O calor estava terrível. O saci arrastava terra no redemoinho e ria perdido, ah eh eh eh!... O bafão estava insuportável. Temperatura de fornalha. Nem chovia há duzentos anos, talvez oitocentos e cinquenta. Pesadas e impertinentes nuvens de pó. Maria percebeu um pixote se aproximar aí, a Manduri acompanhou a cena.
         - Tá vendo...
         - ... o que tô vendo?
         A Manduri chamou o arteirinho:
         - Ei, meu! Vem cá, rapais!
         Primeiro o culepe parou para olhar, e olhou. Depois, conferiu em volta de si para ter certeza que podia estar ali. E se sentou à espera de outro convite, e olhando. A boca aberta, cabelo desgrenhado, cara suja, caroço no peito. Aí, desistiu, ou fingiu se distrair com outra coisa, e olhou de lado, coçou aqui e ali. A seguir ensaiou aquela despedida, se ergueu, olhou de viés, se virou de costas e fingiu ir embora.
Mas, de repente, parou, pensou melhor, se voltou, olhou, voltou e veio se aproximando. Como um cão magrelo faminto ressabiado pedinte. E veio chegando, tímido, pés descalços, cabisbaixo, olhando sem querer encarar, coçando o caroço no peito. Já chegou, o olhar humilde, coçando ali no meio das pernas, chegou bem perto. Olhou a altura das duas moças. Parecia estar quase com vontade de chorar. O moleque foi falando:
         - Deixa eu andar de bíci?
         As gurias tiveram ideias politicamente políticas:
         - Vamos aceitá-lo? Vamos dividi-lo? Vamos nomeá-lo?
         - Vamos ao menos adotá-lo e registrá-lo como filho?
         - Acho melhor dar-lhe logo um nome próprio forte com o qual se sentirá forte rápido e alto.
         - Que seja um nome de índio, então.
         - Será que gostou mesmo da gente? Às vezes eles querem só andar de bicicleta.
         - Pode ser que sim ou que nem.
         As prendas procuraram um hotel, uma pousada, uma pensão, uma garagem, um barracão, um acampamento, um telheiro, uma gruta... e nada. Talvez... nem, deixa pra lá.
Percorreram todas as casinhas de pau-a-pique cobertas de sapê, mas sem encontrar. E nem viram ninguém para perguntar. Assim, resolveram ficar na pracinha. Armaram uma barraca debaixo de um alto esqueleto de quixabeira.
         Veio a noite. Também o vento vermelho, pilotado de saci, ah eh eh eh!... e correndo pela rua. O dia fora terrivelmente quente, sufocante, abafado como a boca de um forno, como a cratera de um vulcão. E a escuridão caiu como uma lona.
E a noite prometia ser também terrivelmente pegajosa e de grossas ondas. Noite de milhões de estrelas perdidas nas nuvens de poeira e a lua. Noite de martinta-pereira uivando fino na capoeira seca. Nem chovia há vinte anos. Um lobisomem acoava lá do meio das touceiras torradas de barba-de-bode, por trás dos tucurus vazios abandonados.
         As moças capotaram e foi cedo. Entraram na barraca e se aninharam. Estavam muito doloridas e sem tomar banho as pernas pesando como chumbo, etc. E fazia um calor sufocante. Assim, dividiram apenas um beijo na boca. E procuraram esquecer, dormir. As moças estavam ardidas e desoladas e mal pagas. Fora uma jornada sem importância sem nem por quê.
         Um vento carregado de terra seca parecia amontoar o cisco para um canto da praça. Entes extraordinários que grunhiam andavam olhavam com quinze olhos sem ser vistos. Depois, o mesmo vento discordava e empurrava a coisa para outro canto. Assim, o vento empoeirado foi tocando para os quatro cantos. Uma mula-sem-cabeça trotou rua abaixo ou rua acima, potocó! potocó!... O saci espiralou num pé e ali por trás da derreada cerca de taquaras rachadas.
         Maria acordou no fundo da noite alta. O ar estava sufocante e entupido e abundante de poeira vermelha. O mundo cheio de silêncio suspeitoso. Saiu para fazer uns poucos passos. Os ventos haviam desaparecido mas a poeira nem. A noite, por dentro, estava realmente pesada de terra, embaraçada e muito quente. Maria cruzou os braços olhando o quê? Mas mais e pensando sem nada para concluir. Caminhou ao redor da barraca para mexer as pernas. Os secos espetos de jurujuba apontando inutilmente agressivamente o firmamento terroso. E ela pensou: “Isso nem será já algo esquisitamente como uma equação, que equação?”
         Maria parou olhando o encoberto fantasma da lua. Apenas uma guampa de touro xucro escondida confusa entre as ondas de poeira. Ouviu uns passos e ficou em alerta. Da escuridão apareceu uma jovem típica aldeã trajando vestido longo. As duas se encararam. A típica aldeã estava com uma guirlanda de flores artificiais na cabeça. A típica vilã mantinha o cabelo até a cintura. Muito peculiar a típica aldeã parecia gostar de miçangas, piercings, tatuagens, trancinhas nos cabelos, fitinhas coloridas nos pulsos. Uma frase tatuada no peito mostrava escrita em se saindo como colar: “Voar como se por que nem tenho asas?!” Esta típica aldeã convidou:
         - Que vocês duas estão esperando aí? Por que nem vêm pro baile?
         Manduri e Maria acompanharam a jovem típica vilã até o outro lado da capela da homenagem à santa Luzia. E entraram num fervo agitadíssimo. Tochas, archotes, e fogueiras iluminavam um círculo de folia. Toda a aldeia comparecia, sem dúvida. E nada nada para beber, para comer. Música ao vivo com o conjunto dos próprios moradores. Pixotes brincando de se agarrar, correr atrás, chutar canelas, cuspir, xingar, atropelar, esbordoar. A típica aldeã tirou Maria para dançar o tal e qual vanerão:
         - Vamos nessa?!
         - Demorô!
         O padre, com seu chapéu de palha desfiado na aba, ria alto, ah eh eh eh!... e olhava tudo e todos por ali, cuidava das coisas, braços cruzados, circulando sempre, interessado, arrastando na poeira as chinelas de couro fechadas. E no mais, uns dançavam, outros ficavam olhando de braços cruzados e rindo alto. A gurizada se arrastava pela poeira, e gritava e chorava e se queimava nas brasas das fogueiras.
         A Manduri foi intimada por um aldeão de bigodes em ponta. A Manduri se deixou carregar. Ela ia falar, ia explicar, nem teve tempo. Foi que lhe veio de rir muito quando deu para pensar que jamais beijara alguém com aquele bigode farto e agressivo e cerdoso. Nubladas ondas de pó e pesadas e densas perfazendo o lugar e de grau a grau. E se imaginou debaixo daquele bigode hirsuto. Já se sentindo curiosa. Com vontade de falar algumas coisas e rir. Calculando peso, medidas e intensidades. “Mas, por que nem?”, isso ela só pensou.
         A ideia comum e associada das duas garotas estrangeiras era se divertir e ir embora da vila pela manhã vindoura. Se divertir sem neura, e ir embora na manhã seguinte. Se divertir era sempre o normal e ocasional, ir embora adeus era tranquilo e certo. Se divertir hoje e amanhã ir embora pegar a estrada de tchau.
         Depois, Maria e a típica aldeã pararam de dançar. Acho que exaustas. Maria parou para respirar melhor, e porque achou que pintava um clima entre elas. Sentada numa banqueta ela olhou toda a festa e sentiu que tinha ocasião. Tanto ela como a Manduri. A noite nublada com pontos raros de estrela e lua. Umas nuvens cinzentas viajando pelo alto até o infinito. As duas visitantes se sentaram lado a lado e pareciam nem mais aguentar um minuto o ar pesado intragável do lugar.
E as gurias, então, tiveram a quase normal certeza de que a noite seria imperdível. Riscos uivos sombras que se moviam se ouviam já nem se viam nem se ouviam e sem se lembrar onde. Se entreolharam e se abraçaram já se sentindo em grande intransferível histeria.
         Maria foi convidada para uma música lenta. O aldeão era alto, magro, ossudo, galhudo e nariz de rapina. Maria colocou o ouvido naquele peito ossudo peludo e pensou dormir. Já a Manduri foi tirada pela típica aldeã. A Manduri gostou muito porque a jovem e típica vilã parecia muito entregue e interessada. Beijo na boca era esperado, talvez para breve, talvez só mais tarde no flagrante, quiçá roubado. E Manduri abriu os olhos, assim uns olhos meio molengas, e procurou ver mais longe.
         O sacerdote rodava e rondava a área iluminada pelas fogueiras. O padre usava um chapéu pantaneiro rasgado e manchado na frente. Mãos grandes às costas esperando uma hora incerta. Enquanto isso, os pivetes corriam para ali e para lá brincando de se atirar brasas acesas nas pernas. E brincavam de futebol com lata de leite em pó vazia.
         Os aldeões e as aldeãs os iguais de seus iguais nem deixavam as visitas descansar para além de dois minutos. Lá ia a Manduri rodando pelo chão, levantando poeira vermelha, atrás de um forró e agarrada a um baixote de grande barriga por cima da cinta. Lá vinha, na contramão, a Maria girando na nuvem de pó agarrada a uma robusta de cabelos em trunfa. E as duas estrangeiras aceitavam esse assédio. E trocavam entre si um piscar de olhos divertido. Se sentiam excitadas. E ainda que tinham um testado preparo físico e muita paciência e curiosidade.
         Quando muito, então, começou a ficar tarde dar as dores nas pernas nos braços e muito sono. A Manduri falou para um aldeão que a arrastava no pique largado do samba de gafieira:
         - Houve muito desmatamento por aqui, na região na zona, certo?!
         O som parou para dar lugar às lorotas, anedotas, lendas, vanglorias e gargalhadas, ah eh eh eh!... Muito dito de gauchada, causos de mentirosos. Matavam extirpavam comiam. E todos pareciam estar muito ligados, uma vez. E as duas visitas já nem tinham por que ter dúvidas: eram moças de muito prestígio na aldeia.
Manduri pegou o patuá com cara de sapo verde do seio e deu-lhe um beijo profundo estalado. Maria agarrou sua cruz de prata do seio e a beijou carinhosamente repetidamente. A noite, lá no alto, pintada de nuvens vermelhas, ondas enroladas, e sem o que fazer. E a lua ouriçada envolta em saco de estopa ou aniagem. E um e outro bramido na distância. E alguns arrastar de pedras, poeira nos olhos, risos de, ah eh eh eh!... Quem sabe até uma martinta-pereira espoleta reinando por aí, hein?!
         O pastor fez um sinal, que nem era o santo pelo sinal, e dois aldeões trogloditas pegaram a Manduri, e mais outros dois aldeões gorilas pegaram a Maria. E as levantaram meio metro do chão, com surpresa e tudo. Tiraram todas as peças de roupas das moças convidadas. Agitadas as duas muito bastantes as pernas e os braços e os dedos de garras em unhas. E as ataram nas mãos e nos pés. Depois as penduraram de cabeça para baixo num galho isolado de petrificada araputanga da pracinha.
         As sorteadas ficaram ali, vendo o mundo, pendulando, olhando os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos, a vila toda rindo, ah eh eh eh!... gritando, brincando de ciranda, tudo tudo de cabeça para baixo. E elas tiveram quase certeza: como duas podem ser quarenta e poucos: como quarenta e poucos podem conter duas. Abater estripar manducar. E os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas somente aguardavam as fogueiras baixar e tudo virar um brasedo de assar.
         O vento muito calmo levantava uma pouca poeira de nada. Uma mula-sem-cabeça relinchou no capoeirão entre os secos tipis-bravos. Saci, ah eh eh eh!... reivindicou em torvelinho seu setor no meio da rua Única. As gurias nem tinham mais nada para falar mais nada para aprender nem nada para rir nem para pensar.
         Certo aldeão chegou com uma casca-de-vaca na mão. Levantou a casca-de-vaca no ar embalsamado e foi largando com vontade. Então, as duas gurias, cabeças para baixo e olhos fuzilantes, receberam o que mereciam, receberam chá de casca-de-vaca. As marcas assinaladas, táaa! táaa!... penetravam também o instinto dos circunstantes como carne macia amaciada.
         As moças estrangeiras perderam logo logo a expectativa esportiva, depois os sentidos, corpo e parte material, e nem demoraram mais nada para morrer.
         Um lobisomem - àquela hora ainda disfarçado de espantalho com chapéu de cartola -, muito tonto e esfomeado faminto, ali no meio do capoeiral, redepentemente, urinou longemente num forte incontido jato de esguicho.