Eram duas as moças - em suas bícis irmãs
gêmeas - e queimadas torradas do sol, maiores, vacinadas, donas do próprio
nariz, livre arbítrio, a tal e qual escolha livre, seguras de si. Vinham
pedalando ao léu e de déu em déu e de lés a lés ao natural. Vinham trocando
pequenas ideias ao normal livremente. E lé com lé e cré com cré, pois que cada
uma com o seu pé. As duas já cobertas do pó da estrada, devidamente maquiadas, suadas
e cheirando a burros de carroça. Ambas cansadas, derretidas, desgrenhadas, e um
tanto quanto enfadadas.
Naquele momento, ou agora mesmo, entravam pela rua Única
da aldeia de Santa Luzia. Rua poeirenta, britada, única rua e descalça. Casebres
feitos de barro trazido de longe e cobertas de santa-fé. Uma poalha sempre
assim, sempre ali no ar, sempre bailando no ar tornando o ambiente difícil de
respirar. As duas tiveram o acaso de nem furar pneu no caminho até ali, até ali,
até que enfim.
A que usava de batom rosinha tinha um
cabelo ruivo e curto, nos casos borrado e empastado. Trazia a tiracolo uma
bolsinha de couro bordada com fios de ouro. E alguém poderia dizer: prefiro as
mocinhas assim: com sardas no nariz e tudo mais.
A outra, que agitava o rabo de cavalo como um pêndulo,
era loira, ou no caso amarelada. Trazia um lenço floreado de pescoço, um
embornal de couro, uma bermuda com muitos bolsos e alças. Alguém já poderia
dizer dela: necessito de moça assim: afável espontânea e boca rasgada.
A moça da direita, de quem vem, se chamava Manduri - nome
de apelido de infância. A moça da esquerda, de quem vem, se chamava Maria -
nome mundial.
As gurias largaram âncoras na escadinha
da capela. Um silêncio alimentado de poeira e difíceis guinchos de entes
sobrenaturais. Olharam a novidade que era a vila de Santa Luzia. Tudo nem era
sorteio? Tudo nem era acaso? Tudo nem era um jogo? Se sentaram nos degraus e sentiram
fome e sentiram sede e muito sufoco. Estavam cansadas, cobertas de poeira,
olhos cansados de paisagens ordinárias e poeirentas, sem muita paciência para
conversar e pensar o por vir.
Continuavam observando ao redor. E também uma olhou a
outra. A outra estava olhando os tocos das ex-árvores altas da praça, e tentando
adivinhar o nome ou a espécie. Para a tal que olhava, a outra falou, boca cheia
de poeira, proseou:
- Será tudo real, Maria? O que vejo é o
mesmo que você vê? Nem será um sonho idiota? Nem será domingo de feriado e eu sem
vontade de me levantar?
- Nem, nem é miragem. Nem, nem chega a
tanto.
- En-tão...
- Hum...
Depois, foram empurrando as magrelas
até a extinta desativada padaria. Lá na porta da ex-lojinha uma pergunta do dia
a dia:
- Pra onde que foi todo o mundo, meu?
- Então, nem vê que é o dia sufocante?
As moças se dirigiram para as sobras das
ex-paineiras da pracinha. O calor estava terrível. O saci arrastava terra no
redemoinho e ria perdido, ah eh eh eh!... O bafão estava insuportável. Temperatura
de fornalha. Nem chovia há duzentos anos, talvez oitocentos e cinquenta. Pesadas
e impertinentes nuvens de pó. Maria percebeu um pixote se aproximar aí, a Manduri
acompanhou a cena.
- Tá vendo...
- ... o que tô vendo?
A Manduri chamou o arteirinho:
- Ei, meu! Vem cá, rapais!
Primeiro o culepe parou para olhar, e
olhou. Depois, conferiu em volta de si para ter certeza que podia estar ali. E
se sentou à espera de outro convite, e olhando. A boca aberta, cabelo
desgrenhado, cara suja, caroço no peito. Aí, desistiu, ou fingiu se distrair
com outra coisa, e olhou de lado, coçou aqui e ali. A seguir ensaiou aquela
despedida, se ergueu, olhou de viés, se virou de costas e fingiu ir embora.
Mas, de repente, parou, pensou melhor, se voltou, olhou,
voltou e veio se aproximando. Como um cão magrelo faminto ressabiado pedinte. E
veio chegando, tímido, pés descalços, cabisbaixo, olhando sem querer encarar, coçando
o caroço no peito. Já chegou, o olhar humilde, coçando ali no meio das pernas, chegou
bem perto. Olhou a altura das duas moças. Parecia estar quase com vontade de
chorar. O moleque foi falando:
- Deixa eu andar de bíci?
As gurias tiveram ideias politicamente
políticas:
- Vamos aceitá-lo? Vamos dividi-lo?
Vamos nomeá-lo?
- Vamos ao menos adotá-lo e registrá-lo
como filho?
- Acho melhor dar-lhe logo um nome
próprio forte com o qual se sentirá forte rápido e alto.
- Que seja um nome de índio, então.
- Será que gostou mesmo da gente? Às
vezes eles querem só andar de bicicleta.
- Pode ser que sim ou que nem.
As prendas procuraram um hotel, uma
pousada, uma pensão, uma garagem, um barracão, um acampamento, um telheiro, uma
gruta... e nada. Talvez... nem, deixa pra lá.
Percorreram todas as casinhas de pau-a-pique cobertas
de sapê, mas sem encontrar. E nem viram ninguém para perguntar. Assim,
resolveram ficar na pracinha. Armaram uma barraca debaixo de um alto esqueleto
de quixabeira.
Veio a noite. Também o vento vermelho,
pilotado de saci, ah eh eh eh!... e correndo pela rua. O dia fora terrivelmente
quente, sufocante, abafado como a boca de um forno, como a cratera de um vulcão.
E a escuridão caiu como uma lona.
E a noite prometia ser também terrivelmente pegajosa e
de grossas ondas. Noite de milhões de estrelas perdidas nas nuvens de poeira e
a lua. Noite de martinta-pereira uivando fino na capoeira seca. Nem chovia há
vinte anos. Um lobisomem acoava lá do meio das touceiras torradas de
barba-de-bode, por trás dos tucurus vazios abandonados.
As moças capotaram e foi cedo. Entraram
na barraca e se aninharam. Estavam muito doloridas e sem tomar banho as pernas
pesando como chumbo, etc. E fazia um calor sufocante. Assim, dividiram apenas um
beijo na boca. E procuraram esquecer, dormir. As moças estavam ardidas e desoladas
e mal pagas. Fora uma jornada sem importância sem nem por quê.
Um vento carregado de terra seca
parecia amontoar o cisco para um canto da praça. Entes extraordinários que
grunhiam andavam olhavam com quinze olhos sem ser vistos. Depois, o mesmo vento
discordava e empurrava a coisa para outro canto. Assim, o vento empoeirado foi tocando
para os quatro cantos. Uma mula-sem-cabeça trotou rua abaixo ou rua acima,
potocó! potocó!... O saci espiralou num pé e ali por trás da derreada cerca de
taquaras rachadas.
Maria acordou no fundo da noite alta. O
ar estava sufocante e entupido e abundante de poeira vermelha. O mundo cheio de
silêncio suspeitoso. Saiu para fazer uns poucos passos. Os ventos haviam
desaparecido mas a poeira nem. A noite, por dentro, estava realmente pesada de
terra, embaraçada e muito quente. Maria cruzou os braços olhando o quê? Mas mais
e pensando sem nada para concluir. Caminhou ao redor da barraca para mexer as
pernas. Os secos espetos de jurujuba apontando inutilmente agressivamente o
firmamento terroso. E ela pensou: “Isso nem será já algo esquisitamente como
uma equação, que equação?”
Maria parou olhando o encoberto fantasma
da lua. Apenas uma guampa de touro xucro escondida confusa entre as ondas de
poeira. Ouviu uns passos e ficou em alerta. Da escuridão apareceu uma jovem típica aldeã
trajando vestido longo. As duas se encararam. A típica aldeã estava com uma
guirlanda de flores artificiais na cabeça. A típica vilã mantinha o cabelo até
a cintura. Muito peculiar a típica aldeã parecia gostar de miçangas, piercings,
tatuagens, trancinhas nos cabelos, fitinhas coloridas nos pulsos. Uma frase
tatuada no peito mostrava escrita em se saindo como colar: “Voar como se por
que nem tenho asas?!” Esta típica aldeã convidou:
- Que vocês duas estão esperando aí?
Por que nem vêm pro baile?
Manduri e Maria acompanharam a jovem típica
vilã até o outro lado da capela da homenagem à santa Luzia. E entraram num
fervo agitadíssimo. Tochas, archotes, e fogueiras iluminavam um círculo de
folia. Toda a aldeia comparecia, sem dúvida. E nada nada para beber, para
comer. Música ao vivo com o conjunto dos próprios moradores. Pixotes brincando
de se agarrar, correr atrás, chutar canelas, cuspir, xingar, atropelar,
esbordoar. A típica aldeã tirou Maria para dançar o tal e qual vanerão:
- Vamos nessa?!
- Demorô!
O padre, com seu chapéu de palha
desfiado na aba, ria alto, ah eh eh eh!... e olhava tudo e todos por ali,
cuidava das coisas, braços cruzados, circulando sempre, interessado, arrastando
na poeira as chinelas de couro fechadas. E no mais, uns dançavam, outros
ficavam olhando de braços cruzados e rindo alto. A gurizada se arrastava pela
poeira, e gritava e chorava e se queimava nas brasas das fogueiras.
A Manduri foi intimada por um aldeão de
bigodes em ponta. A Manduri se deixou carregar. Ela ia falar, ia explicar, nem
teve tempo. Foi que lhe veio de rir muito quando deu para pensar que jamais
beijara alguém com aquele bigode farto e agressivo e cerdoso. Nubladas ondas de
pó e pesadas e densas perfazendo o lugar e de grau a grau. E se imaginou
debaixo daquele bigode hirsuto. Já se sentindo curiosa. Com vontade de falar
algumas coisas e rir. Calculando peso, medidas e intensidades. “Mas, por que nem?”,
isso ela só pensou.
A ideia comum e associada das duas
garotas estrangeiras era se divertir e ir embora da vila pela manhã vindoura. Se
divertir sem neura, e ir embora na manhã seguinte. Se divertir era sempre o
normal e ocasional, ir embora adeus era tranquilo e certo. Se divertir hoje e
amanhã ir embora pegar a estrada de tchau.
Depois, Maria e a típica aldeã pararam
de dançar. Acho que exaustas. Maria parou para respirar melhor, e porque achou
que pintava um clima entre elas. Sentada numa banqueta ela olhou toda a festa e
sentiu que tinha ocasião. Tanto ela como a Manduri. A noite nublada com pontos
raros de estrela e lua. Umas nuvens cinzentas viajando pelo alto até o infinito.
As duas visitantes se sentaram lado a lado e pareciam nem mais aguentar um
minuto o ar pesado intragável do lugar.
E as gurias, então, tiveram a quase normal certeza de que
a noite seria imperdível. Riscos uivos sombras que se moviam se ouviam já nem
se viam nem se ouviam e sem se lembrar onde. Se entreolharam e se abraçaram já se
sentindo em grande intransferível histeria.
Maria foi convidada para uma música
lenta. O aldeão era alto, magro, ossudo, galhudo e nariz de rapina. Maria
colocou o ouvido naquele peito ossudo peludo e pensou dormir. Já a Manduri foi
tirada pela típica aldeã. A Manduri gostou muito porque a jovem e típica vilã parecia
muito entregue e interessada. Beijo na boca era esperado, talvez para breve,
talvez só mais tarde no flagrante, quiçá roubado. E Manduri abriu os olhos,
assim uns olhos meio molengas, e procurou ver mais longe.
O sacerdote rodava e rondava a área
iluminada pelas fogueiras. O padre usava um chapéu pantaneiro rasgado e manchado
na frente. Mãos grandes às costas esperando uma hora incerta. Enquanto isso, os
pivetes corriam para ali e para lá brincando de se atirar brasas acesas nas
pernas. E brincavam de futebol com lata de leite em pó vazia.
Os aldeões e as aldeãs os iguais de
seus iguais nem deixavam as visitas descansar para além de dois minutos. Lá ia
a Manduri rodando pelo chão, levantando poeira vermelha, atrás de um forró e agarrada
a um baixote de grande barriga por cima da cinta. Lá vinha, na contramão, a
Maria girando na nuvem de pó agarrada a uma robusta de cabelos em trunfa. E as
duas estrangeiras aceitavam esse assédio. E trocavam entre si um piscar de
olhos divertido. Se sentiam excitadas. E ainda que tinham um testado preparo
físico e muita paciência e curiosidade.
Quando muito, então, começou a ficar
tarde dar as dores nas pernas nos braços e muito sono. A Manduri falou para um
aldeão que a arrastava no pique largado do samba de gafieira:
- Houve muito desmatamento por aqui, na
região na zona, certo?!
O som parou para dar lugar às lorotas,
anedotas, lendas, vanglorias e gargalhadas, ah eh eh eh!... Muito dito de
gauchada, causos de mentirosos. Matavam extirpavam comiam. E todos pareciam
estar muito ligados, uma vez. E as duas visitas já nem tinham por que ter
dúvidas: eram moças de muito prestígio na aldeia.
Manduri pegou o patuá com cara de sapo verde do seio e
deu-lhe um beijo profundo estalado. Maria agarrou sua cruz de prata do seio e a
beijou carinhosamente repetidamente. A noite, lá no alto, pintada de nuvens
vermelhas, ondas enroladas, e sem o que fazer. E a lua ouriçada envolta em saco
de estopa ou aniagem. E um e outro bramido na distância. E alguns arrastar de
pedras, poeira nos olhos, risos de, ah eh eh eh!... Quem sabe até uma
martinta-pereira espoleta reinando por aí, hein?!
O pastor fez um sinal, que nem era o santo
pelo sinal, e dois aldeões trogloditas pegaram a Manduri, e mais outros dois aldeões
gorilas pegaram a Maria. E as levantaram meio metro do chão, com surpresa e
tudo. Tiraram todas as peças de roupas das moças convidadas. Agitadas as duas
muito bastantes as pernas e os braços e os dedos de garras em unhas. E as ataram
nas mãos e nos pés. Depois as penduraram de cabeça para baixo num galho isolado
de petrificada araputanga da pracinha.
As sorteadas ficaram ali, vendo o
mundo, pendulando, olhando os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos, a vila
toda rindo, ah eh eh eh!... gritando, brincando de ciranda, tudo tudo de cabeça
para baixo. E elas tiveram quase certeza: como duas podem ser quarenta e
poucos: como quarenta e poucos podem conter duas. Abater estripar manducar. E
os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas somente aguardavam as fogueiras baixar
e tudo virar um brasedo de assar.
O vento muito calmo levantava uma pouca
poeira de nada. Uma mula-sem-cabeça relinchou no capoeirão entre os secos
tipis-bravos. Saci, ah eh eh eh!... reivindicou em torvelinho seu setor no meio
da rua Única. As gurias nem tinham mais nada para falar mais nada para aprender
nem nada para rir nem para pensar.
Certo aldeão chegou com uma
casca-de-vaca na mão. Levantou a casca-de-vaca no ar embalsamado e foi largando
com vontade. Então, as duas gurias, cabeças para baixo e olhos fuzilantes,
receberam o que mereciam, receberam chá de casca-de-vaca. As marcas
assinaladas, táaa! táaa!... penetravam também o instinto dos circunstantes como
carne macia amaciada.
As moças estrangeiras perderam logo logo
a expectativa esportiva, depois os sentidos, corpo e parte material, e nem
demoraram mais nada para morrer.
Um lobisomem - àquela hora ainda disfarçado
de espantalho com chapéu de cartola -, muito tonto e esfomeado faminto, ali no
meio do capoeiral, redepentemente, urinou longemente num forte incontido jato
de esguicho.