Assim, deus Caciporé praticava
suas eternas conquistas amorosas sempre disfarçados de arnica-do-campo pixuna
nuvem ou deus em vias de fato com as beldades das praias das piscinas das matas
das rochas das montanhas das palmeiras das águas correntes cascatas sangas restingas
e lagoas.
Mas sua esposa Cotijuba deusa
não gostava sobrecarregada cheia de pressentimentos disfarçadas de camoatim
peixe arapoca ou escrava Isaura se irritava e perdia o bom humor todos os dias a
sua beleza. E a deusa contra o deus não podiam fazer muita coisa.
Até que um seu Mosqueiro filho
dolicocéfalo soube desses e outros casos disfarçados de camará pássaro tracajá
ou índio tingui-botó e resolveu cobrar as magoas da matriz.
Esse filho
foi tentar afastar as tais e quais marrecas-piadeiras do seu todo-poderoso pai jacaretinga.
E elas belezas lucrativas úteis esbeltas avassaladoras selecionadas fascinantes
as mais comestíveis carinhosas e carinhosamente abraços macios psicodélicas muito
falantes muito risonhas muito gulosas jovens de boa estatura linha de bonitos
dentes aperolados olhos ternos pescoços finos tiara na cabeça cabelos longos e
volumosos encobrindo os ombros tudo original sempre como que sorrindo sorriam
por dentro e por fora.
E até Mosqueiro conseguia, feito
à imagem e semelhança, quando por sinal foi descoberto. O filho sabia que deus
estava bem informado que deus era avenida rua beco praça e assim agia cósmico
senhor dos mil olhos senhor do céu senhor do raio.
O que deus Caciporé, de dedo
em riste, não gostou nada dessa interferência do filho e brigou. Pegou-o por
uma perna e o jogou altos céus rolando objeto voador não identificado abaixo ao
som da gravidade bólido de fogo e rasto.
O rapaz ainda surpreso caiu
veio voando e se estatelou sobre a terra, quebrando a costela, o queixo, o
nariz, o pé, os bofes, a orelha, as asas, o olho, o cotovelo. Como que morreu e
começou tudo de novo. E saiu quicando de onde estava para lugar algum.
E ao céu nunca mais não voltou
distante da pátria e não nem lhe foi mais permitido.
É o que aconteceu. Depois
explico. Por paradoxal que seja.
Árvores, muitas árvores,
casas, muitas casas, ruas, muitas ruas cruzando com ruas e logradouros. A lua
bola azul e sem saber de nada no sentido do bairro São Cristóvão pela avenida
Presidente Vargas calçamento de paralelepípedos.
Cego de um olho, cabeça trincada, crinas
desfeitas desgrenhadas, sem palavras, sem estrela, fitinha amarrada no pulso
comemorativa ao dia da festa do Círio de N. S. de Nazaré, este filho Mosqueiro de
deus já está um tímido e um bom gravador um bom entalhador.
A estas
horas dez e meia... fala sério! Deixa pra lá!... No fim tudo dá certo! Até
logo!
Lá vem a
aurora. Tem uma fortuna aí, diamantes ametistas esmeraldas turmalinas safiras
topázios e águas-marinhas.
A nova
fase nova escola com ideias e pensamentos modernos e excitantes paisagem
inédita alma reformada alma compatível.
Anda pelas ruas como se
sorteasse uma fantasia, pensando e indo bem fundo, a ansiedade, olhando o que
sente e cheirando o que encontra. Seu pensamento vai longe. A novidade todos os
dias quase uma boa nova em cada diário: - Que será agora?!
Os
caminhos que o levam para Osório, Itaberá, Marapanim, Itaí, São João de
Pirabas, Giruá, Paragominas, praia da Cajutuba. Isso mesmo. Nem quente nem
frio. Os amigos os conhecidos os indiferentes. A Estrada Real é seu jornal. A
sua missão o seu rumo o seu destino.
E depois
de uns olhares distantes, mais um minuto de silêncio. Quer saber de tudo ao
mesmo tempo.
As
mulheres da cidade e alguns homens lavam roupas e panelas na bica junto ao
monumento do Laçador. O sol controla essa parte e muito bem.
Chega
pessoalmente num lugar famoso que viu na tevê ou usou na internet, avisos
convites chamadas notícias, conhece visita aprova, a estação ecológica do Taim,
a serra do Acaraí, o rio Maguari, o parque das montanhas do Tumucumaque, a base
naval de Val-de-Cães, o arquipélago do Bailique, a baía de Guanabara uma porta
de entrada e outra porta de saída o mês de janeiro Jano deus das de duas faces.
Reside
entre os humanos tornado sujeito indecifrável impenetrável arredio para com
todos para com tudo e muito mais. Muitos lhe têm medo, outros dizem que se tornou
um grosseiro profeta. E segue a sorte obscura como lhe foi dado o destino por deus
fora de deus.
Nenhum
sentido não adianta que não tem e não há. Onde está seu comportamento sua
vontade de achar? Senta em xis. De que com que para que como quê? A hora do a
deus.
Perseguido
por vozes do além do aquém de onde vier e seja lá o que for. Bebeu água do rio
Arapepó. Se deita emborcado na grama abraçando a terra toda num grande forte
abraço.
A rua
predileta as árvores frondosas que mais fazem as belas flores os bons aromas,
casca-preta, periquiteira-da-mata, mucunã, burra-leiteira, guibá, malícia-de-mulher,
turubi, piquiá-amarelo, uirari.
Passa em frente de loja vê
três mulheres em conversas de compras, passa por casa azul onde late um guaipequinha,
passa na praça com monumento ao Santos Dumont, passa por uma porta de mola vai
até a sala se assenta num banco corrido e abre a revista incidental na página
da baía de São Marcos.
Seus
melhores dias, seus olhares, se é que podem assim ser, são os dias de céu
nublado onde não precisa virar a cabeça ou ver sua sombra projetada no chão.
O deus Caciporé
olha e vê todos os caminhos e todos os passos e os viajantes. E o senhor tem o
seu santo nome de deus em vão.
E Mosqueiro
parte vai para São Borja, Aurora do Tocantins, Boa Hora, Brasileira, Moju,
Malhada dos Bois, Combinado, Ciríaco, Curaçá. E ainda sobram lugares e espaços
e muitos milhares de reais. Discursos conferências teses pareceres estudos
ensaios e artigos. Convites menções títulos medalhas prêmios e diplomas. Vivas
gritos gargalhadas aplausos foguetes e músicas.
O todo do tempo
sugando mastigando engolindo xingando exigindo, etc., descontrolado esquivo
enlevado calado misterioso - se é que o tudo existe no espaço!
Tanto e
tais caminhos e tanto andar. Os encontros os abraços os cafezinhos. Sabe de Terra
Alta cidade, sabe de Abaetetuba deve saber também de Barra do Ouro e Carutapera
e Viseu e Água Santa e Juazeiro é certo que a cidade de Matriz de Camaragibe
sabe dele.
Bem no
começo do dia, aí pelas onze, sai de onde está um prédio na zona nova da cidade
edifício craqueado em rumo para onde e não gosta de comer beterraba alface tomate
chuchu beber caipirinha e caminha pela hora sempre a mesma. Tudo funciona
vagarosamente e normalmente e impreterivelmente.
Uma nuvem
vem vai perdida pelo alto do oceano...
Faz de
conta que é bicho preá, que é abelha irapuã, que é pato-mergulhão, que é
curu-curu, que é papagaio-do-mangue, que é onça-d’água, que é peixe carataí,
que é apuizeiro.
Pessoas de
todas as latitudes e longitudes se dão as mãos em roda ciranda cirandinha burburinhos
mexericos rizinhos agradinhos ao pé do monumento da estátua de Cruz e Sousa.
Viajar é
sonho para qualquer um pessoa bicho ou coisa. E se quer, então, vai! Aulas de
geografia, história. Coração dominado. Um lugar que se sabe para onde vai.
Visite a ilha do Curuá, a baía do Guajará na época, a aldeia dos matsé, o rio
Araguari debaixo do céu azul total!
Muitas
maneiras, um sonho diferente, ruas e cidades imaginárias, um outro mundo, e uma
cascata branca cai das pedras altas da montanha, agora também uma grande
curiosidade, o sonho a razão desistem mas assim confirmam o destino o rio, e
pálpebras secas pálpebras cansadas pálpebras pesadas.
Responde
às perguntas da esposa com evasivas, com reticências, com bocejos, com demoras,
com enjoos, com tevê ligada no jogo de futebol, apressado, não usa óculos, seu
olho de fogo devaneia em redor, a fantasia volta no tempo, passeiam de mãos
dadas pela rua Voluntários da Pátria distraindo o cão de estimação tomando
guaraná no bar da praça Castro Alves cigarras estridentes serrando maçarandubas
no mormaço da estação. A viagem marcada para Marituba nas férias. O filho mais
velho que não fala mas escuta tudo vê no escuro e ri o tempo todo. Na parede da
sala preferida uma mensagem que pode ser lida e decifrada: “É unir o útil ao
agradável.” Duas casas na praia, uma à beira-mar praia do Iró outra à beira-rio
praia do rio Gurupi.
Lembrança
constante do céu aquelas cenas das irmãs dos irmãos da mãe dos parentes, nas
noites longas sem sono, mas não quer saber se estão estreladas.
Se
Mosqueiro fica nas dúvidas. Saudade. Não saudades nem dades nem des.
Cu-rio-si-da-de.
Nasce como
nasceu a estrela de sábado à tarde, dizem ser o planeta Vênus, as nuvens tocando
leve brisa de folhas de murumuru, praça com estátua de princesa Isabel lendo
uma carta, sapos-da-areia coaxando, meninos e meninas imitando craques de
futebol, cão passeando farejando arrastando seu dono pela coleira.
O mais
virá a seu tempo.
Mosqueiro tem e carrega uma dita
de muitos anos passageiros e inúteis ou raros. Não perdoa e nem é perdoado.