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domingo, 13 de julho de 2014

Que Diferença!


      

      
       A história esta começou nos altos céus para lá das arcadas estratosféricas e nuvens finais e mais finas e caravélicas.

Assim, deus Caciporé praticava suas eternas conquistas amorosas sempre disfarçados de arnica-do-campo pixuna nuvem ou deus em vias de fato com as beldades das praias das piscinas das matas das rochas das montanhas das palmeiras das águas correntes cascatas sangas restingas e lagoas.

Mas sua esposa Cotijuba deusa não gostava sobrecarregada cheia de pressentimentos disfarçadas de camoatim peixe arapoca ou escrava Isaura se irritava e perdia o bom humor todos os dias a sua beleza. E a deusa contra o deus não podiam fazer muita coisa.

Até que um seu Mosqueiro filho dolicocéfalo soube desses e outros casos disfarçados de camará pássaro tracajá ou índio tingui-botó e resolveu cobrar as magoas da matriz.

       Esse filho foi tentar afastar as tais e quais marrecas-piadeiras do seu todo-poderoso pai jacaretinga. E elas belezas lucrativas úteis esbeltas avassaladoras selecionadas fascinantes as mais comestíveis carinhosas e carinhosamente abraços macios psicodélicas muito falantes muito risonhas muito gulosas jovens de boa estatura linha de bonitos dentes aperolados olhos ternos pescoços finos tiara na cabeça cabelos longos e volumosos encobrindo os ombros tudo original sempre como que sorrindo sorriam por dentro e por fora.

E até Mosqueiro conseguia, feito à imagem e semelhança, quando por sinal foi descoberto. O filho sabia que deus estava bem informado que deus era avenida rua beco praça e assim agia cósmico senhor dos mil olhos senhor do céu senhor do raio.

O que deus Caciporé, de dedo em riste, não gostou nada dessa interferência do filho e brigou. Pegou-o por uma perna e o jogou altos céus rolando objeto voador não identificado abaixo ao som da gravidade bólido de fogo e rasto.

O rapaz ainda surpreso caiu veio voando e se estatelou sobre a terra, quebrando a costela, o queixo, o nariz, o pé, os bofes, a orelha, as asas, o olho, o cotovelo. Como que morreu e começou tudo de novo. E saiu quicando de onde estava para lugar algum.

E ao céu nunca mais não voltou distante da pátria e não nem lhe foi mais permitido.

É o que aconteceu. Depois explico. Por paradoxal que seja.

Árvores, muitas árvores, casas, muitas casas, ruas, muitas ruas cruzando com ruas e logradouros. A lua bola azul e sem saber de nada no sentido do bairro São Cristóvão pela avenida Presidente Vargas calçamento de paralelepípedos.

       Cego de um olho, cabeça trincada, crinas desfeitas desgrenhadas, sem palavras, sem estrela, fitinha amarrada no pulso comemorativa ao dia da festa do Círio de N. S. de Nazaré, este filho Mosqueiro de deus já está um tímido e um bom gravador um bom entalhador.

       A estas horas dez e meia... fala sério! Deixa pra lá!... No fim tudo dá certo! Até logo!

       Lá vem a aurora. Tem uma fortuna aí, diamantes ametistas esmeraldas turmalinas safiras topázios e águas-marinhas.

       A nova fase nova escola com ideias e pensamentos modernos e excitantes paisagem inédita alma reformada alma compatível.     

Anda pelas ruas como se sorteasse uma fantasia, pensando e indo bem fundo, a ansiedade, olhando o que sente e cheirando o que encontra. Seu pensamento vai longe. A novidade todos os dias quase uma boa nova em cada diário: - Que será agora?!

       Os caminhos que o levam para Osório, Itaberá, Marapanim, Itaí, São João de Pirabas, Giruá, Paragominas, praia da Cajutuba. Isso mesmo. Nem quente nem frio. Os amigos os conhecidos os indiferentes. A Estrada Real é seu jornal. A sua missão o seu rumo o seu destino.

       E depois de uns olhares distantes, mais um minuto de silêncio. Quer saber de tudo ao mesmo tempo.

       As mulheres da cidade e alguns homens lavam roupas e panelas na bica junto ao monumento do Laçador. O sol controla essa parte e muito bem.

       Chega pessoalmente num lugar famoso que viu na tevê ou usou na internet, avisos convites chamadas notícias, conhece visita aprova, a estação ecológica do Taim, a serra do Acaraí, o rio Maguari, o parque das montanhas do Tumucumaque, a base naval de Val-de-Cães, o arquipélago do Bailique, a baía de Guanabara uma porta de entrada e outra porta de saída o mês de janeiro Jano deus das de duas faces.

       Reside entre os humanos tornado sujeito indecifrável impenetrável arredio para com todos para com tudo e muito mais. Muitos lhe têm medo, outros dizem que se tornou um grosseiro profeta. E segue a sorte obscura como lhe foi dado o destino por deus fora de deus.

       Nenhum sentido não adianta que não tem e não há. Onde está seu comportamento sua vontade de achar? Senta em xis. De que com que para que como quê? A hora do a deus.

       Perseguido por vozes do além do aquém de onde vier e seja lá o que for. Bebeu água do rio Arapepó. Se deita emborcado na grama abraçando a terra toda num grande forte abraço.

       A rua predileta as árvores frondosas que mais fazem as belas flores os bons aromas, casca-preta, periquiteira-da-mata, mucunã, burra-leiteira, guibá, malícia-de-mulher, turubi, piquiá-amarelo, uirari.

Passa em frente de loja vê três mulheres em conversas de compras, passa por casa azul onde late um guaipequinha, passa na praça com monumento ao Santos Dumont, passa por uma porta de mola vai até a sala se assenta num banco corrido e abre a revista incidental na página da baía de São Marcos.

       Seus melhores dias, seus olhares, se é que podem assim ser, são os dias de céu nublado onde não precisa virar a cabeça ou ver sua sombra projetada no chão.

       O deus Caciporé olha e vê todos os caminhos e todos os passos e os viajantes. E o senhor tem o seu santo nome de deus em vão.

       E Mosqueiro parte vai para São Borja, Aurora do Tocantins, Boa Hora, Brasileira, Moju, Malhada dos Bois, Combinado, Ciríaco, Curaçá. E ainda sobram lugares e espaços e muitos milhares de reais. Discursos conferências teses pareceres estudos ensaios e artigos. Convites menções títulos medalhas prêmios e diplomas. Vivas gritos gargalhadas aplausos foguetes e músicas.

       O todo do tempo sugando mastigando engolindo xingando exigindo, etc., descontrolado esquivo enlevado calado misterioso - se é que o tudo existe no espaço!

       Tanto e tais caminhos e tanto andar. Os encontros os abraços os cafezinhos. Sabe de Terra Alta cidade, sabe de Abaetetuba deve saber também de Barra do Ouro e Carutapera e Viseu e Água Santa e Juazeiro é certo que a cidade de Matriz de Camaragibe sabe dele.

       Bem no começo do dia, aí pelas onze, sai de onde está um prédio na zona nova da cidade edifício craqueado em rumo para onde e não gosta de comer beterraba alface tomate chuchu beber caipirinha e caminha pela hora sempre a mesma. Tudo funciona vagarosamente e normalmente e impreterivelmente.

       Uma nuvem vem vai perdida pelo alto do oceano...

       Faz de conta que é bicho preá, que é abelha irapuã, que é pato-mergulhão, que é curu-curu, que é papagaio-do-mangue, que é onça-d’água, que é peixe carataí, que é apuizeiro.

       Pessoas de todas as latitudes e longitudes se dão as mãos em roda ciranda cirandinha burburinhos mexericos rizinhos agradinhos ao pé do monumento da estátua de Cruz e Sousa.

       Viajar é sonho para qualquer um pessoa bicho ou coisa. E se quer, então, vai! Aulas de geografia, história. Coração dominado. Um lugar que se sabe para onde vai. Visite a ilha do Curuá, a baía do Guajará na época, a aldeia dos matsé, o rio Araguari debaixo do céu azul total!

       Muitas maneiras, um sonho diferente, ruas e cidades imaginárias, um outro mundo, e uma cascata branca cai das pedras altas da montanha, agora também uma grande curiosidade, o sonho a razão desistem mas assim confirmam o destino o rio, e pálpebras secas pálpebras cansadas pálpebras pesadas.

       Responde às perguntas da esposa com evasivas, com reticências, com bocejos, com demoras, com enjoos, com tevê ligada no jogo de futebol, apressado, não usa óculos, seu olho de fogo devaneia em redor, a fantasia volta no tempo, passeiam de mãos dadas pela rua Voluntários da Pátria distraindo o cão de estimação tomando guaraná no bar da praça Castro Alves cigarras estridentes serrando maçarandubas no mormaço da estação. A viagem marcada para Marituba nas férias. O filho mais velho que não fala mas escuta tudo vê no escuro e ri o tempo todo. Na parede da sala preferida uma mensagem que pode ser lida e decifrada: “É unir o útil ao agradável.” Duas casas na praia, uma à beira-mar praia do Iró outra à beira-rio praia do rio Gurupi.

       Lembrança constante do céu aquelas cenas das irmãs dos irmãos da mãe dos parentes, nas noites longas sem sono, mas não quer saber se estão estreladas.

       Se Mosqueiro fica nas dúvidas. Saudade. Não saudades nem dades nem des. Cu-rio-si-da-de.

       Nasce como nasceu a estrela de sábado à tarde, dizem ser o planeta Vênus, as nuvens tocando leve brisa de folhas de murumuru, praça com estátua de princesa Isabel lendo uma carta, sapos-da-areia coaxando, meninos e meninas imitando craques de futebol, cão passeando farejando arrastando seu dono pela coleira.

       O mais virá a seu tempo.

Mosqueiro tem e carrega uma dita de muitos anos passageiros e inúteis ou raros. Não perdoa e nem é perdoado.