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terça-feira, 10 de julho de 2012

O paraíso serve


        Assim, sobre a terra verde, sob o céu de um azul, começou buscando nomes de plantas e frutinhas do mato, encontrando frutinhas do mato, subindo em árvores, reparando em passarinhos, saboreando frutas: as amarelas, principalmente.

        Amizades simples e desinteressadas onde por aí ouvia tocar os arapaçus-verdes, chororós, bicos-miúdos, surucuás-grandes-de-barriga-amarela, sabiás-pretos, araçaris-arrepiados, anacãs, chupins, mongos, araras-de-barriga-amarela.

        A ideia sua toda hora era como ter todas as coisas de que gostava, frutas do mato, subir em árvores, escalar morros, nadar na sanga, abraçar coqueiros, escolher pedrinhas no barranco, correr atrás de borboletas besouros beija-flores.

        As árvores pareciam seriemas, os quero-queros pareciam cupinzeiros, as borboletas sorriam, tatajuba-do-brejo não queria falar o seu segredo de um verde.

        Ficava horas, por exemplo, comendo azedinhas amarelas, araçás-vermelhos, sete-capotes verdes, amoras-do-mato pretas, araticuns-folhas-de-salgueiro amarelos, butiás amarelos e agridoces.

        Corria para casa junto com o fim da tarde, bastos cabelos, os passarinhos se recolhendo no interior das sambaíbas, as curicacas gritando do poleiro no pinheiral.

        Adorava perguntas e respostas, que cor você prefere o amarelo que bicho você nunca viu o escorpião que árvore você namora a sapucaia-branca.

        A avó recomendava para usar o boné de pala sob esse sol de rachar de tão quente (aquele mesmo astro-rei amarelo como os passarinhos que andavam com ela pelo potreiro capão capoeira os canários-da-terra, os bem-te-vis-de-três-riscas, os pintassilgos).

        Andorinhas em ziguezagues, curvas, nuvens também, riacho em ziguezagues, sorte em ziguezagues, porco-espinho em ziguezagues, abóbora-do-mato em ziguezagues.

Assobiava a imitação das marrequinhas-cã-cãs, tico-tico de chapéu, coleirinha de gravata, era janeiro e fazia compulsório calor.

        Encontrava uma pena de tem-tem-pium e virava índia jaicó, catauixi, xavante, coroado, arara-caro, charrua, pato.

        As outras meninas e os meninos pertenciam a um outro mundo, a um outro mundo distante muitas vezes, a um outro mundo até que não dizia nada, a um outro mundo não particular e exclusivo e deslumbrante.

        Não sabia, não se sabe, nem se procurou saber, não queria nem saber, e em que tempo que foi.

        Uma alegria de cambaxirra, uns cabelos de ouriço-preto, um olhar de bicho-preguiça, uns beijos de peixinho de açude lambari cascudo charutinho bagre traíra jundiá.

        Cada estrela com seu domínio.

        Frutas do mato também, pitangas, goiabas-do-mato, as amarelas guavirovas, e passarinhos, tchintchorrintchos, azulões, tesoureiras, saripocas-culiques, pica-paus-verde-barrado, prebixins, saíras-militares, capitães-do-mato, ximango-do-campo (época de frutas mesma época de passarinhos).

        Todos os dias eram iguais e brancos e verticais e espertos e interessantes.

        Gostava da chuva, pura chuva, mas não dos dias de inverno dentro de casa.

        Acordava de manhã com o sol e os passarinhos rindo no arvoredo dos quintais próprios e vizinhos, sassafrás-amarelo, braço-de-preguiça, caparrosa, bucho-de-boi, pitumba, cerejeira-do-rio-grande, curuiri, cipó-timbó, cardo-ananá, jauarataceua.

        O dia começava amarelo perfeito prestativo zumbidor nordeste esvoaçante vaporoso.

        Olhando as plantas, uma confusão de verdes, borboletas incidentais e flutuantes, supi-de-cabeça-cinza piando, repiando, trinando, outras cores, perfumes marcantes, nuvem com cara de avião, etc, besouros calmos, sombras, sorriso de cigarras, formigas perambulando.

        Esperar o tanto de tempo o que fazer o que dizer.

        Como os ziguezagues das painas ao vento, como os ziguezagues das almas-de-gato, são em todas as direções, é que acontece uma rede ou a trama ou com sorte ou em labirinto.

        Uma certa vez resolveu que tinha de olhar e sonhar, e toda dentro de si.

        Estavam as corticeiras-do-campo muito aceleradas, a urumbeba talvez muito acentuada, estavam as patas-de-vaca provocando desespero nas alfazemas-bravas.

        E subiu na primeira assa-peixe do quintal.

        E perguntou dúvidas a respeito ao tangurupará à assa-peixe à vizinha candeia-de-caju ao vizinho alecrim-do-campo, foi perguntando a tudo, tudo queria saber, sempre já.

        Pois começava ali o desejo de ficar retirada isolada quieta muda silenciosa separada pra sempre.

        Sujeito com que se dava já de pouca data, o tempo.

        Se entregou ao horizonte imortal confuso profundo, e viajar para construir mundo, que praticamente nunca vira somente esperava.

        Então, do alto, também o sol e as árvores e os passarinhos e as nuvens e os rastos de aviões.

        O que sabem e como sabem também as borboletas, os colibris, as aramás, e quase ao alcance da mão.

        Ficou ali admirando e passando o dia e esperando a tarde e o que mais.

        Olhou o sol que achou extravagante olhou o araciuirá que achou extravagante, e ela soube rir e riu.

        Mas muito de uma beleza deslumbrante, deslumbrante.

        Para cair o sol na localidade de Arambaré, de onde vinha o vento sabia de Glorinha, no rumo do voo da araçuaiava tinha Tanhaçu, nem tão nem quão era Iguatu.

        De volta em casa, comeu pouco e se recolheu particular arrepiada a um canto discreto anônimo ateu.

        Já estava relembrando mastigando de boca aberta os horizontes pressentidos do alto dos galhos da assa-peixe.

        Parecia pensava fantasiava com muita ideia de futuro.

        As cores que a atingiram no alto da árvore nunca a atingiram com tanta intimidade verdade velocidade verde capacidade futuro.

        Trilhos de trem por Barra Longa barco do rio Sacraiú sonho água limpa lisa o vento nos cabelos ouriçados e vermelhos cara sardenta.

        Os mistérios pareciam fáceis ora difíceis ora fáceis e tendo que procurá-los.

        Precisava correr o mundo para entender o mundo, coisas novas, coisas assim mesmo.

        E começava a sentir uma ânsia de percorrer estradas cidades baía da Guanabara praia de Arembepe ruas de São Joaquim de Bicas praça Marruá em Jaupaci.

        Por que desgostava do quintal de casa descartava das capoeiras ao redor de casa do ambiente perto de casa e arredores e de um dia pro outro?

        Uma coisa nova qualquer acordava dentro dela e que lhe dizia para seguir e obedecer e se oferecer.

        Seria tempo de abandonar as aventuras atrás de jabuticabas açudes bem-te-vis-pintados.

        O mundo agora mais falante estava além da assa-peixe sua conhecida sua manhã.

        Épocas de sol épocas de frutas amarelas épocas de passarinhos amarelos épocas de banhos no açude, e também guardadas para sempre e muito mais.