Assim,
sobre a terra verde, sob o céu de um azul, começou buscando nomes de plantas e
frutinhas do mato, encontrando frutinhas do mato, subindo em árvores, reparando
em passarinhos, saboreando frutas: as amarelas, principalmente.
Amizades
simples e desinteressadas onde por aí ouvia tocar os arapaçus-verdes, chororós,
bicos-miúdos, surucuás-grandes-de-barriga-amarela, sabiás-pretos,
araçaris-arrepiados, anacãs, chupins, mongos, araras-de-barriga-amarela.
A
ideia sua toda hora era como ter todas as coisas de que gostava, frutas do
mato, subir em árvores, escalar morros, nadar na sanga, abraçar coqueiros,
escolher pedrinhas no barranco, correr atrás de borboletas besouros
beija-flores.
As
árvores pareciam seriemas, os quero-queros pareciam cupinzeiros, as borboletas
sorriam, tatajuba-do-brejo não queria falar o seu segredo de um verde.
Ficava
horas, por exemplo, comendo azedinhas amarelas, araçás-vermelhos, sete-capotes
verdes, amoras-do-mato pretas, araticuns-folhas-de-salgueiro amarelos, butiás
amarelos e agridoces.
Corria
para casa junto com o fim da tarde, bastos cabelos, os passarinhos se
recolhendo no interior das sambaíbas, as curicacas gritando do poleiro no
pinheiral.
Adorava
perguntas e respostas, que cor você prefere o amarelo que bicho você nunca viu
o escorpião que árvore você namora a sapucaia-branca.
A
avó recomendava para usar o boné de pala sob esse sol de rachar de tão quente
(aquele mesmo astro-rei amarelo como os passarinhos que andavam com ela pelo
potreiro capão capoeira os canários-da-terra, os bem-te-vis-de-três-riscas, os
pintassilgos).
Andorinhas
em ziguezagues, curvas, nuvens também, riacho em ziguezagues, sorte em
ziguezagues, porco-espinho em ziguezagues, abóbora-do-mato em ziguezagues.
Assobiava a
imitação das marrequinhas-cã-cãs, tico-tico de chapéu, coleirinha de gravata,
era janeiro e fazia compulsório calor.
Encontrava
uma pena de tem-tem-pium e virava índia jaicó, catauixi, xavante, coroado,
arara-caro, charrua, pato.
As
outras meninas e os meninos pertenciam a um outro mundo, a um outro mundo
distante muitas vezes, a um outro mundo até que não dizia nada, a um outro
mundo não particular e exclusivo e deslumbrante.
Não
sabia, não se sabe, nem se procurou saber, não queria nem saber, e em que tempo
que foi.
Uma
alegria de cambaxirra, uns cabelos de ouriço-preto, um olhar de bicho-preguiça,
uns beijos de peixinho de açude lambari cascudo charutinho bagre traíra jundiá.
Cada
estrela com seu domínio.
Frutas
do mato também, pitangas, goiabas-do-mato, as amarelas guavirovas, e
passarinhos, tchintchorrintchos, azulões, tesoureiras, saripocas-culiques,
pica-paus-verde-barrado, prebixins, saíras-militares, capitães-do-mato,
ximango-do-campo (época de frutas mesma época de passarinhos).
Todos
os dias eram iguais e brancos e verticais e espertos e interessantes.
Gostava
da chuva, pura chuva, mas não dos dias de inverno dentro de casa.
Acordava
de manhã com o sol e os passarinhos rindo no arvoredo dos quintais próprios e
vizinhos, sassafrás-amarelo, braço-de-preguiça, caparrosa, bucho-de-boi,
pitumba, cerejeira-do-rio-grande, curuiri, cipó-timbó, cardo-ananá,
jauarataceua.
O
dia começava amarelo perfeito prestativo zumbidor nordeste esvoaçante vaporoso.
Olhando
as plantas, uma confusão de verdes, borboletas incidentais e flutuantes,
supi-de-cabeça-cinza piando, repiando, trinando, outras cores, perfumes
marcantes, nuvem com cara de avião, etc, besouros calmos, sombras, sorriso de
cigarras, formigas perambulando.
Esperar
o tanto de tempo o que fazer o que dizer.
Como
os ziguezagues das painas ao vento, como os ziguezagues das almas-de-gato, são
em todas as direções, é que acontece uma rede ou a trama ou com sorte ou em
labirinto.
Uma
certa vez resolveu que tinha de olhar e sonhar, e toda dentro de si.
Estavam
as corticeiras-do-campo muito aceleradas, a urumbeba talvez muito acentuada,
estavam as patas-de-vaca provocando desespero nas alfazemas-bravas.
E
subiu na primeira assa-peixe do quintal.
E
perguntou dúvidas a respeito ao tangurupará à assa-peixe à vizinha
candeia-de-caju ao vizinho alecrim-do-campo, foi perguntando a tudo, tudo
queria saber, sempre já.
Pois
começava ali o desejo de ficar retirada isolada quieta muda silenciosa separada
pra sempre.
Sujeito
com que se dava já de pouca data, o tempo.
Se
entregou ao horizonte imortal confuso profundo, e viajar para construir mundo,
que praticamente nunca vira somente esperava.
Então,
do alto, também o sol e as árvores e os passarinhos e as nuvens e os rastos de
aviões.
O
que sabem e como sabem também as borboletas, os colibris, as aramás, e quase ao
alcance da mão.
Ficou
ali admirando e passando o dia e esperando a tarde e o que mais.
Olhou
o sol que achou extravagante olhou o araciuirá que achou extravagante, e ela
soube rir e riu.
Mas
muito de uma beleza deslumbrante, deslumbrante.
Para
cair o sol na localidade de Arambaré, de onde vinha o vento sabia de Glorinha,
no rumo do voo da araçuaiava tinha Tanhaçu, nem tão nem quão era Iguatu.
De
volta em casa, comeu pouco e se recolheu particular arrepiada a um canto
discreto anônimo ateu.
Já
estava relembrando mastigando de boca aberta os horizontes pressentidos do alto
dos galhos da assa-peixe.
Parecia
pensava fantasiava com muita ideia de futuro.
As
cores que a atingiram no alto da árvore nunca a atingiram com tanta intimidade
verdade velocidade verde capacidade futuro.
Trilhos
de trem por Barra Longa barco do rio Sacraiú sonho água limpa lisa o vento nos
cabelos ouriçados e vermelhos cara sardenta.
Os
mistérios pareciam fáceis ora difíceis ora fáceis e tendo que procurá-los.
Precisava
correr o mundo para entender o mundo, coisas novas, coisas assim mesmo.
E
começava a sentir uma ânsia de percorrer estradas cidades baía da Guanabara
praia de Arembepe ruas de São Joaquim de Bicas praça Marruá em Jaupaci.
Por
que desgostava do quintal de casa descartava das capoeiras ao redor de casa do
ambiente perto de casa e arredores e de um dia pro outro?
Uma
coisa nova qualquer acordava dentro dela e que lhe dizia para seguir e obedecer
e se oferecer.
Seria
tempo de abandonar as aventuras atrás de jabuticabas açudes
bem-te-vis-pintados.
O
mundo agora mais falante estava além da assa-peixe sua conhecida sua manhã.
Épocas
de sol épocas de frutas amarelas épocas de passarinhos amarelos épocas de
banhos no açude, e também guardadas para sempre e muito mais.