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domingo, 17 de maio de 2015

VAMOS A VER


      
       O sol dardejava, ninguém falava nada, ninguém abria a boca para o mais breve leve simples gracejo. O dia estava bonito como um rio contornando a montanha sem nome sem aqueduto sem usina. Um vento selvagem e agnóstico. Árvores plantas esplendorosas luxuriantes, alecrins-bravos, urucuris, carás, sumaumeiras, jenipapeiros, burdáchias, tangaracás-açus. Os besouros voavam com dois pares de asas. A borboleta de três cores. Combatentes aéreas, as taperás um bando em revoada amedrontavam ameaçavam arrasar o planeta terráqueo.

       Havia no mas mais mundo coisas.

A primeira vez que a vi lembro porque sorria. E eu a olhei e sorri e ela me devolveu rasgados sorrisos em dobro dobro. Cultuava a natureza na Estação Ecológica da Jureia-Itatins. Foi amor à primeira vista visita sorrisos. Vi graça no seu olhar, nos cabelos ruivos franjados, no corpo de palmeira verde catulé, na vitrina, na praça Dom José Gaspar, na avenida Tarairiú, na tarde, na Iporanga, no cosmos.

E Deus disse, falou consigo mesmo, depois de fazer o Circuito das Grutas, Baldim, Capim Branco, Cordisburgo, Jequitibá, Lagoa Santa, Matozinhos, Sete Lagoas, trovoou depois de relampear raios e coriscos:

- Nunca me aconteceu uma coisa assim!

       Esse tipo de sorte e fortuita coincidência, isso voltaria me acontecer diversas outras vezes durante as várias fases férias da vida sortida: eu gostar da menina assim conhecida de repente um dia por acaso e depois conviver com ela e adorá-la hipnotizado. Primeiro em laboratório e depois naturalmente, primeiro em tese e depois na prática. Como da primeira vez foi isso mesmo das outras tantas vezes.

       No começo o sol era amarelo, no fim a lua era de prato. O tempo passava. A roça dava milho mandioca caajuçara taioba tanajuras. As maitacas-verdes avisavam todo o jângal inclusive o mapinguari o boitatá a boiúna. Era uma época que onça nem comia carne humana só ruminava capim-gengibre. Da beira do rio vinham os sapos coaxavam. O vira-folhas gostava de assobiar ou seria a matintapereira. Dona coruja-listrada elogiava o toco de guarantã.

       Nada como um dia em seguida de outro, e um dia, depois de meses, Deus pulou da copa da castanheira-do-pará, mediu a altura das nuvens e trovoou:

       - Pois chega! Agora mesmo é que vai chover!

       Disse isso abriu as asas virou num peixe saguiru se aventurou sozinho rolou no espaço e desapareceu. Me mostrou, isso sim, que era possível viajar a perder de vista e viajar além estrelas um lugar mais avançado que impossível e o céu sempre vazio de puro azul.

       Me nos achamos na festa em Cachoeira Paulista, ao pé da montanha dos Marins. Minas Gerais tem cidades magníficas, Abadiânia, Jaguaretama, Ipiranga, Ipu, Taguatinga, Atalaia do Norte, incríveis mesmo. E todo o seu corpo me pareceu de propósito encaixado artisticamente, a peça por peça que procurava sem saber que milagre. Ela toda ela riu na medida que eu esperava, fugiu quando eu a queria perto, olhos vivos e brilhantes, o cabelo escorregando pela cara simpática e faceira, o rosto minado de sardas sardas, os detalhes ajustados para a minha mão. Eu ela a olhei fascinado. Procurava cultuava a natureza na região indígena Kararaô, imediações de Altamira. Seus olhos verdes suas duas esmeraldas enigmáticas impenetráveis, e não deu muito para fixar olhando olhos assim. Aí, certo dia, depois de um tempo, fomos estudar no mesmo colégio na mesma sala na mesma série no mesmo horário perto as duas carteiras. A minha responsabilidade e a dela eram muito grandes. Surpresa que era sim ela mesma, solteira, discreta, abraçada aos livros e cadernos, marca de calcinha na calça comprida, a perfeita malícia de guria que eu me iluminava.

       O sol nascia dos olhos olhos, os inhambus-chintãs correndo piando no campo a caraúna-de-cara-branca voando cabeça-seca amerissando cavalo zaino pinhão taturana comendo folha de cunambi, oitocentos de distância num dia útil. Em termos amazônicos, o rio Tarauacá nasce é caminho de água e deságua no mar.

Infinito um o surpreende qualquer.   

       Bem na hora o dia claro o sol apareceu aconteceu isso. O sol trisavô do sol bisavô do sol avô do sol pai do sol. Saguiguaçus chegaram pularam em algazarra espertos riram gritaram guincharam brincaram xingaram e esfomeados araçás, cajuís, muricis, pitombas. Disseram de boca cheia pra fora:

       - Ainda é bem melhor que conhecer a poeira cinzenta da lua...      

       Ela toda engraçada, não queria que tocassem seu cabelo pois era lustroso e eu não tocava. Um cabelo ondulado e até o meio das costas. Morava em Canas serra de Santo Antônio das partes do Brasil. Pernas longas, óculos escuros tipo vidraça no alto da testa como tiara, mãos de unhas curtas, leve e elegante e sutil, sacola a tiracolo com desenhos dos índios ipoteuate e de franjas ou babados ou rendas.

       O tempo contava contas de miçangas. E um belo dia mais dia menos dia nos arredores de Monte Belo do Sul um dia replicante os saguiguaçus subiram num galho de ipê-vacariano e perguntaram:

       - Que frutas da semana teretetemos por hoje?

       Se entreolharam por entre as folhas esgalhos e um deles atiçou:

       - É melhor caminhar e procurar por rastos em o chão de Marte, uma vez!

       Como se tivéssemos sido feitos um para o outro eu e ela nesse e noutro futuro. E nada iria interferir desacreditar esquecer separar. Eu nos amávamos. Estávamos nós sorrindo. Ela cantava umas canções que diziam pro vento afastar o sol a lua a chuva o deserto o etc. Sentíamos os olhares, os interesses convergentes, os círculos centrípetos, os encontros e reencontros sem planejamentos, das coincidências até as confidências e interferências. E gostávamos do meu cheiro e do cheiro dela e de trocar palavras ensinadas pelos índios matipu. Pois era a pura verdade e eu só tinha que agradecer acreditar orar agradecido. E eu nascera acreditando nela por ela por mim. Que sempre apreciava cultuava a natureza no arquipélago de Mariuá. Gostava de ler os livros que eu lhe recomendava, e me pedia tanto para parar de beber que consegui. Minha cidade preferida era Lorena e a dela até nisso concordávamos era Corupá. Até aí tudo como um sonho interestelar. Olhos de coração estelar e verdes.

       Uma noite num bar em Itamonte, praça Dom Feliciano, o tempo que leva e traz, eu e nós dois na mesa do bar tomando cervejas e nos tocávamos teclados com a ponta dos dedos. Beijos úmidos e quentes. Abraços com efusão. E as conversas nos olhos nós olhando cara a cara:

       - Já conhece a praia do Mar Grande?

       - Mas conheço Monte Santo, São João do Meriti, Santiago, São Domingos do Sul.

       - Cristal do Sul, Tabatinga.

       - Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho do Ouro, Estrada Real.

       - Me dirigir ao sol me dirijo ao sol.

       - Assim, automaticamente, ah ah ah!...

       Cabelos replicantes entre os loiros e os morenos. Sempre me conseguia o que queria. Dois cotovelos na mesa me olhando com profundidade as mãos segurando o rosto. Um cotovelo na mesa com a mão no rosto segurando o queixo olho mais fechado por causa da fumaça a outra mão com dois dedos no cigarro e três dedos no copo de cerveja clara. Lábios doces e sorrisos um pouco finos molhados de cerveja clara.

       - Gosto muito do livro e me abraço com ele calor intimidade amizade. É uma suavidade uma linguagem andando na história contada na lenda talvez até no mito. As palavras desaparecem escolhidas ocultismo. Descrições de terramarear e mesmo surreais. As figuras dançando na mente como as ilustrações de pintura naif. O autor caminhando como quem escreve como quem conta como quem lê como quem fala para a tribo na beira do fogo. Degusto poupando devagar o livro, consumindo a história como uma promessa uma certeza uma sobremesa. Fico embutida engastada na narrativa. Pois não sei o que será de mim remorso quando o terminar, me sabe bem, quindim, sagu com musse de chocolate e bolachas maria, açaí com mel e amendoim, água de coco, sorvete de pitangas, torta de chocolate.

       - Eu já acho que a história vai além do quadro. É o que imagino, é o que espero. O quadro na parede, entende?, e além do quadro como seria? A paisagem não termina aí.

       - Como uma continuidade fora da moldura.

       - Exatamente. Mas uma continuidade que é uma continuidade ou extensão do próprio autor da própria história e que o narrador deixou de fora. Não é minha invenção, é mistério do próprio narrador, é recorte do narrador e eu vejo isso, entende?

       - É, e depois, tem sempre a possibilidade de encontrar um disco voador e alienígenas com um exemplar de cada coisa no bolso, o céu azul, parque do Jaú, algumas palavras dos índios kanamari chinen (vento) uchu-u (lua) tam-num (sol) tuxaua (chefe) tinga (branco) afo-ô (céu) chu-ô (chuva) marinauá (líder), aleia de coqueiros-dicori, ariranhas pegando sol no tronco encalhado, mutuns-favas piando no mato, arapaçus-verdes conversando, alarido de pitiguaris, bigornas de arapongas.

       - Em Alexânia, em Itanhandu?

       - E todo mundo que nascera com ele já estava morto. O barulho de conversa das palmas carnaúbas com o vento. E ele estava ainda vivo no laço do começo com o fim do mundo.

       - Profissão de fé, missão, sacerdócio, projeto de vida.

       - Andar pelas casas e ruas e praças e rios de Uarini, Fonte Boa, Maraã, Tefé é experiência indescritível. E há outras cidades que são curiosas.

       Durante sempre ela seus olhos me aprofundavam para dentro dos meus. Hoje imagino isso, mas naquela hora nem me passava pela cabeça. Sábado, sábado à tarde, domingo dia todo em Itapé. Mais tarde me perguntou se aproximando da minha cara enchendo a tela espuminha de cerveja clara no lábio superior:

       - Veja lá olha lá se você me ama?

       Antes dessa pergunta dessa resposta ela me confidenciou que um colega nosso da mesma faculdade tinha se declarado e até chorara pedindo com muito respeito e cuidado e de joelhos que se casasse com ele, etc. Achei tudo um assunto muito abichornante um fiasco um vexame um enjoo, para ser sincero. Eu queria outra coisa. Comecei a desgostar completamente do mundo dos seres vaidosos dos bípedes pensantes dos androides ululantes. Isso acabou com meu estilo, compreende? Comecei a desamar a perder a derreter ali mesmo. E as bocas desconectadas dos respectivos cérebros. Por que ir de avião até Três Corações, por que saber do rio Acuriá, por que conhecer a serra de São José? Comecei e terminei reparando que ela sentava a cavalo na cadeira, tinha brincos de odalisca, patuás de fitinhas multicores alternadas no pulso no tornozelo, tatuagens de inscrições chinesas atrás do pescoço, correntinha de ouro sagrada com o camafeu naufragando em a covinha dos seios, palitava os dentes na mesa, mania de passar os cabelos para trás das orelhas, lábios pintados de café, sombra nos olhos para afetar olhar fatal.

       E depois, depois da pergunta à queima-roupa eu não pude mais, e desacelerei, mas disse, já muito sem apetite, sem graça, com fome de comida, com necessidade de água que passarinho bebe e vontade de dormir dormir, eu falei:

       - Vou até ali no banheiro e te respondo na volta, pode ser?

       - Sim, claro, oquei, perfeitamente!

       Fui como pensando voltei nem falei mais no assunto ela também não e as duas horas de pingue-pongue. Cervejas e batatas fritas com queijo ralado estava tudo normal satisfatório comum, tanto que ainda me lembro lembro.

       Acolá esse para grande é cá país lá.

       O sol apareceu em silêncio, os pássaros na algazarra pula-pula risadinha joão-barbudo tecelão tiê-preto pichororé marreca-caneleira, as árvores esfomeadas, as gentes espiando com o rabo dos olhos. A cutia correu desapareceu se infiltrou na camuflagem. O rio parou para ver a imagem da índia catuena refletida. O que fazer em Vinhedo? O que ver em Conceição do Mato Dentro? O que esperar descobrir peripatus acacioi em Tripuí. O povo de Ouro Branco está certo de que os sacis existem. Os óvnis aparecem em dias de noites estreladas.

       Por que aí paramos naquele enleio de eu e ela e nós dois. Que é realmente o meio da estrada paralela. Ela gostava de música em geral e eu de literatura espacial.

       - Você conhece o Kama Sutra?

       - Eu já pratiquei e entendo e recomendo em todas as direções e posições e etc.

       O santo do dia, vem santo vai santa, os santos do dia, São Frei Galvão. Sempre assim o mesmo rio, praticamente. O sol partiu da serra de Quebra-Cangalha rumo do palácio majestoso na Pedra Redonda nascente do rio Jequitinhonha. As guaraiúvas contavam dinheiro abanavam ao vento. Voavam perfeitos insetos aerodinâmicos em todas as frequências.

Na é curiosidade a outra e rua.

       Os seios pequenos nem me importava. Nem mesmo a cicatriz no supercílio direito. Disse que foi um trauma de infância descendo um pé de jabuticabas. Ela cultuava a natureza a serra do Espinhaço a montanha do Itaguaré o rio Canumã. Procurávamos um equilíbrio emocional. Rosto afogueado, língua entre os dentes como jabuti-aperema como tamanduá-bandeira como macaco-de-cheiro como bate-pará com muito calor o olhar de cachorrinha amorosa ou sonolenta invertebrada miração o corpo nós dois estava pegajoso lânguida lânguida ponta dos cabelos molhados volúpia nós nos furiosamente durante os fins de semana.

       - O que você está pensando? O que você me diz disso?

       O sol acordou do tal e qual sono reparador. Vinha de lá com certeza um céu escorregadio. Muitas cidades no roteiro e aldeias, marabitana oiampi baré marimã, serra de São Francisco, palácio São Cristóvão na Quinta da Boa Vista e outros passeios roteiros currículos culinárias. E verticalizou subindo como balão inflável infalível inflamável. Sem consultar a minha vontade a minha astrologia a minha tecnologia e o que foi que eu disse e repito:

       - Não lhe dou essa ousadia!

       Deus respondeu, fingiu não me ver nem me ouvir respondeu pelo sol trovoou ali sem nuvens com aviões comerciais discos voadores pôr do sol andorinhas parque Tenente Siqueira Campos o instante de muita luz cores mar e ele o sol muitos carros carros, tonitruou:

       - Minha hipótese que chove antes das 17h.

       E seu o meu rosto de Deus tinha um ar de lua nova e o cabelo branco desbandeirado as mãos de maestro em estrelas cadentes.

       - Por que nem sou consultado nem o escolhido? - inquiri.

       - Bem, trabalhei dez anos na Ilha de Itamaracá departamento da minha inteira alto astral alçada - completou.

       Acreditei achei tudo incrível opinião invisível fantasma fantástico espiritual e dei por encerrada a minha participação.  

Me perdemos de vista nós eu e ela quando as aulas acabaram acabaram. Ouvi dizer que fumou muito numa festa de formatura ali em Capanema. Ouvi dizer que a mãe queria voltar para Gameleira. Ouvi dizer que foi disputar concursos nos lugares em São José do Mipibu e Itambaracá e Jaguaribe.

Minto, pois teve um dia que nos reencontramos na cantina da faculdade ela vindo do nada nos abraçamos quase jogou meus óculos fora cabelo liso com tradicional penteado funcional conversamos rimos me convidou convidava a turma toda para um reencontro os antigos colegas rosto muito maquilado o seu aniversário na pizzaria Timbó. E nunca mais nos vimos, nos abraçamos muito na despedida me beijou nos cantos da boca elogiou meus olhos queria conhecer a predileta Caxambu eu queria ela e ir com ela mas ela não me convenceu.

O sol virou árvore ali pelas 11 horas e foi para os lados de Votuporanga, pedra da Marcela. O buriti com outros buritis, bacabas, jarinas, ipês-do-cerrado, umaris, bacuris, guarabus-amarelos, taperabás. Isso acontece com muita gente: o guaraxaim foi até a beira do rio Preto parou ali no alto do barranco farejando o ar.

Deus olhou para baixo uma vez na vida, isso já pode se repetir, e disse:

- Este mundo tão cheio, estudar o quê?

Dia como de hoje, o sol andando na sala de um lado para outro e o pensamento seguindo o pensamento, a rua do Pirajá, casas e loja de brinquedos, assim me lembro que Deus disse pra mim que ia me ajudar lá do seu jeito, cavalo fouveiro, dona e cachorro tipo fila no poste, automóveis bombando músicas gargalhadas namoradas terremotos, árvores antigas enfeitadas de lâmpadas de natal, elefante disfarçado de pupunha-marajá nunca se parece com árvore, um deserto é um monte de mar jogado fora.

E agora eu digo que ouvi me dizer modo de me dizer que casara teve um filho trabalhara não sei o que não sei onde ofício e profissão e se divorciou e casou segunda vez com um francês de cabelos e barbas vermelhas que fala francês turco português que conheceu na cachoeira das Andorinhas serra do Papagaio e foram morar estabelecer em Magda interior do Canadá.