Tem o poema na praça do Pantheon. E
o poema sobe os degraus para ver mais longe melhor e ser visto. E olha o futuro
o horizonte o sol a sacada do apartamento no guarda-corpo a cunhantã Juçara
Camacã debruçada.
O poema estende o braço e encanta
com seu forte apelo pictórico:
- Tem guria que nasce com o vento
nos cabelos. As ramagens da imbirapatanga batidas de vento. As penas da
siricoia arrepiadas do vento. As águas do Siriji encrespadas de vento.
Eu já quis ser tudo nesta oculta estada passageira. Quis
ser piloto de caça em voos rasantes barulhentos a jato no parque de Itacolomi e
Bom Jesus da Lapa e Canguçu e Angicos, cantor de baladas e forrós e baiões e
modões e vanerões, representante viajante em todos os quadrantes cardeais deste
e outros rincões. E acima de tudo um gavião-tesoura encontrado em todo Brasil
pra olhar a serra do Baitaca no último andar do mais alto dos umbuzeiros e
mergulhar. Hoje em dia eu era pra ser poeta. Mas desde anteontem fui percebendo
que poeta vive mareado, e bem magoado, e não papa-capim ninguém. Quero cometer
meus pecados antes de sair desta para uma bem melhor.
E o poema, cabelo cortado pra frente, diz que só
existe a lua as estrelas os beija-flores-de-costas-violeta a guria que passa e
passa. A guria que passa e... nem te olho! A guria que passa e olha e sorri e
fala com voz arrastada quase com sotaque.
Atenção senhores e senhoras passageiros! para os
procedimentos de pouso autorizado dentro de alguns instantes. Dia ensolarado
temperatura elevada agradecemos a preferência e tenham todos um dia agradável
até logo.
Sou eu mesmo que invento que gosto muito de estudar em
Joanópolis e pesquisar os rios os montes as cavernas a Garganta do Embaú.
Assim, sempre viajo de barco acompanhando o rio aportando nas cidades na
metrópole na megalópole. Me formarei graduarei em 20 de maio 12 horas 2021 o ano.
O poema está sempre bonzinho e pode
melhorar. O rio continua desconversando com as pedras. Na delícia na delícia igarité
desce levemente a correnteza. Rio Mundaú buscando o mar do seu jeito. Na beira
de Pindaré-Mirim e desde logo a praia do Rosa. O sol conversa com as cores. Avenida
Antônio Dias acompanhada de calçadão e árvores em fila indiana e
erva-cidreira-do-mato e pindobeira e sapucaia-branca e canudo-de-pito...
Automóveis pelas ruas alucinados. O Mucura faz seus exercícios nas barras
paralelas. A moça Itaverava acompanha sua mascote a gatinha Puçá para um
passeio desintoxicante e relaxante. Na areia fofa o Sururu corre de pés no chão.
Seu Ipojuca a cara o focinho tudo idêntico e comparável ao seu 5º avô o marquês
do Recife. As irmãs Pirapora lagarteiam na areia escaldante. O Carimã vigia
segura guarda a portaria do grandioso hotel Itacaré. A dona Coivara bandana no
cabelo vende tucanaçu e nambu e jacu e bico-grosso e araquã num quiosque de
artesanato bem concorrido.
O poema nem só de palavras como os
pássaros voa como a tarde voa como o rio voa perto da menina voa. O poema ergue
os braços para atingir o azul agitar os ventos atiçar o fonema:
- Nesse dia de sol eu estava
descansando os pés na água a correnteza do rio Gualaxo do Norte tributário do
rio Doce as pedras bonitas e familiares as árvores de novembro a março.
E como poderia virar em poeta ou
filósofo se não nasci à beira de uma estrada de ferro? Principalmente não nasci
na rua Direita/Conde de Bobadela a mais bonita a rua em que nasceu Marília,
Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Não nasci em Camaragibe em São José do
Ribamar em Paulo Afonso em Russas em Arenópolis. Nem aprendi a nadar no rio
Nilana. Não fico olhando a noite longe as estrelas nem sei o nome delas e suas
famílias e parentes. Nem nasci para fazer rapel no abismo Anhumas em Bonito. Não
creio em meninas de voz aveludada que se disfarçam de iaras de etês de
martintas-pereiras. Nem curto museus nem cavernas nem sítios das
preguiças-terrícolas. As minhas saudades são serenas e nem matam nem sufocam. E
acho o fim do mundo data arredondada a maior bobagem que já proclamaram.
Que o poema abraça o mundo todo todos já sabem. E
surpresa o rio Sirinhaém corre até a árvore ingá-doce milagre a fruta corre até
a guria descoberta o vento corre até as nuvens. E o poema nem sai do lugar. E o
poema precisamente ser garimpado.
O poema olha a palma da mão e destrata:
- Ando estrada alagada caminho
alagado água cachoeira barragem hidroelétrica de rio solto o Una.
Já quis ser de tudo em pouco tempo
ainda com esta honesta passagem. Eu quis ser jogador de futebol e jogar na
Seleção e no Inter, navegar de gaiola os rios caudalosos da Amazônia, morar em
Belém pelo menos dois ou três anos depois São Luís e Mulungu do Morro e Tocos
do Moji e Silveiras e parque indígena do Xingu e ilha Urucuri. Hoje em dia eu era
pra ser filósofo. Mas para ver filosofias tinha que pensar grego latim
sânscrito mandarim. Queria ser pensador só para morar num mosteiro antigo sem
passar fome ou frio no alto de um rochedo isolado isso mesmo o parque
arqueológico Morro da Queimada.
O poema lá vem vindo as nuvens
calmas e algumas os pássaros e aves e as graúnas as asas-brancas as arapongas os
chincoãs-pequenos as acauãs. O poema gosta muito da cidade natal Córrego do Bom
Jesus e prefere andar a pé e contar as ladeiras e tocar as tipuanas as
maniçobas-do-remanso as mungubeiras.
Pra confessar nem me iludo com essas
milhares milhagens que dizem fatais de olhos verdes ou no mínimo azuis. Elas
podem iludir a tantos, a mim jamais. Não as encaro, não as olho nos olhos.
Nunca as amaria eternamente. Elas passam como eu passo. A história conta e se
modifica, um conto aumenta um porto.
O poema concorda e diz:
- Aproveite quando o tempo e desça
quanto o rio.
E Itabirito, conhecida no tempo
antigo como Itabira do Campo, foi elevada até a categoria de cidade em IX, VI,
MCMXXXV. Tem atualmente 33 mil habitantes e banhada pelo rio Persinunga e o
pastel de angu é patrimônio cultural com direito a uma festa na praça dos
Inconfidentes. O visitante nem pode deixar de pedir que lhe mostrem os antigos
santos-de-roca e também especialmente o Santo Antônio taumaturgo feito em pedra
tapanhoacanga todos quantos na capela do Padre Faria. Distante 45 quilômetros
de Rio Acima (o sítio do encanto) e 70 quilômetros de Nova Lima (onde a manhã é
sempre mais leve) e 114 quilômetros de São Lourenço da Mata (início do poeta
Carlos Pena Filho).
O poema percebe tudo que se move. Os
peixes brilham nadando no ar do ribeiro Tripuí, as ilhas são sempre feitas de
sol, as torres da catedral Sé de Olinda voam com asas nos calcanhares, a praia
branca do rio das Velhas, visita em cores panorâmica do caminho indígena do
Itupava. O poema quer morar um dia uma vez uma dádiva em São José do Egito.
Veja a previsão completa e a aventura que se pode
alcançar e assim deixe seu trabalho mais suave mais parecido mais Congonhas
mais Palmares mais Cocal de Telha mais rio Formoso mais praia do Paiva mais rua
Bispo Coutinho.
Tem o poema na praça Caquende. E
repara olhando os balanços as gangorras os escorregadores as casinhas de
criança passeia pelaí anota coisas no caderninho o andorinhão-de-coleira-falha
se banhando na terra do grotão os cães mascotes babando e as pessoas circulando
como se nada nada estivesse acontecendo. O poema nem descansa um só minuto e
faz surpresa espacial para a namorada no aniversário.
Concorda comigo o dito poema. O rio
sempre lava a roupa na cachoeira clara, as árvores verdes das moças de lábios
de frutas, o peixe perto do sol brilhante, o sabiá-da-mata reparte os ventos
nas asas.
O poema enfrenta o dia a dia paralelepipóide
labiríntico. Doces de abóbora pra quem gosta de açaí, sopro quente de vento
nordeste caindo a tarde, avião arrastando sombra no chão, árvores descabeladas
o caju-do-campo o espinho-de-santo-antônio o merecém a fava-de-bolota, famílias
linguísticas indígenas os caribe os aruaque os macrotupi os macrojê, a rua
longa Jaguaraba com outras transversais, a mina de carros e pedestres e ruídos
e sinais, a mulher que veio da cidade Chã Grande distante vender os grampos de
pressão alfinete.
Celebra o poema milagres à primeira vista luz da manhã
o arvoredo gorjeando sem parar ouro branco ouro preto ouro podre ouro fino sobrevoando
rio Jaguaribe e lagoa Ibiraquera voos de chegar e de sair aeroporto
internacional (Recife) Guararapes/Gilberto Freyre voos abertos para pouso e
decolagem. Coisas que os olhos teimam em olhar e descobrir novidades riquezas
milagres e capuxus e jaraquis e tesourões e cuícas-lanosas e jacurus. O distrito
de São Luiz Gonzaga ou seja São Lourenço das Missões nasceu de São Lourenço
Mártir.
E o poema pode tudo e ele mesmo já
se contradiz:
- Olhem! Que o céu tem praias de areias azuis.
Satisfeitíssimo o poema acompanha a guria que passa mais
seu bicho de estimação. E ela mesma nem economiza olhos para seu cachorrinho sem
guia. A guria tongalante para. O cachorrinho culepe para. A guria prossegue e o
cãozinho continua e nem dão bola pra ninguém.
Quando o poema olha mais um pouco e seca. A guria anda
e o cãozinho acompanha. A guria entra na loja Bodoquena o cãozinho aguarda fora
e observa. A guria chega de volta com sanduíche Bauru. E sai andando, e vai
saltitando atrás. O cachorrinho late e pula espetacularmente. A guria reparte o
Bauru.
Nunca por mais que tento e tento não
consigo, e levar uma sorte de contemplativo. E isso é essencial para um poeta ou
filósofo. E os sonhadores se contentam com pouco, um mato de oitizeiros e
mutambas e bicuíbas-brancas e chapéus-de-sol, uma canoa abandonada na paisagem
surreal, uma ecologia de água cristalina de rio Jauaperi, descansar do sol
forte na capela de São Gonçalo do Amarante, etc., coisas simples que explicam,
segundo eles, o mistério de D e arredores. Quando acreditam. Quando querem
acreditar. E acho a origem anfíbia a maior bobagem que já atocharam.
O poema fala de pedras com as
árvores com as juremas-da-pedra com a ilha do Maroto com as abelhamirins:
- Estou passando e olho o mato o
caminho a trilha no meio do mato agora mesmo vejo o barranco desbarrancar e a
árvore antiga atingida pitanga-traíra cair de madura.
O poema nunca desaparece. O calor
das árvores com amarelos azuis verdes brancos. E aparecem coisas as árvores as
aves o rio as plantações de milho as uruçus os japins os ferreiros os
galos-de-campina-do-oeste, e os caramurus os chimangos os jurujubas.
Escuta o poema com viola pífaro
rabeca berimbau zabumba sanfona pandeiro ganzá. Com orquestra no teatro de
cortina e acústica e pintura de cenário. Com palavras gestos e artimanhas. Poema
com unhas e dentes e presas. Poema aberto estendido espalmado cruz oriental os
braços os pés a inscrição (inri) abraços aconchegantes tranquilos certos para a
lua a rua a menina lilás.
Tem o poema na praça do Arsenal da
Marinha e o Paço do Frevo. A chuva nasce no mar, o vento nasce no mar, o barco
a vela nasce no mar, a praia da Ponta da Areia nasce no mar. O poema bate
rebate os pés do martelo-agalopado do coco do quadrão do mourão. O poema e as
namoradas por onde passou rapidamente e serra do Brigadeiro e morro do
Anhangava e Aliança e Paranaiguara e São José do Inhacorá e puramente
simplesmente esquecidas.
O poema nem é mágico nem tolo nem
bêbado nem mentiroso. O poema nem é tudo e nem coisa nenhuma. E o procura
palavras novas nos rios nos vales nas cidades nas árvores nos pássaros que
passam passarinhos pitiguaris e japuaçus e tico-ticos-do-biri e guriatãs.
E no térreo das contas ser poeta ou
filósofo é o fim da picada não é ser gente nem ser alguém nem ser ninguém. O nem
é conhecido. O poeta é uma estátua. E olha a montanha o longe a serra de
Jabitacá. Não deixa seguidores de suicídio e termina onde começou. O poeta já
passou a ponte do Calixto? E confessa a ideia macaca a maior bobagem já
desinformada.
Cedo cedo o poema macrobiótico já se
encontra caminhante na rua Augusto dos Anjos pela cidade Morro Grande e seu
labirinto. E conta árvores e ouve pássaros e encontra cachorros passeando com
seus donos e bom-dia! pela parte da manhã. Todas as ruas dignas de atenção.
O poema para tudo que veio fazer e
diz que diz:
- Quem quiser participar da procissão
da campanha da marcha pela paz pode levar seu próprio lanche. Numa poética desde
os antigos. Num cenário digno de pintura.