A escola o colégio é o primeiro
lugar que todos inventam para reunir e correr, gritar, cair, levantar, jogar, desenhar,
juntar, rir, nem parar de rir, gargalhar...
Pois a menina Lilás, 10 mil-réis em primaveras, aproveitou
a passagem das aulas de História do B pelo palácio (localizado no paço Imperial
de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro - na época de Pedro Príncipe
Regente) e caiu no tempo no espaço.
Chegou ao paço real bem cedo pela manhã, andorinhas
circulando no aéreo, araçazal curtindo a paisagem, subiu as escadarias do casarão
e foi barrada na porta por um dragão uniformizado armado de espada na cintura e
espingarda nas mãos.
- Alto lá! Alto ali! Alto aqui! Quem
é você, quem pensa que é, que quer afinal?
- Me desculpe chegar assim mas...
queria dar um lero-lero com o príncipe Pedro. Ele tá aí ou acolá?
- O príncipe Pedro Regente nem
poderá lhe atender - retrucou o responsável e perfiladíssimo dragão.
- Que que há, meu! O príncipe tá com
a agenda lotada, é isso?
- Pode-se dizer que sim. E tenha um
bom dia!
- “Pode-se dizer que sim”, nem é
resposta, ouviu?!
- Terá que marcar hora, dona
rapariguinha!
- Pois marco pra agora, tá limpo?!
- Agora já é tarde e nem será
possível...
Neste instante algumas pessoas
vinham descendo os degraus da escada do palácio, e conversando, sendo que uma
delas era o príncipe Pedro. Chegaram perto onde Lilás se encontrava e pararam.
Intrigado com aquela menina estranha, menina lilás, Pedro Príncipe Regente perguntou
ao soldado dragão:
- Alferes Juquiá! Quem é essa
rapariga e o que faz aqui?
- Estou tentando descobrir, seu Pedro
Regente. Ela só faz insistir em lhe falar.
- Fale, rapariguinha - autorizou o PPR.
A menina parou na frente do príncipe
Pedro, olhou para cima, sorriu, desenrolou o currículo a biografia o carretel a
língua:
- Me chamo Lilás e gostaria de sair
por aí com o senhor, fazer aventuras pelo Brasil. Eu sei que o senhor vai
viajar e então pensei em lhe acompanhar. Posso? Gostaria muito. Obrigada!
- A excursão a expedição é muito
perigosa, cansativa, longa... - dizia o príncipe. Acho que nem é aconselhável
para uma miudinha. Sinceramente...
- Mas eu prometo nem atrapalhar,
viu, seu príncipe. Sabe, eu acho o senhor o maior barato, sempre quis lhe
conhecer, leio tudo sobre sua distinta nobreza...
- Nem costumo levar mulheres em
campanhas de aventuras, e uma menina ficaria extremamente problemático. E nem
vejo necessidade...
- Ah, deixa, vai! - insistiu Lilás.
Eu gosto tanto do senhor, sempre achei o senhor muito do lindo. Gostaria de lhe
acompanhar... Quero muito conhecer o país todo...
- Está bem, está bem, miudinha. Você
venceu. Você cuidará do meu cão, o Xuri. Assim terá uma função.
- Valeu! Valeu mesmo! Obrigada pela
chance. Deixa dar um beijo, tepe!... E três pra casar, tepe! tepe! tepe!...
Chegando ao pátio do formidável palácio,
Pedro Príncipe Regente vistoriou pessoalmente os participantes da caravana. Cumprimentou
todos os dragões da guarda, pediu para que verificassem as armas, a munição, os
cavalos, a tropa de burros cargueiros, os mantimentos, tralhas, trecos e
tarecos, etc., várias coisas e detalhes. Lilás por sua vez procurou fazer
amizade com seu novo companheiro, o jaguara Xuri - descendente legítimo de
cachorro-do-mato-vinagre.
Depois de se despedirem dos familiares e “boa sorte” e
“boa-fé” e “boa-vai-ela” e “fiquem com D”, a comitiva partiu. Emendando ruas, rua
Sete Lagoas, cada qual montado no seu cavalo ou muar, rua Duarte Coelho, sempre
tentando ir pela sombra das iricuranas e capebas-cheirosas, rodeando a praça
Apolinário Rebelo, pelas ladeiras, rua Marquês de Monte Alegre, quase saindo da
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, costeando o recôncavo da Guanabara, rua
Barão de Teresópolis, rua Saint Roman, cruzando a pequena ponte de pedra do rio
Tapira, estrada de Saquarema rumo do sertão, vila travessão Lagoa Bela em
Flores da Cunha e várias outras atrações turísticas... A caravana recebia do
povo os cumprimentos vivas aplausos bimbalhar de sinos espocar de foguetes
recomendações de felicidades “voltem em breve” e “até a vista”.
- O senhor é bem recomendado pelo
povo, príncipe Pedro. Isso é sério.
- Apesar de ser português, eu amo esta
terra e tenho muita afeição por esta gente. Espero nunca deixar de corresponder
a este carinho.
- Pois é. O reconhecimento do povo é
a melhor coisa que se pode ter.
- Agora você, rapariguinha Lilás, nem
me decepcione, hein?! Quero que se comporte. Vamos passar por muitas e boas. A
excursão será demorada, sol, chuva, cansaço, fome, poeira, estradão, dor de
cabeça... Terá que aguentar o repuxe. Quase nada!
- Prometo, seu príncipe.
- Você mora no Rio de Janeiro?
- Não, sou do Rio Grande do Sul,
conhece?
- Ainda não, mas pretendo. Me
aguardem.
- Sabe, tô realizando um sonho. Me
tornei sua fã desde o primeiro dia que ouvi falar do senhor, que li e reli
sobre sua pessoa. O senhor tá na História do B com H maiúsculo.
- Obrigado pelo carinho. Outra
coisa. Quero que cuide bem do Xuri. Ele é um ótimo companheiro, de muita
utilidade, de muita fidelidade. Ás vezes um pouco mais da conta de chalaceador,
festeiro, malandro, mas sempre uma boa alma. E já me salvou várias vezes de
perigos, bote de urutu-estrela, ataque de onça-parda, mordida de caimão, emboscada
de assaltantes criminosos, tocaia de arruaceiros...
- Pode ficar tranquilo, tchê! Nós já
estamos amigos. Ele Xuri me cheirou, lambeu minha mão, riu se sacudindo todo,
etc., falou muito na língua lá dele... entendi tudo e aprovei a sinceridade.
- É, Xuri é um bom janauí, muito
sociável, principalmente quando fareja boa gente.
- Uma coisa, seu príncipe. Estamos
indo pra que lado, pra que parte, norte sul leste oeste, exatamente?
- Vamos subir o litoral pela
província do Espírito Santo até chegar à Bahia. Esta será nossa primeira etapa
da excursão. Da Bahia retornaremos fazendo uma volta por Minas Gerais e São
Paulo. Ficaremos fora, excursionando, talvez um ano, um ano e alguns meses.
Muito tempo. Muito sertão. Muito chão interior. Muito B de brasis. Muito bem.
- O príncipe nunca antes viajou por
estas bandas e campos e chapadões afora?
- Não, por isso quero fazê-lo. Meu
pai Dom João VI me incumbiu de cuidar e lutar por esta terra. E para tal tenho
bem que conhecer o povo os povoados. Conhecer os nossos rincões querências
pagos e cafundós.
- Tá certo. Por isso que todos lhe
adoram.
- Espero nem decepcionar, já disse e
repito. Espero estar à altura dos desejos desta gente toda. Quem sabe um dia...
- Vai dar tudo certo.
- É, mas tenho inimigos poderosos,
minha rapariguinha. Só eu sei como são terríveis e ridículos e esquisitos.
- Um pouco de perigo faz bem,
circula uma adrenalina.
- Ah ah ah!... miudinha miudinha... -
riu a bandeiras despregadas Pedro Príncipe Regente.
O vento cheirava os verdes das
ótimas plantas à beira do caminho, etc., cipós-do-reino,
alamandas-de-flor-grande, tanchagens-rabos-de-rato, canelas-do-brejo... O vento
era o próprio evento, quando queria. Nada como uma brisa para amaciar os
cabelos! E umas nuvens que vinham do mar enfeitadas tipo jangadas com vela
vermelha... construídas artesanalmente.
Comunidade de Cantagalo, praia da
Barrinha, e para aquele lado contrário do oceano Atlântico a serra da
Mantiqueira. Mas, muito mais do que tudo isso: rio Itabapoana, Aiuruoca, Valença,
Guaratinguetá, tribo dos autóctones os barururu...
A menina ia olhando e reolhando e
revirando a paisagem do dia ambiente. Era uma manhã início de dia todo, uma
manhã que até ria e sem querer. Muita coisa na paisagem, muitos assobios,
gavião-bombachinha, saíras-ferrugens, verões, mutuns-de-fava,
narcejas-de-bico-torto... Olhos grandes para a paisagem, quase olhos grandes de
susto, quase assombrados, atônitos, esbugalhados.
- Que dia!...
- Quase nada!
Se fosse que chovesse já seria bom e
mágico. Chuva para deixar vazar o rio Candiota. Um grupo de árvores arbustos
plantas embiruçus, hortelãs-do-campo, ervas-de-saracura, anileiras... A
cachoeira do Caldeirão, o parque serra do Papagaio. Guanumbis aos bandos aos
pares aos voos apreciando o néctar das flores de taboca-gigante. Abelhas jataís
insetos polinífagos pois que se alimentam de pólen das diversas flores à
disposição existentes selvagens cores para escolher.
O sol caiu de maduro na fresta da
noite. A seguir a escuridão vestiu pala fechado e jogou uma moeda de prata para
o alto. A lua veio mostrar seu transparente vestido de luar. Uma
rasga-mortalha, ave das noturnas, estendeu as asas e saiu caçar mariposas. As
estrelas, sim, que eram felizes! Os vaga-lumes até se manifestaram:
- Aí, sim!
- O que que se passa?
O problema principal da caravana
seria sem dúvida o cansaço devido às penosas longas distâncias caminhadas
cavalgadas, dias e dias, assim por diante. Mas por onde a excursão passava,
Nova Glória, São João do Rio do Peixe, Araçuaí, Mercês, Paiva, território da
tribo canamari... o príncipe regente era recebido com surpresa, estardalhaço,
alegria, festa e jantares. Ali podiam refazer as energias, trocar os cavalos,
adquirir mantimentos, curar os calos e as feridas, repousar uns dias em cama
boa e fofa. O povo reconhecia no seu príncipe regente o líder, e queria que
também fosse o seu imperador ou seu rei. Viam nele o único que podia e tinha o
direito de mandar e desmandar e de ocupar o trono do B, etc.
Já se fora mundo adentro o mês de
maio desde que a excursão saíra do Rio de Janeiro. Assim, chegaram à ilha de
Vitória, Espírito Santo. Ali, nessa cidade acolhedora, foram recebidos
naturalmente com festas pelo povo. As ruas enfeitadas, as praças tumultuosas,
as janelas das casas festejando vivas, gente contente, multidão abanando,
cachorros latindo, fogos espocando. Tudo ao vivo ativo aberto. O povo exultava.
Entraram desfilando sempre pela rua principal Marechal Cândido Rondon, pisando
tapete de folhas verdes e flores coloridas...
Descansaram por cinco dias, hospedados no melhor
mosteiro da cidade, o mosteiro Zen Morro da Vargem. Nesse tempo, o príncipe
conheceu os maiorais do lugar, barões e baronesas mais viscondes e
viscondessas, foi padrinho de batismo de dezenas de crianças, inaugurou praça e
rua com seu nome. E foi conhecer a famosa e enorme estátua em homenagem ao
padre Cícero Romão Batista. Cada família que tinha a honra de recebê-lo em casa,
se esmerava nas culinárias quitutes quitandas acepipes manjares almoços
jantares frutas em calda, fazendo excelente festa com música dança sarau luau
tertúlia. As moças suspiravam por um simples olhar do jovem garboso Pedro
Príncipe Regente.
O guaipeca Xuri resmungou consigo mesmo, ganiu, murmurou
baixinho, decidiu, olhou para os lados, e se mandou para os becos da cidade. Escolheu
o bairro Irajá pegou pela rua Tiririca depois rua Barão de Itapacorá mais
adiante a praça Ibirité a rua Pirituba... Foi conhecer a noite da cidade
capixaba, etc. Foi andando e tradicionalmente farejando perseguindo os melhores
cheiros perfumes aromas. Quais odores fedores, e carniças? Chegou num beco, o
beco de nome Mouchão, deu de cara com botecos e biroscas e boliches e botequins
e baiúcas frequentados por desordeiros, fugitivos da cadeia, vadios,
traficantes, contrabandistas e bichos animais da pior espécie, etc. Escolheu
uma bodega de apelido Pararaca e entrou.
- So-mente vou entrar pra beber um cauim e já sair -
rosnou e prometeu para si mesmo o Xuri.
O ambiente estava pesado e recendia exalava principalmente
à fumaça dos cigarros feitos de palha de milho. Os frequentadores experimentavam
aguardentes cachaças pingas aquiquis. E jogavam muita conversa fora papo-furado
conversa-fiada anedotas piadinhas de humor macabro... O canil tinha péssima fama
e muitos cães e cadelas vira-latas. Outros bichos desocupados também rondavam
por aí, antas, capivaras, lobos-guarás, jacarés-açus, tuiuiús,
guiraguaçuberabas... Todos no trago e na algazarra sem que desse para ouvir
direito o que se dizia, o que diziam, etc. Quando de repente... de supetão...
- Ei, você aí, cão forasteiro!
Xuri, este um tal e qual cão da estirpe dos janauíra,
olhou pro lado olhou pra trás... era com ele a questão, é? Ah, é, é! Então, tá!
Se surpreendeu mas nem temeu nem tremeu:
- É comigo a questão, por um acaso? Qual é o pó de
arroz, oh, meu chapa?!
Aí, então, parece que o tal cão bebum chegou mais
perto e se apresentou:
- Tá sabendo com quem está se metendo, hein, mané?! Nem
tô te reconhecendo. Você é novo no pedaço? E qual é a tua? Quem é que te deixou
entrar?
Aí, os dois se encararam como dois cachorros loucos.
Prontos pra briga pro duelo. Parece que já se odiavam desde a descoberta do
Brasil. Sem se conhecerem, já queriam partir pra briga. E se encarando com
muita raiva ira e dentes de fora. Quem os dentes mais e maiores?
- Nem, nem sei o seu nome sua pessoa sua profissão e o
raio que o parta, tá ligado! - foi dizendo o Xuri, e bem na cara babosa do
outro. E também nem vim aqui para olhar para sua cara de cão faminto, tá ligado?!
Mas pra quê! O tal cão bebum, o tal aquele que ainda
nem se apresentara, ficou uma onça-pintada de bravo, ficou uma fera, um cão
danado. Ficou roxo e azul e vermelho e pegando fogo e... latiu babando do lado
da bocarra cheia de dentes caninos:
- Eu sou o cão Fanfa e mando e ordeno aqui nesta área
neste pedaço e tenho dito e feito, etc. Neste lugar do mundo, bem aqui onde ocê
está, quem manda sou eu mesmo, entendeu, tá pescando, seu rebelde?!
Vamos dizer que o ambiente ficou muito carregado e
elétrico e maníaco. Era uma coisa esquisita e perigosa. Era o mundo do
submundo. Dois cães se confrontando e tudo isso pra quê? Coisa importante? Sabe-se
lá!
Xuri ficou aguardando a primeira reação do tal e qual
Fanfa. A coisa parecia se encaminhar para uma luta corpo a corpo. Era pegar ou
morder ou agarrar. Os outros fregueses do bar Pararaca se encostaram na parede
já prevendo brigaiada, arruaça, desentendimento, desordem, corre-corre, cadeiras
voando, mesas quebradas, garrafas voando, copos quebrados, etc., barulheira,
algazarra, correria, estraladeira...
Por isso mesmo, o Xuri olhou para aquele cão chamado
Fanfa, o tal e qual dono do pedaço, o grandão dentuço, que mais?, e era
realmente um cão maluco e parecia até perigoso e feroz e carniceiro e etc. Olhou
o topete do oponente e rosnou da sua parte o seguinte elementar:
- Tudo mal e muito anormal - foi respondendo na lata,
bem na cara do tal Fanfa o corajoso aventureiro Xuri. Eu só acho seu bafo pra
lá de infeliz e fedorento, tá ligado! E mais uma coisa: você é um cachorro
bebum!
Mas pra quê! O negócio pegou fogo de verdade e ao vivo
e na hora h. Principalmente porque o ambiente de cachaça e fumo e fofoca já se
podia prever levava a esse tipo de comportamento, etc., inevitavelmente.
Xuri se preparou para reagir. E rolou mesmo uma
adrenalina baixa e negativa que resultou numa brigaiada que começou com Xuri e
Fanfa, pegou pelos partidários do Fanfa com os partidários do Xuri, e continuou
com todo o boteco e os que passavam pela porta do boteco, uns trape-zapes de
respeito, e outros curiosos ali da rua, etc., e foram parar na delegacia do
distrito Uitoto, travessa Francisco Leonardo Truda, etc. Muitos dos tais e
quais autuados em flagrante delito da ordem pública, etc.
No fim dos cinco dias os
aventureiros excursionistas pegaram a estrada novamente toda a comitiva, etc.,
com destino à Bahia. Estradas na verdade nem havia, andavam por trilhas ou
piques abertos pelos mateiros, pelos colonos do lugar, etc. Algumas coisas
agradáveis pelo caminho, banho de cascata na cachoeira da Indiana em o parque
da Pavuna. Olha lá ali!, as localidades Iguatu, Baturité, Quebrangulo, Lauro de
Freitas, Itaocara, reserva da tribo dos guerreiros maué... e pularam para a
outra margem do rio Ibicuí.
A estrada o caminho saía bem solto na frente e cheio
de manhãs e tardes e pássaros, japus, chororós-escuros, trinca-ferros, galinhos-da-serra,
tarãs... tudo como no paraíso, as árvores dos capões arvoredos, milhos-d’água,
vassourinhas, inhames-de-folha-roxa... copas com cores diferentes predominando
os muitos verdes, até mesmo alguns índios da tribo carabuiana negociando
mumbavos e aiós feitos de fibra de caroás trançados e os cestos pacarás. Em
troca pediam biguana (faca) machado para cortar lenha e fazer canoa ubá queriam
roupa para mosquito nem morder a pele ou para se aquecerem melhor durante a
noite chuvosa, etc.
Longos dias alguns dias de muito caminho e cavalgada.
Os lugares que ficavam para trás, vilas, cidades pequenas, Mato Verde,
Leopoldina, Sete Barras... a serra da Estrela... um mergulho refrescante bonito
na cachoeira do Mendanha. Muitos cambucizeiros floridos na paisagem,
floríferos. E outros lugares com nomes, Medina, Santa Cruz de Salinas, Novais,
Comercinho, Elisiário...
- Será que ainda chove, seu Pedro? - puxou conversa a
menina.
A caravana andando devagar e sempre. Os soldados
dragões da escolta enjoados de tanto pegar o calor do dia. Os cavalos olhando o
caminho, etc. Os burros carregados de mantimentos, etc. O caminho que
ziguezagueava no rumo do sertão e outros longes.
- Praqueles lados tá aparecendo umas nuvens
carregadas...
- Por mim pode chover que eu gosto de chuva.
- Faz parte e eu agradeço.
- E se chover aqui vai chover no mundo inteiro? -
questionou a menina.
- Olha, é bem possível e meus parabéns!
- Se chover eu vou beber e de língua de fora, tá
entendendo?
- Eu mesmo nem vou apear do cavalo, tá percebendo?
- Prefiro chuva gelada e com gosto de abacaxi.
- Tudo bem. Gosto nem se discute. É uma!
Longe disso, um mês e meio depois, muito estropiados,
entraram em Salvador e aos olhos da baía de Todos-os-Santos. A chegada da
caravana parou a vila o mar o mundo. Procuraram abrigo no quartel da cidade
alta. Em cada rua uma igreja do lado da igreja uma praça e assim por diante.
Era a cidade do Salvador e a ideia parecia boa. Se o mundo era redondo
caminhando sempre pra frente se chegava a algum lugar, era óbvio, óbvio
ululante.
- Se caminhar sempre em frente um dia vai chegar no
mesmo lugar, é! - disse o príncipe regente.
- Se andar depressa vai pisar nos próprios
calcanhares, pois não! - disse o Pedro.
Chegaram desfilando pela Visconde de Ipiabas avenida
principal central. Os cavalos e burros, totoque! totoque! totoque!... no
calçamento de pedras pé de moleque. A praça Manuel Balaio arborizada com pés de
piraguaias e canteiros geométricos de açafrões-do-campo, canas-de-macaco,
cravos-do-mato... Os habitantes apareceram nas janelas e outros chegaram mais
junto da calçada abanar vivar parabenizar os visitantes. O povo batia no peito.
A maioria queria olhar o príncipe bem de perto tocar na sua roupa na bota no
cavalo.
- É isso aí!
- Muito bem!
Xuri nem se importava com nada que nem fosse ele mesmo.
Era cão de aventuras e tudo mais que ele gostava de fazer e etc. Saiu do
aconchego do quartel, onde a comitiva do príncipe estava hospedada instalada no
bom e no melhor e no perfeito e no excelente, etc., e foi pelaí dar suas voltas
e reviravoltas e cambalhotas, treinar o faro, farejar encrenca, ruas, becos,
largos, quintais...
Desgarrou foi até um quiosque na rua Marechal Floriano
comprou por ninharia as tais e quais famosas fitinhas milagrosas da Bahia e foi
revender. Escolheu e foi direto para frente da igreja Nossa Senhora do Rosário
dos Pretos. Eram 14h mais 41minutos. E começou oferecendo aos turistas que
passavam sorridentes chapéus na cabeça bem a sua frente:
- Ei, gente azul! Comprem uma fitinha da Bahia e tenham
muita sorte a escolher, etc! Depois nem digam que nem avisei!
As pessoas os animais os insetos todo tipo de ser olhavam
a fitinha perguntavam o preço e quase sempre compravam. Era barato e bonito e
santificado. E o mundo parecia bacana olhando desse ponto de vista. Olhando a
paisagem. E os turistas eram festivos criativos alegóricos com chapéu na cabeça
e imaginação solta. E o dia ensolarado colaborava. Só quê...
- Oh!... Oh, carinha! Que tu tá fazendo aqui, oh,
carinha?!
Xuri olhou pros lados olhou para o alto para baixo olhou
a baía de mar bonito e nem achou que o caso fosse com ele mesmo. Ficou na dele.
Ficou preparado pra tudo. Só quê...
- Oh, meu chapinha! Tu tá ficando louco?! Sabe que
aqui é o meu pedaço, oh, carinha!
- Tá falando comigo, seu bobo mau? - respondeu brabo o
Xuri.
Mas aí então o tal se apresentou e veio bem perto, a
cara amarrada, a cara lá dele amassada de brava, a cara e o focinho de cão
brabo e feroz e etc. O outro, um cão de focinho curto, chegou bem perto. Os
dois cachorros frente a frente e babando:
- Vou ser franco com sua pessoa, oh, carinha de nada!
- rosnou o cão lebréu desconhecido. Aqui este pedaço de Bahia de Brasil etc é
meu lugar e meu negócio e ninguém tasca e te arranca enquanto estou falando,
entendeu?! É sério! Dá... o... fo-ra!! Dá... no... pi-ra!!...
Xuri olhou pra ele o tal e qual cão manda-chuva do
lugar do pedaço, cão deste tamanho e até mais, etc., e disse na lata na latinha
e latindo com fúria:
- O seu bafo é muito de onça-vermelha e olhe lá!
- Tu sabe com quem tá falando, seu capetinha de
vintém?!
- Nem conheço nem reconheço nenhum vintém, seu pinico
de hospital!
E os insultos começaram e tudo podia acontecer. O tal
cãozarrão cão-tinhoso ficou da cor do vermelho do roxo do azul do branco voltou
pro azul e assim por diante e vice-versa até explodir em rugidos latidos uivos
grunhidos rosnados e dentes à mostra. Vociferou e babando:
- Quem manda aqui na área sou eu! E este eu sou eu atende
pelo apelido de cão Barbatimão! Nunca ouviu meu nome Barbatimão ecoar por aí?! Nem
nunca ouviu falar do meu sobrenome?! Nunca cheirou farejou falar meu nome aos
quatro ventos?! E este lugar, que é meu desde que eu o preferi, ninguém tasca
ninguém aluga ninguém rouba ninguém vende sem a minha permissão autorização por
escrito, etc! Então é melhor dar o pira senão eu lhe corto as duas orelhas, seu
fedelho, seu filhote de papai, seu etc e tal!...
Assim olhando a tempestade se armando... a temperatura
aumentando... parecia que o mundo era muito pequeno e cheio de donos e donas.
Era horrível conviver assim. Era perigoso sair por aí. E nem nada natural e
saudável. Podia sair de casa e nem saber se ia voltar.
Dito o dito pelo nem dito, etc., o seu Barbatimão foi
pra cima do nosso Xuri e o nosso Xuri, que nem era de recuar pra nada, foi ao
encontro e deu no que deu... uma pechada, uma brigaiada de dar medo, uma topada
das grandes. Tipo assim, como é que chama mesmo dois cachorros na briga? E latiram
e grunhiram e se ameaçaram de orelhas em pé e cara a cara e dentes a dentes e
baba a baba, etc. Ninguém de fora chegava para apartar e dizer o tal e qual
“deixam disso, gente boa!” e “nem precisam brigar por nada!” e “vamos nos
abraçar e ficarmos igual irmãos!” e “cuidado a polícia, meus camarada”, e
outras coisas que se diz à toa e praxe nessas horas.
Se um deles tossisse primeiro... E então partiram em
desagravo se atracaram ferozmente como dois cães de guerra e tudo mais e conseguiram
até se atrapalhar de tão briguentos. Apareceram alguns macacos bugios alguns
lobos-guarás alguns mapinguaris para tentar segurar os malucos e nem
conseguiram. Moradores da rua jogaram umas pedras e paus e nem conseguiram
apartar os dois duelistas. Chamaram os home e os home da doze vieram chegaram levaram
os dois meliantes arruaceiros cachorros loucos para a delegacia para o xadrez do
bairro Capinauá, rua Alhandra, etc. E tinha mesmo que os tais e quais aranhados
briguentos precisavam ficar mofando no xilindró. Pra aprender.
Uns dias depois, uns dias mais ou
uns poucos dias menos, passado o cansaço e as primeiras recepções em casas de
amigos, Lilás e o príncipe regente compareceram à festa em honra de Iemanjá, a
rainha do mar, a deusa das águas.
- A namorada do mar, hein,
príncipe?!
- Parece ser uma deusa divina meio mulher
meio peixe e linda.
As escadarias lavadas da igreja, as ruas por onde a
santa ia passar, tudo tomado por um oceano de gente devota vestida como na
tribo dos negros ancestrais. Todos queriam ver, pedir graças, agradecer e
presentear a santa da miscigenação.
Naturalmente a procissão, depois de descer a escadaria
da igreja do Senhor do Bonfim, seguiu em busca do mar. Aquele ano com um
atrativo a mais: o intrépido Pedro Príncipe Regente.
- Quanta gente querendo tocar a
santa - se espantou o príncipe.
- É um povo muito religioso e
sonhador. Tem muita fé.
- Eu já tinha ouvido falar nesta
santa, santa Iemanjá. É Nossa Senhora.
- É sempre um motivo de sobra pro
baiano festar - disse a menina Lilás.
A procissão azul e branca continuou
e foi embora lenta, o Farol da Barra, cantando hinos de louvor à santa, subindo
ladeiras e descendo ladeiras, avenida Sete de Setembro, praça Castro Alves, rua
Visconde de Porto Seguro, rumo do Pelourinho. Muitas flores, muitos perfumes que
davam uns coloridos e uns cheiros maravilhosos ao movimento da fé. A santa no
seu andor vestida de todas as perfumarias aparecia no alto na frente carregada
por homens e mulheres devotos. Arrastando muito a multidão.
Desciam e subiam as ladeiras sem fim até a praia.
Muitas pessoas, o Mercado Público, vendedores de lembranças, rua Barão do Rio
Vermelho, senhoras de idade e em trajes típicos orientavam os que queriam se
aproximar. Findo o caminho por terra na praça Martins Pena, agora a santa
seguiria por mar pela baía contornando o Recôncavo Baiano. Barcos sem conta
apinhados de gente enfeitados com flores panos coloridos cheiro de perfumes de
flores, a ilha de Itaparica lá do outro lado. E navegaram balançando nas águas verdes-azuis
da própria Iemanjá.
Se nem todas as pessoas podiam
acompanhar a santa na procissão dos barcos, isso nem queria dizer que a festa
para elas tinha acabado. Pela rua, nas calçadas, praça do Imbuí, se formaram
várias rodas de capoeira, rodas de samba e batuque, onde vibrou o som espantoso
e contagiante e apimentado do berimbau, beeerimbaaau!... tambores, chocalhos,
tamborins, reco-recos, bandolins...
- Tá pra nascer povo mais festeiro, seu
príncipe.
- São diferentes das gentes que
conheço. Bastante otimistas. É sangue bom. Eu aplaudo e dou os parabéns.
No dia seguinte Lilás foi à casa de dona
Maria Quitéria conhecer a menina mais famosa de Salvador, da Bahia, a reconhecida
Itã, cor de garapa e cheiro permanente da flor de açucena-d’água. A menina Itã,
com seu amuleto juju no pescoço para dar sorte em tudo, fitinhas do NS do
Bonfim no pulso, tinha uma vida espaçosa, era menina impossível, muito além da lenda.
Nem dona Maria Quitéria de Jesus podia domesticá-la dosá-la segurá-la. A Itã
fazia o que queria o que lhe dava na telha na veneta.
E logo de repente essa Itã convidou Lilás para passear
pela cidade. Ali ela reinava e conhecia como a palma da mão. Justamente já
descendo a ladeira do Iranxe, foi comentando:
- Óxente!, menina Lilás, no sul
todas as meninas se parecem contigo, são assim dessa sua cor, lilases? Pode ser
o clima, será?
- Nem, assim só eu mesma. Foi pura
sorte. Puro acaso. Puro dedo de D.
- Óxente!, que coisa magnífica. Você
é única, é? Você parece um etê que veio do outro lado da lua, é. Desculpe a
franqueza.
- Desculpe a originalidade mas você
tá certa. Às vezes isso nem é sempre cem por cento, o pessoal fica esbugalhando.
- Óxente!, nem se dê por vencida e
reconhecida. Eu sou assim, aquele que nem gostar de mim... rá rá rá!
Desfilaram a pé por tudo, pelas
ruas, nas calçadas, nos calçadões. Barraquinha vendendo caldo de cana, vendendo
acarajé, vendendo suco de caju, mel de abelha mandaguari. Agora a avenida
Guaicuru passando em frente do museu Manuel Congo.
- Onde você está me levando, enfim?
Seria para Marzagão? Seria para Serra de São Bento? Seria para a praia
Marambaia? Campo Grande? Me diga!
- Óxente e Oxalá!, vamos subir umas
ladeiras do Pelô, você vai conhecer minha avó.
- Ah, sua vovó mora no Pelourinho!
Já ouvi falar que é lindo o tal e qual Pelourinho!
- Óxente!, pois é lá o terreiro da
minha avó. É lá que ela faz suas rezas, é lá que ela trabalha pros orixás.
- E o que é orixá?
Em seguida pegaram a rua estreita do
Jundu para o alto do morro do Louva-a-Deus, igreja Santa Bárbara aí mesmo do
ladinho, até chegar na casinha, toda de amarelo por fora e por dentro, janelas
e portas de azul, onde funcionava o terreiro da mãe de santo, vó Paraíba, avó
de Itã e outros netos e netas mais. O lugar já fervia de gente e a dança, o
ritual, os processos estavam em andamento em religiosidade em africana musicalidade.
- Óxente!, menina Lilás, vem aqui que
vou lhe apresentar minha avó.
Lilás foi levada até uma senhora
idosa, vestida de branco, vestida de baiana, turbante na cabeça, vestidos
rodados, carregada de pulseiras douradas, colares dourados, brincos dourados, balangandãs
e berenguendéns, e rodeada de comadres, e cercada de compadres, e pajeada por
muitos manos e manas. A velha e simpática senhora pegou as mãos das meninas e as
abençoou, se abraçaram apertado, trocaram beijos, tepe! tepe!...
- Com muito prazer, dona vovó
Paraíba - cumprimentou a Lilás.
- Querem comer bolo de fubá? Querem
beiju? Querem suco de pequi? Podem pegar, podem se servir à vontade, netinhas!
- ofereceu a boa senhora.
Outras senhoras faziam a roda e a
dança do processo ritual, enquanto o batuque e o berimbau marcavam o passo, o
transporte, a mudança deste mundo para o outro em distância de além. De repente
uma moça deu um grito, toda carregada de amuletos, como se tivesse sido atingida
e ferida:
- Ai-ai-ai!... ru-ru-ru!... ai-ai-ai-ui!...
- e rodou como um pião eletrizado no centro de umbanda, na sala no pátio, no
círculo de tias e tios, etc.
A tal e qual moça anônima de repente
incorporou uma entidade, um ente do além, uma voz grossa, estranha, nem era a
voz dela. Como se um homem de voz rouca, dos de antigamente da época dos
escravos, falasse pela sua boca falasse por ela adquirisse seu corpo. E falava
o quê? Era uma voz forte que falava grosso e nem sempre dava para entender. E
dizia por quê? Quase nada se entendia. Em volta todos murmuravam umas orações
de dar graças aos orixás do candomblé, Xangô, Oxossi, Iansã... A música nem
parava, batuque, batuque, bum! bum!... como se fosse na tribo e cada vez mais
rápido. A moça dançava gesticulava andava pra cá e pra lá na sala cabeça baixa
gingando com estilo e com nervoso. E a moça dizia na voz grossa do homem que
queria falar que queria aparecer:
- Eu sou de Paraibuna e vim brincar
com ocês... quero comer feijoada no almoço... beber vinho tinto tirado da uva
da serra de Santa Catarina... uta! que no meu tempo era tão bom... depois vamos
pular carnaval na rua do Pitu... borrifar o sovaco com o perfume de flor de
cravina-do-campo...
A moça anônima agora rolava no chão de terra batida,
tentava rasgar a própria roupa, pulava pra cá e pra lá, sacudia a cabeça
perigosamente, as luzes das velas e archotes piscavam, ela nem podia controlar
o espírito que a possuía, etc. Era tudo muito rápido e sempre na voz do homem
do além, as orações, a dança, os trejeitos, caretas e mímicas. E perguntava coisas
em voz rouca, pedia bebida, mandava respostas, comunicava mil coisas, ajudava
quem precisava de ajuda, aconselhava quem pedia conselho. Daí que entortava a
cabeça, pedia confortos, pedia um doce, pedia um abraço, exigia respeito:
- Preciso ur-gen-te-men-te... de uma rede de
dormirrrr!... Miiiinha... gente, onde é a festa de São Benedito? Caaporã fica
na serra de Santa Cruz? Quem me presenteia uma rede de dormirrrr!... Quero
comer muuuita... torta de mangaba...
Sem mais o que dizer e dançar, a moça possuída pelo
fungu, possuída pelo guia caboclo, desfaleceu e caiu de boca na terra, tofe!...
Pronto, estava livre do homem fulano de tal que a alugara, que a tomara pela
mente, que comandara o seu espírito, que fizera dela um cavalo de sela, e que
fizera dela um cavalo de puxar carroça, etc.
Aí, a moça tal e qual foi levada para outro cômodo, arrastada
pelos homens, levada na padiola pelos manos, até se recompor, até bater a
poeira do vestido, lavar o rosto e os braços, pentear o cabelo, beber um pouco,
sorrir para os parentes. Mais calma foi abençoando os que pediam bênção. E até
nem se lembrar de nada nada e perguntar. Mais ainda pra frente foi que todo
mundo a parabenizou, ganhou os sorrisos os abraços os beijos, pete! pete!...
- Você foi divina e mágica, minha irmã!
- Muito obrigada.
- Durante o culto, você pegou minha mão, abençoou,
abraçou. Lembra? Foi ma-ra-vi-lho-so!
- Obrigada.
- O teu dom azul e vem de Oxumarê.
- Obrigada.
- Você é um anjo! E é sério!
- Pois eu digo e peço, obrigada.
E a maioria ou mesmo todos dos que assistiram o
transporte, a manifestação, a cura, a revelação feita pela moça anônima, a
mágica, se sentiram prestigiados pelos santos e deusas. E o pessoal confundiu
mesmo, custou muito a acreditar em tudo ao redor e de volta à realidade, etc.
E alguém reparou direito e ninguém reparou conforme,
mas a madrugada já estava lá fora e pegava a todos de surpresa com os primeiros
raios do sol do sol. Astro de força que sempre vinha chegando rasteiro sobre o
mar, aleluia!, etc.
Naquela mesma manhã em clima, outro
dia, pela manhã, o dia novo e novo dia, enfrentando um sol forte, Itã e Lilás já
desciam a ladeira do Marandová frente a igreja convento de São Francisco. Olharam
o mar, a praia, sentiram fome e sede, praça Pereira Oliveira, vontade de nadar,
de navegar na jangada de vela vermelha, etc.
- Hum!... Vamos comer alguma coisa.
Tô com tanta fome que chego a suspirar.
- Óxente e Oxalá!, eu também, bem
aqui, hem?! um vazio...
Chegaram à praia da Boa Viagem, se
jogaram nas ondas, brincaram de peixe, brincaram de jacaré, boiaram, nadaram de
costas. O sal do mar fazia muito bem depois de uma noite cheia de orixás
misteriosos enigmáticos. A seguir um acarajé e uma água de coco. Um sanduíche
de queijo, um suco de abacaxi. Um caju, dois cajus.
- A matemática é de todos! - disse a
Itã.
- Põe mais essa na conta: são 8h e
18min. - falou a Lilás.
Lá, então, pelas 10h e 11min
chegaram a uma rua estreita identificada Macu-Nadebe, subindo um repecho
ladeado de casas antigas, praça 2 de Julho, onde os figurões da cidade, condes
e condessas, marqueses e marquesas, duque e duquesa, mais o príncipe Pedro,
inauguravam um centro cultural e artístico, museu Sacaca, etc. Gentes e bichos
muitos por aí, olhando, batucando, dançando, conversando, rindo... Houve uma
pausa para os discursos políticos e em seguida o carnaval reiniciou, e nem foi
pouco, e nem parou mais, talvez e etc.
- Óxente!, menina Lilás, vamos
sacudir as cadeiras, vamos rebolar, vamos saracotear, vamos sassaricar, vamos arrasar,
vamos varrer o chão com os pés...
- Dê de de-morôoo!...
E o mundo foi feito assim e para
esse fim engraçado. O mundo todo caiu no som dos tambores atabaques zabumbas e
cantou “é ôoo!... é no Pelôoo!... é ôoo!... é no Pelôoo!...” braços para cima,
risos, braços para baixo, esticando e encolhendo o corpo, agitando as mãos,
perna para cá e para lá, palhaçadas, “veio da negra Áfricaaaa!... pra
Bahiaiaiaia... nega do Pelôoo!... é ôoo!... é no Pelôoo!...” e parar de dançar
estava fora de questão, nem se podia, era contra a lei das cadeiras, dos pés, do
corpo, e todos acompanhavam as coreografias, e o tambor obrigando o ritmo da
dança, a pegada da dança no ritmo e assim mesmo como nas batidas do coração “tum!
tum! tum!...” se saboreava acarajé e “tum! tum! tum!...” se saboreava xinxim e tome
“tum! tum! tum!... provocando terremoto entre o casario antigo original e colonial
da estreita e sinuosa rua Itaguaí, e mais risos, balanceios, agitações, risos,
saracoteios, gargalhadas, micagens, bamboleios, risadas, “ah ah ah!...”