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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 18




Enigmática, Rara Difícil

            Invasão dos besouros-pardos. Isto sim surpreende a todos, o mundo todo, nem é?! As senhoras e os senhores, as meninas e os meninos e até os cachorros e os gatos foram varrendo as calçadas cheias acumulando montinhos dos besouros-pardos que tombaram ali.
Pois eles vieram dos dias da estação, o mato próximo, bateram ali e caíram, ficaram esperneando, atraídos pela luz ou quem sabe, um horror, da noite para o dia. Um fenômeno. Quede os inimigos naturais dos besouros-pardos?, se perguntavam, se dizia. Apareceram do nada e sem explicação. Chegaram e chegaram de toda parte e se sabe lá de onde feitos em que cafundó. Um caso bíblico para quem lê a sorte. Um caso de calamidade pública para quem espera dos poderes públicos. Voaram para as luzes dos postes das casas e pecharam e caíram e ficaram se debatendo até cansar. Os sapos-martelos pra que te quero!
Milhões deles, montes, carradas, milhões eu nem digo mas milhares e milhares deles, uma praga de besouros-pardos em toda cidade uma tonelada mas principalmente na nossa rua Itália com esquina na Cristo Rei. Que houve? Agrotóxicos na lavoura? Aquecimento global? Desequilíbrio ambiental? Apareceram na boca da noite como uma dádiva. Uma nuvem parda vinda do outro mundo. Sempre nos últimos dias de verão e depois de uma chuvarada. Tão abichornante tão grave tão péssimo tão louco como congresso de políticos das esferas.
                                                                       ***
            Você sabe vocês sabem nós lemos. Estou lendo o romance O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. Eu recomendo. Um momento tiro os olhos do livro e olho o tempo lá fora. É tempo de minuano. Então, é inverno.
            O vento pega repentinamente e diz uiva com ira:
            - Vamos que é nossa vez, cambada!
            O vento vem na frente um dia ou dois, logo atrás vem a chuva um dia ou dois, em seguida a geada um dia ou dois, mais para final de julho começo de agosto a neve uma hora ou duas. Um pouco de neve nem faz mal, embora miúda e rala e de nada.
            O tempo pode mudar. Então, o tempo pode mudar porque ele muda mesmo. Assim, como qual o rio Paraíba, o rio Grande.
Todos esses caras se mudam de lá pra cá. E todos esses camaradas se juntam e se reúnem bem aqui na serra Gaúcha. Se juntam, desfilam, passeiam um por um, vêm de par, vêm de bando, vêm um atrás do outro, vêm de mãos dadas, vêm de manta e gorro e luvas bafejando fumaça.
- Tu comes cajus? Tu bebes muita água mineral? É importante.
- Totalmente.
Ana Marcela vai casar no começo do ano; Joana vai para Pelotas e quer ser veterinária; primo Jeju muito do feliz a Conceição o filho primogênito Miguel escolheram ontem de aparecer aqui com entre nós outros e então já houve a festa e escândalos de fogos.
Quem espera? O inverno espera com doze peças de roupa três calças duas camisas um blusão um casacão um sobretudo cachecol luva touca e pala. Quem conhece sabe do que estou falando. Na beira do fogão comendo pinhão.
- Sonhei com você esta noite.
- Como onde por quê?
- Somente sei que estávamos pra lá de Pindamonhangaba.
O inverno da serra aqui em cima fala mais alto e úmido. Eu sou daqui e queria morar longe lá pra cima em, etc., Uruará, Itarema, Baixa Grande do Ribeiro, Bequimão, Montanha... O mais inverno dos últimos frios:
- Esse ano vai ser de ranguear cusco, uma vez. 
                                                                       ***
            Vai entender!
            Bem, foi um sonho, mas tudo bem.
            Eu estava na rua Mucunã no sentido indo rumo do Horto e em 1987. Descendo a rua, então. Escalando setembro ou outubro.
Ia pensando sempre na Mariluz que coisa saudável, que boa bola. Essa guria (natural da vila de São Paulo dos Campos de Piratininga), uma bela potranca punaré, risonha e forte, mãos longas, dentes de pérola e fortes, joelhos pequenos, olhos sedutores e beijos intermináveis e fortes abraços.
Havia umas árvores e plantas coloridas se sobressaindo nos tons verdes conforme, rabos-de-raposa, coroas-de-frade, muirajuçaras, curipitãs, ajuruatubiras, estrelas-do-norte... povoadas com gorjeios e saltos e voos de sabiás-laranjas, azulões, pombas-rolas, juruebas, cururás, pintassilgos, tesoureiras... um vento entojado de setembro.
            De repente, uma nuvem de poeira bateu com tudo na minha cara. Ainda nem usava óculos. Fiquei cego de um olho.
            Em Vassouras o pôr do sol sempre é espetacular; Caxambu os ocasos de vermelho em vermelhos; em Caravelas as tardes clicam os feitiços as mágicas os discos voadores.
            Daí em diante para acordar, meu!, quanto coçar e coçar os olhos. Daí em diante, meu!, que dificuldade para voltar à real realidade minha de agora já hoje presente.
                                                                       ***
            Fui ouvir música e dançar e beber no apê da Macela e do Catuaba. Com mais gente. Nem curtia o som que eles curtiam, um sertanejo metálico. Mas nem me importei com esse detalhe, assim, antecipadamente. Nem curtia uísque que a maioria bebia e gostava, mas tudo bem, havia outras bebidas e eu preferi e fui na cerva. Nem curto ou curtia carne de peixe ensopado, mas nem havia de quê, já acertava opções, fiquei no sanduíche com pão preto e cebola frita ou assada.
            Havia um equilíbrio entre moços e moças. Aquilo era bom e obrigado e parabéns. E o ambiente assim ficava mais respirável agradável conversador camarada. Todos dançavam quando queriam e os pares se revezavam. Havia as atracadas as encalhadas e as ancoradas. Problema era o sertanejo guitarrante. Problema era muita caipirinha e pouca cerveja gelada. Problema era o cheiro de molho de camarão com alho e óleo e pimenta. Problema nem era o pozinho que corria e o fuminho que trescalava. Problema nem era a solicitude da irmã do cara.
            De quantos tropeços fiz o meu dia? Quantos dias será preciso para os meus tropeços se dar por achados? Quase tudo na minha sina eram tropeços e topadas e muambas.
            Dancei com Peroba. É, ela tinha seios pequenos e pontudos, fazer o quê. Eram pequenos, embora pontudos. Prefiro pensar grande. Muito melhor seios que falam e riem e conversam e trocam de cor. De qualquer modo os apalpei com ambas as mãos, os cheirei com ambos os narizes, os degustei com ambas as línguas. E riam cada vez mais. Um vale lindo sabe como é morros por onde se vai a Passo Fundo e vizinhanças.
            Se o mundo roda porque a água roda porque o vento roda e o sol redondo como se o sol fosse durar sempre.
            Da sacada do apê se tinha uma ótima ideia visão panorâmica notícias da constelação do escorpião, onde nasci e me criei e cansava de mirar a toda extensão do universo. Sempre gostei daquele desenho de estrelas e tatuei no meu muque do braço musculoso. Descendo o nariz para a terra, perdido na nossa base terráquea, eu senti as casas, pequenos prédios, árvores, grilos e ruídos de motor. Senti tédio, vazio e uma preguiça que vinha também de gerações lá da calha do rio Caí.
            O sertanejo pauleira me encheu a paciência. Paciência é uma virtude. Paciência é uma ciência ou arte inventada pelos monges budistas tibetanos que muito admiro. Eu precisava aprender essa técnica milenar também dos índios catuquinaru.
            Dancei dancei com Aroeira-de-Goiás guria de nome composto, obrigado. Pouco mais alta que eu, morena de pele e tudo. Eu gosto de altas, também. Mas gosto de louras ou morenas altas, esguias. Aquela Aroeira-de-Goiás soprava no meu ouvido, nas minhas orelhas, nas pontas dos meus cabelos lisos. Era bom. Parecia o som do mar, o minuano chegando no pampa. O bafo da moça era brisa boa. Era divertido. Poderia ter perguntado por que aquela mania de soprar as minhas orelhas e as pontas dos meus cabelos, mas acabei esquecendo e até hoje nem sei. Ela até me disse, considerando o tempo na distância:
            - Você é gaudério.
            Eu mesmo devolvi, reagindo:
            - Sou mesmo é xiru.
            A realidade é surpreendente e tudo mais e nem sei mais o quê. Mas a fantasia me persegue. E fujo das duas. Quero ser um escorpião e só pensar em comida 24h. Quero ser um pato-do-mato preservado e arisco. Quero nadar no rio Piraí igual dos bagres-sapos-das-pedras. Quero ser um quati de listas e pontos de amarelo e preto mimetizado atrás das plantas por entre os raios do sol e as sombras da mata atlântica. Quero também almejar logo logo e voltar e nascer planta árvore ingá-bravo.
            Quem mandou o sol continuar e ele continua:
            - É aqui que mora Quaraci?
                                                                       ***
            O dia raiara e chegava cheio de sol fulgurante. Os nativos ajurus tocavam lá longe se ouvia daqui os seus curuquis. Prometia um dia abafado, confuso, próprio de verão. Saracuras-três-potes gritando nem sei o quê no banhado para aqueles lados do riacho Retiro. Quero-queros também. Iraúnas em bando. Ia chover? Um pouco de vento. Um pouco de cada. Um bocado de pão com marmelada de uva um gole de café com leite. Quando chove é por causa do calor do tempo abafado.
            Pássaros cruzavam como flechas o ambiente o ar livre e limpo e quieto quase tão quieto como espaçonaves mirins, andorinhas, etc., e de cotovelo na janela eu olhava o dia a dia como se fosse domingo oito de maio.
            Eu conhecia a paisagem do meu lugar e o verão prometia. Era muito tudo bonito. Nem via nada de novidades e me surpreendia todos os dias. Já a decorara ficava ouvindo lendo decorando pensando os anambés-azuis cantando ou piando conforme.
            Isso de passarinhos e ruas da cidade eu me lembrei do romance O Pássaro da Escuridão do Gilvan Lemos. Os protagonistas caminhavam pela cidadezinha observando o passaredo noturno e os pios e voos. Os personagens andavam de sítio em sítio imitando os caburés-de-orelha, esticando as orelhas para os voos noturnos. Muito bom e calafrios.
            Nem sei. Sempre fui um cão querendo alcançar a cauda. Um rio Soé nadando eternamente para o mar. Um bicho sapo-veneno-de-flecha espreitando na sombra do mato.
            É, o dia estava quente e fervendo, iluminado, e cheio dos meus pensamentos enrolados. E os tais pensamentos eram aqueles mesmos, quase idênticos dos de hoje e de amanhã, os mesmos de sempre, os mestres dos mistérios de sempre, ora veja!
            O sol pintava a paisagem e os verdes conforme. As árvores.
            Parei junto de um pé de pé-de-macaco bem à beira do caminho. Parei porque vi um cãozinho olhando para cima e um menino trepado lá em cima. O cachorrinho estava assim sentado, olhando, esperando, orelhas ligadas, preocupado, grunhindo, cau!, cau!... Parei e reparei que coisa novidade esperta.
O menino que estava no alto do pé de pé-de-macaco começou a cantar uma canção típica de festa de São João. Ele cantava um verso de música popularmente conhecido. O cãozinho ria de língua de fora e, cau! cau!... Só um verso, e sempre o mesmo e igual, ida e volta. O menino gostava de repetição e teimosias:
- Tenha dó, meu Totó, bonito paletó! Tenha dó, meu Totó, bonito paletó!...
            Então, o menino do alto da árvore cantou quanto quis aquele mesmo e repetido e monótono verso. O único verso para sempre. E o cãozinho, em baixo, sentado, olhando e tirando conclusões e bem fixado no jeito lá do menino, às vezes gania, cau! cau!... orelhas ligadas em parabólicas, vá lá! arreganhava os dentes com a língua de fora e sentado em pose.
            Todo o mundo já sofreu de cair com o braço a cabeça batendo no chão, né?! Perguntava. E respondia:
            - Todo mundo, é.
            E aí, então, depois de bater a cabeça no chão, eu acordei e quis ser um marinheiro de mil portos e mil namoradas. Mil e uma namoradas uma em cada porto seguro. Bem, isso eu quis ser faz tempo. Mas ainda quero ser um namorador e marinheiro aventureiro de mil tempestades e mil bonanças e mil aventuras mundo afora. Insisto nisso todo santo dia.
            O cãozinho ali sentado, olhando, vivenciando, às vezes até acoando, balançando a língua para fora, parecia até sorrir para tudo. Um cão dócil, cau! cau!... Um cachorrinho chamado Totó nome bem fácil de chamar e estalar os dedos.
            Se a coisa já está com respeito e cuidado, pode escurecer com nuvens pesadas e trovejar e relampear e ventar e cair granizo. Tudo junto e tudo pronto como manda a lei dos fenômenos. Parece que vai chover e a chuva vem mesmo.
            Chegaram duas pessoas a mais, um casal sério e de mãos dadas, e pararam para reparar no menino no alto do pé de pé-de-macaco. O homem chupava balas para a garganta, a mulher calçava um tênis com sinal verde de alerta. A planta parecia desinteressada um pouco, folhas ao vento, verde em tom esmaecido. A mulher primeiro:
            - Que está fazendo aí, Cujubi querido?
            Pois o menino nem parou de cantar o mesmo verso sem graça. O homem gritou com a mão em concha em torno da boca chupando bala para a garganta a bochecha de um lado:
            - Que que tu tá querendo aprontá, Cujubi piá?!
            Nem era que o guri silenciou e nem respondeu?! O cãozinho latiu moderadamente e com eco:
            - Cau! cau!...
            Tudo bem, o guri nem se moveu, nem respondeu, achei que até nem ouviu direito. E cantava aquela coisa de um só verso repetido e persistente:
- Tenha dó, meu Totó, bonito paletó! Tenha dó, meu Totó, bonito paletó!...
            Eu também pensava que as pessoas e o bicho por ali embaixo quisessem saber e procuravam saber uma e outras coisas. E ele, o guri, lá em cima, devia explicar melhor a situação dele. Por que ele, guri, nem estava na escola, por exemplo? E continuava cantado uma canção de uma frase um verso o que às vezes poucas vezes parecia de uma lógica.
            E chegou um bando de pessoas cada um de um lugar da redondeza. Várias idades, todas as cores, todos ambos os sexos. Achei que eram vizinhos, amigos, curiosos, adivinhos, mágicos, telenovelistas de plantão, advogados ou jornalistas carrancudos aposentados, seres que passavam por ali.
            Todos fizeram perguntas para um e para outro e para o alto da árvore. O garoto nem respondia, bem feito. Talvez por isso que subira na pé-de-macaco. E outra coisa que também era bem certa: ele, o garotinho, nem ia descer de lá tão cedo. O cãozinho sentado como um bibelô de porcelana olhando sem parar língua de fora orelhas diretivas.
            O sol acompanhava a tarde a memória das horas o dia íntimo a estrela extraviada a rua presidente Juscelino Kubitschek.  
Enquanto o mundo pertencesse ao garoto mesmo, ele ficaria por lá, olhando e ou cantando o mesmo verso bonito e original. Cantando o mesmo cansativo e repetitivo verso interessante:
- Tenha dó, meu Totó, bonito paletó! Tenha dó, meu Totó, bonito paletó!...
                                                                       ***
            Fiquei sabendo, então, que meu ex-professor de História do Brasil colonial, ainda do 11 de Agosto, fora encontrado morto morto. Depois de uns 3 dias e já fedendo sem parar. A empregada tirara a folga normal do fim de semana e, na volta segunda-feira, dera com aquela situação intransferível intransponível imarcescível. Ninguém tinha nada a dizer sobre isso.
            Eu nem sabia o que sentir. Eu talvez fosse sair da farmácia para procurar coisa diferente numa fábrica num restaurante ou outra loja. Tinha uma fábrica de móveis no Distrito Industrial que pagava um preço um pouco melhor. Poderia sair de casa e alugar um quarto com garagem e ir pagando uma tevê com prestações a perder de vista. Aprenderia a fritar ovos e cozinhar um arroz com salsinhas fatiadas, fazer sanduíches de legumes e folhas e ovos, comer na rua quando fosse urgente. Vontade mesmo era pegar a estrada e parar lá em Lajeado Grande, Florestópolis, Marilena, Rialma... Tudo isso no momento que Catanduva queria me deixar. Ela mesma me disse bem na minha lata de barba rala:
            - Você é um palhaço, detesto! Quero um homem que me dê segurança, segu... - e vomitou verde.
            De noite aquele vento, de manhã o sol azul, e o melhor passeio pelo campo e matinhos e periferia da cidade.
            Catanduva era de capricórnio e detestava pingue-pongue e cachaça no butiá. Era justo que a convivência nem seria fácil nem possível nem rendosa. E nem foi e nunca seria. Então, brigamos e tal. E nem me acostumei os sábados e os domingos sem Catanduva. Um vexame. Dias sem graça e predomínio do nublado.
            Da janela do quarto eu olhava a rua Itália e arredores. Eu um ser despreparado para existir sem uma ou duas esperanças. Gostava de olhar a rua, as árvores, oiticicas, carnaúbas, sapuvussus, caingás, quebra-machados, araribas, guajuviras-brancas... Fazia sol, chovia, anoitecia. Os passarinhos sempre em trânsito, anus-pretos, beija-flores, jacamins, andorinhas... Esses alados viviam tranquilos e leves procurando as sementinhas, os mosquitos, as frutas do dia a dia. E quando namoravam até o céu sorria de rir de orelha a orelha.
            Galo gargarejava, andorinha trinfava, sapo-ferreiro coaxava, oi-oi-oi!... caburé-do-sol risava, rádio da FM Itapuca cantava aaaah!, ie!, ieeeeé!...
            A árvore falou a outra árvore respondeu:
            - Tenho de continuar-ar-ar-ar...
            A outra respondeu a que nem perguntou:
            - Embora com poco poco nada.
            Nem conseguia almoçar em casa. Nunca quebrei nada. Um dia pensei jogar um despertador na parede. Na hora achei exagero e parei na intenção. Naquele instante percebi que nem tinha um quadro sequer para enfeitar e criar um ar de lar. E me lembrei de ter visto um dia lá na praça da Bandeira um ambulante vendendo quadros de santos, coração de Jesus, anjos da guarda cuidando de crianças perto de um poço, imagens de Vila Velha, o Pão de Açúcar, a praia de Torres, o Itaimbezinho, Balneário Camburiú, o Ibirapuera, o Paranoá, São Miguel das Missões, Ajuricaba, Conceição do Mato Dentro, a serra do Rola-Moça lá em Nova Lima, a ponte mais velha do Recife.
            Esperamos o professor de História ali pelo corredor junto à porta da nossa sala de aula. Chegou 15 minutos depois. Com timidez porque se enganara de pavilhão. O professor sempre contava histórias dos jesuítas das Reduções Orientais, dos Sete Povos das Missões, aqueles povos expulsos definitivamente pelo tratado de santo Ildefonso 1777. 
            Era complicado amar Catanduva. Uva verde trincada no dente e que arrepio na pele. Coitado de mim aqueles dias de sábados e domingos sem beijos, mãos ao alto, sem os olhos e os beijos de Catanduva.
            - Você me abandonou de vez, é?
            - Pelo menos por enquanto - respondia ela por telefone.
            Catanduva era alegre até o exagero, quando queria. Bonita de cabelos negros e lisos até o exagero, quando nem pintava de loiro. Alta e magra até o exagero, quando nem achava vantagem tirar os sapatos plataforma. Meditativa meditava sentada na cama como iogue até o exagero, quando nem tinha vontade de brincar de índia amondaua.
            O sol falava demais e pitombeiras, taiuiás, ocas, salsas-do-campo, caçaús... espreitavam a zoeira das abelhas irapuãs.            Peso todo na janela olhando se assim era a algazarra dos bem-te-vis, corruíras, tesoureiras, joões-de-barro, pipiras-bicos-de-prata... vespas camoatins pelos pátios das vizinhanças. A meio caminho de um pensamento muito à toa. Para além das casas uns morros com árvores, cataias, orelhas-de-macaco, pacuris... nuvens brancas, fundo azul. Era bom, era bonito e era comum demais. O sol abraçava todas as árvores e num sol esportivo alagado em si mesmo, vamos dizer.
            O professor nos contava que na metade do século dezessete, por aí, uns jesuítas já andavam olhando terras no Rio Grande do Sul, chamado terra dos Tape ou país do Tape, terra dos Muitos, Ivy-Marae - terra sem mal -, para a introdução do gado, umas vacarias. E perguntávamos:
            - Mas como onde e por quê? Onde ficava a América do Sul?
            - As vacarias eram extensões sem fim de terras, cercadas por rios e peraus, limites naturais, criatórios selvagens. O gado se criava solto e sem regras. Os índios guaranis que acabaram se beneficiando.
            Meu quarto andava cheio de formigas, baratas, mosquitos e ratos fantasmas. Nem entendia o que vinham procurar. Devia ser o dia, o clima, a estação, o perfume que ganhei de Catanduva, a lógica sem explicação. Se tivesse um quadro na parede poderiam visitá-lo, povoá-lo, admirá-lo. Um quadro com aquela igreja em ruínas, cruz missioneira no gramado.
            Uma ou outra vez, o professor voltava do banheiro com a braguilha desabotoada. A turma ria. A turma contava com isso. Ele procurava se localizar pelos diários de classe. Nem nos reconhecia. Alguém falava alguma coisa do tempo e do espaço. Aí, ele nos olhava no horizonte sem espaço e tempo.
            Eram as aulas que eu mais gostava. Lia e relia os trechos do livro que falavam da História dos jesuítas, as fundações das diversas vilas, os silvícolas nos aldeamentos, São Nicolau, São Miguel Arcângelo, São Francisco de Borja, São Luís Gonzaga, São Lourenço Mártir, São João Batista, Santo Ângelo Custódio, olhava as imagens e lia as legendas e rodapés, coisas de outro mundo.
            - Vê se te cuida, guria, você está acima do peso - eu sabia atacar Catanduva onde ela tinha seu ponto fraco, cruel que eu era.
            Gostava de pegar chuva logo de manhã. Sentia vontade de andar na chuva. Pegava o guarda-chuva e inventava um lugar para ir e ia, uma coisa para fazer e ia. Uma rua de ponta a ponta era coisa de aventura para mim rua Pinheiro Machado.
            Cada momento que pensava... Como os céus permitem que alguém tão bom morra abandonado? Morreu em paz, dormindo, sem nada. O professor contara uma vez da ambição bandeirante. Os ataques que as Reduções Orientais sofreram. Contou do mito da Teiniaguá, a Salamanca, o mboitatá - pai do ouro. Quando Catanduva me disse aquilo e vomitou verde... meu! Eu ficava horas pensando, meditando, remoendo, triturando, balançando a minha consciência pesada. No fundo ela me detestava, então.
            A dona Bacairi, mãe de Catanduva, também professora e também professora de geografia, e que nem ligava para a História do Brasil do período colonial. A sogra, depois ex-sogra, me confessou que pouca gente ia atrás da História, pouca gente levava a História a sério e que cada um tinha lá sua própria história que fazia da História umas e outras histórias.
            Estava tentando me preparar para nem mais me emocionar. Preparava o olhar para ver o real como uma pintura surrealista e apenas ver sem dizer nada. Tirava o corpo fora. Interpretava direitinho e balançava os ombros. Eu gostava de nem me cobrar e me isentar, assim:
            - E o queco?!
            Basílio da Gama escrevera um livro sobre a guerra dos Sete Povos das Missõs, O Uraguai. Aparentemente um texto difícil de digerir. Depois o escritor foi preso e acusado de subversivo. Eu nem lia poesia e romances daquela época. Vim a ler depois. O professor quis emprestar o livro para quem tivesse curiosidade e emprestou para a Macaé. Macaé sabia ler poesia antiga e tinha os olhos mais lindos que ainda hoje duvido. Eram olhos meio verdes e dormentes com pálpebras baixas ou semicerradas. Como olhos tão bonitos sabiam ler coisas de linguagem intrincada floreada, hein?!
            Às 10h e 20min eu acordei com vazio no estômago e no cérebro, total dois vazios num só. Às 10h e 45min eu tomava café e o vazio se preenchia amigavelmente com olhares para fora da janela aberta e o dia claro com gavião-carijó passeando, pieeéu!... Às 10h e 49min eu parava na garagem olhando a rua Itália passar e passavam autos e bicicletas e caminhões baús. Às 11h e 12min um colibri motor ligado a mil chegou no brinco-da-princesa cheio das flores vermelhas e do aroma.
            Por exemplo. Saíra uma reportagem de uma menininha estuprada e espancada até a morte. Encontraram o corpinho dela jogada no lixo. Os cães já haviam comido metade, as formigas já haviam levado um pouco, as baratas ainda a exploravam por dentro. A polícia prendeu o assassino. Foi óbvio, segundo o delegado encarregado do caso. Era o padrasto, um professor de História universal, 36 anos, usava óculos, casa própria e um carro vermelho modelo 78 com bagageiro e gancho para reboque. Nas férias escolares iam de família na praia dos Ingleses. E o queco?!
            Não, eu já nem mais me comovia. Me cuidava para nem levar para minha consciência. Me postava na janela e ficava olhando o sábado, ouvindo os bem-te-vis, os pintassilgos, as almas-de-gato, as corruíras, os chupins... o rangido dos carros de boi, irrrreeee! irrrreeee!... O velho professor contava que os índios plantavam, cuidavam do gado xucro, rezavam, faziam estátuas sacras, faziam cestas de palha, construíam açudes, etc. Escutava da casa vizinha da direita o pai com a mãe, a mãe com a filha, a filha com o cachorrinho Farinha, família normal, e o queco?!
            Quer saber o que eu assistia àquela altura na tevê? Eu nem ligava muito para o meu trabalho. Minha arte era fugir de casa pela manhã, dormir na tarde, e ir perto da noite encontrar os bebuns camaradas sempre ali no bar do Cariri. Se tinha um futebol, ótimo; se nem tinha, deixa pra lá.
            Naquela tarde de quinta eu precisava sim dar um rolê pelo Centro. O dia estava brilhante e muito quente. Saudade de andar e olhar as gurias incidentais. Parar num bolicho e pedir uma gelada, umas batatas fritas, ler um jornal disponível começando pelo caderno de esportes.
            Tudo recomeçou naquela bonita temporada de novembro de 1977, se nem estou enganado. Uma quarta-feira, 14h e 34min? Minha preguiça tropeçava no cansaço e na falta do que fazer. Catanduva me apareceu em casa com os olhos pisados, os joelhos bonitos, o cabelo molhado, os olhos molhados, as pernas de fora, as mãos nos bolsos. Ela parecia parente da princesa Isabel.
            - Choro desde ontem. Hoje nem tomei café. Hoje mesmo só tomei banho. Nem quero mais continuar...
            Tentei consolá-la, afinal ela errara por pouco:
            - Nem se preocupe. Ano que vem você passa de ano, as matérias são sempre as mesmas, mais ou menos você já as conhece... e tudo dará certo, você vai ver.
            Meia hora depois fomos até a sorveteria e tomamos um sorvete de três bolas cada pitanga chocolate abóbora. Nem ficamos na loja, fomos direto para a praça Araranguá, cruzando a rua Corda-de-Viola na faixa do pedestre.
            O velho professor habitava sozinho o apartamento no bairro Basalto, se soube. A família dele, dois irmãos e um filho, moravam em Sarandi. Eu, caso fosse ele naquela altura, nem esperaria morrer em Nova Prata, ia morrer em São Miguel das Missões, Tupanciretã, Santo Ângelo, São Gabriel, Itaqui, Nova Ramada, Tucunduva, Santo Augusto, enfim os lugares a região que ele falava. O professor corrigiu um erro histórico: eu sempre pensara que os índios eram escravos nas Missões jesuíticas.
            Catanduva, como toda menina temperamental, um dia chegou me sufocando de abraços, beijos, beliscões e risos. Toda alegre, toda desesperada, toda me lambendo o pescoço e o rosto e os braços antebraços, toda desarvorada. Me convidando eu ela e a mãe dela para irmos juntos visitar a região das Missões viajar de carro com chofer e hotel três estrelas.
            Aconteceu de verdade um inseto pousou na compostura da janela bicando e ciscando a luz eterna do dia de quinta-feira. Olhei surpreso e sem me mexer. Acontecia um milagre infinito. D existia tomava conta mas nem se manifestava para erguer um dedo. Com o tempinho dele mesmo insignificante coleóptero se decidiu e se expulsou pegou fogo e virou raio no sol de maio.
            Peguei apanhei Catanduva e fomos até o cemitério visitar o túmulo do professor. Eu estava num dia sem nada de sossego. Catanduva arranjou umas flores novas para o vaso. Catanduva estava aparentemente ponderada, calma, serena. Passarinhos distraídos. Jacarandás-cabiúnas em fila indiana na calçada da rua Borges de Medeiros. Minha sorte real era um surrealismo de facilitar dor de cabeça. Ali perto morava o meu primo Gurundi mas eu achei na hora que meu primo nem devia estar em casa.
            Os verões de chuva e dias de chuva com chuá. Peguei e fui por aí. Resolvi enquadrar voltas no quarteirão. Nem pensava em Catanduva. E chovia tanto quanto D queria. Caminhei perto dos muros que separam as casas e durante duas horas. Nem era feito de açúcar!
            Gostaria tanto ser um daqueles descobridores de tesouros das cavernas! Um dia descobrir um mboitatá na beira da gruta qualquer e depois cavar um cemitério encontrar tesouro de jesuíta. Os jesuítas tinham mesmo muito dinheiro la plata para enterrar.
            - Bem. Os guaranis eram caçadores pescadores e coletores, principalmente. Depois, com os jesuítas, foram ainda agricultores e exímios artesões. Cuidavam das vacarias, gado vacum, gado equino, gado lanígero. De noite eles cantavam dançavam tocavam flauta tomavam mate em torno das fogueiras.
            Eu nem tinha nada para fazer, nada para pensar, nada para torcer, nada para esperar. Se tivesse um bom quintal quem sabe enterraria ali um tesouro que nem tinha meu avô umas moedas de prata com efígie de D. Pedro II. Deixaria umas charadas. Bobagem! Se eu tivesse um quintal com árvores, canela-de-cutia, imbiru, timbopeba, catiguá... eu alimentaria passarinhos incidentais igual minha avó todas as manhãs. Meus parentes herdaram as moedas de prata do avô do tempo do Império, que guardaram no fundo de gavetas como recordação, e que dizem os mais antigos valia muito naquele tempo e dava para comprar um boi. Uma vez até poderia aparecer uma ave bem desconhecida e colorida jacutinga ave do mato, por exemplo.
            Catanduva me carregou para os lados do aeródromo. Queria ver a pista do aeroporto. Subimos o barranco de terra vermelha, terra vermelha revolvida pela patrola e outras maquinonas de fora de estrada. Estava tudo ainda meio que atirado e bagunçado e arado com pedras de cristal à mostra. Uns trabalhadores na sombra de uma barraca bem como funcionários da prefeitura. Umas dinossáuricas máquinas amarelas importadas de marte. Era dia de sol forte. Estávamos namorando como dois de paus. 
            Pensando os meus pensamentos. Seria ótimo procurar tesouros pelos campos das antigas Reduções. Quem sabe debaixo de uma grande pedra, nas raízes de um umbu pra lá de bicentenário, num canto qualquer de uma igreja arruinada, um cemitério de padres, no abandono de uma capoeira ou no brejo alagado plantado de piteiras. Mas tanta gente já fez isso, meu!
            Que sorte a minha! Cansava de tudo de repente e sem fé. Esquecia o sono e a vontade de comer. Nem havia sequer assassinos nem loucos nem ladrões nem políticos nem advogados na minha família vira-lata. Nem havia por onde subir, nem por onde começar. Muitos otários, sim. Nem mistérios e enigmas. Nem padres que viraram pais de família numerosa.
            E viver sem Catanduva também se aprendia. Eu me acostumava sem os beijos, sem os risos, sem a bundinha elegante da guria. Nunca fui aprender a amar cachorros, peixes de aquário, pássaros exóticos, plantas de vaso, pedrinhas catadas ao léu. Uma vez assisti um filme que o cara viajou para a infância procurando por um par de seios muito jovens. E eu preferia fazer essa troca de deixar o cigarro para me viciar em refrigerantes e balas sabor café.
            Catanduva sempre usava um pentagrama aterrissado ali no vale de leite e mel. Por que nem uma cruz? Por que nem uma lua crescente? Por que nem uma figa? Por que nem um muiraquitã? Nem lhe perguntei. O pentagrama espantava o quê? E atraía o quê? Mais pobre era Jó!
            À noite quando a rua parava, eu ficava ouvindo a rua parada. Da janela do quarto espiava a alma da escuridão parada no meio da rua. E era difícil como no tempo dos dinossauros que cada passo sacudia e tremia a rua e balançavam as casas.
            As estátuas sacras feitas pelos índios guaranis foram levadas para dentro dos museus ou casas antigas fazendo as vezes de museu. Um museu muito bem cuidado e protegido dos ventos, das chuvas, do sol, das pessoas arteiras. Sentem falta do vento batendo na cara, mas é melhor assim. Para vê-las ao vivo só mesmo se deslocando no tempo viajando no espaço.
            - Hum... Dificuldades dos padres jesuítas: poligamia, feitiçaria, bebedeira, ociosidade, antropofagia. As Reduções começaram na banda oriental do Uruguai por volta de 1682 e resistiram mais ou menos até a expulsão dos religiosos em 1759.
            Tínhamos galos desfiando a madrugada nos quintais vizinhos. Galos e depois joões-de-barro, bem-te-vis, tico-ticos, tchintchorrintchos, cambaxirras, quero-queros... Os cães eram das madrugadas. Mais cães nervosos que pessoas voltando do serviço. Seria bom saber se cães gostam mesmo de música clássica. Um carro ou um ou outro caminhão. Foguetes por causa do time de futebol eram comuns nas quartas de noite. Eu nem vinha pensando mais nada das geleiras derretendo. Eu falava muito a Catanduva para aderirmos a um grupo desses alternativos, santo daime, naturistas, sos mata atlântica. Somente por uns meses, depois a gente desistia, se cansava nem ia mais. Que falta me fazia Catanduva. Alguém para brincar no carnaval, principalmente.
            Assim, eu sentia saudades do tempo dos jesuítas andando nos verdes e ondulados pampas, campos, coxilhas, passos, as terras do Tape, lugar sem mal, trabalho coletivo, índios e índias melenudos, carijo sapecando erva-mate, chimarrão.
            Quando ia à igreja matriz são João Batista era para reparar nos fregueses. Gostava de reparar como as pessoas sabiam fingir e se mostrar fingidas diante dos santos e santas amém na casa de D. Se esforçavam para ficar sérios e cuidar das crianças agitadas. Precisamos muito de gente com D onde D mora e habita.
            Uma sexta-feira treze recebi uma caixa amarela na gavetinha amarela do correio. Parecia uma caixa dessas de camisa social que nem podia desconfiar. Quem mandou? Que era ou nem era? Um gato esmagado, cabeça esmagada, fedendo de dias, adiantado estado de putrefação. Sério, tô dizendo! Cabeça quebrada, língua de fora, fedendo uma barbaridade, tudo que eu tinha direito. Só saí de casa depois de dois dias e olhe lá. Fiquei muito doente. Desinteressado em descobrir o mistério. E também nem queria tomar nenhuma atitude de revanche. O silêncio e a indiferença são as melhores respostas.
            Me apaixonei pela minha ex-sogra Bacairi. Ela era professora de geografia e estava aprendendo a gostar de História e da História das Missões jesuíticas. Só falava bem dos tempos que os jesuítas ensinavam os guaranis a plantar trigo e amendoim e abóboras e algodão. Pronto, me vingava da Catanduva.
            Olhava a lua e via o rosto redondo e bonito de Catanduva. Que recaída, meu! Também o feitiço, o charme, os tiques nervosos, as espinhas, os lábios de açúcar. Ali na chincha, Catanduva uivava, uuuuh!... Lua cheia, Catanduva uivava alto, e gemia alto, e esgravatava as paredes, e rilhava os dentes, e comia minha orelha com muita espuma deste um lado aqui.
            Como desejaria tanto e muito colocar o pé fora do meu redemoinho. E depois olhar e reparar minha sina de atar andando por si mesma. É, nós somos gente e andamos por aí!
            Meu professor nos lembrava sempre à cerca dos tempos jesuíticos, a coletividade, o interesse coletivo, em primeiro lugar o coletivo:
            - Com os jesuítas, os guaranis deram um salto de qualidade que saíram da idade da pedra para a idade da escrita, igreja, oficinas, escola, horta, cemitério, pátio para as festas e brinquedos.
            Minha ideia mais na moda, então, foi comprar uma gaiola de passarinho. Sou contra qualquer maneira de prender os bichos. Dei um jeito e prendi ali um canário-da-terra. Sozinho e infeliz, o passarinho acabou cantando para chamar uma amada qualquer. Eu na janela olhando a rua nós parecíamos.
            Precisava, naquela altura, convencer minha amada e ex-sogra Bacairi a fugirmos para a campanha. Ela já entendia de tudo, os mapas, as estradas, as cidades, Porto Xavier, Porto Mauá, Porto Lucena, Porto Vera Cruz, Tiradentes do Sul... as vilas de antigamente, os sítios arqueológicos, os motivos, as guerras guaraníticas, os nomes dos santos fundadores.
            As ideias boas nascem sem notícias e já desobstruídas. Um boné na cabeça com algum escudo de time de futebol o meu time.
            Sonhara outra vez. Naquela manhã acordei me lembrando de pouca coisa. Sonhara com elefantes e alias vestidos de preto, casacos, coletes, gravatas, saias rodadas, lencinhos no bolsinho do colete, guarda-chuvas, chapéus pretos, tudo preto. Invadiram meu quarto quebrando tudo espaçosos. Eu nem conseguia esquecê-los e empurrá-los para fora. Nem saíam mais do meu quarto e eram muitos, uma manada, berrentos, barulhentos, bagunceiros, pisões. Tinha um engarrafamento na avenida Imperatriz Leopoldina, mas como se eu nem tinha carro próprio? Uma moça, que nem ouvi o nome, com boca enorme e lábios grossos me rindo me sorrindo se rindo feliz. Ela ria de mim e eu fazia de tudo para tocá-la e beijá-la e agradá-la. Acordei e demorei para me convencer a voltar. Mais casos que nem apareceram à tona eu nem quis tentar lembrar. Levantei com precisão de tomar um café com pão e manteiga.   
            Após um mês de negociações, minha ex-sogra Bacairi topou arriscar a aventura das Missões. A excursão pelas cidades das antigas vilas, Três de Maio, Santo Cristo, Boa Vista do Buricá, Crissiumal, Vista Gaúcha, Palmitinho... a aventura nos enchia a imaginação. E eu peguei na mão da Bacairi e sorri e ela me retribuiu sorrindo. Era já outra história.
            Começamos por Bossoroca. Ali, num pequeno restaurante de beira-estrada, me escapou dizer que ela, ex-sogra, era bem mais bonita que a filha, ex-namorada Catanduva. Nem entendi o que se passou lá por dentro da ex-sogra ao me ouvir falar assim. Eu gostava de provocar, era isso. E fomos como outros turistas com carros e com ônibus, a invasão dos lugares onde antes jesuítas e índios plantaram mandioca e batata-doce e algodão, apresaram os xucros com boleadeiras, tocaram borés e inúbias, tomaram chimarrão na guampa.
            A aventura estava iniciando mas eu e Bacairi já percebíamos que o tempo estava nos passando para trás. Começava em nem existir mais carro, trem, navio, luz elétrica, telefone. Podíamos escolher lombo de burro, lombo de mula, carroça de toldo de palha e puxada por 4 bois de 2 em 2, andar a pé, remar na canoa. Já estávamos nas cercanias de Joia; e quem nem gosta de joias?
            Em Caibaté chegamos no dia do trigo, primavera, ano do nosso Senhor. Eu descobria que a ex-sogra tinha encantos muito bonitos e opinião. Mesmo eu lutando muito, ela ficava sempre com a última palavra. As casas eram solares e as ruas poeirentas e pra lá dos borocotós. Aproveitamos para nadar um pouco no rio Piaí. E andamos quilômetro e meio pelo meio da mata nas trilhas.
            Basílio da Gama andava assustado naquele dia e há meses. Os últimos acontecimentos pela Colônia nem eram nada animadores para o ânimo de um subversivo. Basílio se sentia indisposto, tenso e sem vontade de escrever. Perdera o sossego de tudo. Via inimigos por toda parte. Nem saía mais com os camaradas, nem ia mais à taberna tomar os pileques de vinho, nem ia mais na zona atrás das raparigas. Pensara mil vezes em arrependimento, e se arrependimento matasse. E se fosse fugir na calada da noite para onde? Se soubesse como fugir já teria fugido. O Caminho Velho o Caminho Novo a Estrada Real o Caminho do Ouro era um só e vigiado dia e noite. Já nem tinha paz para dormir, para fazer versos, ler livro no original em francês.
            Capão do Cipó, a cidade presa num pequeno vale, nos recebeu com chuvas e trovoadas. Eu e Bacairi já sabíamos. E amamos cada pedra em cada rua. Pensei em telefonar para Catanduva e tirar um sarro. Nem descobrimos nenhum telefone. Talvez só pombo-correio ou telégrafo. Junto com nós um grupo natural de Estrela Velha.
            E de repente, depois de alcançar um morro, bem na nossa retina, a vila boa de São Miguel das Missões, aquele dia São Miguel Arcângelo. E tudo intacto, igreja, casas dos índios, plantações de milho, curral de bois e vacas, carroças, antas pastando selvagens na beira do rio Guarita. E fomos caminhando na direção. E o movimento na vila era grande.
            Pedimos acolhida ali numa palhoça desabitada oportuna. Descansamos nas redes nas esteiras na palha seca. Dormimos com a barriga cheia. Comemos pão com queijo e bebemos vinho. Tinha também umas frutas tipo assim jabuticabas, goiabas-do-mato, araçás, araticuns, pinhões não que nem era época de pinhões. Os curumins e cunhãs nos olhavam e já queriam trocar ideias e nos tocar e ganhar lembrancinha e brincar o tempo todo. Depois de dormir oito ou nove horas (eles tinham um relógio de sol), saímos para tomar banho no açude. No terceiro dia os padres já nos pediam ajuda para capinar a mandioca, arrancar macegas e guaxumas, brincar com as crianças.
            Se passaram meses, alguns meses e mais meses e nada do tesouro que se prometia. Outras pessoas também vinham à região em busca dos tesouros jesuíticos. Poucos encontraram vestígios e rastos, e umas telhas quebradas já bastavam para a gente se animar. Havia uma guerra entre nós os exploradores com falsidades, logros, ensaios falsos, atentados, tocaias, roubos, sequestros, altas espionagens na calada da noite. Era uma parada. Para dar um exemplo, nem se podia dormir e se dormia com um olho aberto.
            Pois, o Basílio, por aqueles tempos, vivia sempre com a pulga atrás da orelha. Nem dormia mais. Se trancava em casa, se escondia debaixo da cama, queimara livros e cadernos e cadernetas e documentos e cartas e bilhetes. O pavor tomara conta de sua pequena alma de cristão ultimamente convicto.
            Numa tarde de domingo após a missa cantada, única distração dos índios, topamos com uma surpresa das bem surpreendentes. Conversando eu e Bacairi na varanda da palhoça (temendo a invasão quem sabe dos bandeirantes e mamelucos e tupis estes amigos dos paulistas e inimigos dos guaranis, etc.), quem nos apareceu de surpresa? Catanduva. E quem era Catanduva, meu?!
            E nos abraçamos os três com muita saudade e tudo para contar. Catanduva contou que teve dificuldades para nos rastrear e teve mais dificuldades quando atravessou o rio Tupaciretã onde perdeu nosso rastro e entrou no tempo passado distante para nós atual. Teve, assim, um choque de História e outras coisas. Viu touros xucros no campo manadas de touros assoprando turrando mugindo bufando berrando escorneando, eia! eia!...
            Decidimos, então, ficar mais uns tempos e resolvemos que Catanduva deveria trabalhar enquanto que eu e Bacairi ficaríamos andando pelos campos à procura do tesouro. Catanduva logo arrumou amizades e, como mulheres brancas estavam em falta em alta, ela conseguiu bons e muitos clientes a preço excelente e fixo. Eu e Bacairi procurávamos pesquisar a vila indígena e arredores com muita atenção e pormenores. Entrevistamos muitos índios remanescentes, fundos de rios, pés de árvores grandes, pedras grandes, morros com forjas e cavernas. Seguíamos os padres para onde fossem. Catanduva trabalhava mais à noite e nós dois mais durante o dia. Ela bebia muito leite de cabra. Ela tomava banho de leite de cabra na banheira da pensão. Ela quem escolhia os clientes.
            Basílio da Gama tentou rabiscar no papel algumas palavras. Tudo em vão, pois seu espírito ressabiado nem deixava a inspiração chegar perto. Um meio-dia em ponto resolveu arriscar e saiu para a praça. Nem pretendia encontrar ninguém, só dar uma banda. Os amigos poderiam fazer perguntas, ele que responder qualquer coisa, e ele nem queria saber de nada. Assim, rapidamente entrou numa casa de mulheres, escolheu uma mesa, pediu um vinho tinto e esperou menos de um minuto.
            Nem sei se foi de repente ou o quê, mas de repente me vi cheio de ciúmes da Catanduva. E eu dormia na mesma rede com a Bacairi e nem conseguia parar de pensar em Catanduva. Talvez o leite de cabra, talvez a hora noturna, somente sei que Catanduva me parecia cada vez mais sedutora, difícil, interessante, macia, apetitosa, saudosa, tentação à vista. E Catanduva olhava para mim? Ela tinha olhar de caburé-do-campo, olhar de carancho. Ela nem me olhava mais uma vez e saía. Saía sempre no começo da noite e voltava na madrugada a estrela na linha clareando pros lados do leste.
            Estávamos em plena colheita na Redução. E nem era fácil ir para a praça da vila indígena e ver tanto índio batendo trigo, batendo amendoim, tecendo seus rudes panos de vestir, fabricando instrumentos de sopro e corda e percussão, tambores, maracás, violas. Os padres quase nunca eram vistos pelo sol forte. Me parecia, e Bacairi tinha quase certeza, que eles nem nos queriam ali e já tinham se enjoado de nós. Nos suportavam por que nem sei.
            Então, finalmente, e com a complacência da mãe, Basílio recebeu em casa uma mulher da zona. Conversaram no sótão longe dos olhos da mãe. Longe dos olhos, mas nem tanto dos ouvidos. A boa senhora escutava tudo, o ouvido pregado à porta. Tinha medo que o filho temperamental e criativo fosse aprontar alguma coisa fantástica. A mãe descobriu pouca coisa que já nem sabia. Até um dia quando a moça largou os cachorros, gritou muito alto, abriu a porta com estrondo, bateu a porta na parede e se largou escada abaixo e nunca mais voltou.
            Aquele um dia de chuva, chuva torrencial que nos impediu eu e Bacairi de sairmos para nossas investigações e explorações, que Catanduva se aproximou de mim, muito dengosa e me olhando com ar doce, um momento que a mãe olhava ali pela janela aberta, que Catanduva mesma me comunicou:
            - Olha, parece mentira e sortilégio, mas estamos grávida.
            Pois me surpreendi um pouco. Fiz um gesto para trás e olhos prontos arregalados. Assim, eu olhei para Bacairi. Então, eu comecei a pensar, pensar... E o fato andou por si mesmo. Bacairi ficou feliz e já começou a pensar no enxoval do bebê. Aceitei porque o pequerruchinho era a minha melhor motivação. Escolhemos o nome de Sepé Tiaraju. Era mesmo um menino de cabelo liso e escuro, olhos lustros e escuros. Só esperar mais um pouco.
            Uma tarde e a guarda-armada bateu à porta da casa da mãe do Basílio. Aberta a porta de par em par, os guardas armados entraram vasculhando tudo, jogaram coisas no chão, jogaram coisas na parede, jogaram coisas pela janela, e foram catar o Basílio escondido no porão dentro de um velho vazio barril de vinho. Basílio tremendo e chorando agarrado ao seu brevezinho. Já ao ar livre e na rua de Cima o bom e criativo Basílio olhou para trás e viu a mãe na porta de casa acompanhando o vexame com toda a vizinhança outros curiosos e também agarrada ao breve.
            Foi uma festa muito importante por ocasião do dia de são Miguel. Todos nós, entre exploradores e índios e padres, fomos para a praça festejar e cantar e ouvir o coro cantar e os músicos tocar flauta e outros instrumentos de fabricação caseira. Os padres rezaram uma missa mais longa e depois houve um banquete com muita comida e vinho com moderação, e muito suco de frutas silvestres da estação. A festa com muita música avançou pela noite até tarde lá pelas 8h.
            Encolhido num canto da cela, Basílio ouvia a sua consciência e tinha muita compaixão da sua mãe e de si mesmo. Se sentia o último dos homens broncos, um idiota, um bobo, um palhaço. Sabia que se fosse condenado como subversivo sua mãe nem aguentaria a humilhação e morreria sem um vintém coado. Então, era o inferno e pegar fogo. Que fiasco!
            Predomínio do nublado. Os sinos das igrejas de Vila Rica de Ouro Preto repicavam. Era o dia da verdade mais verdadeira. Mensagem final, câmbio... e desligou.
            Sepé Tiaraju crescia a olhos negros vistos. Logo se tornaria um guerreiro dos mais valentes audaciosos. Rápido aprendeu a falar duas línguas e dominou a atenção de todos. Rápido já conseguia contar histórias, contar mentiras e contar os números para fazer contas. Com dois anos já caçava emas no campo com as boleadeiras, com quatro anos já caçava os touros bravos mirando com seu arco e flechas, com oito anos já caçava as onças-pardas atirando com espingarda que os padres ensinaram a fazer, com dez anos já montava e domava os potros xucros dos campos, com doze anos festejava seu quinto filho da única esposa (que os padres nem deixavam ter mais de uma). Numa dessas aventuras, Sepé Tiaraju e mais cinquenta índios da sua idade enfrentaram em luta feroz e renhida à luz do dia aos exércitos dos portugueses e espanhóis.
            - Esta terra tem dono, iuh! iuh! iuh!... - gritou Sepé Tiaraju.
            A sorte de todos estava um perigo ali naquelas datas naquele lugar. Um dia Sepé Tiaraju voltou ferido de um com-ba-te. Procuramos os padres e os caciques e os pajés para tomar uma resolução. E o Sepé Tiaraju nem queria partir e nem desistir e nem ouvir a nós seus pais. Pela vila indígena inteira já iniciava um certo pânico com a iminência das tropas portuguesas e espanholas. Sepé Tiaraju nem deu ouvidos a ninguém e fugiu para o campo combater os inimigos. Iam montados uns poucos nos cavalos de crinas soltas ao vento pampeano e a maioria a pé todos correndo e gritando, uaaah! uaaah!... brandindo arcos e flechas e lanças.
            Nossa família se desmoronou se desestruturou de desintegrou se desentendeu se desobstruiu. Nossa história estava pelo acabamento ordinário. Bacairi olhou as nuvens que vinham chegando e começou a murchar e murchou mesmo. Catanduva sumiu de vista sem deixar um bilhete. Uma índia me segredou que ela fugira com um comerciante de couros e peles e lãs descendo o rio Uruguai até Garruchos ou Barra do Quaraí.
            E tínhamos que revoltar ao Estado do Rio Grande do Sul e atravessar toda a Capitania do Rio Grande de São Pedro e mais a Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul e mais ainda a Província do Rio Grande do Sul, o que era muito tempo.
            O tempo parou de afundar. O tempo se revoltou. O tempo deu meia-volta e retornamos. E voltei junto também. Por que nem?