Rê e
Lilás brincavam de pular corda junto a uma árvore perobeira. Ou coronilha? Uma
ponta amarrada no tronco da árvore e a outra uma das meninas movimentava
girando. Um pouco essa um pouco aquela guria. De repente até podia ser outra
árvore, tipo tajuba ou cabriúva ou guajuvira. Mas já continuaram brincando e
apreciando o que era bom e muito melhor.
Depois
passou o Jabuti ali na rua Quebra-Pedra. Esse quelônio olhou as duas meninas
brincando e achou muita satisfação. Se encaminhou para elas. E disse, e foi
dizendo:
- Oi!
Então, é assim, é?!
As
meninas pararam de pular corda para reparar no Jabuti de casca grossa. Lilás
quis entender:
- O
quê? Não entendi.
-
Simples - disse o Jabuti -, eu acho que pular corda é muito legal. Mas eu nunca
pulei corda na minha vida. Eu poderia se quisesse?
Assim
o Jabuti, que ainda não era realmente legalmente profissionalmente anjo ou
santo, passou a pular corda com as duas meninas. E às vezes era o mais feliz.
Se revezavam no movimento de girar a corda.
Foi
aí que apareceu também o Eduardinho. Veio quieto, tímido, receoso, discreto,
silencioso. Olhou... E ficou só olhando, sem dizer uma palavra. Se sentou numa
pedra, pôs a mão no queixo e o cotovelo no joelho, olhando. Até repararem nele
ali. E, então, o convidaram:
- Ei,
Eduo!
O dia
em Ivy-Marae estava bom para sair, brincar e até descansar na rede. A maioria
da população gosta de passear. Quem toca berimbau, por exemplo, toca com
sonoridade doce, brilhante e limpa.
E o dia pedia isso mesmo. As
árvores cantavam em várias línguas, guaricanga-de-bengala, bicuíba-branca,
uafé, ajará, abricó-de-macaco, jenipapim, mucujê. As árvores, inclusive,
vestiam chapéus de cores diversas como amarelo, vermelho, verde e roxo. Bandos
de passarinhos cruzavam o céu. Bandos de ararinhas-azuis iam buscar mantimentos
do outro lado da lagoa. Dispersos bem-te-vis, costas acinzentadas e peitos
amarelos, cantavam de rei nos galhos da cabiúna-do-campo. Pessoas e coisas e
animais sorriam para as flores da beira da calçada. Almas-de-gato, cauda
comprida, conversavam nos galhos secos de árvores secas. Coleirinhas ou
papa-capins ou tiã-tiãs se equilibravam nos talos de capim. O casal de
pintassilgos chegou no pé de pitangas e comeu duas pitangas, depois foi embora,
e voltaria só mais tarde.
Pessoas e bichos e coisas
acordando da morte certa e reaparecendo em Ivy-Marae, chegados dos diversos
quadrantes deste mundo, cada qual com sua alma cansada da longa viagem,
Mucajaí, Bertioga, São Sebastião, Poconé, serra da Bocaina, ilha Grande da região
de Angra dos Reis.
Tudo muito bem, como se um dia
fosse feito depois do outro. E o costume era mesmo passear folgadamente por aí
e sem relógio no pulso sem celular sem dinheiro no bolso.
Aí, o
Jabuti achou que deveriam trocar de brinquedo. E propôs:
- Já
sei, galerinha. Vamos fazer um balanço. Eu entro com a mão de obra. Querem
ver?!
O
Jabuti, que ainda não sabia se era anjo ou santo, pegou a muçurana de pular
corda e a atou pelas duas pontas no galho da árvore aroeira. Atou muito bem
firme para não ter problemas de segurança no futuro. Achou uma tabuinha para
colocar de assento. Tudo pronto? Ele achou que sim:
-
Bem, tudo pronto. Agora é só testar. E se embalar.
Jabuti
foi o primeiro a testar. Concordou que estava tudo ótimo. Aí, ofereceu o novo
brinquedo para a turminha.
O sol nem havia chegado perto
das três horas e vinte minutos. O sol ainda iluminava os pés de
algodoeiro-do-campo e outras responsabilidades.
***
Certo
dia Lilás acordou e não foi à cozinha tomar seu costumeiro e precioso café da
manhã. Lilás parou pelo quarto e, ao reconhecer suas coisas que povoavam o
quarto, invocou com elas invocou com todas elas. Principalmente se sentiu velha
demais com dez anos. E disse para si mesma, cara a cara, no espelho da
penteadeira:
-
Não, minha amiga Lilás, dez anos é muito para qualquer uma.
Lilás
olhou, então, sua cadeira de madeira encostada à parede, junto à parede, e
resmungou. Olhou outra coisa. Olhou seu guarda-roupas, abriu as portas, o que
havia ali por dentro pendurado em cabides, etc, e muxoxou. Olhou ainda outras
coisas. Por exemplo: olhou uma mesa com computador, uns porta-retratos, quadro
na parede com paisagem da praia de Piraquara de Fora, umas roupas espalhadas
pelo chão, calçados sem pé, um caderno de exercícios de matemática pedindo
ajuda, janela aberta, porta encostada. E sorriu meio sem jeito. Pensou. Pensou
um pouco mais, com o dedo nos lábios. Continuou pensando até decidir falar:
-
Não, gente, não preciso me preocupar com estas coisas. Pra quê?! É porque estas
coisas existem, cada uma cada uma, sua própria vida particular.
A
cadeira, por seu lado, também não estava nem aí. A cadeira também não precisava
de Lilás para ficar sentada acomodada. Era uma cadeira simples de madeira que
não ligava a mínima para o que a menina pensava dela. A cadeira existia e não queria
nada mais que isso. E acontecia a mesma coisa na ideia particular do
guarda-roupas, do espelho, da paisagem na parede, etc. Lilás falou sozinha:
-
Sabe de uma coisa!...
E
Lilás pensou rápido. Precisava fazer alguma coisa para levar o dia. Pensou rápido.
Aí, abriu o guarda-roupas, pegou uma bermuda jeans de mangas desfiadas e entrou
para dentro da peça de roupa. Se olhou contente no espelho contente.
Assim, saiu de casa. Olhou
para umas flores do bracuí e sorriu com o dia nos olhos. Olhou para os passarinhos
pintassilgos e cantou como eles cantavam. E foi pela calçada quase correndo,
quase dançando, jogando uma perna na frente da outra, assim muito empolgada e
cheia de si mesma.
Pela rua a menina Lilás foi
observando coisas. Passavam pernas e asas, passavam pneus e rodas, passavam
cascos e pés, ficavam rastos e trilhos e paralelepípedos.
No potreiro uma tropa de
cavalos estava reunida na sombra de um pé de quebracho-vermelho. Um deles
estava louco por brincadeiras e disse, provocando a galera toda, relinchando,
mostrando os dentes grandes:
- Vamos trotar por aí?!
Os cavalos todos se olharam
relincharam e resolveram aceitar a boa proposta. Saíram, então, em disparada
correndo apostando carreira pela beira do cercado até o açude, etc. E correr
por correr.
E Lilás ainda não chegava ao
chafariz da praça Triangular.
***
Não
muito longe dali, não muito longe daí, o jovem poeta ensaiava suas composições
amadoras e naturistas e românticas. Ele dizia assim mesmo, declamando para as
pessoas e bichos e pedras que o ouviam:
- O
sabiá-laranjeira de repente pelo amanhecer pelo entardecer! De lá para cá,
daqui para ali! Vem brincar no pó, na poeira, no cisco do terreiro! Vem brigar
ou nadar de mentira na sujeira!
O
jovem estava sozinho, começando a chegar gentes e bichos e árvores, ele
concentrado nas ideias, e pipiou:
- O
sabiá-laranjeira corre pelos galhos da siriúba! Foi sempre assim e assim será!
Muito e principalmente quando chove!
Para
falar a verdade, o jovem de longos cabelos soltos e lisos, o sabiá-laranjeira
de Ivy-Marae, adoçava o bico com palavras que ele escolhia, escolheu:
- O
sabiá-laranjeira se identifica ali entre os galhos! Não dorme, não acorda,
gorjeia! O vento a esbarrar nas suas penas e plumas! De repente pia, pipila e
sorri para si mesmo! Daí cruza as asas sobre o peito alaranjadinho! Todo
disposto a brincar e ocupar o dia!
O
jovem ficou sério pensativo. O poeta jovem não sabia tocar oboé, não sabia
tocar violão, não sabia nada de boré, nunca tinha visto uma inúbia. Não
executava, de jeito nenhum, o piano na chuva, o afoxé na noite de lua. E
continuou:
- O
sabiá-laranjeira vive num jardim imenso! As inúmeras zabelinhas tocam suas
violas e bandolins! Elas cantam estribilhos engraçados estilhaçados! Assim, as
árvores se toucam ao vento! O lago paralisa a água e o céu continua azul!
O
poeta parou um pouco de falar, escutou a natureza, escutou o mundo... Achou que
escutou alguém ou alguma coisa e continuou respondendo, falou:
- O
sabiá-laranjeira suspira por dentro do quintal! Ele não vive no capoeirão ou no
mangue! E não nasce em altas serras e montanhas! E é todo pouso e pausa e pose
e posse no palanque da cerca!
A
Lilás estava por aí mesmo chegando para também ouvir o poeta. E ela chegou na
hora com h. Ela perguntou:
-
Nosso bem poeta! Isso tudo é estrada ou poesia?
O
jovem poeta sabiá-laranjeira sabia o que distribuir e cantou:
- O
sabiá-laranjeira sabe quando se morre uma vez! Acorda em anjo ou santo! Acorda
água em riacho! Acorda raio de luz em plena flor! Acorda pedra ou bibelô! Acorda
na cidade em Ivy-Marae!
Muitas
plantas e pedras olhavam o poeta. Ou fingiam não olhar para fechar os olhos e
escutar melhor. Todos ouviam e alguém queria dar opinião. Uma caracol falou
para um caracol:
-
Posso me enganar, mas não me engano fácil. O poeta se aproxima muito no talento
com aquele grande poeta... o Cruz de Magalhães.
O
cansado caracol, arrastado caracol, acostumado caracol, branco gelo caracol,
pensou e retornou ao seu compadre também outro caracol:
-
Justamente. E digo mais. Tudo é de acordo mesmo.
***
Meia
hora depois, na praça Triangular, a nave, com os anjos verdes tripulantes,
pousou sofisticadamente, ousadamente, politicamente, especialmente,
brilhantemente. Aparelhadamente de última geração estelar. Parecia uma moeda de
ouro, com cara e coroa brilhantes, cintilante. É, a nave tinha um estilo
divino, apurado, brilhante, indiscutível, presente. Uma moeda de ouro cunhada
nos tempos do Brasil Colônia.
O povo acorreu para o
acontecimento. E o povo chegou primeiro, junto, enroscado, confundido, falando
muito, falando com as mãos. O povo formou rodeio. O povo pediu entrevista. O
povo esperava ganhar presentes.
O
prefeito, um pássaro do tipo bate-pará, ficou de pé e cumprimentou os anjos
verdes estendendo a asinha e sorrindo com a língua de fora, o bico aberto. O
anjo verde principal abriu os braços e abraçou o prefeito. Se abraçaram com
amizade. Esse prefeito, também chamado Bate-Pará, assobiou para que todos
ouvissem:
-
Sensacional, fiuiuiuiui!... anjos verdes do espírito santo! Sempre estamos,
fiuiuiuiui!... ansiosos e esperançosos, fiuiuiuiui!... em recebê-los!
O
anjo verde de maior categoria, comunicou telepaticamente:
- Que
nada, que nada... Ora, ora, não foi nada e vejamos...
O
anjo verde comandante esticou o pergaminho celestial e declarou ao povo os
convidados especiais do mês. Eram onze ao todo.
Uma
das convidadas era a simples cadeira de madeira, quadrúpede, e que pertencera à
família da menina Lilás. A simples cadeira de madeira achou que seu destino no
céu seria sem problema algum. Aí, ela subiu a rampa de acesso e se escondeu no
interior da nave. Se escondeu é modo de dizer, porque foi bem recebida. Entrou
na nave, escolheu um canto, olhou as novidades do interior da nave divina, foi
recebida com chá e biscoitos e se sentou junto de uma estrutura de aço. Os
todos computadores de bordo faziam luzes de cores e ruídos tipo, prililim!...
prililim!... E vieram os outros tantos e demais convidados. Foram entrando pela
nave e tomando cada um o seu espaço.
Os
anjos verdes ainda carregaram estas boas encomendas, muito apreciadas para lá
das nuvens estratosféricas: duas arrobas de pequis maduros; uma porção de
polentinhas fritas; doze porções de bolinhos de chuva, principalmente feitos
num dia de chuva; duas mudinhas de chapéu-de-sol-de-sapo; uma caneca de
porcelana onde estava bordado escrito bom-dia; um bolo de chocolate com
enfeites de chocolate; vinte arrobas de castanhas-do-pará; cinquenta dúzias de
mudinhas de tinhorão; vídeo com paisagem da praia de Monsuaba; um punhado de
pitangas amarelinhas de um lado e vermelhinhas do outro.
A
espaçonave se fechou muito bem fechada, fechada como um cofre federal, tremeu
em si pela força que fazia para arrancar do chão, fez tremer a praça com tudo
em cima, se arrancou, fez tremer todo o povo em volta toda a praça toda a rua,
zuniu assim... bzzzzz!... e decolou, sacudindo as árvores mais próximas e mais
distantes. O povo segurou o chapéu, quem tinha chapéu. O povo segurou o boné,
quem tinha boné. O povo segurou o cabelo quem tinha cabelo. Seres e coisas iam
para o céu eterno. A nave tinha a lembrança ou semelhança de um pneu, e um pneu
de cristal, uma esfera de cristal internacional universal.
Depois
era só esperar o próximo voo.
***
Noite
passada de chuva, noite chuvosa, chuva mansa, peneirada, demorada,
trabalhadeira, silenciosa, etc.
E o
dia tinha mais. Havia coleirinhas pastando e balançando o próprio peso nos
talos flexíveis do capim. Era uma hora cedo. O sol ainda pegava obliquamente,
as nuvens ainda não haviam subido totalmente até as nuvens. Os pintassilgos
brincavam de se pesar nas hastes de pasto do campo. E mais aqueles dois
passarinhos, três, quatro, centos. Muito pastinho verdinho, muito insetinho
alado, muito passarinho piando, rindo, garganteando, dialogando.
As
menininhas Lilás e Rê estavam no quarto desta última, e se preparavam para um
passeio. Rê, falou:
- Que
acha do meu perfume de rosas amarelas?
Lilás
molhou os lábios para falar, amaciou os lábios macios, cheirou o ar, mas não
falou. Resmungou:
-
Hum...
E Lilás
cheirou o vidrinho, abrindo a tampa, cheirando. Ficou um pouco pensando no
perfume no aroma. Levantou o queixo para o ar... e sorriu... concluindo:
-
Hum... Muito bom. Vou experimentar também.
As
duas se perfumaram, então, com essências de rosas amarelas. Um perfume normal e
suave e leve, próprio para meninas. Saíram de casa confiantes e descontraídas e
muito tongalantes.
Na
rua procuraram andar com calma. Iam pela calçada. As árvores cantavam na manhã
de sol. Árvores iguais a essas, angicos, jenipapos-rosas, umbus,
açoita-cavalos, jatobás, guabijus, caraguataís, guarirobas.
Pouco mais das dez horas. O
mundo vivia sua vida de Ivy-Marae, em Ivy-Marae. Toda a cidade passava
passeando. A rua das Tipuanas estava bocejando ao sol nascente. E passavam na
rua peixes coloridos pirauaca boto-cinza piau, pássaros coloridos
arara-de-barriga-amarela furriel tipió, passavam ônibus lotados, automóveis,
passavam camisas e bermudas coloridas. Para o fim da rua, as menininhas
encontraram o Eduardinho.
O bom
garoto estava ali esperando os acontecimentos. Viu as meninas e pensou: “Elas
são muito legais comigo, por isso vou junto seja lá para onde for.” E se
convidou em voz audível:
- Vou
com vocês?! Para onde vocês pensam me arrastar?!
As
meninas acharam de rir da atitude do menininho. Como era um bom garoto, acharam
que não tinha nada de mais convidá-lo. Lilás falou:
-
Sim, pode vir junto. Nós nem sabemos exatamente aonde vamos mesmo. E você não
se importa, né?!
Eduardinho
sorriu e pegou na mão das duas, entre as duas. Ed gostava de brincar o tempo
todo. Gostava de brincar qualquer coisa que fosse brincadeira. Gostava de
brincar todos os dias, e ainda achava pouco. Edudinho não levava nada a sério,
tudo era para brincar. Se não fosse divertido ele até aborrecia. Procurava
brincar o dia todo igual a um cachorrinho de estimação. E não queria ficar em
casa assistindo tevê, jogando games ou coisa parecida. A coisa mais séria do
guri era brincar ao ar livre, brincar. E tudo em volta poderia ser brincadeira
ou de brinquedo, caso lhe dissessem que era coisa de se brincar.
Passeavam
os três pela calçada da rua Sapucaia-Branca, rua principal, quando viram, ali
perto do chafariz, a Caúna moça dos cabelos absurdamente longos. Fazia um dia
claro e de muito calor sufocante. O Edu falou para a moça, quando chegaram
perto:
- Por
que não se refresca na água do chafariz? É superlegal, quer ver?
E ele
mesmo foi e mergulhou nas águas quentes do chafariz. Eduardinho mergulhou uma
ou duas vezes e voltou para junto da moça e das menininhas. O garoto estava bem
ensopado e sorridente. Ainda disse para provocar:
- Viu
que legal! Agora vão vocês, vão!
A
moça do cabelão erguido pelo vento se recusou:
-
Não, eu não vou não. Eu não posso. Meu cabelo é muito longo para que tenha
disposição de molhá-lo em público. O vento não concordaria e eu teria que
arrastá-lo pela rua. Seria muito difícil. Não, eu não posso e nem devo.
O
vento disse, assobiando por ali entre os esvoaçantes fios de cabelo da moça:
- É a
pura verdade. Eu não posso com cabelos pesados ou molhados. Eu só carrego
cabelos secos leves soltos e olhe lá.
E o
vento agarrou os cabelos longuíssimos da Caúna. E o vento deu mais umas
sacudidas no cabelão da moça, assobiou, deu voltas indo até sacudir as folhas
das árvores ali próximas.
A
moça, senhora das cores e do arco-íris, convidou a turminha:
- Que
vocês três acham da gente fazer um lanche lá no lago?! Sei tão bom! Vamos passear de canoa no lago e etc.
A
turminha de três nem quis pensar duas vezes, e aceitou o convite da cunhantã de
rosto moreno e cabelo solar:
-
Vamos e pronto!
O
lago ficava no parque da cidade. Para o lado do sul. Foram a pé que não era
assim tão longe, e também não estavam com pressa. Passaram em frente a uma loja
de vídeo games e Edinho queria entrar. A moça disse que não estava a fim. As
duas menininhas disseram também que não queriam brincar de game. Assim,
Eduardinho teve que desistir para não perder a companhia. Chegaram a uma
sorveteria e ali Edudinho cobrou caro:
-
Pois agora vamos tomar um sorvete de oito bolas. Vocês me acompanham no
sorvete?
Depois
de cada um pegar seu sorvete, saíram. Eduo estava sem interesse, ou seja,
olhava o sorvete e não via mais nada, não olhava para mais ninguém, esquecera
até de tagarelar. E os quatro, três mais um, ainda não haviam chegado ao portão
do parque do lago?
Olha
que chegaram à beira do lago. E havia muita gente e bichos e coisas e sol junto
ao lago. A moça dos cabelos esvoaçantes se sentou na grama e ficou olhando com
o sorriso atravessado nos lábios. Os cabelos mexidos pelo vento. E o vento que
também aproveitou para se refrescar na água pura do lago, e depois logo em
seguida, subir um pouco para erguer umas pandorgas ou arraias da gurizada ali.
A moça suspirou e disse:
-
Aiaiai!... Que bela porção de água. Queria ser uma iara. Queria voltar a ser
arco-íris ou mãe-d’água. Mas assim como estou também está bom. Antes de acordar
desse sonho, quero olhar os meus pés.
Aí, o
Eduardinho lembrou de algo muito legal e importante:
-
Moça Caúna! Você disse que a gente ia andar de canoa. Então, quedê?!
- Tá
certo. Vamos ver.
Os
quatro pegaram uma embarcação sem nome próprio pintada de amarelo, com dois
remos pintados de branco, com as pás vermelhas e entraram na canoa. A moça dos
cabelos absurdamente longos e esvoaçantes, que estavam amparados pelo vento,
pegou os remos e empurrou a canoa para o meio do lago.
O lago azul porque o céu
estava de azul. Perfume de abacaxi maduro no ar, isso sim, obrigado. Não havia
uma nuvem no céu, nem no lago. Muitas outras pessoas e bichos andavam de canoa
no lago. Principalmente pessoas, já que os bichos preferiam voar, ou mesmo
nadar. Não havia nuvens no céu por puro acaso. Sabor de caldo de cana no ar,
isso sim, obrigado. E nuvens são sonhos? A cunhantã, nas horas vagas também conhecida
como filha da lua, olhos duas pepitas de ouro limpo, muito se esforçava com os
remos.
A
moça remava lentamente, e mordendo os lábios, para não cansar de uma vez. E
porque não tinha pressa ou também porque queria aproveitar o momento cheirando
o ar e olhando a paisagem. O sol iluminava o lago, o morro e muitas árvores
subindo o morro. Pequenos insetos caminhavam ou escorregavam na superfície do
lago. Coisas e objetos também admiravam o prazer do lago.
A Rê
se lembrou de algo acima de tudo importante:
- Ah,
se eu tivesse lembrado de trazer a minha trombeta toré!... Eu poderia praticar
e, ao mesmo tempo, fazer um fundo musical.
A
moça pensava e remava com igual calma. Pensava que um dia fora um arco-íris
muito vivo e cheio de cores enfeixadas. Que fora um arco-íris que dava uma
curva no espaço. Que fora um arco-íris que nascera num belo dia de chuvisco e
afundava num pote de ouro. Que nascera num lago como aquele e dormia num pote
de ouro. E que tivera uma curva assim no ar como um sorriso bom. Pensava que
fora até uma mãe-d’água, quem sabe. A moça Caúna, sempre tocada nos cabelos
pelo vento, achou tão bom o seu pensamento que suspirou:
-
Uiuiui!... Que saudade de ser e acontecer muitas coisas ao mesmo tempo.
-
Como assim?! - quis saber Rê.
- Eu
queria reviver o que fui. E quero viver o que sou. É muito, eu sei, mas fazer o
quê, tenho saudades. E muita esperança. E o futuro.
Uma
ou duas horas depois a moça resolveu, junto com o consentimento da turminha,
voltar para a margem. Recolheram a canoa e foram sentar na grama. Olhando para
a paisagem e aproveitando o dia. Tudo estava vivendo ao centro e em torno.
Um
grupo de índios coxiponés ali perto acampados já passavam dos oito ou nove
dias. Cantavam aos roncos e gritos e tocavam inúbias. Dançavam em volta da
fogueira nas noites de lua e estrelas. Dormiam nos tijupás. Contavam histórias
de mairata, histórias de anhangá.
Foi
aí que surgiu o Cacique, bem na sua charrete puxada por vinte fortes cavalos
brancos de aço. Não se sabe ao certo o porquê da ideia, mas acontecia. O
Cacique chamou a atenção da maioria ali. O motorista do Cacique parou o carro.
O carro esportivo parou. O Cacique olhou em volta e desembarcou. Veio
caminhando pela orla do lago. Parecia despreocupado e sem pressa. Não procurava
nada por nada? Estava só olhando a beleza de tudo. As pessoas faziam os
habituais salamaleques, no que o Cacique sorria agradecia e devolvia. O Cacique
não procurava nada, mas queria encontrar alguma coisa importante e por acaso.
Uns faziam ademanes ou sinais e diziam o “boa tarde”. A pessoa que dizia “boa
tarde!”, achava que dizia pouco, mas não sabia dizer outra coisa mais
importante ou retumbante. O Cacique sorria para a pessoa e retribuía o “boa
tarde!”. E todos folgavam no dia.
Então,
a moça dos cabelos absurdamente longos e esvoaçantes, viu o Cacique. Era o
Cacique seu pai que se aproximava. O Cacique fez um cumprimento especial para a
turminha, sorriu de modo especial e ainda teve tempo de dizer especialmente:
-
Filha e cunhantã do cabelo longo e esvoaçante... quero lhe fazer um pedido. Um
convite, talvez. Não, é mesmo uma opinião. Uma ideia minha. E lhe digo de pai
para filha.
A
moça Caúna, que gostava de dançar por natureza, ficou sorrindo surpresa e
perguntou:
- Mas
o que posso servir ao Cacique que é meu pai?
O
Cacique sorriu o seu jeito de sorrir para tudo e todos. Olhou em volta para
significar que iria anunciar coisa importante para a cidade de Ivy-Marae, e
falou mesmo em voz alta:
- Eu
venho lhe pedir... que se case!
O
povo ali reunido aplaudiu a atitude do morubixaba. E a moça Caúna, dos cabelos
absurdamente soltos e loucos ao vento, sorriu satisfeita e disse:
- Que
alegria, meu pai. É claro que eu não preciso pensar duas vezes, meu pai. Eu
aceito a sugestão e digo mais, muito obrigada.
E
daí, a moça de nome Caúna, que gostava de dançar ao fogo ou às águas ou à
chuva, embarcou na charrete de mil cavalos de aço. Pai e filha voltaram ao
palácio de vidro, ou Jardim Botânico. Foram pela avenida principal de
Ivy-Marae, se exibindo diante do povo. E todos aplaudiram porque o Cacique
merecia e tivera uma boa ideia. Pai e filha foram passeando felizes, e enfim, e
depois rumaram para o palácio de vidro.
A
turminha dos três não ficou muito surpreendida com o correr dos acontecimentos.
Nem em voltar a pé para casa, afinal os três sabiam o caminho, e o caminho não
era longo. E o caminho passava por entre um arvoredo de goiabeiras-do-mato em
tempo de goiabeiras-do-mato em flor.
O sol
ia caindo, a sombra, ou as sombras, a sombra ia entrando por tudo, as árvores
apagando, as sombras, as casas apagando, os pequenos prédios apagando, as
coisas em geral se camuflando. E não se via mais a moeda de ouro solar do sol
amarelo e os seus cabelos de fogo.
***
A
nave não tinha hora e dia para aportar na cidade interessantíssima de
Ivy-Marae. Todos sabiam, sem esquecer, que era de uma vez por mês. E naquele
bom mês de setembro, a espaçonave chegou nas primeiras horas da manhã.
O sol já estava pondo seu
bloco na rua e figurando seu ar da graça, seus raios coloriam o mundo como
sempre faziam, e brilhava muito bem brilhado e cada vez mais nas laterais da
grande nave-mãe. O sol da manhã e as coisas materiais nos seus lugares.
A
astronave recheada de anjos verdes de verdade. Pousaram na praça Triangular e
abriram a porta principal, estenderam o tapete verde ou vermelho imperial. Os
anjos verdes em número de cinco, saltaram fora. Eram todos verdes e vestidos de
verde. O povo, então, aplaudiu a chegada dos enviados divinos.
O prefeito, o senhor
Carangonço, todo firme no seu nervosismo de primeiro mandato, com lágrimas
incontroláveis escorrendo pelo rosto, falou mostrando as alicates gigantes e
disse:
-
Bem, valorosos anjos verdes, eu e nós de Ivy-Marae... ahn! Na verdade é muito
bom que essa visita seja... ahn! enfim, nada mais a dizer... ahn! muito
obrigado por tudo... Aceitem nossa amizade.
O
anjo verde comandante fez um gesto de acordo, entortando um pouco o corpo para
a frente, assim, e declarou numa voz de anjo habitante do céu e colaborador de
Deus ou Tupã:
-
Bem, povo de Ivy-Marae... Aqui estamos para mais um lance e mais uma chamada
para o céu da eternidade. A relação deste mês convoca um número de vinte e um
seres. Todos escolhidos, é claro, a dedo de Deus.
E o anjo verde encarregado
declarou os vinte e um. O povo aplaudiu e vivou os vinte e um selecionados,
etc.
Um dos escolhidos foi o trem maria
fumaça. Todos já viram ao vivo ou pelo menos em fotos, o que é um trem movido a
vapor em fogo de carvão ou de lenha. Faz muita fumaça, daí o nome maria fumaça.
Mas também todo mundo sabe que é um trem muito bom camarada e confiável. É um
trem que viveu nos tempos antigos e simpáticos do império e baixa república. E
este trem mineiro, uai!, já vinha lotado de pessoal turista nos seus vagões de
passageiros, e carregado de mercadorias rurais nos vagões de carga. Cabia no
interior da nave? Bem, claro que cabia. Tanto fez que tanto faz. Tanto que
coube.
O
anjo verde maioral ainda solicitou do povo os seguintes produtos: uma barra de
ouro para amostra; duas porções de bolinhos de chuva, feitos num dia de chuva;
oito arrobas de jabuticabas maduras; um exemplar de lendas e histórias da roça;
um chapéu de palha esgarçado na aba; trinta e poucas dúzias de araçás maduros;
uma mudinha de boitatá; uma panelada de pipoca; uma bandeja de pamonhas; uma
cesta das grandes cheia de beijus.
Aí,
depois de tudo ajeitado, aconteceram as normais despedidas, onde o prefeito
Carangonço tentou se destravar da sua habitual insegurança. Afinal, era muito
normal e natural que fosse enrolado, fazer o quê. E mais sua maneira de falar
de gesticular e com lágrimas escorrendo pelo rosto. E se ouviu as últimas
palavras daqui e dali, tudo muito rápido. Não havia tempo para coisa mais
dilatada. Nunca havia tempo para nada, para um banquete, para um baile, um
carnaval fora de época, um joguinho de futebol entre amigos.
A
nave se fechou como uma maçã verde, como uma laranja natural verde, como um
araticum meio maduro e meio verde, muito brilhante ao sol como um barco de
vidro, sumaca, nau, fusta, patacho, bergantim, brulote, chalupa, balandra,
lancha, xaveco, e tremeu um pouco no arranque, tremeu mesmo e bzzzzz!... fez
ginástica heróica e fora de série... partiu com tudo. Partiu numa velocidade de
cansar nos olhos e dar água na boca.
O
pessoal que ficou sentiu sede. Sentiu sede de suco de abacaxi.