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domingo, 5 de junho de 2016

Contos De Santa Luzia (19)


                                               


         Um arauto, um xereta, com matraca e voz grossa, expandiu gritou berrou na pracinha da vilinha de Santa Luzia, e depois no meio da rua Única, e na ponta de lá da rua e na ponta de cá da mesmíssima rua:
         - Roubaram os olhos da nossa santa Luzia!... Roubaram os olhos da nossa santa Luzia!...
         Os vilões e as vilãs e os vilõezinhos ficaram por hora e por conta. E ainda mais, ninguém tinha pistas do furtador ou furtadora. Não queriam e nem queriam acreditar. Podia ter sido qualquer um. Qualquer coisa. Até mesmo um lobisomem faminto. Quem sabia? Hein? Hein? Mesmo até um saci-pererê, uma martinta-pereira! E agora? E alguém da aldeia da vila do distrito podia dizer o quê:
         - Nem vi, mas já sei!
         - Até mesmo que eu estava adivinhando!
         - Tem cada uma que parecem duas!
         Nesse instante, e isso que estava tanto sol por trás das nuvens de poeira, a luz total do mundo começou a enfraquecer diminuir claudicar. Um sol surpreso e chocado se recolhia se furtava. Depois de saber o sucedido com os olhos da santa Luzia, o sol caía caía caiu no horizonte enfumaçado. Tudo como sempre, nuvens de pó dominando o ar, camadas de poeira sobre os tetos de sapê das casinhas de pau-a-pique, um vento chato erguendo a poeira vermelha, o cisco jogado por ali. O saci se divertindo no redemoinho. Nem chovia há meses.
         No dia seguinte e imediato, horas esperadas do amanhecer, uma escura e longa e inútil surpresa: o sol nem apareceu para aclarar e tornar a torrar o já incinerado mundo da pequena aldeia de Santa Luzia. O sol nem veio aquele dia, e o dia nem amanheceu e nem amanheceria. O primeiro dia dos longos dias das noites eternas. Os aldeões e as aldeãs olharam, na penumbra, seus relógios cebola, olharam ao redor de si mesmos, comentaram entre eles todos, conversaram todas as surpresas possíveis. Ficaram pensando no caso por algum tempo. Tinham tempo.
         - Só se for um erro solar!
         - Um problema de fuso!
         - Qual o motivo, então?! Haveria o que do por quê?!
         - Ou um erro da Terra!...
         - É uma raridade ou um fenômeno?!
         - Algum motivo de vingança?!
         - Pode ser um... o imponderável!
         - Uma lombalgia com motivo nos quartos e ou nas cadeiras!
         Aí, então, pensando, os aldeões e as aldeãs encontraram a conclusão mais próxima da certeza lá deles: o sol se recusava a sair sem os olhos santos da santa Luzia. Escuro, era isso! Ruim com o calor terrível do sol? Muito exato, todos sabiam ser certo. Mas, além de muito ruim, muito pior sem ele e sem sua luminosidade. Uma claridade embaçada um dia nublado de poeira sempre será menos ruim que uma noite trevosa e sem fim. Claro, era isso!
         Assim, por que não?, e provavelmente porque queria, o sol preferia os olhos da santa Luzia de volta na bandejinha da balancinha. Era greve solar.
         - O que fazer?
         - O que vamos fazer?
         - Se o sol quer os olhos da santa Luzia...
         - ...melhor nem contrariá-lo...
         - ...e achá-los, uma vez...
         - ... ou substituí-los por um par parecido...
         - ... ou o quê?
         O aldeão N resolveu fazer uma promoção familiar. Divulgou isso:
- Aquele que doar seus próprios olhos à causa de santa Luzia, terá como prêmio e recompensa a mão da minha linda e pura e jovem filha Veralice.
N continuou expondo suas ideias, suas propostas, sua prole:
         - Assim, primeiro, temos que esperar que cheguem e apareçam pretendentes, e que estejam dispostos a casar com minha filha Veralice. Segundo, que nem se importem nem um pouquinho de olhá-la bem olhado e depois perder os olhos para o bem da santa Luzia. Terceiro, que esse plano de fato restabeleça a figura da santa Luzia com seu prato de olhos e que o sol se convença da oferta para restabelecer sua obrigação diária de iluminar o mundo e esse pedaço de chão que já está há muito esquecido das águas pluviais e fluviais e mananciais.
         Todos e todas da vila aceitaram, concordaram e se alegraram com a proposta corajosa do seu N. Aldeão N falou muito, e falou bem o suficiente. Todos e todas aceitaram e pronto. Era uma boa ideia. Era uma oferta tentadora. Era uma iniciativa brilhante. Era o que restava fazer. Agora, então, aguardar os candidatos e ou as candidatas. Todos ali na aldeia conheciam por méritos a filha do aldeão N. Todos, porém, queriam conhecê-la ainda melhor e em detalhes especiais ou até bem específicos.
         Pois bem. A filha do aldeão N se chamava Veralice. E era tudo de bem. Era mesmo tudo de boa. Era doce e apreciada como qualquer bom bocado da sua jovem idade dos dezoito anos completados recém recém. Era um prato para se comer a qualquer hora, etc.
Veralice era loura como os raios do sol num dia ideal de veraneio em São Vicente. Tinha o olho úmido e azul como o mar - que ninguém ali conhecia -, ou como o céu depois da chuva - chuva que ninguém ali jamais vira cair um dia um pingo ao longo dos anos. Uns lábios carnosos e torneados para fora da boca como polpas de cajus amarelos servidos em festa de fim de ano na praia. Os seios rurais que mais ou menos cabiam nas mãos de um homem seleto e de sorte e sedento; e com biquinho cada qual apontando para cima, igual duas pontas de metralhadoras portáteis e giratórias. A barriguinha reta com tanquinho e curva para dentro, como de vespa amarela de listas pretas. E com um umbiguinho - um centro do mundo uma mandala - largo e profundo que a sombra fazia cheio cheio de mistérios e enigmas e suores e pelinhos douradinhos. Os braços bem torneados e como dois cipós perfumados de essências boas de flores amarelas e de flores agrestes em extinção. As pernas esguias como só ousam ser as caudas dos peixes rápidos e lisos. A babaquinha de pelinhos agregados e com um valor de ouro, mira e prata nos mercados das Arábias da China do Ver-o-Peso. O traseiro de passarinha serelepe e importante tipo uma tié-fogo. Seca de corpo e bem tostada de sol com leve leve cobertura de pó vermelho para fazer jus ao ambiente desértico do distrito.
E muito mais e uns quebrados e tantas outras arredondadas qualidades. E muito mais a ser tateado e descoberto com atenção e paciência e carinhos em noites e dias. E tudo isso ainda poderia melhorar com o tempo e com a prática e com a imaginação e com a criatividade e com as horas de folga.
         Além de tudo mais, Veralice tinha um riso agradável como sopro de asa de borboleta de um dia. Uma paciência de árvore alta, secular, rainha da mata, ninho de harpias. Um cheiro de chá de camomila, folha de pitanga, bergamota. Um sabor e saúde de água de coco. Um andar molemolente criativo e imprevisível como as folhas nos galhos durante a passagem do vento da serra durante o outono gaúcho. Ou seja, Veralice era pura imaginação alta deserção.
         O rapaz que a quisesse desposá-la e beijá-la, então, poderia mesmo perder os olhos por essa cabritinha divina e rara e, mmmm!... melíflua. Era um alto tesouro por um prejuízo qualquer. Um prêmio inestimável por um pequeno sacrifício. E o suposto rapaz, pretendente, a olharia, e a olharia muito admirado, pensaria dez vezes, se quisesse ou não, e depois, sem dúvidas e muito consciente, ou estonteado, e apostando todas as fichas na memória e no tato, entregaria agradecido agradecido os olhos. Os olhos pelo tesouro. Esta a lógica do contrato. Custo: os olhos da cara. E todos leram o contrato e ficaram muito cientes. E mais animados animados se cumprimentaram com apertos de mãos, abraços, beijos, tapinhas nas costas, estalos de língua, sorrisos maliciosos.
         Nem se passaram quantos dias. O breu perdurava. Não chovia há milênios. Os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas, apavorados com a escuridão completa, noites frias, acenderam fogueiras na pracinha.
Nuvens de poeira abafavam o mundo. As pedras sem coração morriam de tédio. Os pivetes da aldeia brigavam de brincar em volta das fogueiras. E os pivetes treinavam combates e artes marciais no chão da pracinha. Nada crescia naquele deserto sem fim. Não chegava o dia, e a noite era eterna. Todos fechados encerrados tapados emparedados na escuridão medonha.
         Eduardo chegou à aldeia de Santa Luzia com os olhos cansados da viagem de três meses pela noite sem fim. Ali na aldeia ficou sabendo da teima do sol. Astro nervoso que deixara o lugar parecendo uma noite sem pé nem cabeça, de pernas para o ar, pintada a carvão. Mas Duda nem estava interessado na fotossíntese do lugar. Ed só estava de passagem rápida e noturna.
         Pois assim, os vilões e as vilãs o cercaram ansiosos. E já já lhe falaram da proposta dos olhos. Ele, o Eduardo, riu com eco. Ele, Edu, riu com a garganta seca e os olhos cheios de pó. Então, N e Veralice surgiram das sombras da noite inefável compacta.
         N indicou Veralice:
         - Esta minha filha está em oferta por um par de bons olhos beneficentes. É pagar ou largar. Explico.
         Um Ed muito atento ouviu as combinações argumentativas do seu N em função de uns olhos roubados e outros que viriam emprestados e coisa e tal. Ed ficou especulando de soslaio para uma Veralice, o produto a recompensa da troca e coisa e tal.
Pensou o Edo: “Se à luz das fogueiras ela é assim tão bonita e prática e completa e plácida, se no escuro ela é assim tão boa, linda, acostumada e bem disposta!...”
         Veralice, com dois passos à frente, lhe perguntou provocativamente, manhosamente, sensualmente:
         - Você tem olhos castanhos? Assim, mesmo assim?
         - Juro!
         E nos seus olhos castanhos, lá dele Eduardo, boiaram relações de mundos impossíveis incriados inéditos pré-colombianos. No meio dos seus olhos castanhos nadaram ilusões e fantasias e carnavais e terras amazônicas.
         Foram, Eduardo e Veralice, como duas corujinhas-buraqueiras de mãos dadas, até a capela. A santa Luzia estava lá como sempre. Nem olharam a santa nos olhos. Os namorados conversaram sobre coisas ali mesmo ao pé do ouvido da santa Luzia. Voltaram abraçados. O Eduardo parecia tranquilo, sem demonstrar receio ou nenhuma forma de pressão. Veralice também nem queria dar a última palavra ou colocar palavras na boca do possível candidato.
         Voltaram abraçados sob os olhares da aldeia. Os aldeões e as aldeãs cuidavam dos dois com preocupação, ansiedade, nervosismo, silêncio, coceira na palma das mãos. As noites eram eternas e cada vez mais frias. Se acostumavam com a escuridão mal e mal e nem queriam virar zumbis. Um calafrio. Um perigo só não, uma ameaça, um grito no escuro. Uma mudança nos planos do mundo, isso sim. 
         Eduardo se preparou para deixar os olhos nas mãos da santa Luzia:
- Pena que nem vou ver nunca mais a penúria seca e poeirenta dessa vila. Nem vou mais poder ver os lugares que nem conheço e que nunca vi ou nunca conhecerei. Mas vou passar bem e muito bem com a Veralice do meu lado. Compensação vou tatear tateando o seu físico de modelo de passarela.
E o rapaz beijou o escapulário suspenso do pescoço por um barbante, beijou uma, duas e até cinco vezes o santinho do escapulário.
Pai N disse:
- Você é alinhado de juízo, rapaz!
         Aí sim, levaram Dudu até uma dependência do ex-açougue, onde o ex-açougueiro iria lhe extirpar os olhos castanhos. Anestesiaram-no erguendo um porrete bem acima da testa. E se ouviu, poque!... E só faltava lhe tirarem, então, os olhos castanhos. Tiraram mesmo, um por um, com cuidados nervosos para não estrangulá-los ou enxovalhá-los ou amarrotá-los.
         Os olhos de Eduardo foram levados em procissão até a capela e colocados no prato entregues à santa Luzia. Foram colocados com cuidado no pratinho de prata que pendia da mão da santa. Era só esperar... Era dar um prazo... Era só dar um tempo de umas horas para o sol reaparecer. E esperaram por vinte e quatro horas e por dentro de cada tique-taque.
Vinha, outro sim, uma onda de pó da ponta norte da rua. Seria uma mula-sem-cabeça? Um saci brincante e saltitante? Um lobisomem desgrenhado? Um bando de juruparis?
         Depois, viram que as vinte e quatro horas já tinham passado há muitas horas. Viram que nem eram aqueles olhos que a santa Luzia queria; nem eram aqueles olhos que fariam com que o sol se levantasse para o trabalho; nem eram aqueles olhos castanhos que acabariam com a noite cada dia mais fria; e nem seriam aqueles olhos os olhos verdadeiros os milagreiros e milagrosos.
         Veralice, nos momentos de passeio, brincava no vento, com o vento ou para o vento cheio de poeira... E fazia isso com a maior liberdade. Forçava o olhar no escuro e sentia o vento. O vento lhe fazia cócegas nas esquinas do corpo. Se essas cócegas e arrepios eram bons? “Ah, são muito bons!”, ela pensava. E o vento ainda lhe empurrava o vestido, desenhava sua forma. O vento empurrava as folhas secas ao redor dos seus pés descalços. O vento empurrava as cortinas da janela onde Veralice costumava espreitar a noite fechada de poeira ou a noite sem estrelas sem lua prateada a noite sem fim. O vento empurrava as asas dos devaneios. Até mesmo o vento levantava a poeira vermelha para dentro da casa onde Veralice espanava os móveis e sacudia os tapetes à luz mortiça dos archotes. O vento penteava as suas crinas longas e empastadas de pó. E o vento vinha acompanhado de pó vermelho lá da ponta da rua. O vento, mesmo vento, que apagava as fogueiras da praça, que soprava as chamas das fogueiras da praça, que confundia as pegadas de saci.
         - Eu posso, oh!... engolir meus olhos usando os meus próprios dedos.
         Num passeio ou outro, Eduardo a acompanhava, desanimado, cego, anêmico, fraco, preguiçoso, arrependido, mal pago. Ele até já se acostumava um pouco com a cegueira. Mas fumava cada vez mais e mais depressa. E Veralice se acostumando com o cheiro de fumaça de cigarro. De qualquer modo, os dois com saudades da luz. Veralice com mais certezas. Eduardo com menos certezas.
         E o dia de sol que nem vinha mais. E a noite eterna que nem saía mais. E as ondas de poeira vermelha acostumando os vilões e as vilãs. Um frio que torturava entrando até os ossos.
         Vitor entrou na abandonada padaria do distrito de Santa Luzia às 23h, ou melhor, às 11h. Nem sabia por que raios viera parar ali naquela aldeia, mas achava desconfiado que já podia se considerar em plena era do apocalipse fim dos tempos terra de ninguém pra lá de onde Judas perdeu as meias. Chegou e perguntou à moça Veralice que morava ali:
         - Olha. Sou de outra parte, de fora, forasteiro, entende?! Então, onde o dia deste lugar? Por que o sol teima em nem comparecer?
         - Roubaram e sumiram com os olhos importantes da santa Luzia. É por isso. Esse é o começo do sem pé nem cabeça. Uma vingança do sol?, minha pergunta.
         - Hum!... Sim, já sei, um mistério.
         - Um ladrão? Uma ladra? Talvez dois ou uma matilha, ninguém sabe ninguém viu ou nem querem contar. Ora, quem roubou nem foi visto. E o enigma está solto no escuro.
         - Nem me diga, meu!
         Então, aí e naquela hora, Vitor ficou sabendo que o sol tinha aquela teima e aquele motivo de crise. E que, na hora certa, nem aparecia a lua e nem as estrelas e nem mesmo os planetas. Então era pouco. Com sol a aldeia vivia frigindo, sem sol vivia sonâmbula e frígida. Entre frigir e congelar nem preferiam ver para crer, nem pagar para ver, nem pegar ou largar.  
         O pai da Veralice, farejando um forasteiro de primeira, foi atrás para lhe fazer a proposta. Aldeão N foi logo falando com Vitor sobre o assunto da proposta:
         - Você me parece um sujeito de alinhado juízo, sabe?
         - Oh!...
         - Precisamos contentar o sol com a doação dos olhos à santa Luzia. Novos olhos, entende?! Outros olhos e novos olhos, percebe?!
         Vitor pensou, olhar perdido na noite sem um fim, o dedo no queixo. Depois de um tempo, depois de tirar o boné, depois, disse:
         - Ah é, é?!
         O pai de Veralice:
         - Eu te ofereço a minha filha Veralice como recompensa pela doação dos seus olhos. É o que você mais queria em termos de moça apetitosa. Você quer? É pagar ou largar. Nada de nhe-nhe-nhém!
         Vitor reviu, à luz de archotes, tochas, fogueiras, uma Veralice verdadeira que era filha do aldeão N. Ela parecia um desenho em preto e branco do tempo antigo, do tempo do Cruzeiro, assim, ali, sob o foco das luzes fracas. Mas bastou. E que sensação. Vitor ficou bolando coisas assim de boca aberta, os olhos piscos, o queixo caído, a baba escorregada. Pensou: “Ora, meu! Pensando por esse lado, pensando bem...” Seu corpo teve reações instantâneas, bombásticas, incontroláveis, quentes e inseguras. Teve que esperar descer das nuvens. Nuvens de chuva que o lugar nem via há séculos. E ele pensou mais e só para si: “Eu beijando esse corpo noites e noites e em todos os lugares e partes, hein?!” E pensou outra coisa mais importante: “Nossa! Óbvio que nem precisarei de olhos... Meus dedos serão suficientes para que eu seja feliz bem feliz felicíssimo. Sim, devo aproveitar.” E a baba, escorregando fazendo um fio no queixo poeirento, provocou um risinho de vexame na assistência nos circunstantes na alcateia.
         Veralice se aproximou muito mais e falou num tom parecido com aqueles gorjeios de pintassilgos - e que há tempos nem se via mais ali -, e bem junto da boca do rapaz:
         - Você tem olhos verdes? Eu diria até em compotas?
         - Juro!
         E nos seus olhos verdes, lá dele Vitor, boiaram relações de mundos impossíveis e estonteantes e inebriantes. Nadaram ilhas que nunca viu, mas que já sonhara e fantasiara e desejara e folheara com legenda em algum lugar.
         Foram de mãos dadas e olhos abertos na luz dos archotes até a capela ver a santa Luzia. Nem olharam a santa nos olhos. Conversaram com a santa Luzia como se fossem três amigos chegados. A santa Luzia parecia calma e esperançosa. E voltaram abraçados pelo mesmo caminho. Vitor tinha uma única coisa a dizer ou a perguntar:
         - Será que vou engordar ou emagrecer com... depois da perda... dos meus olhos verdes?
         - E você se sente inseguro? - indagou Veralice.
         Pois é. Todos acham que possuem olhos lindos lindos. E Veralice olhou-o nos olhos verdes, Vitor olhou-a nos olhos azuis, e de cima a baixo... Trocaram carícias, beijinhos, beijos e salivas quentes, beijos e salivas íntimas e oportunas e preliminares. Que que Veralice poderia lhe dizer acima de tudo, afinal?
         - Você sabe, bem, o que é sedenho?
         - Não. E você, querida?
         - É crina de cavalo.
         Vitor, depois, foi levado ao ex-açougue para a operação mais desligada de sua precipitada aventura, e que era a extração dos seus belos olhos cor de mar - mar que os vilões e as vilãs ainda nunca viram. Vitor beijou lá seu patuá, seu talismã, seu muiraquitã, seu breve. Deram-lhe a tradicional cacetada na cachola para que desmaiasse. Aí, foram e lhe sacaram os olhos verdes com muito cuidado para nem esmagá-los ou arranhá-los ou riscá-los. Valiam sim duas pedras muito preciosas como se fossem esmeraldas encontradas em certo lugar bom agradável natural sonoro Itanhaém.
         Assim, os olhos verdes do Vitor foram levados, com cuidado e ansiedade, até o pratinho de prata da santa Luzia. Ela os pesou repesou sopesou, quem sabe. Ficaram lá, enfim, aqueles olhos verdes do Vitor pegando o tempo e a poeira da noite sem ter um fim.
         A aldeia esperou e esperou insone vinte e quatro horas marcadinhas. Um sopro de vento frio e, na rua Única, pequenas nuvens de pó vermelho. Sonolência preguiça lerdeza moleza. Lobisomem uivando? Martinta-pereira voando baixo? Mula-sem-cabeça de olhos acesos piscando do fundo do carvão?
         Depois desse tempo de horas de espera ainda não aconteceu nada. Se nem acontecera nada esse tempo todo era que os olhos do Vitor nem serviram para o efeito desejado. Tanto a santa Luzia não gostara, então, como o sol nem se contentara, uma vez. Assim, os olhos de Vitor foram extirpados em vão e inutilmente. Mas será o pé da cobra?!
         Veralice Veralice passeava ao ar livre, pela rua poeirenta e cascalhada, no capoeirão esturricado, na praça sedenta, dentro da noite... Subia o morro e sentava na pedra mais alta. Queria o vento, ir ao sabor do vento, dentro do vento, se vestir de vento vermelho. O vento na saia desenhando suas formas, pernas, ventre, sua babaquinha pré-festival. O vento entortando os ramos secos dos arbustos. O vento falando e mudando a temperatura da noite eterna. O vento rolando sem a lua e polindo as nem estrelas por cima da cabeça de todos. O vento acariciando suas orelhas. O vento carregado de poeira vermelha, todo confiante e confiado, dizendo isso e aquilo. O vento arrepiando suas costas, sua espinha de vértebras contadas de a a z. O vento forçando entrada. E o vento, cheio de mistérios e uivos, furando seus ouvidos de labirinto.
         - Eu posso, oh!... traduzir meus olhos apontando os meus próprios dedos.
         De repente, em um passeio ou outro, Eduardo e Vitor acompanhavam Veralice. Os dois cegos falavam pouco, diziam menos ainda. Ambos apoiados nos seus braços, um de cá e outro de lá: dominados, calmos, cegos, cabisbaixos, preocupados, frustrados, boca aberta com língua de fora como teiús em extinção procurando comida no escuro. Os dois fumando mais que o normal. Importa que todos se perdiam na falta de sol, luz, claridade, calor.
         A noite que nem ia embora era a noite mais longa e difícil e fria que o mundo por ali já vira. Noite que insistia no não acabar nunca nunca eterna e gelada. As martintas-pereiras estranharam no começo, depois concordaram e piaram e cresceram e prosperaram. Já voavam raivosas, cheias de si, insones. E o dia nem vinha e nem despontava o sol. Nem mesmo o sol entupido de nuvens de poeira vermelha. O fim dos tempos? Bem feito!  
         Elaine surgiu na aldeia vindo do nada da noite, nascida da noite profunda, aparecida das tumbas do mar da noite. Buscando o que ia encontrando e nem perdera. Nem mochila nas costas, nem calças de florzinhas bordadas, nem casaquinho curto, nem blusinha de babados, nem bandana verde-amarela, nem pingentes ou braceletes, nem bolsa a tiracolo. Elaine, coração sempre do lado direito, estranhou o lugar de noite sem fim. Procurou o que fazer e nem achou nada que prestava. Nem queria procurar no escuro. Foi chegou na pracinha, sentou perto de uma fogueira, sobre uma pedra convenientemente distantinha do fogo, os cotovelos nos joelhos juntinhos e as mãos segurando o mesmo queixo delicado sujo de poeira. Os cabelos soprados de vento visível, vento frio, vento sem rumo, vento noturno, vento entupido de pó vermelho.
         O aldeão N foi falar com Elaine. O aldeão N se queixou da noite sem pé nem cabeça e tal. O aldeão N disse que a poeira vermelha com vento de vaivém era bem a característica do lugar. N disse que a única coisa que mudava por ali era o lado do vento. N falou que a falta dos olhos úteis da santa Luzia faziam uma falta medonha. Falou da proposta, explicou tudo e propôs e lhe disse mais:
         - Você, você que me parece decente e de alinhado juízo.
         A moça olhou o chão, riscou a poeira com um graveto seco, ficou de pensar o que pensar. O vilão prosseguiu no aliciamento:
         - Você nem vai querer se tornar nossa heroína?
         Depois disso, Elaine foi apresentada à Veralice. Elaine olhou a Veralice de cima para baixo, de leste para oeste, parte por parte, centímetro por centímetro e assobiou, fiiiiiiiu!... Elaine olhou os dentes de Veralice; olhou a boca de pêssego amarelo maduro de Veralice - pêssego que os vilões e as vilãs nunca provaram. E mais, Elaine olhou a Veralice todinha por fora da roupinha, vestidinha como estava, calculando o recheio o conteúdo. E engoliu em seco. E pensou sozinha e sem mexer os lábios: “Eu queria te beijar todinha a partir de agora, e a partir do queixinho, e até o sempre, e até o dedo do pé. E eu gosto de morder devagarinho, guria estupenda, guria fora de série, guria de virar a cabeça.”
         Elaine contou nos dedos os anos e a idade e o tempo que teria para amar a tal de Veralice. Todo esse tempo sem os seus bons olhos? Será?
E Veralice ficou com uma dúvida ali na penumbra do pensamento e já indagou:
         - Você é de olhos negros? Insiste nisso e confia?
         - Juro!
         E nos seus olhos negros, lá dela Elaine, boiaram relações de mundos impossíveis maravilhosos hospitaleiros. Uns mistérios coloridos que só o coração dos apaixonados pode fabricar e acreditar. Viu mundos e fundos de paisagens de perder o fôlego. Viu pontes com cascatas em lençóis de noivas. Viu rios gargalhantes correndo para baixo em meio às pedras e paredões.
         Saíram as duas de mãos dadas para a capela. Foram ver a santa Luzia, conversar com a santa Luzia, conversar com a santa bem baixinho. E tocaram os pés e a barra do vestido longo da santa Luzia. Evitaram olhar a santa nos olhos. Voltaram de lá mais amigadas, animadas, abraçadas e praticamente cantando uma canção que muitos já ouviram mas poucos tinham topete para desafinar em público.
         A aldeia como um todo as vigiava. Os aldeões e as aldeãs esperaram muito. Os aldeões e as aldeãs esperavam agora de braços cruzados. Os aldeões e as aldeãs esperavam bebendo os olhos de Elaine. Os aldeões e as aldeãs esperavam de mãos às costas ou de mãos nos bolsos ou nas ancas. Estavam enjoados de noite sem fim; estavam entediados com o frio sem fim. Era péssimo para os negócios. Um humor fechado noturno escuro pegajoso.
         Elaine se preparou para perder os olhos de jabuticaba - frutinha essa que os vilões e as vilãs nunca tinham ouvido falar. Pediu para ficar a sós com Veralice só mais um instantinho. Era um último pedido para olhar Veralice por dentro das roupinhas empoeiradas. Era um último e pequeno pedido. Elaine declarou:
         - Quero ver... a tua babaquinha. É para o bem da memória. Ver para crer. Quero ver comparar e dar um apelido conforme.
         Veralice correu se descascar. E executou polichinelo. E denunciou a babaquinha, sardentinha como estava, em triângulo isósceles invertido, camuflada, florestada, cebolada, ineditadinha, perturbadinha, encrespadinha, sebosinha. Elaine chorou interessadíssima. E chorou pela última vez. E chorou, e esfregou os olhos pretos, vermelhos. Esfregou as mãos nos olhos e suspirou:
- Adorei. E digo mais, adorarei.
         Então, os aldeões com as aldeãs conduziram Elaine até o ex-açougue. Elaine apertou, acariciou e beijou o bentinho que pendia do pescocinho por um cordão amarelinho. Deram-lhe uma cacetada e tanto no cocuruto para que desmaiasse e nem se mexesse na hora h. Aí, Elaine perdeu os olhos da cara. Tiraram os olhos com delicadezas sem fim, para não amargá-los ou trincá-los ou estriá-los ou sujá-los.
         E os olhos negros de Elaine foram postos no pratinho de prata que a santa Luzia mantinha seguro e pendido da mão esquerda. E a santa Luzia os pensou muito bem pensados estudados calculados. E a santa os mediu de ponta a ponta.
         A aldeia de aldeões e de aldeãs cuidou de esperar por longas vinte e quatro horas. Ouvia-se o vento falando nos galhos secos das árvores secas da pracinha incinerada. Uma nuvem de pó vermelho, por lembrança, entrando por baixo da porta aqui e ali, pelas frestas das janelas assim e assado. Um vento poeirento e muito gelado.
         Depois desse prazo passar mui lentamente em noite sem estrelas e fria, foi que nem aconteceu o esperado nem nada. O nada da noite sem fim, isso sim. Os olhos de Elaine também nem serviram para outra coisa. E olha que eram grandes e negros! Tanto a santa Luzia como o sol nem deram a mínima bola, sem tugir e sem mugir.
         Veralice foi buscar inspiração no vento poeirento que passava e que vinha de longe e voando e cheio de asas vermelhas na noite empestada de pó. O vento era o que ela mais desejava nessas horas. O vento também a queria, nem como simples amiga. E ela deixava o vento frio querer à vontade. E o vento queria e ventava e a marcava em v. Veralice queria ver e sentir o vento soprando suas curvas e vales, coxilhas e canhadas, côncavos e convexos. Veralice queria sentir o vento feliz ou fazer que o vento se sentisse feliz. O vento tocando suas mãos, a palma das mãos, os dedos, contando de um a dez na ponta dos dedos, tocando piano ou violão, todas as falanges, falanges proximais, falanges mediais, falanges distais. O vento a fazia girar. O vento a tocava pelas costas. O vento acariciava a sua bunda, o que muito a surpreendia e a agradava. O vento a despenteava como o prazer. O vento entrava pela sua boca garganta seca. E Veralice queria e tinha o vento noturno e sólido e frio e arrepiante.
         - Eu posso, oh!... prosseguir meus olhos antenando os meus próprios dedos.
         Nem sempre, nem sempre mesmo, Eduardo, Vitor e Elaine seguiam Veralice nos seus passeios noturnos. Nem iam quando tão longe assim. Elaine tinha receio de chutar as pedras soltas do caminho ou cair de joelhos nos espinhos e gravetos com ponta. Eduardo tinha pavor de cair num buraco e quebrar o braço a perna o pescoço. Vitor tinha receio e até pesadelos com cercas de arame farpado e galhos secos riscando o rosto. Então, era isso e iam juntos, quando, quase batendo cabeça. Eduardo segurava um braço, Vitor o outro e Elaine a ponta dos cabelos de Veralice. Fumavam muito os três os tais cigarros aqueles crioulões feitos de palha seca.
         Veralice nem tinha culpa que seus pretendentes nem deram certo. Mas Veralice, mesmo que todos pensassem assim, se sentia em dívida com a santa Luzia. E decidiu. Na volta de um último passeio ao vento frio e poeirento, decidiu. Decidida, foi falar e falou para os aldeões e as aldeãs e principalmente ao aldeão N, seu papai:
         - P-papá!... Quero doar meus olhos para santa Luzia. Quem sabe?
         Todos olharam, à luz de tochas, archotes, fogueiras para aqueles os olhos azuis de Veralice. Todos descobriram uma coisa nem exatamente nova e debaixo do entupido nariz:
         - Seus olhos são azuis azuis, Veralice?! Ou me conte outra?
         - Juro!
         Veralice Veralice abriu os braços satisfeita, olhou a todos a sua volta e emendou:
         - G-gentes! Talvez para tocar a vaidade da santa Luzia, talvez para fazer o que desde o início tinha que ser feito; e daí tocar a generosidade do supersol.
         E nos seus olhos azuis azuis, lá dela Veralice, boiaram relações de mundos impossíveis e nem descobertos. Assim como achar escolher ir para um lugar e encontrar nesse lugarejo o que nem se procurava em lugar algum. Assim como fazer uma coisa que nunca nunca irá se arrepender.
         Seu pai N nem se conteve e a abraçou:
         - Você é alinhada de juízo, fia!
E Veralice de fato perdeu aqueles olhos. E a aldeia, só assim, ganhou o dia a dia de sol forte. Um sol forte que voltou como sempre, com tudo, forte, brasino, escaldante, vinte e quatro horas depois, doze horas de calor. Num mundo sem chuva. E bota calor, mormaço, claridade. Sol torrando, frigindo, fritando, assando. Sol impiedoso que tornava o mundo um forno. O sol que batia violento sobre o mundo ali do sem fim dos tempos.
- Eu posso, oh!... orientar meus olhos acertando os meus próprios dedos.
Nem se via seca alma na rua Única e poeirenta. Silêncio de saci rodando no redemoinho. Tudo sonolento ou com pavor do calor do sol. Árvores secas e sem esperança. Um mundo de pedras quentes. E muito banho de sol com bronze poeirento. E as ondas vermelhas indo e vindo, levantando, encobrindo, tapando o sol.
O sol voltou, e retornaria sempre cada vez cada doze quente como fornalha.