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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Que Tem Que Seja?


 


      


 

       A história de uma pessoa já está escrita antes de partir antes de chegar antes de qualquer coisa. O papel cada um procura o seu no modo de encontrar. Uma Mãe totalmente maior é que dirige o sol, a terra, o mar, as plantas, etc., o rio, a chuva, o catita, o pitu, o cujubim. O teatro que assistimos tende a nos motivar movimentar calibrar; mas o teatro sempre o palco.

       O dia obrigatoriamente sempre dividido entre uma manhã uma tarde uma noite.

       Um homem amava muito seu cavalo seu carro sua moto sua cerveja gelada seu chute de esquerda. Que certa hora já amava mais que a própria esposa. E o convidou para almoçar todo dia com ele na sua mesa. Depois lhe ofereceu um quarto e roupa lavada.

       Simplesmente o que se viu o que se disse.

       Esse homem logo logo não se deu bem com os seus 5 filhos. Então, uma noite incendiou a casa com todos ali dentro dormindo, a esposa e os 5 filhos e o cãozinho Catabi. Foram morar no paiol ele e a barba, sem remorsos. Para os vizinhos e a polícia disse que foi acidente ou desgraça.

       Se sentou na varanda em sua cadeira de balanço. Cofiando a barba espessa. Alisando a barba negra. Acariciando a barba grande de profeta.

Na sombra de uma copaíba. Nuvens em movimento. Um pouco mais distraído com as taperás em seus voos trançados e de telhados para o ar e para as abas das casas. Um besouro fez mais ruído que um trator.

Em minutos as taperás voaram décadas.

Pois o homem sonhou com um anjo em forma de peixe camurim saindo a partir de um poço. Com a surpresa acordou e ergueu uma prece pedindo mais 50 anos pela frente.

E foi uma longa noite de espera que se arrastou.

       O guaipequinha Catabi poderia ter uma sorte menos compilada e mais ampla. Solto pela casa dentro de casa pelo terreno em torno da casa. Poderia ter continuado a ser o xodó da família, com a família. Um cão tipo vira-lata que se interessava por tudo da casa e por tudo que chegava na casa. Seu território era sagrado, e competente. E passeava na coleira com o caçula quase todo dia pela tarde. Era seu momento de lazer, cheirava cada poste cada janaguba cada latão de lixo cada entrada de garagem. Gostava que lhe coçassem a barriga e especialmente que lhe dessem de comer. Um olhar amigo e cauda vibrante e língua de fora. Catabi gostava muito e balançava para ir até o armazém da esquina, para ir até a padaria, para dar volta na quadra, para cheirar as espécies.

       A filha mais velha do homem que amava sua barba se chamava Juçara ou Jussara. Tinha 16 primaveras, em ponto de bala. Poderia ter sido o que não foi. Poderia ter casado aos 17 com o João Bangalafumenga. O João já tinha um carro e um emprego na transportadora Mangabeira. Eles poderiam morar ali mesmo, com os pais dela, fazendo um puxadinho nos fundos. Ou com a mãe de João no bairro Cariú, onde ficariam tão ou mais à vontade.

       Nesse minuto o mundo andou outra década.

       Vieram diretamente de Paraty e Abadiânia e Piracanjuba e Cururupu e Palmares e Poção de Pedras, em visitas de férias escolares outra vez, os 3 sobrinhos e as 3 sobrinhas do homem que amava sua barba.

       Acari era uma dessas meninas sobrinhas. Num total ainda de doze para treze anos, olhos tenros pele tenra cabelos tenros sorrisos prediletos passos tenros. Que aos dezoito para dezenove poderia sair de casa para estudar em Porto Alegre ou Florianópolis. Iria morar com uma tia que era até parenta do homem que amava sua barba. Lá em Porto ou Floripa, estudaria odontologia ou engenharia e namoraria muito. Pensaria em ser modelo, que altura e beleza e charme e natureza tinha de sobra. Suas saídas à noite para beber cerveja e jogar conversa fora com os amigos num barzinho da Cidade Baixa ou da Lagoa da Conceição. Quando chegasse aos trinta para trinta e um se mudaria para o interior de Pernambuco cidade de Penalva, ou zona rural do Maranhão lugarejo de Catende. Haveria ali de ganhar um filho e nunca mais retornar para rever parentes ou aderentes ou etc. da família. Regressou voando na pele de um passarinho, mais precisamente conhecido como uma xexéu.

       O que tem de ser que seja. Desde o primeiro mundo. E um dia tem que ser o dia.

A paciência que foi aprendendo, deu ao homem a ideia de prender os sobrinhos para engorda. Esperou que se estufassem de gordos. Assim, convocou os parentes próximos, e em especial desenterrou a família a esposa e os 5 filhos e o mascote, para se refestelarem no churrasco. E assou os sobrinhos e as sobrinhas deliciando a todos os convidados. A esposa queria tomar chá de jasmim-do-mato, queria pratos decorados com motivos indígenas da tribo anambé, queria uma nova marca de máquina de lavar louças, queria conhecer nas próximas férias a praia de Olhos D’água, queria morar perto da mãe na ilha de Atalaia. No final, para sobremesa, o homem apresentou os cérebros dos sobrinhos sacrificados nas suas respectivas cabeças separadas destampadas com direito a olhos arregalados olhos estrelados olhos esbugalhados.

       - Direi o quê?

- Que gosto e me divirto com essa lógica?

       - Que já estava desconfiado disso?

       - Pra quê, pra quê?

       - Ah, por favor!!!

       E foi um longo dia de espera que se arrastou.

       O homem e sua barba ficaram zanzando pelo centro da cidade, entraram nos museus nos açougues nas igrejas de todo tipo nos quiosques de garapa nos hotéis da rua principal nos botecos. Sentaram no balcão, ele pediu a cerveja espumante e começou a olhar o chão sem parar. Pelo sim pelo não, mergulhou em si. E bebeu e fumou, mais que o costume, e cochilou.

       Mas era como nos outros dias, os bruaás do trânsito, o sol perseguido por nuvens, as lojas desertas, as manchetes de crimes bárbaros, as japarandubas da rua em fila indiana. Lá um minuto sentiu fome pediu 3 pastéis de queijo e os engoliu em 3 bocados. E todas as mulheres e meninas, umas mais outras mais ainda, sorridentes, sorrisos de modelo nova, não olhavam diretamente nos olhos nos olhos. Seu coração de homem que amava sua barba, embora, seu coração flutuou sobre, como uma pandorga de cores abertas, sobre a cidade pontiaguda.

       O homem e seu cavalo e seu cabelo encaracolado e seu dourado relógio analógico de pulso saíram do palco e de cena aplaudidíssimos. Centauro parou em todas as manchetes de revistas de telejornais de sítios. Marcou época, bateram boca os que disseram escreveram. Ninguém guardou a imagem ou o nome das vítimas, só do algoz. Logo logo teve uma rua com seu nome. Um dia terá uma escola um bairro um chafariz num lugar qualquer desse vasto país.

       Eu mesmo saí do teatro orgulhoso do nosso teatro. Ah, como foi higiênico o desempenho do principal! Ah, o seu cavalo mangalarga puro-sangue, brilhoso, garboso, esportivo, quadrúpede, bandeira, só faltava cantar em italiano! Ah, como meu país é bom nisso! Ah!, e outras coisas, etc., etc.