Capítulo 1
1
Olhando o espaço sem começo nem fim,
aéreo, indefinido, parentemente vazio, sem tirar os olhos, impossível,
invisível, alto, largo, longo, longe, longe...
De muito longe mesmo.
Um dia, manhã cedo muito natural,
Lilás desceu da galáxia distante onde hibernava brilhava residia habitava
coabitava. O céu limpo azul, Três Marias, Cruzeiro do Sul e etc. e ex.
Veio pelo espaço aberto como se fosse
uma pedra atirada. Um pingo respingado. Veio vindo pelo espaço, veio vindo sem
esforço, cruzando o vácuo. Riscando o espaço, ziiimmm!... sem obstáculos dia
limpo bem pelas barbas de ouro do sol amarelo amarelo. E já se aproximando
verdadeiramente da atmosfera do planeta Terra.
Atravessou as raras nuvens brancas
riscando o ar e veio caindo. Já caiu na terra, tooon-que!... Caiu do céu.
Despencou lá de cima como um objeto não identificado, um óvni, como um fantasma
misterioso, como um meteorito, como um pedaço de gelo incendiado, como pedaço
de aeronave ou sucata de satélite artificial, igual macaco que quebrou o galho
ou igual fruta madura...
E Lilás caiu aqui mesmo, tooon-que!...
ralando o chão, abrindo o chão, aterrissando dificilmente. O objeto bateu com
tudo diante da terra. Com o estrondo abriu um buracão, uma cratera, um abismo,
um hiato, uma rasura, um grotão.
A menina caiu e rolou pelo chão de
terra vermelha e de areia e de pedras soltas e de folhas secas e de gravetos
leves e de caquinhos cortantes. E se materializou como gente de carne e osso e
cabelos ruivos e pele lilás. Suja de pó. Acordou e disse:
- Oi!! Que lugar bonito! Que lugar
lindo! Que cânion! Que dolina! Que isso! Que aquilo! Parabéns!
Do fundo do buracão olhou em volta,
barrancos e mais barrancos, céu nas nuvens. Sacudiu o pó vermelho dos cabelos
vermelhos, espantou as avermelhadas formigas-correição do corpo lilás. Levou
horas dias meses semanas e séculos para subir o perau o valão. Como um
tatu-bola saindo da toca.
E daí? Daí que Lilás, dez verões e
mais dez invernos somados totais em dez anos, estava ali olhando em volta,
sobrando: umas florzinhas amarelas e nativas jogadas pelo caminho, porção
dessas flores, só amarelas, e foi olhar de perto. Plantas naturais como nunca
viu, espelinas, amores-secos, anileiras, caroás, avencas-estreladas,
capebas-cheirosas, japecangas-brancas, mbuís... Abelhas e besouros e libélulas
e borboletas e joaninhas, zunzunindo zonzas zangadas. Abelhas zumbindo,
zuuuuo!... besouros zoando, zoooou!...
Então, a menina veio caindo no mais?
Veio só de brincadeira? Pra que que veio de tão longe? Veio fazer o quê? Chegou
batendo no solo e abrindo buraco, mas pra quê?! Eram estas e outras perguntas
sobre perguntas e que sobravam.
Lilás não chegou de disco voador? Nem
chegou de helicóptero? Não chegou de cometa? Nem chegou de explosão virtual?
Caiu assim, sem mais nem menos? Qual o motivo? E Lilás não explicava e nem
dizia mais nada. Tinha caído do céu, aberto um grotão e estava ali, pronto.
Bem que a menina podia voltar para
sei lá que mundo do espaço. Bem que podia voltar lá para a sua estrela. Bem que
podia voltar para o lugar de onde veio. Não podia? Claro que podia, se
quisesse. Então, era isso: ela nem quis voltar e escolheu ficar. Estava com
preguiça de voltar para o seu mundo estelar, interestelar, interplanetário,
distante. Subiu o barranco, inclusive.
Já que Lilás se viu aí, pegou e foi
até a aldeia dos índios tapimirim. Um casal de pica-paus-dourados,
que-que-qué!... no alto da guabirobeira:
- Olá! Que bom dia, né, menina?!
- Que lugar é este, específico? -
perguntou a garotinha. Por acaso aqui é Jijoca de Jericoacoara, Ipixuna,
Sarapuí, Vão do Paranã, Ubajara, Boa Vista do Tupim? Quede o rio Mearim?
- Não nem não é! - disseram as aves
em coro.
- Por acaso seria... deixe ver...
seria Pouso Alegre, Parnamirim, Corumbá, Tomé-Açu, Rancharia, Calumbi, Lençóis?
- Não, nem uma vez! - gracejaram os
alados grasnaram em uníssono.
- Então, eu vou adivinhar! Jogo que
aqui é Jaraguá do Sul ou Banabuiú ou Itupeva ou Itaetê ou Granja Canguiri pela
Estrada da Graciosa?
- Neném! Longe disso. Aqui é o lugar
do bairro Passo d’Areia em Porto Alegre nos tempos mais ou menos dos índios
tapimirim - responderam ao mesmo tempo facilmente os pássaros.
Não demorou quinze minutos e Lilás
já estava entrando na taba no círculo formado de palhoças da aldeia dos
tapimirim. E foi aquele alvoroço de novidade, de curiosidade, de descoberta. E
foi aquele transtorno e auê na aldeia. E foi aquele fato histórico. Uma coisa
inédita, exclusiva. Assombrosa para os índios. Diferente, fantástica para a
guria. Nenhum índio ou índia tapimirim tinha visto ser vivo do tipo que Lilás
se apresentava. Nunca tinham visto uma menina lilás. A menina do espaço nunca
tinha visto índio ou índia. Era mesmo, como foi, de assombrar e sair correndo
para o mato ou para o espaço sideral.
E muitos índios e índias e curumins
e cunhantains e bichos de estimação saíram correndo e gritando para o capoeirão
mais próximo. Todos escaparam de Lilás como se ela fosse um monstro de outro
planeta. E era um etê, mais ou menos.
Imagine se o sol fosse quadrado, que
emocionante.
Então, Lilás esperou que tudo
acalmasse. Ficou olhando a aldeia já abandonada e toda a tribo no mato. Lá do
meio das árvores ficaram de olho nela, espiando, espionando, espreitando. E a
menina de olho neles, cheia de curiosidade, curiosa, meio envergonhada. Uma
esperou pelos outros. E os índios esperaram. E Lilás ficou esperando. Um índio
atirou uma pedra para espantar Lilás. A menina se esquivou e ficou ali,
inocente.
Depois o cacique Jarivá, cocar de
penas amarelas e verdes e vermelhas na cabeça, vestido com manto de penas de
tachã, caxinguelê Butiá no ombro, tê! tê!..., saiu do mato com o arco e a
flecha preparados e apontada para a menina. A menina viu e ficou aguardando o
índio. O índio cacique Jarivá foi foi se chegando com cautela e preparado pra
dar o bote. Lilás nem tinha dúvidas. Lilás sabia que não era visita anunciada e
nem bem-vinda. Lilás esperou o cacique chegar bem perto. Outros índios, com
tacape e zarabatana na mão, seguiam o cacique. Outros índios com arco e flecha
seguiam o cacique. As índias carregando os curumins e cunhantains no colo.
Crianças chorando. O cacique chegou bem perto. E Lilás falou:
- Pode relaxar, seu índio. Sou de
muita paz e estou de férias escolares. Cheguei por acaso e já vim desarmada.
E o cacique Jarivá baixou o arco com
a flecha e ficou olhando e pensando e calculando e balançando de um lado pro
outro, falou:
- Mas você é indiazinha de que
tribo? Nunca vi. Talvez dos vizinhos amigos mongoió, ou dos amigos cumanaxó, ou
dos amigos coroado? Das tribos distantes que nem mais se ouviu falar, os
sapará, ou os avakatueté, ou os galibi-do-uaçá, ou os purecamecra, ou os
xipináua, ou os curuaia?
E, então, olhando em volta de si,
Lilás percebeu que toda a tribo tapimirim estava presente e cheia de
curiosidade. O cacique tocou a pele da menina Lilás. Muitos guerreiros e cunhãs
e cunhantãs e curumins e cunhantains e pequenos bichinhos de estimação também
tocaram a pele da menina, os cabelos, o nariz, os beiços, etc., todo o corpo
lilás da menina Lilás. E cheiraram e experimentaram beliscar e sentiram e viram
na ponta dos dedos se nem saía tinta.
Até que se conheceram, praticamente.
E trocaram uns toques e cafunés. E trocaram uns olhares mais mansos. E trocaram
uns sorrisos. E trocaram umas carícias e suspiros e ois e tapinhas nas costas.
E trocaram mais palavras:
- Você está sozinha ou acompanhada?
- perguntou Jarina, a primeira esposa do cacique Jarivá.
- Você foi abandonada no mato? No
banhado? No perau? - indagou o curumim Guapeba, futuro cacique da tribo, filho
do cacique com a primeira esposa.
- Você é filha de Tupã? - se
interessou o pajé Conabi.
- Você nem teve medo de caminhar
sozinha pelo campo? - quis saber o guerreiro Upatã.
- Você está com sede? - ofereceu a
cunhantã Obirici.
- Você parece flor da
amoreira-da-silva! - curiosou o guerreiro Jacamim.
- Você quer comer pitangas,
guabirobas, araticuns, guabijus, araçás? - ofertou a cunhantã Uirá.
- Você é filha de peixe? - perguntou
o guerreiro Seriguela.
- Você saiu do tronco da árvore acá?
- indagou a cunhantaim Tapiá.
- Você nasceu hoje de um murundu? -
era o tio Quataquiçaua.
E a menina foi com quase todo mundo
da taba até a oca mais próxima beber água e comer umas frutas doces da estação.
A aldeia tapimirim ficava no alto de
um dos paredões em volta da cratera. De um lado a mata e o campo. Do outro lado
o buraco, o perau, a cratera. Tinha também um riozinho que passeava bem perto e
caía no grotão. Esse riozinho caía em cascata lá para dentro do cânion e
recebia o nome de Jacuí. Punhados de quero-queros faziam alarde. Viviam na taba
umas cento e cinquenta pessoas, uns oitenta bichinhos de estimação ou
xerimbabos.
Depois do meio-dia, a curuminzada
foi correndo buscar butiás no butiazal. Lilás estava no meio deles. Conversando
muito, rindo todos, se enticando, e todos ao mesmo tempo. Bando de periquitos-ricos
corria pelo céu.
O sol disse, falando para si mesmo
que ninguém podia ouvir:
- Estou satisfeito com isto!
O sol alertou, seus ziguezagues
ultravioletas:
- O mundo é bom para todos os muitos
dias!
Guapeba, curumim de uns doze anos,
levava seu baitaca Cujumari no ombro, levava no outro ombro, levava no braço,
levava no antebraço. Este baitaca às vezes gritava, tri-tri!... outras vezes
ria, ra-ra-rá!... e também imitava a voz do curumim Guapeba. Guapeba falava e
Cujumari remedava:
- Oh, muitos butiás!
- Butiás! Butiás! Butiás!...
Como foi o resto do primeiro dia de
Lilás na tribo? E como foi sua primeira noite de dormir na aldeia? Será que
dormiu bem, deitada na rede ou na esteira?
E se a lua fosse que viesse chegasse
bem mais próxima perto e deeeeste tamanhão...
2
Que o vento noturno imitou o bengo,
pri-pri-pri!... imitou o bacurau, ras-pe! ras-pe!... imitou a suçuarana, ron-co!
ron-co!...
Acenderam um fogo fogueira dentro da
cova perto da palhoça do cacique. Muitos vieram ali e sentaram no chão em
redor.
A índia Auí, cabelo preto liso lustroso
até o meio das costas, fazendo férias da cidade, bermuda verde, andarilha de
trilhas pela Chapada Diamantina na serra do Espinhaço, estendeu o braço
esquerdo e falou maranduba poranduba história conto narrativa causo:
- Mas isso foi há muito, muito
tempo. Acho que sim. O que eu estava fazendo lá? Nem sei. Mas digo e repito.
Com vocês.
“Lá atrás do céu tem o céu tem o céu
e tem o céu, imaginem.
“No princípio do mundo nem havia
gente. Tupã, o nosso deus-capitão, escolheu duas pessoas, pai e filho, para
achar objetos e dar nome às coisas. E eles dois foram viver numa tijupar no
meio das árvores da floresta. Perto de um rio. Perto de uma montanha. Entre
árvores ou no sarobá como esses exemplares de aqui por perto, bacaba,
bacurizeiro, janatuba, itá, sapucaia-branca, mutamba-preta,
matamatá-vermelho...
“Muito tempo depois de depois e tempos depois.
Pronto, novo dia agora ia começar. O sol se levantou e aconteceram as nuvens, a
cadeia de montanhas conhecida serra do Mar, o rio Paraguaçu, a ilha de
Itaparica, a pupunha-verde-amarela, o papa-sebo, o saá, o tucuxi...
“Pai e filho chegaram na casa do
tatu. Ali eles desenterraram, lá do fundo da terra da terra, desenterraram
retiraram as pessoas, os índios maué, uma tribo inteira de índios maué. Então,
os maué foram os primeiros índios do planeta.
“O tangará repete diferente, o japim
é engraçado, a gralha-azul assobia como ela só, gavião-preto grasna cristalino,
supi-de-cabeça-cinza gorjeia melodioso e é ágil no voo, o serra-serra canta
macio, juriti-vermelha gosta da beira do rio, o sofrê adora pintangas amarelas.
“Daí, o pai ou o filho, pegava uma
pedra do chão e dava asas e dava pés e dava cor e dava canto e dava cores e
fazia o pássaro de belas plumas. Assim, etc. e ex. A ave abria os olhos
assustados e corria para o alagado, a saracura. A ave abria os olhos
assombrados e voava para o espaço azul, o vim-vim. A ave abria os olhos
amarelos e pulava para a árvore curupiá, a araponga. A ave abria os olhos doces
e continuava procurando sementes maduras, o ferro-velho.
“Mesmo assim, certo dia, o sol saiu
para caçar. Levou arco e flechas. Descansou ao meio-dia. Voltou de tardezinha.
Tinha caçado pouco. Me falou: “Nem cacei quase nada nada.”
“O jurupari habita o fundo das
florestas. Ele aparece para dar bons conselhos aos jovens índios. Ele vive nas
beiras dos rios pelas matas ciliares nas margens dos grandes rios, rio Pacajá,
rio Maicuru, rio Sapucaí, rio Grajaú, rio Sabia e mais outros tantos rios.
“E de vez em quando alguma coisa
estalava ou acontecia no mundo dos nossos pés e bem no começo. Certa manhã os
frutos de uma árvore atraíram uma ave. A ave piou alto e outras aves chegaram.
E de repente eram todas as aves. E era comida para crescerem e se criarem.
Começou a chover perto da noite. Choveu a noite toda. De manhã as árvores e as
aves ficaram ainda um tempo olhando a chuva e esperando mais um pouco. Muitas
gargalhadas pios gracejos na manhã festiva, umidade de cem por cento. A água
que caía corria no rio. O rio sabia seu caminho de cor. A árvore já decorara
seu lugar. A ave também tinha seu voo sabido e salteado. E o mundo se povoava
de rios de árvores de aves e queria mesmo saber até onde poderia chegar. O
mundo ficou escutando tomava nota bem interessado nessa conversa dos deuses
deusas.
“O que é a natureza, hein?!, o
tacacazeiro, a graúna, a taraíra, a mumbuca, quem somos nós grãos de areia.
“A macaxera tem caminhos secretos
pela mata. Os caçadores tapimirim se espinham procurando caça entre as plantas
de espinho, abacaxi, gravatá, jurubeba-de-espinho... eram armadilhas da
macaxera. Só para proteger a caça dos caçadores. E protege as plantas. E
protege o mel das abelhas irapuãs. Macaxera defende a sorte dos bichos do mato
pois mora no mato. Sempre disfarçada. Uma vez... ela se transformou num
muriqui. E ficou fazendo barulho de longe. Os guerreiros foram perseguir os
sons e levaram um dia dois dias uma semana. E nada. Macaxera faz isso só para
cansar os caçadores. Macaxera era assim. E ainda é.
“Veja as estrelas, pense no sol,
aproveite o sol, sua força de explosão de fogo, sua luminosidade colorida! Veja
as árvores com suas raízes e troncos, amanhã bem cedo suba nas árvores
timboúvas goiabas-de-anta catanduvas cuités e pule no rio, suas raízes fundas
até as folhas verdes! Veja o rio, nade na água fria insossa inodora incolor
espumante entre pedras e pepitas de ouro e surubins, o caminho das correntezas
até o mar!
“Há muito tempo, no início de tudo,
nasceram as estrelas. A mãe era a noite e o pai o dia. Nasceu a estrela do mar
e foi morar no fundo do oceano Atlântico. Nasceu a estrela menino e foi morar
no céu. As estrelas do mar não sabem das estrelas do céu e vice-versa. E são as
histórias.”
Acabou a lenha das histórias, o fogo
foi esquecido, o fogo esfriou, as labaredas viraram sombra. Os ouvintes ficaram
com frio desde os ossos e foram se deitar.
As estrelas continuavam a comer pipocas.
O vento expandia o ronco dos bichos. Os sapos-martelos coaxavam nos escondidos
do alagado. A coruja-carijó espreitava os menores sons da noite.
Cedo, antes do nascer do dia, Auí
pegou sua mochila de pano acomodou a tiracolo e viajou para Três Rios. Um par
de juruvas piavam perto no pasto, rim-rim! rim-rim!...
3
E pronto, isso foi.
A cunhantaim Tatajuba caiu doente com
febre alta. Deitou na rede, se encolheu, quase imóvel, semidormindo, gemeu
coisas sem sentindo, delirou, falou qualquer coisa, suspirou, se queixou de
dores espalhadas pelo corpo, sensibilidade à luz, muitos calafrios, ãh! ãh!
ãh!... se revirou na rede com sonhos mirabolantes catastróficos gigantescos,
nem tentou mais abrir os olhos.
E pajé Conabi chegou para atendê-la. Era
urgente. Pajé entendia de todos os males. Curava tudo, sabia curar todos os
males. Curava males visíveis e males invisíveis. Pajé fazia rezas e beberagens
e o que fosse para salvar os doentes da tribo. Entendia de plantas medicinais,
erva-santa, timbé, putumuju, favas-elétricas sementes de nogueira-de-cobra...
Conabi vinha sempre vestido com pele de
onça-pintada. Conabi era o legítimo jaguaraba. Colar de dentes de onça-pintada,
gato-bravo, nos pulsos cordões com conchas e pedras furadas, nos tornozelos
guizos de jararaca. O maracá, tretetê! tretetê!... feito com barriga de
porongo, com cabeleira de guariba, cabo de taquarapoca. O maracá sempre
agitado, cheio de sementes e pedrinhas, tretetê! tretetê!... E pajé Conabi
chamava os antepassados com o chocalho, tretetê! tretetê!... Fazia uma espécie
de dança erguendo uma perna erguendo um braço e com resmungos, u-tã! u-tã!... E
Conabi abria caminho para o ente Caruana com a fumaça do cachimbo e com o barulho
do maracá, tretetê! tretetê!...
- Eu conheço todas as árvores - dizia o
pajé. Eu conheço todas as plantas, ariá, tuiué-tipi, tucumã, cipó-de-imbé,
apuizeiro, caeté-bravo...
O vento vibrou as folhas diferentes, o
arvoredo agitou, as folhas verdes já renovadas, o perfume já esverdeado, as
formigas no trabalho costumeiro antes da chuva. Árvore imbuia sacudiu seus
cabelos de folhas verdes e conforme o vento. O ipê-amarelo balançava suas
melenas já antes do vento. O colhereiro olhou os aguapés, o jacaré-de-papo-amarelo
subiu o barranco do alagado. A chuva caiu com mais importância que o dia o
vento o alecrim-de-são-josé o calor do dia.
A crise de Tatajuba começara na
madrugada e depois das nove horas nem sinal de melhora. A cunhantaim continuava
com os pesadelos. E revirou os olhos, procurou agarrar qualquer coisa solta no
ar, nem reconheceu ninguém, muxoxou, falou qualquer coisa, disse besteiras,
respondeu falando:
- Vou para o cemitério... uh! Vou
para o grotão... uh! uh!...
Lilás pensou em sair, mas chovia
muito. Pensou em dormir na rede, pois chovia demais. Pensou assistir qualquer
coisa na tevê, mas não havia tevê nem internet. A chuva nem pensou em almoçar.
Os habitantes do riacho Jacuí habitaram os alagados as sangas, pacu, piau,
matrinxã, papa-terra, bagre, traíra, muçum... Inhumas estridularam. A chuva nem
cansou de existir. E Lilás foi com uma pergunta:
- O que é o que é, es-tri-du-lar?!
Muitos parentes olharam o estado
difícil de Tatajuba. Ubacaba, mãe de Tatajuba, muito perto de Tatajuba. O sagui
Capeba correu pela rede da doente, nique! nique!... Pajé fumou fumo de pitima
no cachimbo de boca de barro e cabo de taquara. A jabota Piaçaba, tseee!
tseee!... se arrastou ali no chão. Os olhos do pajé Conabi muito abertos,
atentos, doidos, amarelos, irritados de fumaça. Tatajuba delirou, falou alto,
falou não se soube bem para quem:
- Vou descer o grotão... uh! Vou
descer... uh! uh!...
A indiazinha se repetiu por minutos
na mesma frase. Depois teve um momento de sossego e de silêncio da parte dela.
Capeba ficou muito agitado, nique! nique!... Capeba achou que Tatajuba queria
falar com ele? Pajé soprou fumaça nas pálpebras de Tatajuba. Pajé Conabi vibrou
bem no alto o maracá feito de porongo, tretetê! tretetê!...
Pois choveu qualquer coisa também no
dia 15 de novembro. Chovia há dois dias e capivaras pastavam na chuva. Tudo tão
peculiar.
E menina Lilás por acaso pensou o que
estava sendo tão peculiar. Os cabelos trançados numa única trança e jogados no
ombro esquerdo. Os olhos no horizonte de verde da mata, mucuris,
tamaquarés-miúdos, cujumariranas, murtinhas, catucanhéns...
Depois, pajé Conabi foi até sua
palhoça dos espíritos beber mais caxiri bebida feita de maniva. A bebida fez
pajé arreganhar a cara, cara feia, entortar o corpo, tremer de corpo inteiro,
sentir dor de barriga. Pajé roncou como caititu, urrou feito jaguaretê, pulou
como guariba, gritou como graxaim, uivou como lobo-guará, correu em roda como
quati, voou como atibaçu. Mascote Piaçaba, que passeou perto dos pés de pajé,
não entendeu nada. Piaçaba correu perigo sem saber, comeu poeira sem querer,
tseee! tseee!...
Foi que pajé Conabi sentou na torrinha
de cabriúva e fumou mais, fazendo nuvem de fumaça azul e branca. Fumou por meia
hora. Pajé lembrou de Caruana, o ente sobrenatural que ajudava na cura dos
doentes da tribo. Conabi agitou o chocalho, tretetê! tretetê!... A jabota
Piaçaba, tseee! tseee!... caminhava pelo chão de areia sem saber aonde ir.
Os espíritos sem sombra logo se
aproximaram, logo desceram do céu ou subiram do chão. Espíritos sem peso, muito
leves, que viajaram por dentro da fumaça azul e branca saída do cachimbo do
pajé Conabi.
De repente, o pajé tremeu como treme a
vara verde no vento minuano. E começou a falar com o ente associado, o ente
Caruana:
- A chuva veio e se agradou de tudo e
muito e achou a sorte boa! Um dia carregado de eletricidade e de peso! A chuva
quando ela quer ela chove!
O Conabi tentou se erguer e tonteou,
caiu no chão, comeu pó, babou. Depois se arrastou feito um réptil, um quelônio.
Conseguiu ficar muito bêbado. O espírito Caruana falou por ele:
- Um dia cor de árvore feijoa, um dia
cor de peixe tambiú, um dia cor de água da corrente do rio, um dia cor de sol com
chuva...
O sol amanheceu em ares suficientes. Não
restou chuva nem nada. O inhambu-de-pé-cinza espiou o dia trescalante de
alaridos e verdades.
A menina Lilás perguntou à índia
Sapupira:
- Dona Sapupira! Quantos ouvidos tem a
abelha-da-terra?!
Depois o sol passou muito alto. Nuvens
de anus-brancos em preguiçosa. Silêncio e preguiça e ventinho quente e nuvens
brancas. Os mil e tantos olhos da inhaíba contaram o vento passante. Nuvens
brancas tontas, poderosas, sem terem bebido coisa alguma.
Lilás já soube de perto. Lilás vestia
roupa leve com riscados verdes. Ela comeu fruta agridoce, as azedinhas. E teve
um pensamento que ainda ia revelar mas era segredo.
Pouco mais ou menos, pajé voltou à
oca da paciente. Tatajuba ainda delirava, abriu a boca, tremeu toda, quis
levantar, olhos fechados, balançou a cabeça de um lado para outro, falou falou
com alguém sem ver e sem saber:
- Vou sumir no grotão... uh! Vou me
enterrar no cafundó... uh! uh!...
Capeba agia assim pelo interior da
oca. E pulou assustado, medroso, agitado. Nem precisou perguntar o que
acontecia. Capeba se enroscou nos braços da amiga, nique! nique!...
Pajé soprou fumaça nos cabelos longos e
negros de Tatajuba. Pajé Conabi ainda borrifou com feixe de plantas fez um chá
de inúmeras ervas milagrosas e sagradas, caeté-do-mato, caruru-amargo,
ibiranhirá, chá-mineiro, cravina-do-campo... Tatajuba tossiu forte, tremeu de
frio, bateu os dentes, se revirou na rede cheia de sonhos horríveis sonhos
repetidos sonhos fantásticos sonhos espedaçados sonhos de fantasmas
desfigurados e repartidos.
Pajé conhecia os espíritos que
curavam. Pajé chamava as almas dos antepassados que curavam. Conabi chamou os
espíritos dos ancestrais, os antepassados, os avós dos quatro costados. Pois os
avós conhecem a terra e o céu porque habitam os dois mundos. Então, Conabi
chamou, gesticulou, dançou, fumou para ver melhor para falar melhor com os
espíritos para saber ouvir melhor os antepassados.
- Esta árvore é Tupã! Esta árvore é
entendida! Esta árvore é gameleira-branca!
Assim foi o dito e o feito. Os espíritos
do além, tanto do bem como do mal, os espíritos ancestrais, chegaram rápidos,
desceram do céu ou subiram do chão. São entes que não demoram, entes que gostam
de ajudar os vivos julgar os encarnados acompanhar os viventes.
O sol tomou o rumo do mês de janeiro e
aumentou o céu. O vento já correu assobiando e todo muito perdido. Certas
irerês dormiam na sombra do cará. Era uma família depois da noite de natal. O
vento agora sem demora voou já com pressa-pressa. E no perto da noite, sempre
perto das noites, nuns pés de maúbas, dezenas de espécies de passarinhos se
juntaram se sujaram no pó vermelho e também conversaram coisas.
Por um breve descuido da mãe
Ubacaba, Tatajuba caiu no chão, caiu da rede, bateu os beiços no chão, tofe!...
pequeninha. Houve correria da mãe Ubacaba, correria do pajé, correria do
Capeba, nique! nique!... e Piaçaba também por ali ouviu a gritaria geral, viu a
correria, quis se interessar, nem teve tempo.
Tatajuba afundou outra vez na rede e
desabafou, olhos fechados, doente de tudo um pouco, batendo os dentes de frio,
pensamento longe e sabe-se lá onde:
- Vou sumir para o fundo do
grotão... uh! Vou me afogar... uh! uh!...
Pajé soprou fumaça da cabeça aos
pés, dos pés à cabeça de Tatajuba. Pajé apontou o maracá para o teto a
tamacarica da palhoça, tretetê! tretetê!... Capeba pulou para a rede, passeou
no ombro da amiga doente, falou qualquer coisa no ouvido dela, falou na língua
dele, nique! nique!...
A pancada de chuva com trovoadas,
raios e trovões. A chuva lembrou a chuva. Os sapos-ferreiros inundaram os aguapés.
Parentes dos nhundus abriram o bico para o céu. Os olhos cheios de água dos
muriciguaçus.
Conabi ergueu os braços - erguera
muitas vezes, todas as oportunidades possíveis - os braços acima da cabeça,
resmungou e falou alto, apontou o maracá para o teto, tretetê! tretetê!... Pajé
sibilou como sibilava a cascavel a jararaca a muçurana, sile! sile!... A jabota
Piaçaba escutou aquilo e encolheu o pescoço no casco, tseee! tseee!... Capeba
subiu nos caibros da oca, lá para a cobertura, olhos vidrados de pavor, nique!
nique!... Pajé mastigou palavras mágicas:
- E uma árvore azul, e outra árvore
amarela, e mais outra verde, e essa mututi, e mais uma duas três árvores
caminhando na sombra...
Um grasnar de gavião-carijó. Horas
que nem se ouvia. O sol amarelo teve suas razões. Os tucanos-de-bico-verde
remexeram os ramos da goiabeira-do-mato, falaram sensação. O riachinho ali por
perto. O sol escalou do lado. As sombras se espicharam do outro. O calor
estufou estufou as nuvens brancas. De hora em hora o riachinho melhorava.
Quatis de lista preta, anta cheirou o dia, tamanduá-bandeira procurou cupim,
guariba urrou no alto do angico, preguiça comeu folhas de imbuia, maria-boba
desafiou o vento. Tudo exatamente como na mata atlântica. Lebre corria andava e
deixava rasto de lebre.
Os dias que passaram. A temperatura
da cunhantaim sofreu os altos e baixos, ora quente ora fria. Tatajuba entre o
rio e a morte, o ir e o vir. Olhos fechados e boca escancarada. Muitos dias e
muitas noites o pajé Conabi rezou suas orações ancestrais, fumou, cachimbou,
bebeu, andou preocupado de um lado pro outro, murmurou, dormiu encolhido
enrolado no chão, etc.
Pajé encheu a oca com a fumaça do
cachimbo. Pajé chamou os espíritos dos avós. Pediu associação com Caruana.
Chamou pai do pai, avô Guapuruvu. Chamou mãe do pai, avó Corticeira:
- Oh, avó Corticeira! Oh, avô
Guapuruvu!
Conabi assombrou e tapou a oca com a
fumaça do cachimbo. Pajé empurrou Piaçaba, tseee! tseee!... sem querer. Conabi
tremeu o chocalho, tretetê! tretetê!... na cara de Tatajuba. Capeba tossiu,
tossiu, cofe! cofe!... e reclamou da fumaça, nique! nique!... Pajé soprou
fumaça na boca de Tatajuba. Conabi cantou, uivou, imitou muitos bichos da mata
do banhado do campo, o jaguané, o pássaro carretão, o papa-mel, o jurutau...
Então, Tatajuba foi e delirou outra
vez, falou tossindo, tufe! tufe!... falou coisa sem juízo, falou coisas que
ninguém compreendeu:
- Vou parar no fundo do grotão...
uh! Vou até lá... uh! uh!...
Pajé
Conabi voltou à tijupá dos espíritos. A Piaçaba, tseee! tseee!... foi junto
carregada debaixo do braço e colocada largada no chão de poeira. Pajé se
acomodou na torrinha de angico. Bebeu mais cauim muito muito forte. E fumou até
entupir a palhoça de fumaça. Chamou pelos espíritos amigos e companheiros, os
avós:
- Oh, Caruana! Oh, Macaxera! Oh,
Abaçaí! Oh, pai do meu pai, avô Guapuruvu! Oh, mãe do meu pai, avó Corticeira!
Meia hora depois, Conabi retornou à
oca de Tatajuba. A luta contra a doença da cunhantaim estava muito braba e difícil.
Já fazia mais uma tardezinha. A aldeia estava sempre preocupada com cunhantaim
Tatajuba que não voltava da doença. Pajé tropeçou na pedra do caminho e caiu
com Piaçaba, tseee! tseee!... e maracá, tretetê! tretetê!... no chão de poeira
vermelha. Logo se ergueu e correu para atender a paciente.
- E as árvores estão perto dos
arbustos e estes das plantas, maracujá-de-cobra, alfavaca-de-cobra...
Pajé chegou perto da paciente, a
poeira veio junto, os resmungos, os espíritos convocados. Tatajuba ainda delirava,
nem tinha noção do que falava, falava coisas sem sentido, sem ideia. Falou como
uma maluca:
- Vou parar no grotão... uh! Vou que
vou... uh! uh!...
Somente o sol compreende que mundo é
este, e que sempre existiu existirá ali fora. Macacos-pregos foram na
ingazeira. Ruflar de asas, par de curiós. Triscar do famoso
anambé-branco-de-bochecha-parda. Um sanhaço-de-coqueiro o dia todo chamando
chuva. E nem foi preciso fazer mais, tudo ficou como mil e uma maravilhas.
Um belo dia os papagaios-de-cara-roxa,
em bando, em família, em colônia, chegaram ao grotão. E gostaram porque
gostaram do paredão de terra vermelha. Fizeram tocas para construir os ninhos e
dormir. De manhã e à tardinha aquela gritaria. Ficaram por aí. Todos falaram
todos gritaram ao mesmo tempo e se entenderam. Então, alçaram voos para ir até
lá e voltar com algazarra. Saíram pela manhã e voltaram perto da noite. Voos
desajeitados. Gritando por tudo e por nada. Ficaram parecidos com a paisagem.
A menina Lilás estava querendo fazer
milagres. Fazer milagres de verdade. Fazer coisas extravagantes extraordinárias
extraterrestres e por isso precisava do auxílio da chuva. E como ter um motivo
de chuva para chover?! E Lilás perguntou para si mesma:
- Quando a chuva vai cair?!
- Quando a chuva vai vir?!
- Quando a chuva vai chover?!
Mais uma noite chegou no interior da
palhoça e foi aceso o fogo de chão e o pajé inundou o ambiente com a fumaça do
cachimbo. Soprou fumaça no coração de Tatajuba. Piaçaba na cabeça do pajé, como
se fosse chapéu, tseee! tseee!... Capeba no braço da rede de tucum, perto da
cabeça da amiga doente, nique! nique!... Pajé nem esqueceu de chamar os
espíritos para o seu auxílio, balançou o maracá, ensinou o caminho, tretetê!
tretetê!...
- Oh, avô Guapuruvu! Oh, avó Corticeira!
Tatajuba continuou dormindo muito
mal, encolhida, se revirando na maquira, segura pela mão da mãe Ubacaba.
Tatajuba ainda nem sabia onde estava, não sabia de nada, nem abria os olhos.
Tatajuba continuou muito mal, mas pajé Conabi podia salvá-la com puçanga.
Tatajuba podia ser salva com a ajuda dos espíritos convocados.
E era só esperar. E esperar como se
espera. E tudo acontecerá do jeito que tem de acontecer. E pronto.
4
Lilás desconhecia muito, total e
completamente, a idade da tribo tapimirim. E o acaso da sorte a empurrara para
a aldeia tapimirim.
Então, Lilás não sabia olhar os
índios e índias sem perceber que estavam nus. No verão os índios e índias
andavam nus, com penas de papagaio-campeiro enfeitando as canelas, os braços,
as orelhas, a cabeça, as partes de baixo e de trás. No inverno os tapimirim se
enrolavam em peles de onça-pintada ou capivara ou paca ou cutia ou anta ou
micurê.
E Lilás foi percebendo quê: tudo
depende de quem olha o quê, e o que olha para quê.
Depois, Lilás correu acompanhando os
curumins e cunhantains até a sanga. Todos os indiozinhos e indiazinhas sabiam
nadar. Lilás ficou na praia ali do riozinho só olhando. E nem queria se
arriscar. Aí, as cunhantains pegaram Lilás pela mão e a menina aceitou entrar
na água. E as cunhantains mostraram como se dava braçadas na água, pernadas,
cambalhotas. E como se mergulhava e se catava pedrinhas no fundo. E como se
mergulhava de olhos abertos para ver os lambaris, cascudos, ajunta-pedras,
traíras, bagres, jundiás, curimatãs, arraias-pintadas... ali do riozinho. Lilás
aproveitou um tempo de um ou dois dias de brincadeiras na água para aprender e
aperfeiçoar tudo e sair nadando como peixe.
Lilás foi sentindo quê: nadar bem
era como perder o receio da água e ganhar o mundo das águas.
Daí, correram para o campo, as
coxilhas, as canhadas, os banhados, barbas-de-bode, línguas-de-vaca, macegas,
casas de cupins, sapos-martelos, araticuns-do-morro, ema abraçada aos
filhotinhos, umbus de braços estendidos de sombra enorme. E todos os
indiozinhos e indiazinhas sabiam trepar rapidamente em árvores. Uns subiam nos
araçazeiros, outros nas pitangueiras, outras ainda nos mandaravés. E uns até
nas pupunheiras, umas até nas inajás. Lilás sabia escalar em árvores, mas não
tão rápido assim, mas não tão alto assim, mas não tão perigosamente assim. E a
curuminzada ainda ia para a ponta dos galhos, os galhos entortavam, os
indiozinhos e indiazinhas se balançavam, faziam macaquices, riam muito. Lilás
olhava e sentia vertigens por eles, por ela.
Lilás foi aprendendo quê: subir em
árvore era mais fácil quando também se sabia descer de árvore.
Ali mesmo, no capão de mato, já se
ouvia muitas espécies de passarinhos cantores cantando e conversando. Os
passarinhos cantavam ao dia, ao dia transparente. Os passarinhos conversavam
com a esposa, com o compadre, com os filhotes, com os amigos, com os inimigos.
E a curuminzada já saía imitando todos eles no piopio. Não havia ali indiozinho
ou indiazinha que nem soubesse arremedar cinco ou seis cantares de passarinhos.
Lilás ficou escutando os passarinhos cantores. E Lilás escutou os indiozinhos e
indiazinhas cantores, assobiadores. Tentou cantar como as indiazinhas, tentou
cantar como os passarinhos. Tentou cantar e errou. Tímida para cantar como
passarinho, nem queria mais cantar como avezinha. Aí, as cunhantains e os
curumins foram ensinando os detalhes e macetes para a menina Lilás. E foram
incentivando. E bateram palmas. Então, Lilás foi tentando, e de tentativa em
tentativa imitou o curió, imitou a corruíra, arremedou o cardeal, imitou a
pomba-rola, rooou! rooou!...
Lilás entendeu quê: para cantar como
passarinho nunca se deve tentar acompanhar e imitar, desde o primeiro dia, o
canto do talentoso sabiá-do-campo.
Na semana seguinte, dia de pesca,
todos os curumins e cunhantains foram chamados pelo cacique para irem à pesca.
A curuminzada seguiu o cacique Jarivá lá para o reino do riozinho. Os bichos de
estimação ficaram em casa, eles detestam água, a maioria não suporta nadar.
Veio chegando o barulho de água correndo nas pedras, e uh-uhs!... de sapos e
rãs, zunzum, zuuuu! zuuuu!... de carapanãs ou pernilongos.
- Vamos para a boca-do-pari - falava
e repetia o cacique.
O riachinho, que desfilava livre e
leve e solto pelo campo, depois caía em cascata lá no fundo do grotão, esse
pequeno rio Jacuí sofreu uma mucuoca, ou barragem feita de ramos, galhos,
pedras para diminuir a força e facilitar a pesca. Então, a curuminzada entrou
na água e começou a bater e espremer, espremer e bater o cipó-timbó. Este
cipó-timbó deixava na água um líquido tóxico para os peixes, deixando os peixes
tontos, deixando os peixes bobos, deixando os peixes meio quietos e boiando.
Depois de um tempo fazendo o
processo do japicaí, o cacique Jarivá trovejou:
- Curuminzada! Vamos pescar! E
peguem os puçás e pesquem o que puderem!
E os curumins e cunhantains entraram
na água até a cintura e pescaram muitos dourados, pintados, charutinhos,
muçuns, acaris, mandis... tudo com as mãos tudo com jereré tudo com euforia.
Lilás soube imediatamente quê:
cunhantains e curumins pescam melhor com as mãos porque sabem olhar a água
transparente.
Pé ante pé, os indiozinhos entraram
na mata para caçar toda e qualquer caça que surpreendessem. Esperavam por tudo,
e nem sabiam o que esperar. Lilás, por enquanto, levava sustos atrás de sustos.
Os indiozinhos e indiazinhas riam. Mas Lilás queria também aprender as manhas
da caça legal, da caça sustentável.
Aí, ouviram um piar, um pio,
piuuuu!... Foram imediatamente procurar o piador. Às vezes chegavam a
surpreender o nambu empoleirado num toco, num tronco caído de tapinhoã, numa
pedra, no alto dum barranco, atrás de uma moita de alecrim-de-são-josé, na
sombra de um juazeiro.
Então, ouviam um ronco, rinque!... e
iam atrás procurar o pai ou a mãe ou o filhote do ronco ou ronquinho. De
repente assustavam a roncadora e a cutia fugia, e aí era tarde demais.
Na ponta de um capãozinho, perto de
uma restinga, perto também de um campestre, ouviram uns gargarejos, gargarejos
tipo assim, gru-gru-glu!... Silenciaram todos. Ouviram outra vez o gargarejo se
repetir, gru-gru-glu!... Pois aí, silenciosamente, e calmamente, foram no rumo
dos gargarejos. Às vezes os curumins e cunhantains até tinham receio de
encontrar com jacaré-de-papo-amarelo. Se fosse jacaré a corrida seria na certa.
Ali ali foram todos atrás de umas
pegadinhas muito bobas, uns rastinhos muito bonitos, uns rastinhos muito pé com
pé. E, logo logo, um risinho, um rinchinho, rim-rim! rim-rim!... Deram mais
dois passos e se depararam com um sorrinho comendo coquinhos de tucum e rindo
de boca cheia, rim-rim! rim-rim!... O sorrinho abria os coquinhos, jogava as
cascas e ficava com a castanha. Mas daí quê, sorros são todos iguais: sorros
são ariscos, tímidos, serelepes, bonitos, elegantes, interessantes. E muito se
custa chegar perto de um sorrinho, são muito leves e espertos e rápidos. Sem
falar que soltam um cheirinho muito muito sujo. E os fregueses, que eram
cunhantains e curumins, tiveram que correr e encontrar água e se jogar na
sanga.
Então, assim, o sol foi embora e nem
olhou sem olhar para trás. Bandos de periquitos-ricos sobrevoavam a aldeia de
momento a momento. Bugios eram ouvidos e vistos nas árvores especialmente nas
copas das guapuruvus. Para o lado do nascente do dia ficavam os 700 pinheiros
araucárias. Voavam também jacamins, caraxués, japins e outros
tucanos-gritadores.
Lilás aprendeu quê: nem todo dia era
dia de intervir na floresta.
E a curuminzada, o dia todo, todos
os dias, ia e voltava de cá pra lá. Eram donos do mundo. Assim como nuvens
soltas e brancas, sol pra cá e pra lá, piar de, reeeu! reeeu!...
gavião-relógio.
Na primeira noite de Lilás na
aldeia, recordando, ela foi dormir cedo como toda a aldeia. Foi se deitar cedo.
Lilás estava cansada da viagem interplanetária. Mas na segunda noite, já custou
muito a pegar no sono. Lilás não se acostumava a dormir tão cedo, a dormir sem
tevê, sem as redes sociais. E todas as noites a indiada toda ia dormir
totalmente cedo. E andaram andaram mais uns dias. Sendo assim, após umas
noites, Lilás foi se acostumando e se acostumou.
Dizem até, e nem ficou reprovado,
que quando o sol desaparece pro outro lado do... mundo, D vai junto vai pro
outro mundo. Dizem, mas isso nunca que ficou provado e ninguém provou. Até
hoje.
5
Havia índia antiga que contava
história na beira da fogueira, a índia antiga Auí contava história de entreter.
Ela morava na cidade de Nova Esperança do Sul, avenida Jerônimo de Ornellas.
Conhecia outros lugares, muito viajara, viajeira, viajada, conhecia Xavantina,
Luziânia, Bom Jesus da Lapa, Tabuleiro, Jaguaribara, Arapiraca, Olho d’Água do
Casado e outras cidades mais ao norte, São Francisco do Brejão, Recursolândia,
Goiatuba... Enfeite de miçangas três voltas no pescoço nos braços. Era até
amigada com homem caboclo de nome Aluá Murupi. Auí ergueu o braço esquerdo e
seguiu a história:
- E o tupã-sol multiplicou o chão
pela altura. E aparecendo continuou subindo. O sol com suas nadadeiras
giratórias como asas de zabelinha ou colibri. É sua maneira astral de levar e
trazer o dia. Amanheceu cheio de araras-vermelhas-grandes, cheio de papagaios-do-peito-roxo,
cheio de reserva do Taim, cheio de sarandis, lotado de juparás, povoado de
ipês-brancos, cercado de canelas-de-ema, do meio dos pés de erva-lanceta, e
praia Cabo Branco, praia Pontal da Barra, praia Porto Grande e todas as outras
coisas.
“Antes, no começo do mundo, nem
existia a noite. Só uma sombra no fundo do rio Paraopeba. Então, o índio Poti
foi pescar no lago e conheceu a Jurema filha da iara. Eles vieram e chegaram a
se casar. Logo tiveram um casal de filhotes, o Cajati, a Poruti. Mas Jurema
ficou com saudades do fundo das águas e pediu para seu esposo ir lá e buscar ou
comprar a noite. Só um pouquinho, disse ela. Poti não pôde ir mas mandou cinco
guerreiros amigos, Guabiraba, Macambira, Tauri, Uiruucotim e Taperebá. E eles
foram e mergulharam no rio. Lá embaixo o quinteto de guerreiros negociou com
iara a mãe-d’água e pediram emprestado a noite. Só por uma noite. Iara
concordou e disse: “Eu empresto, mas cuidado, pois a noite não pode ver o dia
senão tudo se perde na escuridão!” A iara deu a noite dentro de um coquinho de
tucum que não podia ser aberto antes da hora. Os guerreiros concordaram prometeram
e vieram embora. E remaram, remaram, remaram... No meio do caminho eles ouviram
um barulho no interior do coquinho, tetém! tetém!... Curiosos, os guerreiros
abriram o coquinho e tudo sumiu...
“Antes do tatu chegar, os índios nem
sabiam o que era o fogo. Tatu chegou e disse: “Querem fogo?” Os índios
concordaram. O tatu falou: “É pra já!” Tatu juntou pegou duas pedras juntou
pegou capimpeba bem seco juntou pegou alguns gravetos juntou pegou e mandou:
“Venha fogo!” O fogo veio e os índios timbira prepararam moquém para assar
peixes e tracajás.
“No começo, tatu quis povoar a terra
com gente. Daí, foi tirando do buraco um casal de índio de cada nação, os mura,
os mundurucu, os suruí-aiqueuara, os aruá, os ajuru, os guaraio, os catágua, os
pareci, os reriú, os tupiniquim... e pra mais de 200.
“De novo são histórias que começaram
para lá atrás no tempo. Tupã, que quase sempre vive no céu, descia vez ou outra
para passear na terra. E se banhar no rio no lago na lagoa no riacho. E comer
maturi. Quando se ouvia trovão pancada estrondo vindos do céu, podia contar,
Tupã estava descendo pra terra. Tupã é trovão e raio. Tupã é altíssimo. Foi
Tupã quem mandou a macaxera cuidar da mata e dos bichos da mata. E ente
macaxera começou a cuidar a andar a varrer a espiar a guardar tudo que diz
respeito ao mato, ao rio, ao pampa e aos bichos que habitam ali.
“Veja o vento como é feliz nos topes
das aiúbas, salsas-do-brejo, tamataranas, pitombeiras, mãos-de-onça... as
nuvens tocadas para oeste, céu aberto ao calor das tardes e que nasce do bafo
da terra! Veja os jasmins-do-mato como dão flores na estação, a serra do Mar
pintada aqui e ali de árvores amarelas brancas coloridas borboletas
beija-flores-tesoura-verde!
“Uma vez, o tatu pegou uma folha de
juçara e fez uma bolinha. Aí, jogou a bolinha no chão e saiu a capivara, jogou
outra bolinha e saiu o cachorro-do-mato-vinagre, mais bolinha e saiu o
macaco-aranha, e pintou a juiponga, e saiu o mico-de-topete, e saiu o
gavião-carapateiro...
“Vento leve e branco na praia
deserta do rio Parnaíba. As garças-brancas caminhando de pés descalços.
Palmeiras batauás e guaricangas-de-folha-larga e bacabas-de-leque balançando o
azul e branco do céu. Calor forte, areia branca, manhã de Tupã descansando na
rede. A jaçanã perguntou:
- Que é que há?! Como vai a
paisagem?
“O Tupã abriu bem os olhos e olhou a
ave e se espreguiçou e respondeu:
- O que todos pensam que separei as
árvores pela cor. Não, nada disso. Eu separei as árvores pelas abelhas. E as
abelhas pela geografia. As abelhas no térreo as abelhas no primeiro andar as
abelhas no segundo andar no terceiro andar... e todas as alturas de árvores
desde baixo até lá em cima.
“O rio Urupuxete assim mesmo
volumoso caudaloso mesmo na estiagem adorando a paisagem.
“Tupã parou a conversa e se sentou
sobre as primitivas nuvens. Foi ficou e parou para ouvir o que se ouvia o que
acontecia, as jandaíras buscando mel do outro lado do vale, os muricis-da-mata,
os preás correndo no alagado, os peixes-bois, as ipecacuanhas-brancas, os
guácharos, a onça-parda camuflada descansando na soroca, as juritis-vermelhas,
as tuiparas-de-asa-dourada, os caapiás-do-sul, os muntuns-favas, os canindés...”
O sol, esse sim, pessoa de
transparente sucesso talento para brilhar na pintura de árvores pássaros rios
amanheceu cedo, conforme o trato, e surgiu amarelo amarelo entre as árvores.
Era demais até.
A árvore ficou vermelha, respirou
fundo, respirou rápido, e disse:
- Uta! Que calor, gente!
E a árvore coraina-amarela teve
vontade de mais, mas baixou a copa.
Pássaros pescavam derrubando como
iscas frutinhas no riacho. O vento tinha pressa de dar a volta ao mundo. As
flores lilases e amarelas e brancas e de todas as cores gastavam o perfume os
cheiros os aromas e no durante o sol. Quanto mais a mangabeira tinha sorte,
mais se acostumava. Folhas maduras do pé de dedaleiro, folhas verdes de um
esverdeado, muito próximas do verde-azul, verde muito normal, verde somente
natural, cabeleira ao vento, mil olhos de brilho lustroso.
O casal de pintassilgos foi tomar café
da manhã no araçá-do-campo. Mururerana cantou como uritutu. O ajurucatinga
agitou como jeguiri. E beija-flor-brilho-de-fogo se casou no pé de
paratudo-do-campo.
6
Já no primeiro lanche da primeira
hora do primeiro dia da primeira caçada que Lilás participou, na boa rotina da
tribo tapimirim, ali mesmo, Lilás conheceu a maneira espontânea e tradicional e
típica e sem nove horas que os índios e índias tinham para comer, se alimentar,
engordar e ficar grandes e raçudos e fortes.
Lilás foi passear com a curuminzada.
E Lilás viu o mato grande o pinheiral a floresta. No caminho os indiozinhos e
indiazinhas descobriram, debaixo de um tronco podre de canela, um ninho imenso
de formigas tanajuras. Mas pra quê! Curumins e cunhantains se jogaram no
formigueiro e começaram a puxar formigas de lá de dentro. E colocaram no dente
e morderam e engoliram com sorriso nos olhos. Lilás ficou olhando os insetos
sendo engolidos, olhou o efeito nos olhos da curuminzada, ainda nem acreditava,
já ressabiada, queria copiar, não copiou.
Manhã de pássaros os tipos mais
locais e comuns que se conhecia e diversos. Dia radiante novo em folha em céu
azul.
- Olha lá as nuvens voando!
O verde do vento recebendo na cara o
mexido murmúrio das plantas, caami, ananás-de-agulha, pindobeira, ipê-roxo,
seringueira-itaúba...
Daí a pouco, uma cunhantaim ofereceu
uma formiga das mais gordas. Lilás viu a formiga espremida nos próprios dedos e
pedindo socorro. Foi lentamente aproximando dos próprios dentes a coitada da
formiga o infeliz inseto que pedia, por favor!... Tentou morder a formiga, mas
foi a formiga que mordeu primeiro e seu lábio inchou.
Se ouviu um grito da menina,
gargalhadas dos amigos, pássaros voando de ali por perto, anajé guinchando no
alto do espaço.
Logo logo Lilás foi querer tentar
outra vez. E a menina tentou duas três vezes sem sorte. Foi ganhando coragem?
Foi ganhando moral da curuminzada? Sim, foi ganhando consciência e prática. E
quando engoliu finalmente a primeira formiga... Aí, Lilás sentiu um gosto de
terra preta. Logo sentiu que a formiga passeava por dentro dela toda, passeando
na garganta, passeando no esôfago, passeando na barriga, passeando por dentro
de tudo que era ela lá por dentro. E correu beber água, arrotou e afogou a
formiguinha cheia de tenazes e pernas e antenas...
Durante todo o dia, mas já na parte
da tarde, a menina Lilás passeou com a curuminzada pelo campo, pela margem do
riachinho, pela beira do grotão, pelos morros que circundavam a aldeia dos
tapimirim. Lilás correu, pulou, subiu, desceu, ouviu coisas, nadou, escalou,
suou... E sentiu fome e muita sede. Lilás suspirou e perguntou:
- Vamos comer formiga?
Os curumins riram e as cunhantains
riram, acima de tudo.
Lilás aprendeu mesmo quê: quando se
sai no sol o lógico é se escaldar.
Dormiu fechou os olhos dormiu e
sonhou com coisas apetitosas com lugares que iam e vinham coisas rebrilhantes
coisas novas contou nos dedos diversos números ensaiou nomes de formigas,
tocanderas, carrieiras, itaocas, tapiaís, curupés, um labirinto de trilhos por
dentro de si, e não viu mais nada.
7
Uma manhã limpa isolada e de sol
bonito, e de surpresa, a aldeia dos tapimirim se viu invadida pelos vizinhos
índios os coroado.
Foi uma surpresa porque ninguém esperava
que vizinhos atacassem vizinhos. Nem seria um convite para festa. E eles
atacaram. E eram, então, os inimigos.
Vieram em bando de 30 guerreiros
invasores. Tinha mais. Trinta guerreiros coroado mais trinta mais trinta. O que
eles queriam com toda aquela guerra? Por que inventaram atacar com essa pressa?
O que eles queriam com todo aquele combate nervoso urgente?
Queriam roubar os cabelos bonitos negros
longos das cunhantãs tapimirim. E aquilo era uma preciosidade. E aquilo era um
alto troféu. E aquilo era um amuleto contra a má sorte na caça na pesca na
coleta de frutos do mato. E aquilo era o fim da picada.
Os coroado entraram pelo lado do
arvoredo no mato de janatubas. Chegaram de supetão e fazendo o maior alarde.
Gritos de bichos gritos de pássaros assustados gritos de feras atacando, urrrr!
urrrr!... Todos armados de tacape borduna e arco com flechas na cestinha tamacuera
e machado-de-âncora e facas de pedra afiadas para cortar cabelo das jovens
índias. Todos pintados de urucum e de jenipapo uns já conhecidos entre os nomes
mais guerreiros, Aimberê, Coaquira, Pindobuçu, Zorobabé, Ariragboia, Tuíra,
etc., ex. E gritavam pocema grito de guerra sem parar:
- Vou cortar cabelo vou cortar cabelo
vou cortar cabelo e levar cabelo e levar cabelo de cunhantã bonita cunhantã
formosa!...
Pareciam cheios de bebida cheios de
delírios cheios de fumaça cheios de ira. E estavam mesmo muito drogados de
várias drogas feitas de ervas plantas daninhas.
E enquanto uns roubavam os cabelos das
índias mais jovens e bonitas, os outros brigavam sem parar com os guerreiros
tapimirim que tentavam impedi-los. Uma brigaiada uma gritaiada medonha e
perigosa e de gente grande.
- Vão embora seus animais loucos! -
berrou o índio tapimirim Jiquitaia.
- Eu quero cabelo bonito de cunhantã
tapimirim para fazer talismã! - urrou o guerreiro Cunhambebe coroado invasor.
- Isso nem vai ficar assim! - gritou irada
a tapimirim Ubacaba.
- Eu vim buscar cabelo bonito para dar
sorte! - falou outro invasor coroado, o jovem Tibiriçá.
- Vocês vão ver que vou me vingar um dia,
seus graxains! - prometeu outro tapimirim, o Taiuiá.
- Quero patuá de cabelo da jovem
tapimirim - disse o guerreiro coroado Timborana.
A peleia durou uma hora mais ou menos e
foi muito feroz e foi muito xucra e foi bastante. No fim de tudo os coroado
roubaram dez cabeleiras e uns apanharam e uns bateram e uns saíram
manquitolando. Uns coroado saíram com cabeça sangrando zonzos e bem machucados
e, do outro lado, uns tapimirim ficaram com cabeça sangrando tontos e bem
machucados.
As índias que perderam os cabelos
bonitos negros longos ficaram com vergonha de aparecer. Seus parentes que não
puderam defendê-las ficaram com vergonha de aparecer. Seus irmãos mastigaram
muita ira muita raiva e juraram vingança.
Os que protegeram suas irmãs muito bem e
conseguiram bater na cabeça dos invasores, esses se orgulharam e riram da
façanha e contaram prosas e versos:
- Olha só, meu irmão! Eles tiveram que
correr bonito! Eu não sou qualquer coisa! Olha só o tamanho do meu braço, olha
só essa cicatriz, percebe?! - falou o orgulhoso Purupaqui.
O outro guerreiro o Guaçatunga, muito
cheio de si e fazendo muque:
- E o meu braço é do tamanho de um
tronco de jatobá dos grandes! Eu sim que tenho força pra bater em dois ou três
coroado de uma vez! Podem vir quatro que eu me viro sozinho! Podem vir que
estou esperando faz tempo! Eu me garanto!
Mais um guerreiro o Upatã todo faceiro e
valentão explicou aos curumins curiosos e assustados, enquanto mostrava os
braços poderosos e cheios de arranhões:
- Sou forte como uma pedra! Sou forte
para brigar com vinte ao mesmo tempo! É só eu querer! E eu quero muito! Tão
vendo ali aquela árvore manipuçá? Pois eu a arrebento com uma cabeçada! Querem
ver?!
As jovens cunhantãs que não perderam
seus lindos negros longos cabelos abraçaram e fizeram cafuné aos seus irmãos
protetores. Chegaram perto e pegaram aqueles braços fortes e apertaram os
músculos os bíceps.
O cacique Jarivá, um dos que mais lutou
mais bateu mais apanhou mais salvou jovens de perder os cabelos, disse para todos
ouvir e tomar nota como exemplo:
- Eu sou forte como um jaguar nervoso!
Eu não tenho medo de cara feia e de inimigo nenhum! Venha o que vier! Viram só
como eu bati nesses bobos dos coroado?! É assim que tem de ser! Guerreiro que é
guerreiro luta como gente grande e se agiganta na hora da luta!
Tuxaua Jarivá bateu de punho fechado no
peito, bateu várias vezes, pleque! pleque!... sentou na beira do fogo e sentiu
muita fome e comeu com muito apetite depois da luta. E se orgulhou e falou bem
alto para todos ouvir. Falou façanhas de oitocentas palavras por oito horas
durante dezoito semanas para oitenta plateias:
- Minhas filhas não perderam cabelo!
Minhas parentes não perderam cabelo! Eu sou forte o bastante para proteger
todos os meus parentes e ainda sobra força e braço e tacape para ajudar aos
muitos irmãos e irmãs!
Aquelas bravuras e bravatas foram
conversas para muitas noites e muitas fogueiras e muitas risadas.
- Eu quebrei duas cabeças de coroado. E
eles saíram chorando que nem gambá! - dizia a índia Caapomonga.
O pajé Conabi, com a Piaçaba na cabeça,
tseee! tseee!... lembrou a todos da vingança:
- Isso nem vai ficar só na lembrança na
história! Nós vamos vingar nossas cunhantãs ultrajadas! E o mais cedo possível!
Os coroado que invadiram a aldeia dos
tapimirim para roubar cabelo bonito de índias jovens tapimirim eram vizinhos e
sempre foram amigos. E viviam na outra volta do grotão. Pois o grotão o buraco
a cratera era muito grande e separava os diversos territórios. Cada aldeia com
seu lugar.
Em volta do buraco viviam quatro aldeias
de tribos diferentes. Às vezes eram inimigos e se guerreavam. Outras vezes mais
vezes eram amigos e se visitavam e trocavam presentes e caçavam juntos. Quando
eram amigos, falavam a mesma língua, praticamente. Falavam a língua geral, o
nheengatu. Quando eram adversários, um nem entendia a língua do outro.
- Como é que vocês nomeiam esta planta?
- perguntava, por exemplo, um índio mongoió para um cumanaxó.
E o outro respondia:
- Nós, os cumanaxó a nomeamos árvore
cocão, e vocês?
E o mongoió dizia e respondia:
- Nós, os mongoió, a nomeamos árvore
cincho.
No lado sul do grotão, para os lados do
rio Taquari, viviam os coroado. No lado norte, o lado oposto do buraco, moravam
os mongoió, junto ao rio dos Sinos. No lado leste, eram os conhecidos
tapimirim, que mandavam no rio Jacuí. No lado oposto, o oeste do pôr do sol,
eram os cumanaxó, que pescavam no rio Ijuí. Esses rios todos eram pequenos e
caíam na cratera sem fazer muita água muita espuma muita cachoeira muito
barulho. Esses quatro rios nem eram rios, eram riachos riachinhos córregos
riachuelos.
Assim era o mundo por ali na região e
cada um tinha o seu território para caçar pescar e viver muito bem sem precisar
invadir o do outro.
Só de vez em quando o
bicho pegava e era para fugir da rotina.