Alice, onde
esteve, aonde ia, aonde queria chegar. Nadou para leste, caminhou para sul,
remou para norte, voou para oeste. Partiu, repartiu e tripartiu. E isso e
aquilo. E o zumbido, zuzuzuuuuu!... de vespa amarela barrada de preto.
Alice queria
isso mesmo, e subiu ao último andar do prédio maior da cidade de Belo
Horizonte, o Neblina:
- Um grande
monte de concreto e ferro e vidro mui alto e redondo.
E tudo estava
realmente bom, tudo estava bem, tudo à vista, belo horizonte aberto, bonito do
alto, cidade estendida igual uma colcha de retalhos, um tabuleiro de xadrez,
cidade de Minas, Beagá, Belô, Curral d’El-Rei, Minas City, desde 1894. Acabou
crescendo muito e além do esperado, sô!, além da conta, uai!, montanhas de
ferro, minas de ouro e pedras preciosas, chove, faz sol e faz frio.
Alice
olhava a sua volta, olhava, esperava, refundava e tinha um pênalti para cobrar,
cobrar de quem?, cobrar dela mesma? Não, não importava. Alice, passando a mão
pela alta juba, sufocada, cobrou o pênalti:
-
Alguém acredita em mim? Terei sido assim, terei sido assada?
Depois,
Alice andou ali pelo terraço do prédio Neblina, que parecia mais como uma torre
de Babel para alcançar o céu azul, uma pirâmide egípcia, e andou, se perdeu
tanto que esbarrou num homem cego e sua bengalinha, toque toque toque!... ela
pediu perdão, ele pediu desculpas, e se desorientaram um pouco.
E ela falou e
desfalou meio conformada, meio devagar, parecia se ausentar, vivendo entre dois
três mundos diferentes. Caminhava abraçando os braços.
Essa a cabeça
toda de Alice, cabeça toda de nuvem nas nuvens, respirava muito depressa, muito
oxigênio no cérebro. As ideias lá dela estalavam, rugiam, miavam. Ela estava em
tumulto, a mesma desordem, a mesma de sempre. Com uma cabeça de cata-vento. Os
pensamentos rastejavam. Perguntou ao cego:
-
Você é o presidente desse shopping center Neblina?
O
cego não quis entender ou completar, perguntou:
-
Que andar estamos?
-
No teto: total, centésimo quinquagésimo sexto.
-
Há pouco ouvi um bem-te-vi gritar, qui-qui-ri-quiii!...
-
Bem-te-vi? Não creio. Bem-te-vis preferem pastar o verde não o azul.
-
Bem-te-vis são muito engraçados, eu sei. Onomatopaicos...
Pelo
menos uma vez por mês, ali mesmo num andar do Neblina, num consultório
qualquer, Alice visitava o analista: este pesquisador de comportamentos, atos e
omissões. E ela procurava... como assim?!, isso mesmo, ela procurava novos
beijos e novos abraços, uta! Marcelle acompanhava, esperava na antessala
brincando com jogos de armar, desenhando figuras numa folha em branco para
colorir. O analista insistia, sujeito sério, uma casa de campo em Estrela do
Sul, debaixo do seu bigode mineiro:
-
Pois ninguém já se lembra que é mortal.
Alice,
brincos de pedras bonitas, ametistas, ágatas, tossiu:
-
Às vezes as coisas acontecem e a gente nem sabe como. A história se faz e a
gente nem sabe como.
Alice
sabia que tinha um L pela frente. Um L de: Labirinto. E completou:
-
Um livro, um livro não me fará uma prestidigitadora incólume.
O
analista, rugindo de trás dos dentes de pato:
-
Um livro, um livro a fará uma prestidigitadora incólume.
Alice
trabalhava no setingentésimo andar do shopping Neblina. Pisando em nuvens
brancas, interagindo com nuvens. Junto, bem próxima, bem vizinha de camirangas,
helicópteros, aviões supersônicos e satélites artificiais.
No
mês seguinte ou semana seguinte, Alice voltou ao consultório do analista,
enquanto Marcelle aguardava na antessala brincando e remexendo nos jogos de
armar, fazendo ocas azuis e amarelas, cavalos vermelhos, árvores cor-de-rosa ou
verdes, o analista declamou:
-
Alice, como todo o mundo que é mortal, você deseja ser imortal, embora eternos
sejam somente as estrelas diamantes.
-
Acho que estou correndo risco de vida. Então, acho que estou correndo risco de
morte. Acho também, isto sim, sinto um pouco meio muito de dor no lado.
-
Você, Alice, soluça à noite?
-
Quem, aí, quer saber de mim? Quem, aí, se interessa por mim?
Alice,
saindo do consultório, reencontrou Marcelle entretida com uma revista com
reportagens de outro planeta. O magazine estampava grandes reproduções de
painéis de igrejas e de casas importantes e de fazendas do tempo do império.
Marcelle, muito esperançosa, a mãozinha esquerda de cinco dedos no ar - como
uma estrela-do-mar:
-
Mãe, é a velocidade de um pingo correndo no pampa! Mãe, é uma boa porção de
barcos na praia! Mãe, é um moço tocando violão debaixo de uma árvore azul! Mãe,
é um rio e sua ponte de ferro! Mãe, é um monte muito bonito com estátua no
alto!
Uma
palmeira catolé afastada isolada da manada, era bonito. Uma borboleta azul,
marrom e preta bebendo néctar. Uma menina com olhos estrangeiros, olhos com
sotaque catarinense. E a borboleta azul, marrom e preta voou, saiu nadando
desenhando no ar uma borboleta azul, marrom e preta. E ainda a embaúba-puruma,
que Alice chegou mais perto e perguntou:
-
Tem, aí, alguém me procurando?
Alice,
um patuá no pescoço, Alice ali no alto da torre Neblina, no lusco-fusco, uma
pedra verde pendurada no pescoço, quase anoitecendo. Alice restava ali sozinha,
olhando as luzes da cidade lá embaixo, um zepelim boiando pacífico no ar, era
um charuto e tanto!, e mais pelo ar um pensamento silencioso de um deus goitacá
ou caiouá, uma pergunta de alta pe-ri-culosidade: O que que houve? O que você
estava querendo com isso? Por que você perguntou isso? E Alice decidiu andar
pelos corredores, elevadores, andares, galerias da torre, florestas suspensas,
andava de costas, andava de costas, caminhava de costas, era noite lá fora, a
terra pronta para dormir e comendo uma raiz de cenoura crua. Vibrando no ar
havia outros mundos, mistérios como o das águas, o das montanhas, o dos
vegetais, o dos sons vindos das tevês, a chuva que ameaçou e não veio, já eram
vinte e três e trinta, Alice não acreditava:
-
Eu não acredito!
Alice
tinha várias caras para mostrar os variados dons de riso, sorria toda ela,
sorria na barriga, sorria no pé, sorria na barriga da perna, ria ah ah ah!...
ria ih ih ih!... sorria nas cores, ria como um saci, eh eh eh!... a lua sorria
na cara dela, as borboletas ensolaradas sorriam, a lua sorria, o arco-íris
sorria.
No
alto da alta torre Neblina, os helicópteros pareciam harpias, pareciam
camirangas, e sobrevoavam, e até pousavam, voavam onde os aviões não voavam,
revoavam onde os pássaros eram raros, voavam onde os insetos não alcançavam,
voavam em meio às nuvens que interrompiam o trânsito em dias ocasionais.
Alice
viu passarinhos. Passarinhos não, helicópteros. O analista só aguardando,
caneta de metal na mão, se balançando na cadeira confortável, etecétera. Ela
desabafou:
-
Eu fui uma caminhonete atolada, eu fui lavadeira de beira de rio, eu fui de
nome Melissa, eu fui uma candeia-de-caju, eu fui belinha no banhado, eu morri e
fui e voltei outras vezes, estou aqui, não sei de nada.
Uma certa hora
do dia, uma quarta-feira, Alice viu alguém chegando no fim do corredor,
centésimo oitavo andar do colosso, toque toque toque!... era o cego. Alice
parou, o cego vinha chegando e cheirando o ar, os cegos reconhecem também pelo
cheiro, chegou perto de Alice, Alice parada não imitia nenhum som, o cego
parou, cheirou o ar, cheirou o calor no ar e reconheceu Alice:
-
Rosas vermelhas pisadas. É Alice, não?
-
É Alice, sim. Prolfaças!
Então,
Alice tinha naquela hora o cego pela frente, parecia que o cego estava cansado,
sabe-se lá, ansioso, e qualquer coisa fora do comum, fora dos planos. Rápido
pronunciar Pindamonhangaba; difícil será Aiuruoca.
O
sonho de Alice parecia um anúncio de carro do ano: “Uma cor vermelha no céu,
numa estrada ensolarada com vales verdes lá embaixo, uma viagem onde as pessoas
estavam aí sem precisar trabalhar, beber um suco de abacaxi e não parar de
sorrir, e palavras coloridas que saíam da boca em desenhos coloridos e
tridimensionais, tema de colégio: aplastada sapitucada esfrolada polifonada
pletorada acatasolada irrisada esparavelada ascuada mirificada catrambiada
exprobrada acendrada algariada.”
No alto alto
Neblina, ainda um outro sonho: “Uma ave convidou ela mesma, Alice, para voar,
para passear, para gavionar. Alice virou ave, uma harpia, uma fragata. Então,
esqueceu as palavras ou as palavras a esqueceram. As palavras a abotoaram. Voou
em círculos, piou, grasnou, chiou. E Alice foi voar um lugar para morrer.
Depois de piar e depois de morrer, voltou, retornou no corpo de uma orquídea
amarela com traços de azul, ou um pé de sete-capote, ou um espírito muito
levezinho de alface. Todos em volta se ajoelharam.”
De
manhã, ao acordar toda esfarrapada, cabelo torturado, olhos emergindo mal e
mal, a cobrança do pênalti:
-
O que vou ser ao reencarnar? O que me restará ser ao voltar? Vou e volto?
Alice
não amava o cego, o cego amava Alice, mas Alice ainda assim decidiu fazer um
esforço para amar o cego, pelo menos conhecer o que o cego tinha a oferecer,
pois, até dizem, que os cegos desenvolvem muito o tato, são ambidestros, e o
olfato, e a sensação do calor, e a língua, e o paladar.
-
Que pegue e pegue bem e não se apegue!
Um
outro dia, Alice acordou disposta e leve e faceira como se nada tivesse
acontecido, como se nada tivesse a dizer, e foi até ali e voltou assobiando.
A
lenda rogava que debaixo dos pés da torre Neblina, quem sustentava tudo, era um
jabuti gigante de ouro. Os pés dele sobre uma tracajá mais velha que o sol e
muito gigante. A tracajá botava ovos à noite, numa praia do rio Tapajós, e não
tinha nome por enquanto. O jabuti não podia nem piscar, de tanta
responsabilidade. A tracajá velha pegava carona montada nas costas de uma
baleia jubarte gigantérrima. A jubarte era sem nome também, e mãe de longa
data. E que esta baleia jubarte ia todos os anos veranear nas imediações da
reserva de Abrolhos. E Abrolhos era pouco mais que uma gota de orvalho no olho
mágico de Marcelle. Tudo tudo na versão fantasiosa de Marcelle, que também
tinha o direito de imaginar.
-
Acorda, Marcelle! Acorda, Marcelle! Vem beber seu suco de maracujá ou de caju
ou de mangaba.
Marcelle
tinha cabeleira de touceira, de juba, e por isso mesmo as pessoas não deixavam
de lhe afagar. Abriu os olhos e aterrissou no mundo de cá. Ela mesma suspirou,
riu e soprou:
-
Mãe, debaixo do Neblina tem um jabuti meio pintado de amarelo.
-
Ah é, é?
-
E depois uma tartaruga de rio tão velha tão velha tão velha como o sol ou a
lua.
-
Mais o quê?
-
Uma baleia jubarte descongelada e mãe de muitos jubartinhos.
-
Fazendo?
-
Veraneando na praia de Boa Viagem.
-
E mais nada?
-
Uma gota do jardim suspenso do paxá. Ou será do xará? Ou do xeique? Ou do
crachá?
-
E não acaba nunca?
-
Acabou na lâmpada maravilhosa de Aladim que berrou... Shazan!
-
Milagre de quê?
-
Suco de mangaba.
O
sol que se descabeçara recém recém no novo amanhecer, e luz natural abundante,
trouxe na ponta do nariz o dia inaugural. Todos os belorizontinos acordando, ou
quase quase. Todos se ajoelharam. A pirâmide Neblina era um labirinto, era um
guaratuba, era um cairoga.
-
Espero um dia, espero um dia encontrar os ventos do dia, e com esses ventos
navegar os ares e mares do mundo. Ainda espero alcançar.
Alice
gostava de se achar ou se perder pelos corredores do Neblina ou do monte
Pascoal. Lá no alto do alto, aqui no alto do alto, reparando horas e dias toda
a cidade a seus pés. E o cego também? O cego vivia todo o tempo ali, aqui e
acolá. O cego seria o chefe cacique do Neblina? Talvez.
Um
dia, no alto do Neblina, ducentésimo andar, Alice se preparava para ficar horas
distribuindo migalhas aos pássaros. Estavam aí, naquele ar meio rarefeito, ela
e uns gaviões-de-penacho, uns urubus-reis, umas harpias, andorinhas. Alice mais
tarde teve a companhia surpresa do cego, surgiu pelo corredor toque toque
toque!... chegou ali, o nariz erguido no ar, talvez excitado com o perfume de
Alice, o cego sorria sempre, o cego sorria, reconheceu Alice, Alice falou:
-
E a verdade do meu dia?
-
Vai de boca em boca.
-
Nada é igual para ninguém.
-
O que sei, o que ouvi, o que toquei, o que não vi, o que cheirei, o que
degustei, o que chorei, o que topei... enfim.
-
Não, isso não vai ficar assim. Alguma coisa precisa ser feita. Urgentemente. Eu
detesto enigmas.
-
A vitória de hoje é a derrota de amanhã. Perde-se hoje, ganha-se amanhã. Um dia
é da caça, outro do pescador.
Então,
enamorado e possessivo, preso a uma ideia romântica e egoísta e ultrapassada, o
cego achou, catou no ar, a mão de Alice. E Alice deixou que ele a levasse.
Pois, Alice também precisava que alguém ficasse com sua mão. O dia colaborava
para isso, o serviço de dar quirera aos alados não era para pressa. O cego
contava os dedos de Alice, e Alice achava graça e não ria muito alto, o cego
contava um por um os ossinhos dos dedos da mão de Alice, e Alice relaxava
porque ele sabia contar ossinhos falanges falangetas e falanginhas. Alice sabia
que nem todos os homens sabiam ou tinham a paciência de contar e recontar todos
os ossinhos dos dedos da mão de uma pessoa feminina. Depois de bem cheirada,
testada, lambida, apalpada e dedada, ela já se deu por satisfeita, se despediu,
relaxou e saiu.
O
Neblina não tocava o céu, mas quase. Torre altíssima, lugar de render graças
aos céus. E dos últimos andares, cheios de antenas, mal se via a terra. Acima
das nuvens, acima da chuva, mais perto das estrelas - alfa, beta, gama e delta
ou o Cruzeiro do Sul -, e chovia mesmo era da cintura para baixo. Como uma
pirâmide ao vento. O shopping Neblina era uma pirâmide gigantesca, tinha
pirâmides menores perdidas nas suas partes, mas parecia uma pirâmide super
gigantesca. Pirâmide de vidro, vigiada por um milhão de câmeras, quase virtual.
Alice
estava numa das muitas salas amplas, ajardinadas e com repuxos, do grande
aeroporto da torre Neblina, quando o cego chegou, cheirando o ar, no toque
toque toque!... da bengalinha, a respiração excitada, a boca voluntariosa:
-
Alice, sabe o quê?
O
cego se sentou no sofá ao lado de Alice. Talvez fossem negociar um lugar no
Neblina para Alice e família. O cego falava sorrindo, o sofá enorme e verde de
frente para as soberbas janelas com vistas para a cidade, lá embaixo, de Belo
Horizonte. O cego já sabia distinguir o cheiro das partes de Alice, o cabelo
alçado, os braços, as pernas, o pescoço. O cego cacique seria, então, uma
pessoa importante e manda-chuva ali na pirâmide? O cego lambia os lábios,
lambia os lábios como uma jaguaretê lambe os lábios ao ver comida se movendo. O
cego apontou o nariz e tragou Alice, já fazendo uma careta de prazer. Alice o
olhou e fez uma careta engraçada, que o cego não ouviu nem cheirou. O cego
negociava apartamentos, vendia, comprava, trocava, alugava, emprestava, doava,
rifava, sorteava, presenteava, sublocava.
Alice,
para falar a verdade, estava presa à torre Neblina. Marcelle crescendo a toda.
Alice gostava de andar descalça pelo seu apartamento do centésimo vigésimo
oitavo andar. Alice na marca do pênalti, com paradinha e tudo:
-
E agora? Aprender o quê? Aprender que coisa?
De
vez em quando se ouvia barulho entre as nuvens em volta do Neblina. Um poeta
tocando violoncelo numa nuvem, talvez. Depois, o poeta ou poetisa pisava nessas
mesmas nuvens brancas. E nos jardins suspensos, canteiros de orquídeas, seleção
de orquídeas, competições de bromélias, conferências de bibis, exposições de
três-marias. Essas orquídeas tinham mais de trinta e cinco mil espécies
deslumbrantes. Ali, orquídeas terrestres e aéreas, muito variadas na cor.
Flores caprichadas e pintadas de novo. E o ar com cheiro de mel. E o poeta
continuava a tocar, o dia todo pela parte da tardinha.
De
uma certa altitude muito alta do Neblina, Alice viu lá embaixo as árvores tão
agitadas ao vento, as ruas verdes, os carros verdes, as lojas verdes, a sombra
verde do Neblina, o dia verde, a Belô verde, as mãos verdes dela mesma abanando
o calor.
Outra
oportunidade, num dos pátios da faculdade de Letras e Idiomas, ali no
quadringentésimo sétimo andar do Neblina, o cego se chegou para Alice, o cego
vinha apreciando o ar, os lábios em bico, e no toque toque toque!... da
bengalinha, e silvou:
-
Cascas de bergamota.
-
Vendeu ou alugou muitos apartamentos e salas do Neblina?
-
Talvez. Mas você cheira à cascas de bergamotas maduras. Veste uma blusa de lã,
manga curta ou verde, verde com lista azul na altura da barriga.
O
espantoso prédio Neblina, um colosso de ouro para adoração do sol ou das
estrelas, realmente dominava o centro do belo horizonte. Uma Babel que
comportava um formigueiro humano, uma cidade das grandes, uma piramidal torre
de Babel.
Quando
Alice compareceu para uma sessão no analista - Marcelle aguardava na antessala
com os brinquedos, os gibis, as revistas de artistas, as revistas geográficas
-, Alice confessou:
-
Quando eu fui ao jardim, quando eu fui até o jardim, tudo passou veloz, tudo
fugiu veloz.
-
A paciência do destino, você sabe.
-
Sou da letra C: de Caprichosa. Sou cheia de mim, vaidosa. Tenho medo que não me
olhem. Estou tão cansada que alguém pode poderia me recolher com uma pazinha de
lixo.
-
Estenda os dedos e mãos e braços para o céu, minha querida.
-
Me sinto caindo num despenhadeiro profundo, escarpado e cartão-postal. Por que
não nasci na baía de Caiobá?
-
Nem oito nem oitenta.
Saindo
da sala do analista, Alice esbarrou com Marcelle contando formiguinhas nas
páginas da revista geográfica. Formiguinhas em fila indiana, e vermelhas, e
preocupadas, atarefadas, amazônicas, e vermelhas como sanguaneizinhos.
-
Mãe, são doze formiguinhas, onde?, onde? Não, mãe, são quinze formiguinhas,
onde?, onde? Espera ver, mãe, são vinte ou dezenove formiguinhas...
Num
dos belos e modernos e eficientes elevadores panorâmicos do Neblina, com vista
aberta para as montanhas de ferro lá longe no horizonte, Alice e o cego, o
cego:
-
Adorei seu vestido amarelo, vaporoso, até os joelhos.
Tudo
certo, tudo bem, tudo ótimo. Só eles dois no elevador climatizado, Alice:
-
E assim é o mundo.
O
cego, apreciando o ar com o nariz no alto. Alice tentou:
-
Que foi? Achou graça muita?
Após
o sexcentésimo sétimo andar, Alice voltou:
-
É. Hoje, enfim, despertei com a chuva chovendo.
-
Teje presa!
Sorriso
de desfile de carnaval dourado e cintilante, bico de arara-azul-grande, olhos
de menino arteiro e afogueado, escamas de cobra ao sol, dedos sujos de tinta
amarela e vermelha e dourada, gorjeios de mata-atlântica, barco propulsado a
vela, mutum-de-penacho passeando, um sol todo: o dia.
Os
andares pararam num determinado andar. Alice e o cego já numa galeria de arte,
entre produções surrealistas, impressionistas, expressionistas, berrantes,
enormes, claras, inúteis, instalações de doer, cheias de cheiros de pipoca. O
cego cuidando de escolher as palavras:
-
Eu sonho, eu não vejo e eu mastigo o pensamento.
-
Sabia que dragão já é bicho extinto?
-
Os dragões são tão tão que respiram fogo, caminham sobre brasas e navegam de
asas.
-
Sabia também que o dia passa e eu também não me acho?
O
cego ficou em silêncio.
Já depois resolveu contar:
-
Na grande ilha de Marajó - talvez arquipélago mesmo de Marajó, uma das cem
ilhotas que pertencem à sombra da ilha de Marajó -, existiu uma tribo indígena
só de mulheres. Não deixavam índio nenhum de tribo vizinha chegar perto.
Caçavam e pescavam com arco e flechas, tacapes, arapucas. Carregavam os
filhinhos nos baquités, pra cima e pra baixo. Manejavam muito bem o arco e a
flecha. Um seio maior que o outro. Usavam no pescoço um muiraquitã de pedra
verde com desenho de sapo. A lua Jaci as protegia. Era um mundo
específico.
Na
marca do pênalti, então, chutou - vai, chuta! -, chutou a dengosa Alice:
-
O que é que está faltando nesse meu corpinho, nessa minha alminha?
De
braços cruzados, Alice admirava a paisagem estendida aos pés da torre Neblina.
Voltava aí sempre que podia. Flocos de paina subindo e pisando o ar e rolando
no ar. O cego se achegou, toque toque toque!... jogou a bengalinha pelo chão,
se ajoelhou e abraçou Alice pela cintura. Mais uma vez reconheceu-a pelo
cheiro. Então, encostou o ouvido no umbigo de Alice, vez ou outra trocava de
orelha, procurou identificar um barulhinho lá por dentro de Alice, tem tem
tem!... O cego, que até poderia ser mesmo o cacique do Neblina, escutou Alice
pregar:
-
Como será o comportamento de um rio ao chegar na paisagem eterna?
-
A eternidade é uma alta estrela-diamante. Ouvi falar.
O
cego, então, se jogou debaixo da saia de Alice, agarrou lá por baixo as pernas
dela, cheirou, lambeu, beijou, cheirou, bateu cabeça, bateu palmas e lambeu,
uivou. Alice descruzou os braços porque não aguentava mais de arrepios, Alice
abriu os braços e os exercitou, até resmungou entre dentes. A guria parecia um
polichinelo, as pernas dela tremiam, o suor escorria pelos braços e pelas
coxas, e não era fácil para nenhum dos dois. Os dois não falavam. Alice, leve e
dobrável, prendia bem os dentes. O cego não escutava cheiro algum, e não
pensava em mais nada. Alice não ria das cócegas, porém, esquecia do mundo,
esquecia das guerras, esquecia da eternidade.
As
pessoas que liam o céu noturno, as pessoas que esperavam com impaciência os
discos voadores, as pessoas que vigiavam os céus das sacadas e do telhado da
torre Neblina. Havia pessoas que tinham muita fé no rastro das estrelas. Todas
liam horóscopo e mandavam fazer mapa astral. Todas mandavam e-mails para os do
lado de lá, do fundo de lá, do sei lá, da galáxia de lá. Todas conheciam a
serra da Mantiqueira. Todas fumavam maconha porque sim.
Como estava o
céu no nascimento? Estrelas, mães do fogo, citatás. Todos se ajoelharam. Todos
bebiam, espiritualizados, pequenos copinhos de suco de cipó da Amazônia. As
pessoas riam. Os etês existiam e demoravam a chegar com suas espaçonaves de
muitas luzes. As pessoas ali pareciam pessoas desocupadas, espertas e
evoluídas. As pessoas diziam brinquedos de palavras ou lugares:
-
Porto Caracarás.
-
Praia Paripueira.
-
Ilha Barba Negra.
-
Lagoa Bacopari.
Uma
quinta-feira, umas quatorze horas, Marcelle esperando na antessala, Alice
entrou e piscou automaticamente para o analista, dizendo:
-
Tartaruga com dinheiro no bolso? Já viu coisa igual? Não, não viu, duvido.
-
Há meses você está assim. Os seus olhos belos e garços. São lindos e verdes ou
azuis.
-
Eu sonho o passado, sonho o futuro, sonho o sol, isso tá certo?
-
Você só acha que está se oferecendo pouco.
-
Não tenho nada nas mãos. Somente os olhos para ver os barrancos das estradas
por onde passo. Por onde já passei. Então, passarei? Então, terei tudo, não
tendo nada? Estas flores da jarra, aí... Estas flores bonitas não têm
importância. A cidade que eu procuro está longe. Um dia vou e volto e venho me
plantar num vaso de flores. Quem foi que perdeu meu destino?
Na
antessala do consultório, Marcelle lia uma revista de pirâmides, de discos
voadores, chapadas goianas ou mineiras, chapadas com discoportos naturais,
chapadas com clareiras rodeadas de pedras, inços e capoeira, Alice falou:
-
Já deu o de-comer a esses bem-te-vis-do-campo, Marcelle?
Alice
era uma mulher que precisava. Alice engordava e não engordava. Alice piava como
uma anta, zumbia como uma quero-quero, palrava como uma gafanhoto, parecia uma
grilo escondida entre as estrelas ou até mesmo uma delas, crocitava como uma
bugia, sorria para seu próprio umbigo, miava como uma sineta de ouro. E Alice
sentia que tinha tudo e sentia que não tinha nada. Alice não vendia
bumerangues, não tinha cabelo para tingir, tinha seios bonitos, não falava
muito e quando falava era numa língua tribal. Alice ainda tinha amigos. Alice
ria como uma mulher que ri, não gostava de pular e rolar no chão como uma
buriqui, não engordava, não cantava sozinha, tomava banho de piscina.
Operar
milagres? Pois Marcelle já operara milagres que saíram, saíram da barriga do
peixe operado. Saíram estrelas verdes e vermelhas e amarelas, saíram quedas
d’água.
Alice
tomou distância para cobrar a penalidade, olhou somente a bola, ignorou o
goleiro ou a goleira, correu, e marcou isso:
-
Vou renascer uma erva-de-passarinho, um sanhaço-amarelo, um pé de azedinha em
campo aberto?
Do
alto andar tricentésimo sexto do Neblina, Alice via galáxias, quasares,
estrelas, eclipses, cometas em forma de vassoura, e se prestasse bem atenção,
veria o silêncio, o escuro pegajoso, o vácuo pintado de preto, o universo muito
vazio. Isso somente ela que via. Todos se ajoelharam.
Numa
joalheria do Neblina, Alice fingindo ler uma revista de televisão, observava
duas risonhas alunas de colégio, celular na mão, cabeças juntas, cochichando.
Eram tão bem lavadas quanto duas nuvens sopradas no céu da manhã depois da
chuva. Pareciam duas cascatas se lambendo com línguas de cristal. Duas garotas
bonitas na boca, na língua, no cabelo alçado. E parecia que a de cabelo verde
acariciava os cotovelos da outra, e a outra de piercing no nariz enfiava a mão
no bolso detrás da calça azul da de cabelo verde. E era tão bonito que Alice
miou por dentro:
-
Que foi que eu vi? Que há com tudo? Que será que eu sou? Essas duas gurias são
e se parecem mais mesmo com duas árvores gingando.
Alice
vivia aqui e ali. Alice era muito mais feliz que se pensava, era muito mais
honesta que se pensava, era muito mais divina que se pensava, vivia em Santos,
vivia em Parintins, vivia em Uruguaiana, vivia em Maringá, e andou descalça em
dia de chuva, montou no cavalo baio da querência, passeou de metrô em São Paulo , plantou
abacaxis na beira do rio dos Bois.
Correu
para a bola na marca do cal e bateu o pênalti, sempre com força:
-
E a claridade que não vem, o dia que nasce e o tempo que não basta, as horas
que não passam, a alma que vai e não volta?
Então,
o cego apareceu no horizonte das meninas dos olhos de Alice, veio sem seu
cajado, mas acompanhado de um cão-guia, branco, grande, ótimo, calmo, educado,
fiel, quieto, dócil, higiênico, apostólico. O cego o apresentou:
-
Deixe que eu te apresente o Fiscal. E deixe que ele te cheire, Alice. Ofereça
sua mão para ele lamber, Alice. Deixe que ele te beije na boca, Alice.
O
sol tirava reflexos, cintilações, chispas do aço, do vidro, do concreto, da
pedra, do Neblina inteiro. Um dia limpo. A tesoureira de longa cauda bipartida,
olhar interessado, olhar vivo, olhar procurando, já pousada na antena parabólica.
As andorinhas zom-zom! e rum-rum! rápidas pelo céu.
No
consultório do psicólogo, Alice:
-
Por que certas estrelas são feitas de diamante? Por que somos todos feitos do
pó das estrelas? Por que o sol comanda tanto nossa vida aqui na terra? Por que
o sol é tão absurdamente enorme e distante?
O
céu reuniu as nuvens dispersas. Armou um bando de nuvens afoitas. Umas nuvens
maiores que as outras. E começaram todas a exigir salários enormes e mais altos
e a voar baixo.
Deus teve um
exagero de sentimento, ou seja, verteu uma lágrima pelo canto do olho azul e
piscou três vezes, então, choveu três dias com três noites sem parar. Assim
quis Alá. Todos se ajoelharam.
Alice
andou de trem até Santa Maria e viu uns telhados, viajou de ônibus e comprou um
chapéu de palha em Xique-Xique, voou de bimotor e viu a geografia das montanhas
e rios e cidades de boa parte do litoral do Sergipe, depois Alice deixou de
sonhar acordada.
Num
dos ângulos altos do colosso Neblina, numa sacada envidraçada e climatizada da
torre Neblina, Alice falava mais o cego:
-
Que pássaro aquele, tireli tireli tireli!?...
-
Tico-tico não é, bem-te-vi não é, alma-de-gato não é... Eu aposto num
pintassilgo ou canarinho-da-terra.
-
Fazia tempo que não via um tchintchorrintcho.
Alice
era prisioneira, encantada prisioneira dentro da torre Neblina, disfarçando que
estava tudo quase tão bom. Pelo menos tinha panorama! Alice reparou nos emes
que... murmuram, e suspirou, continuou dizendo:
-
É. Ninguém me crê, mas as andorinhas não são pássaros.
-
Já sabe para onde se vai, Alice? Será que vamos mesmo para algum lugar? Será
que voltamos para casa? Será que vamos e voltamos?
-
Quem fez esse mundo com esse enigma?
-
Quer saber uma coisa? O melhor é não pensar em nada.
-
Tudo é pó, exceto Tupã!
Primeira
coisa, Alice foi e tomou um banho demorado de imersão. Depois, achou o
apartamento silencioso. Aí, deitou de costas no tapete da sala, se concentrou
em nada, olhos fechados, olhos fixos numa figura interior e invisível, levitou.
Alice
amou os brigues do porto de Paranaguá, amou os ricos iates de Búzios, amou os
veleiros do lago Paranoá, amou as jangadas de velas vermelhas do rio São
Francisco, amou as sumacas e as chalupas e as traineiras na lagoa dos Patos,
amou os transatlânticos ancorados na Barra dos Coqueiros e amou as voadeiras do
portinho de Pirapora.
Dizia,
Marcelle para a mãe, uma tarde num lugar qualquer do Neblina, já empinando
pipa, papagaio, pandorga, correndo pela área aberta e rindo alto:
-
É verdade que enterraram uma preguiça gigante ou uma tartaruga ou uma baleia
jubarte?
-
Enterraram? Onde? Por quê? Quem falou?
-
Debaixo do Neblina, e na base do Neblina, no porão do Neblina!
-
Ah, tá!
Sentada
num degrau duma das escadas do Neblina, Alice esperava, olhava os pés e os sapatos
das pessoas que subiam e desciam, louca para bater o pênalti:
-
Mas não há remédio? Que doença é essa?
Depois
de passar por quatro vasos de folhagens naturais, Alice, e após entrada pela
porta do cinema, mais um pipoqueiro, depois ainda da estátua, depois do
chafariz, só então, Alice, descendo ainda a escada rolante, ou foi subindo?,
Alice se achou frente em frente com o cego e seu cão-guia treinado:
-
Alice, Alice! Gostei da textura e do cheiro de um livro. Queria que você o
lesse. Depois me recomendasse. Depois me dissesse.
Naquela
noite de muito calor, Alice não foi dormir e não pegou no sono antes das duas e
meia. E Alice se sentiu vermelha como tomate de feira, afogueada, pegando fogo,
incendiando tudo que tocasse. Seu refolho desconversava para lhe atrapalhar o
sono, a cebola esperava qualquer coisa, e ansiava, enquanto horas passavam sem
que os cães ladrassem. Alice pensou num trem, pensou num caminhão carregado,
pensou numa jamanta carregada, pensou num navio carregado. E o trem carregado de
lenha vinha alto do chão, vinha veloz, trem bala, e veio com tudo. Nem tinha
luz no fundo do túnel.
No
analista, uma manhã típica de verão mineiro entre montanhas de ferro, e
Marcelle esperando na antessala, Alice ao analista:
-
Aqui estamos, estamos mesmo? E daqui não sairemos? E para aqui viemos, vamos e
voltamos?
-
A banana, ah ah ah!... a banana comendo o macaco, compreende?!
-
É como correr sozinho e chegar em segundo ou terceiro.
-
Eu também sei que o rio nunca é o mesmo.
-
As águas passam? As cigarras são surdas? Por que as flores são tão nervosas?
Por que as formigas são tão preocupadas?
-
Olha só, Alice. Quando a pessoa é bebê, parece feia; adolescente, parece fruta;
na idade madura, já é careca; idoso ou terceira idade ou terceira razão, se
chama véio.
Na
saída, Alice rebocou Marcelle:
-
Bem, é isso. Você, Marcelle, não fugiu pra rua, não gritou por qualquer
coisinha, não quebrou os bibelôs da antessala do consultório, então, como
recompensa, você escolhe: quer um sorvete de pitangas, ou quer gelatina verde,
ou quer gelatina vermelha, ou quer pêssegos em calda, pipocas com caramelo,
cone de amendoim torrado, balas de goma bicolores?
Alice
nasceu para o sol, para cantar nas árvores, para pegar sol, Alice sossegava na
sombra das árvores, apreciava melancias, bergamotas, jabuticabas,
goiabas-do-mato. Alice tinha escolha? Alice descansava na sombra da
pitangueira. Todos se ajoelharam.
Pronto,
amanhã choverá...
Um
pênalti polêmico, mas um pênalti, um pênalti marcado no último minuto de jogo,
Alice escolheu o canto, veja:
-
Gosta de ouvir o zuir trinar trilar tintinar tritrilar turturinar tintinir dos
bem-te-vis? Acho bom. Não acha bom?
Alice
gostava de homens e mulheres, cheirava mulheres, lambia mulheres e homens,
dormia com mulheres ou homens, piava para mulheres, acariciava mulheres,
gostava de mulheres mais velhas ou homens mais jovens. Alice tinha beijos
verdes, brancos, azuis, estalados.
Era
noite ou era manhã, Alice passeava pelas sacadas envidraçadas do Neblina. Viu
ali pertinho um pinto amarelo pelado perdido piando pedinte. Alice esperou um
pouco para ter calma. Então, Alice esfregou a lâmpada mágica para três pedidos:
uma data, que podia ser entre 1880 e 1885; um lugar: que podia ser o palácio
imperial de São Cristóvão, ou o museu de Petrópolis, ou o jardim de Cristal; e
uma amiga: a princesa Isabel, ou a princesa Leopoldina, na idade de moça ou
pouco mais ou pouco menos.
Marcelle
viu um gato no corredor, seguiu o gato, só estavam no octogésimo nono andar do
Neblina, o gato andou com passos lentos, na frente, e a cauda esticada para o
alto como um pararraio, Marcelle não sabia se era gato ou gata, nem o nome do
gato, para Marcelle era um gato, aí o gato ficou indeciso se subia de elevador
ou pelas escadas, miou um longo miiiaaau!... e Marcelle só olhando dali, ainda
não se falavam, o gato subiu, então, pelas escadas mais um andar, Marcelle foi
no encalço dele, o gato parou no patamar para respirar talvez, e se sentou,
olhou para ela como se a visse pela primeira vez, era tudo como uma mentira, e
miou desanimado, traduzido, miado:
-
Você quer me abraçar, hein, Marcelle?!
-
Quer um pãozinho quente e doce? Um pão de ló com recheio de goiaba?
O
gato passou para o corredor do nonagésimo andar, seguiu devagar seu instinto,
cauda esticada no alto, parecia outrossim querer mesmo encontrar comida, ou
amigos que lhe pudessem dar de comer e beber, e Marcelle foi junto, muito
quieta, muito perto atrás, e o gato dobrou esquinas, andou em labirintos até
saírem em frente de uma confeitaria, então, o gato parou e olhou as vitrines
abarrotadas de doces, passou a língua pelos bigodes, se sentou contemplativo,
esperançoso, a saliva sobrando na boca, teve vontade desesperada de pular e se
servir de todos aqueles doces enfeitados, quis até perguntar, e Marcelle, sem
saber o que fazer, ficou olhando também, olhava o gato que olhava a vitrine,
então, viu o gato escolher uma mesinha e chamar o atendente.
Desesperadamente,
agitadamente, com gestos de nervoso e cabelos desgrenhados, o cego dedilhava o
piano ali no salão de atos de um dos shoppings do Neblina, o cego tocava uma
peça de Carlos Gomes, depois mais calmo tocaria duas de Villa-Lobos, foi quando
Alice entrou, se sentou na platéia, agora já não se sabe como o cego conseguiu
aspirar e se lembrar do perfume lá dela, ainda tresloucado e tocando mais e
mais a peça do Carlos Gomes, cheirando o ar, aspirando e suspirando.
Alice,
ali ouvindo música, ouvindo seu amigo cego tocar com tanto empenho, rigor e
vigor, quis ver um pênalti:
-
Quem não tem uma história? Isso é uma história. Que história é essa?
Depois
de acariciar o piano, depois de duas horas acariciando os dentes do piano,
ainda sem cansar de cheirar o ar, o cego pegou Alice pelo braço e foram dali
mesmo, caminhando, o cego perquiriu:
-
Gostou da música tropical?
-
Ouvi, senti e gostei. E você?
O
cego falava, os dois de braços dados, o cego falou quase brincando:
-
Aposto que a noite está estrelada.
Manhã
de segunda-feira, dia todo, gente pelos departamentos e corredores e ruas do
Neblina, todos com cara de torcedor frustrado. Marcelle na gangorra, no
balanço, no tobogã. Alice se descontrolou:
-
Vou estender ao sol minha alma de papel, e pronto.
Durante
milênios, Alice esperou aí, sentada diante de uma janela no Neblina. O cego
chegou de surpresa e a tocou no ombro, cheirou seu perfume, o cão-guia de nome
Fiscal sentou ao lado, acomodado, esperando, fofo. Alice abriu seu lindo bico
doce, língua pelo céu da boca doce e disse:
-
O caminho está traçado de antemão.
-
Aconteceu alguma coisa? Que quer que eu faça?
-
Onde vamos parar? Onde iremos hoje?
Mais
um mês se passara. Alice despertou uma manhã com uma chuva batendo na vidraça.
A chuva era boa. A água escorria no vidro fumê. A água da chuva derretia o
vidro fumê. Pensou bem... e foi ao analista. O psicólogo a fixou firmemente:
-
Quer uma xícara de chá? Pode beber olhando através da janela envidraçada.
Alice
admirou ali na mesa do analista aquela orquídea amarela com traços de azul, e
Alice falou.
-
Por que será que não me dou por satisfeita? Onde e o que aprendi alguma coisa
que me fez mal?
Agora
o analista brincava com uma caneta folhada a ouro. Alice, embora pensativa
demais para a hora, bebericando o chá de camomila doce, gargarejando,
gargarejou:
-
Poderei resistir por muito mais tempo ainda?
Lá
fora uma tintura suja, uma chuva desperdiçada, um frescor de pedra fria, um ar
de fim de estação, um vento que arrepiava só de olhar, Alice falou:
-
Por que, então, não posso fazer o que quero?
As
orquídeas estavam calmas, protegidas, sossegadas, apesar de gritar o amarelo, e
gritar o tempo todo, Alice concluiu:
-
Está bem. Vou pra casa dormir que é melhor, que ganho mais.
Um
dia, uma hora, Alice parou já na primeira janela, olhando o belo horizonte, não
dizia nada, olhava apenas, o sol estava disposto e quente, o horizonte belo
como sempre, calmo e translúcido de ar azul, e não havia só isso não, Marcelle
se aproximou, Alice lhe acariciou os cabelos, Marcelle:
-
Mãe, sonhei que um gato queria jantar fora. Ele sentou na mesa do restaurante e
pediu gelatina vermelha ou verde. Eu acho que esse gato era maior que os outros
gatos normais. Parecia gente grande comendo gelatina colorida.
No
dia seguinte, Alice e Marcelle saíram para comprar qualquer coisa, todas as
lojas do gigantesco shopping Neblina estavam concorridíssimas, era quase verão,
e era sábado, e era dia de festa, e era bom gastar, era muito bom entrar nas
lojas e ficar admirando os trajes.
Mais tarde
ouviram um violino tocando no salão de concertos, foram ver, era o cego, o
cão-guia Fiscal esticado ao lado, este um pouco sonolento, bem pachola. O
violino atraíra gente, o violino não parava nunca, era mesmo um violino dos
deuses.
Alice comprou
um vestido para Marcelle, um tênis para Marcelle, um cinto vermelho para
Marcelle, e um chapéu de praia com laço de fita cor amarela. Foram ao cinema
assistir um daqueles filmes. O cego e o seu cão-guia já as esperavam na saída.
Foram os quatro a uma confeitaria. Marcelle era a mais empolgada; o menos
empolgado era o Fiscal. Passaram na florista e Alice comprou quatro flores
espécies diferentes, todas com vermelho, levou para casa e enfeitou a mesinha
de centro.
Alice
correu muito decidida e segura para o pênalti, tudo nas suas mãos, e no pé
direito:
-
Que mambucaba? Posso saber? Posso entrar?
Alice
passou certa feita por uma vila chamada Capoeiras, os comerciantes de tecido se
esconderam atrás das portas, mas os índios jurunas, que só comiam farinha de
mandioca, presentearam-na com redes de carijós, redes amarelas, redes brancas,
redes vermelhas, redes verdes. Por isso, Alice estipulou o dia do índio. Todos
se ajoelharam.
Marcelle
sabia que existiam vários clubes de lazer espalhados entre os mil dois mil
andares do Neblina. E sonhou que o seu gato do sonho tomava banho na piscina,
se deitava ao sol e não tinha medo de água, bebia água de coco e usava óculos
escuros, pulava do trampolim, mergulhava de olho aberto, nadava de costas
sorrindo para o sol. Depois, o gato caminhava sobre as águas, e tinha uns
bigodes enormes que sabiam farejar, assim, o gato podia andar por todos os
lugares e até voar, todos os lugares mesmo, escalar a parede do Neblina na
maior paciência, sem cair, sem parar para olhar a paisagem, sem miar, ou sem se
interessar pela altura.
Alice
e Marcelle pegaram umas três amigas de Alice e foram jogar golfe no único clube
de golfe do Neblina, ali mesmo no sexcentésimo andar. Jogaram golfe e
conversaram e riram muito, então, às três da tarde pararam na lancheria para
comer bolo de chocolate com café, conversaram e riram muito, risadas
intermináveis e irresistíveis. Marcelle não gostou mais de bolo e café, foi
brincar num lugar ali na varanda, só dela. Uma hora ela pintou com os dedos nus
os ladrilhos ou os azulejos, outra hora olhou as andorinhas revirando o céu de
cabeça para baixo, sentiu pressa em ser uma andorinha, ainda uma hora contando
nos dedos os números que já sabia na ponta da língua, e repetindo, hora se
aborrecendo e contando as andorinhas no ar, hora olhava a mãe que conversava
animadamente com as três amigas e comiam bolo com café, e pensava voltar para
casa, as andorinhas sabiam voar e voavam bonito, voavam de lado e de costas,
seria muito difícil ser uma andorinha?, voar tão rápido, a mãe e as três
amigas, Marcelle pensava virar andorinha, pareciam três gralhas-azuis rindo e
falando ao mesmo tempo e conversando e rindo ao mesmo tempo e num só tempo.
Antes
de entrar no consultório do analista, Alice explicou para Marcelle:
-
Fique aqui com esse jogo de montar. Já volto.
-
Vou fazer um cavalo vermelho e empinado, uma vaca azul com amarelo, talvez
ainda um jacaré-de-papo-amarelo verde.
Alice
entrou no consultório, viu o analista admirando um quadro na parede, um
abstrato com riscos pretos e azuis, o analista comentou:
-
50 mil contos de réis, paguei por ele.
-
Quem não se engana ás vezes?
-
Imaginar aquilo que quero.
-
Então, teje preso!
Alice
estava num parque aclimatado do Neblina, caminhava cuidando da agitação de
Marcelle, trissavam passarinhos sempre importantes, uns até esperavam comida
das visitas, mas Alice tinha só essa chance para assinalar o pênalti:
-
De que gostei mais? Quando é que vou chegar?
Alice,
beleza com bondade, estava aí, num jardim do Neblina, olhava as orquídeas e as
árvores, e não se cansava, olhava as pitangueiras, tocava as pitangas, cheirava
as pitangas e depois as mãos, se distraia com apanhar as frutinhas e era tudo o
que mais queria. Pitangas vermelhas e doces e cheirosas, luminosas, doces.
Pitangas saindo da fábrica. Pitangueiras ao sol.
Uma
manhã de feriado acontecendo, manhã acontecendo, manhã bonita e calma, talvez
com promessa de chuva à tarde, e arco-íris na contramão, Neblina todo de
reflexo azul e suspenso do céu por um fio de teia de aranha, Neblina nem mais
de pedra, era todo de ouro do sol.
E a Terra? O
planeta Terra, já de longe, uma bolha azulzinha de sabão, uma gota de orvalho,
uma lágrima da menina do olho do Sol.
E
Deus piscou o olho esquerdo, estava cochilando sossegado sentado no barranco de
um lago sossegado. Todos se ajoelharam.
Alice
olhou o céu, o sol começou a brilhar de repente, voaram outros pássaros, olhou
a filha, sorriu. Os pássaros verdadeiros dão cores e dão cantos. Então, Alice
reagiu:
-
Acho que amanhã eu não preciso mais perguntar. Os bem-te-vis-de-bico-largo são
muito engraçados.
Vento
sudeste fraco. Como o vento era fraco, pediram ajuda ao motor de popa. Chegaram
a Cuiabá ao entardecer do dia seguinte.