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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 3




            Certa manhã muito cedo, quase dez horas, rádio tocando música do maracatu, Alice já se via bem grávida.
            Tinha ela um alguém dentro de si? Cheia de si? Sim, era verdade. E Alice tinha uma flor nascendo dentro de si. Uma árvore, um passarinho ou um tesouro. Tesouro do fundo do mar - que bom! Ou uma caixinha de fantasia com brinquedo surpresa.
            Alice acordou profundamente amarga, azeda, pulcra, aérea, irritadiça, indiferente, insofrida e pura. Então, saiu fora, mangas curtas, o sol no alto do céu, o umbiguinho espiando lá do seu lugar abaixo da blusinha floreada, parou no umbral da porta, sentou no degrau da varanda. Os olhos verdes-mares ou azuis-celestes quase fechados, se acostumando com tanta luz. Não tinha respostas e não sabia mais fazer perguntas. O tempo não passava e os dias se repetiam. Bocejou em câmera lenta. Quase vontade de desistir de quê, e já.
            Os caminhos, os horizontes, e o que mais, são mistérios. Quem parte vai livre e solto, está livre, pode levar consigo o segredo, a ignorância e o sonho ou nada mais. Achando tudo sonho ou estrada. Fazendo tudo no caminho.
            Ninguém consegue contar os grãos de areia da praia, as estrelas do céu. Há lugares perfeitos muito distantes de quem os procura.
            - Vou ao encontro da árvore da minha sorte.
            Alice ancorou ali na escadinha que dava para a rua. E o vento chegou esvoaçando-lhe os cabelos, sacudindo folhas secas pelos cantos, árvores da rua, passando de fininho, de passagem, vento a cavalo, assobiando como tico-tico, como pintassilgo. O vento pregou:
            - Ainda não sei o seu nome, fulana de tal.
            Alice, cotovelos nos joelhos e mãos em volta do rosto, não disse água. Fez um muxoxo. Encheu uma bochecha e estourou. O vento descolou:
            - Está preocupada com algumas coisas? Vai, confesse!
            - Já estou melhorando e... nhe-nhe-nhé!
            - Você já me conhece? Venho de longe. Viajo muitas geografias. As geografias me sustentam, me conformam.
            Alice não tinha sorriso, olhava tudo sem ver, queria empurrar as coisas para longe. Cruzou os braços sobre os joelhos, pedaço de pau na correnteza, carniça na enchente, folha de jornal amassada e solta ao vento.
            Todo o mundo quer um futuro, um futuro na paisagem, um futuro escolhido. Sonhos que sopram velas de encher. Um vento que toca o barco a vela.
            Um casal de canários-da-terra, ali, simplesmente ao alcance da vista. Ele canarinho, ela carijó. Simplesmente. Ei!, sonho, pode vir aqui? Os dois brincavam pelos galhos do cambuci, curiosos. Deu vontade de pegar, Alice? O canarinho amarelo gorjeava pela redondeza o nome da namorada. Bem atônitos e despertos e curiosos como o sol.
            - Não precisa responder.
            As viagens à Pouso Alto, à Araçariguama, ilha de Cataguás, Cabo de Santo Agostinho, lagoa Boa Água, Zortéa, Lapa. Uma estrada limpa como fita vermelha, uma estrada pedregosa, uma estrada sombreada de árvores espinhosas, uma estrada de ponte e águas correntes, uma estrada de ferro furando montanhas, uma estrada carregada de redemoinhos.
            Eram duas horas da madrugada, eram três e meia da mesma, jucurutu piou, e assim por diante. Chegou logo a manhã muito cedo, outro dia. Uma quinta-feira de pouca chuva.
            Alice passou a mão na própria barriga. Passando as mãos várias vezes pela barriga, e passando a mão, alisando a barriga com as mãos, abotoando o umbigo saltado. Olhando para bem dentro de si mesma.
            E Alice riu no ar em pleno ar. O tempo passava tranquilo. Ela não dizia nada, não ia falar e depois confessou:
            - Já vi isso em sonho.
            A mulher nova, Alice, comentou que naquela noite sonhara que montou um corcel fouveiro, alado, e sentindo mesmo o mistério do vazio. Um cansaço que caíra de repente. E concluiu, desabafou, comentou:
            - A coisa pode ser bem mais complicada do que parece. Mundo de mistérios e sonhos intransponíveis.
            O sonho montado na garupa do corcel. O cavalo bateu as mãos na areia do caminho e relinchou. O cavalo castanho-claro sacudiu a poeira do caminho e relinchou. O cavalo escoiceou o ar e relinchou:
            - Então, para onde vamos?
            Alice garota, guria, garoa. Acorda, Alice!
            Alice olhava com seus olhos campeiros. Abria os olhos sonhadores. E o cavalo castanho-claro de asas continuou nitrindo. A noite passava na carroça alada espirrando leite na parede do céu. O vento soprava com os dentes cerrados. Parecia terra das amazonas. Noite constelada. O cavalo bateu a cabeça no ar como um tonto, e latiu:
            - O melhor é que você tem tudo pela frente.
            - O que você quer dizer com isto? Que foi?
            - E você sempre se achou o centro do mundo. Até aí, normal.
            - Quem, eu?
- Pô, meu! Pare com isso e vê se te cuide! Você é uma guria quase perfeita! Você só precisa ter mais quilometragem, mais sorte completada!
            O cavalo castanho-claro de asas era um cavalo dos seus duzentos anos na cacunda. Contando os anos pares e ímpares seriam uns trezentos anos. Porém, aparentava, mais ou menos, uns cento e vinte anos. Pisava em cima dos seus cinquenta menos seis quilos. Conhecia o pampa e participara de cinco seis revoluções.
Alice apeou, se sentou na pedra do caminho, na raiz do ingazeiro, suspirou fundo. Lembrou-se. Respirou fundo. Alice quis correr. Sua alegria ou falta de alegria estava disposta a correr. Ah, os cavalos do campo, e os cavaleiros apostando carreiras em cancha reta!
            Um bando tagarela de papagaios-de-cara-roxa cruzava o fim da tarde, o centro do mundo. Dava vontade de pegar. Dava vontade de saber por quê. Alice estava pensando com o futuro na barriga. Ansiedade cheia de espinhos e horas lentas.
            Para aquela banda de lá, uma nuvem branca e só. Para a banda de cá, uma manada de antas tuberosas e aladas. A guria não entendia a paisagem do céu. Pouco se envolvia com as manadas pastando no céu.
            Olhos dela sonolentos, suaves, calmos, tranquilos, parados, mornos, desorientados, marrons e ótimos. De dia pensava nas estrelas de diamante; de noite nos sete sons do arco-íris.
            O cavalo, de desempenho veloz, voltou a trote. Trote ensaiado? Voltou galopando, sacudindo a cabeça, cola erguida, relinchando. Trote ensinado. Desencilhou:
            - Você é engraçada, Alice. Você é necessária. Você é aérea.
            Alice olhou os dez nomes do Patrão Velho. Demorou. Alice olhou a origem do nome do país. Demorou. Depois, cotovelos nos joelhos e mãos no queixo, convidou o cavalo:
            - Vamos sair desse mundo?
            - Você quer geografias? Você quer cair das nuvens? Você quer deixar os pagos? Você quer nomes de rios e montanhas e cidades?
            Alice queria ver coisas e lugares perdidos, distantes, engraçados, rio Acurauá, ilha Redonda, usina hidrelétrica de Paulo Afonso, praia de Coruripe. O pensamento nunca o mesmo.
            A sonhadora não era de rir muito, mas ria. Alice ria pouco e desejava o mundo. Ela falava quase só besteira e sonhava com o mundo inteiro. Falou numa voz clara, aberta, simpática e clara:
            - Quero caminhar nas ruas de Itajaí, nas ruas de Bagé, nas ruas de Diamantina, nas ruas de Eldorado do Sul, nas ruas de Tiradentes.
            Chegava logo a manhã muito cedo, depois. Sonho apeou. Manhã, pouco mais, aí, aí.
            Ora, uma outra hora do mesmo dia ao cair da tarde... O tempo passava nas asas invisíveis dos suspiros... as horas demoravam de barriga enorme. Um suco de acerola lavou a alma, um gomo de laranja doce fez um bem enorme para os rins. O céu era todo dia bom e bonito, e grátis.
            O sonho, a vontade, a sorte. Alice estava sentada no barranco do rio Jacuí. Rio igual e semelhante a tantos e tantos que corriam ali. Olhando a tarde de cansados papagaios-de-peito-roxo cruzando a tarde. Estes vinham do trabalho, cansados e vazios. Algumas nuvens paradas. O sol entrando atrás do mundo. O rio serpenteando sem fim nem começo entre os galhos baixos dos guamirins e das guaçatumbas e das carobeiras. Alice preocupada e cabisbaixa. Seios enormes. Mãos espalmadas nos joelhos. Revelou:
            - Eu to digo.
            Alice não sentia. A vontade paralisada. Olhar se demorando no nada. Não sentia coisa alguma. E estava só. Ela esperava o mundo por ela, e por ela o mundo esperava. E estava só.
            Os olhos pouco abertos, Alice estava ali, praticamente presente, mas o país que via estava longe, longe do outro lado do mundo. E Alice estava longe. E não sabia o que queria, o que pensar. E alguém estava com ela no meio dela e pronto. Alguém esperava por ela e pelo mundo.
            As coisas todas e a vida toda poderiam pensar assim, tipo: tomara que chova.
            Buda vivera no luxo e no palácio antes de inventar que queria caminhar pelo país. Mais tarde inventou aquelas coisas de saudades de um mundo invisível. Teve ao longo do caminho amigas árvores, amigos elefantes, amigas todas as coisas, amigas pedras, amigas pessoas, amigos rios, amigas montanhas, amigas constelações. Como um homem pode inventar de sair por aí e virar um deus? Buda tinha todos os gestos de rir. E atravessou rios bonitos, tipo: Sinos, Pelotas, Antas, Carreiro, Turvo, Canal, Pratinha, Mampituba, Gravataí...
            Ouvia-se, tum! tum! tum!... dos tambores da tribo dos índios tupinambás. Sim, eles gostavam de chamar chuva e chamavam chuva. Bebiam cauim, batiam nos tocos ocos, tum! tum! tum!... até que fosse o caso. Cedo ou tarde a chuva caía. Os tupinambás chamavam chuva. Os bebês chamam chuva. Os bebês chamam sol, chamam luas, chamam rios, chamam estrelas.
            Você ouviu, Alice?! Acorda, Alice!
            Alice não queria muita coisa, quase nada, nada, talvez, ou não. Estava sozinha. Estava só. Estava perdida num deserto sob sol quente. Estava enchendo a barriga com tesouro e não era pouca coisa.
            Os olhos da Alice, os olhos andavam pelas coisas, e não paravam, e também inventavam. Olhos insofridos. Aniquilada pelos sonhos de voar, de nadar, de navegar, de galopar e principalmente de andar. Uma cadelinha por aí, vira-lata, perdida, com tetas engraçadas e tudo.
            O caudaloso rio Jacuí tralalou grosso na corrente. Cruzava por sobre algumas pedras, fazia remoinho, remanso e profundidade. As árvores das margens faziam sombra na prainha. Na areia uma canoa e dois pescadores, pai e filho. O sol de um olho só e ouro puro. Um carancho voou baixo, guinchando, espiando, guinchando:
- Quiéeee!... Quiéeee!...
            O rio não parava. Alice não acreditou, se sentiu muito prestigiada. O salário de um dia, pelo menos. Vencimentos, prêmios, gratificações. Alice teimava com a sorte? O rio movia tudo que se via. E o rio passava estreito e liso e líquido, às vezes nervoso. O rio movia a roda do engenho, isso sim. O rio movimentava tudo que se movia. O rio escapava por entre os dedos. O rio Jacuí tinha um longo trabalho até o mar. O rio nadava parado. O rio parecia leve como a manhã.
            As flores riam, todas. Os bichos falavam, as pedras falavam, as flores riam. Todos riam ou diziam coisas. Guaricangas-de-bengala, pitangueiras, marias-moles, congonhas-do-campo, curiúvas, canudos-de-cachimbo, canelas-amarelas, plantas sonolentas bocejavam na manhã quente. Corruíras, tico-ticos, saíra-de-papo-preto, abelhas, zangões, besouros metálicos.
            O famoso rio Jacuí olhou a mulher grávida, a Alice pura. Era hora de visitas, então. Alice, dentes de pérola, boca cheia de água, não perdeu a oportunidade:
            - Nunca me viu, cara de navio?!
            A Alice estava preocupada, cabisbaixa, aborrecida. Recolhida em si, pensativa, cabeça baixa. O rio olhou para ela meio assim de lado, e entornou, tralalou:
            - Eu gosto de você, Alice.
            - Rio fala? Então, rio também ri, também rio chora?
            O corrente rio abriu as águas enormes, bateu toalhas de águas no peito, esguichou para o alto, bateu no barranco, arrastou troncos, corcoveou, Alice viu que aquele rio não era fácil:
            - Rio revelado? Rio falante? Parece como no tempo das monções! Por acaso é Tietê, Taquari, Cuiabá, das Mortes, Doce?
            Grande rio Jacuí, cinco mil anos e mais cem mil anos. Água fugindo por entre os vãos dos dedos. Não existiam bichos pré-históricos; existiam aviões de caça. Alice ficava preocupada, cabisbaixa, aborrecida, estátua.
            Alice se tocou, e aceitou o próprio convite:
            - Ora!, até com que peso um rio mágico consegue voar... digo, remar, digo nadar, digo navegar?
            A oportunidade do rio. O rio corria sim senhor e fazia caminho por entre a mata ciliar, mata de galeria. Todas as plantas de verde e outros verdes. O rio vivendo devagar até quando e até onde. E as águas corriam. Nem existia sono de passarinho. O rio refletindo o céu azul com flocos brancos.
            Alice queria viver na floresta da Tijuca, na serra dos Órgãos, na ilha dos Índios, no fundo das águas de Abrolhos, queria respirar a água e os frutos do mar profundo.
            Chegaram logo as manhãs muito cedo, depois. Sempre outro dia.
            Por volta de que hora. Lá pelas onze da manhã de sábado. Talvez mais meia hora. Ou um pouco mais.
            A tarde recém começando, o mormaço, o vento caloroso, o tempo sem pernas, o rio solto. Alice deitou na rede da varanda. E se balançou com a ponta do pé. Alice, por favor, dormitava preocupada, cabisbaixa, aborrecida, estátua, consumida. E se balançava com barriga grande para o alto.
            Alice, sem favor, acorde!
            As coisas e os dias iam acontecendo aos poucos e sem tréguas. Desde o começo ao fim do mundo. Pareciam dias avulsos. Pareciam dias combinados em pares ou ímpares. Alice pegara o mundo andando.
            O sol pintou o parque da Harmonia, casas e prédios, janelas, rua Duque de Caxias, automóveis, ruídos, sol, nuvens, aviões comerciais, brejaúba, e pintou capitingal, capituval.
            - Procura e acharás!
            Até que veio um jacaré-de-papo-amarelo e casca grossa e olhos de submarino. Veio como dirigível pelo ar morno da tarde. Jacaré gigante de asas de morcego, serrote nas costas, um verde musgo no couro grosso, cauda de jacaré, um guincho de trem sem freio, uma boca cheia de duas fileiras de dentes. Predador nato e faminto, uma vez. E botando fogo pelos olhos verdes e frios. Algo também pré-histórico, pós-carnavalesco, pós-moderno. Lá da terra dos pantanais. Pra lá da terra dos bororos.
            O sonho ligou o motor a jato, e tudo levantou do chão. Alice pousou as mãos nos seios... Alice estava sentindo. Os seios redondos, as pernas pesadas, as mãos alisando a barriga, dor nas cadeiras. Os cabelos no vento.
            Voaram tão bem os dois, futura mãe e jacaré-de-papo-amarelo, um pouco abaixo das nuvens, era verdade. Um pouco acima da cabeça das árvores, era mesmo. Alice não tinha olhos. Faltavam olhos para tanta novidade de ver, uma vez. Alice descobriu o rio Jacuí que já fazia parte da paisagem. Faltavam ainda os aviões, o trem com assobio de velocidade, os transatlânticos e o que mais, picos de montanhas, e o mar. Tudo queria conhecer. Uma coisa era fundamental: curiosidade. E as coisas, embora, aconteciam aos poucos, vinham com o futuro, Alice:
            - Alguém mais sabe de tudo isso?
            Alice riu uma alegria cheia de arrepios explodindo na pele, coceira no interior do peito, alergia nos braços, calor no rosto. Pode-se imaginar. O vento soprava nos ouvidos. O vento sacudia os cabelos, esfarelava os cabelos. 
            O jacaré batia as asas de vez em quando. O jacaré voador falava gauchês. Um voo de reconhecimento. Um voo barbaridade, no mais. Alice destravou:
            - Que azul do mar profundo. Ou será o céu abissal?
            - Quer saber o segredo do mar, guria? Parece boba!
            - Olha, meu! Eu nem sabia que jacaré alado existia, uma vez.
            - Bem, então, continue dormindo e sonhando.
            Ah, a Alice não conhecia o mar! Não conhecia o arquipélago de São Pedro e São Paulo. Não conhecia pôr os pés na praia de Jurerê. O mar de toda a água. Nunca foi ver o oceano? Queria ver o mar rolando e voltando, eram duas horas da tarde, queria ver o mar indo e voltando, queria ver o mar. Sonhe em viajar que tudo acontece, então! Nunca se passa medo com um coração que não teme!
            Está sonhando, Alice? Acorda, Alice! Acordou. Chegou logo a manhã muito cedo.
            Alice pensou em telefonar para algumas conhecidas, Ana Paula, Marlene, Esmeralda, Teresa... Já era tarde da manhã. Teresa ouviria e Alice poderia desabafar. Era isso, Alice restava preocupada, cabisbaixa, aborrecida, estátua, consumida, entregue.
            Foi dali a pouco operar uma tatuagem. Aí, na tarde, teve vontade de ser imperatriz, ou ladainha, ou princesinha, ou beija-flor-de-bico-longo. Queria parecer uma borboleta com asas de vidro colorido. Um beija-flor parecido com peixe emplumado de aquário, cores metálicas. E com um colibri na barriga ou um colibri no tornozelo ou um colibri no peito do pé ou um colibri no braço ou um colibri no seio.
Alice de olhos nas cores do arco-íris. E suspirou:
            - Ah, tamém!...
            Queria correr, e correu, correu de graça pela cidade, Três Mártires, Sagrada Família, Coroados. Correu na linha e nas garras do horizonte. Queria amanhecer com o mundo. Viu o sol em larga escala. Viu o sol rir, o amarelo rir, o ouro rolar. Dava vontade de pegar. Dava vontade de criar. Dava vontade de andar de trem.
            Na tardinha, o mesmo sol de sempre, o sol abriu com cautela uma porta de vidro vermelho e pulou fora. Na lagoa do céu, azulando quase azul para o azul, a estrela da tarde, estrela já ali na linha do horizonte, e se refletindo na lagoa aqui do chão, no açude, onde na linha do horizonte uma quieta garça-branca de perna encolhida esperava a pesca que não queria vir.
            Decidiu ser Alice amiga do sol e da lua, já que estes eram irmãos ou noivos. O som da luz carregou Alice para um sonho de ponta cabeça. E o vento trouxe chuva, cheiro de árvores verdes, roncos de bichos do mato. Queria conviver com os índios cintas-largas. Queria subir numa copaíba e brincar com um sagui de estimação e nadar no rio Humaitá.
            Alice se sentiu como no meio de um enorme banquete oferecido pelo universo. Sonhar era o melhor voo de todos. Procurar o futuro com as próprias pernas era uma sorte grande.
            Ora, aconteceu que certa hora da tarde adiantada, se preparava Alice para sair, quando...  Ela, então, começou a contar e a fazer contas, contando as folhas da timbaúva. E o vento agitava tudo. E as folhas não paravam de tagarelar. E uns passarinhos cruzavam o ar voltando para casa. E o mundo também não parava. Uns milagres. E o rio andava solto e despreocupado, sem pouso. O rio descia pela correnteza, sempre andando, sempre nadando, sem parar. Alice contava nos dedos e ficou preocupada, cabisbaixa, aborrecida, estátua, consumida, entregue, desnorteada.
            Acorda, Alice! Acorda ou não concorda!
            Os sonhos voltavam frequentemente a perguntar. Os sonhos gostam de voar. As coisas que se sonha gostam de existir. E parece tudo simples. E acontece com todo o mundo. O sonho corre com o vento, navega no rio, galopa nas asas. O sonho não perde essa mania. E o sonho perguntou:
            - Quer ocupar meu lugar de árvore?
            Alice, sem muita calma, admirou-se:
            - Isso é pra mim?
            E o sonho explicou:
            - Quer parar o vento e soprar as estrelas? Quer viver um dia no fundo do mar? Quer ouvir uma lenda de índios maracanás? Quer flanar pelas ruas de Parati? Quer nadar até a ilha do Boi, uma ilha pequena? Quer navegar de chalana no Araguaia? Quer passear com uma criancinha pela mão? Quer lavar a baia? Quer olhar um bando de pintados pinotear no rio do Peixe?
            E o sonho ainda deixou bem claro:
            - Para, Alice, senão você cai!
            Tanto lugar tinha o mundo, e cada qual devia ser o melhor. Quanta saudade do mundo onde jamais.
            A distração levava Alice longe, onde seus olhos não podiam acompanhar. As coxas, de penugem dourada, inchavam, inchavam. Toda hora acontecendo, e acontecendo coisas raras. Muito para uma pessoa. Toda ela enchendo e contendo outro ou outra por dentro, estava claro.
Conhecia onde se faziam os personagens de ficção? Uma onça-pintada disfarçada de galho caído. Uma jaguatirica camuflada de sombra de ipê-amarelo. Um surucuá-tatá brincando de fruta silvestre. Um menino alado? Uma menina colibri?
            As nuvens esbarravam seus barcos a vela nas costas das montanhas, seus chapéus vermelhos, suas ilhas de coqueiros tortos, suas carretas com juntas de bois, seus trens bala alados. As horas demoravam tanto e tanto que eram puxadas na carreta e pelas cinco juntas de bois.
            - Nove minutos, nove horas, nove semanas, cinco meses...
            Alice olhou sem querer a linha da palma da mão. Alice se lembrou de uma dúvida. Alice acreditava no jogo de cartas do tarô. Alice lia horóscopo todos os dias na internet. Alice abriu bem os olhos no espelho, procurou sinais, descobriu sinais, ou não sabia descobrir sinais. Seguiria o guia na pista do destino. Alice se desculpou:
            - Pra que tudo isso do mundo todo? Não será covardia? Vou olhar para os meus pés, e pronto.
            E mais:
            - Não me diga que é meu aniversário? O caapora mora na floresta? Vou sair de dentro de mim?
            Alice subiu no galho da curupiá, abraçou o joelho, segurou o queixo com a mão e se perguntou:
            - Quem tirou esse mundo da cartola? Posso fazer qualquer gesto que o mundo será meu? Que horas são? Quero um menino ou uma menina?
            Alice olhava os pássaros, olhava com atenção redobrada, admirava as asas que erguiam passarinhos e aviões do chão. E achou que a melhor coisa desse mundo era voar, e voar como todos que sabem voar voam, voar mesmo, como as borboletas cheias de olhos nas asas voam, como as libélulas de mil asas, como os aviões de caça, como um saci instantâneo de touca vermelha.
            Mas um pequeno besouro sabe bem para onde vai e volta. E Alice parecia ainda preocupada, cabisbaixa, aborrecida, estátua, consumida, entregue, desnorteada, enfraquecida.
Tudo isso era possível e, ao mesmo tempo, não era fácil de engolir. Corriam os anos invisíveis de Alice, os meses, os dias e noites, as datas.
Acorda, Alice! Ou te vejo no sonho, Alice!
            Já lá se foram muitos meses, dias e dias. O futuro podia ser uma borboleta ou uma estrela. Alice estava pronta ou não estava pronta para a briga. Alice estava toda inchada. Dos pés à cabeça era outra pessoa. Ainda não terminara o tema de casa.
            Reapareceu o cavalo castanho-claro. Alice esporeou a imaginação, avançaram a galope voando para o campo aberto. O cavalo que convidou, relinchando:   
            - Quer ser uma constelação?
            A noite chegou e as gralhas-azuis encolheram a perninha na guajuvira, os sapos-ferreiros se soltaram de debaixo das pedras, o rio pintou estrelinhas verdes de vaga-lume, o vento trocou de agasalho. Os grilos latiram como se fosse no começo do mundo, e tinham interessantes molas nas pernas, e serras elétricas nos ouvidos. 
            Chegou logo a manhã muito cedo.