Até então, uma mágica um milagre comum: o
dia surgiu para sempre de dentro da escuridão eterna. Foi uma manhã flutuante
como outra qualquer.
Sabiás-do-campo se divertiram a valer
brincando de pega. As andorinhas experimentaram com sucesso a asa-delta.
Borboletas engraçadas originais campearam campeãníssimas entre as sapotaias as
tiriricas os alecrins-de-são-josé as pindobas-do-sul as canjeranas-do-brejo.
Sol completo, aquele amarelo ouro clássico, muito
longe, longe uma barbaridade, mais longe, longe uma vez, longe e talvez, sempre
distante e inalcançável, longe outra vez; todas as exigências controladas,
todas as existências dominadas, todas as aparências mistificadas.
Hoje em dia Nova Prata, amanhã Caxias do Sul, depois
Sao Paolo: pensei.
Peguei o ônibus 4h até Estrela do Sul mais 8h até
Santo André. Eu não sei viajar de ônibus, eu não sei andar de ônibus.
Peguei o barco às 20h em Roncador 7h até Caldazinha.
Eu não sei viajar de barco, eu não sei andar de barco.
Peguei o trem das 5h em Canoas 12h até
Marechal Floriano. Eu não sei viajar de trem, eu não sei andar de trem.
Já em São Leopoldo (terra do romancista
Mário Quintana) comecei a cochilar, cansar as pernas e a bater a cabeça na
vidraça. Lá fora do ônibus uma paisagem acostumada no verão muito quente, aqui
que a gente já sabe. No inverno por causa do frio e no verão por causa do
calor.
Pela altura de Bom Princípio (terra da
cupiúba), depois de bater a cabeça mais uma vez na vidraça e acordar mal e mal
todo chateado, abri os meus grandes olhos e, do meu lado no corredor, vi uma
bonita loirosa. Nem quis acreditar, mas acredite. Não duvido que deve ter
embarcado essa horinha mesmo em Carlos Barbosa (terra do pinhão), pensei.
E pela altura entre aquela Patu (terra da
pitanga) e a outra Cotiporã (terra das águas borbulhantes ou ferventes), eu me
resolvi a puxar conversa com a loirosa, com a loiraça, com a morena-loira. Ela
muito teutônica, bela, suave, felina e dourada. Vou puxar papo, pensei.
E comecei a conversa falando da minha anterior recente
viagem a Caxambu (terra do mato pequeno bonito), e muito antigamente dos índios
cocuiregatejê, pra lá da serra da Mantiqueira, pra lá da serra da Cantareira,
etc. E fui rolando um lero sobre a serra da Ibiapaba, a cidade de Piracuruca
(terra das inajás), etc. Toquei uma gaita sobre a interessante cidade mineira
de Pindamonhangaba (terra lá onde é o lugar que o rio Paraíba do Sul faz fazer
aquela curva formosa), etc. Descarrilei sobre o rio Maracá, o rio Mutuacá (onde
os curumins e as cunhãs tuiúcas brincam na frente de casa com os pirajaguaras),
etc. Falei outras viagens, contei mais coisas, conversamos sobre o próximo
feriadão de carnaval, etc. E depois de tudo mais de sorrir um pouco mais de
gracejos um pouco mais de charmes um pouco mais ela me disse, perguntando,
afirmou:
- Você é judeu, descendente, certo?!
Tive vontade de olhá-la nos olhos e a
olhei nos olhos - sem sacrifício nenhum da minha parte, Senhor! - e nossos
olhos se cruzaram e que olhos lindos tinha aquela loirosa, loirosa-morenona.
Que felicidade ser bizoiado por loirosa tão espetacular, tão fantástica, tão
bem feita, tão bem caprichada, tão bem desejada, tão bem aclimatada, tão
original. Uns olhos cristais muito raros, entende?! Coisa preciosa, coisa fina,
coisa ideal, coisa celeste, coisa ilegal... os olhos dela. E que olhos garços,
verdes, iguais do mar perto dos corais, meu!
- Quê?! - foi só o quanto consegui dizer,
depois do encantamento todo, etc.
- Você não é alemão como alega. Você é
judeu. Tem tudo a vê.
Tive vontade de pegar nos cabelos longos
loiros morenos de pontas cacheadas. E estiquei o braço, fui com a mão, estendi
os dedos e não peguei nos cabelos lindos dela por pouco, desisti na hora h,
desisti no fim do desejo, parei no último milímetro porque seria muita ousadia,
porque seria muita tara da minha parte e me contive no último milímetro de
tempo e de encompridamento do braço.
- Como você tem certeza disso e por que
você duvida? - perguntei.
- É simples. É simplório. É só olhar. Já
viu o seu nariz? Já quilometrou o seu quebra-vento?
Tive outra vontade e de pegá-la pelo
nariz. Um nariz de esfinge? Um nariz de loirosa, loira-morena. Um nariz de
cavalo. Cavalo não, potranca. Tive vontade de pegá-la pelo nariz.
Aí, eu olhei abaixo do nariz lá dela e vi os lábios maravilhosos,
os beiços apetitosos, as comissuras, os lábios carnudos desejados, os lábios de
beijos, os lábios de peixe de aquário pedindo farelo. Eram outras coisas mais
lindas, desenhadas, meu! Lábios falando nariz, o meu nariz, lábios escandindo a
palavra (meu) na-riz.
- Você, então, entende de narizes por
judeus, é?
- Todo mundo sabe que é assim desde o
começo ao fim da Bíblia Sagrada somando o Velho e o Novo Testamentos.
Tive vontade de entrar naquela boca tão
com gosto de inteligência, independência, impertinência, hálito de menta,
hálito de casca de bergamota madura, hálito de chiclete verde sabor cupuaçu.
Uma boca linda com tantos dentes brancos e bem acomodados e bem certinhos. Uma
boca bonita vinda de um lugar tão loirosa, tão morenosa. Foi raro, é raro,
sempre será raro e muito caríssimo. Uma boca de perfumes caprichosos e
caprichados, palavras muito bem mastigadas e perfumadas e acaloradas.
- Não esperava que você apreciasse assim
tão bem ou melhor o meu nariz.
- E quem falou que eu gostei? Detestei,
isso sim.
Essa eu perdi e tóim!
- O que você vai fazer em São Paulo e que
não é da minha conta?
Não sei o que respondi. Ela insistiu e
voltou com outras perguntas e que foram sendo sempre a mesma pergunta,
praticamente:
- Já esteve lá outras vezes? Já viajou de
avião? Já ouviu falar no parque do Ibirapuera? Aeroporto de Cumbica fica em São
Paulo?
Olhei pela vidraça do ônibus e o tempo
corria muito devagar e respeitoso e olímpico e inaudito. Dei pouca importância
a mais uma pergunta e traguei o ar para aliviar a pressão. Era pela altura da
ponte do rio das Antas e meus ouvidos estavam surdos fechados mudos cegos secos
bocejantes. Quando me voltei, ela já estava polindo as unhas verdes uma com
outra cor roxa:
- Quando era garoto já subia nesses arcos e ficava lá
em cima olhando e rindo dos meus amigos abobados, é.
- E não tinha medo.
- Naquela idade eu não tinha medo de
altura. Agora já tenho.
Eu a fixei, ela já me olhava. Ela
infelizmente tinha os olhos azuis ou esverdeados. Se tivesse olhos de outra cor
pretos por exemplo eu não estaria nem aí e a esqueceria. Felizmente ela tinha
esses olhos ali.
- Eu sempre gostei de geografia e
História do Brasil - eu disse.
- ...
- Geografia porque eram os lugares com
nomes próprios topônimos tupis-guaranis; História porque eram os acontecimentos
os eventos os fatos as personalidades nos lugares certos e reconhecidos.
Em Caxias do Sul o tempo estava bom e
peguei o voo para Sao Paolo. As nuvens, embora, não atrapalhariam o trânsito.
E então aguardar um algo novo, como é? O
bom mesmo é pensar noutra coisa para enganar a ansiedade. Mas como? Bem, era
muito cedo para me embaraçar nisso.
Na sala de embarque, a dona dos cabelos
curtos acaju telefonava e não podia controlar o riso, um casal de africanos
falava o tempo todo e em francês, um rapaz ficava entre o tablete e o livro de
400 ou 500 páginas, o sujeito robusto se mostrava desengonçado torto com
telefone no ombro e livro de 450 páginas entre as mãos.
- Bom dia a todos. Aqui é o comandante...
Em uma hora e sete minutos estaremos em São Paulo, aeroporto de Congonhas. Para
sua segurança permaneça sentado e com o cinto afivelado durante todo o processo
de decolagem. Uma boa viagem a todos nós.
Foi tranquilo como andar de elevador. Um
pouco mais rápido um pouco mais alto entre nuvens e azuis, nuvens mais altas e
azul mais alto, nuvens mais por baixo e azul mais por baixo, nuvens no caminho
e azul no meio no começo do caminho. Uma hora e sete minutos com o vazio de
flutuar, flanar, esta a novidade. Para subir um empurrão, para descer um
empurrão.
- Em caso de despressurização... as
saídas de emergência estão localizadas... primeiro crianças idosos mulheres...
Na cabeceira da pista o avião acelerou ao
máximo. As turbinas fizeram tremer o avião e ouvir barulho de trovão. A corrida
na pista pareceu ridícula. A trovoada. O puxão para o alto... E as casas e
construções com telhados as ruas com as árvores em fila indiana a montanha a
serra Gaúcha. Quando tudo parecia legal foi aí que o avião fez uma curva... e eu
fiquei pendendo para o outro lado.
Sentado na janela boreste eu observava
sempre o chão, ou melhor, o fundo do poço espelhado, ou melhor, o azul com
montes aqui e ali de nuvens brancas.
A tia da poltrona vizinha,
indolentemente, acomodou a mão no meu braço:
- Vou visitar o túmulo daquela atriz...
que morreu mês passado de... Era meu ídolo. Lembro daquele filme... que ela
quase ganhou o prêmio... Eu sempre fui sua fã e não perdia novela que atuasse.
Já sabia que tenho um vazio na alma, ou
uma saudade da época de anjo, ou um medo de olhar pra baixo.
O avião, sem bater as asas, riscava o céu
que era alto que estava uma beleza que parecia um ar azul puro.
Bem de cima, talvez sobrevoando já os
Estados de Agronômica, Xanxerê, Pedras Grandes, Lages, eu olhei e pensei: não
precisava estar aqui e estou. Se o céu tinha nuvens então a natureza
necessitava de nuvens. O nosso voo, aquele avião, nós todos ali em pleno céu,
nós todos estávamos adejando fora de moda.
Subimos para tão alto e perto dos céus
que quase todos fizeram o sinal da cruz e beijaram as pontas de dedos da mão
direita e espalmaram as mãos em cruz sobre o peito. Os que não fizeram de
teimosos já poderiam ter feito antes escondido. Uma voz lembrou de Nossa
Senhora Aparecida. O que não atrapalha ajuda!
As nuvens de cima, o tabuleiro de xadrez
lá embaixo, o horizonte redondo, o sol por toda parte e sem sombra.
Eu olhei a asa e me perguntei, vendo-a
balançar daquele jeitinho tipo folha verde: será que é tão seguro assim viajar
de avião nesta data e tão alto?
A tia voltou, pausadamente, com bafo ou
hálito de guaraná em lata:
- Quando tenho oportunidade de ir a São
Paulo vou sempre rezar no túmulo daquele ator... que morreu de... Era um ótimo
ator e usava sempre um lenço no pescoço, tinha um bordão assim... que usava em
qualquer entrevista. Trabalhou em tudo que é emissora de tevê, mas
principalmente na...
Sobrevoamos o litoral não sei em que
banda, São Francisco do Sul, Guaratuba, Formosa do Oeste. A orla bordada de
casas. Muitas montanhas cobertas de matos, todas montanhas verdes de matos. Uma
colcha de retalhos em tons de verde em tons de terra.
- Dentro de vinte e três minutos
estaremos pousando em São Paulo, Congonhas, e faz tempo bom, temperatura em
torno de trinta e um graus, em nome da tripulação e da companhia agradecemos a
preferência, um bom dia, obrigado.
O avião reduziu a velocidade se
preparando para o pouso. O espaço aéreo da grande Sao Paolo.
A tia do lado chegou mais perto,
mornamente, e ainda confessou muito urgente de última hora:
- Tem o cemitério do Araçá onde mora
eternamente aquela talentosa atriz-mirim... que morreu de... e eu sempre
enfeito o seu túmulo de flores vermelhas e amarelas. Artista de renome. Ela fez
aquele filme... e era filha na vida real daquele ator... e daquela atriz...,
lembrou?
Sao Paolo começa fora de Sao Paolo,
Diadema, Guaianazes, Vila Jacuí, Jardim Aricanduva e não tem mais para onde se
voltar.
- Atenção passageiros e tripulação para o
procedimento de pouso. Apertem os cintos.
O que fazer em Sao Paolo? E Sao Paolo é
no mesmo país.
A primeira sensação foi de que Sao Paolo
tem ruas para se chegar ao fim dos tempos e ao começo também. E uma por uma e
uma por cima da outra uma do lado da outra uma ou duas saindo de uma outra.
Onde tem uma rua com esse nome e aquele apelido. Sao Paolo é feita de mais
ruas. As ruas mais atrativas. Não cabem todas as ruas em Sao Paolo. Não tem
mais espaço para ruas e fazem ruas por baixo da terra. De todo lado vem uma rua
e onde se parar tem uma esquina. A mesma rua vai e volta para ocupar espaço. As
ruas mais importantes.
Não posso voltar pra casa sem passar na
Avenida Paulista. Não posso pensar em mar sem os coqueiros na praia.
Uma praça da Bandeira onde uma bandeira
brasileira empurrava o vento paulistano.
O serviço de inteligência da Scotland
Yard, junto com a PF e com a ajuda da Interpol, fizeram uma longa investigação
da explosão. Os detetives isolaram o local do atentado e não adiantaram
qualquer informação. Uma mulher em pé do outro lado da rua e no meio dos outros
curiosos - aquela mesma de sombrinha raiada bicolor verde e branca camiseta
laranjada sem mangas estourando a boca do balão vestido amarelo curto vaporoso
-, assistiu a tudo tranquilamente mascando chiclete lilás com gosto de abiu.
Próxima... estação... Liberdade, saída
pelo lado esquerdo do trem. Parque Villa-Lobos. Avenida Ceci. Bairro Horto do
Ipê.
O primeiro dia alameda Barão de Campinas
muito sol pernada e não choveu nem no entardecer. Igrejas abarrotadas de
altares e nichos com estátuas de santos santas e pilares e imagens e capelinhas
e pedintes, etc.
E fui visitar o meu parente na avenida
Rio Branco perto do Copan. Cheguei contente fui recebido alegremente era
aguardado e o primo vivia casado e não tinham filhos. Primeiro fui olhar o
prédio em curvas de aspecto aerado e fiquei admirando o famoso edifício
imaginado pelo grande arquiteto Antônio Alcântara Machado. O casal tinha um
casal de cachorrinhos pequenos e irrequietos que andavam por tudo dentro de
casa e mimados como crianças de colo. Da calçada mesmo fiquei olhando pra cima
lá para os trinta quarenta andares e era mesmo o prédio que se conhece da tevê.
Até pedi que me falassem a raça dos bichinhos me falaram me explicaram mas
esqueci e não lembro mais uma pena balançavam a cauda sorrisos nos dentes
pontudos o tempo todo acho que só pensavam em comida e lamber o suor da gente.
A mulher dele tinha olhos grandes e
negros. Ainda bem. Não gosto de dar em cima de mulher casada mulher de amigo
mulher de parente nem se fala e mulher de olhos negros eu esqueço fácil. Ainda
bem.
As ruas de Sao Paolo não têm fim e as
ruas vão até o fim dos tempos e dos espaços porque cheias de compromissos
urgentes. Onde o Brasil encontra o mundo. Então é verdade.
E pelas cinco e tanto da tarde fechou o
tempo choveu firme e o vento fez as folhas voarem para todos os lados,
Anhanguera, praça Princesa Isabel subindo pois apressado a Duque de Caxias.
Quando eu não pensava em ir para Sao
Paolo eu pensava em ir para Curitiba, só depois de pensar mais um pouco eu
pesei entre Sao Paolo e Curitiba e me decidi por Sao Paolo.
No outro dia eles me chamaram:
- Vem a-qui!
Daí fui não me arrependi e me
apresentaram:
- Olha só esta. É a minha cunhada que
mora em Bauru e não é sanduíche. Aliás, tem namorado mas a partir de hoje e até
o dia da volta ela não se complica e é desimpedida e é informada e está na
condicional (risos aplausos apupos vivas abraços fricções nas costas beijinhos
nos cantos da boca).
A cunha tinha olhos grandes e negros.
Ainda bem também obrigado. Daí trocamos nomes próprios livros preferidos gosta
de música? gosta de belas artes? acredita que tem time para ganhar campeonato
antes do ano 23 mil? conhece Nova Prata de ponta a ponta? ah! já esteve em Casa
Branca e Indaiatuba, fazendo? Ela se chamava e eu disse na lata e na cara dura
que o meu nome é mais bonito e concordou.
Estilhaços de sol caíram e assaram e
irritaram e queimaram a minha pele e foi sexta-feira no zênite rua da
Consolação, largo do Arouche, Tatuapé e quase que perco a porta da frente na
entrada para o Museu Anchieta.
A interessante construção nos remete ao
século XVI. As janelas são arqueológicas. O teto apainelado. Projetada pelo
arquiteto português Francisco Marins. A característica primordial foi inspirada
nas curvas da natureza. O pórtico monumental e bem artístico está voltado para
a rua hoje com o nome de avenida Dr. Vital Brasil. O prédio todo foi restaurado
oito vezes, a última delas ficou pronta em 2006 ao custo de dois milhões e
quatrocentos mil reais. Destaque para uma passagem no subsolo que já foi
secreta e que teima em sair lá na altura da rua 25 de Março ou parque D. Pedro
II.
Eu peguei na mão da cunhada e ela,
cabelos longos lisos negros como uma iara do rio Javaés, nem olhou pra mim
quando se ouviu falar:
- O quê?!
Passei o natal em Sao Paolo, mas eu nem
acreditava. Eu si me diverti muito passeando pela avenida Afonso D'Escragnolle
Taunay e bares e restaurantes e praças povoadas de imponentes ingazeiros e dos
incidentais tangarás, tuiutis, arapongas, porutis e acrobáticos bizogues.
Para falar a verdade foi a Interpol, com
o auxílio da PF mais a Scotland Yard, que conseguiram descobrir uma pista da
quadrilha que roubou do Masp o Di Cavalcanti o Cândido Portinari o Anita
Malfatti o Pedro Américo o Tarsila do Amaral. Duas mulheres, segundo uma
testemunha ocular que não quis se identificar, deixaram saindo do local voando
num táxi bem logo depois do fato ocorrido e foram no sentido da avenida dos
Bandeirantes e de Barueri.
Fomos num shopping ali pela rua 11 de
Junho, Tietê, vizinho à praça do Pôr do Sol com a herma de Tiradentes. Um dos
mais mais maiores e excelentes de Sao Paolo onde tudo brilha e espelha e cheira
bem e encarece e não deixam você entrar de chinelo de dedo. Uma bola de
sorvete, R$8,70; um pão de queijo, R$7,50; um refrigerante com canudinho,
R$11,80; entrada para o filme, R$54,00; um pacote de pipocas dos grandes,
R$9,90; dois pacotes de pipocas dos grandes, R$19,80. Peguei no antebraço ou no
braço, onde o braço dela começa ou termina, e ela reagiu como uma moça do
interior paulista reagiria nessa mesma circunstância, etc:
- Você espera!
E ela me beijou a lente da direita dos óculos. Meu!
esse olho com nuvem de batom café ficou emocionado e meio nublado mal
assistindo ao filme durante toda a sessão, uma vez. E a cunha um dia com
pulseira azul outro dia com vermelha outro dia com verde do relógio de grande
mostrador comprado na rua chique Marquês de Itu, Largo de São Bento, Jabaquara.
Já me gastavam as cooostaaas de tanto
andar e lugar para visitar. As ruas de Sao Paolo são dos pobres de todos os
tons tonalidades e etnias mas os ricos não e em parte alguma talvez voando nos
helicópteros.
Eu não poderia deixar de ir ao zoológico
e era muito longe e não fui, ficou pra próxima.
Pois a cunha andou pelas pedras dos corredores
do shopping Moema muito engraçada:
- Só pode pisar no cinza!
Meia dúzia de minutos depois:
- Só pode pisar no preto!
Eu estive bem ela pareceu ótima e feliz.
Eu estive melhor e foi assim mesmo que eu encontrei. No shopping quando uma
guria usa bermuda cheia de bolsos e tem o hábito de usar os bolsos para por as
mãos nos bolsos.
- Você teve bicicleta na infância?
Próxima... estação... Pinheiros, saída
pelo lado direito do trem... transferência para linha 2 verde da CPTM.
Daqui vinte anos ninguém segura uma
segunda-feira quando você duvida da resposta não pergunte ônibus elétrico rua
General Rondon atrás da Catedral Metropolitana da Sé só para ver como era até a
rua Guararapes.
Eu e cunha entramos num restaurante
chinês da avenida Brigadeiro Luís Antônio, perto da pirâmide ou obelisco do
Piques, Brasilândia. Comemos carne de peixe cru com temperos condimentos
extratos de que o quê.
- Me soube muito bem - concluiu ela a
cunha.
Segundo a PF mesmo, e depois a Interpol e
a Scotland Yard juntas, a gangue era composta de uma dezena de falsários todos
vindos do estrangeiro. Três mulheres brasileiras davam suporte ao bando. Uma
delas era negra de cabelo amarelado a outra branca de cabelo em corda e a
terceira mulata de cabelos esticados na chapinha.
Nesse mesmo lugar, Sao Paolo, há 500
anos, os guainás foram os habitantes e únicos donos das terras. Assim tão bem
associados com os periquitos-verdes, os jacurarus, os corujões-orelhudos, os
porcos-do-mato, os curicas, as patis, as macambiras-de-pedra, as chás-de-frade,
as mamoneiras-miúdas, os tatuquiras, os apaiaris, os ubaris, os guaribas.
Próxima... estação... Anhangabaú... saída
pelo lado esquerdo do trem... transferência para linha 9 esmeralda do metrô.
Fomos então nós quatro 21h ao restaurante
na rua dos Timbiras, Vila Formosa, a poucas quadras da famosa referência
conhecida e falada e propalada do monumento às Bandeiras. Para comer um prato
exótico demais: uma carne de cavalo. É uma!
Aconteceu tudo engraçado e deu arrepios e
ataques de risos. Todos nós estivemos nervosos e falamos muito e rimos muito
por puro preconceito. Nas paredes do restaurante vários quadros emoldurando
fotografias de cavalos de todo tipo e raça e competência e pelo.
Até que enfim o chefe de cozinha nos
trouxe o prato e olhamos com certo respeito e certa solenidade e certa
distância. O cozinheiro deu uma pequena palestra sobre o tabu em geral e em
questão. O primo foi o primeiro, a sóbria mulher dele a segunda, a cunha a
terceira, eu que estive de gaúcho o tempo todo fiquei de esperar e esperei e
fui tomando golinhos de cerveja; experimentamos.
O chef voltou com as mãos às costas e as
perguntas, perguntou:
- E aí? Então? Que acharam da carne de
cavalo manga-larga marchador?
Nos entreolhamos, a insigne esposa do primo
passou o guardanapo na boca e disse:
- Achei um pouco dura, mas boa como de
vaca.
O primo logo em seguida:
- Pensei que ia ser assim... diferente,
mas não senti nada de exótico ou de diferente.
Eu fiquei pensando e aguardando a minha
vez, a minha vez. A cunhada arriscou:
- O molho é muito melhor que a carne, pra
falar a verdade.
E todos me olharam e respondi
incontinente:
- Não como mais carne na minha vida.
Corrigi a tempo:
- Não como mais carne de bicho morto, é
claro.
E todos caímos na gargalhada, o parente
arrotou, e brindamos com mais cerveja bem gelada. Olhei os olhos da cunha e
eram negros grandes brilhantes voltados pra mim, ainda bem.
Próxima... estação... Tamanduateí, saída
pelo lado direito do trem... opção corredor de ônibus da EMTU. Rua Iperoig com
livrarias sebos cafés ponto de leitura planetário pinacoteca do Estado ponte
Estaiada museu da Casa Brasileira.
Fomos subimos ao quadragésimo primeiro
andar do famoso edifício Itália. A cunha foi até a amurada do terraço,
cicerone, e olhou a paisagem a cidade lá embaixo. Alguns prédios com inscrições
rupestres a spray. Esperei, depois fui e me aproximei e a agarrei pelas costas,
muito meigos ternos pombas-rolas. Nós dois olhando Sao Paolo assim de tão alto
foi perigoso estranho gigantesco selvagem amplo neolítico extraterrestre.
Peguei no queixo da cunha e a olhei com
acinte com impaciência e vadio. Vociferei com ódio angústia desânimo e
sofreguidão:
- Então?!
Ela respondeu com dentes cerrados e
olhando nos meus olhos cor de folha no pé:
- Não passa de hoje esta noite que amanhã
eu vou de retorno a Bauru.
Depois ela me disse, completando,
completamente:
- Levei até hoje vinte e oito anos.
Descubro que a partir daqui só quero uma coisa: dinheiro. Ou trabalhar, né!
Ainda ela, filosofia, braços cruzados, a
tarde, o hálito um pouco gelado, olhos encobertos pela lente de contato:
- O melhor porvir está por vir por
acontecer.
Em cinco minutos ou uma cerveja para dois
na mesinha redonda do restaurante quase aéreo, ela confessou a vida resumida
resolvida melhor esportiva inteira, assim:
- Um ano atrás, já nessa época entre os
dias de dezembro, quebrei o braço direito, as cicatrizes e etc., em três
lugares, acidente de moto, eu e meu namorado o Ricardo, eu que pilotava, a
gente fugia da chuva, eu já sei bem andar de moto, ele é entregador de pizza lá
em Bauru.
Entregador de pizza em Bauru onde se
inventou o Bauru, rimos assim mais perto um do outro e ela podendo tudo campeã
gigante não bebia quase nada, continuou:
- Depois um dia eu resolvi pintar de azul
as pontas dos cabelos, entende? O pessoal começou a me chamar de
arara-azul-grande e eu desconsertei.
Rimos mais um pouco, ah ah ah!... e ela
pegou minha mão para acariciar e olhou e beijou de leve e prosseguiu a
narrativa sem esperar intervenção:
- Aproveitando que tenho um emprego de
atendente em consultório de oculista e já entrei para uma faculdade de
oftalmologia. Não sei bem se é isso que eu quero. Mas a minha chefe ganha bem e
é lésbica e tem um carrão e eu gosto de dinheiro como todo mundo e ela vai
passar um mês inteirinho de férias lá em Manacapuru. O Ricardo me pega de moto
sempre que não chove. Cara! fazia tempo muito tempo que eu procurava até que
encontrei até encontrar o Ricardo.
A cerveja estava no ponto e eu determinado
e sufocado e idiota. Pois ela pareceu ter muito que desabafar e continuou
automaticamente e sem pressa de chegar a lugar algum. Eu tinha de acreditar que
aquele encontro era comigo e o presente seria como um presságio de boas festas
e feliz ano novo. Ela expandiu com letra cursiva:
- Em julho passei uma semana junto da
minha avó lá em Vista Alegre do Alto. Era a terceira briga no ano entre eu e
Ricardo. Mas, felizmente, a gente sempre volta. O Ricardo é muito bom, muito
bom. Ainda quero aprender a tocar violão ou oboé ou teclado. Preciso conhecer
Ouro Preto Diamantina Sabará, e ainda nessa encarnação. Tenho um vizinho que
toca trombone todas as tardes ali pelas 18h e 30min e eu acho massa. Ricardo é
cara pra casar, entende?
Procurei distraí-la com outras conversas
outras coisas menos importantes menos embaraçosas mais ou menos bobas outras
aventuras sair por aí com outra linguagem relaxar, perguntei:
- Qual foi o primeiro lugar que você fez?
Ela veio com seu olhar doce e melífluo, a
boca doce e melíflua, mais junto, o lábio espumoso e a língua lupulina.
- O lado b.
Não era bem essa a resposta, mas enfim.
Não era exatamente esta a resposta que eu esperava, porém não tenho
absolutamente nada com isso. Caí com outra pergunta:
- E depois, nós dois, etc?
- Você eu não sei e nem quero saber. Eu
vou pegar um navio ou um avião e ir ao redor do mundo beijar e beijar e beijar
árvores, ok!
Achamos engraçado e original. Ela tinha
outra resposta lisa escorregadia para a mesma dúvida:
- Vou por aí, vou puxar puxar a linha do
horizonte e pegar o sol com las manos.
Foi bom foi simples foi leve foi assim.
Toquei no ombro dela. Ela não disse mais nada. Fingiu nem aí, altiva. Apenas
sorriu suavemente. Ela não era minha, um broche segurava a aba da camisa, mas também
não era de ninguém, olhou o copo meio vazio, nos olhamos, broche com cara
daquela artista..., nos lambemos, ainda bem.
Às vezes se sonha e falamos sonhando
sonhos sonhados, às vezes se acorda e falamos bem maduros e bem plantados na
realidade. Vai vê uma terceira vez, não é nada!
O aeroporto de Congonhas é limpo e
ajeitado. Fui ver se meu livro estava na estante da livraria do aeroporto, não
estava. Na livraria da avenida 9 de Julho, já não estava. Em uma ou outra
livraria em torno da praça Ramos de Azevedo, não estava. Na rua da Quitanda,
esteve. Na Avenida Paulista, estava. Na esquina da rua Taquara Branca com a
avenida Santos Dumont, já estivera.
Segui até o Mercado Municipal para comer
um punhado de pequis fabricados em Buriti dos Montes. Entrei na igreja da Ordem
Terceira do Carmo para olhar o céu côncavo pintado de anjos e Deus. A estátua
do beijo no largo de São Francisco. O viaduto do Chá tinha árvores de plástico
reciclado. Garoou forte no viaduto Santa Ifigênia. Faltaram o autódromo de Interlagos,
a estátua de Borba Gato, o instituto Butantã, o palácio dos Bandeirantes, o
Centro Cultural São Paulo.
- Por favor, coloque na cestinha tudo que
o moço tiver de metal relógio corrente pulseiras cinto piercings celular moedas
tudo, obrigada. Passe pelo detector de metais, obrigada.
O voo atrasou, o voo pegou
engarrafamento, o voo alçou voo e eu não queria ler nada. Teve o casal que
cuidou dos gêmeos de cinco anos. Que bonito a família lendo a garotinha com
gibi o pai e a mãe com o mesmo título embora cada um com seu exemplar de 480
páginas. Uma beldade de calção estampadinho pernalta que abraçava um livro de
700 ou 800 páginas e fechou os dois olhos (azuis ou verdes atrás de óculos
número 0,05°, ainda bem felizmente) na página cinco, beldade performática
prosperada apresentando um andaime de um metro e oitenta e seis no ambiente
cabelos loiros puros até o meio das espáduas, foi diferente cuidar dessa uma
beldade sempre assim possível no nosso caminho na nossa paisagem pela nossa
proximidade, falei dos olhos da beldade azuis ou verdes como azul o céu naquele
instante do voo de retorno.
O avião subiu para o oeste e virou para o
norte, achei. Quando ele fez essa curva foi estranho porque o bicho ficou à
deriva e a sensação foi de queda para o lado.
Olhando por cima Bela Vista, Vila
Leopoldina, Jurubatuba, Raposo Tavares, São Caetano do Sul, Sao Paolo.
A minha vizinha de poltrona, bem
resolvida muito procedimento muito bem contente muito intuitiva, amistosamente:
- São meus sobrinhos.
Mostrou imagens no celular de dois
garotos e uma garota em idades escolares, confiadamente:
- Moram em Gramado. Vou visitá-los, né!
Estiquei o pescoço para a janelinha
redonda trinta centímetros quadrados e viajamos muito entre nuvens a sei não
quanta velocidade e tanta altura. O
fundo de telhados e geometrias ficou azul com nuvens brancas esgarçadas.
O mar azul e o céu sem ondas. Violentando
rasgando acometendo zumbindo o ar azul. Podia fechar os olhos me dominar e
tentar um cochilo? Eu me prometera fechar os olhos.
A vizinha voltou, miudamente, puxando a
manga curta da minha camisa toda vermelha comprada na 24 de Maio ali perto do
parque da Luz:
- Por acaso você moço já sabe já
descobriu qual a palavra mais humilde de toda a Sagrada Escritura?
Olhei para ela com minha cara de sempre
de dúvida de ignorância de testemunha de humildade de santidade de natural cara
pálida:
- Apocalipse! - ela mesma respondeu e
delatou.
Balancei a cabeça meio pra lá meio pra
cá, pra direita pra esquerda, meu coração de dois quilos e oitocentos gramas
bem no meio do mundo, e referi:
- Veja você, dona, que coincidência ou
não. Ontem à noite, ali pela meia-noite, por ali, fui obrigado a assistir um
documentário, umas duas horas e meia sem intervalos, e o filme falava e
mostrava tudo sobre três acontecidos desastres aéreos. Não sobrava nada.
Outros saíram das poltronas e foram só
passear até o banheiro. Alguns se lembraram da bolsa no bagageiro. O avião
varou nuvens totais todas iguais. Nada para fazer com as mãos e se pelo menos
tivesse comprado uma revista um livro de 700 páginas. Como foi Sao Paolo?
Já numa altura por volta dos países de
Vacaria, São Marcos, Flores da Cunha, Antônio Prado:
- Atenção passageiros e tripulação. Vamos
passar por uma área de breve turbulência. Permaneçam sentados. O cardápio será
servido dentro de instantes.
Não importa se de avião ou de navio, uma
hora vão pedir para olhar tua bagagem e verificar se trás alguma coisa que
possa ser ameça para alguém ou algo, etc.
O avião oscilou brevemente. Foi, embora,
mais fácil mais certa mais prática a volta.
Fiquei sorrindo à toa com a lembrança da
cunha nos seus seios brancos como as nuvens pequenas gelatinosos bonitos
pontudos na blusinha de verão azul-clara repensei naqueles seios apalpados e
módicos e uniformes e ariscos senti ainda o suor o sabor do seio mais
trabalhado mais procurado e doce e palatável, etc.
- Atenção para o procedimento de pouso.
Em Caxias do Sul céu encoberto temperatura em torno de 14-Bis. Obrigado a
todos. Tenham sempre um ótimo dia.
A aeronave foi guiada ao ponto certo. A
viagem se realizou.
Contudo me distraí bastante, com tudo.
- Então? Foi tudo bem? Gostou? Comprou?
- Foi tudo como se eu pudesse fazer.
Ainda não me caiu a ficha da melhor coisa que vi lá em Sao Paolo.
E a coisa mais inusitada que passei em
Sao Paolo foi dentro do banheiro do aeroporto - o passarinho seguro concentrado
no que estava fazendo -, a voz suave empostada humana de mulher nova, anunciou:
- Atenção passageiros do voo para...
Que inesperado, meu!