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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SAO PAOLO




       Até então, uma mágica um milagre comum: o dia surgiu para sempre de dentro da escuridão eterna. Foi uma manhã flutuante como outra qualquer.

       Sabiás-do-campo se divertiram a valer brincando de pega. As andorinhas experimentaram com sucesso a asa-delta. Borboletas engraçadas originais campearam campeãníssimas entre as sapotaias as tiriricas os alecrins-de-são-josé as pindobas-do-sul as canjeranas-do-brejo.

Sol completo, aquele amarelo ouro clássico, muito longe, longe uma barbaridade, mais longe, longe uma vez, longe e talvez, sempre distante e inalcançável, longe outra vez; todas as exigências controladas, todas as existências dominadas, todas as aparências mistificadas.

Hoje em dia Nova Prata, amanhã Caxias do Sul, depois Sao Paolo: pensei. 

Peguei o ônibus 4h até Estrela do Sul mais 8h até Santo André. Eu não sei viajar de ônibus, eu não sei andar de ônibus.

Peguei o barco às 20h em Roncador 7h até Caldazinha. Eu não sei viajar de barco, eu não sei andar de barco.

       Peguei o trem das 5h em Canoas 12h até Marechal Floriano. Eu não sei viajar de trem, eu não sei andar de trem.

       Já em São Leopoldo (terra do romancista Mário Quintana) comecei a cochilar, cansar as pernas e a bater a cabeça na vidraça. Lá fora do ônibus uma paisagem acostumada no verão muito quente, aqui que a gente já sabe. No inverno por causa do frio e no verão por causa do calor.

       Pela altura de Bom Princípio (terra da cupiúba), depois de bater a cabeça mais uma vez na vidraça e acordar mal e mal todo chateado, abri os meus grandes olhos e, do meu lado no corredor, vi uma bonita loirosa. Nem quis acreditar, mas acredite. Não duvido que deve ter embarcado essa horinha mesmo em Carlos Barbosa (terra do pinhão), pensei.

       E pela altura entre aquela Patu (terra da pitanga) e a outra Cotiporã (terra das águas borbulhantes ou ferventes), eu me resolvi a puxar conversa com a loirosa, com a loiraça, com a morena-loira. Ela muito teutônica, bela, suave, felina e dourada. Vou puxar papo, pensei.

E comecei a conversa falando da minha anterior recente viagem a Caxambu (terra do mato pequeno bonito), e muito antigamente dos índios cocuiregatejê, pra lá da serra da Mantiqueira, pra lá da serra da Cantareira, etc. E fui rolando um lero sobre a serra da Ibiapaba, a cidade de Piracuruca (terra das inajás), etc. Toquei uma gaita sobre a interessante cidade mineira de Pindamonhangaba (terra lá onde é o lugar que o rio Paraíba do Sul faz fazer aquela curva formosa), etc. Descarrilei sobre o rio Maracá, o rio Mutuacá (onde os curumins e as cunhãs tuiúcas brincam na frente de casa com os pirajaguaras), etc. Falei outras viagens, contei mais coisas, conversamos sobre o próximo feriadão de carnaval, etc. E depois de tudo mais de sorrir um pouco mais de gracejos um pouco mais de charmes um pouco mais ela me disse, perguntando, afirmou:

       - Você é judeu, descendente, certo?!

       Tive vontade de olhá-la nos olhos e a olhei nos olhos - sem sacrifício nenhum da minha parte, Senhor! - e nossos olhos se cruzaram e que olhos lindos tinha aquela loirosa, loirosa-morenona. Que felicidade ser bizoiado por loirosa tão espetacular, tão fantástica, tão bem feita, tão bem caprichada, tão bem desejada, tão bem aclimatada, tão original. Uns olhos cristais muito raros, entende?! Coisa preciosa, coisa fina, coisa ideal, coisa celeste, coisa ilegal... os olhos dela. E que olhos garços, verdes, iguais do mar perto dos corais, meu!

       - Quê?! - foi só o quanto consegui dizer, depois do encantamento todo, etc.

       - Você não é alemão como alega. Você é judeu. Tem tudo a vê.

       Tive vontade de pegar nos cabelos longos loiros morenos de pontas cacheadas. E estiquei o braço, fui com a mão, estendi os dedos e não peguei nos cabelos lindos dela por pouco, desisti na hora h, desisti no fim do desejo, parei no último milímetro porque seria muita ousadia, porque seria muita tara da minha parte e me contive no último milímetro de tempo e de encompridamento do braço.

       - Como você tem certeza disso e por que você duvida? - perguntei.

       - É simples. É simplório. É só olhar. Já viu o seu nariz? Já quilometrou o seu quebra-vento?

       Tive outra vontade e de pegá-la pelo nariz. Um nariz de esfinge? Um nariz de loirosa, loira-morena. Um nariz de cavalo. Cavalo não, potranca. Tive vontade de pegá-la pelo nariz.

Aí, eu olhei abaixo do nariz lá dela e vi os lábios maravilhosos, os beiços apetitosos, as comissuras, os lábios carnudos desejados, os lábios de beijos, os lábios de peixe de aquário pedindo farelo. Eram outras coisas mais lindas, desenhadas, meu! Lábios falando nariz, o meu nariz, lábios escandindo a palavra (meu) na-riz.

       - Você, então, entende de narizes por judeus, é?

       - Todo mundo sabe que é assim desde o começo ao fim da Bíblia Sagrada somando o Velho e o Novo Testamentos.

       Tive vontade de entrar naquela boca tão com gosto de inteligência, independência, impertinência, hálito de menta, hálito de casca de bergamota madura, hálito de chiclete verde sabor cupuaçu. Uma boca linda com tantos dentes brancos e bem acomodados e bem certinhos. Uma boca bonita vinda de um lugar tão loirosa, tão morenosa. Foi raro, é raro, sempre será raro e muito caríssimo. Uma boca de perfumes caprichosos e caprichados, palavras muito bem mastigadas e perfumadas e acaloradas.

       - Não esperava que você apreciasse assim tão bem ou melhor o meu nariz.

       - E quem falou que eu gostei? Detestei, isso sim.

       Essa eu perdi e tóim!

       - O que você vai fazer em São Paulo e que não é da minha conta?

       Não sei o que respondi. Ela insistiu e voltou com outras perguntas e que foram sendo sempre a mesma pergunta, praticamente:

       - Já esteve lá outras vezes? Já viajou de avião? Já ouviu falar no parque do Ibirapuera? Aeroporto de Cumbica fica em São Paulo?

       Olhei pela vidraça do ônibus e o tempo corria muito devagar e respeitoso e olímpico e inaudito. Dei pouca importância a mais uma pergunta e traguei o ar para aliviar a pressão. Era pela altura da ponte do rio das Antas e meus ouvidos estavam surdos fechados mudos cegos secos bocejantes. Quando me voltei, ela já estava polindo as unhas verdes uma com outra cor roxa:

- Quando era garoto já subia nesses arcos e ficava lá em cima olhando e rindo dos meus amigos abobados, é.

- E não tinha medo.

       - Naquela idade eu não tinha medo de altura. Agora já tenho.

       Eu a fixei, ela já me olhava. Ela infelizmente tinha os olhos azuis ou esverdeados. Se tivesse olhos de outra cor pretos por exemplo eu não estaria nem aí e a esqueceria. Felizmente ela tinha esses olhos ali.

       - Eu sempre gostei de geografia e História do Brasil - eu disse.

       - ...

       - Geografia porque eram os lugares com nomes próprios topônimos tupis-guaranis; História porque eram os acontecimentos os eventos os fatos as personalidades nos lugares certos e reconhecidos.

       Em Caxias do Sul o tempo estava bom e peguei o voo para Sao Paolo. As nuvens, embora, não atrapalhariam o trânsito.

       E então aguardar um algo novo, como é? O bom mesmo é pensar noutra coisa para enganar a ansiedade. Mas como? Bem, era muito cedo para  me embaraçar nisso.

       Na sala de embarque, a dona dos cabelos curtos acaju telefonava e não podia controlar o riso, um casal de africanos falava o tempo todo e em francês, um rapaz ficava entre o tablete e o livro de 400 ou 500 páginas, o sujeito robusto se mostrava desengonçado torto com telefone no ombro e livro de 450 páginas entre as mãos.

       - Bom dia a todos. Aqui é o comandante... Em uma hora e sete minutos estaremos em São Paulo, aeroporto de Congonhas. Para sua segurança permaneça sentado e com o cinto afivelado durante todo o processo de decolagem. Uma boa viagem a todos nós.

       Foi tranquilo como andar de elevador. Um pouco mais rápido um pouco mais alto entre nuvens e azuis, nuvens mais altas e azul mais alto, nuvens mais por baixo e azul mais por baixo, nuvens no caminho e azul no meio no começo do caminho. Uma hora e sete minutos com o vazio de flutuar, flanar, esta a novidade. Para subir um empurrão, para descer um empurrão.

       - Em caso de despressurização... as saídas de emergência estão localizadas... primeiro crianças idosos mulheres...

       Na cabeceira da pista o avião acelerou ao máximo. As turbinas fizeram tremer o avião e ouvir barulho de trovão. A corrida na pista pareceu ridícula. A trovoada. O puxão para o alto... E as casas e construções com telhados as ruas com as árvores em fila indiana a montanha a serra Gaúcha. Quando tudo parecia legal foi aí que o avião fez uma curva... e eu fiquei pendendo para o outro lado.

       Sentado na janela boreste eu observava sempre o chão, ou melhor, o fundo do poço espelhado, ou melhor, o azul com montes aqui e ali de nuvens brancas.

       A tia da poltrona vizinha, indolentemente, acomodou a mão no meu braço:

       - Vou visitar o túmulo daquela atriz... que morreu mês passado de... Era meu ídolo. Lembro daquele filme... que ela quase ganhou o prêmio... Eu sempre fui sua fã e não perdia novela que atuasse.

       Já sabia que tenho um vazio na alma, ou uma saudade da época de anjo, ou um medo de olhar pra baixo.

       O avião, sem bater as asas, riscava o céu que era alto que estava uma beleza que parecia um ar azul puro.

       Bem de cima, talvez sobrevoando já os Estados de Agronômica, Xanxerê, Pedras Grandes, Lages, eu olhei e pensei: não precisava estar aqui e estou. Se o céu tinha nuvens então a natureza necessitava de nuvens. O nosso voo, aquele avião, nós todos ali em pleno céu, nós todos estávamos adejando fora de moda.

       Subimos para tão alto e perto dos céus que quase todos fizeram o sinal da cruz e beijaram as pontas de dedos da mão direita e espalmaram as mãos em cruz sobre o peito. Os que não fizeram de teimosos já poderiam ter feito antes escondido. Uma voz lembrou de Nossa Senhora Aparecida. O que não atrapalha ajuda!

       As nuvens de cima, o tabuleiro de xadrez lá embaixo, o horizonte redondo, o sol por toda parte e sem sombra.

       Eu olhei a asa e me perguntei, vendo-a balançar daquele jeitinho tipo folha verde: será que é tão seguro assim viajar de avião nesta data e tão alto?

       A tia voltou, pausadamente, com bafo ou hálito de guaraná em lata:

       - Quando tenho oportunidade de ir a São Paulo vou sempre rezar no túmulo daquele ator... que morreu de... Era um ótimo ator e usava sempre um lenço no pescoço, tinha um bordão assim... que usava em qualquer entrevista. Trabalhou em tudo que é emissora de tevê, mas principalmente na...

       Sobrevoamos o litoral não sei em que banda, São Francisco do Sul, Guaratuba, Formosa do Oeste. A orla bordada de casas. Muitas montanhas cobertas de matos, todas montanhas verdes de matos. Uma colcha de retalhos em tons de verde em tons de terra.

       - Dentro de vinte e três minutos estaremos pousando em São Paulo, Congonhas, e faz tempo bom, temperatura em torno de trinta e um graus, em nome da tripulação e da companhia agradecemos a preferência, um bom dia, obrigado.

       O avião reduziu a velocidade se preparando para o pouso. O espaço aéreo da grande Sao Paolo.

       A tia do lado chegou mais perto, mornamente, e ainda confessou muito urgente de última hora:

       - Tem o cemitério do Araçá onde mora eternamente aquela talentosa atriz-mirim... que morreu de... e eu sempre enfeito o seu túmulo de flores vermelhas e amarelas. Artista de renome. Ela fez aquele filme... e era filha na vida real daquele ator... e daquela atriz..., lembrou?

       Sao Paolo começa fora de Sao Paolo, Diadema, Guaianazes, Vila Jacuí, Jardim Aricanduva e não tem mais para onde se voltar. 

       - Atenção passageiros e tripulação para o procedimento de pouso. Apertem os cintos.

       O que fazer em Sao Paolo? E Sao Paolo é no mesmo país.

       A primeira sensação foi de que Sao Paolo tem ruas para se chegar ao fim dos tempos e ao começo também. E uma por uma e uma por cima da outra uma do lado da outra uma ou duas saindo de uma outra. Onde tem uma rua com esse nome e aquele apelido. Sao Paolo é feita de mais ruas. As ruas mais atrativas. Não cabem todas as ruas em Sao Paolo. Não tem mais espaço para ruas e fazem ruas por baixo da terra. De todo lado vem uma rua e onde se parar tem uma esquina. A mesma rua vai e volta para ocupar espaço. As ruas mais importantes.

       Não posso voltar pra casa sem passar na Avenida Paulista. Não posso pensar em mar sem os coqueiros na praia.

       Uma praça da Bandeira onde uma bandeira brasileira empurrava o vento paulistano.

       O serviço de inteligência da Scotland Yard, junto com a PF e com a ajuda da Interpol, fizeram uma longa investigação da explosão. Os detetives isolaram o local do atentado e não adiantaram qualquer informação. Uma mulher em pé do outro lado da rua e no meio dos outros curiosos - aquela mesma de sombrinha raiada bicolor verde e branca camiseta laranjada sem mangas estourando a boca do balão vestido amarelo curto vaporoso -, assistiu a tudo tranquilamente mascando chiclete lilás com gosto de abiu.

       Próxima... estação... Liberdade, saída pelo lado esquerdo do trem. Parque Villa-Lobos. Avenida Ceci. Bairro Horto do Ipê.

       O primeiro dia alameda Barão de Campinas muito sol pernada e não choveu nem no entardecer. Igrejas abarrotadas de altares e nichos com estátuas de santos santas e pilares e imagens e capelinhas e pedintes, etc.

       E fui visitar o meu parente na avenida Rio Branco perto do Copan. Cheguei contente fui recebido alegremente era aguardado e o primo vivia casado e não tinham filhos. Primeiro fui olhar o prédio em curvas de aspecto aerado e fiquei admirando o famoso edifício imaginado pelo grande arquiteto Antônio Alcântara Machado. O casal tinha um casal de cachorrinhos pequenos e irrequietos que andavam por tudo dentro de casa e mimados como crianças de colo. Da calçada mesmo fiquei olhando pra cima lá para os trinta quarenta andares e era mesmo o prédio que se conhece da tevê. Até pedi que me falassem a raça dos bichinhos me falaram me explicaram mas esqueci e não lembro mais uma pena balançavam a cauda sorrisos nos dentes pontudos o tempo todo acho que só pensavam em comida e lamber o suor da gente.

       A mulher dele tinha olhos grandes e negros. Ainda bem. Não gosto de dar em cima de mulher casada mulher de amigo mulher de parente nem se fala e mulher de olhos negros eu esqueço fácil. Ainda bem.

       As ruas de Sao Paolo não têm fim e as ruas vão até o fim dos tempos e dos espaços porque cheias de compromissos urgentes. Onde o Brasil encontra o mundo. Então é verdade.

       E pelas cinco e tanto da tarde fechou o tempo choveu firme e o vento fez as folhas voarem para todos os lados, Anhanguera, praça Princesa Isabel subindo pois apressado a Duque de Caxias.

       Quando eu não pensava em ir para Sao Paolo eu pensava em ir para Curitiba, só depois de pensar mais um pouco eu pesei entre Sao Paolo e Curitiba e me decidi por Sao Paolo.

       No outro dia eles me chamaram:

       - Vem a-qui!

       Daí fui não me arrependi e me apresentaram:

       - Olha só esta. É a minha cunhada que mora em Bauru e não é sanduíche. Aliás, tem namorado mas a partir de hoje e até o dia da volta ela não se complica e é desimpedida e é informada e está na condicional (risos aplausos apupos vivas abraços fricções nas costas beijinhos nos cantos da boca).

       A cunha tinha olhos grandes e negros. Ainda bem também obrigado. Daí trocamos nomes próprios livros preferidos gosta de música? gosta de belas artes? acredita que tem time para ganhar campeonato antes do ano 23 mil? conhece Nova Prata de ponta a ponta? ah! já esteve em Casa Branca e Indaiatuba, fazendo? Ela se chamava e eu disse na lata e na cara dura que o meu nome é mais bonito e concordou.

       Estilhaços de sol caíram e assaram e irritaram e queimaram a minha pele e foi sexta-feira no zênite rua da Consolação, largo do Arouche, Tatuapé e quase que perco a porta da frente na entrada para o Museu Anchieta.

       A interessante construção nos remete ao século XVI. As janelas são arqueológicas. O teto apainelado. Projetada pelo arquiteto português Francisco Marins. A característica primordial foi inspirada nas curvas da natureza. O pórtico monumental e bem artístico está voltado para a rua hoje com o nome de avenida Dr. Vital Brasil. O prédio todo foi restaurado oito vezes, a última delas ficou pronta em 2006 ao custo de dois milhões e quatrocentos mil reais. Destaque para uma passagem no subsolo que já foi secreta e que teima em sair lá na altura da rua 25 de Março ou parque D. Pedro II.

       Eu peguei na mão da cunhada e ela, cabelos longos lisos negros como uma iara do rio Javaés, nem olhou pra mim quando se ouviu falar:

       - O quê?!

       Passei o natal em Sao Paolo, mas eu nem acreditava. Eu si me diverti muito passeando pela avenida Afonso D'Escragnolle Taunay e bares e restaurantes e praças povoadas de imponentes ingazeiros e dos incidentais tangarás, tuiutis, arapongas, porutis e acrobáticos bizogues.

       Para falar a verdade foi a Interpol, com o auxílio da PF mais a Scotland Yard, que conseguiram descobrir uma pista da quadrilha que roubou do Masp o Di Cavalcanti o Cândido Portinari o Anita Malfatti o Pedro Américo o Tarsila do Amaral. Duas mulheres, segundo uma testemunha ocular que não quis se identificar, deixaram saindo do local voando num táxi bem logo depois do fato ocorrido e foram no sentido da avenida dos Bandeirantes e de Barueri.

       Fomos num shopping ali pela rua 11 de Junho, Tietê, vizinho à praça do Pôr do Sol com a herma de Tiradentes. Um dos mais mais maiores e excelentes de Sao Paolo onde tudo brilha e espelha e cheira bem e encarece e não deixam você entrar de chinelo de dedo. Uma bola de sorvete, R$8,70; um pão de queijo, R$7,50; um refrigerante com canudinho, R$11,80; entrada para o filme, R$54,00; um pacote de pipocas dos grandes, R$9,90; dois pacotes de pipocas dos grandes, R$19,80. Peguei no antebraço ou no braço, onde o braço dela começa ou termina, e ela reagiu como uma moça do interior paulista reagiria nessa mesma circunstância, etc:

       - Você espera!

E ela me beijou a lente da direita dos óculos. Meu! esse olho com nuvem de batom café ficou emocionado e meio nublado mal assistindo ao filme durante toda a sessão, uma vez. E a cunha um dia com pulseira azul outro dia com vermelha outro dia com verde do relógio de grande mostrador comprado na rua chique Marquês de Itu, Largo de São Bento, Jabaquara.

       Já me gastavam as cooostaaas de tanto andar e lugar para visitar. As ruas de Sao Paolo são dos pobres de todos os tons tonalidades e etnias mas os ricos não e em parte alguma talvez voando nos helicópteros.

       Eu não poderia deixar de ir ao zoológico e era muito longe e não fui, ficou pra próxima.

       Pois a cunha andou pelas pedras dos corredores do shopping Moema muito engraçada:

       - Só pode pisar no cinza!

       Meia dúzia de minutos depois:

       - Só pode pisar no preto!

       Eu estive bem ela pareceu ótima e feliz. Eu estive melhor e foi assim mesmo que eu encontrei. No shopping quando uma guria usa bermuda cheia de bolsos e tem o hábito de usar os bolsos para por as mãos nos bolsos.

       - Você teve bicicleta na infância?

       Próxima... estação... Pinheiros, saída pelo lado direito do trem... transferência para linha 2 verde da CPTM.

       Daqui vinte anos ninguém segura uma segunda-feira quando você duvida da resposta não pergunte ônibus elétrico rua General Rondon atrás da Catedral Metropolitana da Sé só para ver como era até a rua Guararapes.

       Eu e cunha entramos num restaurante chinês da avenida Brigadeiro Luís Antônio, perto da pirâmide ou obelisco do Piques, Brasilândia. Comemos carne de peixe cru com temperos condimentos extratos de que o quê.

       - Me soube muito bem - concluiu ela a cunha.

       Segundo a PF mesmo, e depois a Interpol e a Scotland Yard juntas, a gangue era composta de uma dezena de falsários todos vindos do estrangeiro. Três mulheres brasileiras davam suporte ao bando. Uma delas era negra de cabelo amarelado a outra branca de cabelo em corda e a terceira mulata de cabelos esticados na chapinha.

       Nesse mesmo lugar, Sao Paolo, há 500 anos, os guainás foram os habitantes e únicos donos das terras. Assim tão bem associados com os periquitos-verdes, os jacurarus, os corujões-orelhudos, os porcos-do-mato, os curicas, as patis, as macambiras-de-pedra, as chás-de-frade, as mamoneiras-miúdas, os tatuquiras, os apaiaris, os ubaris, os guaribas.

       Próxima... estação... Anhangabaú... saída pelo lado esquerdo do trem... transferência para linha 9 esmeralda do metrô.   

       Fomos então nós quatro 21h ao restaurante na rua dos Timbiras, Vila Formosa, a poucas quadras da famosa referência conhecida e falada e propalada do monumento às Bandeiras. Para comer um prato exótico demais: uma carne de cavalo. É uma!

       Aconteceu tudo engraçado e deu arrepios e ataques de risos. Todos nós estivemos nervosos e falamos muito e rimos muito por puro preconceito. Nas paredes do restaurante vários quadros emoldurando fotografias de cavalos de todo tipo e raça e competência e pelo.

       Até que enfim o chefe de cozinha nos trouxe o prato e olhamos com certo respeito e certa solenidade e certa distância. O cozinheiro deu uma pequena palestra sobre o tabu em geral e em questão. O primo foi o primeiro, a sóbria mulher dele a segunda, a cunha a terceira, eu que estive de gaúcho o tempo todo fiquei de esperar e esperei e fui tomando golinhos de cerveja; experimentamos.       

       O chef voltou com as mãos às costas e as perguntas, perguntou:

       - E aí? Então? Que acharam da carne de cavalo manga-larga marchador?

       Nos entreolhamos, a insigne esposa do primo passou o guardanapo na boca e disse:

       - Achei um pouco dura, mas boa como de vaca.

       O primo logo em seguida:

       - Pensei que ia ser assim... diferente, mas não senti nada de exótico ou de diferente.

       Eu fiquei pensando e aguardando a minha vez, a minha vez. A cunhada arriscou:

       - O molho é muito melhor que a carne, pra falar a verdade.

       E todos me olharam e respondi incontinente:

       - Não como mais carne na minha vida.

       Corrigi a tempo:

       - Não como mais carne de bicho morto, é claro.

       E todos caímos na gargalhada, o parente arrotou, e brindamos com mais cerveja bem gelada. Olhei os olhos da cunha e eram negros grandes brilhantes voltados pra mim, ainda bem.

       Próxima... estação... Tamanduateí, saída pelo lado direito do trem... opção corredor de ônibus da EMTU. Rua Iperoig com livrarias sebos cafés ponto de leitura planetário pinacoteca do Estado ponte Estaiada museu da Casa Brasileira.

       Fomos subimos ao quadragésimo primeiro andar do famoso edifício Itália. A cunha foi até a amurada do terraço, cicerone, e olhou a paisagem a cidade lá embaixo. Alguns prédios com inscrições rupestres a spray. Esperei, depois fui e me aproximei e a agarrei pelas costas, muito meigos ternos pombas-rolas. Nós dois olhando Sao Paolo assim de tão alto foi perigoso estranho gigantesco selvagem amplo neolítico extraterrestre. 

       Peguei no queixo da cunha e a olhei com acinte com impaciência e vadio. Vociferei com ódio angústia desânimo e sofreguidão:

       - Então?!

       Ela respondeu com dentes cerrados e olhando nos meus olhos cor de folha no pé:

       - Não passa de hoje esta noite que amanhã eu vou de retorno a Bauru.

       Depois ela me disse, completando, completamente:

       - Levei até hoje vinte e oito anos. Descubro que a partir daqui só quero uma coisa: dinheiro. Ou trabalhar, né!

       Ainda ela, filosofia, braços cruzados, a tarde, o hálito um pouco gelado, olhos encobertos pela lente de contato:

       - O melhor porvir está por vir por acontecer.

       Em cinco minutos ou uma cerveja para dois na mesinha redonda do restaurante quase aéreo, ela confessou a vida resumida resolvida melhor esportiva inteira, assim:

       - Um ano atrás, já nessa época entre os dias de dezembro, quebrei o braço direito, as cicatrizes e etc., em três lugares, acidente de moto, eu e meu namorado o Ricardo, eu que pilotava, a gente fugia da chuva, eu já sei bem andar de moto, ele é entregador de pizza lá em Bauru.

       Entregador de pizza em Bauru onde se inventou o Bauru, rimos assim mais perto um do outro e ela podendo tudo campeã gigante não bebia quase nada, continuou:

       - Depois um dia eu resolvi pintar de azul as pontas dos cabelos, entende? O pessoal começou a me chamar de arara-azul-grande e eu desconsertei.

       Rimos mais um pouco, ah ah ah!... e ela pegou minha mão para acariciar e olhou e beijou de leve e prosseguiu a narrativa sem esperar intervenção:

       - Aproveitando que tenho um emprego de atendente em consultório de oculista e já entrei para uma faculdade de oftalmologia. Não sei bem se é isso que eu quero. Mas a minha chefe ganha bem e é lésbica e tem um carrão e eu gosto de dinheiro como todo mundo e ela vai passar um mês inteirinho de férias lá em Manacapuru. O Ricardo me pega de moto sempre que não chove. Cara! fazia tempo muito tempo que eu procurava até que encontrei até encontrar o Ricardo.

       A cerveja estava no ponto e eu determinado e sufocado e idiota. Pois ela pareceu ter muito que desabafar e continuou automaticamente e sem pressa de chegar a lugar algum. Eu tinha de acreditar que aquele encontro era comigo e o presente seria como um presságio de boas festas e feliz ano novo. Ela expandiu com letra cursiva: 

       - Em julho passei uma semana junto da minha avó lá em Vista Alegre do Alto. Era a terceira briga no ano entre eu e Ricardo. Mas, felizmente, a gente sempre volta. O Ricardo é muito bom, muito bom. Ainda quero aprender a tocar violão ou oboé ou teclado. Preciso conhecer Ouro Preto Diamantina Sabará, e ainda nessa encarnação. Tenho um vizinho que toca trombone todas as tardes ali pelas 18h e 30min e eu acho massa. Ricardo é cara pra casar, entende?

       Procurei distraí-la com outras conversas outras coisas menos importantes menos embaraçosas mais ou menos bobas outras aventuras sair por aí com outra linguagem relaxar, perguntei:

       - Qual foi o primeiro lugar que você fez?

       Ela veio com seu olhar doce e melífluo, a boca doce e melíflua, mais junto, o lábio espumoso e a língua lupulina.

       - O lado b.

       Não era bem essa a resposta, mas enfim. Não era exatamente esta a resposta que eu esperava, porém não tenho absolutamente nada com isso. Caí com outra pergunta:

       - E depois, nós dois, etc?

       - Você eu não sei e nem quero saber. Eu vou pegar um navio ou um avião e ir ao redor do mundo beijar e beijar e beijar árvores, ok!

       Achamos engraçado e original. Ela tinha outra resposta lisa escorregadia para a mesma dúvida:

       - Vou por aí, vou puxar puxar a linha do horizonte e pegar o sol com las manos.

       Foi bom foi simples foi leve foi assim. Toquei no ombro dela. Ela não disse mais nada. Fingiu nem aí, altiva. Apenas sorriu suavemente. Ela não era minha, um broche segurava a aba da camisa, mas também não era de ninguém, olhou o copo meio vazio, nos olhamos, broche com cara daquela artista..., nos lambemos, ainda bem.

       Às vezes se sonha e falamos sonhando sonhos sonhados, às vezes se acorda e falamos bem maduros e bem plantados na realidade. Vai vê uma terceira vez, não é nada!

       O aeroporto de Congonhas é limpo e ajeitado. Fui ver se meu livro estava na estante da livraria do aeroporto, não estava. Na livraria da avenida 9 de Julho, já não estava. Em uma ou outra livraria em torno da praça Ramos de Azevedo, não estava. Na rua da Quitanda, esteve. Na Avenida Paulista, estava. Na esquina da rua Taquara Branca com a avenida Santos Dumont, já estivera.

       Segui até o Mercado Municipal para comer um punhado de pequis fabricados em Buriti dos Montes. Entrei na igreja da Ordem Terceira do Carmo para olhar o céu côncavo pintado de anjos e Deus. A estátua do beijo no largo de São Francisco. O viaduto do Chá tinha árvores de plástico reciclado. Garoou forte no viaduto Santa Ifigênia. Faltaram o autódromo de Interlagos, a estátua de Borba Gato, o instituto Butantã, o palácio dos Bandeirantes, o Centro Cultural São Paulo.

       - Por favor, coloque na cestinha tudo que o moço tiver de metal relógio corrente pulseiras cinto piercings celular moedas tudo, obrigada. Passe pelo detector de metais, obrigada.

       O voo atrasou, o voo pegou engarrafamento, o voo alçou voo e eu não queria ler nada. Teve o casal que cuidou dos gêmeos de cinco anos. Que bonito a família lendo a garotinha com gibi o pai e a mãe com o mesmo título embora cada um com seu exemplar de 480 páginas. Uma beldade de calção estampadinho pernalta que abraçava um livro de 700 ou 800 páginas e fechou os dois olhos (azuis ou verdes atrás de óculos número 0,05°, ainda bem felizmente) na página cinco, beldade performática prosperada apresentando um andaime de um metro e oitenta e seis no ambiente cabelos loiros puros até o meio das espáduas, foi diferente cuidar dessa uma beldade sempre assim possível no nosso caminho na nossa paisagem pela nossa proximidade, falei dos olhos da beldade azuis ou verdes como azul o céu naquele instante do voo de retorno.

       O avião subiu para o oeste e virou para o norte, achei. Quando ele fez essa curva foi estranho porque o bicho ficou à deriva e a sensação foi de queda para o lado.

       Olhando por cima Bela Vista, Vila Leopoldina, Jurubatuba, Raposo Tavares, São Caetano do Sul, Sao Paolo.

       A minha vizinha de poltrona, bem resolvida muito procedimento muito bem contente muito intuitiva, amistosamente:

       - São meus sobrinhos.

       Mostrou imagens no celular de dois garotos e uma garota em idades escolares, confiadamente:

       - Moram em Gramado. Vou visitá-los, né!

       Estiquei o pescoço para a janelinha redonda trinta centímetros quadrados e viajamos muito entre nuvens a sei não quanta velocidade e tanta altura. O  fundo de telhados e geometrias ficou azul com nuvens brancas esgarçadas.

       O mar azul e o céu sem ondas. Violentando rasgando acometendo zumbindo o ar azul. Podia fechar os olhos me dominar e tentar um cochilo? Eu me prometera fechar os olhos.

       A vizinha voltou, miudamente, puxando a manga curta da minha camisa toda vermelha comprada na 24 de Maio ali perto do parque da Luz:

       - Por acaso você moço já sabe já descobriu qual a palavra mais humilde de toda a Sagrada Escritura?

       Olhei para ela com minha cara de sempre de dúvida de ignorância de testemunha de humildade de santidade de natural cara pálida:

       - Apocalipse! - ela mesma respondeu e delatou.

       Balancei a cabeça meio pra lá meio pra cá, pra direita pra esquerda, meu coração de dois quilos e oitocentos gramas bem no meio do mundo, e referi:

       - Veja você, dona, que coincidência ou não. Ontem à noite, ali pela meia-noite, por ali, fui obrigado a assistir um documentário, umas duas horas e meia sem intervalos, e o filme falava e mostrava tudo sobre três acontecidos desastres aéreos. Não sobrava nada.

       Outros saíram das poltronas e foram só passear até o banheiro. Alguns se lembraram da bolsa no bagageiro. O avião varou nuvens totais todas iguais. Nada para fazer com as mãos e se pelo menos tivesse comprado uma revista um livro de 700 páginas. Como foi Sao Paolo?

       Já numa altura por volta dos países de Vacaria, São Marcos, Flores da Cunha, Antônio Prado:

       - Atenção passageiros e tripulação. Vamos passar por uma área de breve turbulência. Permaneçam sentados. O cardápio será servido dentro de instantes.

       Não importa se de avião ou de navio, uma hora vão pedir para olhar tua bagagem e verificar se trás alguma coisa que possa ser ameça para alguém ou algo, etc.

       O avião oscilou brevemente. Foi, embora, mais fácil mais certa mais prática a volta.

       Fiquei sorrindo à toa com a lembrança da cunha nos seus seios brancos como as nuvens pequenas gelatinosos bonitos pontudos na blusinha de verão azul-clara repensei naqueles seios apalpados e módicos e uniformes e ariscos senti ainda o suor o sabor do seio mais trabalhado mais procurado e doce e palatável, etc.

       - Atenção para o procedimento de pouso. Em Caxias do Sul céu encoberto temperatura em torno de 14-Bis. Obrigado a todos. Tenham sempre um ótimo dia.

       A aeronave foi guiada ao ponto certo. A viagem se realizou.

       Contudo me distraí bastante, com tudo.

       - Então? Foi tudo bem? Gostou? Comprou?

       - Foi tudo como se eu pudesse fazer. Ainda não me caiu a ficha da melhor coisa que vi lá em Sao Paolo.

       E a coisa mais inusitada que passei em Sao Paolo foi dentro do banheiro do aeroporto - o passarinho seguro concentrado no que estava fazendo -, a voz suave empostada humana de mulher nova, anunciou:

       - Atenção passageiros do voo para...

       Que inesperado, meu!