Num
país muito iluminado e muito verde, muito distante de nós, claro, e bem muito
ao norte do mapa, muito ligado, caminhava um povo de muitos índios ianomâmi entre
outros diversos, e que ainda passa por lá. O monte colossal de pedras ou pedreira
monumental emparedada num penhasco. Aí se dormia e se acordava, se despertava
no dia com tudo no mesmo lugar, tudo bem e ouvindo cantar esticar as vogais
semivogais:
-
Oi! - gorjeou mineirinho.
-
Eu! - soprou o piau-da-lagoa.
-
Obrigada! - disse coirana-de-pernambuco.
-
Parabéns! - continuou o quatimundéu.
Uma terra gigante,
rios riscando o chão e o solo recoberto plantado de muita floresta,
mamoeiros-bravos, amoreira-do-mato, ananás-de-raposa, jaborandis... Ali as
noites eram Amazônicas. Os bichos acoavam por qualquer pretexto. Os animais vivos
fixavam olhares, trocavam orelhas, conversavam entre si:
- E aí, tudo
bem! - gritou o cauanã.
- Vejam isso!
- berrou a ema.
- É possível,
é normal! - concluiu a jalapa-vermelha.
Os índios e
índias de pé descalço e de pé no chão, fibras de catolé trançadas em saia
caindo pela cintura, tatuados com tinta preta ou vermelha, batoques de madeira
enfiados nas orelhas, corriam correr o quarup com pesado tronco de buriti no
ombro. E faziam festa todo ano por altos motivos. Puçanguara tomava santo-daime
para refrescar a cabeça convocar os espíritos subir às nuvens.
País chamado
Roraima, país do verde e azul, e dos rios verdejantes e resplandecentes. Nem se
sabia qual era o dia melhor. E ninguém prestava atenção em ninguém nem nada. Dia
afora colher mel no mato, noite adentro dançar em roda do fogo. O dia todo
cheio de coisas, coisinhas, idas viajantes ou passageiras, tudo num dia só, por
tudo. Apontando uma ou outra estrela que caía. Xerimbabo sagui-leãozinho animal
gestual expressivo:
- E aêee!... E
aêee!...
Ao
tranco, sem pressa, quase sempre, a manhã vinha abrindo, devagar e sonolenta, a
porta de ouro novo o portal. Umas nuvens acolchoavam, quase todos os dias, dos
lados, o sol branco de amarelo crinas fogaréu.
-
Em tal lugar Paranatinga eu fui ver o rio Vermelho - saltou a jaçanã.
O
sol forte o ano todo, cabeleira dourada inacreditável, dentes de ouro, sorriso
quente e amarelo, fazia tremer a natureza em geral e principalmente os alados. Muito
sol durante o dia, lua e estrelas na noite. Chovia todo santo dia e era bom. Os
rios eram muito grandes; muitos rios corriam por ali; muitos rios procuravam o
mar. A floresta suava transpirava de todos os verdes e sombras.
-
Pois é assim! - falou a pomba-de-espelho.
-
Mas olhe! - contou o ingaí.
-
Pois tudo! - jurou a saracura-do-mangue.
-
Diga refece, re-fe-ce!... - cantou o caxinguelê.
Neste
país de verdes tinha uma castanheira. A castanheira, árvore mais alta e mais
velha, tudo sabia porque era antiga, tudo via porque era mais alta e esgalhada.
Era a mãe e o pai das árvores da floresta e da floresta das árvores. Era a
rainha da mata. Os braços alcançavam os quatro cantos do planeta, sua sombra
chegava até o final do mundo, até o fundo dos oceanos, suas raízes aprofundavam
o centro da terra, suas folhas falavam com todos os 4 ventos. Conseguia numa
perna só e igual como uma ave quando dorme. Seus pés apoiada andando em pés de pássaro
muito forte. Embalada pelas eras que conforme o tempo o clima as estações as chuvas
apoiada muito amparada.
-
Isso é uma! - relatou a árvore macaco-patrona.
-
Agora mesmo! - declamou o tracajá.
-
Mesmo a ser! - afirmou a garça-real.
Lilás,
a menina mais doce e lilás do mundo, pegou a bicicleta e saiu de casa para
passear pedalar. Um dia imenso de folga e sei lá. Um dia amarelo e anil. Era
domingo e o sol latejava de quente. Ela, a bíci e a estrada, a menina
totalmente à vontade e solta no mundo os cabelos. A menina foi cedo para chegar
no mesmo dia lá do outro lado do mundo, no norte do país, lá no mapa de Roraima
da grande soberba floresta tropical. A brisa soltava seus cabelos alargava suas
mechas.
-
Eu vou indo! Eu própria preciso tenho que viajar! São 10 e 10 já!
Passou na ida
por Porto Alegre, Camaquã, Ribeirão Preto, Brasília, Araçatuba, Mossoró, Natal,
Campinas, Teresina, Treviso, Ji-Paraná, Rio Branco... que mais? A ideia
principal e final da menina era conhecer a aldeia dos índios kayapó. E era
possível. Bom e possível. Ainda hoje.
- Vou tirar
selfies alguma coisa de passagem, tá certo?!
A
menina ia pedalando parecida como uma arvorezinha pedalando, mas nem uma árvore
exatamente, e sim menina disfarçada de árvore, planta, arbusto, folhas
flutuantes, igual caapuã e como por exemplo. Cabelos presos em rabo de cavalo,
como ela mesmo mais gostava, e longo trançado às vezes.
-
Me deixe contar uma coisa! Vamos ao que importa!
O
sol queimava a cabeça, o chão de areia feria as meninas dos olhos da guria,
quando Lilás pegou definitivamente a estrada federal para Roraima. No caminho
viu bandos de aves homônimas, homógrafas, homófonas, e se possível, etc. Piavam
almas-de-gato, titicuãs, crocoiós, rabilongas... algumas em bando outras em
pares inseparáveis casais casados parelhas.
Por
trás das sombras das sombras e folhas da mata fechada, embora, muitos olhos
acompanhavam as pedaladas da menina. Quem olhava? Quem via? Olhos tantos de
quem? Muitos olhos. Muitos olhos de cores diferentes. Nem olhe agora!
-
Quem? Mas você está aí, nem está?
Lilás
sempre gostou de pequenos mamíferos felinos. Uma ave era sempre mais rápida que
uma preá, que uma cutia, que um jacaré-de-papo-amarelo. A menina sempre adorou
aves alados bichos do ar. Sempre adorou todas as espécies de plantas que
aparecem nas beiras de igarapés igapós. Peixes no rio e no mar oceano.
Borboletas, besouros, abelhas, formigas, libélulas e todos que chamam insetos.
Por isso sabia que era muito acaso, muita sorte, muito milagre e, então, muito
sol ou lua.
-
Que tenho visto! Que tenho de nome de bicho, meu! Já viu sernambi, hein?!
O
pequenino pintinho de quero-quero andava pisando pela primeira vez a terra
vermelha natal onde nasceu. Dava uma corridinha e parava todo atônito e
chamando pela mãe pelo pai pela família. Parado, olhava em volta, olhava o
rasto. Corridinha e parada. Andava meio querendo entender de tudo de uma vez.
Andava até ali e voltava preocupado. Se escondia nas touceiras de barba-de-bode,
por exemplo. Olhava tudo de olho redondo inédito. E a mãe dele sempre por perto,
toda alerta, toda atenta, toda vigilante, piando e ameaçando os estranhos que
podiam ameaçar o filhote o pimpolho.
A
anta levantou a cabeça, estava almoçando pasto de erva-de-anta. A mesma roupa
de sempre. A anta perguntou, se é que precisava de pergunta às 8h e 16min:
-
Aonde vai?
-
Vou até o rio Guaporé - disse a Lilás.
-
Eu já sabia! - respondeu a anta.
-
Todos são assim! - concluiu a mesma anta.
Mais
perto das onze horas e sol fácil, a menina encontrou o jegue. O burrinho orelhudo
a viu e começou a zurrar, zurrar o quê:
-
Zurro e zurro!... - que queria dizer já traduzido: “vem nem vai!...”
A
Lilás aproveitou para perguntar ao matunguinho:
-
Você nem ouviu dizer do jurupari e aí, lá, acolá, em algum lugar?
A
floresta com muita árvore, corticeira, aroeira, coqueiro, tarumã, nhanduvá,
sananduva... descendo ou subindo um morrinho de pedregulho, guaçatumas, arimarus,
pinheiros-do-paraná... estes eram mais pros lados de Serra da Saudade e
sibipiruna, arataciú, açoita-cavalo, dedaleiras-amarelas, pereiro-amarelo,
acapus... confederados também em capão e capoeira.
-
Árvores recobertas de verde e musgo e barbas! Olhe ali um o joão-gomes, em!
Cada
macaco no seu poleiro, cada jabuti na sua pedra predileta, cada lebre na sua
toquinha camuflada, cada sapo acocorado na sua folha do aguapé, cada peixe lambari
no seu bando cardume e em movimento constante.
A
macaca caiarara, comedora de folhas e flores e frutos, guinchou bem do alto e
se balançando pra cá pra lá agitada apressada:
-
Guincho e guincho!... - que queria dizer: “vem nem vai!...”
A
guria parou um instante as pedaladas e perguntou à símia de cara assustada:
-
Você viu o caapora, aí?
Lá
mais adiante, lá pelas tantas, quando a menina já estava por dentro da floresta
e fazia um tempão, foi que ela mesma viu uma colossal gigantesca... E parou para
olhar. E exclamou se perguntando para si mesma:
-
O que é isso, meu?!
Ela
olhava com a mão em pala sobre os olhos, para o sol nem atrapalhar os olhos,
para a luz forte do sol nem queimar a cor dos olhos. Ela mesma se respondeu:
-
É uma baita árvore, tá certo!
Então
a menina Lilás chegava ao país de Roraima, no território dos índios krahó. E
conhecia de vista, de longe, a grande árvore imensa castanheira, à vista. E
somando o sol, os pássaros, a castanheira, a manhã de domingo, o total era uma
hora do dia do dia muito bonito e aconchegante. O mundo muito útil.
-
Os sinais!... Os sinais!...
E
continuou pedalando com energia. Já ouvia os índios da tribo tucano tocando
urucá dançando o ticumbi. Virou uma curva do caminho de terra vermelha bem
entre a floresta. Viu a aldeia dentro de um circulo de terra batida. Pedalando
sem pressa e o coração cheio de alegria. O sorriso estampado de contente. Os
cabelos tocando o vento calmo. Entrou pela aldeia dos mauaiana. Muitos
indiozinhos e indiazinhas a seguiram, muitos cachorrinhos e macaquinhos e saguizinhos
e periquitinhos também os tais e quais mumbavos. A menina finalmente parou a bíci
no centro da taba, rindo satisfeita e na emoção. Hora certa e em pontos, 14h e
42min.
-
Agora hoje eu você e todos nós!
Aí
todos correram mais a menina todos para o rio Jaguarão. Se largaram na água de
tchibum!... E tomaram banho, e nadaram, e brincaram na água umas horas. Todos
gritando muito os risonhos. Rolavam do barranco para dentro da água. Era um
outro mundo surreal. Espanavam e espadanavam água uma no outro. Nadavam
competindo. Nadavam de comprido. Nadavam o nado livre.
-
E o que tem de bom!
-
Esta é que é!
-
É preciso isso sim!
O
sol nem podia parar nem andava devagar nem tinha interesse, e por que parar?
nem reclamar de correr tanto e pra cima pra baixo.
-
Eu vim por Altaneira, é!
-
Onde fica Rosário Oeste, hem?!
A
menina, meia hora depois, pouco mais tarde, já adorava muito toda a tribo
caiapó-quicretum e, ao mesmo tempo e do mesmo modo, toda a tribo já a adorava.
As mais velhas faziam cauim preparavam nos recipientes cauabas amassavam grãos
de milho colorido milho tradicional.
Lilás
conversava animadamente com Janaína. Janaína, adolescente índia de cinco anos
mais que Lilás, uns quinze anos, queria andar de bicicleta. Uma aracuã voou por
cima de tudo e piando, tiiiiriu!... Lilás e Janaína cunhantã brincaram de andar
de bicicleta pela taba inteira, a tarde inteira, o mundo inteiro e outros
lugares pares ímpares.
-
Sobre o quê!
-
Quer me ouvir? Me lembro...
À
noite, Janaína cantava perto da beira do rio das águas correntes. De noite
cantava e se penteava no barranco do rio. Janaína era muito linda e sabia
disso. Os guerreiros da tribo sabiam disso. Às vezes, noite de lua, Janaína
conversava com sua mãe fantástica, a dona Iara. De dia Janaína se penteava e se
olhava e pegava uma cor nas águas nas praias quase calmas do rio Doce. Depois
era janeiro depois era sábado.
O
gavião-pescador, do galho alto da árvore mututi-da-terra-firme, piou, guinchou:
-
Piré!... Piré!...
Os
papagaios-de-cabeça-amarela passaram por cima da aldeia palrando em bando:
-
Arenga!... Arenga!...
Muitos
macacos-prego, comedores de frutas e brotos e raízes e flores, chiaram,
gritaram:
-
Guincho!... Guincho!...
As
nhandus engoliam tudo tudo que viam pela frente e achavam muita comida
espalhada. Um macaco bugio-ruivo pegou um cipó e despencou mergulhando da
árvore. O bem-te-vi-de-três-riscas abriu o bico e bateu as asas. O saracura
gritou assim mesmo:
-
Quem-quem?!... Quem-quem?!...
O
rato-do-banhado correu por uma trilha de rato no meio do capim-rabo-de-boi
encharcado molhado, apregoando:
-
Cuim-cuim!... Cuim-cuim!...
Os
sapos-aru do alagado respondiam coaxando, com água na boca, com insistência:
-
Ah, é, não é?!...
Bando
de saurás, voando baixo, procurando pouso, ralhava, ralhavam:
-
Quiriri!... Quiriri!...
Pronto,
o dia se encheu de nuvens baixas, estranhas e carregadas de faíscas. Vieram de
longe na carona dos ventos mais longos. Os animais todos da floresta ficaram de
orelha em pé, de penas arrepiadas, de olhos no céu. Bichinhos de patas
escondiam a cara com as patas, bichinhos que voavam pousavam e escondiam a cara
com as asas. Todos os índios da aldeia tapimirim olhavam o tempo, olhavam as
nuvens, olhavam as árvores se sacudindo, olhavam de olhos parados e em respeito.
E a barulheira da tempestade se fez anunciar e começou troando:
-
Tro-vão!!... Tro-vão!!... Tro-vão!!!...
Sapos
e jias nas beiras dos rios e banhados respiravam, estufavam o peito, enchiam o
peito e esvaziavam os papos. E coaxavam, entre um e outro suspiro:
-
Tu-ruuu! Tu-ruuu!...
Desabou
uma chuva grossa, pesada e demorada. O toró desabou com relâmpagos e barulhos,
estrondos, pancadas, batidas, bumbos e surdos. E pingos de chuva enormes caíram
no chão e em toda parte. O céu desabafou, veio abaixo, desmoronou, ruiu, desabou
com água e tudo. O vento chegava chegando empurrando bufando.
-
Começaram as horas da chuva!...
-
Quando é que vai parar?!
-
Eu já tenho visto que um dia para uma hora!
-
Daqui a quinze dias!
O
mundo fazia um barulho e uma ventania bem legal de ambiente aberto. O meio do mundo
era tomado de barulhos e ventanias que vinham de distâncias distante. Punhados
de ventos homônimos, homógrafos, homófonos e outras palavras nomes esquisitos
importantes difíceis. Ventos de toda parte partindo chegando para todos os
lados, e por quê? Redemoinhos torciam grandes e médias e pequenas árvores na
paisagem, impressionante.
-
A natureza inventa coisas, é!
-
Vai pelo caminho mais perto, então!
Os
aviões e aerodinâmicos, que quase sempre conseguem voar muito acima das nuvens,
também nem passavam mais pelo país de Roraima. Receio, desassossego, precaução,
distâncias das tempestades, etc.
-
Se bem que por toda parte temos árvores rio e pássaros!
-
Volta pelo caminho mais longo longe!
Choveu
muitos sóis e muitas luas, muitos dias e noites. Choveu muito, inundou tudo,
alagou a terra toda. Rios de cascatas. Foi
bom. Muitas e mais e bastantes chuvas, que levaram semanas cheias. E se
instalou a enchente, o alagado, o pântano. Era um mar de água doce que estufava
o rio, subindo, chegando e chegou. O rio acima e abaixo tomou conta de todo o
país. Tudo por baixo da água e árvores altas, craveiro-do-maranhão,
pereiro-da-serra, imburis, manacás-açus... pela cintura. Roraima submersa,
praticamente.
O
tanto de água doce foi ouviu Janaína cantar e ficou enfeitiçado. O mar provocou
as tempestades, enchentes e inundações. A potência da água observou viu Janaína,
subiu o rio, alagou tudo e a raptou.
-
Nem posso falar mais nada mais que isso? Nem é uma resposta sem pergunta, hum?!
Assim,
o morubixaba dos índios kaxarari convocou os homens a se pintarem com jenipapo
e urucum para a guerra declarada ao mar de águas doces. Sempre era assim. O
cacique, debaixo de grande chuva, no alagado da aldeia quase afogada, gritou
para seus guerreiros jovens e mais velhos:
-
Atacar água invasora! Atacar água estranha estrangeira!
Os
guerreiros pintados para a guerra, ali sobre canoas feitas de casca de árvore embaúba,
responderam gritando:
-
Atacar o mar doce! Atacar o oceano que invadiu a floresta! Atacar por atacar!
Os
índios todos da aldeia araueté foram para o igapó da floresta. Pegaram suas
canoas e foram combater o mar de águas calmas. Remaram entre copas de árvores.
Navegaram no topo de árvores, ingá-ferradura, batalhas, imburana-de-cambão,
guarirobas... Os guerreiros nem tinham mais terra firme, quase nem tinham mais
floresta, mas somente águas e mar sem fim.
Uma
coruja caburé chirriou:
-
Trololó!... Trololó!...
Um
rato-de-banhado saiu nadando e chichiando:
-
Chim!... Chim!...
Uma
grande anhuma piou para alertar e alarmar e trilar:
-
Teeee-é!... Teeee-é!...
Os
pavôs empoleirados nos galhos do mucajá, gralhavam, gralharam:
-
Fraaauuu!... Fraaauuu!...
Um
pixoxó pediu perguntou cantou:
-
Você me conhece?
Com
a enchente e a invasão de todas as águas doces do mundo, as terras da aldeia
dos índios baticola se encheram de bichos de outros planetas. Ali já nadavam,
muito à vontade e relaxadas, as baleias jubartes, as estrelas-do-mar, os
cavalos-marinhos, as esponjas de mil espécies, os peixes-papagaios, os
peixes-palhaços, os peixes-fantasmas... e esses mais que exóticos.
-
Por que e quem diria?!
-
Nada nada a ver, né, meu!
Com
os dias e dias e noites e noites de muita chuva e vento com chuvas, os sóis nem
apareceram, as estrelas do céu nem apareceram, os astros nem apareceram, a lua
nem apareceu, a chuva continuava caindo caindo como uma cortina. Durante essas longas
chuvas, desapareceram os passarinhos, grande parte da floresta, e apareceram
cardumes de peixes sardinhas, tubarões-lixas, namorados, meros, golfinhos-cinzentos,
pinguins da Antártica, focas, leões-marinhos, polvos de oito braços,
peixes-pedras... E demais a mais estranhos estrangeiros exóticos mesmo.
-
Acho melhor deixar para amanhã!
-
Acho melhor deixar até segunda-feira!
Para
separar as águas invasoras das águas normais do rio, para segurar a subida dos
peixes do mar e separar os peixes do rio, os caciques e pajés e homens mais
velhos e mulheres mais velhas da aldeia guaianá decidiram derrubar a grande
árvore castanheira. Essa gigante que mais ali estava. Levariam vinte dias para
destroná-la. Vinte e um dias para destocá-la. Vinte e cinco dias para
desmatá-la.
- Eta, coisa colossal!
- falou comadre dona índia cunhã mãe de três guerreiros e duas cunhantãs avó de
duas cunhantains e um curumim.
-
Vamos derrubá-la, nem temos outro jeito! - gritou o curandeiro da tribo.
-
E vamos derrotá-la com quê, meus compadres? - perguntou o cacique.
-
Acho que com um bom machado feito de pedra lascada, né?! - falou a cunhã mais
velha da aldeia.
-
Mas nem vai ser fácil, hein?! - foi outra índia sicrana antiga.
-
Eu mesmo nem tenho força pra tanto, quer saber! - foi o que falou o índio avô.
-
Bem, mas temos que fazer o estrago e é logo sem demora agora, né, gente?! -
disse o cacique já decidido decidindo.
Derrubaram a
castanheira gigante e muito mais gigante. Huuu-tum!... caiu de comprido no chão
tombou de lado. Derrubaram a árvore espetacular e magnífica e fantástica. No alto
da castanheira um carcará ficou alarmado voou. A grande árvore gemeu e caiu com
tudo, do alto, caiu de lado, estalou, teee-léee-queee!... caiu sobre boa parte
do país com ruído, eschuaaaa-ah!!... E fechou a enchente a subida das águas.
Agradavelmente.
- E pelo menos
alguma coisa aconteceu, então.
- Vamos lá ver
e de perto!
A árvore caiu,
se petrificou mesmo, e virou montanha verde com o passar dos anos. O rio ficou
preservado e o excesso de água doce sossegou limitou.
- Sim, por que
nem?! - falou um índio dos antigos.
- Claro!
Podemos comemorar o feito! - disse uma índia mais contente.
- E almoçar
fora na floresta na beira do rio Cubatão do Sul! - falou mais uma comadre.
E
todos os índios e índias importantes da tribo senabó foram derrubar a grande
árvore, como já foi dito. Com machado, serrote, serra elétrica? Foram todos
derrubar a castanheira de mais de cem anos. Mulheres mais jovens, cabelos lisos
e longos e pretos, ficaram olhando de longe com a mão na boca. Os curumins
subiram em árvores próximas junto com saguis-caratingas de estimação. E já os
adultos derrubavam a castanheira com aquele mesmo estrondo longo barulho, huuu-tum!...
e eschuaaaa-ah!...
Quando
viram a grande árvore cair... os deuses da floresta ficaram irados ou nem. Uns
ficaram muito brabos, e outros nem deram bola. E a árvore castanheira caiu no
chão, caiu de comprido ao longo do rio cheio, huuu-tum!... e eschuaaaa-ah!... A
queda fechou a porta de entrada da enchente. Fechou a porteira. Que bom! Separou
o volume excesso do rio normal. Nem deixou mais que o mundo virasse em pântano
permanente. De um lado a água tranquila corrente do rio Formoso, do outro a
água que sobrava. A árvore foi derrubada e deitou no meio do caminho entre a
terra firme e a enchente. E foi bom mesmo.
-
Vamos pular em cima!
-
Com muito gosto!
-
Só se for agora!
O
tronco enorme e gigantesco da árvore castanheira, imperatriz da floresta, ficou
da altura de muitas montanhas amontoadas que se vê por aí. Uma cadeia de
montanhas ou serra ou espinhaço. E com o tempo foi empedrando, e virou tudo
umas montanhas de rochas. Era, no conjunto, o monte Roraima. Uma lenda. Uma
prenda. Uma tenda.
Com
esse fenômeno todos que viram foram à lua e voltaram, ou seja, ficaram muito
muito espantados e cheios de si. Os urubus-de-cabeça-vermelha, os
urubus-de-cabeça-preta, os urubus-de-cabeça-amarela, foram à lua e nem voltaram
tão cedo. O mutum flauteou:
-
Flau-flau-flau!...
A
jaguaretê, que sabia nadar muito bem desde criança, desabafou seu espanto,
grunhindo:
-
Gruuuuuaaauuu!...
Os mosquitos, por toda parte por toda parte, seis
pernas, zumbiram sem entender:
-
Zuimmmmm!...
Um
papagaio-curau de olhos bem abertos, gritou do galho da figueira, gargalhou:
-
Corrupaco-paco-paco!...
E
assim, diante de muitos espantos e olhos arregalados e gritos de suspense, o
país perdeu uma árvore gigantesca e ganhou uma alta montanha de rochas
calcárias. Caiu a castanheira e nasceu o monte Roraima em RR. A aldeia dos
índios barauana ou xirianá, também ganhou outra taba. Os rios Marari e Demeni, onde
a tribo curtia as férias e tomava banho, também respiraram e se espreguiçaram
aliviados. Aliás, todos os rios e lagos e lagoas estavam bem em forma e
fisicamente. Nem muito fortes nem muito fracos. Falantes, isso sim:
-
Vamos descer por aí.
-
Agora lentamente devagar quase parando.
-
Conforme o progresso do dia a dia.
Quando
as águas baixaram, tudo reapareceu e voltou ao seu lugar, o rio ficou no seu
lugar no seu leito, os rios caminharam em paz, a aldeia ressurgiu, a floresta
desaguou, a mata enxugou, apareceram esses resultados: emas pastavam nos campos
do país, jabutis passeavam em procura de frutas, o lago Cajari demarcou o
território, tamanduás-bandeiras farejavam o cupinzeiro, o graxaim fazia rasto
na campina, o candimba corria apostando velocidade mais de 80 por minuto...
Daí
em diante, então, nem veio mais para dentro do país aquelas águas todas
estrangeiras desnecessárias. Nem mais inundou o país. Nem nunca se misturou com
os rios. Nem mais invadiu terreno que nem era dela. Daí para frente os excessos
batiam nas pedras altas do monte Roraima e ficavam brabos e nervosos e irados, porém
nem passavam nem passavam dali. E o rio comum e normal podia correr à vontade,
relaxado, tranquilo aqui desse lado, como uma estrada serpentina, como um bengo
líquido, como um caminho navegável, como a estrela cadente no céu noturno.
-
Então quem quer descansar pode descansar agora. Agora quem quer remar pode
remar. Quem quer ficar olhando pode ficar admirando...
Com
toda essa confusão de dias e noites de chuva, com todo esse alagamento, com
todo esse aguamento, com a queda da castanheira, com o nascimento da serra de
Roraima, ninguém da tribo ararau se deu conta que Janaína fora raptada pela pororoca.
E, então? Então, se deram conta e abriram a boca e puxaram os cabelos e se
enfeitaram cobriram de penas.
-
Quede foi parar Janaína! - gritaram boa parte das gentes.
O
rekakê da tribo amarrou uma embira pintada de vermelho no braço e elevou a voz
para todos ouvir:
-
Vamos resgatar Janaína! Vamos salvar Janaína!
Os
guerreiros em volta do cacique também gritaram para os deuses do céu e da terra
e da montanha Roraima:
-
Salvar Janaína! Resgatar Janaína!
Os
sapos coaxaram, os macacos guincharam, as aves em geral piaram gritaram
gorjearam, a cobra sibilou, o gavião-carijó assobiou:
-
Fiiiuuuu!... Fiiiuuuu!...
Lilás
nem se deu por achada e falou, gesticulando muito, se desculpando, desabafando,
falando com as mãos e palavras ao vento:
-
Janaína estava comigo, brincando comigo, andávamos de bicicleta pra cima e pra
baixo... Foi tudo muito rápido. Depois... a esta altura Janaína já virou iara
da beira dos igarapés e paranás e canais. E então?
Todos
da aldeia ficaram nervosos com o rapto de Janaína. Confirmaram. Mas o índio
Macunaíma ficou mais que preocupado, ficou pensando numa estratégia estratagema.
-
Sim, eu devo pensar em algo e o que fazer. Devo ir resgatar a bela Janaína. É o
mínimo que eu posso fazer devo fazer. Sim, é isso mesmo. Vou salvar Janaína das
garras da Pororoca. E é pra já, entende?!
Com
muito muito peso no coração, muito vazio nas mãos, muito amargo na boca,
Macunaíma saiu por aí, pela floresta, correndo pelos carreiros da mata, pelo
monte Roraima, saiu por aí tropeçando nas raízes salientes. Virou o bicho do mato.
Um caapora ou um jurupari diabo da floresta. Ele virou um ente impossível e
destemido.
-
É que eu nem entendo isso.
Macunaíma
ficou um índio esquisito, temperamental, estranho e escorregadio. Macunaíma
gostou de se refugiar na floresta. Vez ou outra voltava na aldeia dos índios
nhandeva para comer beiju e pamonha que as índias cunhãs faziam pra ele com
todo respeito. Voltava com mágicas novas e incríveis. Era já de poucas
palavras, poucos sorrisos e tantas gargalhadas:
-
Ora, veja isso... ah! ah! ah!...
Macunaíma
nem esquecia da sua amiga Janaína, mas nem queria falar disso. Macunaíma virou
virou mágico, virou o que quis, virou o que ninguém acreditou, virou um grande
perigo para ele mesmo. Alguém duvidava?
-
Como se chama? Onde você habita? Você conhece o nome das plantas?
E
se passaram os dias com as noites na mochila. O angico-branco agradeceu,
agradeceu. A coruja-buraqueira agradeceu, agradeceu em nome da ninhada. O
almeirão-da-terra agradeceu, agradeceu. Os mandis-bandeiras cardume
borbulharam, ba-ble-bluuu!... O tatu-canastra agradeceu, parabenizou, vivou:
-
Agradeço, agradeço!...
Depois
de tudo isso acontecer, a menina Lilás resolveu voltar para casa. E voltou. E
foi voltar justamente num dia amarelo e vento nas orelhas. E foi no melhor da
tarde, do sol dourado do dia, que a guria olhou para trás e ouviu o uirapuru:
-
Uiiiiiii-haaa!... Uiiiiiii-heee!...
Lilás
trocou carinhos, beijinhos, tepe! tepe!... com os curumins e as cunhantains.
Olhou a taba dos índios cainguá e bateu com a mão no coração. Lilás disse,
expandiu:
-
Já vou indo... e techau!...
Disse
Lilás isso mesmo e se foi, veio, voltando para casa. E nunca mais se viram. E
se voltou para outro lugar. Os lugares que são sólidos e muitos e lógicos.
-
Olha só esse carrapicho-da-praia que planta maneira, meu! E esse olho-do-mato!
E
foi ótimo porque o cavalo cavalgou, o jabuti tartarugou, o canário-da-terra
chilreou, o gato-do-mato miou, a anta assobiou, o peixe cascudo-barbado mergulhou,
a cutia soprou, a jia fungou, o casal de araras-azuis-grandes palrou, o casal
de coaracimimbi arrulhou e ruflou asas. Lilás já caminhava pela rua Teodoro da
Silva em Vila Isabel e achou muito bom e disse:
-
Eles têm uns sonidos ótimos ouvir e de respeito.
77
De
volta, retornando, ela e a bíci e a estrada, chegaram em casa na varanda da
casa da avó. A vovó estava ouvindo o quintal e vendo o pomar ali sentada na
varanda e sentada mesmo na cadeira de balanço que balançava pra frente pra trás.
As duas se abraçaram. Trocaram tepe! tepe!... beijos dos dois lados bochechas.
A
vovó falou numa voz de quem nem quer nada nem sequer tem dúvidas:
-
Vamos até a sombra do pé de oiti-bravo. É perto. É logo ali, hum!...
A
avó e a menina, depois, desceram a escadinha de três degraus da varanda. E olhe
lá! Vovó e menina abraçadas, de braços dados, de mãos dadas. No pátio as duas
andaram até as sombras da ingazeira ou tibuquina. Pararam aí. Era ótimo.
-
Aqui é legal e muito bom! - contou a avó.
E
avó tinha com seus brincos de argola em cada orelha. A menina com a aba do boné
virada para trás. A menina ainda suspendeu o boné e passou a mão pelos cabelos
ruivos. A vovó, parando de andar automaticamente
sem querer, disse para a menina:
-
Existe uma lenda indígena, talvez da tribo tabajara ou nambiquara ou guajajara,
a respeito do abati.
-
Quem é abati? Pra que que serve? Se comporta perto do viaduto da Grota Funda?
-
Abati é milho em tupi. Abati ou avati ou auati é milho em tupi. Já ouviu?
De
repente a avó e a menina olharam o tico-tico passeando com a família lá dele. Os
passarinhos estavam sem pressa e beliscando o chão. As avezinhas olhavam o catar
de comer e seus próprios pios piando pipiando...
-
Oh!... e por quê?
O
passarinho sanhaço-de-coqueiro, passando pelo alto, disse que falou, gorjeou:
- Quis-quis-quis!...
A
dona vovó convidou a netinha, foi assim:
-
Vamos sair para o sol. Só um pouco e até ali. Os tais e quais raios ultravioletas.
O
solo fazia manchas de sombras, manchas de sol. O sol estava soberano. Nenhuma
nuvem naquele céu. Passarinhos, maioria naquela hora, estavam fazendo a sesta e
escondidos nas folhagens. As árvores uns frufrus!... leves breves de folhas ao
vento. O vento de brisa nos cabelos longos cabelos. Casal de araras-vermelhas-grandes
passou alto conversando mais alto iam brincar nos folguedos do guerreiro e às
vezes gargalhando se ouviam as gargalhadas.
Vovó,
continuando e narrando e contando e noticiando e legendado, dizendo emboralá!,
desbaratando:
-
Ora, isso sim! A lenda do milho avati. Na aldeia dos índios guaicanã. Lá para
os lados de Roraima ou RR. Na divisa do nosso país com outros países vizinhos.
Um dia como outro qualquer nasceram três indiozinhos: uma indiazinha cunhantaim,
dois indiozinhos curumins. Os três tinham olhos parecidos, negros, muito negros
como a noite sem luar. Os dois nasceram para serem fortes guerreiros. Ela
nasceu para ser muito bonita e atraente.
-
Quem, minha avó?
-
Os dois se chamavam Avati e Macunaíma. Ela se chamava Janaína. Os dois eram
irmãos, filhos do mesmo pai e mesma mãe. Ela era filha única de outro pai e
outra mãe. Mas eram parentes muito próximos e da mesma aldeia, etc. A cor do
cabelo da Janaína era preto bem preto praticamente azul. A cor do cabelo do
índio Abati era loiro. A cor do cabelo do índio Macunaína era preto muito
escuro. Viviam na mesma oca. Se conheceram comendo mingau na mesma oca.
Começaram a brincar na mesma oca, no mesmo pátio da mesma oca. Tomavam banho no
mesmo rio Paraibuna que passava em frente da taba.
A
antiga vovó protegia com a mão em pala os olhos da clara claridade dos fortes
raios ultravioletas oriundos do grande sol. Uma pomba-rolinha fugiu, fugindo
voando afobada ali do chão, vrrrou!... dos pés das duas pessoas.
-
O que houve depois? - perguntou a menina Lilás. Parece uma novela de ficção!
-
Muitos anos se passaram. Muitos anos deram voltas no planeta Terra. Muitas
primaveras. Muita coisa aconteceu. Uma coisa se soube e outras foram ditas. A
maior parte da lenda se soube ou veio à tona ou ainda contada de boca em ouvido.
Muitas coisas ficaram encobertas só apareceram os tais e quais 30 por cento. E
sempre sempre acontecem mais coisas e coisinhas, uma vez.
-
Muita coisa o quê, por exemplo? Quem calcula o tempo? É de hoje pra ontem?
-
Os três brincavam todo tempo juntos e pareciam irmãos. Brincavam de nadar.
Brincavam de subir em árvore da pinha em árvore cajazeira. Brincavam de fazer
bichos de madeira. Brincavam de se empurrar. Brincavam de mergulhar. Brincavam
de brigar. Brincavam de se jogar terra. Brincavam de arco e flecha atirando no
alvo da planta mais próxima. Brincavam de comer gabiroba, umbu do umbuzeiro,
mangaba da mangabeira.
-
Eles andavam descalços e nus pela floresta assim como todo índio e índia?
-
Era tudo assim mesmo ao normal e natural e costume e hábito. E subiam em
árvores, pegavam cipós e mergulhavam no espaço para se pinchar na água. A
árvore favorita de Janaína, a palmeira buriti. A árvore de estimação de Abati,
a guapuruva. A árvore mais bonita para o Macunaíma, a palmeira catulé. E assim
por diante.
-
E já faziam expedições pela mata e arredores e se aventuravam? - a menina tinha
na cabeça já uma encruzilhada de ideias e perguntas naturalistas ambientalistas
curiosíssimas.
-
Pintavam os corpos e imitavam os adultos que brincavam de fazer fogueira e
festa, que brincavam de fazer aniversário, que brincavam de chamar chuva quando
faltava chuva. Corpos pintados, tranças nos cabelos das cunhãs cunhantãs
cunhantains, cordões coloridos nos braços, palitos botoques enfiados nos lábios
e nas orelhas. E comiam formigas, e comiam gafanhotos, e escamas-vírgulas, e
comiam mel de mirins-preguiças as abelhas silvestres, e comiam frutas
silvestres diversas, caju, araçá, açaí, pitanga, araticum... Janaína gostava
muito mais de comer borboletas coloridas com asas e tudo. Abati adorava comer
principalmente escaravelhos com perninhas mexendo. Macunaíma apreciava até
demais as cigarras verdes ruidosas.
Raios
de luz do sol riscavam em feixes de cores o espaço em arco-íris dizem sete
cores o prisma. Casal de araraúnas voltando pra casa ou indo para a árvore do
almoço. Raios de sol atiravam suas luzes por entre buracos das ramas folhas das
árvores. Daí apareceram os papagaios-comuns e gargalharam e cantaram e surtaram
outras espécies acompanhando virou carnaval confusão folia fecharam a árvore a
rua a avenida, etc., e digamos assim.
A avó e a
menina foram já se sentando na sombra de uma jabuticabeira carregada do tronco
aos galhos lotada de frutinhas pretas maduras tentadoras.
-
E novamente o tempo foi correndo morro abaixo, morro acima, no limpo, na
floresta e sobre as águas claras do ribeirinho. O tempo correu sobre tudo. O
tempo correu sobre o tatuapé. Tempo de relógio de cronômetro. O tempo tocou o
bando de horas, correu na frente, e chegou junto, os minutos e os segundos.
-
Tatu a pé?
-
Ora, isso sim! A pergunta é mais importante. E o tempo que correu pra cá e pra
lá nem esqueceu de ninguém. O tempo até mesmo correu na vida de Janaína, de
Macunaíma, de Abati. E eles já eram em idade de casar. Uns quinze, quatorze,
quinze ou dezesseis anos de idade. O tempo passa pra todos e quem envelhece já
viveu muito já viu boa parte. E quem é novo ou novinha pode envelhecer, mas só
se D quiser. E sempre tem que ter sorte. Um dia depois o outro.
A
avó olhou para os galhos da pindaíba. A avó gostava de árvores. A avó olhou
para sua palmeira carandaí. A avó olhou para a sapucaí florida. A avó baixou a
cabeça, ergueu a cabeça e foi declarando ou declamando:
-
Os três dirigiram uma paixão. Coisa normal e tal. E Abati se apaixonou por
Janaína, claro. E Macunaíma se apaixonou por Janaína, óbvio. E Janaína? Janaína
gostava de um e nem queria magoar o outro. Janaína ficou pensando uma saída
pela tangente. Janaína se aborreceu com a situação. Janaína nem entendeu nada
do que sentia e imaginava viajar conhecer o castelo Garcia D’Avila ou o pem do
parcel de Manuel Luís... Janaína nem entendia seu próprio jeito de pensar.
Janaína talvez amava um e amava o outro mas de formas diferentes, vai saber!
Janaína quem sabe amava os dois ao mesmo tempo e de duas formas distintas, quem
sabe!
-
Ela nem sabia o que sentia o que entendia?
-
Ela sabia que sonhava. Mas também sabia que se escolhesse um, brigaria com o
outro. E se sabe lá o que poderia acontecer ao mundo inteiro, se sabe?! E,
então, Janaína nem sabia de nada ou nem quis decidir na hora. Talvez fingiu nem
saber.
-
E depois, e após?
-
Cada dia tem sua alegoria. Um dia, por volta das onze horas da manhã, um sol de
rachar, Abati e Macunaíma se atracam numa competição e disputa. Todo mundo
entendeu aquilo. A aldeia ficou admirada e uns torciam pro Abati outros pro
Macunaíma. Tem gente que torce pro mais fraco. E foram duelar saber quem nadava
melhor no rio Caí. No começo até pensaram que era brincadeira pra fortalecer os
músculos e passar o tempo. Mas a competição valia mais que isso e durou um
tempo a mais. De perder o fôlego.
-
E eles disputavam a torcida de Janaína? De repente!
-
Ora, isso sim que é correto! Então, nem qué?! Nadavam pela mesma índia. E a
disputa era muito parelha e braçada a braçada. Talvez o duelo na água, lá para
eles dois jovens guerreiros, valesse a pena. E eram braçadas mais braçadas e
águas levantando pra tudo que era lado. Nadavam lado a lado. Ninguém sabia quem
ia ganhar. Depois cansaram e foram desistindo e nem se olharam mais na cara
por... por um tempo... por um tempo de dois dias e duas horas alguns minutos.
Vamos supor.
Por
aí mesmo, vovó abriu um novo sorriso, sorriu, comeu uma fruta de pitanga,
descansou a mão no ombro da Lilás, de repente o ouvido no canto do
sabiá-laranja bem pertinho por aí, e mais um tanto continuou:
-
Uma manhã, uma manhã bonita na aldeia dos índios tabajara, os três melhores
amigos se divertiam no meio do rio Verde. Abati e Macunaíma competiam para ver
quem era mais rápido no nado borboleta, quem mergulhava mais profundo, quem
ficava mais tempo debaixo da água, quem primeiro buscava a pedrinha que Janaína
atirara dentro do rio. Janaína assistia a tudo, participava e ria e nadava de
costas boiava livre etc. Será que ela já tinha preferência e decisão a essa
altura do campeonato? Ou ela queria sempre adiar e fazer o mais fácil?
-
Ela tinha decisão nos olhos, vovó?
-
Vai se saber! Os dois jovens guerreiros eram tímidos, a jovem índia bonita nem
sabia dizer nem sim nem não nem talvez. Deixava rolar. Ela, acho, esperava que
nada acontecesse. Ou, quem sabe, que acontecesse um milagre. Uma intervenção de
Tupã.
O
sol da tarde ainda iluminava os rostos das duas pessoas ali no quintal. Este
outro tempo. Vovó sorria, sorriu e continuou desenrolando a fita. O dia
precisava empilhar ainda um pouco mais:
-
Certa vez, e eles já completavam uns dezessete anos cada qual, aconteceu a
principal disputa entre os dois enamorados de Janaína. Se desafiaram mesmo.
Cada um pegou seus apetrechos de aventura na mata e saíram para o campo o mato
fechado o rio a montanha: vencer ou perder ou vencer. Os dois jovens queriam
desempatar o jogo.
A
avó caminhou até uma sombra da árvore pente-de-macaco e parou. Sentou numa
pedra. A menina veio sentou na mesma pedra ali do lado. As duas estavam muito
perto e sentadas. Se sentiam bem. Era legal. A vovó foi tocando o barco do
causo:
-
Então, por enquanto, eles tinham que desempatar. E isto estava claro como água
do ribeirão. Abati foi para a aventura no meio do mato. Macunaíma foi para a aventura
no rio. Quem ia trazer mais histórias para contar e fazer rir? Só Tupã sabia
responder, por enquanto. E Tupã é um ente superior. E Tupã é um ente abstrato.
A
uma pergunta se desprendeu da ideia e rolou na língua da menina:
-
Que que houve? Aconteceu surpresa?
-
Abati nem voltou mais da expedição. E Macunaíma voltou carregado de prosa e
verso os mais grandes famosos deslumbrantes possíveis. E parecia que a história
estava já decidida e contada.
Então,
ainda no quintal da avó, outra avezinha, talvez a corruíra, quicou entre as
samambaias, alfazemas-bravas, bibis, nhambuís... Num instante voou para onde.
Parecia uma corruíra ou um joão-de-barro ou uma pomba-de-espelho ou jacuguaçu...
-
Oito dias depois encontraram Abati no fundo de um grotão. A onça tinha pego ele
de jeito? Parecia que sim e que nem. E Abati foi sepultado na horta que a tribo
cultivava ali pertinho da aldeia as imediações. Foi enterrado seus ossos e
apetrechos particulares dentro de uma urna de cerâmica em forma de panelão. Os
índios nomeiam essa urna toda decorada de desenhos e riscos típicos chamam de
camotim.
-
E Macunaíma?
-
Macunaíma se comprometeu a trabalhar para sustentar os pais de Abati. Este é o
trato, a lei dos índios minuano, para quem perdeu um amigo.
-
E Janaína?
-
Janaína só podia chorar. E chorou muito. Chorou quase uma lagoa. Chorou muitos
dias e noites. Chorou tudo o que tinha para chorar. Chorou para lavar o céu,
lavar o sol, lavar a lua, lavar as estrelas, lavar tudo muito além muito bem. Chorou
na beira do rio São Lourenço para chamar a atenção da mãe-d’água, a dona Iara.
Depois a vovó ficou pensando e olhando o que nem
ver. Era distante? Após a vovó olhou para o tempo o clima os arredores. Em
seguida vovó olhou para a história que ia se desfazendo, falou isto, foi
contando como desfilando as palavras, rio murmurante:
-
Vamos até o sol, minha filha. Vamos pegar um pouco de sol. O sol é tudo de bom.
A
vovó e a menina saíram das sombras do pé de caraipé e foram pegar o sol. O céu
com poucas nuvens, poucas mesmo, quase nenhuma, nuvens brancas e bem altas,
nuvens esfarrapadas, nuvens jogadas de qualquer jeito. O chão de luz e sombra,
conforme.
-
Um dia todos da aldeia dos índios cariri ficaram espantados. Foram para a roça
colher abóboras e amendoins quando... a maioria cunhantains e curumins...
quando viram uma estranha plantinha nascendo da sepultura do finado jovem guerreiro
Abati. Era inédito.
-
Estranho mesmo. Que plantinha, hein, vó?
-
O nosso conhecido pé de milho. Para os índios era um pé de abati ou avati ou
auati. Era uma plantinha bonita e elegante e diferente na região, por enquanto.
Ainda muito pequena e tal e estranha no pedaço. Em uma hora foi que toda a
aldeia ficou sabendo. Todo mundo achou muito estranho e promissor.
-
Muito original, né, vó?! Eu também queria inventar uma planta.
-
Isto é verdade. Isto será possível. Algo mesmo exclusivo. Mas tem explicação na
ideia dos índios caiapó-xicrim. É que depois de morto, a alma de qualquer índio
ou índia ou cunhantaim ou curumim, poderá reviver em outro corpo, que pode ser
outra criança, uma planta ou erva caeté-de-folha-grande, um bicho de quatro
patas o ouriço-preto, um bicho rastejante, uma ave pássaro brió, um peixe, um
inseto, uma pedra, ou até mesmo um caapora. As ideias são muitas e variadas.
-
Estranho e bonito e mesmo lógico, vó? Quem sabe?! Quem viu?!
-
Não quer?! Daí por diante o pé de abati foi crescendo muito rapidamente, e sim
senhor! Muito bonito e elegante e particular. Em quatro meses já era um pé de
abati adulto, um pé de milho com espiga e tudo. O caule muito elegante de até
cinco metros de altura. Era feito de folhas longas e largas, espigas com grãos
e cabelos longos loiros. Dos grãos ainda nasceriam outros pés iguais. E assim
para todo o sempre. O pé de milho nasceu e viveu e ficou bem adulto num tempo
de cinco meses. Cresceu rápido buscando o sol. E o mais interessante era que
ninguém conhecia aquela estranha plantinha. Não sabiam o que era e nem o que
iriam fazer com ela com os frutos. Por isso mesmo o pajé feiticeiro foi chamado
e encarregado para se entender com a nova plantinha. Não demorou muito que as
mulheres se botaram para testar os grãos do pé de milho. Resultado foram umas
iguarias de dar água na boca: a pamonha, a canjica... Não demorou uns dias que
o pajé curandeiro descobriu que dos grãos da espiga de milho se podia fazer uma
espécie de vinho para se beber nas festas e rituais e comemorações. Mais uma ou
duas semanas e outras mulheres descobriram que podiam fazer farinha com os
grãos do abati e da farinha fazer comidas típicas tradicionais dos índios
paraúna ou índios macurape ou autóctones crejé...
-
E a história termina assim, com um pé de milho acontecido por milagre por obra
e por arte sem mais explicações?
-
Foi a descoberta do pé de milho ou pé de abati para os índios guaicuru. Uma
descoberta muito séria. Até hoje todo o mundo come alguma coisa vindo do pé de
milho. É um alimento e tanto para o mundo. E do vinho do abati, o vinho
abativi, os índios se divertem nas festas comemorativas. E falam com o espírito
do índio Abati, morto naquela aventura com a onça-pintada há muito tempo atrás
tempos idos. Tantos tempos passados e distantes. A explicação.
As
duas parentes passaram e repassaram satisfeitas pelo pátio. Elas estavam
satisfeitas e andaram caminhando andando passeando distraídas. O dia caiu na
tarde de cobre cor de cobre. Os passarinhos pousaram e decolaram na tarde,
pintassilgos, gaturamos, almas-de-gato, encontros, gralhas-azuis, téu-téus... O
pipiar das avezinhas entre as folhas da ouricuri ou bergamoteira ou imbaubeira
ou niopó... A sombra da maciça enorme árvore mapixi, ornada de alguns
zanga-tempos, já era bem comprida e esparramada no chão do quintal. Um par de
curicacas ou anambés-azuis, voando alto, voou ao encontro da despedida do sol do
pôr do sol.
77
Depois
de algumas voltas do mundo com o planeta... Atitude simples para cá e para lá,
ontem e hoje... Os mesmos milagres de todo verão inverno amanhã... a
aveia-do-campo crescendo planta vegetal... as marrecas-cricris voando em o
banhado do Taim...
O sol saiu
sozinho para Avanhandava, Paula Cândido, Nova Lima, Caiapônia, cais do Valongo...
Depois vieram nuvens brancas aos poucos. Depois já eram dez para as dez no
relógio digital público da rua Seixas Neto. Depois o sol ficou somente com ele
mesmo. Depois as nuvens brancas passaram outra vez e de raspão, na tangente,
fazendo barulho de atrito de contato, truz!... Após o sol dono do céu azul. Ainda
era meio-dia de domingo em Poxoréu, São José de Mipibu, Santa Helena de Goiás,
na aldeia dos oro-uim... no bairro Portão em Lauro de Freitas... no centro
cultural popular Domingos Vieira Filho...
Um
dois três dias e se percebia tudo como se fosse hoje. E os dias eram diferentes
e comuns. De repente, de sorte, daqui pra lá. Aí é que é a história!
O
dia estava bonito, cheio de cantos de passarinhos sabiá-do-campo, grimpeiro, bem-te-vi,
curió, tesoureira, tchintchorrintcho... e Lilás quis sair e saiu logo para a
rua Rodrigues Alves. Sorrindo um sorriso de lua crescente, praia, mata ciliar.
O sol escalava o céu porque o calor aumentava. Desse modo. A planta o pé de
guibá suava no verão. A plantinha esponja-de-raiz transpirava amarrada ao galho
da guajará ultrafrondosa.
A
menina Lilás foi ver a galera, as amigas, a Rê, a Esmeralda, a Pérola. Chegou
assim na casa das irmãs Esmeralda e Pérola, era de casa:
-
Aonde a gente vai? Vamo lá?!
Foram
até a pracinha Nanuque, debaixo da sombra do cajueiro, jogar vôlei na cancha de
areia, sentar nos bancos de laje, conversar, balanço, gangorra, trepa-trepa,
bíci e automóveis desfilando na rua do Triunfo. O mundo social civil.
-
Pois se nem D sabe!
-
Que é que vocês acham?
-
A cidade inteira às 9 horas e aqui fora.
-
Quero saber a diferença entre leste e oeste, é!
-
Que número você tem preferência e prefere?
-
É, qual teu número favorito ou mais legal?
-
Pronto. Eu gosto de sorvete de abacaxi, falei!
-
Nem esperava terminar meu sonho e...
Domingo
bonito e encomendado, sem correria, sem muito calor, passeio de bicicleta. Dia
clássico e mais alguma vantagem. Planta por planta cada qual no seu verde ideal,
ingá, indaiá, jurema, juazeiro, jaborandi, pequiá, sucupira... e quem mais
quiser. Lilás exclamou:
-
Ora, são coisas! Vamos correr até ali no quiosque na tenda?!
Aí
pelas dez as meninas viram um cãozinho perdido no meio da rua João Neiva.
Parecia perdido, meio indeciso, solitário, confuso, tonto. Ele mesmo pegou a
avenida Almeida Júnior. Um cãozinho pequeno, talvez de nome Degrau, talvez de
nome Serrote, talvez de nome Aparecido, de orelhas altas, cauda parada, olhos
aborrecidos. Subindo a ladeira da rua do Giz. A Rê falou sério, séria:
-
O cãozinho Degrau ou Serrote ou Aparecido parece assim tão procurante, pedinte.
A
Pérola completou, notou:
-
O guaipequinha Degrau ou Serrote ou Aparecido está muito desenxabido, tímido.
A
Esmeralda contribuiu com opinião, ilustrou:
-
Acho que o bebezinho do Degrau ou Serrote ou Aparecido se sente diminuído,
esquecido.
A
Lilás decidiu por si mesma, destacou:
-
Vou falar lá com o Degrau ou Serrote ou Aparecido. Custa?!
Então,
a menina Lilás se desgarrou das amigas para ir ter com o jaguarinha. Foi no
rumo dele junto da praça Arthur Andrade Filho. Já chegava perto para prosear
quando o cusquinho virou as costas e se mandou no trote. Lilás nem perdeu tempo
e se precipitou atrás, e no rumo da rua Domingos Sérgio dos Anjos. A menina
queria, agora mais do que nunca, falar com o Degrau ou Serrote ou Aparecido. E
foi atrás do bichinho de orelhas flexíveis altas peludas.
-
Que foi que houve, meu?! Esperali!
O
céu estava bom. As nuvens estavam boas. O caminho parecia aquele mesmo rente à
praça D Pedro II. O cãozinho virou mais uma esquina lá na frente e a menina
apurou o passo. Canteiros de rua em forma de lua, em forma de quadrado, em
forma de triângulo, em forma de espiral, em forma de meia-lua. Armadilha de
labirinto. Baile de ventos: redemoinho.
-
Ei, brincadeira!...
Lilás
passou a esquina... olhou para todos os lados... e nada, neca de pitipiriba,
nada do Degrau ou Serrote ou Aparecido. A menina perdeu a pista do cachorrinho
tão engraçadinho. A menina ainda olhou para os lados... bairro do Catumbi... procurou
escutar... olhou o quintal de duas três quatro casas e prédios e condomínios...
nem viu mais o fugitivinho. E a menina Lilás olhou para trás...
-
Que engraçado... Tenho a sensação... Opa! Nem olho agora, meu!
A
verdade era que a menina ficava ela própria agora com a sensação de estar sendo
seguida. Alguém a espionava se sabe lá de onde alguém escondido e por quê.
Seguida de rua em rua, pelas ruas todas da cidade, em todo lugar e em toda
parte. Alguém a seguia e a vigiava e a espionava, largo dos Pancararé. Era de
suspense.
-
Não interessa, e vou continuar a procurar esse o Degrau ou Serrote ou Aparecido.
Daí
a menina viu uma sorveteria, sentiu vontade de sorvete, pensou qual o sabor e
entrou na loja. Duas bolas de maracujá. Foi andando, tomando sorvete e
procurando pelo cãozinho. Mas alguém a cuidava. Alguém a olhava das sombras. Um
par de olhos anônimos seguia seu rastro seu cheiro seu jeito seu gosto de sorvete
seu andar e desde o matinho ali perto presente quase rasteiro e carregado de
aningaparas, mata-peixes, penachos-brancos, alvarados...
Lilás
tinha certeza que alguém a seguia. Parecia que ela tinha alguém nos
calcanhares. Até parou para olhar para trás... Se perguntou outra vez, naquela
mesma meia hora, naquela língua muda de falar para dentro de si mesma e
preocupada:
-
Será que estou sendo enganada por um detetive esperto demais? Eu, em?!
A
menina passou pela sombra de uma maria-mole, sombra bonita e convidativa, sombra
gigante, nem parou. Passou pela sombra boa de um talá-verdadeiro, nem parou.
Passou ainda pela sombra confortante de um pé de camboatá ou camará, nem parou dessa
outra vez. E a sensação de estar sendo acompanhada prosseguia continuava... E
também nem tinha certeza. Sorvete delicioso...
Mas
nem era apenas isso. As árvores olhavam de cima. As nuvens também. O céu, nem
se fala! Muita coisa olhava a menina. E as árvores a olhavam com seus mil olhos
folhas verdes, cará-de-caboclo, pacaris, caraguataí... E os passarinhos
pousados nos galhos riam, “ri-ri-ri! si-si-si!...”
-
Que dê o Degrau ou Serrote ou Aparecido? Um cachorrinho vira-lata sempre deixa
rastros! Nem desaparece assim, meu!
Quando
viu, quando viu bem, quando viu bem melhor, a menina percebeu que estava na
estrada para o país de Roraima. Ela, a estrada e mais nada ou tudo isso. E
totalmente a pé e com uma sandália prequeté nos pés. Longe no mínimo. Distante
quem sabe.
Ouviu
um tatuaçu raspar o chão de terra vermelha:
-
Rui-rui-rui!...
Ouviu
um muriqui no alto do galho da árvore quinquió:
-
M-mu-mmuuuuu!...
Ouviu
um ser de pelo duro marrom soprar muito alto. Um capincho é um roedor e dos
maiores do planeta deste lugar:
- Berraaaaaa!...
Ouviu
um cavalo pingo relinchar no potreiro localidade de Domingos Martins:
-
Trrriniiiirrrr!...
A
menina elogiou condecorou parabenizou:
-
Tem um relinchar e um bufar e um esgravatar ótimos! Parabéns!
Ouviu
também tudo ela ouviu um sorro guaiar:
-
Aaaau!... Aaaau!...
Céu
risonho e limpo como no cartaz de turismo onde nunca tem cerração chuva congestionamento
filas de horas vendedores ambulantes. O canto da guaruba. Viu e ouviu
arara-amarela, arara-azul, arara-azul-claro, arara-azul-e-amarela. E no caminho
a menina ainda passou pelas praias de Quintão, Laranjal, Capão da Canoa, Arroio
do Sal, Torres, Tramandaí, Arroio dos Ratos, Cassino a mais longa do mundo mais
de 30 quilômetros...
-
Nem recontei, mas obrigada e saúde! Do alto o sol do lado o mar do lado o
areão!
No
alto da timbaúva um gavião-de-penacho com penacho soprado pela corrente quente
do vento. Doze metros à frente o caminho tomava se dividia em dois sentidos. O
caminho se bifurcava em duas opções. Em duas porções. Metade da estrada ia para
cá e a outra metade da mesma estrada ia para lá. Uma disputa entre as duas
metades para ver quem levava a melhor. Tem preferência? A da direita vai pra
Ladário mais Corumbá a da esquerda segue firme pra município arquipélago de
Cairu.
E a menina
Lilás ficou na dúvida e par ou ímpar:
- Será que o
cachorrinho Degrau ou Serrote ou Aparecido foi cá ou de acá?
Uma
ave piou. Talvez o mutum:
-
Iuiiiii!... Iuiiiii!...
Outra
ave piou, talvez a inhambuapé:
-
Suiiiii!... Suiiiii!...
A
Lilás olhou em volta e se viu longe de casa. No meio da floresta, e que
floresta! Olhou em volta... A floresta, o tal mar verde-vegetal, mar florestal,
mar sensacional, mar sem igual cheio de espessura. A floresta uma cor só de
verde, tons verdes, macaúbas, aroeiras, jaramacarus, capebas, pitombeiras,
copaíbas... O diálogo entre elas era também com o vento participando. O vento
nordeste. O vento paisagístico.
A
menina decidiu continuar pela floresta e de todos os tamanhos. Daí pra frente
queria chegar à aldeia dos índios arara. Aqui ali jogados ao acaso os
alecrins-bravos as coiranas-do-rio-de-janeiro os juciris-de-comer...
Certa
altura da trilha na selva, a menina perguntou para a onça-pintada:
- Canguçu!
Estou indo para a aldeia juruna? Quer me informar?!
A
onça-pintada urrou muito em voz alta, boca escancarada:
-
Brrraaauuu!...
A
guria nem entendeu nada. Continuou pelo caminho florestal e tal e qual. Uma
primeira árvore, a fulana; outra segunda árvore, a sicrana; mais a terceira
árvore, a beltrana. Um montão de árvores parentes contraparentes contentes
associadas em sindicato. Papagaios charões conversando em voz alta na copa da
mata.
-
Hoje o dia 11 de outubro é data muito bem especial, então.
E
Lilás nem olhava para trás, mas para cima, para os lados, e para frente.
Cheirando o perto, esticando o olhar para o longe. Pensando nem que sim, nem
que nem. Abrindo sempre os olhos, de vez em quando até mesmo abrindo a boca, os
cabelos saracoteando ao vento. Aguardando talvezes, talvez.
-
Pois vamos dar uma olhada. Em que pé...
Lá
longe a mesma Lilás encontrou um urutau, ou bacurau, disfarçado em ponta de
galho seco. A menina perguntou à coruja ou tipo de pássaro noturno:
-
Seu urutau! Aqui nessa floresta tem boto-de-chapéu?
O
urutau se esforçou para pensar e, depois de dois minutos, respondeu descansado:
-
Truuu!... Truuu!..
Quinze
minutos mais tarde a guria encontrou a cutia:
-
Tia cutia! Aqui por aí tem mapinguari?
A
cutia, que procura coisas de noite e de dia, respondeu do jeito que podia e sabia:
- Ah-éeeee!... Ah-éeeee!... Ah-éeeee!...
Perto
do meio-dia a menina se assustou ao reconhecer o guaracigá:
-
Oi, guaracigá! Você também aqui encontrado na floresta perdido? Me diga, existe
matintaperera piando nessa mata fechada? Como vai? Bom dia!
O
beija-flor respondeu, e respondeu antes de quase pousar em uma flor do
ingá-de-flor-amarela:
-
Pisss-te!... Pisss-te!...
E,
depois de subir e chegar ao topo de um morro, a Lilás viu o país bonito de
Roraima. Era um dia normal, ensolarado, tranquilo no território de Roraima, aos
pés do monte Roraima. E também viu ali espalhada a aldeia dos índios potiguar. Era
tudo o que tinha de ser. Tão bom como tão bom. Tão cedo como tão cedo. O ótimo
vinha acompanhado de nuvens altas bem estratosféricas, quase no ozônio.
O
céu era bom. A floresta era bom. O rio era bom. Os bichos era bom. A aldeia
xavante estava calma. Fosse o que fosse. A hora era bom. O começo era bom. O
ótimo era bom e boníssimo.
Era
domingo. Todo dia de domingo era de céu azul. Na aldeia pancararu, todos os
dias são domingos de manhã. Ninguém nem reclamou do domingo, nem procurou outro
domingo. Nunca reclamou. Abelhas jataís, ou sete-portas, zumbiam em busca de
flores florestais. Tamanduá-bandeira procurava os tacurus no meio do mar de
cupinzeiros.
A
menina Lilás foi recebida por muitos curumins e cunhantains. Traçaram abraços carinhos
e beijos, tepe! tepe!... Lilás perguntou pela sua amiga Janaína:
-
Onde está Janaína? Tá nadando no rio Carinhanha? Foi passear em Nova Olinda?
-
Nem, o mar a levou - respondeu um curumim.
-
Mas ela nem está na floresta colhendo frutas junto com as mulheres velhas
cunhãs? - perguntou insistindo a Lilás.
-
Nem, a enchente a raptou faz tempo - disse uma cunhantaim.
-
Talvez ela esteja na oca, deitada na rede, dormindo ou pensando na sorte? -
insistiu outra vez a menina Lilás.
-
Nem, a enchente a levou embora para casar - disse outra cunhantaim.
-
Por que será? Quando foi isso? - sempre perguntou a Lilás.
-
Foi mesmo por coincidência na última enchente - respondeu o curumim da esquerda.
Lilás
então decidiu ali mesmo. E foi ver Janaína lá na praia junto do rio. E Janaína
estava sentada nas pedras, perto do mar de água doce, secando os cabelos com as
mãos, se penteando com uma costela de peixe, cantando baixinho um hino
tradicional. Lilás se juntou com Janaína. Lilás viu primeiro:
-
Janaína!
-
Lilás!
As
duas amigas se abraçaram. As duas amigas se olharam. As duas amigas riram
muito. Os olhos verdes e azuis de Janaína eram como as águas verdes do lago,
que no fundo profundo tem pedras preciosas e rebrilhantes, etc. É sempre bom
nadar numa lagoa calma e quente e azulada. E se apresentam cada vez mais
estrelas no nosso universo.
Foi aí que
Lilás viu que Janaína era metade índia e metade peixe.
-
Como você virou uma boto-cinzento, hein, Janaína?
-
Ora, de tanto viver junto da água, né! Minha sorte é de peixe, praticamente!
E
Janaína parecia estar contente com o fato de ser boto. E penteava os cabelos
longos negros e bonitos com um pente de espinha de peixe. E voavam e piavam por
ali as ciganas, os tuiuiús, os quero-queros, os flamingos, as saracuras-pretas,
as seriemas...
De
repente o vento avisou a água e as ondas vieram em tombos rolantes quase
pororoca conhecer a menina Lilás. A maré subiu nas pedras e foi molhar os pés da
visita visitante. A menina achou graça e riu e falou:
-
Que águas de pororoca, meu! Parecem ser incansáveis!
Com
muita conversa as horas passaram e a tarde foi se esticando e quase chegou
perto da noite já com estrela no horizonte. Estrelas no horizonte próximo.
Planetas mais pra lá do conhecido. Universo de diamantes em conserva.
-
Tenho que mergulhar nessa hora, menina Lilás.
-
Tudo bem, Janaína. Eu volto para a aldeia pancararé.
-
As citatás estão chegando para brilhar no chão do céu. Tenho que mergulhar. Vou
te dar esse presente.
Janaína
pegou, ali de cima de uma rocha, um cordão com amuleto de pedra verde.
-
É um muiraquitã. Dá sorte e muita alegria. Tem cara de sapo do fundo do rio.
Fui eu mesma que desenhei.
Lilás
ainda perguntou:
-
Onde germina o grande rio Amazonas?
Janaína
respondeu assim:
-
No fundo dos olhos do céu, dos olhos meus, dos olhos teus.
E
a menina Lilás voltou com outra questão importante:
-
Onde nascem as cascatas, cataratas, cachoeiras?
A
boto Janaína foi respondendo dessa forma:
-
As quedas-d’água nascem dos degraus de nuvens das prateleiras de mato das janelas
de pedra. Depois elas mesmas fazem sorrir e festas e alegrias das águas.
Ali,
junto ao rio e rios, junto do alagado e da boto Janaína, Lilás pegou de
presenciar e admirar muitos cardumes de peixes homônimos, homógrafos,
homófonos. Era complicado, mas era. Por que o dia por que a noite? Por que um
pedaço de chão?
Perto
da noite, nem noite ainda, tardezinha de sol caindo, a menina Lilás veio embora
pelo caminho taiaçuapé. O muiraquitã pendido do pescoço. Era bonito era legal.
Um enfeite para ajudar na sorte do dia a dia. Era legal era precioso.
Lá
pelas tantas viu a gambá, que puxou conversa:
-
Aonde vai, menina? Tá com pressa? Vai aonde com esta sua pressa?
-
Vou até a aldeia dos índios boca-preta.
-
Eu sabia! Eu saberia!
Na
beira do rio Madeira, a menina pegou uma ãatá feita de casca de árvore
guarajuba ou guajuvira e remou como pôde. Foi remando, passou as
salsas-de-água, os gravatás, as taboas... aves conversando em pios, o socó, a
garça-branca, os colhereiros, a aracuã... peixes olhando no raso, o pacu, o
mandubé, o jaú, as pirararas, e o famoso tucuxi... animais da margem e de
orelhas em pé ou penas arrepiadas, a preá, o preá, a saracura, o saracuro... uns
piopios!... escondidos repetidos... de quem?, de peixe-frito?, de ferreirinho?,
de coleirinha?, passarinho cuidando do que acha certo, o seu território, o seu
ninho, a sua prole, o seu ecossistema.. curvatura de rio e mata em alas,
caavuranas, cipó-d’alho, caaxiós, canela-preta, flores-da-cachoeira...
Pelo
ar, belo ar, ou nenhuma nuvem pendurada já no céu. Dia curioso, coisa com
coisa, abafado, carapanãs teimosos impertinentes.
Chegou
a noite com grilos, piuns e...
-
Vuuu-vuuu!... Vuuu-vuuu!...
Chegou
uma noite enluarada com grilos, borrachudos e vu-vus! de corujas e tipos de
corujas. O vento espantou o luar, soprou a lua, e deixou as estrelas mais
brilhantes. Noite bonita, de grilos, morcegos, mariposas, mosquitos e vu-vus!
de corujas, espécies de corujas.
A
noite estava completa. O dia acordou. Os passarinhos já cantavam, o sol saiu,
os passarinhos cantaram com o sol, o sol pintou as cores, os passarinhos vieram
com o sol.
-
Como foi que se soube?
Depois
da noite, ali pelas nove e vinte, dia seguinte, a menina chegou à aldeia dos
índios terena. Estava de volta. E foi novamente recebida por curumins e cunhantains
mais com seus bichinhos de estimação. Eles todos a viram chegar chegando e
saíram correndo buscá-la, encontrá-la, recebê-la, entrevistá-la. Uma gritaria,
uma risada coletiva, um pula-pula de contentamentos. Todos os dias se parecem
com os primeiros.
-
Qual é?!
-
Vai ali!
-
Muito comum isso é.
-
Tem nada nem!
Daí
mesmo já foram brincar de subir em árvore e nadar no rio Sabia. Subiam na
ibirapitanga, pulavam dos galhos para o rio, nadavam e iam se aquecer no tatá.
Os curumins empurravam as cunhantains; as cunhantains corriam dos curumins; os
bichinhos de estimação alguns tinham cuidado com a água. Uns bichinhos eram
novos outros mais velhos e nativos.
-
Dribla, dribla!
-
Já vai ver!
-
Ainda nem cansei!
-
Vou nadar até ali, em!
E
Macunaíma? Depois de perder o namoro de Janaína, Macunaíma ficou perdido na
floresta, no ar, na água, no fogo. Ficou esquecido. Ou quis se derreter. Nem
queria mais namorar ninguém e nunca mais. E parece que nem mais namorou
ninguém. Preferiu desaparecer como igual fantasma, se isolar quieto, ficar
mesmo perdido por aí na floresta, se esquecer se ausentar junto à natureza dos
deuses florestais, se mandar para junto da pedra de Ladainha. E nem, nem venha
com essa!
O
pajé benzedeiro, homem cheio de segredos e remédios e poções, disse mesmo para
a menina Lilás, correspondeu:
-
Cuidado com Macunaíma. Ele está em toda parte. É bom se cuidar. Ele nem aprecia
mais ninguém como antigamente. Ele pode gostar de tudo, ou desgostar de todos.
Ele pode ter virado um ente mágico e sem paciência. Ele pode ter virado em
pássaro ave sanã-de-samambaia. Ele pode
ter virado mata-pasto.
O
cacique, homem de contar muitas lendas e dar muitos conselhos e ensinamentos,
advertiu a menina:
-
Não esqueça que Macunaíma deixou as pessoas e adotou a floresta. Então, às
vezes ele trata bem as pessoas que encontra por acaso e outras nem tanto.
Principalmente, Macunaíma é teimoso e autodidata. Ele pode virar em tatu-bola.
Ele pode virar em cumaru-amarelo. Ele de repente pode virar em rato-espinhoso.
Uma
quinta-feira, antes do sol nascer, metade dos índios índias e curumins da
aldeia anacé foram nadar, foram para o meio do rio, era muito bom era bem cedo.
Depois passaram a noite acampados perto do rio Purus. Era legal. Acordaram
muito madrugadores. Todos para a água e ver os peixes possíveis e magníficos. Eram
peixes os dourados, as piavas, as grumatãs... as tartarugas-da-amazônia e
arraias e muçuns e ariranhas e cobras-verdes...
As crianças
nadaram. Outras crianças nadaram. Curumins e cunhantains nadaram. Depois das
crianças entraram os adultos. Os adultos nadaram com as mãos com os pés fazendo
muita festa e se parabenizando.
-
Posso ver esse exercício?!
-
Hoje é dia possível!
-
Claro! Eu concordo e nado de braçada!
-
São três da tarde, já!
Voltaram
para a aldeia e fizeram uma grande festa de chegada. A lua Jacy olhou de perto,
as estrelas Cejys olharam de longe, o sol Cuaracy olhou de olhos dormindo. Tupã
olhava mesmo de dentro das árvores mais próximas.
Foi
de noite, em plena festa com muita fogueira e música, pamonha feita de milho,
beiju feito de farinha de mandioca, guaraná e suco de açaí, que Macunaíma
apareceu disfarçado de tracajá. Caminhava lentamente. As cunhantains e os curumins
se assustaram. Lilás se assustou. Os adultos índios riram. As cunhantains e os
curumins riram. Lilás se riu. Macunaíma veio rastejando perto do fogo tatá e
disse, numa voz parecida com voz de jabuti com voz de jabuti:
-
Vacês nem vão assar as minhas irmãs tartarugas-da-amazônia, vão?
Todos
olharam para Macunaíma disfarçado de tracajá. Todos sabiam que era Macunaíma
disfarçado de quelônio, mesmo assim alguns se assustaram, outros riram. Depois
riram todos.
O cacique,
sempre o índio mais corajoso da tribo dos ticuna, respondeu em nome de todos:
-
Que nada. Nem assamos nenhuma das suas irmãs de carapaça. Estão muito vivinhas
na água do rio Tocantins. Pode ir lá e conferir. Estão nadando por conta
própria e perto da praia. Livres como os pássaros do céu.
Então,
Macunaíma olhou para o lado que o cacique apontava para longe aceitou parece
que aceitou a proposta e deu o fora. Macunaíma nem disse nada. Rastejou por aí
pela festa mais um pouco mais uma hora se tanto. Depois Macunaíma foi embora simboralá!
por muito devagar, rastejando, muita paciência, passo a passo, etc. Talvez
chegasse ao rio ainda em oito ou nove horas, dias quem sabe, contagem
regressiva ou progressiva.
Lilás
comentou com o pajé o mágico o plus ultra:
-
Coisa bonita e linda, né, seu pajé?!
-
E muito forte. E muito terráquea.
Depois
de um minuto, a menina Lilás retornou, emendou:
-
É, seu pajé, coisa muito forte.
-
Coisa bonita e linda e bacana - disse o pajé, chefe das garrafadas de remédio
curativo preventivo.
Macunaíma
era mais que qualquer ser humano. Ele era mais que qualquer coisa. Macunaíma
era como a planta trepadeira mão-de-onça ou o cipó-timbó. Macunaíma ia e
voltava. Macunaíma desaparecia e reaparecia. Ele era um deus sossegado. Macunaíma
era um diabinho elétrico. Ele era um peixe poraquê. Ele podia ser um pássaro
tiê-sangue-preto. Ou até um índio guerreiro aruá.
E os curumins
e as cunhantains ficavam perguntando para o cacique:
-
Aonde vai Macunaíma, com essa pressa?
-
Vai falar com os bichos lá na assembleia dos bichos em Jaborandi.
-
Foi fazer o que por que Macunaíma?
-
Foi conversar com o rio da Prata e perto de Saquarema.
-
Quem será Macunaíma, hoje em dia?
-
Pode ser um peixe-boi, pode ser uma árvore mata-olho, pode ser uma
erva-de-anta, pode ser uma ave uirapuru, pode ser um gavião-carijó, pode ser
uma iguana. Pode ou nem pode? Pode qualquer coisa que ele desejar ser. É um
ente magnífico, hem?!
Na
manhã seguinte, metade da aldeia, incluindo índios e índias adultos, curumins e
cunhantains, foram ver o eclodir dos ninhos de tartarugas-da-amazônia. Muitas e
muitas tartaruguinhas brotavam da areia da praia do rio e saíam andando para o
rio. As ondas das águas do rio Trombetas quase que as afogavam. Uma maratona
correndo para as águas do rio. Muitos predadores pelo caminho, aves como o
mutum, a garça-branca, o joão-grandão, o gavião-pescador, e a ariranha, e a
família da ariranha. Lilás e as cunhantains e os curumins ajudavam a salvar o
que podiam. Uma boa porção de filhotinhas nem sobrevive a tantos e tantos
predadores.
-
Por que a praia de Itaipu foi feita em Niterói?
Depois
dessa hora as crianças corriam buscar o cacique e perguntavam:
-
Aonde vai levar o rio Paranaíba?
-
Macunaíma hoje é filhote de lambari. Por quê? Amanhã é abelha jandaíra no
enxame, por quê?
E
todos ficavam espantados e com muita surpresa nos olhos esgazeados e na cara
fixa. Nunca podiam imaginar que Macunaíma fosse se transformar em peixe pequeno
em abelha. E logo hoje.
-
Está ótimo bom ou regular?
-
Conforme.
-
Pois eu talvez.
-
Vai saber, né, meu?!
-
Uns deuses das águas dos matos próximos nem são os meus os teus os seus.
-
Outros dias em pós...
No
fundo mais bonito do país de Roraima, oi!... ficava a bonita montanha verde
chamada Roraima. Era uma montanha gigante, uma imensa pedra verde, uma enorme
pedra rocha. E do seu tope se via tudo até para muito distante. Uma montanha
verde, acima do verde da floresta, deitada de comprido esticada, bem acima do
normal. Para os índios kamaiurá, o lugar da montanha era um lugar sagrado e
bonito e surreal. Um lugar oblíquo.
Lilás e
companhia foram até lá. A menina Lilás foi até lá. E avisou, declarando:
-
Nunca vi montanha igual. Montanha assim parecida com árvore dormindo ou tombada
ou deitada de lado. Merece ser algo muito muito sagrada.
-
É mania mesmo.
-
Para quem viaja de disco voador um discoporto. Com vista superpanorâmica para a
maior floresta do mundo.
Uma
vez ou duas por ano, os índios tape iam até a montanha visitar a montanha e
levar presentes para a montanha sagrada divina. O monte Roraima era o mais
sagrado. Os índios e índias e curumins e cunhantains gostavam muito de fazer
essa excursão. Na trilha do mato. A aldeia ficava deserta, abandonada,
solitária e iam todos. Na frente o cacique o índio mais sábio e o pajé dono dos
espíritos do chão do ar do céu. Por último alguns guerreiros para cuidar de apagar
as pegadas deixadas pela tribo. Iam todos de mudança para morar alguns meses na
montanha sagrada, ao pé da montanha verde o tope mais alto do mundo, de muda
levando mala e cuia.
19h
e 41min, o sol saiu despiu banhou deitou dormiu acordou às 5h e 14min.
Um
dia ou dois ou dez de caminhada e chegavam. Viram a montanha e já ficaram
admirados, arrepiados e alegres e cheios de esperança. Era uma montanha bonita
e linda e assustadora, ao mesmo tempo. Tanto de longe como de perto. De dia ou
de noite. Pareceu um índio gigante deitado dormindo no meio da floresta e
pensando. Pareceu uma árvore gigantesca deitada e empedrada e imaginando. Era
mesmo um colosso de pedra basáltica.
As crianças
insistiram com o cacique, perguntando:
-
Parece Macunaíma, nem parece?
-
Como se fosse Macunaíma, nem é?
-
Eu acho que é Macunaíma, ou nem?!
-
Vou dizer que posso estar enganado mas parece mesmo um Macunaíma, é!
Quando
a tribo chegou ao pé do monte Roraima, ninguém notou a diferença entre montanha
de pedra e homem gigante de pedra e árvore gigante empedrada. Era tudo um
obstáculo quilométrico e de rocha vulcânica.
-
É bom acender algumas fogueiras, então!
E
naquele dia a montanha estava praticamente quieta. Pareceu, pelo menos, estar
muito calma sossegada. Pareceu só uma grande montanha sagrada um paredão. Uma
gigantesca pedra verde de elite. Mas era uma grande montanha sagrada sagrada. E
todos os índios sapará tremeram de emoção arrepiaram. E a montanha pareceu parecia
falar ou fazer sonhar. E todos já entendiam ou ouviam. Portanto, os espíritos
gostam de se alojar nos montes altos.
-
Nem é uma maravilha de muralha, em?!
-
Eu nem sei explicar melhor. Eu acho.
-
São 14 horas e tudo vai bem. Vamos dançar em volta do fogo.
A
tribo caiapó-pau-d’arco acampou perto de uma grande árvore guararema. Comeu
beiju, comeu pamonha, comeu pequi, comeu piruruca ralada e cozida, bebeu
guaraná e tomou açaí. Comeu pitanga, comeu araçá, comeu araticum, comeu tapioca.
Depois tocaram o boré, o maracá, a inúbia, o atabaque, fizeram festa e falaram
com os deuses. E gritaram muito. Os índios se vestiam com seus melhores adornos
e botoques. Os índios e índias se enfeitavam de desenhos e de colares de
caroços de coquinho miçangas.
-
Eu aterrissei no Pão de Açúcar. Eu subi no Corcovado. Subida subida correntes
quentes. Eu sou sanã-ocelada e voo até Santa Teresa no Espírito Santo.
Um
instante e a terra tremeu de frio ou calor. A tribo catuquina inteira arregalou
os olhos deixou a boca aberta. A tribo inteira também ficou arrepiada. As
árvores ali na floresta estremeceram. Os bichos gritaram e saíram correndo para
todo lugar para todo lado. E as aves decolaram com os olhos cheios de dúvidas.
Por que a terra trepidou? O pajé entendido dos espíritos do mundo todo respondeu,
ainda em calafrios:
-
Foi Macunaíma que se sacudiu todo assim. Macunaíma é a montanha. A montanha é
Macunaíma. E está acordando ou se revirando no leito. Parece que se agita. E os
ocupados somos nós?!
Pronto.
Aí toda a tribo cinta-larga olhou para Macunaíma, ou melhor, para o monte
Roraima acordando. E a montanha já se erguia e se espreguiçava e fazia um ronco
se espreguiçando, e se levantava soltando cacos e poeiras e ciscos e fragmentos,
bocejo:
-
Aaaaoooffffeeee!...
O
suspiro da montanha fez um vento de derrubar algumas árvores e varrer todas as
nuvens do céu do céu. Um perigo para os pequenos humanos e etc. Por isso foi
como um furacão ou tufão. Caiu muita árvore muita planta fedegosos-dos-jardins,
apavorou todos os pássaros, derrubou mais da metade da tribo taurepangue no
chão.
Ninguém
foi perguntando nada, mas todo mundo da tribo uru-eu-uau-uau viu o que
aconteceu depois. Macunaíma, um gigante de pedra, praticamente a montanha
Roraima inteira, andou até o rio mais próximo, e quando andava o mundo tremia e
trepidava, andou até o rio mais próximo e bebeu quase toda a água que passava
naquele momento. Muita sede se viu. Depois de se saciar, o gigante de pedra
Macunaíma ou Roraima ainda lavou o rosto e as mãos e os braços e molhou os
cabelos verdes encaracolados feitos de cipós e lianas esverdeadas.
Macunaíma
vestido na pele da montanha verde. Nem adiantava achar que era sonho ou teatro.
Nem, era tudo muito real e natural. A montanha andava, isso sim.
-
Parece alguma coisa do outro planeta, olhe!
-
Depois de ir e vir as gentes serão plantas bichos e os bichos serão plantas e
as plantas serão aves e pássaros.
Depois de
lavar o rosto, Macunaíma olhou em volta procurando o que fazer. Aí ele mesmo
percebeu que era muito gigante para aquele mundo. Olhou em volta e viu a tribo
dos botocudo ali embaixo, toda apavorada e minúscula. Olhou, passou as mãos no
rosto, parecia procurando algo, parecia pensativo e disse, a voz era de trovão
rugindo retumbante, vento muito forte:
-
EU ACHO QUE TIVE UM ENORME SONHO MONTANHOSO PEDREGOSO!
Então,
Macunaíma fez uma mágica qualquer e foi diminuindo diminuindo e ficou do
tamanho de um índio adulto normal de um metro e oitenta e cinco centímetros.
Achou uma altura boa e parou ali. Perguntou quase com susto, quase humano,
quase pessoa:
-
Que que vocês todos vieram me acordar, hein?! Se parecem com as formigas os
cupins as mutucas! Eu acho vocês muito pequenos!
O
cacique ficou calado, o pajé adivinhador ficou calado, os guerreiros ficaram
calados, as índias ficaram caladas, os curumins ficaram calados, as cunhantãs
ficaram caladinhas, a menina Lilás nem teve ânimo de falar, os bichinhos de
estimação ficaram calados, todos da tribo macuxi ficaram calados, a floresta nem
abriu a boca, os insetos nem abriram as asas, os pássaros nem abriram os bicos
as asas, o rio passava passando muito calmo, ninguém falou nada, nem cascata
caiu nem cachoeira riu. Todo mundo nem queria enfrentar a justiça do Macunaíma
entidade da floresta da natureza. Até porque ele pega pesado quando quer.
Nesse
momento aí, Macunaíma sentiu fome e quis comer:
-
Que vocês têm aí que é bom de comer? Posso ver? Deixe cheirar.
O
cacique respondeu em nome da tribo caiapó-metuctire:
-
Tem muito doce de abóbora...
Macunaíma
respondeu, já interessado ou guloso:
-
Nem me diga! Já vou querer tudo tudo! Que tem mais?
-
Temos mel de muitos sabores e procedências e tipos de abelha...
Macunaíma
parecia um pouco ansioso:
-
Nem gosto de comer o mel das abelhas! Onde se viu? Logo eu comer a comida das
minhas protegidas, hein?! Pare e pense, né, meu!
O
surpreendente o mágico Macunaíma era um... espetáaaaculo! Ele entendia de tudo.
Sabia todas as respostas do nem do sim do talvez. Ele sabia antes de acontecer.
Foi aí que Macunaíma disse o que queria. Ele era poderoso e tinha o mundo nas
mãos:
-
Eu quero comer... beiju! Tem beiju? Adoro beiju! Eu quero comer... pamonha! Tem
pamonha? Adoro pamonha! Vão colher açaí! Quero comer açaí! Adoro açaí!
Tigelinha transbordando açaí.
A
tribo respirou aliviada. As índias correram atender Macunaíma, preparar beiju e
pamonha e açaí até ele nem querer mais. E a tribo dos coroado ficou amiga do
Macunaíma. Pelo menos dessa vez. E a natureza toda respirou em geral e
agradecida.
Macunaíma
ficou com a tribo caiapó-aucre, ali de noite e de dia, até cansar de comer beijus,
pamonhas, açaí, doce de abóbora. Comeu de manhã, de tarde e de noite. Enjoou.
Disse que ia embora, nem foi. Um dia disse que ia embora, nem foi. Um outro dia
prometeu ir embora perto da noite, nem foi, vai ver esqueceu. Mais outros dias
e todo mundo pensou que ia embora, nunca foi. Ele o dono do dia da hora de
tudo. Deitado na rede na esteira. Depois uma semana que todos nem pensavam que
podia ir embora, nem foi. Um belo dia sumiu e ninguém viu e foi mesmo.
Lilás
e outras cunhantains e outros curumins perguntaram ao pajé consultor dos astros
e estrelas e pedras e sombras e voos:
-
Aonde foi Macunaíma?
-
Foi beber água na itaipava.
E
as crianças ainda insistiram:
-
E por que nem voltou ainda? Quem sabe? Quem pode?
-
Porque, decerto, vai almoçar e jantar por lá. Deve ter muito que fazer. E
ocupado.
Depois
desses dias ao pé do monte Roraima, a tribo dos índios e índias capixaba
voltaram para a aldeia antiga. E retornaram em fila indiana os mais velhos na
frente. A aldeia toda as coisas da aldeia nas costas. Conversando alto para
passar rápido o tempo mais e sempre em frente andando andando.
-
Três anos se passaram.
-
Três meses se passaram.
-
Três primaveras se passaram, é.
A menina Lilás
achou que já estava na hora de aparecer em casa. E a menina deixou a tribo dos
tuxá e voltou. E retornou para casa o bairro Coqueiros em Florianópolis e a
ponte Pedro Ivo Campos, seu próprio lar e de outros seres. A planta dos pés a
palma das mãos andando.
77
Quando
Lilás se levantou o dia já ia indo e estava claro. Quando Lilás se levantou os
pássaros já trabalhavam. Principalmente porque já era domingo. Um cão olhava o
mundo e o mundo nem precisava parar para pensar. E um sol com poucas nuvens
dizia muito. Passarinhos se balançavam nos galhos da gameleira-branca, nos
galhos mais altos também. Correntina, Sonora e rua Cel. Veiga em Petrópolis
também com sol físico.
-
Quantas horas já são?
-
Que fuso horário?
- Horário de
verão?
Quando,
outra hora, ou dali várias horas, a menina chegou na casa da avó, a avó estava
em casa, a avó estava na varanda tomando café e comendo bolinhos ou biscoitos
ou bolachas ou salgadinhos ou cuca ou torta ou outros doces em geral. Cada dia
tinha uma novidade que ela mesma fazia. Podia ser tapioca. Nem demorava muito
fazer.
No
quintal da avó cantavam alguns passarinhos, barbaridade! outros voavam daqui
prali, de lá pracá, etc, decolavam, pousavam, pássaros que ziniam, coleirinhas,
chupins, tico-ticos, inhambus, sanhaços, beija-flores-safira...
-
Quem canta assim, vovó?
As
duas silenciaram para escutar o canto do tal passarinho:
-
Tiotiotiotiotiotio-ovrrrrriiiii!...
A
vovó ouviu algumas vezes mais, pensou, ficou satisfeita, um bocadinho de cuca,
de trinta em trinta segundos o passarinho repetia o assobio, o trinado, um
golinho de café com leite, depois a senhora respondeu:
-
Ah, é o sabiá-laranja! Todo sabiá canta diferente, sabia?
-
Sabia que o sabiá sabia assobiá!
A
menina Lilás experimentou um biscoito de polvilho com suco de abacaxi. Vovó foi
olhando para longe, além da copa das árvores do quintal, paineira, maria-mole,
avenca, leiteira, canela, cabreúva... Um instante e já estava com os olhos nem
se sabe lá onde. A menina solicitou vovó:
-
Vovó, onde a senhora foi e por quê?
-
Eu estava pensando uma lenda. A lenda da mandiba. Já te contei?
Duas
vespas muito grandes e de listras amarelas e pretas faziam casulo debaixo da
aba da casa. Iam e vinham carregando qualquer coisa que podia ser porçãozinha
de barro, barro com palha ir e vir ou coisa muito próxima semelhante.
-
Na aldeia tenetehára existiam muitos curumins e cunhantains. Até aí tudo
natural e normal e comum e básico e genérico. Aldeia engraçada, movimentada e
de muito movimento social, muito bom gosto. Em todas as aldeias existem muitas
crianças. Mas também viviam ali dois curumins importantes, irmãos gêmeos: o
Macunaíma e o Mandibaru. E uma cunhantã chamada Janaína. Eles três nasceram no
mesmo dia, lua, ano e etc. Nasceram até na mesma hora: cinco horas da matina
madruga. Nasceram quando os passarinhos começavam a algazarra do nascer de um
belo dia justo 25 em setembro de 1989. Janaína era prima dos irmãos gêmeos Macunaíma
e Mandibaru. Tinha uma música de choro coral no ar “buuu-aaah!... buuu-aaah!...
buuu-aaah!...”
O
dia fazia sol, ali pelo quintal da vovó, esparramado pelo espaço aéreo, etc. No
pátio aquelas manchas soltas de luz, manchas de sombras se movendo, sombras,
luz, cinquenta por cento de quintal na sombra, outros cinquenta no sol. O mundo
todo tremia de calor parado, mormaço, sonolência. As nuvens brancas, e poucas,
passeavam à vontade lá por cima, conquistavam lugares, Cônego Marinho, Itarana,
Cocos, ilha de Boipeba... pois ainda nem tinha amanhecido em Januária, Paulo
Lopes, praia de Fora... Se ouvia pelo ar até barulho de insetos diversos,
bizzziuuu!... Se via joaninhas tentando pousar nas folhas do araçazeiro. Borboletas
pintadas em manchas pretas e vermelhas pousar no chapéu-de-couro. O
quebracho-branco verdejava. Os juncos-bravos eram familiares associados em um
ótimo juncal. Então, domingo era um dia de primavera grande e temperatura.
-
O bom disso tudo era que Mandibaru tinha o cabelo branco, muito branco, da cor
do papel branco. Macunaíma tinha o cabelo preto. Janaína, filha do cacique, filha
da deusa Iara, tinha o cabelo bem preto e longo e liso.
-
Por que Mandibaru tinha cabelo tão branco? Era diferente.
-
Por quê? Então, nem se sabia. Tupã, deus para os índios, inventou.
-
Então, Mandibaru era muito estranho na tribo dos guaraio. Deve ter sido.
-
Pois foi também o que Janaína achou. E todos da tribo guaicuru acharam que ela
devia casar com Mandibaru ou Macunaíma.
-
Janaína já sabia com quem casaria? Já estava programado e previsto?
-
Ela mudava de pensamento como se fosse o vento. Um dia gostava de Mandibaru por
causa dos seus cabelos brancos. Outro dia gostava de Macunaíma por causa dos
seus cabelos pretos. Um dia gostava Macunaíma porque ele sabia achar as
melhores frutas do mato e melhor que Mandibaru. Um dia gostava Mandibaru porque
este subia em árvore mais rápido e melhor que Macunaíma. Eram umas dúvidas
difíceis que ela tinha. Um dia adorava Macunaíma porque ele corria como uma
lebre. Um dia adorava Mandibaru porque ele nem tinha medo do escuro. Uma vez admirou
muito Mandibaru porque ele nadou muito bem. Uma outra vez admirou muito
Macunaíma porque ele sabia pintar o corpo com desenhos parecidos da
onça-pintada. A dúvida dela, Janaína, era de cinquenta por cento. Mas também
havia tempo tinha tempo.
De
súbito, umas três ou quatro ou seis borboletas, borboletas-azuis, desceram do céu
e chegaram por ali no pomar da avó. Voavam quase levadas pelo vento calmo.
Pareciam papéis de festa de carnaval, tontas de espaço, tontas de céu azul nas
costas, tontas de luz forte, tontas de manchas de sombras. De onde para onde, e
procurando. Plantas postadas, flechilhas, flor-da-esperança, nhamburis,
couves-cravinhos... sempre em guarda.
-
E eles três, muito amigos, faziam várias brincadeiras juntos. Foram crescendo
muito juntos e espertos. Mandibaru chamava mais atenção por causa dos cabelos
muito brancos. E eles andavam no tereterê, nadavam na lagoa, pulavam dos galhos
das árvores dentro da água, sabiam formigas jejás, sabiam cigarras, sabiam
escaravelhos, sabiam tudo que se movia. Eles brincavam de imitar onça-parda,
macaco-de-cheiro, macaco-prego, tatu, gambá, peixe-boi, caapora e até mesmo o
impressionante caapora.
Vovó
estava manducando um bocadinho uma bolachinha maria. Um golinho de café com
leite adoçado com rapadura. A menina agarrou duas três bolachinhas salgadas,
sorveu um gole de suco de pequi. Ali pelo meio do pomar nambu voou baixo e
outras coisas. Sol bonito, cheio de força, etc e tal. Sol que brilhava em festa
das cores. Sol, como moeda de ouro, preso a um balão azul de festa de
aniversário. A natureza estava um jogral?
-
Vamos calcular o mundo? Um grande dia, a filha do cacique, a filha da deusa
Iara, a Janaína, amanheceu grávida e misteriosamente grávida. Ela já tinha
treze ou quatorze anos. E apareceu grávida. Foi um escândalo um incêndio uma
sensação. Era muito novinha. Ninguém da tribo xikrín estava preparado para essa
novidade. Ninguém mesmo. Foi uma novidade, um sucesso, uma agitação por toda a
aldeia, comoção, comoção. Ninguém havia dado permissão para Janaína namorar
quem quer que fosse. A notícia se espalhou universalmente. Todos da tribo
ficaram esquisitos. Todos se reuniram no centro da ocaruçu. Iam decidir coisa
séria.
Muitas
borboletas, e borboletas-brancas, apareceram se exibindo no meio da luz do dia
muito claro. Eram dezenas de borboletas-brancas, muito parecidas, invadindo o
pátio da vó. Saíam das sombras e ganhavam o espaço aberto de luz para todos os
lados. Balançando em pleno voo. Borboletas magníficas e raras. Umas vinham de
longo percurso de longe em longe de Potengi, talvez Presidente Nereu ou
Atalanta ou Itacarambi. Eram duas três etc.
Pudim
de leite condensado e sagu. Depois, sagu. Após, mais pudim. Sagu com pudim. Era
muito. Era pedir demais. Era muito bom. Era perfeito. Ninguém imagina.
-
A Janaína declarou que nem tinha namorado ninguém. Janaína dos olhos abertos e
lindos falou que nem sabia como tinha ficado grávida. Janaína disse e disse de
coração “só pode ser um feitiço ou uma abusão ou um sonho ou um quebranto”.
Janaína nem sabia de nada. Até jurou que podia ser o boto da beira do rio
Paraguaçu. Cunhantã que conhece boto numa festa geralmente passa por isso. É o
que dizem. É possível e é normal e realmente nem tem nada de mais. Nem nada a
ver.
-
E o cacique e a deusa Iara, pais dela, ficaram do lado dela?
-
O pai de Janaína, o cacique da tribo amaribá, até desanimou um pouco. Nem
esperava ser avô tão cedo, isso sim. E o cacique sempre foi até mais longe: queria
que a filha estudasse muito e mesmo a faculdade da UFSC. Hoje em dia é assim.
-
Então foi tudo antes do tempo, meu?!
-
E não qué?! Mas foi por aí que o pajé, que conhece o movimento das nuvens, foi
falar um conselho para o cacique e falou para o cacique: “Nem brigue com sua
filha, pois ela é nova e realmente nem sabe de nada. Vai ver, é muita sorte! A
sorte nem se explica!”
Vieram
do chão da terra avermelhada uma porção sem conta de borboletas,
borboletas-carijós. Agora sim invadiam o terreiro da vovó e etc. E do pé de
manacá umas quantas borboletas, as borboletas-do-manacá. Borboletas importantes
e tontas e engraçadas e pintadas novas em folha. Borboletas que duram quinze
dias uma semana dois meses. Tem borboleta que serve muito para pintar o ar.
-
Nove meses depois nasceu um bebê muito branco, branco mais que o branco, branco
como papel branco, branco como a luz branca, branco como uma coisa qualquer
superbranca. E a Janaína, mãe solteira, mãe de primeira viagem, gostou do filho
e lhe deu o nome de: “Mani”.
A
vovó gostava de bolachinhas com café e leite nas tardes, todas as tardes. Sentar
nas tardes, diante das tardes, na sua cadeira de balanço preferida. Era tudo
muito calmo e o horizonte. Era tudo que queria. As tardes da vovó eram tardes
calmas de segunda a segunda e de terça a terça.
Entre os pés
de araçás, por ali, mais ali, um par de emas, pai e mãe, levavam os filhotes
para comer araçás no chão. E quase toda a família assobiava ou comia. E toda a
família só pensava em comer araçás e comia ou assobiava. Estas emas tinham
características das emas da região de Lucas do Rio Verde ou Ituporanga ou Água
Doce. Era uma família doce pacífica e que tirava férias escolares em a praia da
Guarda do Embaú.
-
Em pouco tempo o menino branquíssimo Mani já estava falando. Parecia muito
esperto e precoce. Era muito bonito e diferente. Cabelo branco, pele toda
branca, olhos brancos, tudo muito branco. Era uma atração na aldeia apinayé.
Vinham índios e índias de outras tribos da vizinhança para ver o bebê
branquíssimo. E vieram os índios araxá, os índios carijó, os índios pato, os
índios caiapó-gorotire, os charrua, os coroado, os reriú... E viam e achavam fora
do comum. Uns achavam que era coisa dos espíritos bons, outros que era coisa
dos espíritos estranhos estrangeiros alienígenas. Uns achavam que o menino
branquíssimo, o Mani, tinha vindo do espaço da lua de Marte. Outros que tinha
vindo de uma gruta ou uma caverna ou uma lapa ou um oco de árvore figueira ou
árvore caaxió ou oiticica. Uns outros ainda achavam que ele tinha nascido de
uma garça-branca ou garça-branca-grande ou garça-branca-pequena. Era uma
democracia de opiniões.
Caíam
folhas verdes, caíram folhas secas, pois na verdade eram borboletas, e
borboletas-folhas ou borboletas-folhas-secas. Caíam de qualquer árvore, de
quaisquer alturas, pitangueira, chapada, pirapeuaua, goiabeira-do-mato,
gaviroveira... e antes de atingir o solo viravam borboletas coisas aladas.
Nadando no ar, pedalando no ar, batendo asas no ar. E ganhavam espaço e luz.
Era a época e o país das borboletas. Penso que sim.
-
Quando Mani completaria um ano de vida aconteceu uma muito grande reviravolta.
No dia do primeiro aniversário de Mani, Mani morreu. Morreu misteriosamente. Todo
mundo foi pego de surpresa. Morreu sem que tivesse nenhuma doença, sem
ferimento, sem dor, sem gemer, sem dizer aiaiai!, sem febre, sem dor de dente,
sem suicídio, sem assassinato, sem contrair nenhum vírus, sem chamar a mãe, sem
chamar a avó índia. Morreu misteriosamente. E seu espírito me parece que sumiu
antes do corpo, é.
Lilás
apreciava pedaço de torta com suco de caju. Vovó molhou a bolacha no café com
leite, levou à boca, cara muito satisfeita. O olhar da vovó, às vezes, ia até o
horizonte e parava e se esquecia, se demorava um instantezinho, depois voltava,
voltava lentamente. Que coisa feliz embaixatriz era tomar suco de abacaxi com bolachinhas
de chocolate, meu!
-
E Mani foi enterrado perto da oca de Janaína. E todo dia ela ia olhar o
canteiro do filho. E todo dia ela ia olhar e chorava, chorava muito. Todo dia,
então, ela regava com lágrimas o jardim onde estava enterrado o filho, emotiva.
E Janaína nem podia fazer outra coisa além de chorar muito olhar muito molhar
muito. Acontecem os dramas no mundo, se sabe se precipitam.
Pareciam
números, pareciam borboletas bordadas, eram borboletas com números nas asas, números
bordados, borboletas-oitenta. Dia de borboletas. Hora de borboletas. Invasão de
borboletas. Pátio da vovó tomado de borboletas. Nação das borboletas. Umas
parecendo borboletas de inspiração, feitas de imaginação, ou feitas de visões.
Borboletas de cores mágicas, brilho metálico, som nenhum, bater de asas e
nenhum ruído. Borboletas para dar o exemplo de milagres. Borboletas como ideias
aéreas espaciais. Muito flutuantes.
-
Meses e tanto depois nasce, ali do canteiro do jardim onde o menino branco fora
enterrado, uma plantinha verde ou até meio avermelhada mais para verde. Outro
susto, outro preconceito. Janaína olhou aquilo, estranhou, pensou, falou
consigo: “Achou melhor mostrar para todo o mundo da tribo mongoió”. E todos
respiraram fundo. E todos disseram para ela cuidar, regar, esperar, torcer, etc.
Depois de uns poucos meses a plantinha já tinha três metros de altura,
verdinha, flores amarelinhas e miudinhas. Umas semanas mais e, uma tarde de
muito sol, Janaína foi ver e a plantinha parecia pedir água água. Janaína deu mais
água doce. E a plantinha pedia mais e mais água doce água doce. “Que que
acontece?”, se assustou pensando alto a Janaína.
Vovó
mastigava uma bolachinha água e sal muito crocante, um gole de café com leite,
satisfeita, bolacha crocante. Umas abelhas vinham buscar açúcar no bolo de
chocolate, ou na torta de amendoim, na torta de chocolate com recheios de
amendoim. Umas borboletas de prata, outras de ouro, mais outras ainda de ouro e
prata, vinham cheirar o açúcar das bolachinhas de chocolate recheadas com doce
de moranga. E a menina Lilás gorjeou:
-
Que que acontecia com a plantinha, vovó? Que tipo!
-
Acho que a plantinha pedia para ser arrancada. A plantinha parecia sufocada. A
plantinha se sentia já adulta, no ponto e queria outra vida. A plantinha queria
virar outra coisa. Queria saltar fora da terra roxa. Virar opção de alimento,
por exemplo. Manjar dos deuses. Manjar dos guerreiros. Manjar dos índios e
índias baenã. Manjar do mundo inteiro.
- E como foi
isso? Alguém acreditou nisso? Alguém já sabia? Como é?
- Foi que
Janaína decidiu, num golpe de sorte, arrancar a plantinha libertar as raízes da
plantinha. E olhando com calma descobriu que a planta tinha raízes muito
poderosas, raízes ótimas, raízes tuberosas, raízes inchadas, raízes boas de
comer e fazer comidas. Foi bom porque havia uma grande carestia de alimentos e
vitaminas. Foi bom porque o cardápio também variou e incrementou. Janaína deu o
nome de Mani-Oca. Mani, seu filho, enterrado perto da oca.
- Mandioca!
Mas isso é um milagre, meu!
- E mandioca
virou comida de todas as gentes, de todas as tribos. Mandioca-doce,
mandioca-brava, aipim, macaxeira. Mandiocal, aipinzal, macaxeiral. Caxiri ou cauim,
as bebidas que vêm da mandioca. A farinha de mandioca para fazer tapioca e beiju
e outras comidas.
-
Vovó, como pôde Mani renascer na forma de mandioca?! Isso pode mesmo? Nunca vi.
Faça o favor!
-
São acontecimentos muito misteriosos e perfeitos. É preciso muita calma para
querer explicar, ou até querer entender. Assim. Os anjos lá pelo céu, entre
nuvens, perto do céu, esses anjos ou anjas, recolhem a alma dos que morrem.
Depois outros anjos ou anjas vão até o depósito dessas almas e as trazem de
volta. Nessa ida e vinda, as almas de gente viram almas de plantas, de
arbustos, de ervas, de árvores, de borboletas, de peixes, de aves, de insetos, de
lagartixas, de jabutis e até de sacis. Tudo vai e volta. A alma se separa mas
logo volta em outro lugar. Nem tem como desaparecer. Tudo vem e vai e vem. Os
pajés donos dos sonhos entendem que o corpo é finito mas a alma infinita. Vai
saber!
Vovó
bebericava com calma, muita paciência, seu café com leite. Molhava bolachinha
no café com leite. Olhava a netinha. Olhava o dia. Olhava o quintal onde
despertavam borboletas, borboletas-espelho. Olhava uma palmeira mucuri subindo direta
para o azul do céu. E o sanhaço por ali, acompanhado da esposa, acompanhado dos
filhotes, família.
Bem
meio-dia. Doze horas e nem mais ou menos. O sol amarelo e superquente. Os
passarinhos quase de bico calado. Tinha avião que passava lá por cima e voavam
desde Viçosa para Uruguaiana, desde Joaçaba até o bairro Bom Abrigo em Floripa.
A igreja de NS da Lampadosa cantava em coro.
77
O
clima parecia firme e paciente e verde; nem quente, nem frio, nem lá. Sol
pintado de amarelo desde o crescente fértil. Sol todo metido a muito bom e,
bam-bam-bam!... O sol subindo sem reparar por nada deste mundo. Dia calmo e
proveitoso e passageiro e solidário. A temperatura e o dia e o sol: distraídos
de nada ou tudo. E mais ou menos algo assim como o comum. E assim por diante
desde sempre. E você sabe e está acostumado.
Quem
sabe onde anda Lilás? Talvez acho que em museu Solar Monjardim ou praça
Heliodoro Balbi ou pana do Vale do Rio do Peixe...
O
tempo nem tem idade, nem tem cor, nem tem endereço, muito menos cérebro. Mas o
tempo tem uma idade total, uma cor de areia da praia, um endereço em todo lugar,
um cérebro de ideias ligeiras. O tempo é invisível, também. Mas o tempo é
visível. O tempo é de pedra, água, sol, sal, café e vento. O tempo nem passa. Mangue-do-pará
é tempo. Avenca-da-terra marca o tempo. Xem-xem é um tipo de tempo.
E passou duas
horas, dois dias, duas semanas, dois meses da última visita de Lilás a sua avó.
A floresta anda sempre de verde. A menina sentiu saudades. O tiziu à toa.
Lilás
estava no quarto lendo um livro contos capítulos parágrafos estrofes
estribilhos. Uma história de aventura enredo mirabolante. Ouviu ou leu alguém
falar da vovó. Sentiu saudades memoráveis e que nem passavam.
-
Quer saber?! Vou ver minha avó! E fui!!
Lilás
cruzou a porta, passou da porta, desceu alguns degraus da escada da área, saiu
de casa e entrou lá para fora na rua, a partir da praça Joaquim Manuel de
Macedo do bairro Itaboraí. Era o começo do mundo. Sempre gente que começa o
mundo assim: anda na rua Tomás Antônio Gonzaga e conjurado inconfidente.
Um
dia, uma tarde revoltada com o clima e a temperatura e a altitude e a umidade
relativa do ar. O redemoinho sem pernas, tonto, redondo, sem saber ele mesmo
para onde se atirar ou parar nem parar de acontecer saci-cererê. Que mundo
estranho nós moramos!
Lilás
atravessou a rua correndo. E correndo mais que a chuva caía.
-
Perfeitamente, senhor! Bom mesmo! Hiperbom!
A
menina entrou com o vento lá para dentro da casa da avó. Vovó estava na cozinha
preparando pudim de leite ca-ra-me-la-do. A casa com gosto de pudim, a cozinha
muito mais, dava água na boca. Pela janela envidraçada se via o dia muito
agitado com chuva e vento. Árvores tontas cabelos ao vento. Árvores
desequilibradas, mamona, sabugueiro, rabo-de-foguete, indaiás, guaçatungas,
abricós-de-macaco... Só faltava morar em Curitiba.
Chovia
no lugar. Chovia nessa parte aí do mundo. Chovia chuva que D deslocava. A chuva
e o vento casados e unidos. E o casal do tempo zombava, zoava, zumbia, zunia,
zonzoneava. Era crise dos elementos? Que nada, que esperança!
-
Olha a gameleira-de-pinga como dança que contradança balança! Olha a leiteira
como se sacode perdeu o chapéu a sombrinha! - dizia a menina para a avó,
olhando através do vidro transparente da vidraça.
Vovó
virou a forma do pudim no prato raso decorado com imagem de carreteiro antigo.
Saiu inteiro e bonito e perfumoso e quentinho. A nuvem de vapor doce. A menina
sentiu a boca pedir água. Avó pediu tréguas até uma hora para esfriar, se
possível. Depois vovó serviu a menina, e se serviu. Coberto com casquinha cor
caramelo muito doce. A colherinha aprofunda o doce, e chegou até a boca:
-
Hum!... Quer ouvir a lenda do guaraná?
-
Hum!... Que bom!
-
Hum!... Todo mundo conhece...
-
Hum!... Conta esse...
-
Hum!... Era uma feita...
-
Hum!... Supermaneiro...
A
senhora avó levava pacientemente a colherinha até a boca e hum!... Avó de
braceletes nos dois braços fazendo os barulhinhos, tilim!, tilim!... relógio
digital com mostrador exagerado no pulso esquerdo vestido novo cor verde
combinando com pequenos traços de amarelo e poucos traços de azul sorriso de
sempre entre uma colherada e outra olhos atrás de óculos de grau, etc.
A
menina terminou logo a porção. A menina desejou outra porção. Vovó serviu outra
porção à menina, e se serviu também com mais um bocadinho. Era um sacrifício.
Eram dos deuses acomodando. E tem gente que gosta muito de doces.
-
Guaraná da Amazônia. Uma planta que nasce lá na floresta Amazônica. E você já
ouviu falar, certo?! Convenhamos.
-
Hum!... Ouvi falar e recomendo, vovó.
-
Guaraná é energia, colabora e provoca a longevidade, cura a preguiça. O guaraná
faz refrigerantes, bolos, tortas, pudins, bolachas, biscoitos e outras coisas
legais. É um prazer dos sentidos. É um alimento popular. É reconhecido pelos
autóctones parintintim.
Chovia
ali fora da casa da senhora. Chovia aquela chuva sem nada, tímida, fina e
lenta. Mais vento que chuva. Um vento sem pé nem cabeça e descabelado. As
flores se trancavam em casa, os passarinhos se trancavam em casa, os insetos se
trancavam em casa, os besouros se trancavam em condomínios muito povoados
apertados. Uma chuva um vento que iam e que voltavam revolucionando. Eram umas talvez
quatorze horas, e pareciam já 20 horas.
-
A aldeia dos índios karapotó. Onde tem aldeia de índio, felizmente, tem um belo
rio passando, rio Passo Fundo, rio Retiro, rio Paraná... Ou até um lago
estacionado. Em toda aldeia tem um ou mais rios ou lagos ou lagoas ou
balneários ou estações hidrominerais. Os índios precisam nadar andar de canoa e
tomar banho todos os dias. E nessa aldeia karapotó tinha de tudo um pouco. De
tudo que índio gosta e aprecia e mais um pouco. Um lugar assim só podia nem
constar no mapa.
A
vovó olhou para a menina, sua neta, a Lilás, e até sorriu apreciativa. A menina
gostava mesmo de pudim de leite ca-ra-me-la-do. Coisa mais séria e importante
do mundo, no momento. Nem só no momento, mas no sentimento.
-
Uma índia teve um menino diferente, ou seja. O menino tinha uns olhos muito
grandes e negros, pretos como carvão. O menino chegou mesmo a assustar quando
nasceu abrindo os olhões esbugalhados saltados. O bebê curumim tinha ainda os
cabelinhos vermelhos, e por causa dos cabelos vermelhos o chamaram de... Guará.
Guará quer dizer vermelho, em tupi. O pai do curuminzinho de cabelo vermelho e
olhões pretos arregalados, disse: “Eu nem entendo esse curuminzinho. Ele nem se
parece nada comigo, uma vez. Ele nem se parece com nada de curumim nenhum. Ele
é do outro planeta. Ele nem vai ser feliz assim tão diferente do comum e da
maioria. E tem olhões de quelônio. E tem cabelo de fogo. Um índio! Onde que já
se viu?” Foi tudo e mais um pouco que o pai falou do seu recém-nascido filho,
curuminzinho Guará, diante da cunhã, e dos parentes da tribo, todo coletivo
contraparentes. O pai era o mais aborrecido com a aparência do indiozinho
Guarazinho. Era sem dúvida uma figura um tipo bem estranho.
No
meio da tarde já se pensava que era noite alta. Muito escuro ali fora da casa
da avó. Noite funda profunda. Noite distante do mundo longe. Noite com vento e
chuva e uivos uivar. E a chuva abria e fechava as asas fazendo barulho de vê
com vês. Chuva para plantar o alagado a enchente. Chuva sem um osso sequer.
Chuva e vento que batiam nas árvores, nas janelas das casas e nas janelas dos
prédios altos, vuuu-vuuu!... Sorte de quem nem precisava sair de casa nessa
hora nesse dia nesse contratempo.
-
Mas o que importa é a mãe, numa hora dessas. E a mãe cunhã índia abraçou com
carinho o curuminzinho tão esquisito. O pai os parentes nem disseram mais nada,
a mãe foi que adorou e quis muito. A mãe é que importa numa hora dessas. E a
mãe do indiozinho quis o indiozinho igual ao que tinha de ser. E a criancinha
ficou satisfeita com a mãe que a reteve. Ambos se abraçaram. A mãe índia cunhã achava
o máximo os olhos grandes e enormes e pretos do curuminzinho. A mãe achava
ótimo os cabelos de fogo do indiozinho. E a mãe exibia o indiozinho e mostrava
seus olhos e cabelos para toda a tribo e tribos amigas. E também para índias e
índios de outras tribos vizinhas, como os índios da tribo camacã, índios da
tribo gerém, índios da tribo sapuiá-quiriri, índios índias da tribo guaná. E
por cima dizia: “Vejam como meu curuminzinho Guarazinho tem olhos grandes e
pretos e modernos nem nunca vistos. Vejam como ele olha muito bem olhado e
talvez melhor que ninguém. Vejam como ele é diferente e bonito e exótico e
esperto. Vejam esses cabelos de fogueira acesa. Vejam e revejam muita coisa
nele”. E os parentes compadres comadres achavam aqueles olhos grandes um
exagero. E os parentes sicranos e sicranas nem achavam que o curuminzinho era
realmente real. E os parentes beltranos beltranas diziam pelas costas da mãe:
“O filhinho dela tem olhos maiores do que pode carregar. Tem olhos maiores que
a barriga. O indiozinho dela tem cabelos de cobre. O Guarazinho parece que
nasceu assustado. O Guarazinho parece que nasceu do fogo ou do sol”. E todos
falavam o que queriam. E todos tinham democracia pra falar à vontade.
Nem
dava para fazer nada lá fora e chovia muito, ventava muito, escurecera muito. Será
que ia cair um poste e faltar luz? Vovó preparou um chá para duas. Um café com
leite? Um chá de camomila? Um café com chocolate? Um chá de erva-doce? Um chá
de avenca? Um chá de cascas secas de caju? Um chocolate sabor café? Você
conhece? Era num dia de semana.
-
O pequeno curumi tinha realmente os olhos muito grandes e enormes. Os cabelos
pegando fogo fogo. O pai índio dizia: “Meu curumi tem olhos de quelônio. Por
quê?” Foi por aí que a mãe índia resolveu se aconselhar com a mãe-d’água, a
extraordinária índia Iara. Todo mundo sabe que os índios do B todos acreditam
em dona Iara. Essa dona vive no fundo dos lagos e rios e tem a forma de peixe e
usa no pescoço um talismã chamado muiraquitã com cara de sapo. Essa dona pode
até viver na forma de abelha tapiçuá e quando quiser. E pode aparecer na forma
de libélula, borboleta e besoura e joaninha. Dona Iara é uma senhora mágica,
uma deusa de rios e lagos e lagoas. Dona Iara é filha da lua Jacy com o sol
Cuaracy. E essa dona falou com a mãe índia do culumim dos olhos grandes e
cabelos vermelhos, e falou e disse aconselhando: “Seu filho tem olhos grandes
porque nem vai ficar por aqui muito tempo. Seu filho tem cabelos vermelhos
porque nem terá muito tempo e paciência para ficar andando por aí. E essas são
as verdades novidades certezas. Então, se prepare para entregá-lo para outra
sorte ou outra natureza ou outro mundo ou outro motivo.”
-
E o culumi ia morrer de repente, vovó? Morreu de súbito? Se transformou?
-
A mãe índia do columim chorou e nem acreditou na dona Iara. O amor de mãe pelo
filho fez a mãe índia nem acreditar, pela primeira vez, na deusa Iara. Mas o
pai do colomim acreditou e ficou pensativo. Os parentes do colomi acreditaram.
O pajé da tribo e o cacique da tribo acreditaram. A curuminzada da tribo afirmou
e nem entendeu direito. A mãe do curumim nem queria acreditar, nem acreditou
numa só palavra e se desmanchou em receios, lágrimas, gemidos e pedidos. E ela
nem lembrava de mais nada.
Ali
fora lá fora na chuva as árvores balançavam e se sacudiam dentro da força do
vento, vento e chuva. Vento e chuva num só tempo. Será que àquela hora tinha
gente andando na chuva na rua na avenida Raul Pompeia? Será que alguém andava
na praça Bernardo Guimarães molhada e alagada? Será que as pessoas já estavam
encharcadas ensopadas? A cidade se encharcava durante tanta água. O vento
zumbia e zunia e zunzunia como mil enxames de abelhas gigantes. Às vezes o
pátio do colégio 11 de Agosto ficava alagado depois de tanta água precipitada. Árvore
nhandipá dançava com o vento, árvore leitariga se sacudia na chuva, árvore
pequiá se torcia na ventania. Será que a rua Epitácio Pessoa tava alagada
também? A chuva queria encher tudo que podia ou via pela frente, o vento queria
carregar guarda-chuvas e lonas e toldos e telhados e folhas e galhos secos. Será
que o bairro Guaratiba estava boiando? A casa da vovó estalava, assobiava,
grilava, resmungava.
-
Pois a mãe adorava o indiozinho filhinho de olhos enormes e cabelos de milho. O
pai índio via que o filhinho dele parecia muito olhudo. E o curuminzinho tinha
de verdade olhos grandes demais. Olhos realistas. Olhos mais espertos e abertos
que os dos outros curuminzinhos. Olhos de ver longe e o futuro e as estrelas e
os planetas. E cabelos em ondas de fogo, rio de fogo, rio de em chamas. Você lembra?
-
Esse novo curuminzinho Guará tinha desassossego nos olhos grandes? Tinha desassossego
nos cabelos pegando fogo? Hein, vovó?
-
Pois os olhos grandes e bem abertos do curuminzinho, seu cabelo inédito de
fogo, faziam esquecer que ele era muito inocente nessa história toda. Na sua
inocência, Guarazinho continuava engatinhando e tranquilo na era da tribo
sateré-maué. Guarazinho só queria conhecer um pouco de tudo mas os outros o
olhavam com diferenças preconceituosas. Os olhões prontos para olhar tudo e
mais um pouco, os cabelos em chamas jogados sobre as orelhas e os ombros. O
curumim era a revolução dos tipos na tribo caiapó-cubem-cram-quem. E digo mais!
Vovó
gostava de saborear balas de café com recheio de chocolate ou amendoim. A
menina gostava principalmente de balas de goma, uma de cada cor, todas as cores.
A vovó ofereceu para a menina umas balas de goma, uma de cada cor, cores todas
as frutas do hemisfério sul. E em seguida, cada qual, escolheu um seu sabor
predileto de picolé e cada cor um sabor. Vovó apreciava picolé sabor de abacaxi.
A menina apreciava picolé sabor pitanga. A menina olhou o picolé pitanga com
olhos encantados, com água na boca, boca aberta. A vovó olhou o picolé abacaxi
com olhos adocicados, com água nos olhos, com água na boca.
No
céu escuro, da tarde, talvez da noite, pelo mundo, muitos relâmpagos seguidos
de trovões fortes de tremer a casa da vovó. Raios e raios riscando o teto do
céu escuro. Barulhos rolando do alto se sabe lá de onde e para onde. Noite
cheia de tempestade e elétrica. A tempestade parecendo uma ou muitas felinas
onças-vermelhas bufando molhadas na chuva. Chuva e seu irmão vento antecipando
a chegada da noite. E esses dois irmãos até conversavam, assobiavam, derrubavam
placas de propaganda, entortavam árvores, plantas, arbustos, utensílios, rolavam
pedaços desgarrados de qualquer coisa ali na rua Dalton Trevisan. Você ouviu,
você se lembra?
-
E o curuminzinho dos olhos do tamanho do mundo só era mesmo muito muito respeitado
e amado e beijado e abraçado pela sua mãe índia: total. E o curuminzinho dos
cabelos de fogaréu tinha um amiguinho de nome Macunaíma, e uma amiguinha de
nome Janaína. Eram três sementinhas de índios passando o dia inteiro e juntos. Macunaíma
nem tinha olhos do tamanho do mundo. Janaína nem tinha olhos do tamanho do
nosso planeta. Macunaíma tinha cabelos pretos. Janaína tinha cabelos pretos e
mais longos compridos. Guará tinha um sagui de estimação chamado Bilontra.
Janaína tinha uma sagui de estimação chamada Pilantra. Macunaíma tinha um sagui
de estimação chamado Pelintra.
A
chuva que vinha do centro do mundo era sempre boa. Então, viesse que venha! A
chuva caía e o rio corria mais giz. Então, que chova água pura! Chovia tudo que
podia, e o rio Ipiranga corria ainda mais veloz. Vovó gostava de dormir com
chuva chovendo, com chuva caindo, com chuva chiando, com chuva e vento
balançando as árvores moderadamente.
E ali por fora
as árvores entortando, dançando, e se contorcendo, aplaudindo. Quem sabe até um
cavalo zaino galopando na chuva. Um outro cavalo, um cavalo salino, galopando
debaixo do aguaceiro. Um terceiro cavalo, um cavalo lubuno, galopando sem
querer no meio da tromba d’água. Crinas ao vento e com os ventos, sete ventos, sete
guerras do pampa, sete redemoinhos. Na tempestade os cavalos e éguas correm
para todos os lados. Muito tudo muito cavalar e trotar e galopar e esquipar.
Vamos adivinhar.
As
árvores do quintal da vovó olhavam muito para a chuva. E entortavam, e
assobiavam, e aplaudiam, e pensavam muitas coisas. A árvore lechetrez, perdendo
as flores verdes, olhava muito para a chuva. As árvores do quintal da avó,
ingazeira e imbaubeira e juazeiro, dançavam ao vento molhado enlouquecido. Você
entende? Você confere?
-
Pois, minha queridinha Lilás, o indiozinho curumim Guará dos olhos deste
tamanho, dos cabelos lindos de colorado, acabou morrendo final e finalmente.
Morreu como dona Iara previu. E mãe índia chorou ainda mais, mais ainda, muito
muito mais. Chorou toda a chuva de um dia chuvoso como este aqui. Embora verão.
-
Morreu por causa de quê? Por causa dos olhões? Causa dos cabelos vermelhos
pegando fogo? Eu nem conheço tudo isso.
-
Dormiu misteriosamente sem que ninguém soubesse sem que ninguém entendesse o
porquê. E a mãe chorou por demais dois dias ou mais. E o pai nem disse nada. E
os parentes nem disseram nada. E os amiguinhos Macunaíma e Janaína eram muito
inocentes e bebezinhos para dizer alguma coisa, e nem disseram nada. E ninguém
sabia o que dizer, na realidade. Mas a mãe índia chorava que nem dona Iara
sabia consolar.
-
Será que o indiozinho Guará foi parar nas nuvens?
-
Porém o caso foi assim: o Guarazinho nem conseguia reagir sequer aos chás de
folhas e cascas que o pajé preparara. Guarazinho foi desanimando. E arrepiou, tossiu,
esbugalhou um olhão mais ainda, abriu outro olhão por demais. Fazer o quê?
-
O curuminzinho desapareceu com alguns meses, é, vovó?
-
Dormiu com poucos meses. Acho que foi com três ou quatro meses. E sumiu mesmo
de olhos abertos, olhos olhando para o mundo, olhões pegando todo o ambiente da
oca da taba da tribo do lugar, etc. Quando menos se espera.
Lilás
escutava a narrativa. Olhava os olhos da vovó. Passava a mão pelos seus
próprios cabelos enlaçados. Lá fora o tempo e o clima falavam qualquer coisa na
língua deles. Chuva e vento e vento e chuva. Caminhava a história, a avó
continuou. E a avó sempre continuou com a história pelo caminho principal
avenida Presidente Vargas embandeirada de árvores sapucaias em fila indiana:
-
Ninguém foi lá e teve coragem para fechar bem cerrados os olhos do
ex-curuminzinho. E a mãe índia nem se importou. Nem fecharam os olhos dele? E o
indiozinho se desprendeu e foi enterrado com os olhos bem abertos e enormes e
negros. Parecendo um quelônio. E o curuminzinho ainda parecia ver e olhar com
muita propriedade. E olhava mesmo. Talvez nem enxergasse, mas olhava muito bem.
E seus cabelos vermelhos - vermelho tinto -, bem penteados, afofados nos ombros.
A
casa da vovó balançava, como assim também as árvores ali fora ao vento e sob a
chuva. Uma chuva que D planejara. Uma chuva fria, que vinha do sul, que chegava
do polo sul a Antártica, que aterrissava pelo pátio da avó. Chovia na ilha de
Tinharé? Por certo chovia ainda pela cidade toda, nas montanhas e matas, no
oceano que ficava quinhentos e cinquenta quilômetros de distância. Uma chuva
sem fim e interminável. E até mesmo uma chuva séria e justa. E nem chovia
parado, nem. Chovia com o mundo todo andando, talvez. E por que chovia tanto?
Onde a chuva ia parar? As couves-da-água festejavam aquáticas.
-
Pois o curuminzinho dos olhos atônitos, o indiozinho dos cabelos de sanguanel, foi
semeado num lugar escolhido pela mãe. E essa mãe índia regou o canteiro do
bebezinho com todas as lágrimas do mundo interior dela.
-
E o marido dela e os parentes dela e a tribo iaualapiti toda?
-
A mãe índia do Guarazinho reagiu assim. Sentiu tanto porque precisava muito
muito se despedir desde dentro. Foi essa emoção. E era o que podia fazer. E era
tudo que podia dizer. E assim disse. Foi comoção comoção.
A
menina repetiu outro picolé. Um de sabor caju-pequi. E lá fora o vento com a
chuva se divertiam assustando as árvores. Assustando principalmente as árvores.
Assustando a árvore açacuí. Também o guabijuzeiro, a árvore bacupariaçu, a
macambira, a jipoúba, o grande refolhudo umbu. A maria-mole pensava que ia cair
e virar sucata. Quem vê reconhece.
Vovó
riu, netinha riu outro tanto, depois a senhora foi dizendo com paciência
treinada de muitos e muitos anos de carnaval de cordões de desfiles em escolas
de samba:
-
E a mãe índia se reteve muito sobre o canteiro do seu ex-filhinho dos olhos
grandes e cabelos vermelhos. E chorou dias e dias sem parar. Isso era
importante. Nem parava de chover e de regar a terra roxa do ex-curuminzinho
Guará. Os dias se sucederam. A chuva o sereno era sem parar, dia por dia. E
tanto esperou e tanto regou que... no lugar do canteiro do curuminzinho nasceu
qualquer coisa com cara de planta. E essa coisinha de plantinha foi crescendo e
crescendo se desenvolvendo. Aflorando da terra. A mãe do ex-curuminzinho até
parou de chover na esperança que aquela árvore fosse a sombra ou o espírito do
seu filhinho sumido. Apareceu brotou crescendo escalando em busca do sol.
-
Era mesmo o Guarazinho de volta do céu? Assumindo a condição de planta?
-
E era mesmo a plantinha do guaraná, ou Guarazinho. E a plantinha bem parecida
com o ex-indiozinho: os olhos muito negros e grandes. Os cabelos revoltados e
bem vermelhos da cor do guará. O guaraná dos olhos grandes e negros. O guaraná
quase todo vermelho. Uma maravilha vegetal. Maravilha!
A
senhora se levantou da cadeira de balanço e com a calma da altura da idade
avançada. A chuva ia continuar ali fora. Por mais duas horas. Por mais muito
tempo. Por mais dois dias. E vovó foi até o quarto buscar um álbum de
fotografias. A menina esperou a avó retornar para a sala. E vovó trouxe um jogo
de adivinhar o par. E trouxe também musse de chocolate com bolacha maria e
sagu.
A chuva nem ia
parar tão cedo, uma vez. Chuva por onde passava essa hora, Guapé, Pirapora,
Capitólio, Paial, Vista Alegre do Prata... A curiosidade ensina o que se quer
saber. As árvores do pátio da casa da avó, axuás, rabo-de-tatu, rabugens,
cipó-de-coração, nhamburis... lutavam e se contorciam e vibravam para se manter
em pé. Indo e vindo. Chuva e vento namoravam varrendo o planeta de oeste para
leste.
77
Então,
o sol apareceu, olhou o mundo, olhou bem e descortinou o dia, e começou a subir
uma rampa pela montanha invisível do céu. O meio-dia puxou a sombra para
debaixo dos pés, e passou bem aqui, ali. O leste foi para o oeste. E queira ou
nem queira. Foi maio ou março que foi à Bahia.
Que
onda anda onde.
Lilás
pensou se divertir e visitar Janaína lá no litoral do oceano Atlântico de
Roraima. Pensou se divertir e convidar a Rê, a Esmeralda, a Pérola. Pensou e
telefonou:
-
Você quer, Rê?
-
Posso e vou. Até nem poderia porque estou lendo um livro pela metade... Então,
nós vamos. Ainda hoje, se for possível. Quando quiser.
A
turma saiu num barco, catamarã, veleiro, paquete navio mercante a vapor, iate, a
partir da ilha fluvial do Pavão. Ali na mesma ilha do Pavão, perto da ilha da
Pólvora, as meninas apreciaram um delicioso e cremoso doce de abacaxi com pouco
açúcar. Um joão-de-barro riu às gargalhadas. Outra que, maria-de-barro, imitou
o companheiro, às gargalhadas. Tinham uma casa de barro no alto de um poste de
tensão à beira-rio. O casal ria alto, gargalhava e aplaudia com as asas. Era
domingo. Um bem-te-vi imperou, marcou hora, marcou dia, também marcou
território:
-
Bem-te-viiiii!...
Lilás
perguntou, enquanto o sol continuava sua própria estrada:
-
Como é que é?!
Depois
a ilha de Santa Catarina, praia Brava, praia de Canasvieiras, praia da Armação
e monumento aos surfistas com epigrama. Guarda-sol com gomos de duas cores
bonitas e tradicionais vermelho e branco. A lua distante trezentos mil quilômetros.
Praias com ventos fortes e temperados. Ninguém queria ser apanhado naquele sol
quente. Pipilar das aves trinta-réis-de-bico-vermelho, gaivotas,
andorinhas-do-mar, atobás-pardos... As flores, dos morros em torno à praia,
perdiam o perfume no correr do dia. E perdiam o perfume para o vento do mar e a
luz do sol. Palmeiras airis ou guacuris galhardamente. Lilás se mostrava por
fora feliz e alegre e comunicativa, e Lilás se sentia por dentro contente e satisfeita
e esfuziante: em triplaço.
Lilás
ouviu um marujo cantando. O marinheiro cantava as viagens intermináveis:
“Quando
o barco flutua,
Também navega a nuvem,
Ainda voa a fantasia.”
A
menina Lilás, as amigas, perguntaram ao navegador do Atlântico:
-
Quem é a Fantasia?
O
marujo voltou os olhos para as garotas e desconversou, falando:
-
Be-e-em. Grilos nem faltam. Grilos nem cantam. Grilos nem saltam. Grilos nem
voam. E grilos são grilos. Grilos que se parecem com grilos. Amanhã é
quinta-feira.
Mais
um pouco, ilha do Mel, água de coco no quiosque. Picolés de dois sabores no
quiosque na quitanda. Taocas, aquelas formigas comedeiras de planta, formigas
vermelhas, formigas grandes, formigas que dão sorte. Abelhas irapuás, abelhas
mandaçaias, abelhas mirins, abelhas jataís ou sete-portas, abelhas tataíras.
Tambor napi dos índios xokleng. As formigas, as abelhas estavam aí ali acolá,
distraídas, trabalhando, sem tempo para nada, preocupadas, laborando,
planejando a rua Fernando Machado de em Floripa, indo e voltando. O encantado
azul-azulzinho de um passarinho, ou passarinha, pousado no galho qualquer da
paineira ou juazeiro, e ainda irrequieto, elétrico, agitado.
-
Nem conto nem reconto.
Na
altura de São Paulo, a bela ilha Bela, ilha de São Vicente. Ninguém estava
preparado para tantas ilhas e ilhas e arquipélago e praia de Itaguaré. As
quatro meninas nem estavam entendendo tantas ilhas e ilhas sortidas.
Sabiá-laranja estava tão satisfeito na tarde que cantava rindo, rindo muito,
ria alto, ria provocando e nem parava de rir de trinta em trinta segundos.
Sabiá-laranja gargalhava amarelo, longo, longuíssimo, de provocar cócegas, ria
espatifado, cascateando, engraçado, de provocar graça, até nem acabar mais. Ora,
essa! Ouça essa!
Quem
onda anda onde.
Uma
tarde no litoral de Búzios, tantas ilhas, pequenas ilhas, tantas ilhotas,
tantas ilhazinhas, tantas ilhinhas, ilhéus, ilhetas, tantos buzos ou búzios
atirados ali no litoral do Rio de Janeiro. As meninas sentiram vontade de voar.
Flores em bando pelos morros e encostas, cravos-do-campo, mosquitinhos ou
chuvisquinhos... Uma vaca comendo língua-de-vaca. Um passarinho, o pintassilgo,
era uma boa ideia...
Lilás
perguntou para as gurias enquanto o sol procurava tomar água de coco:
-
Se a gente fosse passarinho, se eu fosse passarinho eu seria abre-asas-da-capoeira
e ficaria satisfeita. E vocês, o que seriam? Confere.
-
Eu acho que seria tucana, colorida, carnavalesca, caprichosa, garantida,
nacional - declarou a Esmeralda.
-
Já eu poderia ser beija-flor. Eu também adoro flores. Gosto de mel do perfume
das flores. É isso aí - respondeu a Rê.
-
Pois por mim eu seria mesmo uma canarinho-da-terra. Toda carijó, me importo. E
voaria que era uma maravilha. Eu adoro o sol as cores a paisagem o panorama. As
flores amarelas chamativas. O dia amarelo ou ouro maciço. E dezembro e janeiro
e fevereiro.
A
viagem no barco continuava e subia o litoral do país, cidade de Palhoça, cidade
de Paulo Lopes, de Osório, de Ilicínea... Mais na subida do país, a ilha de
Vitória. Chegaram na tarde tranquila, o sol no pôr do sol, Vassouras, Mendes...
Aos poucos o sol já ia se pondo, se perdendo numa cor tipo ouro-forte, e os
morros e mar e cidade também iam bebendo aquela cor de solouro. Aves pipiando,
as guaracavuçus, as curutiés, as maria-leques, os mineirinhos... Manadas de antas
e capivaras passando um alagado e interessantes, ruminantes, herbívoras, imensas,
pessoas quase todas mugindo ou berrando, mais gordas que cabeçudas, lentas, olhando
de vez em quando o barulho do rio chegando no mar e etc, cheirando o céu,
prevendo chuva.
Ilha
de Itaparica, água de coco, suco de caju, doce de abóbora, mel com amoras lilases,
galo cocoricando. Pato-de-crista, quem-quem!... Curucaca, cucuricando!... Jacu,
quá-quá-quá!... Coqueiro é palmeira, palmeira quase sempre é coqueiro. Pai
bem-te-vi e mãe bem-te-vi ensinando filhotinho bem-te-vi a cantar:
- Bem-te-viiiii!...
Mais
para cima, no nosso mapa, a ilha de Fernando de Noronha. As quatro meninas sentaram
nas pedras da praia, conversaram alto e riram alto. Baía dos Golfinhos. Estava
um dia tão bonito e o mar inclusive roncando. E o céu infinito se movendo
pequeno num voo de gaivota, raios do sol, atobás. Gaivota sozinha no espaço. E
o vento passando ou passeando folgado e quente. Na água nem se viam os
golfinhos, peixes niquins, tartarugas, barcos, tartarugas marinhas. No céu nem
caminhava uma nuvem. Muito sol de fogueira acesa. As pessoas estavam no
domingo. Maresia. Mormaço. Mordomia. Marmita. Maré baixa, maré alta. As gentes
nadavam no domingo.
-
Aquele barco se parece com uma Baependi.
-
O certo é que de manhã é mais gostoso.
-
Mas vocês vão acreditar, eu juro.
-
Na verdade parecido com uma nuvem de morro do Catrambi.
Eram
uns sorrisos risos largos, quem sabe de horas 2 horas 3 dias pelo menos. Os
primeiros dias quinzena do mês no verão. De fato era o movimento das águas
embora os rochedos mais famosos.
A
famosa ilha de São Luís, no Maranhão. Bolo de chocolate em partes. Nem
confundir jogral com painel. Olhos divertidos, Lilás perguntou, foi e disse:
-
O quinto dia da semana a partir do domingo entre quarta-feira e sexta-feira,
então.
A
curiosidade das quatro meninas por pouco, ou quase nada, as derrubava. E
parecia que a resposta, as respostas, a pergunta, nem tinham entendido as perguntas.
Ninguém sabia, ou nenhuma delas queria responder.
-
Eu tenho uma lista de lugar pra ir.
Um
dia estava como elástico, o dia estava como de desenho escolar, o dia estava
como ouvindo o cantar do coleirinha, cidade de Tanguá, lugar dos índios
aticum-umã.
Que
onda anda onde.
A
grande ilha mãe de Marajó. Abraçada pelo mar e pelo rio Amazonas e rio Pará.
Gavião itapema, maçarico-de-bico-branco, anhuma que encanta e estridula e grita
e pia.
Esmeralda
perguntou para Lilás e vamos dizer:
-
Aonde vamos até?
-
Até o rio Araguari.
As
amigas até riram juntas e responderam juntas:
-
A gente já sabia!
De
Marajó até o rio Araguari, ali no Amapá. Ariranhas, ali do barranco do rio,
olhavam com olhos cheios de água. Nas pedras, entre o rio que chegava até o mar
e o mar que batia na pororoca do rio, ali nas pedras, as quatro amigas
encontraram a amiga Janaína. Esta estava sentada numa pedra olhando no espelho,
penteando o cabelo muito longo e liso e preto. Parecia nem esperar por nada.
Dava entender que nem esperava tão cedo visitas.
A
menina Lilás chegaram as amigas e surpreendendo Janaína se penteando acomodada
sobre a pedra:
-
Janaína! Chegamos e estamos aqui! Nem tô cantando, hein?!
Janaína
sorriu com sorriso meio cunhã e meio peixe. Nem podia caminhar, mas nadava
muito bem. E Janaína, pela primeira vez Lilás notava isso, Janaína tinha já uns
olhos verdes esverdeados. Antes, no início, eram negros. Já tinham sido castanhos.
Agora, casada com o mar bastante tempo, já ficaram verdes. Além dos olhos
verdes, de se pentear com calma os longos cabelos negros, Janaína também sorria,
batia sem querer a cauda nas pedras. Um sorriso dividido por cunhã e peixe.
Janaína até fez um pedido:
-
Olha, meninas cunhantãs. Eu gostaria muito um celular compontobr. Por enquanto.
Perto
do anoitecer, o dourar das nuvens, e começou o mar a enviar onda para buscar por
Janaína. Se ouviu um ronco do mar mais forte, ondas mais altas, ondas ainda
mais altas. Um bramido do mar pedindo por Janaína. E, então, Janaína trocou
mais umas palavras e disse que já estava querendo ir embora para sua casa, lá
no fundo do mar ou entre o mar e o grande rio. E se preparou para ir embora e
mergulhar.
Janaína
se preparou para ir embora e imergir. Deu uma assobiada, assim, tipo quem chama
por algo ou alguém ou pede companhia:
-
Fiiiiiiuuuuuu!...
Imediatamente
chegou um cavalo zaino, se sabe lá de onde, e chegou perto da Janaína, pareciam
amigos, ela pulou no seu lombo, montou no cavalo em pelo, disse tchau para as
gurias todas, e pulou no mar de água doce, pularam ela e cavalo-marinho para
dentro do mundo aquático. O mergulho foi assim: bululu!... Fizeram as bolhas
borbulhantes na água azul ou verde da foz do Amazonas.
E
Janaína mergulhou dizendo que voltaria logo, ia buscar um talismã para cada
menina. E Janaína demorou, demorou horas e horas. E Janaína nem voltou nem deu
mais as caras. Talvez Janaína nem buscava os presentes as pedrinhas bonitas no
fundo do rio.
O
tempo tem a caravela o comboio de naus.
As
quatro amigas esperaram Janaína até a manhã clarear o dia. Aí pelas dez e dez,
então, e já achando que Janaína nem voltaria tão cedo, pegaram e decidiram elas
mesmas ir embora e voltar para casa. As quatro amigas ficaram se olhando,
assim, meio indecisas, arriscando palpites, ensaiando planos e opiniões e
viagens. Turismo de negócios:
-
Vamos simboralá, gente?! - falou Pérola.
Nesse
momento da história ouviram um... um berro bem forte e simples:
-
Grrrrraaaaauuuuu!... - um urro bem forte ali do meio da capoeira.
Arrepiadas,
as gurias se perguntaram surpreendidas:
-
É onça-pintada?
-
É canguçu?
-
É maracajá?
-
É jaguaretê?
Todas
elas quatro já sabiam muito de tevê e filmes que onças gostam de beber água. Certa
hora do dia a onça-pintada prefere beber água doce. E nem se deve ficar no
caminho de uma onça que quer beber água e está com sede. Onça-pintada anda,
corre, escala, nada, salta... e é uma felina completa e elástica. As quatro
gurias já sabiam disso muito bem, então... voltaram para casa direitinho. Deixaram
a onça beber água em paz. Assim foi que fizeram e bem deve ser feito.
Quem
onda anda onde.
77
O
mês de fevereiro indo estava vindo lindo, aquele ano, e Lilás acordou, tomou
café sem açúcar, foi correr de bíci na pracinha Tapicuri já em frente de casa,
voltou, tomou banho cantando, almoçou três tipos de saladas sem sal, e de
sobremesa musse de chocolate com bolacha maria e sagu tudo feito em casa doce
caseiro. Tá bom?!
Lilás
adorava sábados e domingos e feriados e aniversários. Como estava de férias
escolares adorava qualquer dia, adorou todos os dias, estava adorando.
-
Deixe comigo, em!
Escolheu
um livro para ler: “A Inspetora e a Mula Sem Cabeça”, do Santos de Oliveira.
Leu o livro duas horas seguidas, empolgante. Nem podia parar de ler. A mula sem
cabeça era um mistério impressionante e de arrepiar. Terminou o livro, recordou
as aventuras da turma da Inspetora, se espreguiçou, foi olhar a paisagem da
janela. Olhou a paisagem. Queria, então, sair de bicicleta. O dia dava tempo
para outras coisas. Emboralá!
-
Espero virar lenda dentro de 100 anos 101 anos, é. Cem é um número exato, é.
A
menina pegou a rua Mestre Valentim a estrada rumo Friburgo e se preparou para
atravessar o país até porém até Roraima. Ia visitar os amigos da tribo gavião.
Os ventos estavam calmos, ventos do sul, ventos de baixo, às vezes ventos de
cima. Passou uma ponte, dois pontilhões, três riozinhos, cidades pequenas e
médias e grandes, Vista Gaúcha, Teixeiras, Raposos, continuando... e mais Derrubadas,
cascata do Maringá, sempre em frente, avante, avançando... cascata do Pirata em
São Joaquim. Tá bom?!
Passou
por muitas estações ecológicas, passou pela Taim, pela Mico-Leão-Preto, pela
Serra das Araras, pela Maracá, e passou pelos parques nacionais dos Aparados da
Serra, pelo serra do Cipó, pelo serra da Capivara, pelo Araguaia (dos índios
javaés), passou pelas reservas biológicas da Sooretama, pela serra Negra, pela lago
Piratuba, pela monte Roraima... epa!
-
Treeeeeeeu! Treeeeeeeu!...
A
menina ficou alerta, declarou:
-
Que que é isso, meu!
E Lilás, que
viajava o país animadamente, até se interessou muito por esse sonido ruidoso. Todos
ao redor do mundo se espantaram com o assovio. Que som foi este? Que guincho
foi aqui? Assustou ligou alertou todo o mundo. A menina se virou e procurou em
volta ver o que tinha sido aquele alto... treeeeeeu!... Procurou o dono do
berro. E o encontrou lá no alto do morrinho gramado positivo. Muito sim senhor
e mãos nas costas.
-
Olha! É uma pernalonga-comum!...
E
a menina ia passando, gostando de tudo, gostando das árvores catiguás,
candeias, sarandis, tatajubas, unhas-de-gato, canas-do-mato, ananás, cipós-de-beira-mar...
e dos risos e gargalhadas dos pássaros tesoureiras, pombas-rolas, tico-ticos, azulões,
perdizes, codornas-mineiras... e conhecendo o que nem conhecia, e vendo o que
faltava ver. E as árvores e os passarinhos conhecendo a menina também. A menina
ainda confessou para si mesma:
-
Ah!, tenho vontade de tudo ver e observar e voar.
Depois
de ter vontade de tudo mesmo, a menina foi parou para comer gabirobas, panãs,
jabuticabas, mangabas, araçás, cajus...
-
Meu aniversário é o mês que vem... e eu só quero esperar até lá.
Do
bicho ao carrapicho todos todos eram verdes ou mais ou menos verdes verdinhos
camuflados entre os vegetais. O gavião-carijó voava alto. E tudo muito
misterioso oculto. E o segredo amanhecia, anoitecia, ficava até tarde e sobrava
para o outro dia inclusive. Tá bom?!
-
Qual o de maior valor? Quanto que posso pagar?
No
meio da estrada no meio da mata no meio da estrada e passando já do bairro do
Grajaú, a menina ouviu uma lobo-guará chamada batizada Capeba impressionar com
seu uivo seus latidos seus murmúrios:
-
Bruuu-au-au!...
Ainda
ouviu outro lobo-guará, chamado nomeado Tapuio, responder, bramindo:
-
Truuu-au-au!...
A
poucos metros outro filhote de lobo-guará, de nome oficial Iguatu, imitar os
pais:
-
Uruuu-au-au!...
Havia
morros muito custosos para subir pedalando, então, a menina Lilás descia da
bíci, empurrava, demorava mais, bando de araçaris... bufava, bastantes, cansava,
batia o pé no chão e suspirava. Uma hora suspirou bem mais:
-
Por que o jabuti, hein?! Penso comigo.
O
jabuti nem estava por perto para responder. O jabuti fazia parte de todos os
jabutis e jabotas do país. O jabuti e a jabota eram muito conhecidos do povo de
Capela. O jabuti era inteligente, sabido, pesquisador, pensador, andador. O
jabuti era calmo e lento e sossegado. E pensava muito o tempo todo. E pensava
sem voz. Nem falava nada. Andava devagar. E o jabuti tinha mesmo razão.
Geralmente o jabuti a jabota andam no meio da vegetação procurando algo verde
para comer algo maduro caído por exemplo do araticum-pitaiá. Depois sabem nadar
e nadam no rio Pirapó.
Deus
quis o jabuti assim, desse jeito aí. O jabuti ou a jabota eram desse jeito. O
jabuti seguiria assim pelo progresso afora. D tinha muita razão no que
inventava. D dizia sempre e diz:
-
Qual que é! Escute! Telefone, viu?! Mais detalhes! Você tem o meu endereço, tá
certo?! Tô até estranhando, meu!
Então,
pela estrada qualquer, de terra vermelha ou asfalto, a menina Lilás ia olhando,
se agradando, e dando parabéns. Deu os parabéns e conheceu Buritizeiro, Caxambu
do Sul, Sumidouro... E o bem-te-vi deu os parabéns. E também o sebinho deu os
parabéns. A lontra deu os parabéns. Um bando de chupins pretos e homônimos, e
homógrafos, e homófonos, deram parabéns. Enfim, todos interessados em
cumprimentar:
-
Conto ou nem conto?
-
Contar o quê?
-
Conte!
-
Era um dia... onde?, um trem apitou... alguém ouviu... onde?, perto ou longe ou
talvez... onde?, do parque Centenário em Criciúma... o trem dizia... o quê?,
tiuiiii!... tiuiiii!... apitando nas curvas... o quê?, sendo emboralá!... o
quê?, qual o seu nome...
Os
passarinhos diversos coloriam o dia de cantos e pios e bordados. Cantavam o dia
de sol, o dia bonito, o dia acontecendo. Quem ouvia aqueles passarinhos, igual
Lilás passando ali, nem sabia contar exatamente como eram todos aqueles
cantares e piares todos ao mesmo tempo. Na beira do rio Ipanema era mais fácil.
E os passarinhos uns animavam os outros. Piavam, cantavam, gorjeavam, pipilavam
muito e em toda a redondeza. Um milagre. E nem só para um lado do dia. Para
todos os lados que se olhasse. Tá bom?!
-
Mais uma coisa e a penúltima coisa...
A
Lilás olhou a gabirova verde, olhos verdes; e olhou o pé de ipê-amarelo, olhos
amarelos. A cutia viu a menina e perguntou:
-
De onde vacê vem vindo, menina? Eu acho que vacê é de fora, então! Simples.
Pela
esquerda da menina iam passando árvores paradas. Pela direita da menina Lilás
iam árvores estáticas. É que a menina andava já por uma trilha estreita no meio
da mata. E, ali, todas as árvores e plantas e arbustos e ervas e cipós desacompanhavam
a menina. E a menina Lilás ia em frente, muito bem vigiada de árvores, das
sombras, dos cheiros das florzinhas, dos gostos das frutinhas silvestres,
laba-labas, peroba-café, craveiro-do-campo...
-
Como é aconchegante o verão aqui, é! Eu adoro mais verões, é.
De
repente todos podiam se lembrar de tudo: aves piando, jacarés tomando sol nas
lajes do rio, passarinhos voando em bando, peixes nadando atrás de frutos
caídos da copa das árvores, insetos zunindo no espaço aberto.
-
Nem ri assim seu saruê, em!
Um
assobio de passarinho escapou descansado das sombras entre os galhos da andiroba.
Era o dia de ontem. Depois, ao vento lerdo, o balançar lento dos galhos da
árvore. E ainda o assobio do curió. Era de hoje em dia.
Daí
a poucos metros a menina ouviu o uivar de um graxaim:
-
Au-au-auuuuuu!...
No
alto da árvore amapá uma cigana piou, batendo as asas fisicamente:
-
Piuí-piuíiiii!...
Onde
logo a menina se encontrou com uma cobra urutu, que sibilou:
-
Onde você vai, menina do cabelo solto?
-
Vou até o rio Negro e que fica oeste. Vou hoje e volto em setembro.
-
Eu já sabia!
A
menina entrou por florestas do Acre, seringueira-amarela, seringueira-vermelha,
seringueira-roxa, seringueira-branca, seringueira-preta, seringueira-rosada,
seringueira-tambaqui... Depois caminhou mais um pouco para o norte do Estado
até Cruzília ou mais.
A
menina perguntou ao lagarto teiú:
-
Essa mata tem curupira? Isso é que é!
O
teiú correu e a menina ficou sem resposta. Sem pergunta e sem resposta. Têm
dias que são assim e mais ou menos.
Mais
um pouco a Lilás perguntou ali na beira de um córrego para o peixe carataí:
-
Tem visto a teiniaguá? É difícil, mas...
O
carataí abriu a boca e disse borbulhas muito transparentes e sem compreensão e
que a menina nem soube ouvir ou traduzir.
-
Hein?! Bondade sua e o calor é muito forte. Fique com D.
Mais
para o noroeste e região da tribo laiana, perto de umas quatro horas e quinze
minutos, a menina perguntou para a lebre:
-
Seu tapiti! Tem aí uma tal de boicininga? Cuidado!
E
isso foi mesmo num dia de semana.
O
cachorro-do-mato cheirou, olhou de lado e respondeu, lá na língua dele, que nem
deu pra menina entender:
-
Grau-au-au!...
A
Lilás ainda entrevistou já a árvore tapinhoã, e seus braços todos ao vento:
-
Tem visto, quem sabe ou quem viu, um tal de boitatá? Por aqui por lá?
A
árvore sacudiu com um vento muito tranquilo, as folhas fizeram fru-fru ou
flu-flu ou tlu-tlu ou ble-blo. Tá bom?!
A
menina, naquela altura, já chegava perto do seu destino, que jabá-ana, perto do
rio Marauia e rio Cauabori, em Roraima. Belezas naturais e nativas e exclusivas.
Palmeiras jarás. Árvores ipecacuanhas. Tá bom?!
Olhando
e cheirando o lugar do país de Roraima, vai chegar o dia que todos todos terão
tudo tudo. Era um mar de verde.
-
Queridos queridas ouvintes da rádio Suave aqui quem vos fala é uma menina lilás
que atende pelo nome de Lilás...
A
Lilás seguia uma estrada de catetos, um caminho de capivaras, uma trilha de
antas. Pelo meio da mata. Já pelas terras da tribo dos índios charrua. Ou mais
além. Aí, por essa altura, uma tesoureira começou a segui-la. Era engraçado
porque a tesoureira voando seguia a menina sentando sempre uns metros adiante
em um galho de árvore, toco de árvore, casa de cupim, voando adiante, voar,
voando baixinho, esperando pela menina. E puxando assuntos quando queria:
-
Aonde vacê vai com essa pressa, menina?
-
Eu vou até a tribo dos meus amigos índios carapanã.
-
E isso é possível? Quem pode pode, né?!
E
a tesoureira dava mais um salto voando de um arbusto a outro, de um palanque de
cerca a outro, voar, galho seco de guanabira. E novamente interrogando, piando:
-
Por que existem caranchos, gaviões, harpias, teco-tecos e bimotores?
-
Eu também tenho receio de onças-pintadas, gatos-do-mato, botos-cinzentos,
jacarés, sucuris e arraias... - respondeu a menina.
Daí
a pouco a menina já ouvia o napi bater na ocara dos índios xerente. Mais perto
ainda foi recebida por cunhantains e curumins e bichinhos de estimação, em bando
em grupo. Muita risada, alegria, gritos, convites, abraços, correria, risos,
empurrões, beijos tepe! tepe!... um de cada lado da bochecha. Correram todos
para o rio e mergulharam, chape! chape!... Um tumulto na beira do rio Marauia.
Era sexta-feira feriado.
-
E, mais uma duas três... vezes, parabéns e obrigada!
Aparentemente
a Lilás e o panorama. O monte Roraima grande, todo de pedra, uma pedra verde.
Dali um pouco distante, ao longe, longe, deitado no horizonte. A distância de
Lilás, ali, até o monte Roraima, lá, era a mesma. Entre Lilás e o monte Roraima
existia uma floresta enorme e verde e cheia de árvores nos tons de verde. Ela
ainda disse hoje cedo:
-
Em Nova Prata, sou de lá.
Os
dias e meses e ventos se passaram e os gambás andaram e o monte Roraima continuou
firme no mesmo lugar. Sossegado, rochoso e deitado em berço esplêndido. E a
montanha, vista assim de longe, ou de perto, era verde e corajosa e firme e
séria. Também muito fechada e quieta dos seus pensamentos. Flechada de raios
ultravioletas.
E
a vida boa na aldeia dos índios bororo estava boa e muito legal. Os índios
descansavam da roça, as mulheres raspavam mandioca, os curumins brincavam de
pega-pega com as cunhantains, as cunhantains corriam aos gritos deixando para
trás os curumins, Lilás ia no grupo das cunhantains, os bichinhos de estimação
corriam para todos os lados, pulavam de ombro pra ombro. Tá bom?!
-
Tenho uma surpresa pra ocês!...
Um
gavião-pescador aterrissou no meio da ocara. Era uma ave impressionante e
enorme e braba. Do tamanho de uma cadeira. Todos os curumins e todas as cunhantains
ficaram olhando assustados, quietos, travados. Uma cadeira de plumas? A enorme
ave ainda caminhou para cá e para lá, olhando em volta, provocando os bichos de
estimação, bicando o chão da taba, arrepiada, piando assim:
-
Creee-iu!... Creee-iu!...
Ninguém
entendia o que a ave queria. O olhar dela era um olhar de dois olhos amarelos e
brabos e firmes. E a ave bateu as asas, enormes, e espalhou muita poeira e
ciscos. Num gesto de repente... o gavião-pescador se transformou num caitetu ou
porco-do-mato. E muito bravo, e muito ranzinza, e muito brabo, e muito
roncando, e muito provocando os xerimbabos, assim:
-
Tru-tru-truuuu!... Tru-tru-truuuu!...
O
caitetu andou por aí, pela ocara, fez voltas, idas e vindas, procurando nem se
sabia o quê, sem sossego, mandão, farejando. Depois também ele se cansou e de
repente... subiu no ar uma poeirinha e... pronto: era um índio adulto: era o
Macunaíma. E todos conheciam o famoso índio Macunaíma. E todos os curumins, as
cunhantains, a menina Lilás, os animaizinhos de criação, aplaudiram o
aparecimento repentino e mágico do fabuloso Macunaíma. E sua entrada
espetacular.
-
Eu nem disse que vinha... então, eu cheguei!... Tem tapioca?
Macunaíma
era um índio nem bom nem mau ou talvez muito antes pelo contrário. Ele às vezes
fazia coisas boas e outras vezes já fazia coisas más ou ruins ou chatas.
Gostava de animais e plantas e rios e isso era seu trabalho. Nem gostava lá
muito de gente branca, cara-pálida, gente de cidade, gente que nem tinha língua
de índio, gente que usava armas e machado e motosserras e caminhões, povo
urbano. Ninguém pegava Macunaíma na corrida. Ninguém laçava Macunaíma. Ninguém
prendia o mágico Macunaíma.
-
Hoje tá um dia bom e mais fácil, nem é?! Tem beiju aí?
Quando
queria, Macunaíma era mais veloz que a ave arapapá. Quando queria, Macunaíma
era mais alto que a palmeira miriti. Quando queria, Macunaíma nadava melhor que
o peixe matupiri. Quando queria, Macunaíma era mais manhoso que o mucura.
Quando queria, Macunaíma era mais forte que a pororoca. Quando queria,
Macunaíma era mais invisível que os raios do sol ao meio-dia. Quando queria. Tá
bom?!
-
Deixe comigo! Vou partir daqui a pouco! Mas quando eu quiser, tá legal?!
A
maior parte do tempo Macunaíma andava na floresta cuidando das matas, entocado
lá no monte Roraima, andando como bicho do mato, camuflado nas folhagens como caapora.
Outras vezes sentia saudade da tribo dele parintintim, então ia até a aldeia e
comia abóbora, pamonha, canjica, açaí, essas coisas deliciosas. Macunaíma era
impossível. E todos já mais ou menos sabiam conviver com o feiticeiro Macunaíma,
ou sentir saudades com a ausência do fabuloso Macunaíma. Macunaíma era
tremendamente útil e atento a tudo que dizia respeito à floresta os bichos as
árvores os rios os cafundós os pântanos.
Macunaíma
era onça-vermelha nos labirintos da montanha Roraima. E a montanha já era o
próprio Macunaíma, quando ele queria. E a montanha, verde e gigante, ficava
sempre ali, olhando de longe, olhando do horizonte, toda empedrada, ou mesmo
muda sem nada nada a dizer, toda pedra verde, setenta mil quilômetros de pedra
verde. Tá bom?!
-
Meu nome é Macunaíma! E daí? Não qué?! Olha só o meu perfil o meu bíceps!
Pois
Lilás sabia aproveitar a hora na aldeia dos índios e índias Kaingang.
Principalmente tomando banho de rio, e isso na manhã ao acordar, durante a
manhã toda, e na tarde, de tardezinha, e já de noite com lua cheia, com
estrelas piscando, Cruzeiro do Sul, vaga-lumes, grilos, companhia das
cunhantains. Treinar muito o nadar. Subir em árvore, se lançar de cipó, deitar
na rede e se balançar nos galhos das árvores. Comer frutas, araçá,
goiaba-do-mato, araticum, sete-capote, muitas pitangas, guabirobas, pequis,
ananás...
-
O que você está dizendo está fazendo é muito útil, é.
Os
índios e índias da tribo mehináku gostavam de comer mel tirado na hora. Uma
manhã muito bonita a menina Lilás foi com eles. Macunaíma ninguém sabia onde
ele estava e quem ele era. Devia estar no céu como um caracará, ou na água como
um pirarucu ou peixe-boi, no meio do mato como uma anta ou como um capincho ou
uma preguiça-real, plantado no mato como uma palmeira guacuri ou arbusto caiaté.
Ele se metamorfoseava. Podia ser aquela mesma ali iaupê-jaçanã. Vai saber!
-
O B todo é mais pra lá, claro!
Então
os índios e índias jarauára descobriram no meio de um taquaral criciúma um
enxame das de abelhamirins. As crianças ficaram de fora olhando e esperando. Os
índios e índias entraram no criciumal. Era perigoso. Muito estouro de taquara,
fumaças, risos, conversas, tu-tu-tus!... de sapos alarmados, gritos e risos lá
por dentro. Alguém gritou que chegara ao ninho das abelhamirins. E foi pra
já... Se ouviram os gritos, berros, mais outros gritos e estalar de taquaras,
uma avalanche e todo mundo correu para o riozinho mais próximo fugindo do
perigo das abelhas. Eram índios e índias correndo das abelhas. Era guerra de abelhamirins
ou mandaçaias ou jataís ou lechiguanas ou tataíras? Elas mordiam com apetite,
bom apetite! vingativas. Tá bom?!
-
Eu só tenho interesse de ir de manhã, à tarde nem falá!
-
Com dezoito anos a gente corre de abelhas? Pura paixão!
-
Por que tá todo mundo descabelado e rindo à vontade? Nasceu um novo país?!
-
Deixem elas acreditar que é verdade. Elas o enxame merecem!
Uma
hora depois, todos os índios e índias e curumins e cunhantains e a visita
menina Lilás e bichinhos de estimação, estavam subindo um morro para espiar
espreitar ninho de abelha, abelheiras, colmeias. Todos da tribo munduruku
estavam com a ideia de comer mel de abelha na hora e grátis. E todos eles
gostavam muito de mel de abelhas selvagens. Era um dia para isso mesmo, coletar,
tirar, colher. Subindo o morro, eles viram uns furinhos no barranco. O cacique
ia na frente e gritou:
-
Parado aí, familiares! Tão vendo? Tem furinho no barranco, então, tem abelha aí
dentro. E onde tem abelha tem mel da melhor qualidade. Vamos em mutirão e pegar
esse mel. Pra já, parentes! Um dois três!...
Com
pedaços de pau, os índios e as índias e as crianças índias foram cavando e
tentando encontrar o mel escondido no interior dos buraquinhos do barranco
vermelho. Aí, com a casinha sendo arrombada, muitas abelhamirins vinham saindo
e se assustando e se enfurecendo com aquela desarrumação toda. Por isso o
enxame de abelhamirins se organizou e começou a atacar os índios invasores. E a
guerra iniciou. E atacaram os índios com muita brabeza e certeza. E os índios e
índias tuiúca, e principalmente crianças índias com seus mascotes nos braços, nem
aguentaram o contra-ataque das abelhamirins e tiveram que correr, descendo o
morro na corrida e se abanando para fugir das ferroadas. Era, morro abaixo, uma
avalanche de índios, índias, indiozinhos, indiazinhas, bichinhos de estimação. Mas
será que eram abelhamirins ou abelhas irapuás ou tataíras? Dúvida em paz, uma
vez. Dívida com as abelhas, uma vez. Tá bom?!
-
Querem um conselho, meus parentes?! Aceitam uma opinião comum, meus filhos?!
Escutem só!
Na
volta da tribo abacaxi para a aldeia, eles se depararam com Macunaíma sentado
no meio do mato. Sentado numa pedra aí no meio da mata. Macunaíma estava
reconhecido como um índio tabajara. Macunaíma fazia um desenho no chão com o
dedo da mão direita. Um desenho muito simples que qualquer curumim ou cunhantaim
podia fazer. Macunaíma desenhava na areia uma tartaruga ou tracajá. A tartaruga
ressuscitou e virou um jabuti. O jabuti olhou para os lados e saiu caminhando
muito devagar. Demorou, até. E o jabuti nem mais olhou para trás. E o jabuti
ficou com fome e foi comendo folhas verdes e apetitosas. Depois o jabuti ficou
com sede e foi até o rio mais próximo.
-
Eu vou indo. Estou viajando, é. O dia é longe e comprido, entendem?!
Macunaíma
ainda ficou sentado naquela pedra. Mais um pouquinho sentado na pedra basalto. Macunaíma
roia as unhas. Daí cuspiu fiapinho de unha. O pedacinho de unha caiu no chão e
virou uma lebre arrisca e corredeira. Nem satisfeito, Macunaíma jogou um
pedacinho de pau no ar, e o tal pedacinho de palito virou um tuiuiú que já ia
voando para a beira do igarapé. Mais uma vez Macunaíma suspirou, e do bafo lá
dele, saiu um rastro de raposa ou zorrilho ou zorro mascarado. Depois Macunaíma
abraçou a árvore guarapiranga, Macunaíma virou cipó alamanda-de-flor-grande
todo retorcido e enroscado, Macunaíma subiu até o topo dessa árvore e Macunaíma
ficou por lá como um vegetal enrolado.
Lilás
perguntou ao pajé sujeito dos espíritos do chão do ar das sombras etc:
-
Era Macunaíma que estava ali, seu pajé? Me diga!
-
Macunaíma será sempre jovem e guerreiro. Às vezes ele apronta.
E
Lilás voltou:
-
E Macunaíma incomoda? Ele vira planta? Ele vira acidente geográfico?
-
Macunaíma é contra a caça e a pescaria e o corte de lenha e o garimpo.
E
a menina perguntou:
-
De onde vem Macunaíma? Para onde ele quer chegar?
-
Macunaíma fala com os índios e índias, com os bichos, com os insetos, com as
árvores, com as águas, com as pedras. Macunaíma é um deus mágico ou
extraterrestre. Ele já virou a pariparoba já aconteceu murucututu já foi uma
vez pelo menos anfitrião na restinga de Marambaia...
A
guria era mesmo curiosa e interessada:
-
O Macunaíma existe mesmo, seu pajé? É um ser diferente!
-
Macunaíma sorri, ri, gargalha e nunca chora ou chorou. Macunaíma é uma montanha
de pedra. Frio como o vento minuano.
Os
índios nhandeva eram grandes comedores coletores de mel silvestre. Aquele dia nem
descobriram nada. Talvez fosse culpa da lua Jacy. Talvez fosse culpa do
Anhangá-Pitã. Voltaram para as ocas e de mãos abanando. Os deuses do mato
protegiam mesmo as abelhas e etc. Os matos se enroscavam e protegiam tudo,
espelina-verdadeira, papos-de-peru, embiruçu, favas-de-besouro,
macambira-de-serrote...
E
Lilás se despediu dos índios karipuna e voltou para a sua casa. Tá bom?!
-
Ora, para viajar é preciso caminhar! Um passo depois outros!
Lilás
com os olhos dela no ar de Roraima. Olhos ligados como relâmpagos. E a menina
disse para si consigo e se abraçando:
-
Roraima é bom! Esta tarde é bom! Ninguém esquece o que é bom! Tá bom?!
Na
volta, pelo meio da floresta, de bíci, pedalando, lugares de Brodowski ou
Natividade da Serra ou Guatambu ou Chã Preta, subindo e descendo morros no meio
da floresta, babosa-branca, mocitaíba, goiabeira-serrana, fruta-de-coruja... por
trilhas e furos da mata, a menina ouviu uns gritos de bugios vermelhos e bugias
nem muito vermelhas amarronzadas carregando filhotinhos nas costas:
-
Huuuu-ú!... Huuuu-ú!...
Mais
adiante, já bem longe da aldeia dos índios cariri-xocó, a menina encontrou uns
bichos que dançavam em grande harmonia. Muitos bichos, como a ariranha, a
garça-branca, o tucunaré, o jacaré-de-papo-amarelo, o furão, o
tamanduá-bandeira, a joaninha, a mamangaba, a coruja buraqueira, a jaguatirica...
esse pessoal todo povoador da mata profunda. Gente que comia, e o que a mata
oferece desde sempre.
A
menina nem quis parar porque estava com vontade de chegar antes em casa e tomar
café e comer bolo de chocolate na varanda da casa da avó com a vovó. Nem parou
muito tempo olhando o baile no claro da floresta no palácio Laranjeiras. Passou
Ubatuba. Se acercou do monumento ao famoso Olegário Mariano. Voltando voltada
para casa a casa da vovó e dela mesma. Passou o rio Quaraí e nem parou foi
andando até mais tarde até a praça Mauá. Tá bom?!
Tinha
o caminho andado na terra tinha o mar oceano Atlântico e a cúpula do céu.