A menina Lilás, dez primaveras,
atirava pipoca aos símios macacos-capijubas aos macacos e micos e saguis no
zoológico de Sapucaia do Sul. Estava nessa lida quando, dum ambiente ao lado
perto junto, um capincho de asas a chamou exclamou se impacientou:
- Ei, psiu!... Menina, plique!...
Ei, você! Venha cá, plique!...
A menina foi ver o que aquele animal
de asas, e que cuspia, plique!... sem parar, queria com ela.
- Pois e aí! Qual é o babado, guri?!
- Seguinte, plique!... Tô aqui nesse
zoológico, preso nesse lugar apertado, faz já uma cara, e enjoei, plique!...
Será que você poderia me libertar me soltar? Plique!...
- Tem certeza?! Tem razão?! Tem por
quê?!
- Claro, plique!... que tenho. Quem
é que gosta, plique!... de ficar preso?
- É que ali fora é mais trabalhoso e
você pode passar fome pode passar sede levar um tombo ou escorregão terá que
trabalhar pelo próprio sustento!...
- Você acha, plique!... que é melhor
aqui? Plique!... Então porque nem fica no meu lugar? Plique!...
- Tá, tá bom, entendi!
- Vou pra minha terra na apa do
Itapiracó, plique!... Lá ficarei bem e ótimo, plique!... Lá sou amigo de todo
mundo e de toda a comunidade em geral, plique!... Lá tenho álibi, plique!... Lá
sou amigo dos vizinhos parentes contraparentes, plique!... Lá sou amigo dos
pássaros das aves e dos passarinhos, plique!... Lá sou amigo dos desportistas
esportistas atletas, plique!... Lá embarco navego de jangada no canal Estreito
dos Mosquitos, plique!...
- Se é assim! Você que manda, meu!
Cada um, cada um!
A menina tirou um grampo do cabelo e
enfiou no cadeado, tle-tle-qué!... e virou, revirou, empurrou, bateu, debateu, até
que, blam!... abriu. O carpincho, marido da capivara, rapidamente pulou fora,
feliz e aliviado, e só faltou agarrar e beijar Lilás.
- Plique!... Sensacional! Valeu,
boneca, plique!... Nossa, como é bom esse ar puro, livre, plique!... livre,
leve e solto, eta!... plique!...
- Vai pra onde mesmo e dono de si,
seu capincho?!
- Plique!... Voltar pra minha terra
natal natalícia, plique!... região do agreste pernabucano, plique!... O rio
Paciência, a praia da Guia, plique!...
- Me leve contigo?!
- Se estiver a fim, ora! Plique!...
- Tô mesmo e é claro! E gostaria de
conhecer aquelas bandas!
- Então, sobe aí nas minhas asas
flexíveis leves libertas, plique!... e se segure se agarre, menina! Simboralá,
plique!...
- Sorria, você está sendo filmado!
Lilás embarcou nas costas do capincho
alado voador. Alçaram voo, subiram aos céus e rumaram para o deserto a caatinga
a zona da mata. Era um dia de sol com raras nuvens elegantes. O sol se
manifestava no seu calor exposto e efervescente requentado. Bem-te-vis também
saíam voando. Outras aves saíam voando, arapapás, piaçocas, iraúnas, japus,
tucanos-de-bico-verde, carrega-madeiras-grandes... Poucas nuvens, poucos aviões
comerciais, pouquíssimos helicópteros, um que outro ultraleve parapente... Um
horário calmo e equilibrado e sofisticado. Lilás vibrava, dizia, aclamava
equilibrava:
- É bom!... É bárbaro!... É
genial!... - e as palavras se perdiam no espaço nos ventos.
Sobrevoaram mares, oceano, ilhas e arquipélagos, cidades
e município, Horizonte e Aquiraz e Eusébio e São Luís (cidade dos azulejos), o
arroio Forromeco, a praia do Iguape, reserva territorial dos índios guaxi e
mais cadeias de montanhas, serras, chapadas, a sombra arrastando no chão, e o
vento batia na cara nas ventas na fuça no rosto nas faces. E a menina cantava,
falava, gesticulava, gritava, declamava as harmonias os tons:
- É bom!... É natural!... É integral!... Ah, se eu
pudesse ir a qualquer parte já escolheria aqui mesmo!
Desceram diante de um açude e em
qualquer ponto do nordeste brasileiro o agreste o sertão a região de Itapiúna e
Ibicuitinga e Choró... Beberam uma água fresca e descansaram na sombra dos
louros-de-folha-larga. A tarde estava calma.
- Aaaah!... Nada como a volta ao
lar, plique!... o cheiro do vento quente, cheiro de areia e pedra, mormaço, plique!...
Tô ouvindo música, aquela do forró, você nem? Fogueiras de são João pra
esquentar as noites estreladas e festivas, plique!... O alarido das crianças
nas brincadeiras após o jantar, plique!... Saudade, saudade e saudade, plique!...
Vejo minha terra, o meu deserto, e me descem algumas lembranças...
- Qual é o rumo a partir de agora?!
Vai procurar sua família?!
- Plique!... Nem necessariamente.
Acho que vou atrás de emprego e de trabalho, plique!... Talvez no mundo
artístico ou da televisão teatro, plique!... ou então numa dessas festas do
maracatu, plique!... que atravessam o deserto escaldante levando e trazendo
coisas diversas jogos festividades lazer, plique!... nem sei, plique!...
- Onde você trabalhava antes de ser empregado
no zoológico?!
- Num palácio riquíssimo, plique!...
Eu era um dos melhores amigos do governador, plique!... Mas aí houve uma
política, uma eleição, uma mazorca, plique!... perdemos, plique!... e o concorrente
eleito pelo voto livre e democrático, plique!... me demitiu, plique!... Fui
procurar um lugar ao sol no zoológico de Sapucaia do Sul, plique!... um bom
lugar e nem devo me queixar muito, plique!... salário assim e assado,
plique!...
- Realmente nem existem muitos capinchos
voadores por aí!
- É, plique!... minha família nem é
numerosa, plique!... Somos de uma linhagem nobre, encantada, exótica, exibida, difícil,
em extinção, plique!... Nossos contratos e passes e arras e pagamentos são fora
do mercado e muito caros, é.
- Me diz uma coisa, para matar a
minha curiosidade: por que você fica cuspindo o tempo todo? Que mania é essa?
Explique este, plique!...
- Plique!... Foi um hábito que
adquiri depois que inventaram o sorvete de açaí, plique!... Adorei essa
invenção deliciosa e, plique!... e com o sabor e a água na boca eu, plique!... Nem preciso explicar mais, plique!...
entende?
- Mas precisa ser tão deselegante,
ficar o tempo todo, plique!... plique!... hein?
- Plique!... Já disse que é uma
mania, um tique nervoso, plique!... que posso fazer? Faço isso sem saber,
plique!... No trabalho, plique!... lá no zoológico plique!... muito me ajudava
a passar o tempo passatempo, plique!... treinando pontaria, plique!...
treinando distância, plique!...
Nesse momento começou uma terrível
tempestade de poeira cor de areia. Ventos fortes e obrigados. O dia ficou
tapado de pó e poeira e cisco. Os dois aventureiros ficaram no escuro, e o
tempo fechou. Veio o vento e o tempo mudou. Nem enxergaram um palmo, nem mesmo
um palmo à frente do nariz. Só se ouviu o vrrrrr!.... poderoso do vento quente
e nordestino nordestinado. Escureceu, perdeu-se todo ponto de referência,
tiveram que tapar a boca, os olhos e rezar ao padre Cícero R. B., o santinho
dos romeiros.
Foram para mais de dois ou três dias até tudo acalmar.
Até a poeira baixar e assentar. Até o tempo sossegar e acalmar. Quando o vento
parou quietou, tudo calmo e o sol voltou forte firme, Lilás estava só e sozinha
e no meio do deserto sem fim da caatinga inóspita. Perdera a noção da hora, do
rumo, do norte, do nordeste, do sul, de tudo. Estava no terreno seco, sem açude
ou barragem, sem cachorro, sem mapa, sem relógio de pulso. Aliás, todo o sol
queimando a cara, pleno sol por testemunha, um sol para cada um.
Perdida por perdida e meia, resolveu andar. E andou e
seguiu. Caminhou, caminhou até o limite de suas forças. Subiu e desceu dezenas
de ondas e morros e dunas e elevados. Conheceu pontos turísticos aos montes,
Fonte do Ribeirão, cais da Sagração, Praça Maria Aragão, praia dos Namorados,
aldeia dos autóctones amauaca... De dia era quente que nem dava para suportar,
de noite era frio que nem dava para aguentar. O deserto sem fim, a areia sem
fim, a paisagem sempre a mesma da velha conhecida caatinga. Água, nem pensar;
comida, nada; gente, nem com ônibus de excursão. Um dia, sob o sol do meio-dia,
depois de uma montanha de areia fofa, e igual a essa e aquela de pedra
pedregulho, igual a todas as outras mil, a menina avistou uma cidade uma vila
um distrito... Com a língua a arrastar, sedenta, cambaleou para lá... A menina disse isso, para si mesma,
delirando, sonhando acordada:
- Gra... ças ao bom e santinho
padrinho, uma ci... da... de, á... gua, su... co de ca… ju, de a... ba... ca... xi..., de ta... ru... mã, de pe... qui!
A cidade pareceu à menina ser a
surpreendente e fabulosa comunidade de Petrópolis-RJ ou Raposa-MA... Caminhou
aos trancos e barrancos, como uma tonta, suou, tropeçou e ao chegar nem chegou,
ao pegar pegou apenas a areia seca amarronzada. Onde existiam casas e ruas e
trânsito de antas e capivaras e emas e tatus-de-rabo-mole e pessoas, casas e
bazares, somente restou areia, areia, areia quente cinzenta. Era tudo miragem.
Esgotada, frustrada, sedenta, virou os lindos olhos do avesso e caiu desmaiada,
bufe!...
Foi acordar, nem sei quantas horas
depois, numa cama de vento num quarto com paredes e teto de lona num
acampamento de caboclos mestiços índios com brancos.
- Eta!... Onde estou?! Será o céu?!
Mas no céu há camas de vento e paredes de lona?! E este cheiro de vento do
deserto do sertão do cafundó, e este cheiro de arroz com feijão, e este ar de
deserto escaldante caatinga pegando fogo?!
Se ergueu e foi ao pátio tomar pé da
coisa. Encontrou um peregrino caravaneiro ali no pátio, fazendo o jantar, tomando
suco de guaraná.
- Ufa!... Que preguiça! Olá!... O
senhor vai bem?!
- Tudo como Alá, o Maioral, deseja -
respondeu o campesino.
- Que lugar é este?! Será São João
dos Patos?! Será a terra reserva dos cricati?! Será Cacique Doble?! Será
Araraquara?! Será Paraí?! Me chamo Lilás, meu nome real!
- Estamos a cinco dias de Icatu.
Malba Tahan é meu nome real. Sou filho de Caranambu e Zorra, e meus avós por
parte de mãe são Jorrão e Jorra, e por parte de pai são Apóstrofo e Apóstrofe.
A menina olhou em volta, rodeou e
girou, suspirou, fez os muxoxos. Era outro daqueles açudes perdidos no meio das
pedras pedregulhos. E ali muitos homens, e algumas mulheres, raras crianças, cuidavam
de suas sortes prometidas, das suas mercadorias, dos seus afazeres, do jantar
para logo à noite...
- Dormiu bem? Sabe, encontramos você
apagadinha e de boca na terra vermelha. Como é que veio parar ali sozinha,
menina tão galante?
- Uma tempestade de terra seca ou
poeira! A tempestade de areia me separou do meu amigo um capincho de asas alado
voador mais leve que o ar e!...
- Por D, o Único! Um capincho de
asas? Você tem um amigo voador ou da aeronáutica um paraquedista um
parapentista?
- Acho que tinha, pois o perdi!
- Uma pena uma perda, por certo.
- Para onde vocês estão indo, se é
que é do meu bico saber?! - colocou Lilás, linda inteligente graciosa
prestativa inquieta misteriosa.
- Amanhã, depois da primeira refeição
ou café da manhã, seguiremos para a cachoeira do Curuá em Novo Progresso. Se
assim desejar D, o Todo-Poderoso.
- Vocês têm negócios por lá, é?! Vão
tomar banho de cachoeira e etc.!
- Sim, claro que sim! Família,
negócios, diversões, comércios e otras cositas más. Os grandes projetos e
acordos somando mais de 2 mil entre planos e objetivos.
- Nem tem uma caroninha pra mim
mesma euzinha?!
O céu, toda a noite, era outro
sertão, nem de areia ou terra vermelha, mas de escuridão, com balneários de
estrelas. E uma grande lagoa de prata, a lua crua tua rua. E uma grande barragem
em forma de meia-lua, em forma de pedaço de lua crescente ou minguante. Tipo
quando o céu encontra a terra e vice-versa, tá entendo?!
No outro dia e ao som dos pássaros e
aves e passarinhos incidentais, nambus, macucos, jacus, curriqueiros... No
outro dia manhã muito cedo, após as abluções após a oração após o desjejum,
partiram. A caravana ou a excursão ia lenta, conversando, carroças puxadas por
cavalos alazões abarrotadas de mercadorias, capinchos sem asas, antas com cara
de cutia, cutias com cara de graxaim... Paravam nos pequenos córregos para beber,
comer, orar, descansar do sol forte, ou, à noite, do frio cortante. Debaixo da
sombra das cerejeiras-do-paraná, ou em torno às fogueiras durante as noites,
jogavam dados, cantavam, contavam histórias e anedotas e causos e chistes, riam,
olhavam as estrelas, cochilavam, dormiam, bebiam café, tomavam chimarrão...
Entraram em Palmas (cidade redonda e
planejada bem arborizada ruas largas) num fim de tarde sol despencando. A
grande e circular e cintilante e frondosa Palmas. Ruas ou avenidas, largos ou praças,
viadutos ou pontes, rio Gurupi. Bazares e lojas e ruas apinhadas de gente feira
livre artesanato centro de eventos. As lâmpadas já acesas. E se viam altas
torres de radio e televisão e telefone mastros com a bandeira nacional. De
dentro das casas vazavam o cheiro de comida, o choro de crianças, a reclamação
das mães, o som das novelas de tevê, o latido dos cães, as reclamações, os
melhores momentos do campeonato de futebol da série A e B e C e D... o miado
dos gatos, o chamado dos telefones... Enjoados da viagem, mas felizes por
chegar, os caravaneiros peregrinos romeiros riam e cumprimentavam conhecidos
compadres e comadres. Estacionaram a excursão finalmente no estacionamento de
um supermercado, diante de uma hospedaria-churrascaria-restaurante, no pátio de
um posto de gasolina ou abastecedora de combustíveis.
Um dia depois da chegada, Lilás foi
levada por Malba Tahan ao cacique do lugar. A casa desse mandachuva político
coronel era enorme, bela, limpa, riquíssima, dourada, decorada com aqueles
arabescos, arborizada, ajardinada, povoada de muitos cômodos e garagens e
atendida por inúmeros serviçais domésticos domésticas auxiliares secretárias.
No meio do jardim, do lado de um chafariz bonito e decorado cheio de estilo,
uma palmeira uruá muito crescida e enorme e alta com cocar verde-oliva. Lilás nem
sabia o porquê de todo este vasto império. E Lilás nem se conteve e ficou
falando, falando nervosa e braba:
- Por D, o Insustentável! Que
história é esta?! Você vai me empregar na casa do cacique mandatário, é isto?!
- Olhe com calma e pense comigo. É
que ocê nem conhece ninguém por aqui assim sozinha. E junto com a gente, essa
vida nômade que levamos essa sorte errante de excursionistas, nem vai dar certo
nem vai lhe fazer bem. Você vai ver vai gostar. O chefão é gente boa é gente
finíssima - tentou se explicar o comerciante do deserto.
- É contra a lei maltratar crianças,
hein?! Vê lá o que vai fazer!
- Calma, nem tem que ter
desassossego. O gerente é gente ótima, rico, poderoso, mandachuva. Vai dar a
você uma vida de princesa, tudo do bom e do melhor, joias, vestidos, conforto, tapetes,
festas de aniversário, colégios muito bons, os melhores estudos, as férias
agradáveis por todos os cantos do país...
- Quantos dinheiros estou valendo
neste mercado de ofertas clandestinas?!
- Bem, você é menina, bonita,
inteligente... uns quinze, uns vinte, talvez oitenta pacotes de notas de cem.
Umas mil notas do lobo-guará.
- Só isso, meu carinha?! Tá me
vendendo a preço de banana! Nem sou abacaxi ou me pareço com abóbora!
- Vinte e cinco carros novos, novinhos
em folha...
- Mesmo assim! O que vou fazer de
novo pra este ricaço cheio de empregados por todos os lados?!
- Trabalhar pra ele e quando crescer virar mais uma
das suas protegidas? Você nem gostaria de ser uma filha adotiva? É uma, hein?!
- Nem sei e tenho receio de pensar
nisso! Isso é surreal!
- Olha, querida! Tivemos despesas com sua alimentação
estadia transporte atendimentos cuidados, entende?!
- Que D, o Exaltado, nem te ouça!
Como pode doar uma pobre e boa menina igual a mim?! Olhe, cara, que tô de
queixo caído e magoei!
- Menina pequena de menor só dá
despesa, inda mais o colégio as roupas os calçados a saúde a alimentação os
melhores professores e livros e idiomas... Se pelo menos soubesse cozinhar
lavar passar, enfim, se virar sozinha na cozinha...
- Nem vou dizer mais uma palavra,
entendeu?!
A menina foi para a antessala
doméstica do casarão e nem mais nem menos talvez sim e talvez nem quem sabe. E
a partir de então passou a viver no palácio Estanco (este era o nome do
palacete construído no início do século XIX) e a conviver com outras tantas mil
empregadas serviçais vigiadas por câmaras de tevê em circuito fechado 24h.
Entre tantas serviçais comportadas,
Lilás conheceu a também empregada doméstica, muito bonita, muito esperta, muito
narrativa, muito falante, chamada Amaribá. Pouco mais velha que a menina. Fizeram
grande amizade e uma abraçou a outra e vice-versa.
- Você é mais uma das empregadas do ricaço,
tia Amaribá?!
- É, mas desafortunadamente ano que
vem isso vai acabar. Tudo tem seu prazo de validade e seu tempo de ir e vir.
- Por quê?! Ele enjoou da sua nobre pessoa?!
Foi demitida?! Acabou o contrato de serviço?! O mundo entrou em recessão e
crise?!
- O chefão é muito cheio de si,
volúvel, exibido, tem todos e tudo aos seus pés, ao alcance das mãos, muito
poder e etc. Ou seja, e faz o que bem quer e nem tá nem aí.
- E você voltará pra casa?! Voltará
para a sua cidade natal?! Vai conhecer o Pantanal mato-grossense?! A praia de
Barra Nova em Cascavel?!
- Aí é que tá o causo e o probleminha.
A tradição por acá nem aceita que a mulher retorne para a casa dos pais. A
saída seria me transferirem para um outro poderoso cacique qualquer. E eu nem
quero mais ser empregada de ninguém. Sabe, aqui temos uma vida boa, temos
comida à vontade, o palácio Estanco pra morar, os outros serviçais amigos pra
nos servir, vivemos em calma, vivemos sem sustos, carteira assinada e
aposentadoria. Passeamos as tardes pelos jardins, passeamos as noites
estreladas pelos jardins e pomares e quintais. Que D, o Majestoso, guie minha
sorte.
- E nem tem mesmo nenhum jeito do cacique
manter você aqui?! - perguntava a menina, insistindo e batendo nesta tecla.
- Por D, o Judicioso! Bem que
gostaria de encontrar uma saída. Quase nem durmo, me alimento sem muito apetite,
bebo os chazinhos com colherinha, ando aborrecida pelos cantos pensando que
minha sorte em breve cambiará mudará. Enfim, o mundo tá muito grande ou muita
coisa acontecendo.
A sorte no palácio era tranquila,
monótona, quase toda certinha, praticamente silenciosa. Os parentes do chefão
aguardavam cada um seu dia e hora para falar ou ser entrevistado. A agenda do
cacique era muito lotada e concorrida. Os parentes familiares ficavam pelos
corredores, quartos, cômodos, piscinas e pátios papeando, jogando baralho,
assistindo tevê ou cuidando dos estudos roteiros das viagens de turismo... Nem
trabalhavam, levavam uma vida de príncipes e princesas, levavam os dias na
moleza, na preguiça, subsidiados. Lilás, que era muito criança e energia de
sobra, resolveu tecer um longo e bonito tapete. Mandou comprar os fios e pôs
mãos à obra.
- Coisa linda! - falou sozinha e em
voz alta a Lilás.
Os meses passavam depois de muitos
dias em cadeia. As horas demoravam um dia todo e muitos minutos associados. O
ano ainda nem chegara ao fim e continuava andando normalmente. Quatro km e 4
mil m. Um dia, pela manhã, dez e vinte daquela manhã, a menina Lilás teve a
visita da amiga Amaribá. Esta vinha toda agitada e intempestiva e bem arrumada,
roupas azuis e cabelos ordenados em cachopa:
- Já me disseram qual a mania do cacique
- veio dizer, toda precipitada, a bela e sagaz Amaribá.
- E qual é?! Assistir corridas de
cavalos no hipódromo da Gávea?! Presidir concursos de beleza numa ilha
paradisíaca tipo ilha de Paquetá?! Tomar água de coco numa praia do Ceará tipo
Canoa Quebrada ou Jericoacoara?! Contar moedas de ouro moedas de prata moedas
de cobre?! Comprar jatinhos de luxo e viajar o país todo o mundo completo?!
Contratar craques de futebol e fazer um supertime para ganhar todos os
campeonatos?! Passear andando de bíci na avenida Baía dos Golfinhos na praia da
Pipa?! Velejar navegar em a lagoa de Guaraíras?!
- Que nada. A mania do mandachuva piaga
é ouvir histórias e contos e causos. Por D, o Glorioso, eu sei tantas!
- Histórias com H maiúsculo,
histórias de ficção?! Mas haja histórias, minha amiga! Quantas histórias o poderoso
deseja?! São todas as histórias do mundo?! Histórias de bichos falantes?!
Histórias catalogadas no museu do Homem Americano?!
- Estou começando a lembrar de
algumas muito longas longas e fabulosas. Minha avó era grande contadora,
aprendi com ela, aprendi muitas. Tenho também algumas lendas de silvícolas e de
jabutis e de negrinho do pastoreio...
- Que D, o Eterno, a ilumine!
- Sim e que D, o Maravilhoso o
Fabuloso, me inspire com muitas imagens e figuras e tramas e enredos e cenas e
cenários.
A menina, por seu lado, continuava também
a tecer seu rico e comprido tapete. Levou dias. Teve paciência. Mais uns dias
sem ver as horas passar. Quando apertou o último nó do último fio da última
linha, bem aí, o tal tapete começou estranhamente a levitar, subir, querer voar,
trepidar, ondular, periclitar. Lilás vibrou na hora h, original:
- Coisa linda!
Voar é coisa fácil para quem tem a alma pura. Alma
pura é alma leve como pluma. E o tapete era novo em folha e cores definidas.
Lilás sentou sobre ele para tentar acalmá-lo segurá-lo mas, assim mesmo e por
que nem, ele saiu voando pela janela. O tapete saiu voando, rodeou a palmeira
uruá, a menina na carona, a menina quase assustada, olhando o palácio Estanco
do alto e admirando a mata de cocais, babaçus, buritis, patizeiros, tucuns,
carnaúbas, macaúbas... Muito bem mesmo. A menina veio outra vez exclamando
confirmando, empolgada:
- Coisa linda!
Sobrevoaram o palácio, olharam os jardins do palácio
lá do alto, e eram mais bonitos, contornaram as coberturas e tetos e telhados e
outras decorações de luxo, a cidade em todo seu labirinto de ruas e avenidas e
praças, e foram porta afora pelo mundo pelo espaço pelo universo... E noroeste
do nordeste. Quase mata atlântica ou tipo floresta estacional semidecidual. A
Lilás sacolejando na garupa e de carona:
- Coisa linda e absoluta!...
Lilás nem tinha controle sobre o
porquê o rumo o trajeto o destino daquele tapete móvel super-herói. O tapete ia
mesmo para onde bem entendia e todo precipitado. Sobrevoavam outras cidades
tipo São Sebastião do Maranhão (que nem fica no Maranhão) e Paço do Lumiar (que
fica no MA) e Ocara (que fica no CE) e Rochedo e Ribas do Rio Pardo (que ficam
em MS) e Teresina (homenagem à imperatriz Teresa Cristina) e localidades e
outras montanhas, rios, bosques de taquaras, sangas, caponetes, beira-rios,
banhados, faxinais, restingas, hidroelétricas... Na altura encontravam pássaros
curiosos os japiins, gaviões, andorinhas, sabiás, arapongas, guiratãs, patos-almiscarados,
asas-deltas, aviões de patrulha, nuvens brancas e leves, satélites artificiais,
balões panorâmicos... E Lilás já nem sabia como e quem e nem por quê, se
perguntava:
- Oh, tapete maluco! Quer me
dizer... o pra donde estamos indo?! Tá zanzando a torto e a direito!... Já fico
e tô tonta tontinha!...
O tapete voador relinchou,
corcoveou, deu mais uns pinotes, e fez mais umas curvas, desenhou umas voltas
revoltas reviravoltas pelos céus de anil... Parecia nem acabar o combustível.
Atravessaram nuvens e tempestades e raios e trovões até que, opa!... o tapete
virou de costas para baixo e jogou a menina lá do alto, lá do trecentésimo
andar do céu. E de lá do céu ela veio caindo, aaaaah!... esbarrou na copa das
árvores de plantão, das plantas, dos arbustos das guaviroveiras dos
angicos-de-montes dos catauaris das sapopemas... trepes!... e chepes!... e
encontrou o espigão de serra o solo, tummm!... tchibum!... Prontamente, e
dolorida, e doída, Lilás se ergueu e cerrou os punhos e gritou pro tapete que
fugia lá entre as nuvens:
- Seu picareta, seu capacho, sua
alfombra, isso são coisas e modos de tratar uma pessoa livre e democrática?!
Venha cá de volta se ocê for tapete de verdade! E nem tive medo, viu!
A menina Lilás, cansada e dolorida e
indignada, nervosa por cima até a tampa, ainda ouviu o tapete relinchar igual
cavalo picaço selvagem e bravo:
- Iiiieeeéh!... - traduzindo: uma
gargalhada tipo ah ah ah!... ou kkkkk!...
A garotinha bateu o pó o calor o
desassossego, sentiu o corpo para ver se estava tudo como antes e dentro dos
conformes, se nada havia quebrado, torcido, arrependido, perdido e andou... Deu
a volta por cima. Caminhou beirando uma pequena lagoa da Jansen em a região
Campo de Perizes e sem saber aonde chegaria. Andou, cruzou os braços, olhou a
paisagem nova o morro do Chapéu tipo escarpas penhascos peraus e rio Sitiá e
elevações agudas e serra do Estevão e encostas íngremes... Relevo, então, nem
tão moderado clima tropical e ou semiárido. Nem sabia onde estava e nem onde
queria chegar, uma vez.
Por volta das horas e horas de estrada, viu uma
figueira-brava e foi até sua sombra. Encontrou o pajé (nome real oficial Gogote
ou Cogote) cochilando sob essa uma árvore e o chamou e o despertou, anunciou:
- Desculpe!... Por um favor!... O moço nem poderia me
dar uma luz?!
O pajé moço então abriu os olhos, piscou
os olhos, se esticou todo ou em parte, bocejou preguiçosamente, piscou várias
vezes os olhos para acostumar a vista, colocou a mão em pala sobre os olhos
para protegê-los do sol, olhos negros, bocejou, “ooofe!...” e “nhã nhã nhã!...”
esticou os braços (provocando aqueles estalinhos gostosos nas juntas), abriu
bem a boca, “ooofe!...” e disse, e falou, e compôs, e emendou:
- Como ousas interromper o sono do
seu glorioso feiticeiro xamã dos xamãs? Quer que eu lhe transforme em anfíbio
sapo-da-areia ou saracura ou abelha vorá? Eu tenho esses poderes e me sobram,
tá ligada?!
- Tô perdida! E fui jogada fora pelo
tapete voador e agora procuro o caminho pra cidade mais próxima! Quer mais?!
Poderia me dizer se é por aqui, por ali, por acolá?! O que mais! Você conhece o
salto do Itiquira a cachoeira do Bisnau?! Você ouvi falar de Santo Inácio do
Piauí e ou Luís Correia e ou São Miguel do Fidalgo?!
- Tupã reside em todas as coisas,
ouviu, viu? Vou lhe dar ex: no rio Maranhão nas abelhamirins na quina-cruzeiro
na caúna na curuatinga nas pombas-amargosas...
- Sei mas... e o caminho para a
cidade mais próxima?! Me empresta o celular?! Você tem e-mail?! Qual o seu
endereço na cidade?! Você vem de Piracuruca?!
- Tupã governa os homens as mulheres
as crianças... os bichos em geral as árvores os rios as pedras... Todas as
coisas são um só Tupã. Posso dar os ex: o arbusto cocão o pássaro guaxe o
roedor ouriço-preto a trepadeira cipó-escada o rio das Bicas...
- Tá bom e está ótimo! Será que eu
poderia beber um suco de maracujá, ou de caju, mandar uma mensagem?! Conhece
Terenos, conhece Chorozinho?!
- Essa árvore que nos acolhe com sua
sombra, essa figueira-brava que já viveu cem anos... está percebendo? Pois bem,
que ela também é Tupã. Quer ver mais: abelhas guiruçus, rio Pindaré, ilha de
Upaon-Açu, árvore pata-de-vaca, monumento do Jenipapo...
- É por isso que a árvore é legal a
sombra é legal tudo é legal, né?!
- Nem é bonito, então?! - discursava
o pajé moço. Repare e pense um pouco nos manjericões-do-campo as onze-horas as
flores-de-jesus no rio Banabuiú nas manjubas que nadam em cardumes pelo largo
mar oceano...
- O tapete voador, que me atirou
nesse fim de verão, também é Tupã!
- Eu, você, todos nós somos o
próprio Tupã. E digo mais: imbuia-clara, cabriúva-vermelha, cambuí-preto,
coirana-do-rio-de-janeiro, guamirins...
- Já ouvi dizer que Tupã é o perfume
da luz a poeira das galáxias o som do espaço a cor do mar a razão de estar!...
Acho também que me disseram que Tupã é luz perfumosa as flores do campo as
crianças brincando ou mais além disso! Enfim, o mundo é grande!
A menina, de repente de supetão,
queria brincar de correr ao redor daquela figueira-brava. O pajé moço falava...
A menina nem correu e nem brincou e nem pesquisou e nem estudou... Pajé moço
ensinava ou queria ensinar estas coisas desde os pormenores:
- Tupã é muito comum mesmo. Tupã é
mistura fina. Tupã é D é Alá e é Todo-Poderoso! Tupã passa a ser, por seu
grande sucesso, o excelso o elevado o sublime o eminente o alto o maioral...
Quando anoitece parece ser a lua prateada disposta faceira, quando amanhece o
sol brilhante incendiado aceso...
- Já entendi tudo! Tupã é a jabuticaba
do pé, a jabuticaba que cai, a jabuticaba que vira geleia, a jabuticaba vendida
na feira livre da rua Lambrequim todas as segundas e quintas-férias, a jabuticaba
que esqueceu de virar jabuticaba!...
- Veja bem, observe: Tupã é curupira,
saci, iara, boto, jurupari, samba de cumbucaoda de São Gonçalo, cavalo piancó,
cacuriá, terecô...
A menina ficou ouvindo aquele moço
até que pôde, depois descontraiu relaxou ali mesmo escorada na figueira-brava. Da
manhã até lá na tarde o sol sempre vai longe. O universo nem precisou da menina
Lilás para nada. E pá daqui e pá dali, e pá ali e pá aqui. A menina restou em
algum lugar ali recostada na tal árvore frondosa.
Depois, uma ou
duas horas após, alguns ruídos a fizeram voltar. Olhou pro lado e nem viu mais
o pajé moço. Nem rasto do piaganismo paganismo piaga. Vinham, isso sim e pela nobre
estradinha de terra vermelha, umas carroças puxadas por cavalos atucanados
apoquentados aborrecidos, carroças e carretas carregadas de tralhas e pessoal
de circo pessoal de teatro ao ar livre feirantes sacoleiros... A menina se
levantou e foi até eles e elas e aqueles e aquelas.
- Oi, gente! Poderiam me dar uma
carona até a próxima cidade?! Posso trabalhar pra pagar o favor a comida o teto
a companhia!...
Dentre os poucos integrantes do distinto
teatro ou circo ambulante, se destacou um homem vestido todo em preto terno e
calças e cartola e bengala e que se chamava: Peia!
- Noto que você é lilás - foi
dizendo o próprio. Muito bem! E poderá ser útil ao circo mambembe. Venha,
embarque aqui na carroça. Sou Peia!, dono e gerente e mágico da cia. Estamos
viajando pelas várias capitais do mundo conhecido e ex: Aracaju, Belém, Rio
Branco, Brasília, João Pessoa, Guaraciaba do Norte... E apresentamos nossos
apreciados e sensacionais números teatros jogos recreações atrações shows sem
iguais, e mais outros grandes percentuais investimentos, etc., e tal qual.
- Realmente! Alguns destes tipos
aqui presentes eu nunca vi ainda e me surpreendem e me impressionam! - dizia de
sua parte a menina Lilás.
O senhor Peia! foi apresentando,
assim mais ou menos, os atrativos atrações estranhos esquisitos habitantes do
seu circo ambulante:
- Temos cobra com asas, temos cavalo
vaivém (xifópago ou geneticamente alterado), temos galinha que põe ovos de ouro
e prata, temos porquinho cantor sertanejo universitário, temos tubarão de água
doce, temos teiú que anda a pé sobre as águas, temos funcionário público padrão
exercendo triple função de juiz e ministro e desembargador...
- Como é conviver o tempo todo com
estes seres exclusivos inéditos fantásticos?! Deve ser muito curioso e
instrutivo e esportivo, né?! Vocês levam em conta as redes sociais?! Ou a mídia
em geral?! Já desfilaram veranearam pelo cânion do rio Poti?!
- Sou um senhor de espetáculos, sou
um máscara, sou um mágico, sou um elefante branco, sou um artista, sou um
excêntrico, sou muitos em um ou múltiplo de um. E pra mim tudo é teatro e lazer
e recreio e entretenimento. Sempre digo: os talentosos fazem rir e chorar, e os
comuns mortais fazem aplaudir. Temos ainda a mulher barbada, temos o homem de
olho só, temos o anão com penas de pavão, temos a menina com boca na barriga ou
abdômen, temos o rapaz com músculos de borracha, temos a adolescente que
encanta os animais com sua voz maviosa, temos...
- E aquela senhora ali de vestido
azul sapatos grandes óculos escuros e cabelos lisos longos livres?! - indagou a
Lilás.
- É minha mulher e esposa e
companheira e sócia. O nome dela se diz Juju. E Juju é nome que dá sorte. E
descendente dos antigos índios xipináua. Ela nem gosta de falar pras histórias
de ficção. Natural da cidade de Guarapari e morou muitos anos em a aldeia dos
timbira à beira do independente rio Maracaçumé. Ela é habilidosa na hora de
fazer sopas de legumes, sopas de arroz, sopas de massa, sopas de letrinhas...
Praticamente só comemos sopas de legumes e ou ervas medicinais. Ela é ótima com
vegetais nutritivos, é.
A próxima parada foi numa vila de
catadores de cogumelos silvestres. Vila Quitungo na comarca de Aijulata. Uma
zona região de muitos alagados banhados riachos córregos regatos. O circo ou
teatro de feira livre foi montado na única rua do lugar a rua Folhelho, sem as
arquibancadas sem o toldo sem banheiros químicos sem barraquinhas de artesanato
local... Ficariam dois dias duas noites e algumas horas. Fariam um espetáculo na
tarde de domingo a tal matinê. Ingressos comprados na hora e diretos na
bilheteria.
- Para o espetáculo de domingo eu
bolei uma atração extra, única no mundo. E exclusiva. E inédita. Bem como Ao
Vivo!
- Mais uma atração sensacional?! E
qual é?! Pode me antecipar?! - perguntou Lilás.
- Quero ser enterrado no picadeiro
ou palco ou cenário durante o transcorrer do show. E só sair de dentro da terra
no final do espetáculo, duas horas depois.
- Você quer ficar enterrado nas duas
horas do teatrinho?! E se você sufocar?! E se você nem aguentar a falta de ar,
hein, seu Peia?!
- Qual o problema? Sou iogue e
desenvolvi um método de concentração que me permite suportar por horas e horas
sem respirar sem comer sem beber sem falar.
E foi feito de acordo com a vontade
do dono do cirquinho. Peia! se colocou dentro de um buraco aberto no chão do picadeiro,
quando do começo do espetáculo, e ficou ali mesmo até o seu término.
Desenterrado no final, sacou a cartola da cabeça bateu a poeira dos ombros mostrou
uma flor em botão de chá-pomonga do mesmo bolsinho superior do casaco preto e se
curvou respeitosamente diante do público para receber aplausos e vivas e
assobios. O público nem havia entendido 100% quase nada, mas aplaudiu de pé emocionado
delirante contente satisfeito recompensado.
No dia capítulo seguinte levantaram
acampamento rumo a uma cidadezinha no deserto central do Estado. Talvez fosse Tasso
Fragoso ou Sambaíba ou José de Freitas, quiçá mesmo uma localidade do extremo
oeste tipo Buriticupu ou Parnaguá ou Ipaporanga... Antes, porém, tiveram um
contratempo um acaso. O dono do armazém em vila Quitungo, que fornecera a
alimentação para as pessoas e bichos do circo, queria receber o seu justo e
honesto dinheirinho. Como dinheiro nem houve e nem havia, devido à baixa
bilheteria, seu Peia! teve que deixar em troca do pagamento o cavalo vaivém, e
mais a cobra alada e ainda o cantor das multidões. Os dois coelhinhos da
cartola, branquinhos purinhos inocentinhos orelhudinhos, foram trocados por uma
bojuda bombona de água mineral. A pomba da cartola preta, branca e alada e
solteira e doméstica, voou para a igrejinha antiga da vilinha e nem voltou
jamais jamé.
No caminho para a próxima cidade,
talvez fosse o arraial de Burel ou o território dos guerreiros acroá, o seu Peia!
foi tendo ideias e falando pelos cotovelos:
- Tive uma ideia para minha
apresentação na aldeia de Burel.
- De repente, né?! Vai que cola!
- Seguinte. No palco, diante da
distinta e numerosa plateia, comerei cacos de vidro. Muitos cacos de garrafa. Coloridos
cacos de vidro.
- Impressionante o seu apetite! E se
der indigestão ou congestão?! Nem prefere uma sopa de beterrabas ou de agrião
ou um quinhão de hidromel?! Uma sopa de jiló ou cará-do-mato?! Uma sopa de
chuchu ou um lauto jantar-ceia dos brotos de ginjeira-da-terra?! Conhece?! Ouvi
falar?!
Ficaram na cidadezinha da aclimatada
caatinga cinco dias e seis noites. Talvez fosse mesmo a infância da vilinha uma
única rua conhecida como Escabelo. Em cada dia de espetáculo, Peia! mastigava
um prato de multicoloridos cacos de vidro e quebrados na hora. Buscava umas garrafas
potes jarras jarros vazios jogados fora quebrava e comia. E um pedaço por vez
crocante, croque! croque!...
Tiveram a desafortunada aventura de
pegar alguns dias de chuva ventos fortes alagamentos enxurradas ali na região
do Grasso ou Crasso onde o público foi escasso fracasso fraco pequenino mirrado
praticamente nulo simples circunstancial. E como falta de dinheiro nem dá fama
nem história a ninguém, perderam o homem de asas que fugiu mais a mulher
barbada e o menino que sabia assobiá os vários sons do sabiá-laranjeira. Esta
extraordinária família fugiu por conta dos salários atrasados e ofertas salário
melhor de outro circo concorrente, diga-se de passagem. A boa família de
incríveis personagens ainda carregou o porquinho cantor e a galinha dos ovos de
ouro e prata. Nem se viu ou se ouviu para qual destino correram se mandaram acaso
foi a cidade de Camboriú ou Balneário Camboriú quem sabe o parque do Bacanga ou
mesmo a ilha Tauá-Mirim ou a praia Santa Mônica ou quem viu e ou peregrinou o
santuário N.S.I. Rainha do Sertão...
Mais uma vez o Peia! se viu preso
aos problemas econômicos e de falta de grana, etc. E tinha esperanças e ideias novas
inovadoras na cartola mágica, isso sim, e normalizou:
- Que contratempo, meu! Devem ter
sido raptados, pois jamais me deixariam a ver navios - tentou se convencer o
mágico Peia!
- É sem dúvida uma grande perda! Uma
família inteira de artistas excepcionais! - suspirou Lilás, sorriso terno olhos
vivos sem cometer gafes simpática movimentos rápidos.
- Mas tudo bem, minha carinha! Vamos
em frente que chorar o leite derramado nem é comigo. Para a próxima cidade
pretendo apresentar uma nova e surpreendente atração.
- Mais uma das bótimas! Que seja tão
boa quanto ótima!
- Seguinte. Vou tapar meus olhos e,
de uma só vez, jogar vinte facas em volta do alvo humano. Uma cena de muita
ousadia e valentia.
- E quem será o corajoso alvo humano
das facas ou facadas?! Isto sim que é perigoso e perigosíssimo! Meus parabéns!!
- A minha mulher e esposa, a minha
cara-metade, a dona da minha casa ambulante chamada Juju, é claro. O nome Juju
já diz tudo: é sorte é sucesso é fama é estrelato.
A cidade mais próxima ficava ao pé
de uma montanha nas margens do parque Paulo Cesar Vinha região antigamente
povoada pela tribo dos amanaié. Era uma cidade que vivia escalando a montanha
os morros o pé da colina. De nome a cidade se chamava ainda hoje, Morros. Uma
bela montanha toda polida pela chuva e pelo vento e pelo tempo, parecia estar
ali há 50 ou 60 ou 70 milhões de anos, enfeitava o panorama. A montanha esta
que referimos vem a ser a Pedra da Galinha Choca junto ao açude do Cedro. Entre
uma coisa e outra de atração turística e já antiga, muitas árvores frutíferas
ou de boa sombra ótima qualidade de lei: carás-do-pará, guanandis, espinhos-de-cristo,
guajaraís, fetos-aquilinos, timbós-do-campo, cipós-trindades...
Foi nessa área que o circo do seu Peia! foi aportar e
se estabelecer momentaneamente temporariamente. Tiveram a concorrência de um
circo alemão germânico tedesco importado do sul do B. Mas o matuto Peia!
confiava no seu braço para arremessar as facas pontiagudas. Dona Juju confiava
na esperança e na fé que ela mesma tinha. O senhor Peia! pensava, e tinha
certeza clara, que todo o povo da cidade correria para ver seu espetaculoso, perigoso,
inventivo, sofisticado e arriscado número. Proeza única na história do
entretenimento. Algo tão grandioso que nem no cinema dos efeitos especiais.
Tiveram três noites de razoável
público comparecido. Mas na quarta apresentação houve o acaso do, opa!... e do
descuido. O empreendedor Peia! acertou uma facada uma das facas voadoras na
perna da mulher companheira e esposa, sua dedicada e solidária senhora de
muitos anos, a dona Juju a matrona Juju. Aconteceu tudo muito rápido. Socorreram
imediatamente a vítima, mas o hospital cobrou os olhos da cara. Tiveram que
vender ao concorrente internacional alemão do sul meridional do país todas as
melhores atrações, e que já eram as últimas: a menina com boca na barriga ou
abdômen, o anão pavão, a dupla de morcegos cantores sertanejos universitários,
o bugio que imitava o presidente da república, o peixe-boi que sabia respirar
fora da água por mais de meia hora, a mulher de dois metros e oitenta
centímetros, o gato doméstico encanzinado, o periquito-de-santo-antônio que
sabia mais de cem palavrões...
O mais-que-perfeito Peia! nem se
dava por vencido nem se deu por achado. Sempre pensava o depois, o que viria, o
que restaria a fazer, o adiante, o amanhã. E disse, teórico:
- Nem importa. Tive outra ideia
excelente onipresente. Iremos pra capital do país, cidade de Curitiba, e lá
desafiarei o mundo. Baterei o recorde da fome: sessenta e dois dias sem comer
sem botar alimento no meu estômago.
- Mas o senhor já é um faquir! Pra
que exagerar?! Nem seria hora de arrumar um emprego normal numa fábrica no
comércio num banco numa fazenda do agronegócio, hem?! - orientou e opinou a
menina Lilás, garotinha luminosa limpa cristalina cintilante sorridente
contentíssima.
- Com esse desafio ficarei poderoso,
ganharei dinheiro e notoriedade internacional. Meu nome irá parar nas
enciclopédias nos livros didáticos ou paradidáticos nacionais e internacionais
de todos os países e nações. É o tudo ou o nada! Vou tentar, porque ousar é o
meu limite.
Foram para a capital dos paranaenses
a menina Lilás, Peia!, a dona de casa Juju - que agora puxava lentamente por
uma perna. O circo ou teatro mambembe acabara e nem restava mais nenhuma
carroça carreta caminhonete caminhão ou cavalo ou atração, mais nada. Era só
isso mesmo. Só eles três assim como as Três Marias estrelas do céu. Cruzaram
imediatamente a ponte Sotero dos Reis ligando as duas margens do rio Anil e a
partir daí desde a cidade de Gilbués até a capital Curitiba havia e apareceu um
mundo de mata e floresta com imensas áreas de plantações replantações ótimas
vistas de oitis, guaicãs, chichás, violetas-do-mato, tamboris, moreiras,
tuturubás... Há possibilidade da ocorrência de neblina, sempre que é Curitiba.
E noites de frio impressionante.
Vinte horas depois, e numa praça João Lisboa muito
movimentada da capital, colocaram uma caixa de vidro e dentro desta uma cama de
pregos com as pontas para cima. O mágico Peia! entrou e deitou mesmo, como um
faquir como um semideus como um mártir, no colchão de pregos verdadeiros. Tudo
tudo seria acompanhado dia e noite em tempo real ao vivo por milhares de
passantes, curiosos, invejosos, internet, umas dez câmaras de alta precisão...
E o tempo escorregou pela ampulheta (um aquele
artefato dividido em duas bolhas simétricas de vidro). E o tempo escorreu para as
areias das horas minutos segundos... Foram realmente sessenta e três dias e
noites sem comer e beber. O mundo deu todas estas voltas certinhas com a ajuda
dos calendários. Aconteceram coisas muito bacanas e aborrecidas pelo mundo
afora. Nesse tempo que Peia! ficou entocado na caixa de vidro a menina Lilás e
dona Juju tiveram de pedir esmolas na rua Guaxenduba e morar de favor na escola
de ensino médio Marechal Cunha Machado. Assim e embora, então, um pouco de tudo
e ainda muito mais.
Enfim, quando o destemido Peia! saiu da caixa de vidro
transparente, levantou do colchão de pregos depois dos sessenta e três dias com
noites, jornais, rádios, sítios e tevês do mundo todo caíram em cima dele como
moscas butucas urubus. O mundo inteiro queria saber tudo e mais um pouco. A
imprensa livre democrática predadora toda sedenta de sangue e custe o que
custar e doa a quem doer. Queriam a todo pano saber segredos do sucesso e
outros detalhes variados. Choveram propostas e ofertas e convites e contratos
milionários de publicidade. Vieram as famas, os autógrafos, as fotos e os
dinheiros. O bem sucedido Peia! se cercou de conforto, boa comida e bebida,
contratou serviçais, contratou seguranças, alugou dois amplos apartamentos, adquiriu
seis carros caríssimos - um para cada dia da semana- e no domingo descansaria, nem
sairia de carro nem de casa assistiria futebol pela tevê. Até o governador do
Estado um tal de Amaino Coque Franqueiro o recebeu no palácio Piratini e ou Farroupilha.
Até o presidente da república o recebeu no palácio da Alvorada e ou granja do
Torto. Foi, enfim e deste modo, o artista Peia! figura fácil nos programas de
auditório em todos os canais de tevê aberta e ou fechada.
Foi o próprio presidente da
república que o convidou para ser o candidato a governador do Estado de Goiás. O
distinto Peia! aceitou muito lisonjeado o convite e botou toda sua fama e grana
no desafio político. E perdeu. Todo mundo perde, mas ninguém sabe perder,
ninguém aprende a perder. E Peia! foi à falência totalmente e os amigos foram
embora, sumiram, escapuliram, se escafederam e se mandaram. O patriota Peia! saiu
da política pela outra porta, a dos fundos. Já devia na praça no banco na loja
no hotel e teve que sumir da cidade na calada da noite. Estava novamente
perdido, sem dinheiro, somente sobrara ele próprio, a mulher Juju - que puxava
por uma perna desajeitadamente -, e a menina Lilás. A menina tentou consolar o
mágico ex-milionário ex-famoso ex-candidato:
- É o que está escrito, seu Peia! A
sorte cheia das estatísticas dos altos e baixos como na montanha russa! Um dia
se perde e outro se vai lentamente levando! D ou Alá ou Tupã sabe o que faz e nem
adianta discutir! Há pessoas que só têm jiló pra comer e passam bem! Pra cada
ser que D aponta o dedinho da preferência da estimação, um milhão e meio carregam
o piano nas costas!
Seu Peia! já pensava outra coisa.
Nunca deixou por menos. Era um artista bom e talvez até um artista ótimo.
Pensou alto e divulgou:
- Vou voltar aos espetáculos de rua.
Afinal é o que sei fazer melhor. Sou um artista do povo entre o povo no meio da
multidão.
- É mais uma ideia perigosa e
difícil e tentadora?!
- Serei Jesus Cristo, no teatro ao
ar livre.
Foram para uma cidade modesta
pequena abandonada do interior do Estado mais novo da federação. Uma localidade
que nem tinha nem pracinha nem rodoviária nem trem nem linha de ônibus nem
aeródromo. Lugar de antigos garimpos e rodeada de um mato ainda quase todo
intocado virgem, siribás, beldroegas-grandes, aroeiras-do-rio-grande,
canelas-pretas, cururus-de-espiga, caiuiaçus, azeitonas-do-mato, podoís... Uma
vilinha um distrito com nome diferente: aldeia Brinquedo-de-Mola, banhada pelo
afluente tributário rio Mulato. As chuvas pluviosidade na área de ocorrência
deste clima tropical também eram e ainda são variáveis.
Ali ergueram uma cruz tosca num terreno baldio
desocupado propriedade do governo federal. Peia! aceitou a coroa de espinhos,
os açoites de relho de couro torcido, os pregos nos pés e nas mãos as cinco
chagas. A esposa Juju, a pedido do próprio Peia!, o pregou na cruz e o feriu no
lado da barriga com a lança. Ela se sentiu mal e desconfortável e abandonada e
rara e vomitou várias vezes, mas obedeceu obediente.
E o povo chegou para se lastimar e pedir e chorar
diante de JC crucificado. Era sem dúvida o próprio filho de D. E tão bem
representou o papel que o padre da aldeia nem gostou. A polícia foi chamada,
veio, chegou, olhou sem entender, retirou seu Peia! da cruz e o trancafiou numa
cela solitária por vinte dias - sem chuveiro de água quente, sem ar
condicionado, sem sobremesa, sem internet...
As horas eram longas na cadeia na cela feita de
concreto armado. Seu Peia! nem via as horas o tempo o espaço. Seu Peia! fazia
só olhar a paisagem quadrada da janela gradeada. Seu Peia! nem tinha D. Uma
cadeia simples, pequena, quente, fria, pobre, comum, vazia de móveis. Os
guardas e os outros presidiários acharam aquele JC muito gozado muito humilde
muito joão-ninguém. Riram aquele risinho, ih ih ih!... debochado, aquele ah ah
ah!... declarado, aquele kkkkk!... estilizado, oh oh oh!... bonachão. O presidiário
Peia! só bebia água da torneira. O pão deixava para repartir com os ratos as
baratas as formigas as lagartixas as abelhas vamos-embora os besouros as
libélulas e os passarinhos que vinham visitá-lo todo santo dia chova ou faça
sol.
Peia! foi solto num dia claro de
verão. Era uma terça-feira, mas parecia domingo. O céu era todo azul, sem
nuvens, sem passarinhos, sem aviões. A esposa dona Juju e a menina Lilás o
aguardavam na rua. As duas sobreviveram aquele tempo todo com caridade, esmola,
favor, sopa de cebola, sopa de alface, sopa de repolho, sopa de couve-flor,
sopa de cipó-tripa-de-galinha... Ficaram felizes quando viram Peia! saindo da
cadeia do reformatório. O senhor Peia! estava assim e assado bem magro elegante
conservado fino também sorria e com outra ideia dentro do coco da cachola do
casco da cabeça. O clima tropical quente úmido e tudo ao mesmo tempo. E o
distinto Peia! alimentava já uma outra ideia luminosa no interior do cérebro
massa cinzenta. Metade do ano predomina mais chuva e outra parte menos chuva.
Sendo o senhor Peia! e ele mesmo em pessoa personalidade, nem deixou por menos
e menor:
- Vou entrar na jaula com a
onça-pintada ou acanguçu. Me trancarei com ela e ali permanecerei por seis dias
sete ou até oito.
- E se a fera nem for com sua cara,
meu amigo?! - Lilás o alertou.
- Tenho um incrível controle sobre
os seres inferiores, lhe contei? É só nem demonstrar medo receio pavor que eles
nem lhe atacam. Sangue totalmente frio, entende? É preciso mostrar logo de cara
quem é que manda. Muito controle, muito controle e força mental. Usar da
psicologia. O domínio do homem inteligente sobre o animal irracional. E depois,
modéstia à parte, sempre defendi a natureza as plantas os bichos em geral.
Já e também de uma série
interminável de autógrafos, entrevistas e fotos e poses, a todos os veículos de
comunicação, Peia! entrou na jaula com o jaguar. Era uma fera selvagem natural
diretamente das florestas do pantanal mato-grossense. Uma jaguaretê bonita que
chegara ao zoológico para ser cuidada dos maus-tratos do tráfico ilegal e etc.
Nem deu tempo para nada. Nem deu tempo. Nem houve
tempo. Nem dois minutos depois a rainha das selvas tropicais da América do Sul
já tinha papado o mágico Peia! O bicho com certeza o confundiu com uma das boas
ofertas da natureza naturais. A senhora esposa e mulher Juju, figurante na
história, teve um treco e caiu dura mortinha da silva. É o que foi e nada além
ou aquém disso. Fazer o quê.
Era uma tarde como outra qualquer.
Parecia feriado. Parecia domingo à tarde. De repente, e somente por acaso de
repentemente, começou a cair uma tímida chuvinha que nem molhava ninguém.