Os índios caeté sabiam que existia uma
ilha da existência ali por perto existente, ali mesmo dentro sobre o rio
Itabapoana. Decidiram nadar até lá e esperar por dias melhores, esperar que o
mundo voltasse a ser como antes, esperar que o mundo se consertasse, esperar
que a terra se regenerasse, esperar que Tupã refizesse o tema da terra e o
mundo voltasse outra vez. Assim na terra como no céu.
Pajé Igarité, falou, filtrou, comparou,
decidiu, interpretou, fez valer sua autoridade religiosa:
- Rio Mampituba!... O mundo tá todo
acabado. Uma pena, uma pena. O mundo tá um deserto perfeito. Uma pena. O mundo
vai demorar para crescer tudo de novo. Uma lástima. O mundo vai ter de começar
tudo de novo. Uma pena. Tupã vai ter muito trabalho pela frente de agora em
diante. Mas vai valer a pena. Sinto que nada nada está tão perdido assim. Vamos
lá!
Ali na ilha, uma ilhota arredondada e
nem tão grande, flutuante, onde as formigas-quenquéns nem conseguiram chegar,
nem conseguirão, os índios e convidados continuaram a rotina comum simples
natural perfeita da tribo. A ilha estava arrasada pelo furacão mas ainda verde
ou mais ou menos preservada. Era já um começo ou uma esperança de recomeço.
Embora pouco para tanta gente, já era melhor que nada. Conseguiram somente umas
canoas pequenas e tímidas, estas comidas mais ou menos pelas formigas, as que
sobraram. Era o que se tinha. Petiço achou um rico taiobal, a menina esticou o
braço e colheu muitas pitombas e mangabas e cajus e amoras-bravas e araticuns.
A ilha era um oásis.
- Rio Iracema!... Este é nosso paraíso
que sobrou, gente! E é um sucesso, sem dúvidas - considerou o pajé Igarité,
vestido com algumas penas de aves e um poderoso milagroso maracá.
Os guerreiros subiram no alto de uma
colina no centro da ilha fluvial e olharam pelo horizonte em volta. Nem se via
nada se mexendo por fora da ilhota. Fora o verde da pequena ilha, além, árvores
em pé nem existiam mais, pássaros fugiram todos para o fim do mundo, bichos
rasteiros foram se esconder, o sol tinha enxugado todas as cores. A ilha era o
único espaço possível e mais ou menos. Por hora o único espaço livre de
formigas-quenquéns. Enfim, o mundo vivo se resumia somente àquela ilha pequena,
superpovoada supersaturada, ameaçando afundar por causa do peso, ameaçando
naufragar a qualquer momento, periclitante, balançante, rebolante, gingante.
- Rio Humboldt!... Você gosta de nadar e
conhecer o fundo dos lugares? - perguntou a cunhã Taleira para a menina lilás,
nomeada Lilás.
- Cau-le!... Já eu gostaria mesmo de
voar... num céu sem nuvens - notificou a princesinha.
Enquanto os caeté e os dois viajantes
intrépidos alugavam a ilha fluvial, as formigas-quenquéns foram destruindo a
terra mundo afora. E devoravam tudo que encontravam. E iam pelo mundo afora
comendo tudo que encontravam. Raras aves conseguiam escapar. Somente escapavam
algumas aves raras porque fugiam para o fim do mundo e muito alto. Já os bichos
rasteiros todos passaram pelo papo das formigas. E todas as plantas também. Uma
guerra implacável. A ilha era o que ainda restava.
- Rio Lajeado Agudo!... Tupã permite e
faça com que a ilha seja um território neutro e sem formigas - desabafava um
guerreiro o Cambaraí, olhando em volta e vendo aquela desolação toda.
- Rio Maria Preta!... Eu espero que sim.
Espero mais que qualquer coisa - desejava a índia Garriça.
- Rio Lambedor!... Vamos todos torcer. E
que o mundo recomece a partir daqui - queria muito e muito bastante o velho
guerreiro Pixurim, sujeito honesto histriônico cômico.
Depois desse extermínio gigantesco e
total, depois de passar o mundo todo no papo, as formigas-carregadeiras foram
subindo pela mais alta montanha do mundo, a montanha Roraima, e embarcaram na
lua. Esperaram a lua passar bem perto da montanha altona e pularam na lua.
Formigas na lua. Uma formiga guia na frente orientando e todas todas (duas
vezes!) seguiam comportadas resmungonas elétricas e um formigueiro nuvem
rasteira onda gigante comilona gulosa glutona.
A lua era o céu das formigas, a lua era
a terra das formigas, a lua era o país das formigas. A lua era a utopia das
chanchãs, agora. A lua era a ilha prateada das quenquéns-de-monte. Dominando o
mundo da lua, as formigas-de-ferrão estes insetos acrobatas anemóbatas
aramistas funâmbulos, ficaram de bem com a sorte sorteada sortida.
Da lua, as gordas avolumadas
formigas-caiapós olharam para trás e viram o estrago que recém tinham feito com
a terra nesses últimos dias e horas. Umas até caçoaram, dizendo batendo
antenas, teimando, determinando, tremendo de orgulho, tremendo de vaidade e
presunção:
- Uta!... Foi mal e foi mau, meu! Quanto
sucesso, hein?!, parcerias.
- Uta!... Gosto desse caos! E acabou o
que era doce! Nem só gostei como um dia vamos repetir a dose. A Terra é sempre
a nossa terra natal, nem é mesmo, gente?!
- Uta!... É, voltaremos e lá estaremos!
Hoje ainda se vê as formigas-quenquéns,
que facilmente mudam de opinião, comendo a lua aos pouquinhos e simplesmente. A
lua mesmo dá demonstração disso e ora é cheia ora é minguante ora é nova ora
está cicatrizada, etc., variável, aceitável, apresentável, mais ou menos
platinada.
E numa noite ao redor do fogo de chão,
na ilha flutuante e fofa, comendo frutas do mato sobreviventes,
araticuns-do-mato, açaís, araçás-do-campo, pequis, butiás, jabuticabas,
pitangas... contando histórias inventadas, o cacique Maçaranduba avisou todo o
mundo da aldeia, incluindo os dois viajantes incidentais, opinou, jogou, optou,
folheou, comparou a-b-c-d-e com um 2 três 4 cinco e disse:
- Rio Caraá ou Carahá!... Amanhã de
manhã, bem cedo, vou soltar a minha xerimbabo maitaca-roxa de nome Pixuna. Ela
vai ver se a terra já renasceu para lá do horizonte. Se Pixuna voltar, é porque
a terra virou um deserto e nem tem mais cura. Se Pixuna nem retornar ao meu
ombro, é porque a terra recomeçou a verdejar em algum lugar em algum lugar. É
uma ideia ideal, é. E eu aprovo. E eu compartilho. E eu tenho imensa fé nisso.
Já na manhã seguinte, um dia de sol
muito bonito, céu claro, calor agradável, o cacique Maçaranduba largou Pixuna a
maitaca-roxa e recomendou, cumpriu, completou, explicou, floreou:
- Rio Vacas Gordas!... Vai, vai,
maitaca-roxa Pixuna! Nem precisa voltar, uma vez! Encontre o que comer, tá
certo?! Vai com Tupã e pode ficar por lá!
A ave maitaca-roxa Pixuna, palhaça
comediante bufona, pegou o espaço aéreo alçou voo e se foi. De longe ainda
disse, agradecendo, gracejando, falando na língua dela, articulando, compondo,
chalrando, palrando e dando uma última volta reviravolta aí:
- Treeeei! Treeeei!... Obrigada,
obrigada!... Até um dia!! Vai ser o máaaximo!
Depois, já na noite aí na ilha pequena e
balançante e quadrangular, o cacique Maçaranduba contou a história da criação
do mundo ou universo. Como tinha sido o começo do começo e já passado. E que
nem foi fácil e existem muitas controvérsias, muitas versões, muitas histórias
mais ou menos iguais, muitas lendas, muitos começos, muitos finais. Muitos
recomeços e reinícios. Cutucando o fogo na fogueira com uma varinha de caxim, o
cacique taramelou tagarelou destravou, sotaque tupi-guarani, narrou, edificou,
construiu, acompanhou, fez gesto longo com a mão em arco, narcotizou (no bom
sentido da palavra), hipnotizou com seu tom ou voz de barítono:
- Rio Acaraí!... Digo eu começando do
início. Uma gralha-azul, falante e risonha e simpática, bonitona, aerodinâmica,
penas azuis brilhando ao sol, caiu do céu das aves e voou por toda a terra.
Caiu sabendo voar. Remou voando pelo ar elemento. Nadou batendo asas pelo
espaço aéreo terráqueo. A terra completamente despovoada anônima desabitada, um
vazio só de terra e areia e pedras e rios e mar salgado. A terra um sossego
silencioso e pobre e de muita luz. E a ave voou à procura de alguma coisa para
comer, por exemplo. É o que todos pensam nessa hora, comer e beber. Tentou
comer grãos de areia, tentou comer terra roxa ou terra vermelha ou tabatinga,
tentou comer ouro, pedras lisas, pedras lascadas, pedras preciosas, rochas
vulcânicas, tentou beber água salgada, água salobra, bebeu água doce, e foi só
apenas isso. Já tinha aprendido um montão. Já tinha ideia do lugar do local do
pedaço.
“Taí, e a ave nem conseguiria sobreviver
na terra somente à base de água doce e água limpa e água boa e água mineral.
Estava sempre com fome e bebendo água pura da melhor qualidade. Precisava
encontrar comida e várias opções de comida, refeições equilibradas, cores de
comidas, grãos, legumes, frutas e pequenos insetos. Uma refeição balanceada. E
tudo em boa quantidade e de grande variedade para abrir o apetite. Mas que
nada! E nada de saciar a fome e a vontade de comer.
“A gralha-azul, então, pensou um pouco.
Pensou mais... E decidiu voltar para casa, para o céu, para o celeste, para o
palácio nas nuvens. Para o céu das aves, a nuvem das aves, céu de todas as aves
em geral. Mas sempre com a ideia de tirar a sorte grande na terra, voltar para
a terra, imigrar definitivamente para a terra, fazer fortuna na terra, tomar
conta do território enorme da terra, expandir um território império,
conquistar, reinar, governar, ir e vir, jogar e se multiplicar.
“O retorno para o céu foi mais demorado
e mais longe e mais desgastante e mais distante. A subida era bem mais difícil
e trabalhosa e perigosa e podia até escorregar e quebrar as pernas e as asas.
Voou de volta e demorou mais de 200 dias e 199 noites. Só depois daí que
encontrou o céu, ou melhor, a nuvem que era o céu das aves, de todas as aves,
pássaros e passarinhos e aves. A casa das penosas e plumosas, araponga,
boininha, papagaio-moleiro, jandaia... era isso tudo de povo. Pátria amada dos
alados e aladas.
“E já no céu, foi a gralha-azul procurar
seus melhores amigos amigas. Falou com o coleirinha, com a sericora, com a
andorinha-azul-e-branca, com o guriatã, com o pixoxó. Falou que esteve
recentemente viajando e que viajou pela terra e que lá (aqui) na terra era
legal mas faltava comida e vários tipos de pratos de comida os tais e quais
víveres os mantimentos. Apenas faltava comida, pois chuva chovia quase todo
dia, os rios eram caudalosos, as lagoas em número suficiente, tudo estava legal
mas porém contudo... pouca comida de comer. E também, por coincidência das
coincidências, desabitado despovoado vazio desaprovado. Ela falou e grasnou e
contou toda a aventura toda a verdade. E os amigos mais chegados nem se
interessaram por nada que ela contou e explicou e prometeu. E nem deram bola e
deixaram a gralha-azul piar sozinha. Nem acreditaram na ficção da superplumosa.
Nem queriam dar a asa a torcer. Nem queriam perder tempo com narrativas de
ficção e sonho e fantasia.
“Passados oito dias semana, a
gralha-azul pensou, pensou... Olhe que pensou! Pensava tudo que podia e tinha
direito. Articulou afirmativamente positivamente. Pensou que gostaria de voltar
para a terra e morar por lá (aqui) mesmo definitivamente. O céu era muito
chato, muito plano, muito aéreo, muito grande, muito tudo diferente ou espaçoso
demais. E a gralha-azul pensou como poderia fazer para realizar seu sonho de
consumo. Foi gorjear se aconselhar com seu melhor amigo, o bem-te-vi-do-campo.
Conversaram no alto de uma palmeira jerivá. Ela recontou toda a história e do
começo e dialogaram, respiraram fundo nos momentos de mistério, trocaram
opiniões, palpites, atrizes, atores, interpretações, bocadinhos de beliscões,
debiques, trejeitos e macaquices e peraltices, laços e abraços:
“Guelém-guelém!... Sabe, nem sabe,
sabe... Sabe bem-te-vi-do-campo que eu quero morar na terra e viver lá para
sempre? Te juro!”
“Gueteguê!... Mas lá você vai passar
muita fome, muito sol na cabeça, muita solidão, muita ansiedade desassistida...
Lá nem é lugar para as criaturas viverem, muito menos criaturas leves e plumosas
como as aves em geral. Você pode correr o risco de nem encontrar algo para
predar, entende?! Esse negócio é difícil. É brabo ser pioneiro(a). Depois nem
diga que ninguém te avisou!”
“Guelém-guelém!... Nem é aconselhável,
mas eu quero, quero, quero!... Nem é recomendável por ora, mas pode vir a ser
um bom lugar para sempre daqui pra frente. O detalhe é o seguinte: o que posso
fazer para realizar meu desejo e meu sonho e minha fantasia? Como posso ir e me
dar bem?”
“Gueteguê!... Você nem quer ser uma ave
marinha, comer frutos do mar o dia todo? Uma possibilidade, em?! Dizem que no
mar já vivem os tais e quais habitantes marinhos frutos do mar.”
“Guelém-guelém!... Prefiro frutas
silvestres e sementes e polens e pequenos mínimos bichinhos. E é mais calmo no
meio das plantas e árvores frutíferas aromáticas floridas.”
- Rio Laranjeiras!... A gralha-azul
perguntava - e acreditem em mim, cacique Maçaranduba -, pensava, indagava e seu
amigo bem-te-vi-do-campo nem tinha respostas ótimas em cima do laço e na ponta
da língua e na hora h. A terra aqui estava um lugar desabitado e desconhecido
desaprovado e por ser desbravado, quase um continente a ser descoberto.
“Dois ou três dias depois, a gralha-azul
estava conversando com sua melhor amiga a coruja-buraqueira. E perguntando, e
trocando ideias, e discutindo, e dialogando, e guinchando o mesmo assunto que
interessava a ela gralha-azul. E muito por demais polemizando, empurrando,
gesticulando, exercitando, dominando, tricotando, recolocando, fazendo ondas e
marolas:
“Guelém-guelém!... Eu pretendo viver na
terra, custe o que custar. E é pra já e nas próximas férias de verão. Nem tenho
tanto tempo assim para esperar. E por que aguardar?”
“Ro-que-qué!... Será que é possível?
Será verídico? - roncou a coruja. Eu me pergunto. Eu às vezes fico imaginando.
Eu também gostaria. Viver aqui no céu a vida toda é muito maravilhoso, porém
sem graça sem adrenalina sem aventura sem o agridoce. É algo pra se pensar, se
me entende!”
“Guelém-guelém!... É mais ou menos como
tu sabes. Eu pretendo e prefiro me chegar pra lá que me eternizar aqui, é.
Mudar de mundo e de país. Mudar de ares, do rarefeito ao ar concentrado.”
- Rio Amola-Faca!... Aí digo eu e
continuo. A coruja-buraqueira pensava no que ouvia, pensava, meditava... e
respostou com dúvidas, recomendações, com enigmas, com encomendas, com
conselhos, dicas, sentenças e uma linguagem avícola:
“Ro-que-qué!... Nem sei, hem! Por que
você acha que a terra é melhor e deve ser melhor e será melhor? Tem provas que
provam e comprovam? Tem certezas que acertam sinceramente? Tem horizontes que
são belos o bastante? Tem portos que são seguros ou baías de Todos-os-Santos?
Você tem meses que são janeiros ou fevereiros de carnaval? Tem aeroportos ou
heliportos que são orientados com radares de última geração? Você tem ou terá,
minha comadre?!”
“Guelém-guelém!... Sei que a terra é
melhor porque o céu é muito planície, muito plano, muito isolado no alto, muito
nublado, muito cômodo e mais comum que tudo. Muito perfeito mesmo.”
“Ro-que-qué!... E a terra, como será que
vai ser? Quem sabe, em?! Estou balançada! Numa encruzilhada que parece duas.
Por mim, só D ou Tupã!”
“Guelém-guelém!... A terra é uma bola
jogada e rolando e rodando em volta do sol. A terra é macia. A terra é cheia de
morros e canhadas, montanhas e coxilhas, vales e peraus, serras e chapadas,
planícies e planaltos, cordilheiras e desfiladeiros, arquipélago da Trindade e
Martim Vaz, serra do Orobó, ilha de Santa Bárbara, danças tum-dum-duns, lagoa
do Jacaré, baía de Sepetiba (em tupi, “muito sapê”), restinga da Marambaia, rio
Camaquã (tupi, “rio ligeiro”). Têm muitos rios, lagos e lagoas, gamboas,
restingas, rias, tertúlias, cascatas, aguaçais, saraus, cortejos... E vamos
catar a comida o alimento para distribuir para a população de aves e outros
bichos que por certo surgirão. Claro que carece comida para virar um paraíso
perfeito das aves e muitas outras espécies. Só e ainda faltam refeitórios
restaurantes armazéns ninhais para abastecer para que nasçam aves em geral. Os
lugares estão lá, mas faltam as condições comensais ou sustentáveis.”
“Ro-que-qué!... E no mar longe da terra?
Nem te serve, nem te acaricia, nem te atrai?”
“Guelém-guelém!... O mar é outro
departamento outro condomínio outro mundo. Nem sou muito de oceano e
profundidades e sal e marés e maresias. O mar a praia somente nas férias e
feriadões.”
- Rio Araújo!... A radiosa gralha-azul
vivia no céu por falta de opção, segundo a opinião dela mesma. E nem queria
mais ficar pelaí. Agora que já conhecia a terra, queria mesmo emigrar virar imigrante
e fazer fortuna no chão. E o céu era confortável e o céu era plano e segundo
mais outra opinião dela mesma, sempre insistindo nisso. Sonhava dia e noite com
o potencial que a terra tinha. Uma terra uma parte do universo, já pensou?!, um
lugar com árvores verdes vales verdes rios de frutas ivaí meio ambiente de
cores vivas e canoa feita de uma única árvore escavada, imagine!, e rede de
dormir amarrada entre um tronco e outro de coqueiro-iri.
“Um dia, um verão muito bonito e quente
entre as nuvens, a elegante gralha-azul foi visitar o amigo dileto e querido e
queridinho joão-de-barro, e ela trocou, cruzou, telefonou, dedicou, aderiu:
“Guelém-guelém!... Parente
joão-de-barro, olhe meu!...”
“Seporsisó!... Parente, você veio aqui
para jogar bola?”
“Guelém-guelém!... Vim para jogar bola,
e conversar sobre meu plano. Que você acha? Me dá uma ideia? Como posso viver
na terra sem passar fome? Originalmente, é claro!”
“Seporsisó!... Eu nem tenho ideia de
nada. Nem sou pago para ter ideias. Mas vamos jogar bola?”
“Guelém-guelém!... Nem nada, você é bom
de ideias. Eu reconheço que você é muito bom de ideias. Suas opiniões são
ótimas. Você pode me ajudar e me ajuda. Você é feliz de ideias. Me empreste uma
boa ideia, uma ideia luminosa, esperta, comunicativa, bem-aventurada... e vamos
com isso!”
- Rio Jucu!... E ela e ele, amigos muito
muito, parentes próximos, foram jogar bola ali no campinho de gramado azul, por
dentro da nuvem mesmo, aquela mesma nuvem branca com bordas douradas devido a
luz solar. Perto das estrelas com cada cor e pontas que precisa ver. Muito sol
muito sol forte, embora distante. Muito calor mas calor agradável e bom de
jogar bola. Ali na nuvem ideal, num céu pra lá de cem nuvens esgarçadas. Nuvens
de todo tipo de aparências e com cara de bicho e feitio de coisa e forma de
automóvel, torre, jangada, roda igual como timão de navio, girafa, centopeia,
garrafa, mesinha de centro, livro aberto, guarda-chuva fechado, cavalo pastando
pasto ou capim.
“Seporsisó!... Hei!... Passa, passa!...
Larga essa bola de uma vez, né!”
“Guelém-guelém!... Aqui, aqui!...
Minha!!... Nem vem que eu cheguei primeiro!”
- Rio Cadeia!... Um domingo no céu, e
todos os dias são domingos no céu, a gralha-azul riquíssima emplumadíssima foi
almoçar com o amigo sanhaço-encontro-azul. Era de praxe esses encontros
futuristas. Almoçaram ali mesmo e depois foram passear, foram dar uma volta
pelaí. Rodaram um bom pouco pela mesma galáxia, sem se afastar muito da
nuvem-mãe. Surreal surrealíssimo. A gralha-azul gritou, chamou, inovou,
programou, percorreu tudo com seu canto de quatro notas musicais:
“Guelém-guelém!... Vamos pelaí, meu
carinha! O mundo carece de visitantes e turistas.”
“Zezizito!... Sempre é bom. Eu conheço
uma já boa parte deste nosso gigantesco universo, é.”
- Rio Paranhana!... Daí, pegaram um
cometa e foram girar mais um pouco. E na velocidade condizente com a luz. Foram
até um lugar de muita cor e claridade. Sempre passeando e olhando e conversando
e trocando opiniões disso e daquilo e aquilo outro. De muito curiosos, entraram
no lugar certo na hora certa. Um lugar de muita luz e luzes coloridas. Ficaram
ali admirando o nascimento das cores. Nascimento dos astros, nascimento das
estrelas, nascimento das cores diferentes devido o fogo que surgia. Cada cor,
meu! Planetas que se formavam com o passar das horas... nebulosas em espiral...
massas enormes se chocando sem nada a ver... e a maioria satélites redondos e
cheios e bem pesados. Quando vinham voltando, a gralha-azul se lembrou de
renovar e recriar o seu assunto mais predileto, e recitou, interpretou,
reafirmou, uniu letras soltas com sons escolhidos e distintos, nasais:
“Guelém-guelém!... Sabe, sanhaço, eu
queria muito voltar para a terra! Ir mais longe e nem voltar mais. Ir e morar
definitivamente por lá. E voar muito por lá e até correr aventuras por lá.”
- Rio Büchler!... Os dois amigos ali no
ar da galáxia, duas aves leves, voando em voo cego no espaço aberto, no vácuo
sem vento, o sanhaço recomendou, reperguntando, meio que troçando, debatendo,
encobrindo, remediando, fazendo ver o que nem entendia direito, chiquê e
presunção:
“Zezizito!... Por que você nem procura
um psicólogo? Você precisa amadurecer e rápido. Faça uma faculdade, primeiro de
tudo. Você tem um desgaste psíquico, eu acho. Uma pretensão.”
“Guelém-guelém!... Você acha que eu
estou louca? Você também acha que eu estou delirando? Você já me viu mais
maluca? E devaneando? Sem nenhuma originalidade? Sem capacidade normal?”
“Zezizito!... Desconfio que você quer
fundar um novo mundo. Um psicólogo pode te ajudar a tratar dessa sua mania,
dessa sua ideia fixa, dessa sua vaidade, dessa sua utopia, dessa sua jogada.”
“Guelém-guelém!... Você acha mesmo que
estou exagerando? Que estou batendo os pinos?”
“Zezizito!... Tô piando. Tô palpitando.
E digo mais... acho mesmo deveras, quer saber!”
- Rio Maciambu!... Um domingo de manhã,
muito sol e muita luz de cores, luzes variadas em brilhos ofuscantes, a
gralha-azul passeava displicente e sozinha por um espaço aéreo cheio de árvores
sombrosas. Ali mesmo na nuvem-mãe. Muitas castanhas-do-pará,
castanhas-do-maranhão, castanhas-do-ceará e ali por ali plantadas, aéreas,
fazendo sombra e frutificando, emprestando suas sombras ao céu.
“E ali mesmo pela nuvem-mãe, (que era o
céu das aves em geral), do lado esquerdo para o direito da estrela papa-ceia,
que a gralha-azul passeava seu tempo debalde. E lotada de pensamentos ideais
quiméricos. E ela mesma chegou na praça Aisuari e se admirou altamente com uma
enorme e gigantesca árvore sumaúma. Foi olhar de perto e já pousou na sombra.
Olhou mais a árvore assim de baixo para cima... Olhou o preço olhou a data
olhou a prazo olhou alquimia olhou protocolo olhou autoridade. Com aquele
tamanho todo, a árvore parecia atravessar os sete céus do imenso céu infinito e
universal. De fora a fora. Era mesmo uma árvore endêmica das mais altas do
mundo todo. E a gralha-azul aproveitou para tocar no tronco da árvore jurupari.
Parecia um tronco feito de ferro ou aço ou manganês ou alumínio. Tentou subir
com as garras e escorregou. Voou um quilômetro árvore acima, cansou, voltou.
Aí, procurou sossego por meia hora e aterrissou num banco ali da praça, na
sombra. A árvore altona tronco de ferro era um gigantesco guarda-chuva para o
jardim público jardim zoológico o horto e o meio ambiente. A zoologia e a
botânica atuais poderiam fazer mais e melhor por essa árvore colossal, reitero.
“Duas horas depois, a gralha-azul já
dormindo ali no banco da praça na sombra da sumaúma e numa perna só, foi
acordada pela chegada de alguém. A gralha-azul abriu os olhos redondos e
esbugalhados, abriu o bico, sacudiu as asas, e viu chegar uma cavacué. Esta ave
parecia solta e falante e elegante e alada e diferenciada com voz melodiosa voz
condizente com o ambiente:
“Grato-gratão!... Oi, gralha-azul! É
difícil te encontrar e já te encontro aqui, amiga formidável!”
“Guelém-guelém!... Oi, cavacué! Você
veio de donde, querida?!”
- Rio Papaquara!... Elas se abraçaram,
se asaram, porque já se conheciam de outras paradas, outros carnavais, outros
maracatus. A cavacué, tralalou, descascou, determinou, entrelaçou, ovacionou:
“Grato-gratão!... Você estava tirando
uma sesta uma soneca um cochilo, é? Olhe, nem perca seu tempo dormindo que o
mundo é grande e a sorte é curta. Estou te dizendo, amiga máxima!”
“Guelém-guelém!... É, tava mesmo parada
na sorte. E sem muito o que fazer. Só pensando pensamentos verticais versáteis
verdes. Tenho ideias e nem tenho iniciativas, me rendo.”
- Rio Catundó!... E a dupla par de
pernas secas elas mesmas falaram de outras coisas. E de mais outras coisas. A
cavacué perguntou se a gralha-azul estava nidificando naquela estação e no
momento. A gralha-azul indagou se a cavacué estava fazendo ninho naquele lugar
ou ali por perto. E se falaram mais coisas, gralharam muitas coisas de outros
negócios. Depois a gralha-azul ainda quis saber, bicando, especulando,
espionando, filtrando ou purificando umas notícias ouvidas aí:
“Guelém-guelém!... Você já visitou a
terra, por acaso, um dia, uma vez? Quem sabe!”
“Grato-gratão!... Quem? Eu? Nem e nada,
eu nunca fui à terra da Terra. É possível? É impossível? Que ideia foi essa,
hein?! Você tem cada uma! Eu voo e nem vejo tudo, meu!”
“Guelém-guelém!... Claro que é possível.
Eu mesma já fui e voltei. Achei legal e voltei porque faltou comida por lá. Se
tivesse comida e variedade de alimento... nossa!, ia ser um máximo. Recomendo,
comadre! Nem só recomendo como compartilho e espero retorno.”
“Grato-gratão!... Aiuá! Melhor que o céu
celeste e alto altíssimo? Duvidoeodó, amiga fácil!”
“Guelém-guelém!... Muito melhor que o
céu todo junto ou espalhado no cosmos.”
“Grato-gratão!... Mais bacana que o mar
marítimo oceano e os bancos de corais?”
“Guelém-guelém!... Mais bonito e
completo que os oceanos e continentes e arquipélagos.”
“Grato-gratão!... Mesmo sem comida
alimento e outras várias opções de manjares e quitandas e merendas? Fala sério,
amiga sensacional!”
“Guelém-guelém!... Com comida sobrando
ficará o paraíso na terra, meu!”
“Grato-gratão!... Deve ser o país onde
tudo que se semeia cresce floresce e presenteia com frutas e frutos! Pensando
bem, amiga especial dentre as especiais, eu concordo que deve ser bom e ótimo.”
- Rio Cubatão do Sul!... Ficaram em
silêncio pensativo por dois segundos. Cada qual pensando seu pensamento
abstrato absoluto. A árvore altíssima, e seus hormônios do crescimento bem
ativos ativados, balançava em o alto seus galhos e suas folhas e suas sementes
e deixou cair algumas sementes. A gralha-azul pensava no trato do seu sonho de
morar na terra. A terra que se via azul e tal. A cavacué pensava, e pensou em voos
altos, voos de reconhecimento, até que sussurrou, piou, murmurou, generalizou,
sapateou seus códigos e senhas com números e letras:
“Grato-gratão!... Por que você nem
planta para depois colher? Faça uma horta uma lavoura um horto específico! Você
pode virar uma ave da roça, hem?! Uma ave empreendedora!”
“Guelém-guelém!... Como? Pode repetir?
Eu ouvi direito? Você me deu uma ideia?”
“Grato-gratão!... Por que você nem
carrega sementes de frutas para a terra e planta e colhe e come? Com pouco
tempo você pode colher e comer à vontade, comer de tudo um pouco, se abastecer
de mantimentos, banquetes, manjares, refeições fartas famosas faustosas. E vai
ter o que comer no verão, no inverno, etc., várias épocas e estações do ano.
Quem planta colhe, nem é? É uma, nem é?”
“Guelém-guelém!... E onde eu adquiro
essa história de sementes para plantar na terra no solo do planeta Terra?
Sementes tem que dar certo com a terra propriamente dita o solo o chão.”
“Grato-gratão!... Tranquilo como água de
poço, guria! Você vai até o horto florestal federal e adquira e compre e
negocie. O horto existe para isso mesmo: fornecer sementes e mudinhas e manuais
com explicações de como fazer e prosperar e beneficiar os irmãos e irmãs
vegetais. Faça florescer!”
- Rio Piraí!... No outro dia, domingo
bem cedo e tudo mais, a gralha-azul se encaminhou voando e foi chegando lá no
horto florestal nacional da nuvem-mãe. Era um departamento ali por perto. Foi
recebida pelo encarregado, uma ave elegante, pernas secas, plumagem elegante, a
papa-lagarta-de-papo-ferrugem. A ave muito importante, pulou, pulou e disse,
meio que cumprimentando, festiva, festejando, brincando, dançando e ela que já
fora dançarina amadora e coreógrafa autodidata:
“Ave saudação!... Pois nem nada, guria?!
Estamos para servir e agradar.”
“Guelém-guelém!... Eu gostaria de me
informar sobre... gostaria de saber de... sobre sementes... a respeito de
mudinhas... e plantios... e colheitas... e frutas frutos frutinhas... fases da
lua e estações.”
- Rio Quinze de Novembro!... E as duas
foram olhando e caminhando entre os canteiros preparados, a ave p-l-p-f
mostrando isso e aquilo, dando palpites, apontando com a asa as mudinhas de
castanha-de-arara, castanha-de-anta, castanha-de-bugre, quina-de-são-joão.
“Ave saudação!... Olha esta aqui, amiga
galha-azul. Esta aqui é uma silva-branca e faz ótimas frutas. Ela pode nascer
em variados tipos de solo lugares locais pontos. Como por exemplo nos morros
subidas de encostas de cidades tais e quais, Cafezal do Sul e Leópolis e
Uraí... na beira do rio Piquiri...”
- Ribeirão Itoupava!... A gralha-azul ia
conhecendo as plantinhas, os plantios, como vivia uma trepadeira taiuiá, um
arbusto sambaíba, como brotavam os arcos-de-pipa, como bebiam água doce as
cuipeúnas, como se adaptavam ao clima os pés de buranhém, como gostavam do
calor os cipós curuapés. E assim uma variedade de verde flora.
“A peninha ia conhecendo e andando, a
ave p-l-p-f ia mostrando e explicando e recomendando. Elas iam andando entre os
múltiplos canteiros bem cuidados e preservados. A p-l-p-f ia mesmo indicando as
barbacênias, as tipuanas, as estrelas-do-norte, as embiras-brancas, os
coqueiros-piaçabas.
“E a gralha-azul chegou a perguntar,
depois de oito para nove horas de estudos, observações, interesses, troca de
opiniões, e piou, contou até 10, discutiu, palrou, participou com veemência:
“Guelém-guelém!... Como eu faço para
plantar tal semente e esperar que ela se faça árvore e dê flores, frutos e
sementes ou mudinhas? Eu vou perder a minha paciência? Fico de guarda dia e
noite?”
“Ave saudação!... Você faz o mais
simples. Você coloca a semente e espera quatro cinco seis anos. Deixe o resto
com a chuva e o húmus e o sol e o adubo natural. Aí, a própria planta vai
brotando para fora de si mesma, vai mostrando as folhas, as flores, as frutas e
as sementes. E quando você precisar de flores, colha as flores; quando precisar
de frutas, colha as frutas; quando precisar de sementes espera mais um pouco e
colha as sementes. É um sistema. É uma engrenagem. Às vezes nem precisa de
ajudar. Às vezes a natureza só quer um empurranzinho.”
“Guelém-guelém!... E se o vegetal
desistir por algum motivo, cansar antes do tempo da colheita?”
“Ave saudação!... Nem tenha receio,
guria! Tendo sol o ano inteiro, tendo água o tempo todo, nenhuma planta será capaz
de desistir antes dos cem ou duzentos ou duzentos e cinquenta ou trezentos
anos. É lei da madeira. É lei de todo vegetal.”
- Rio Timbozinho!...
Papa-lagarta-de-papo-ferrugem continuou mostrando a variedade de árvores,
arbustos, plantas, ervas, trepadeiras, lianas, flores que vicejavam ali. Tudo
catalogado com nomes científicos e vulgares. Tudo arquivado e geneticamente
estudado. Tudo para ser replantado em algum lugar do universo. Tudo no
capricho. Tudo praticamente verde. E a p-l-p-f ainda concluiu uma coisa,
gorjeando, expondo, entoando, titulando e foi até os dois pontos:
“Ave saudação!... Existe uma grande
variedade de árvores alimentícias e úteis. Como exemplo: castanha-de-caju,
castanha-de-caiaté, castanha-de-cutia, castanha-de-jabutá... Nem são poucas as
boas de comer. São quase todas. As que nem são boas para comer são boas para
fazer sombra para as que dão de comer. Uma planta ajuda outra, sabe?! O melhor
mesmo é consumir várias variedades ao mesmo tempo. Colorir o cardápio o menu e
ter várias ofertas.”
- Rio Cochá ou Coxá!... Depois de ficar
ali mais de dez horas e meia, depois de voar todo o horto, depois das
explicações todas, a gralha-azul suspirou e se deu por satisfeita e se deu por
convencida e se deu por achada e se deu conta. E encontrou ainda uma outra
dúvida e já foi perguntando, roeu, notificou, esclareceu, disse, trocou
conteúdos:
“Guelém-guelém!... E se eu for levar
estas sementes ainda hoje para a terra, hein?! Que você me diz? Quais plantas
seriam as melhores para viver no clima da terra? Que você acha? Para ser
sincera sinceramente, eu estou com certa pressa. E ainda as aves emigram
imigram migram.”
“Ave saudação!... Ora! Por que nem falou
antes?! Demorou! Está na ponta da língua.”
“Guelém-guelém!... Como assim? Onde se
viu?!”
“Ave saudação!... Pois na terra é muito
mais fácil que em qualquer outro mundo que existe por este universo infinito e
majestoso! Existem bons lugares de plantio, lá no chão da Terra. Veja apenas
alguns que me ocorrem de memória e Rio Claro, Santa Gertrudes, Ipeúna,
Itirapina, Morrinhos do Sul. Olhe bem que é só escolher! E o melhor é semear
castanha-de-macaco, castanha-de-peixe, castanha-de-puri. Que é pra começar. Que
já é um bom início.”
“Guelém-guelém!... Nascem variedades e
enormidades de plantas, então? Demorei!”
“Ave saudação!... E você pode viver na
terra muito bem só comendo vegetais, frutas, flores, raízes, sementes,
folhas... mel de flores ou o tal de néctar. Bebendo água da chuva e
vegetariana.”
- Rio Pacuí!... A p-l-p-f foi ali e já
voltou com uma semente muito boa e importante, grasnou, reconheceu, atirou,
parabenizou, confrontou, associou, estendeu:
“Ave saudação!... Esta é a semente do
pinheiro-do-paraná. É a semente mais importante para a sua carreira de pássaro.
Quer se encarregar e se candidatar? Quer levar de uma vez, guria?! É a sua
semente. A semente que tem a sua cara. Eu recomendo. Eu lhe recomendo. Vai,
pegue! Pegue e despegue!”
- Rio Urucuia!... Dois domingos após
(depois de se despedir de todos os pássaros e aves e passarinhos do céu das
aves, depois de se aprontar direitinho para a longa viagem para baixo, depois
de pentear as penas e botar um chapéu azul feito de palha trançada de ouricuri,
depois de encher o embornal com sementes do pinheiro araucária), a gralha-azul
veio para a terra arriscar a carreira e tentar um futuro melhor. Uma brava
pioneira. Tinha esperança, tinha coragem, tinha vontade, tinha sementes, tinha
tudo que precisava, tinha ambições e garras e ganas.
“E desceu ao chão para plantar
pinheiros-nacionais. Já vinha com intenção de nem voltar mais para o céu das
aves. Queria fazer história, queria fazer fortuna na terra e ficar morando para
sempre. Nem queria mais voltar atrás, nem que sentisse saudades. E veio. E com
tudo, mala e cuia e sementes.
“A gralha-azul desceu na terra com um
farnel cheinho de pinhões. E foi espalhando onde bem entendeu de espalhar. Onde
a terra era mais roxa, mas também na terra vermelha, no chão de tabatinga.
Escolheu umas regiões nem muito quentes nem muito frias, mais ou menos
temperadas, para os lados do sul, meridional, austral. Ambientes nem muito
doces nem muito amargas, mais ou menos agradáveis. E explicou para si mesma, já
que estava sozinha e pioneira na terra na terra na gleba:
“Guelém-guelém!... Eu vou viver aqui
nesta terra e região da Terra. E vou viver comendo pinhão e plantando
pinheiros-brasileiros. Se precisar esquecer onde plantei, esqueço e nem haverá
problema. Se precisar falar sozinha, resmungo, gracejo, gralho e nem haverá
problema. Logo pensarei já adiante e chamar parentes compadres comadres e
muitos parentes e aderentes, tá certo! Já voar pra cá pra lá!”
- Ribeirão Arrudas!... E trabalhava
plantando e comendo e plantando todas as sementes de araucária. E passava com
sorriso estampado na cara de passarinho. E sorria gritando aos ventos do sul.
Os olhos bem abertos, o bico aberto, as asas cheias de vontade de voar de
chapada a chapada, de pinheiral a pinheiral, de sentinela em sentinela, de
quadro em quadro. Uma alegria que se traduzia em cantar e gorjear e pipiar e
grasnar e gralhar como no começo do mundo, como num mistério milenar:
“Guelém-guelém!... E vamo!!... Desta vez
acertei a mão e tive sorte! Meus parabéns!”
- Rio Jequitaí!... Para surpresa, uns
meses depois, várias aves e pássaros e passarinhos e beija-flores-rubis apareceram.
Vinham imitar e percorrer os rastos os voos da gralha-azul, a pioneira. E cada
qual trazia a tiracolo seu embornal de sementes para plantar. Cada qual com sua
planta preferida, ou plantas preferidas. Todos vegetarianos frugívoros em o
princípio. Os atletas os cartolas os torcedores.
“Guelém-guelém!... Para onde eu olhar
tem sol tem água tem vento bom tem terra fofa e solo adequado. E é bom e é
bonita e isso provoca.”
- Rio Pardo Grande!... E todas as aves
baixaram da nuvem-mãe para escolher a terra de sua preferência. Foi uma
arribada, uma alevantada, uma revoada, uma assentada. E vieram com namorados ou
com namoradas, as avoantes, araras-azuis-pequenas, quem-te-viu, caurés,
bem-te-vis-gameleiro.
“O coleirinha-do-campo trouxe o
capim-grama, a corruíra ou cambaxirra trouxe a pitanga, a tesoureira trouxe o
guabiju, o canarinho-da-terra trouxe o araçá-do-mato, o tucano-de-bico-verde
trouxe a tucaneira, o tico-tico-do-piri trouxe a gabiroba, o tchinchorrintcho
trouxe a muiraximbé.”
“Vei-vei-veeei!... Nós já somos parte
desta terra” - cantou o curió, acompanhado da família.
“Ué, ué, uéeee!... Nossa comunidade
ainda vai crescer muito muito, né, gente!” - declarou o grimpeiro, junto da
família do clã numeroso.
- Rio do Cedro!... Um dia de o último do
ano, um domingo de sol forte, desceu a arara-azul-grande com a bolsa a tiracolo
cheia de sementes de ouricuri, jerivá, catolé, açaí, pupunha, babaçu,
paxiubinha. No domingo posterior apareceu a pomba-rola com sementes de milho. O
anum-preto com sementes de arroz. O pintassilgo com sementes de abóbora e
amendoim. A jacutinga com sementes de café e cacau. O sabiá-laranja com
sementes de jabuticaba e sete-capote e copaíba-marimari.
“Ah-um-um!... A terra tem paisagem,
gente!” - chegou dizendo em coro o bando de uiratatás.
“Ih-ih-iiiih!... A terra tem lugares e
vários deles apetecíveis. Eu me adapto às árvores altas” - gritou a curicaca, e
logo as curicacas.
- Rio do Vieira!... Acabou que a terra
foi arborizada florestada. E florestas e matas e matos e capões e capoeiras e
campos nasceram para dar de comer e abrigar todas as espécies de aves. E a
floresta se multiplicou, e as aves tiveram o que comer em quantidade e se
multiplicar. E tudo mais se multiplicou no planeta. E tudo mais se explicou no
mundo. E muita qualidade organizada prendada superior.
“E foram realmente as aves que plantaram
e primeiro povoaram a terra do planeta. Eu sei. Foram os pássaros que tornaram
a terra um começo de paraíso. Foram os passarinhos que tornaram a terra um
lugar habitável para todos os seres naturais do mundo. As aves pioneiras dentre
todos os animais. E a terra começou exatamente como era no céu das aves. E a
terra começou de um sonho da gralha-azul.”
Quando finalmente o cacique Maçaranduba
parou de contar a história do povoamento das terras pelas aves, a noite já ia
meio alta e com cometa raro e com muitas estrelas distantes e com lua tímida e
redonda. A lua fazia plantão na copa da sumaré-do-campo. E pra ter uma ideia.
Lilás foi se acomodar na rede de dormir
que estava ali. Tico-Tico deitou na esteira de palha de santa-fé trançada, as
patas para fora - a esteira era pequena para o quadrúpede.
- A-ve-ri-guou!... Durma bem! E durma
muito! E acorde bem na manhã ótima!
- Hi-ooooi!... Bons e doces sonhos! Que
os mosquitos nem nos pegue pra otários.
No outro dia e nos outros dias, uma
semana, duas semanas, outras semanas e a maitaca-roxa nem retornou à aldeia
caeté. Isso significava o quê? Respondeu vibrante o cacique Maçaranduba,
pontuou, declamou, entornou, explanou, cientificou, comportou, transportou,
assombrou:
- Rio Paraúna!... Se maitaca-roxa minha
amiga Pixuna nem voltou até agora é porque achou alguma coisa pra comer e ficar
por lá. Quem sabe onde? Num lugar onde o céu se encontra com a terra, talvez?
Um lugar que a terra está renascendo, com certeza. Um lugar específico e de
árvores que as aves chegam primeiro. Um lugar longe de nossa ilha perdida
esquecida.
Um ano se foi e outro ia chegando de
mansinho, e sem que todo o mundo pudesse ver. Um ano ia e outro voltava já moço
e renovado e satisfeito. Um ano se passava e outro nascia como nascem verdes as
árvores, como nascem sem penas bebês as aves, como nascem filhotes os bichos e
nascem curumins os índios. Todo ano que passa puxa outro pelo pé. E o tempo
passou. E as terras da Terra se restauraram.
Aquele ano se foi e o outro voltou em
folha, bem tenro, novinho em folha, e a história do mundo aumentou um ponto um
conto um tanto um capítulo. As formigas-quenquéns nem apareceram mais ou deram
um tempo ou sumiram de vez ou jamais jamais. Um dia depois o outro. Uma noite
depois a outra.
Já o sol quebrando, uma beleza sossegada
na tarde, umas cores pintadas nas nuvens, canelas-pardas pinicando pelas
touceiras no campo, um olho no chão o outro no céu, pinhém guinchando lá no
alto passando alto; perfeição rara, especial. Tarde com tesouros enterrados em
segredo. E para hoje tudo mais e novo. Os bichos em geral e em estado de graça
para flanar perambular flainar flanear.
O cacique Maçaranduba caeté sentou no
tronco caído do pé de canela-fogo. Olhou o brasedo, puxou um naco de pamonha,
um tanto de beiju e começou a comer. Todos ali faziam mais ou menos assim e a
mesma coisa. A hora do alimento é sagrado. E comer com as mãos os dedos em
garra ou sem os talheres os tais e quais apetrechos de cozinha, era sempre foi
mais gostoso e nutritivo e pitoresco.
Muitas famílias caeté ao redor das
fogueiras dos montes de fogo. Muita abóbora, amendoim, mandioca, variedade de
frutas, jabuticabas, pitombas, araticuns-do-mato, ameixas-do-pará... Os
curumins e as cunhantains já sabiam que eram os primeiros da fila. As cunhantãs
serviam as crianças, os mais velhos, as mais velhas, depois os guerreiros e por
último a elas mesmas. Todos tinham vez, atletas dirigentes e fãs.
Lilás estava entre as cunhantãs e comia
beijus com as mãos, dedos lambuzados, as fatias de abóbora, a batata-doce, os
ovos de tartaruga do rio Itabapoana. Petiço, nessa hora da tarde que já caía e
toda vermelha, relaxava sossegado deitado um pouco dali afastado olhando mais
ou menos tudo em volta, calmo, relaxado, quieto, pacífico, satisfeito e de
frente pra paisagem tranquila.
Cacique Maçaranduba terminou de chupar
os dedos melados de ovos de perdiz, se afastou para um cepo de oiticica, olhou
a estrela grande lá no fundo do horizonte, a estrela primeira da tarde, ficou
pensando sossegado. Acauãs cantavam para os lados da várzea. E mais
papa-moscas-de-topete-marrom. Mais uns minutos o chefe começou o relato, o
canto, o trote, a trova, o culto e o ritual:
- Rio Riachão!... Vou contar o que o meu
avô me contava que seu avô lhe contara e assim voltando de neto a avô e mais
gerações entre gerações de avô a neto desde sempre até o fundo grave profundo
dos tempos. Assim mesmo. Que no começo do mundo nem havia esse negócio de
cores, variedade de cores, arco-íris, fontes, prisma, chuva e sol. Assim por
estilo. Nem existia o verde nem o vermelho nem o amarelo nem o azul,
principalmente. Nem outra cor qualquer que tivesse nascido dessas cores
presidenciais patriarcais capitais e representativas. As cores eram relíquias
secretas e guardadas.
O cacique Maçaranduba deu uma paradinha
na narrativa. As crianças todas se aproximaram mais. Todos já estavam bem
alimentados e meio que pesados. O fogo ardia e fazia um calorzinho agradável de
ficar ali por perto ouvindo escutando. Uma cunhantã de nome Ipanema já tocava
calmamente o boré. Morubixaba olhou em volta, sorriu, tossiu, e prosseguiu na
historiada, avançou, propôs, condimentou:
- Rio Carinhanha!... Quando as aves
resolveram a entrar na terra e nem mais continuar na nuvem das aves, todas as
aves e a própria terra toda só tinham uma única cor um único tom. Uma cor que
nem era cor, uma cor desbotada, descolorida, desfigurada, desmistificada,
parelha. Tudo era resumido cinzento cinza opaco obscuro. E as aves sem graça sem
desfiles de primavera sem canto sem jogos de verão. Era uma cor sem partido sem
time sem sentido, por isso que ninguém se destacava. Era uma apenas e somente
uma cor sem brilho sem vivacidade sem vaidade sem carnaval sem diferença.
“Aí, quando as aves todas desceram para
a terra, elas sentiram que precisavam de cores destacadas, de outras cores, de
enfeites, de adornos, de trocar as penas. Mas como, de que jeito? Precisavam de
cores para se distinguir uma da outra, o macho da fêmea, a manhã da tarde, o dia
da noite, o verão do inverno, o sul do norte. Somente o tamanho era pouco, o
canto era pouco, e era necessário distinguir pela formosura das penas, plumas,
plumagens, penugens, pelos, couros, cabelos, cristas, bicos.
“Uma tarde como esta, uma tarde caindo,
as aves se reuniram perto da laguna dos Patos e, em reunião de todas as aves,
aves do mato, do campo, do banhado, fizeram esse pedido ao sol, grasnando,
sugerindo, colocando, ciciando, retinindo, sibilando, tinindo e em uníssono ou
uma voz:
“Quará-quá-quáaaa!... Deus-Sol, O
Incomparável, Você que anda pelo céu faz tempo, Cacique do espaço sem fim, D
que nunca cai... por acaso nem conhece o céu das cores diversas e
diferenciadas? Vê se consegue umas cores para nós, as aves do ar e da terra, os
bichos da terra. Seria bom, etc., e passe bem! Muito obrigado(a)” - disseram as
aves todas e em coro bem ensaiado ou num pio só.
- Rio Verde Grande!... O sol (no fim e
no começo e ainda é ele quem governa os mundos todos) olhou para as aves ali na
várzea no banhadão e ficou olhando e pensando. Era delas que vinha o pio o
pedido a solicitação. E o sol levaria em conta esse pedido? E que será que o
sol já pensava, então? Era ele mesmo o dono das cores? Será que tinha uma
solução? O sol estava pensando, pensando, gastando ouro dos seus abstratos
pensamentos grandiosos imateriais e superquentes. O sol pensava e queria
atender o pedido. Depois de meia hora, pouco menos, ainda dourando o horizonte,
o sol se dignou a responder uma ideia, retumbou, estralou, remou, brilhou, aquilatou,
iluminou, chamuscou, requentou:
“(Constitucionalissimamente!... Eu penso
o seguinte, minhas aves e demais bichos no geral. Sim, vou falar com o céu das
cores e tentar convencer a mãe-das-cores. De repente a mãe-das-cores manda umas
cores para vocês se planejarem, se divertirem, se regalarem, se enfeitarem. É
justo. Amanhã de manhã eu já tenho a certeza de tudo. Até amanhã cedo que vem.
Boa noite!)”
- Rio Gorutuba!... E as aves foram
dormir sonhando com umas cores vivas e brilhantes e importantes e desconhecidas
até então. Promessa solar. E na verdade ninguém tinha ideia do que era uma cor,
uma cor forte e deslumbrante vibrante nova inovadora. O que é uma cor? Só
depois, no outro dia, logo de manhã, quando o sol reapareceu, que viram que o
mundo poderia ser colorido e bem mais interessante e bem mais destacado e
diferenciado. O sol foi acordando todo o mundo e gritando, rangendo,
rebrilhando, ostentando, aumentando, importando, despachando, reformando,
cumprindo:
“(Constitucionalissimamente!... Ei, aves
amigas e demais interessados interessantes! Já tenho umas cores aqui comigo,
hum!... A mãe-das-cores me autorizou a distribuir umas quatro, tá bom? Com
essas quatro cores vocês podem misturar e fazer mais outras e outras e outras.
São tons divinos perfeitos.)”
- Rio Mosquito!... Assim, o sol
distribuiu as quatro cores principais capitais: o verde, numa lagoa verde; o
azul, numa lagoa azul; o vermelho, numa lagoa vermelha; o amarelo, numa lagoa
amarela. Era ir para a lagoa preferida e se banhar nela e se pintar da cor dela
e recolher a cor daquela. Dito e feito.
“Então, o sol despejou as quatro lagoas
de cores e se afastou para o fundo do céu da estrada do firmamento. Só cuidando
e curtindo a surpresa feita para as aves. De longe o sol ainda falou alto, para
explicar de uma vez, esquentou, conversou, bateu um papo, falou e disse,
telefonou, lascou, discursou:
“(Constitucionalissimamente!... Cada um
escolhe a cor que preferir e pode se pintar e pintar o amigo e ajudar a pintar
a namorada, etc., e assim por diante. Vocês têm um dia para aproveitar e se
pintar. Hoje, pela hora do entardecer, eu recolho tudo e depois nem tem mais
nada nadica. Aproveitem hoje e pronto. É grátis! É hoje porque a sorte muda de
mudança. Sem juros e taxas e impostos.”)
- Rio Peruaçu!... E todas as aves, as
que quiseram ficar elegantes e colorir e se enfeitar e ficar mais na moda,
foram procurar as lagoas de cor. O quero-quero apenas resolveu molhar o bico e
as canelas secas na lagoa vermelha. A carqueja-de-bico-amarelo só mergulho o
bico na lagoa amarela. O pato-corredor experimentou a lagoa amarela e a lagoa
vermelha. Jacutinga-de-garganta-azul encostou o papo na lagoa azul. A seriema
só entrou com os pés na lagoa verde. O bom-dia-seu-chico ficou ainda pensando
pensativo, o gavião-indaié sobrevoou uma e outra, o bem-te-vi-carijó contou até
dez.
“E todas as aves do banhado e todas as
aves do campo e todas as aves do mato e todas as aves da floresta tiveram sua
chance de se banhar nas lagoas que quiseram ou na lagoa preferida. E todas as
aves, mais ou menos, umas mais outras menos, se banharam de cor ou de cores,
gastaram as cores. Umas poucas ficaram na dúvida e se fartaram nas lagoas como
o caso das aladas sete-cores ou tiriba-pequeno ou bate-bico. Navegar voar vogar
e vogando como sempre.
“Sem dúvida que foi uma festa airosa
porque ninguém, nenhuma ave, tinha visto coisa igual e tão divertida e tão
alegre. Um carnaval e seu desfile, passarela e estrado, pódio e palco, ponto
bordado ajur e outros riscados conforme o tamanho das pernas das asas do voo.
Ave acha que o melhor coisa do mundo é voar, daqui pra lá. E quanto mais na
moda também melhor.”
E o cacique Maçaranduba terminou a
história da origem das cores com essa conclusão, concluindo, descansando,
convencendo, compartilhando, edificando, dignificando, relaxando:
- Ribeirão do Pinhal!... Peço vênia para
declarar! O tempo é o rio. O rio é uma estrada combinada com o tempo. Mas o
tempo terminal só existe na cabeça das pessoas. Muito bem, muito bem!
Quando o cacique Maçaranduba parou de
falar o tal e qual princípio das cores nas aves, o pajé Igarité resolveu
começar a dizer o porquê das cores nas árvores. O pajé Igarité foi tomando a
palavra e dizendo, interessando, orando, guiando, espelhando, medindo as
mentiras e botos e landuás:
- Rio Curimataí!... As aves tomaram as
cores e ficaram bonitas, ficaram formosas famosas, restaram elegantes e fêmeas
e machos. Assim, as árvores e plantas e flores e frutas ficaram com interesse e
com desejo e queriam também ficar coloridas e brilhantes e bonitas e alegres e
chamativas e, por que nem sequer, airadas elegantes destacadas. Como resolver
isso? E as plantas pensaram a quem perguntar uma oportunidade de se colorirem
justamente igual como as aves tinham conseguido. E pensaram e pensaram com seus
botões fechados. As cores tinham de servir a todos e todas. Assim, resolveram
falar com o sol divino. Esperaram aguardaram o sol aparecer na manhã e foram
perguntando, aproximando, crescendo, replantando, paquerando, cultivando,
engrenando, flertando:
(“Frufrutando!... Oi, Deus-Sol e
todo-poderoso majestoso universal. Aqui quem vos fala e pede e discursa e a
planta papo-de-peru-do-miúdo. Está tudo bem aí e os as demais?!”)
(“Constitucionalissimamente!... Oi,
plantas vegetais em geral! O qual que é o pó?!”)
(“Frufrutando!... Oi, aqui é o
cipó-azougue, que do meu corpo se extrai a cera e a resina. Nós, todas as
plantas, também queremos ficar na moda, ficar nas cores, ficar coloridas como
as aves. Achamos as cores bonitas e queremos também. Você pode nos ajudar? Quer
deseja nos ajudar?”)
- Rio Paracatu!... O sol pensou e lá com
seus raios fúlgidos suas intensas fagulhas. Ficou parado por um instante no
alto do céu tipo aí pelas 12h em ponto, o tal estado e ponto zênite. Pensando
torrando esquentando. Cruzou os braços nas costas e ficou olhando para baixo e
pensando. O sol pensou e queria ajudar. Ele no céu e seu calor na terra. Uma
hora depois já tinha pensado direitinho uma pequena ideia e iluminou, clicou,
frigiu, cozinhou, assou, aquentou, tossiu, bufou, silvou, crepitou, rechinou,
torrou:
(“Constitucionalissimamente!... Eu acho
que amanhã de manhã eu já tenho uma solução. Ali pelas 4h e 16min. Vocês ficam
alerta e tal. Nada de dormir até tarde, hein?! Um até lá e... olhem lá!”)
- Rio Camanducaia!... No outro dia, bem
nas 4h e 20min, começou a cair uma luz uma energia vermelha e poucas plantas
estavam acordadas e ao ar livre. Essas ficaram vermelhas e gostaram muito da
cor. Como as outras estavam dormindo e escondidas e recolhidas, ficaram ainda
sem cor ou cor cinzenta ou cor nenhuma ou cor comum ou cor neutra ou cor palha.
“O segundo dia, bem nas 6h e 2min,
começou a chover uma luz amarela e poucas árvores e plantas conseguiram acordar
a tempo de tomar um banho de amarelo. As que estavam dormindo nem se molharam e
ficaram sem essa cor sem festa sem graça sem dourado. As que já tinham tomado
banho de vermelho se esconderam, quase todas se recolheram, para nem ficar
amarelas ou parcialmente amarelas.
“Terceiro dia, bem ali pelas 5h e 46min,
começou uma boa garoa chuva fina de energia de luz azul e poucas e raras
plantas se arriscaram a sair fora com aquele jereré chuvisco quente e sem
jeito. Quase nada de plantas para se banhar de azul. As outras ficaram
dormindo, preguiçosas, ou se escondendo debaixo do guarda-chuva, medrosas,
melindrosas, esquivas, expectativas, sensitivas, preventivas.
“O último dia de luz radiante e
prometido, bem nas 6h e 56min, muitas plantas sem cor opacas estavam ali
esperando, aguardando ansiosas. Deixaram para o último dia por pura preguiça? E
quando veio a luz verde nem tiveram escolha, ou se deixavam energizar de verde
ou mais nada. E, assim, a maioria das plantas escolheu a cor verde por puro
acaso de última hora última chuva do milagre das cores último tipo de cor
última chamada de luz e respingos e seus raios.”
O pajé Igarité terminou a narrativa
contada e recontada e olhou em volta e concluiu, zumbindo, zumbizante, cricrilante
e comemorando, festejando, aplaudindo e pedindo aplausos, contemplando:
- Rio Jaguari!... São milagres que
merecem nomeação e depois mais outros distintivos e honras e sucessos. E algo
aéreo e fluido ou sólido e material. Assim algo gasoso e imaterial ou líquido e
terreal. Muito bem, muito bem!
Para os lados do céu, àquela hora, as
estrelas já davam mais a cara e eram muitas piscando no infinito vazio estranho
escuro universal. De repente, até a lua já ia alta e silenciosa e rolando
rolante rodante ronda roda. O pio do urutau, a correria dos morcegos, o navegar
esquisito das mariposas... e faziam parte do noturno. Lua de prato prato de
prata prata de luar.
A velha índia Suiriri também tinha sua
história para contar e já sorria, na lembrança, murmurando, predicando,
aprovando, apetecendo, arvorando e assim apalavrou conversou distribuiu
enalteceu:
- Rio São Miguel!... O D solar e
grandioso estelar se olhou se pensou se perguntou muito sério, um dia desses. E
pensou e se perguntou, alumiando ensoalhando:
(“Constitucionalissimamente!... Mas
olhem aqui, gente! Como a terra é muito sem graça, sem brilho, sem cores, sem
muita coisa de diferente e de encantador. Eu acho.”)
- Rio Passo Fundo!... Dizendo isso para
si mesmo, o sol continuou a pensar uma maneira de melhorar a beleza da terra e
seus habitantes e seus meio ambientes. E foi dando voltas e mais voltas pelo
espaço sideral cósmico universal sem fundo circular. E pensando e meditando e
caminhando de mãos às costas. E já no outro dia veio com novidade radiosa e
ultravioleta.
“Assim, logo pela manhãzinha do primeiro
dia, 4h e 8min, o sol acordou verde e apareceu num dia verde. O sol se pintou
de verde e foi pintando tudo que podia durante o dia inteiro. Foi um dia longo
e cansativo e trabalhoso. Pintou principalmente as plantas em geral, o capim,
os vales, o pé das montanhas, as encostas, a mata ciliar, o juçaral, a várzea.
Nem conseguiu pintar mais porque já era boca da noite e deixou o resto para o
outro dia. Foi assim que começou com o verde e seus derivados e a todo vapor.
Verde-bandeira principalmente das plantas baririçós, coariúvas,
quinas-cruzeiros, mandapuçás.
“Outro dia, o sol já veio trabalhar
muito cedo todo pintado de amarelo, para pintar o amarelo nas coisas, um dia
amarelo, aquarela. E algumas coisas ele pintou de amarelo e outras ele nem
conseguiu nem se interessou. Pintou o que pôde encontrar dentro do tempo
disponível horário. Mas foi, como todos os dias úteis, um dia puxado de muito
trabalho e muita pintura amarela ipês-amarelos e onde possível. O ouro ficou
distribuído pelo mundo em pequenos potes tesouros pepitas minas cofres... em
pássaros como o bem-te-vi-pintado, o pintassilgo, o canarinho-da-terra, o
tchintchorrintcho, o beija-flor-de-topete.
“No terceiro dia, bem de manhã cedo, o
sol já veio todo de vermelho, pintado de vermelho, para pintar o vermelho nas
coisas, um dia vermelho, cor de fogo. Sim, porque o sol é vermelho e igual o
fogo. Nem eram todas as coisas que o sol vermelho queria pintar de vermelho e
rubro e colorado. Só uns vermelhos e estava já satisfeito. Olhou as coisas
todas do mundo e da terra e foi pintando de vermelho aquilo que achou que
deveria ser vermelho. Escolheu uma coisa aqui e outra ali. Pintou de vermelho a
arara-vermelha-grande, a crista do cardeal, os guarás que povoam os mangues...
Já foi um bom vermelho espalhado, pintou o pôr do sol, o gorro do saci, os
tipos fogoió, e o dia acabou apagou nas fogo-apagou.
“Dia da última cor, o sol amanheceu
azul, todo azul uma maravilha paixão, para pintar os azuis que achava mereciam
ser pintados, um dia azul. E foi passeando pelo mundo e pela terra (o sol
gostava mais da terra que do universo profundo), e pintando o azul aqui e ali.
O azul era bonito e as plantas que achou por bem pintar de azul ele pintou. E
os bichos que achou de pintar de azul ele pintou. E as coisas que achou de
pintar de azul ele pintou. E os lugares que achou de pintar de azul ou nesga de
azul ele pintou. Pintou o azulão, pintou as costas das andorinhas, pintou a
arara-azul-grande, pintou a ararinha-azul. Por fim, sobrou tinta, tropeçou,
esparramou tinta e pintou todo o céu de azul o ar azul a terra azul.
“Depois desse último dia, o sol deu um
tempo e nem apareceu mais com outras cores. Achou que quatro cores já estavam
boas demais para toda a terra e o mundo infinito. Daí para frente o sol vem
repetindo essas cores só para passar uma tinta nova e mais fresquinha,
diminuindo aqui, acelerando outro dia, conjugando tons e colorindo. Sempre
dando uma demão para facilitar as cores vivas.”
A índia velha Suiriri, vestida com seu
tradicional traje saiote de penas araçoia, parou a história já no final já no
epílogo último episódio. Olhou em volta, sorrindo, segurou a cara com as duas
mãos, sorriu e terminou assim, prestigiando, pontuando, conjugando,
destravando, desequilibrando:
- Rio Resplendor!... O sol é D com d
maiúsculo. Tem muitos compromissos durante o dia e de noite fica trabalhando do
outro lado do mundo. Nem nunca para, pensa o quê! Muito bem, muito bem!
As antológicas estrelas piscavam
semáforas na distância da galáxia, os condestáveis planetas rebrilhavam na reta
da galáxia, os agnósticos cometas riscavam na curva da galáxia, etc.,
engrenagens, e a noite continuava noturna, certos bichos notívagos piando e as
constelações avançando sinalizando.
Foi quando o pajé Igarité, tossindo para
disfarçar a vontade de contar outra história, sua própria versão, se apresentou
e começou outra narrativa, pigarreou, iniciou, principiou, assobiou, dominou:
- Rio São Mateus ou Cricaré!... Uma vez,
uma bonita índia caeté mãe-solteira, e abandonada pelo namorado boto, pegou o
seu próprio nenê e o enrolou numa esteira e o colocou numa bacia de barro
marajoara e o largou no rio para que o rio o levasse embora. É uma história já
parecida como outras já narradas, mas tudo bem. O bebê foi à deriva e boiando e
descendo o rio Paraim. Às vezes se vendo sozinho, o curuminzinho olhava o céu,
nem via nada e lamentava chorando, chorava, e chorou, “buáaa! buáaa!... Só
sabia chorar nessa hora da vida.”
“Aí, a Iara, a mãe-das-águas, (olhos
azuis de água de natureza de azul e todos os tons águas lagos lagoas rios
espelhos dos céus) ouvindo aquele choro, “buáaa!...” aquele choro, ficou com pena
e foi resgatar salvar a criança. Era um menininho curumim piazinho crila. Achou
a criança engraçadinha e resolveu adotá-la. Fez, “bilu-bilu!...” tocando nos
lábios do miudinho. Deu-lhe o nome de Miridã.
“Para mais comodidade do pequenino do
miúdo, a Iara transformou o rio Paraim em lagoa Parnaguá. O menininho virou
quase um peixe encantado e aprendeu a nadar e nadou entre os peixes conhecidos
e pirapucus, piabas, curimatãs, caris-pintados, xarus, piranguçus,
acarapixunas. E Miridã e sua mãe adotiva viviam muito bem ali nas profundezas
doces calmas e pacíficas da lagoa.
“Certos dias, pela manhã, Miridã-Curumim
saía da água e ia brincar na areia da praia da lagoa. Olhos cor verdes como das
plantas verdinhas das florestas verdes palmeiras tenras do vale. Nem ia muito
longe com receio do desconhecido de bichos estranhos perigosos. Brincava de
escolher pedrinhas lisas, contar pedrinhas, fazer montes de areia, fazer
buracos na areia, nadar ali rente da praia, segurar a lagoa, empurrar a lagoa,
dominar a lagoa, medir a lagoa, brincar com a lagoa, se balançar na lagoa.
“Certos dias, pela tarde,
Miridã-Guerreiro saía da água e ia buscar qualquer coisa ali no mato, emprestar
das árvores, colher, recolher, usufruir. Olhos amarelos pupilas em ouro das
pepitas mais puras e caras e procuradas negociadas. Procurava uma certa planta
para fazer um arco e algumas flechas. Depois ia aventurar na floresta os ínvios
caminhos e trilhas. Subia outros afluentes da lagoa Parnaguá como o córrego
Areia o córrego Bica. Já um pouco mais longe. E conhecia outros lugares
mananciais outras árvores e cutitiribá, oiteira, tanchagem-rabo-de-rato, auíba,
caxim, talá-verdadeiro, coqueiro-guabiroba... e suas propriedades medicinais ou
alimentícias e camarás, tacacazeiros-da-várzea, espelinas, azedas-graúdas.
Depois visitava a aldeia e se juntava aos seus parentes contraparentes amigos
amigas.
“Certos dias, pela boca da noite,
Miridã-Velho saía da água e ia se sentar ali no cepo do mulungu da beira da
lagoa Parnaguá, ou nas pedras da beira da lagoa, ou na grama do barranco da
beira da lagoa. Olhos vermelhos da tarde em brasa brasil brasedo sempre
alumiando no calor da noite. Ficava sentado ali mesmo - com os cabelos longos e
brancos, as barbas desfiadas e brancas -, ficava contando estrelas que iam
surgindo no alto da noite, cheirando os aromas dos aguapés. E o índio velho
olhava a noite e pensava e recordava. Ficava aí se alimentando de conversas ao
redor do fogo e junto dos índios anciões e índias anciãs. Ficava distraído com
as borboletas-corujas, com os vaga-lumes, com os caburés-de-orelha, com as
suindaras, com os bacuraus-d’água.
“Outro dia qualquer, pela manhã,
Miridã-Curumim - olhos verdes promessas esperanças esmeraldas como pedras
preciosas do fundo dos lagos e lagoas e remansos e rios limpos transparentes -
saía da lagoa para brincar flertar ali na aldeia com as cunhantains. Subiam em
árvores e se largavam na lagoa. Nadavam como peixes ali na lagoa. Brincavam com
os xerimbabos. Corriam no mato buscar gabirova, pitanga, açaí, goiaba-do-mato,
abio fruta do abieiro, guabiju, araticum-cortiça.
“Outro dia qualquer, pela tarde,
Miridã-Guerreiro - cor dos olhos amarelos dourados tesouros das minas nas
galerias auríferas sonhos de riqueza - saía com os guerreiros e cunhantãs da
tribo buscar mel de abelha aramã na montanha, armar arapuca armadilha de caça,
pegar peixe com puçá enxalamar lá longe no rio Gurgueia, catar pinhão. Aprendia
a lutar para saber competir jogar numa disputa campeonato de verdade com índios
vizinhos das tribos adversárias oponentes e embiá, uapixana, caiapó-aucre,
baenã, coroado, tarairiú. Arrumou namorada de cabelo muito negro e comprido e
liso, que sabia rir um riso sempre cristalino, que falava com voz suave, que
tinha hálito da folha de pitanga, que se enfeitava com a flor da aitá presa
atrás da orelha para segurar o cabelo.
“Outro dia qualquer ou anônimo, pela
noite, Miridã-Velho - olhos cor vermelha vermelhos de ficar perto da fogueira
lenha queimando as histórias lendas o fogo de chão - saía das águas da lagoa e
subia para a aldeia, conversar fala escorreita com os anciões e as anciãs.
Sentava junto com os mais velhos e as mais velhas e trocavam histórias dos
tempos passados, inventavam lendas, criavam mitos, diziam das eras e tempos e
entes vingativos como por exemplo o jurupari (algoz, atormentador) o cainamé
(sacripanta, patife, safardana) o boto (cheio de escárnio, troça, zombaria,
caçoada) a boiúna (indigna, velhaca, corrupta). Miridã-Velho também contava
aventuras de Miridã-Curumim e Miridã-Guerreiro.
“Mais um dia, mais uma manhã, pela
manhã, Miridã-Curumim, nariz bem acepilhado, saiu das águas da lagoa e chegou
alcançou a taba da aldeia. Vinha louco de fome arado lazeirento faminto para
comer beiju, jabuticaba, sete-capote, tapioca, amendoim, abóbora, abacaxi, mel
de abelhas vorás.
“De manhã de tarde de noite de manhã...
e já se sabe.
“A sorte de Miridã era uma causa longa e
cheia de etapas. Miridã suportava a sorte de todas as idades. A existência a
aventura de Miridã era uma roda, um círculo, uma volta completa na terra.
Miridã era criança, era jovem, era velho. Miridã nem nunca morreu morre
morrerá. Miridã era o destino do índio sobre a terra. Ainda é. Hoje em dia.
Porque visto que sim!”
Até este ponto o pajé Igarité levou de
recontar a história. Botoques nas orelhas. Pena de gavião-carijó espetado no
lábio inferior. Colar de dentes de jacaré. E bateu com as mãos nos joelhos, riu
um bocado, isso assim mesmo, rebateu, se candidatou a deputado, nome renome
sobrenome, repetiu, taxou, pregou, felicitou, contratou, vendeu, comprou de
volta, revendeu com um preço melhor:
- Rio Barra Seca!... As coisas vão e
voltam. Tudo é assim. As coisas giram. As coisas têm alma e se renovam buscando
indo e voltando outras reencarnações. Muito bem, muito bem!
Os indiozinhos já estavam abraçados com
as mães e dormindo, quinto sono. Os mascotes já tinham receio da noite, olhavam
o fogo e queriam dormir enrolados e aconchegados e estimados aos humanos amigos
protetores companheiros. De noite assusta o perigo que nem se vê, amplo e geral
e irrestrito.
A índia velha Suiriri começou uma
história do começo do mundo, começo da terra. Voz calma, bateu, levou,
compenetrada, discursou, benzeu, abençoou, fez o pelo sinal, catequizou:
- Rio Cotaxé!... Um deus qualquer
anônimo que vivia nas nuvens, pra lá das nuvens, tão longe no fundo do céu, tão
longe e sem endereço referência localidade, esse deus um dia desses resolveu
sacudir o céu e sacudiu tudo. Aconteceu um desequilíbrio geral. E ele forçou um
ceumoto no firmamento.
“Assim, houve o tremor no céu, celestimoto,
e caíram de lá para baixo tudo que foi coisa e objetos e bichos e índios e
caixas e apelidos e festas e horizontes e pedaços e destroços e oragos. Algumas
coisas pesadas se quebraram, outras mais ou menos se trincaram, ainda as mais
leves flutuaram. Várias coisas caíram na terra e foram povoando a terra e a
terra se estufando encheu de lobos-guarás, piavas, jaburus, riachos,
pombas-de-espelho, lagunas, sarandis-vermelhos, pedra da Gávea, camapus,
voçorocas, beija-flores-dourados, carricinha. E principalmente caíram também um
índio jovem e uma índia jovem.
“Eles se nomearam, se apelidaram de: ela
chamou ele de Grapiúna, ele chamou ela de Acumã. Se abraçaram e deram muita
risada e correram pela praia branca do rio Paraíba do Sul. Tinha de ser.
“Os dois jovens viveram alguns dias
conhecendo a terra, passeando pelos campos, pelos morros, pelas montanhas e
passearam até cansar e conhecer tudo direitinho. Descansaram na sombra das
árvores, na beira das cascatas. Se ocuparam nadando nos rios perto das cataratas.
Visitaram lugares desconhecidos que logo ficaram identificados e nomeados e
pontos turísticos e belas vistas. Nadaram em rios compridos e rios profundos
piscosos. Dormiram nas cavernas da montanha escondidos dos bichos ferozes,
terrestres ou alados. Foram no alto do penhasco olhar o mar o arquipélago as
ilhas.
“Assim, o índio Grapiúna sentiu saudade
das nuvens e ficou pensando e pensando e até perdeu a estrela guia. Assim, a
índia Acumã sentiu a mesma coisa, a mesma saudade das nuvens altas e ficou cismando
e pensando e caiu numa moleza preguiça enorme. Os dois estavam atacados de
saudades.
“Assim, mais dia menos dia, Grapiúna
sentiu saudades e foi procurar alguma coisa para fazer. Subiu em árvores altas
e colheu um monte de frutas e sementes e flores e mel de jataí para comer.
Assim, mesma coisa, Acumã sofreu de saudades e foi atrás do índio e comeu um
monte de frutas e folhas e butiás e jabuticabas e pequis e cajus e guabijus e araticuns-do-mato.
“E então, lá pelo dia tal do mês, o mês
do ano, sol no apogeu, Acumã começou a sentir umas coisas esquisitas na barriga
e nas pernas e caiu no chão. Grapiúna olhou a mulher passar mal e ficou olhando
preocupado. Mais um pouco de cuidados e Acumã teve um parto e deu à luz uma
criança que começou logo a chorar, “buáaa! buáaa!...” E Grapiúna pegou a
criança e começou a observar para que ela nem chorasse tanto e a aconchegou ao
ombro até que parasse de chorar.
“E viram com olhos associados e carinhosos
os dois pai e mãe mais zelosos que o primeiro filho era um filho todo azul da
cor do céu do mar e pedindo espaço sobre a terra diante do mundo. E que sempre
no verão chegou o segundo filho que era uma filha toda amarela como o sol o
ouro e todas as tantas quantas estrelas por mais distantes que aparecessem
apareçam. E seguiu o filho vermelho como fogo como brasa pintando de vermelho a
barra do céu no começo dos dias de manhã e nas tardes fins de tarde na barra do
horizonte hora do crepúsculo. A quarta parte do vasto território o quarto poder
foi o quarto rebento a filha verde que cobriu os lugares a mata as florestas
com sua sombra verde macia suave acariciante de norte a sul do país e o país
pindorama. Cada estação engendrou e gerou um filhote. E ao longo do ano se
diferenciavam se diferençavam. Filhos filhas alegres carinhosos suaves
participantes.
“E foi assim que os índios vieram povoar
a terra e o mundo e assim vem acontecendo até hoje. Tem gente que inventa e
conta outras coisas, mas no princípio foi isto mesmo.”
A índia Suiriri fechou a narrativa e riu
um pouco, ahahahha!... satisfeita, enredada, orgulhosa, vaidosa, festeira. A
índia Suiriri ainda olhou todo o mundo ali ao redor e completou, satisfeita,
compondo o longo cabelo preto, repicou, aplaudiu, detalhou, molhou os grossos
lábios cor vermelha, destacou, recolheu na colher o ovo de galinha escaldado em
água pochê que era seu lanchinho predileto:
- Rio Samburá!... O sol tem a ver com o
mundo todo. E a lua nem fica atrás, tem a ver com a Terra toda. O sol corre o
ano inteiro. A lua também, mas divide em 4 partes. Muito bem, muito bem!
Um mês de outubro, para os da cidade;
uma época de pouca chuva, para os índios caeté. A menina princesa e o petiço
colorado decidiram continuar pelo rumo de casa. Cair na estrada, na trilha, na
caminhada e procurar o caminho de casa de casa. Era o que precisavam fazer,
pensaram e trocaram umas ideias e decidiram e já avisaram os hospitaleiros
caeté, analisaram, relataram, comunicaram:
- Hi-ooooi!... Nós vamos embora, cacique
Maçaranduba! Nós vamos embora, cunhã Suiriri! Nós vamos embora, pajé Igarité!
Nós vamos embora, todos nossos amigos amigas os caeté! - se despediu o petiço e
já aconchegando no peito aquela uma saudade difícil desde a despedida.
E foram dando a mão (a menina na frente)
e dando a pata para todos quantos se apresentavam, a cada um, e uma por uma.
Assim, quando se despediram de todos mesmo, também dos mascotes da tribo, os
dois viajantes pegaram e se aprontaram e pediram licença e solicitaram umas
informações, direções, coordenadas, mapas, posições, logísticas e rumos e
rotas:
- Es-pla-na-da!... Como se faz para
chegar em a Tanguá em a Guapimirim e à serra do Mar? - solicitou a menina lilás
a Lilás, sentindo certo incômodo com as despedidas os “adeus e até um dia!”, os
“quem sabe um dia!”, os “venham nos visitar lá em Rio!” os “fiquem com Tupã!”.
O cacique Maçaranduba esticou o braço e
apontou e foi dizendo com detalhes os caminhos, explicando a jornada, etc.,
falou, reuniu, integrou, plantou, cultuou, especializou:
- Córrego do Bueiro!... Agora, de manhã,
vocês seguem pelo sol nascente céu aberto e assim por diante. Vão no rumo do
nascente. Mais adiante vocês encontrarão o rio Mariricu. Mais dois dias a serra
Catarinense. Mais oito dias, a serra da Cantareira. Mais semana dos dias e
noites, o rio do Cotovelo. Daí, vocês voltam para o sol poente e descem as
várias montanhas da serra do Mar e as localidades de Alto Piquiri, Florínea,
Brasilândia do Sul, Inocência, Formosa do Oeste, Mendes Pimentel. Mais vinte
dias e estarão vendo o pico das Agulhas Negras. Mais uma dezena e será o rio
Guaxupé. Depois do Guaxupé, após Cachoeiras de Macacu... bem, aí, vocês
sentirão cheiro do mar e estarão a um dia da serra dos Órgãos e a dois dias do
carioca Rio de Janeiro. Nem tem como se perder se enganar. Boa viagem!
Na mesma manhã de sol nem forte nem
fraco, céu com nuvens brancas, pios e pios de macucos, codornas-buraqueiras,
quiri-quiris, urus-do-campo, taiaçus, caminheiros, saíras-de-sete-cores,
marrecas-pardinhas... a menina e o petiço acertaram no alvo do sol que já subia
um morro dois morros do leste.
O sol semeando pássaros, os pássaros
semeando árvores e plantas nos campos, os campos ou serras semeando cores
adjetivos paisagens passos vales. A história acompanhando os protagonistas.
A menina ia de carona de favor no lombo
do amigo. O amigo, cabeça comprida e cauda, ainda levava um fardo cheio de
comida para a guriazinha se alimentar na viagem. O cavalo podia parar na beira
do caminho e se fartar de capim em vários tipos. Uma montanha logo logo os
aguardava. E chegou a chuva perto do anoitecer. E muita água tipo aguaça
enxurrada e torrencial.
- Hi-oooi!... Encontraremos uma gruta
uma caverna desabitada, pode deixar, princesinha!
Desde ontem de tarde que chovia. E os
dois viajantes ali, caminhando e indo em frente, subindo morros, atravessando
rios e rio Sarapuí, rio Grande, rio Urucuia, ribeirão do Achado, subindo
montanhas e pico da Bandeira, contornando a serra Rio do Rastro, passando ao
largo da cidade de São João das Duas Pontes e Amparo e Pinhalzinho e Nova
Venécia. E a chuva ao longo dos dias. Viram uma lapa, uma loca para se abrigar?
Os locais localizados e durante a jornada e Cassilândia, Carneirinho, Monte
Alegre do Sul, Morungaba, Itaboraí (tupi, “rio da pedra bonita”). E a chuva
esfriando o ambiente.
- Êm-bo-lo!... Nem somos de farinha, nem
nunca fomos somos de sal, nem somos seremos somamos de açúcar - chiou a
menininha com sorriso demorado.
- Hi-ooooi!... Nem temos hotéis caros ou
hotéis baratos ou hotéis grátis ou hotéis exclusivos - nitriu o molhado
ensopado cavalinho pelo liso colorado, já e já escorregando no barro na laje.
Mas era uma chuvinha teimosa e
resistente. Chuva fria e miúda e impertinente carregada pelo vento minuano. E
eram horas e horas sem parar de chover. Chuva boa para bando de tamatiás. Chuva
ótima para família de xanxão. Chuva agradável para os barulhentos estridentes
quero-queros. Chuva satisfatória para as rangedoras bufadoras bufantes
capivaras da margem do rio Picão. Chuva fria inerente ligada peculiar presa
acorrentada própria inseparável do vento sul.
Uma certa hora, certa tarde, certo dia,
uma chuvinha de molhar bobos, eles deram de cara com um jupará e no meio da
trilha. O animal pulou dos galhos de uma ipecacuanha-branca para o meio do
caminho, assustando os que queriam passar. E o bicho já foi intimando,
mostrando os dentes em forma de serra, estalando os nervos os ossos das mãos,
sorrindo uma cara patibular, articulando, arreganhando os caninos pontiagudos,
saltitando espetacularmente como uma mola nova:
- Quiçamãaaa!... Oi, menina princesa!
Oi, anta grande!
Peraí! Que anta ou tapir?! O jupará
estava louco, tinha tomado tiquira, tinha bebido uca, água que passarinho nem
bebe, zurrapa? Será que o macaco-da-noite estava de ressaca?
- Hi-ooooi!... Que anta é essa que nem
vi, hein, jupará?! Que anta é essa? - perguntou, muito indignado o petiço. Tá
me estranhando? Nem tem ideia, nem de nada?!
O jupará botou a pata com as unhas
longas na cabeça e se lamentou e se desculpou e se apressou dizendo,
declarando, declamando, macaqueando, se fazendo de vítima e ou inocente:
- Quiçamãaaa!... Foi sem querer e foi
mal. Eu pensei que você fosse uma anta superdesenvolvida supercampeã
superalimentada supercrescida. Então, nem tá aqui quem falou. Foi péssima
ideia. E outra pergunta: quem é você, afinal, então? De outro planeta distante?
Você é estrangeiro? E a menina aí?
- Hi-ooooi!... Sou um cavalo, isso sim!
Olhem bem que sou um cavalo da escola asiática.
- Quiçamãaaa!... Taí, eu nunca tinha
visto um cavalo de perto e ao vivo e a cores. Me confundi. Achei que você era
parecido com uma anta das súperes. Mas... e esta menina de cor diferente?
- Cas-que-te!... Olhe bem, e eu sou a
Lilás e estou com a mesma sorte do petiço Tico. É assim!
- Quiçamãaaa!... Então eu falo de uma
vez. Eu queria mesmo, sabe menina princesa Lilás e menina bonita e menina
diferente de tudo quanto já vi e nem verei... eu queria te convidar para casar
comigo, viu?! Quando vi você me apaixonei e desde a primeira vista. Agora me
lembrei.
Lilás ficou sem vontade de rir por um
milionésimo de segundo. A menina ficou sem sal na boca. A menina ficou sem
olhos para tudo em volta. A guriazinha lilás ficou branca, amarela, azul,
cinza. As ideias da guriazinha fizeram uma curva original. A menina princesa
ficou quase nervosa e foi já-já rebatendo, sustentando, despistando, tirando o
cavalinho da chuva, desencaminhando, desligando:
- Co-gu-la!... Mas que coisa sem lógica,
meu! Eu tenho de conhecer o mundo todo antes de casar, é - disparou a menina, e
já buscando novamente a estrada dando o assunto como ultrapassado.
- Quiçamãaaa!... Já que você diz. Eu
pensei que você estivesse em procura e...
A menina ficou pensando se ficava na
garupa do cavalo, se apeava do cavalo, se pedia para evaporar e sumir no espaço
sem fim. O petiço mesmo olhou ali do lado e viu um tufo de capim-dos-pampas,
umas línguas-de-vaca, umas pitangas perfumosas e se endireitou na intenção para
comer.
Já o jupará e macaco-da-meia-noite ainda
insistiu no assunto que só a ele interessava. E o quincaju achou que bastava
insistir para ser ouvido e aceito. E foi insistindo, quicando, enchendo,
percorrendo, complicando, rebobinando, repassando, achacando, tentando
extorquir, achando mais e mais:
- Quiçamãaaa!... Sabe, Lilás, podemos
ser felizes como ninguém mais como nunca mais. Eu vou te ensinar a correr pelos
matos e subir em árvores, pular de galho em galho e de árvore em árvore. Eu vou
te ensinar a comer brotos saborosos de plantas perfumosas, frutas de todo tipo,
coquinhos de derreter mel na boca. Nossa sorte será cheia de aventuras, fugindo
de caçadores calhordas, fugindo de onça-pintada, se escondendo da chuva, se
precavendo de emboscadas e atalaias e armadilhas e trapaças.
Petiço Tico-Tico deu um bocado grande no
capim-gordo e foi se afastando, se afastando com a menina no lombo, se
afastando os dois e deixando o jupará resumindo falando sozinho. Continuava
aquela chuvinha de molhar tolo e tola. E os viajantes deixaram para trás o
desenxabido jupará.
Com os olhos perdidos, um
bem-te-vi-do-bico-largo e já pousado no seu ramo predileto do bacuri, cantava o
de sempre, “gue-te-guêeeee! gue-te-guêeeee!...” Depois, um minuto depois, se
repetia todo, “gue-te-guêeeee! gue-te-guêeeee!...” E, muito contente, “gue-te-guêeeee!
gue-te-guêeeee!...”
- As-ce-tis-mo!... Que será que ele bem
te vi, hem?! - perguntou a menina ao sócio petiço.
- Hi-ooooi!... Está marcando território,
talvez. Está chamando a família, quem sabe! Está apenas feliz e cantando, vai
conferir! Nem consigo entender a língua da ave. Mas é isto mesmo.
A menina associou nascer na imaginação
uma borboleta, pintou a borboleta de verde, e voaram mais de duzentas
borboletas amarelas trêmulas periclitantes aéreas. Uma ideia e mil
contemplações.
Mais para o sul, umas cinco horas, a
menina caminhava, o cavalo trotava, caminhavam e trotavam lado a lado.
Escalavam um morro que ia esbarrar no céu azul. Uns agradáveis gorjeios de
pula-pula-de-barriga-branca, uns pipiares de ferro-velho, um longo assobio de
ipecuá... Algumas borboletas de tons azuis dançando entre os galhos do
juazeiro, beleza peregrina, beleza desacomodada, beleza acesa.
Nem demorou muito e a menina e o petiço
já identificavam o lugar. Farejaram o ar e pressentiram o mar. E caíram de
alegria. Sentaram no chão porque nem aguentaram as pernas bambas de felicidade.
Contentes e olhando em volta. Estavam em casa, quase em casa, já viam os picos
da serra dos Órgãos, o Dedo de Deus, por exemplo, e outros pontos conhecidos
turísticos e São José do Vale do Rio Preto e Paranaíba e Pedra Bela e São João
do Manteninha e Ubá (tupi, “canoa de uma só peça escavada em tronco de árvore”)
e Jijoca de Jericoacoara (morada das rãs e toca das tartarugas, como indica
Silveira Bueno). Caíram na gargalhada, ahahahah!... na agitação. A guria
temperou, forçou, aclarou, surpreendeu, transpareceu e apresentou:
- Qui-di-da-de!... Agora é descer a
serra dos Órgãos e estaremos no mar, amigo Tico!
- Hi-ooooi!... Vai só ver que nem será
miragem, princesa menina Lilás? Eu te digo!
Os viajantes passaram a noite na aba de
uma grande pedra, ali-ali. A noite era de muitas estrelas e de lua em pedaço
crescente gibosa. As horas nem passavam nem andavam nem viajavam, a noite muito
lenta. A menina só dormiu lá pelas 4h e 14min. Pai dos guaribas urrando na mata
escura. Estes macacos sentem ojeriza aversão rancor aos estranhos. Pocema
assuada vozearia gritos de muitos bugios-ruivos.
Começou cedo um agito agitado agitação
de passarinhos em muitos galhos e ninhos. Depois o céu com pouca ou nenhuma
nuvem baixa. E já a hora certa do sol cheio de raios para a alegria das cores.
Outro dia destampado aparecia. Falatório de aves. Amanhecia. Montanhas, árvores
respirando e um borralhara-assobiador assoviando e amigo do amanhecer do surgir
do nascer do renascer alvorecer.
Pouco o sol apontou madrugou entre os
picos da serra dos Órgãos, e o petiço já estava fazendo sua primeira refeição.
Logo também a menina acordava. Bebeu água e olhou tudo em volta e disse e
testemunhou e enfatizou e destacou e enalteceu e parabenizou e aplaudiu:
- Li-ba-ção!... Amigo petiço, em quatro
ou cinco dias estaremos em casa e acomodados e faceiros, tá certo?! Isso e com
tudo me renovam as energias e mais máximo demais!
O cavalo ergueu a cabeça, a boca cheia
de capim-de-burro, e respondeu com bom humor, ânimo renovado, olhos brilhantes,
saúde saudável, saudou, satisfeitíssimo e muitos mais:
- Hi-ooooi!... E eu vou pedir meu pasto
no convívio da cocheira, né, guria?!
Foram descendo as montanhas e as
montanhas que nem davam nunca para contar. Umas que outras nem tinham nome
próprio. Era muito bonito e também muito cansativo. Um sobe e desce que parecia
um labirinto de ondas, parecia um mar revolto, um mar de ondas de pedra e
verde. Grupo nuvem bando gritante rápido multifalante, perguntavam ou
respondiam?, os tais periquitinhos-de-vassoura.
Pararam os viajantes num lugar para
olhar o horizonte admirar melhor a paisagem. Comeram umas frutinhas do mato.
Olharam sem pressa os montes verdes, a floresta com mil encantos de trepadeiras
e flores e orquídeas, ipês-verdes, curiúvas, guatambus, pixiricas, caparrosas,
sucupiras, timbapebas, patas-de-vaca, verbenas. Aqui cantava o
vite-vite-uirapuru, ali o chorozinho-de-costas-manchadas, mais para longe e
mais escondido a surucuá-de-barriga-amarela, talvez o tibirro-do-campo, os
xexéus, os dançadores-laranja, os uiruuetês, as iraúnas-grandes, os rexenxões.
E os dias vinham com muita pressa, para
dizer a verdade. E passaram dois rios importantes e o rio Itapemirim, logo em
seguida o rio Cipó. Com demora e tal, depois de uma subida sem fim e chegando
no alto do Dedo de Deus, avistaram o mar azul lá no horizonte lá longe lá
horizontando com o céu azul. E os dois pularam de alegria que só vendo. Ver o
mar já custara um tempão. E gargalharam, kjá-kjá-kjá!... E vibraram
contentíssimos. E pularam mais e mais vezes. E se abraçaram com efusão. Assim
de ceca em meca e por vários lugares terras e regiões.
- Ca-ra-pi-na!... Vamos chegando, seu
Tico! Agora é só curtir a chegada chegando!
- Hi-ooooi!... Nem vejo a hora e a emo,
menina princesinha! Contando as horas!
O sol de acordo, o dia de acordo, a
floresta de acordo, o mar de acordo corcoveando ondeando. Mês de novembro -
eram os rios das frutas ivaí, pitangas, abios, seriguelas, araticuns-pitaiás,
guabijus.
- Hi-ooooi!... Tá reconhecendo as praias
enseadas baías mangues, guria?
- Si-de-ra-da!... Praia do Botafogo,
praia do Flamengo... praia do Vasco da Gama, praia do Fluminense... e o bairro
de Santa Teresa... e o bairro de Irajá... e o palácio imperial de Petrópolis...
- Hi-ooooi!... Mais dois dias e
estaremos em casa, tá bom?! São os meus cálculos - orneou o cavalinho, já um
tanto fino atlético exercitado no caminhar peregrinar esses meses todos.
- Ca-li-grá-fi-co!... Que ansiedade eu
sinto. Penso muitas coisas aceleradas e ao mesmo tempo.
Um gambazinho-de-orelha-branca subia
pelo tronco da macaíba. Umas flores amarelas, sem nome e anônimas, povoavam o
gramado em volta e guaximbas, barbas-de-bode, segurelhas... sempre presentes e
em todos os lugares. No alto umas nuvens brancas iam sempre e todo pano no rumo
do mar. Já um pouco de temperatura, talvez chovesse perto da noite junto da
noite ao redor da noite.
Pelas 16h trovoou, pelas 16h e 10min
riscaram os raios, beija-flor-de-papo-preto se escondendo de tudo das goteiras
do vento... e pelas 16h e 40min caiu uma água em turbilhão profissional.
No dia seguinte, depois de descerem o
morro do Dedo de Deus e contornarem a cachoeira das Duas Quedas justamente na
serra do Rola-Moça, ali mesmo numa restinga de banhado, os viajantes
encontraram um mataco que pegava sol no lajedo. O bicho estava meio que
dormindo nas pedras, meio na lama e meio na laje. Os viajantes consultaram o
sol a passagem do vento e o próprio bicho:
- Hi-ooooi!... Ué, mataco?! O mundo é
redondo?! Resta ver se é verdade!
O tatu-bola se assustou, olhou em volta,
rodou em volta, viu os intrusos do seu sossego, pensou em correr para a
capoeira, e aí reparou que estava diante de uma menina princesa. Se acalmou e
favoreceu o contato, tororou, respirou profundamente, citou, interlocutou,
simulou, renovou energias:
- Pedecafé!... Ah, uma menina que é
princesa! E um cavalo petiço! Que que foi, então?!
- Do-xó-gra-fo!... Estamos perto da
praia de Ipanema? Estamos perto da lagoa Rodrigo de Freitas? - zumbiu a abelha
lilás menina. Eu me imagino na praia de Co-pa-ca-ba-na!...
- Hi-ooooi!... Estamos muito longe de
Manhuaçu? Estamos longe das praias do Guarujá? - relinchou o cavalinho
doméstico, já com uma cor mais pra bronzeado bronze.
O mataco pensou um pouco. Para pensar
ele segurava o queixo com uma garra gavinha e com a outra garra elo unha
segurava o cotovelo. Era muito baixinho, mas com um estilo importante, um modo
de ser bem de se achar vaidoso alambicado pretensioso e apelou, lapidou,
insistiu, concordou, insinuou:
- Pedecafé!... Ora, pessoal! Vocês devem
descer até o mar, depois de passar a serra do Tabuleiro, depois de passar a
nado o rio Itimitim. Nem temos pontes. Essa a primeira etapa a fazer. Vocês
devem ir no rumo do sul, sempre pela praia, que é a segunda etapa a fazer.
Conhecerão outras localidades importantes e Simonésia, Caputira, Matipó,
Mantena, Tuiuti (tupi, “brejo branco” ou “rio do lamaçal”), Ecoporanga, Recanto
das Emas (local da planta canela-de-ema), reserva territorial dos cuchiguara...
e outras coisas imensas bendengós pesadas paradas vermelhas. Vocês devem
continuar por mais... talvez... uns oito ou nove dias caminhando pela praia,
até chegar na praia do Leme. Vocês devem caminhar um dia pela praia de
Co-pa-ca-ba-na... até outra praia que se chama, praia de Ipanema. Mais 6 dias e
estarão entrando na cidade, ali perto do palácio São Cristóvão. Se nem me
engano. Sejam felizes! Sejam bem-vindos! Fiquem à vontade! Se sintam em casa!
Pois bem. E o dia seguiu com caminhada
prolongada e cansativa. Um canto prolongado de limpa-folha-riscado. Alguns
micos-leão-de-cara-preta pendurados nos galhos do mulungu. Estes mesmos olhavam
espantados, sacudiam os galhos, provocavam os viajantes, queriam brigar, diziam
que eram donos da área, berravam na língua difícil lá deles, “fri-gri-gri!...”
e “gri-fri-fri...” quebravam galhos, erguiam os braços, atiravam pedaços de
pau, exercitavam os músculos, abraçavam o mundo, mostravam os dentes ferozes,
faziam mafuá. E pediam rogavam suplicavam sintetizavam resumiam sumariavam.
O sol caindo no morro longe e
incendiando de ouro puro a grande montanha e o céu enorme. Sempre
chupa-dente-de-capuz cantando, assoviando, tralalando, “fiu-fiu-fiooo!...”
Dezembro e janeiro - eram os rios das frutas ivaí, gabirobas e araçás-do-mato e
azedinhas e tarumãs e pitangas. Por um túnel de mato, onde as árvores encobriam
a trilha e oitizeiros, imburanas, tinguacibas, aroeiras-mansas, monjolos,
caimitos. Os viajantes se depararam com um cuandu bem no meio da estreita via
passagem.
Lá estava o tal, sentado numa pedra
chata, braços cruzados no peito, esperando, esperando a chegada dos
transeuntes, esperando os viajantes chegar mais perto. Bem no meio da
estradinha impedindo a passagem, obstruindo o livre ir e vir, embaraçando os fatigados
caminhantes. Quem sabe aborrecido na fossa depressão desalentado? Talvez apenas
cansado de esperar alguém pra conversar.
Lilás e Tico-Tico viram o porco-espinho
trancando o caminho, e foram chegando se acercando. Meio enjoados já do dia
longo e cansativo. Os viajantes aproximando crescendo, foram chegando mais
perto e pararam quando quiseram. Pararam para ouvir o ouriço-cacheiro se
explicar, interpelar, cumprimentar, orientar, predicar, diagnosticar,
interferir, remediar:
- Apre e arre!... Oi, menina princesa!
Oi, cavalo colorado!
- Hi-ooooi!... Olá, cuandu! Que que é o
plá?! Tá cansado de esperar o quê?
O porco-espinho já começou a falar do
assunto que o levara a fechar o caminho, trocando em miúdos, foi decompondo,
emparelhando, sabendo e fazendo e já rebarbativo rude, didático e dialético:
- Meu filhote mais mocinho está
aniversariando hoje mesmo, entendem?! E eu prometi a ele um bom presente de
aniversário, compreendem?! E eu vou cumprir o prometido, tão ligados?! Vocês
têm ideia melhor, hein?!, viajantes desconhecidos forasteiros estrangeiros
passantes.
A menina apeou do lombo do petiço e veio
ainda mais perto do cuandu. Em breve se tornariam amigos? O petiço aproveitou e
foi comer um capim-flecha que se mostrava ali na beira do caminho e muito verde
e tenro. A princesa já falava com o porco-espinho, de quem se tornou amiga, e
apontando aparteando declarando anotando descontando aclimatando amigando:
- Pa-ra-fer-ná-lia!... Tenho esse chapéu
de folhas de catolé trançadas. É legal. Pode levar que é presente e do bom.
Faça sol ou faça chuva, é útil e necessário. É um objeto raro e útil
utilíssimo.
O cuandu pegou o presente, olhou o
presente, aceitou o presente. Liberou a passagem, deixou os viajantes passar e
ainda agradeceu e fez tchauzinho abanou com a pata no ar. Estava resolvido o
tema.
Os viajantes seguiram pelos caminhos do
mato, um do lado do outro, juntos, ouvindo um pio aqui de papo-branco, um
assovio ali de macuru-pintado, um gorjeio sem fim mais adiante de
sabiá-castanho. Mais uma turma de saguis-de-cara-branca pinoteando pelos galhos
da cajati e seus olhos marrons muito grandes e redondos, espertos, agitados,
elétricos, sempre guinchando qualquer coisa na língua deles para assustar os
transeuntes estranhos invasores peregrinos andarilhos. Se deduz que essa banda
ou bando ainda ali está e bem que existe e reina e brinca pulando pula de galho
em galho.
Os andantes amanheceram no alto da pedra
da Gávea. Olharam o bonito panorama... E porque já estavam no Rio de Janeiro,
embora ainda nem em casa em casa mesmo. E olharam a paisagem magnífica e
exuberante e azul e verde e... es-pe-ta-cu-lar! Dava vontade de voar e pronto.
Praticamente na divisa do continente com o mar. Um lado verde e outro lado azul
e verde. Dava um sonho de voar, boiar no ar, borboletear, planar, voar, alar,
sobrevoar, flutuar. E as ideias iam retas, nítidas, leves e velozes. A menina
adoçou, gesticulou, ensaiou, cantou, articulou, resolveu, enfatizou, reeditou:
- O-li-gar-ca!... Se fosse sempre
assim... Se pudesse ser sempre assim, eu seria diferente e mais.
Bem cedo, ali pelas 5h e 11min, desceram
o morro pela rua Bandeira Paulista e deram com a praia da Urca de um lado e a
praia do Arpoador de outro. Gaivotas fazendo rasantes ali por perto, ali pelo
meio-dia. Para que lado? O palácio Duque de Caxias. Veleiros navios à vela
trimastros e patachos, escunas, sumacas, paquetes, bergantins. Barcos a vapor
batizados de Correio Imperial e Correio Brasileiro. Cinco ou seis caravelas de
piratas corsários foras da lei afeitos a trampear trapacear trampolinar e
criativos nas suas mumunhas artimanhas mutretas. Docas do porto com seus
trabalhadores na azáfama e buscando incessantemente a féria a receita do dia.
Rua Barão de Santa Tecla. Inúmeras igrejas e ordens religiosas e os trapistas
os beneditinos os maronitas os capuchinhos as carmelitas.
- Hi-ooooi!... Acho que devemos ir para
os lados de lá - disse o Tico-Tico, indicando com a pata.
- O-li-gar-quia!... Parece que ninguém
nos esperava a essa hora, né, Tico?!
E sem dúvida foram para os lados do
Arpoador. Almoçaram araçás-da-praia ali na praia da Barra da Tijuca. Petiço
achou melhor o bom capim-grama. Esperaram um pouco, tomaram uma água fresquinha
que descia da serra da Carioca e logo logo seguiram pegando a antiga rua
Vicente Carvalho ao lado da praça Cassiano Ricardo. Eram férias de fim de ano?
Tudo levava a crer no sol?
- Es-có-lio!... Mudou alguma coisa? Você
percebe algo diferente, Tico? Eu acho que sim.
- Hi-ooooi!... Olha!... É possível, sim
senhora! Mas eu duvido!
Já estavam na praia Vermelha, e sempre a
trote. A menina princesa alçada no petiço, meio que contornavam a baía de
Guanabara. Bem à vista a ilha das Cobras. O cavalinho foi subindo pela areia
fofa. Parecia demorar mais porque a ansiedade era muita e a cidade, o centro da
cidade do Rio de Janeiro, o largo da Carioca, este já estava perto, a avenida
Júlia Cortines já estava à vista, a praça Elvira Gama com o monumento ao famoso
uraguai Basílio da Gama.
O dia muito claro, muito claro, luz
intensa, intensa luz e chuva no decorrer do período. A cidade de tugúrios e
casas e de ruas e praças, e poucas pessoas andando para um lado e outro lado.
Havia mesmo uma bagunça de embarques e desembarques no cais do porto alfândega.
Fevereiro, março e abril - eram os rios das frutas ivaí, guabirobas, butiás,
goiabas-do-mato, sete-capotes, jabuticabas, araticuns-de-boi.
Subiram pela rua Luís Guimarães e perto
do porto, cruzaram rapidamente o Campo de Santana, enveredaram pela rua da
direita Álvares de Azevedo, emendaram com a rua do Ouvidor e a Padre José
Maurício e a José Godofredo Rangel. A menina levinha peninha pluminha na carona
do cavalo, o petiço no “plo plo-que! plo plo-que!...” dos passos cascos no
lajedo nas pedras pé de moleque. E sempre num trote organizado real idêntico
compassado sintonizado. Agora mesmo um passeio público calçada com pedrinhas
portuguesas em ondas de mares azuis. Andando se movimentando num passo calmo
devagar pro corpo respirar conseguir o ar necessário para nem cansar demasiado.
A ansiedade dos dois viajantes,
retornando pra casa depois de longo passeio longo circuito e périplo, era clara
e contente e estava na cara. Umas pessoas ali pela alameda Valentim Magalhães
aleia de umas quantas gameleiras-de-purga - cartola na cabeça e bengala na mão,
sombrinha aberta e vestido babado arrastando no chão -, ficaram olhando e nem
reconheceram os chegantes andantes retornantes.
Uns soldados parados faziam guarda no
museu Zalina Rolim. Um vendedor de cartuchos de amendoim pregando seus
cartuchos pela rua da Capuaba. Uma baiana em trajes tradicionais vendendo no
tabuleiro as cocadas brancas e pretas os acarajés as rapaduras os pés de
moleque, doces salgados agridoces neutros finos preciosos. Outro com penca de
bananas no ombro. Alguém ainda com vassouras de piaçava. Outro com burrico
carregado de água. Sujeito com jegue carregado de carvão e já na rua Autran
Dourado. Dois mais com carro de bois carregado de canas maduras para caldo de
cana garapa.
- Pro-po-si-ção!... Ainda nem fomos
reconhecidos, seu Tico! Será?
- Hi-ooooi!... É, mas talvez só nos
jornais de amanhã, né?! Fique fria!
Foram avançando assim-assim pelo caminho
de Catumbi. De um lado os morros repovoados da floresta da Tijuca, casarão
avarandado dum barão de Pedro Afonso, do outro o mangue cheio de sapos-martelo,
mosquitos, zabelinhas, pios de sanãs, voos baixos de guarás, colhereiros,
biguás, flamingos, saracuras. Uns passarinhos gorjeavam de costume, pulavam de
contentes, comemoravam a chegada dos viajantes, cumprimentavam na língua deles
e tachuris-campainhas, viuvinhas-de-óculos, caminheiros-de-unha-curta,
caneleiros-verdes, bem-te-vis-de-coroa-vermelha, tesoureiras. Pé de
candeia-de-caju agarrada ao chão e estendendo os braços longos de sombras.
Os confrades de aventura nem tinham mais
como errar o ancoradouro. De perto já o bairro São Cristóvão. Uma avenida
Carandaí. Ultrapassando o portão grandioso, em construção e com sebe cerca
viva, já na Quinta da Boa Vista. Um empregado do palácio, ali colhendo butiás
amarelos, reconheceu os viajantes, olhou, anotou, pensou, abriu a boca e
gritou, trilou o apito energicamente enérgico:
- Tra-la-láaaa!... Oi, dona lindinha!
Olá, colorado! Folgo muito muito em revê-los na volta!
- Co-ro-lá-rio!... Tudo bem e no devido
lugar, seu Caiouá?! Os dias passados?
- Hi-ooooi!... Sentiram nossa falta?!
Agora nesta hora já voltamos e estamos aqui!
Um lago com peixes do pantanal
mato-grossense, com peixes da Amazônia, com peixes vindos dos vários lugares do
país. Alguns tratadores de peixes no lago lotado de bagres, pirarucus, pirapemas,
tucunarés, pintados, piabanhas-vermelhas, lambaris... e ergueram os braços,
expandiram os sorrisos, abanaram, zumbizaram para os que chegavam, aplaudiram,
comemoraram, sopraram, cantaram:
- Uuuaaaiii!... Como tem se ausentado,
senhora miudinha?! Como foram e voltaram, seu petiço?!
Numa curva do grande jardim, o palácio
de São Cristóvão e toda a sua majestade. E, sempre a trote, chegaram no pátio
do palácio com esta calorosa recepção dos irmãos, das irmãs, dos primos, das
primas, dos aderentes, dos convidados, dos bajuladores, da corte toda e mais
todos vibrando muito parabenizando coro coral dando as bem-vindas aos dois que
chegavam da longa viagem da longa aventura da longa travessia da cansativa
jornada:
- Maaas... baaah!... Oi, irmãzinha! Oi,
Tico-Tico! Hoje já é um dia muito bom!
Na porta principal do palácio imperial
apareceram o imperador Dom Pedro I, a imperatriz dona Maria Leopoldina. Logo o
casal desceu as escadas e se juntou ao bando de guris e gurias no pátio. Todos
se juntaram numa festa geral e satisfeita, abraços de polvo... o que era um
polvo?, cheio de braços e abraços, e beijos e agrados, carinhos e cafunés,
aconchego e atenção, agrados e agradinhos.
Foi um reencontro bem de se ver. O que
se viu. E leve leve. E fraterno fraternal.
A montanha agarrou o sol, tudo pintou a
tardinha anoiteceu 20h e 19min estrelou. Tudo acomodou, o sol soltou a montanha
e foi escorregando no infinito. E bem-te-vis-do-campo, azulões-da-serra,
anus-pretos, curiós, cardeais, sebinhos, pica-paus-do-peito-amarelo,
coleirinhas-do-brejo, colibris, besouros. E faziam festa e algazarra e manjares
e orfeônicos porque era verão nos rios das frutas ivaí nos trópicos nos verões
nos janeiros parques de fevereiros.
#