domingo, 15 de janeiro de 2017

Contos de Santa Luzia (22)




         Eram duas as moças - em suas bícis irmãs gêmeas - e queimadas torradas do sol, maiores, vacinadas, donas do próprio nariz, livre arbítrio, a tal e qual escolha livre, seguras de si. Vinham pedalando ao léu e de déu em déu e de lés a lés ao natural. Vinham trocando pequenas ideias ao normal livremente. E lé com lé e cré com cré, pois que cada uma com o seu pé. As duas já cobertas do pó da estrada, devidamente maquiadas, suadas e cheirando a burros de carroça. Ambas cansadas, derretidas, desgrenhadas, e um tanto quanto enfadadas.
Naquele momento, ou agora mesmo, entravam pela rua Única da aldeia de Santa Luzia. Rua poeirenta, britada, única rua e descalça. Casebres feitos de barro trazido de longe e cobertas de santa-fé. Uma poalha sempre assim, sempre ali no ar, sempre bailando no ar tornando o ambiente difícil de respirar. As duas tiveram o acaso de nem furar pneu no caminho até ali, até ali, até que enfim.
         A que usava de batom rosinha tinha um cabelo ruivo e curto, nos casos borrado e empastado. Trazia a tiracolo uma bolsinha de couro bordada com fios de ouro. E alguém poderia dizer: prefiro as mocinhas assim: com sardas no nariz e tudo mais.
A outra, que agitava o rabo de cavalo como um pêndulo, era loira, ou no caso amarelada. Trazia um lenço floreado de pescoço, um embornal de couro, uma bermuda com muitos bolsos e alças. Alguém já poderia dizer dela: necessito de moça assim: afável espontânea e boca rasgada.
A moça da direita, de quem vem, se chamava Manduri - nome de apelido de infância. A moça da esquerda, de quem vem, se chamava Maria - nome mundial.
         As gurias largaram âncoras na escadinha da capela. Um silêncio alimentado de poeira e difíceis guinchos de entes sobrenaturais. Olharam a novidade que era a vila de Santa Luzia. Tudo nem era sorteio? Tudo nem era acaso? Tudo nem era um jogo? Se sentaram nos degraus e sentiram fome e sentiram sede e muito sufoco. Estavam cansadas, cobertas de poeira, olhos cansados de paisagens ordinárias e poeirentas, sem muita paciência para conversar e pensar o por vir.
Continuavam observando ao redor. E também uma olhou a outra. A outra estava olhando os tocos das ex-árvores altas da praça, e tentando adivinhar o nome ou a espécie. Para a tal que olhava, a outra falou, boca cheia de poeira, proseou:
         - Será tudo real, Maria? O que vejo é o mesmo que você vê? Nem será um sonho idiota? Nem será domingo de feriado e eu sem vontade de me levantar?
         - Nem, nem é miragem. Nem, nem chega a tanto.
         - En-tão...
         - Hum...
         Depois, foram empurrando as magrelas até a extinta desativada padaria. Lá na porta da ex-lojinha uma pergunta do dia a dia:
         - Pra onde que foi todo o mundo, meu?
         - Então, nem vê que é o dia sufocante?
         As moças se dirigiram para as sobras das ex-paineiras da pracinha. O calor estava terrível. O saci arrastava terra no redemoinho e ria perdido, ah eh eh eh!... O bafão estava insuportável. Temperatura de fornalha. Nem chovia há duzentos anos, talvez oitocentos e cinquenta. Pesadas e impertinentes nuvens de pó. Maria percebeu um pixote se aproximar aí, a Manduri acompanhou a cena.
         - Tá vendo...
         - ... o que tô vendo?
         A Manduri chamou o arteirinho:
         - Ei, meu! Vem cá, rapais!
         Primeiro o culepe parou para olhar, e olhou. Depois, conferiu em volta de si para ter certeza que podia estar ali. E se sentou à espera de outro convite, e olhando. A boca aberta, cabelo desgrenhado, cara suja, caroço no peito. Aí, desistiu, ou fingiu se distrair com outra coisa, e olhou de lado, coçou aqui e ali. A seguir ensaiou aquela despedida, se ergueu, olhou de viés, se virou de costas e fingiu ir embora.
Mas, de repente, parou, pensou melhor, se voltou, olhou, voltou e veio se aproximando. Como um cão magrelo faminto ressabiado pedinte. E veio chegando, tímido, pés descalços, cabisbaixo, olhando sem querer encarar, coçando o caroço no peito. Já chegou, o olhar humilde, coçando ali no meio das pernas, chegou bem perto. Olhou a altura das duas moças. Parecia estar quase com vontade de chorar. O moleque foi falando:
         - Deixa eu andar de bíci?
         As gurias tiveram ideias politicamente políticas:
         - Vamos aceitá-lo? Vamos dividi-lo? Vamos nomeá-lo?
         - Vamos ao menos adotá-lo e registrá-lo como filho?
         - Acho melhor dar-lhe logo um nome próprio forte com o qual se sentirá forte rápido e alto.
         - Que seja um nome de índio, então.
         - Será que gostou mesmo da gente? Às vezes eles querem só andar de bicicleta.
         - Pode ser que sim ou que nem.
         As prendas procuraram um hotel, uma pousada, uma pensão, uma garagem, um barracão, um acampamento, um telheiro, uma gruta... e nada. Talvez... nem, deixa pra lá.
Percorreram todas as casinhas de pau-a-pique cobertas de sapê, mas sem encontrar. E nem viram ninguém para perguntar. Assim, resolveram ficar na pracinha. Armaram uma barraca debaixo de um alto esqueleto de quixabeira.
         Veio a noite. Também o vento vermelho, pilotado de saci, ah eh eh eh!... e correndo pela rua. O dia fora terrivelmente quente, sufocante, abafado como a boca de um forno, como a cratera de um vulcão. E a escuridão caiu como uma lona.
E a noite prometia ser também terrivelmente pegajosa e de grossas ondas. Noite de milhões de estrelas perdidas nas nuvens de poeira e a lua. Noite de martinta-pereira uivando fino na capoeira seca. Nem chovia há vinte anos. Um lobisomem acoava lá do meio das touceiras torradas de barba-de-bode, por trás dos tucurus vazios abandonados.
         As moças capotaram e foi cedo. Entraram na barraca e se aninharam. Estavam muito doloridas e sem tomar banho as pernas pesando como chumbo, etc. E fazia um calor sufocante. Assim, dividiram apenas um beijo na boca. E procuraram esquecer, dormir. As moças estavam ardidas e desoladas e mal pagas. Fora uma jornada sem importância sem nem por quê.
         Um vento carregado de terra seca parecia amontoar o cisco para um canto da praça. Entes extraordinários que grunhiam andavam olhavam com quinze olhos sem ser vistos. Depois, o mesmo vento discordava e empurrava a coisa para outro canto. Assim, o vento empoeirado foi tocando para os quatro cantos. Uma mula-sem-cabeça trotou rua abaixo ou rua acima, potocó! potocó!... O saci espiralou num pé e ali por trás da derreada cerca de taquaras rachadas.
         Maria acordou no fundo da noite alta. O ar estava sufocante e entupido e abundante de poeira vermelha. O mundo cheio de silêncio suspeitoso. Saiu para fazer uns poucos passos. Os ventos haviam desaparecido mas a poeira nem. A noite, por dentro, estava realmente pesada de terra, embaraçada e muito quente. Maria cruzou os braços olhando o quê? Mas mais e pensando sem nada para concluir. Caminhou ao redor da barraca para mexer as pernas. Os secos espetos de jurujuba apontando inutilmente agressivamente o firmamento terroso. E ela pensou: “Isso nem será já algo esquisitamente como uma equação, que equação?”
         Maria parou olhando o encoberto fantasma da lua. Apenas uma guampa de touro xucro escondida confusa entre as ondas de poeira. Ouviu uns passos e ficou em alerta. Da escuridão apareceu uma jovem típica aldeã trajando vestido longo. As duas se encararam. A típica aldeã estava com uma guirlanda de flores artificiais na cabeça. A típica vilã mantinha o cabelo até a cintura. Muito peculiar a típica aldeã parecia gostar de miçangas, piercings, tatuagens, trancinhas nos cabelos, fitinhas coloridas nos pulsos. Uma frase tatuada no peito mostrava escrita em se saindo como colar: “Voar como se por que nem tenho asas?!” Esta típica aldeã convidou:
         - Que vocês duas estão esperando aí? Por que nem vêm pro baile?
         Manduri e Maria acompanharam a jovem típica vilã até o outro lado da capela da homenagem à santa Luzia. E entraram num fervo agitadíssimo. Tochas, archotes, e fogueiras iluminavam um círculo de folia. Toda a aldeia comparecia, sem dúvida. E nada nada para beber, para comer. Música ao vivo com o conjunto dos próprios moradores. Pixotes brincando de se agarrar, correr atrás, chutar canelas, cuspir, xingar, atropelar, esbordoar. A típica aldeã tirou Maria para dançar o tal e qual vanerão:
         - Vamos nessa?!
         - Demorô!
         O padre, com seu chapéu de palha desfiado na aba, ria alto, ah eh eh eh!... e olhava tudo e todos por ali, cuidava das coisas, braços cruzados, circulando sempre, interessado, arrastando na poeira as chinelas de couro fechadas. E no mais, uns dançavam, outros ficavam olhando de braços cruzados e rindo alto. A gurizada se arrastava pela poeira, e gritava e chorava e se queimava nas brasas das fogueiras.
         A Manduri foi intimada por um aldeão de bigodes em ponta. A Manduri se deixou carregar. Ela ia falar, ia explicar, nem teve tempo. Foi que lhe veio de rir muito quando deu para pensar que jamais beijara alguém com aquele bigode farto e agressivo e cerdoso. Nubladas ondas de pó e pesadas e densas perfazendo o lugar e de grau a grau. E se imaginou debaixo daquele bigode hirsuto. Já se sentindo curiosa. Com vontade de falar algumas coisas e rir. Calculando peso, medidas e intensidades. “Mas, por que nem?”, isso ela só pensou.
         A ideia comum e associada das duas garotas estrangeiras era se divertir e ir embora da vila pela manhã vindoura. Se divertir sem neura, e ir embora na manhã seguinte. Se divertir era sempre o normal e ocasional, ir embora adeus era tranquilo e certo. Se divertir hoje e amanhã ir embora pegar a estrada de tchau.
         Depois, Maria e a típica aldeã pararam de dançar. Acho que exaustas. Maria parou para respirar melhor, e porque achou que pintava um clima entre elas. Sentada numa banqueta ela olhou toda a festa e sentiu que tinha ocasião. Tanto ela como a Manduri. A noite nublada com pontos raros de estrela e lua. Umas nuvens cinzentas viajando pelo alto até o infinito. As duas visitantes se sentaram lado a lado e pareciam nem mais aguentar um minuto o ar pesado intragável do lugar.
E as gurias, então, tiveram a quase normal certeza de que a noite seria imperdível. Riscos uivos sombras que se moviam se ouviam já nem se viam nem se ouviam e sem se lembrar onde. Se entreolharam e se abraçaram já se sentindo em grande intransferível histeria.
         Maria foi convidada para uma música lenta. O aldeão era alto, magro, ossudo, galhudo e nariz de rapina. Maria colocou o ouvido naquele peito ossudo peludo e pensou dormir. Já a Manduri foi tirada pela típica aldeã. A Manduri gostou muito porque a jovem e típica vilã parecia muito entregue e interessada. Beijo na boca era esperado, talvez para breve, talvez só mais tarde no flagrante, quiçá roubado. E Manduri abriu os olhos, assim uns olhos meio molengas, e procurou ver mais longe.
         O sacerdote rodava e rondava a área iluminada pelas fogueiras. O padre usava um chapéu pantaneiro rasgado e manchado na frente. Mãos grandes às costas esperando uma hora incerta. Enquanto isso, os pivetes corriam para ali e para lá brincando de se atirar brasas acesas nas pernas. E brincavam de futebol com lata de leite em pó vazia.
         Os aldeões e as aldeãs os iguais de seus iguais nem deixavam as visitas descansar para além de dois minutos. Lá ia a Manduri rodando pelo chão, levantando poeira vermelha, atrás de um forró e agarrada a um baixote de grande barriga por cima da cinta. Lá vinha, na contramão, a Maria girando na nuvem de pó agarrada a uma robusta de cabelos em trunfa. E as duas estrangeiras aceitavam esse assédio. E trocavam entre si um piscar de olhos divertido. Se sentiam excitadas. E ainda que tinham um testado preparo físico e muita paciência e curiosidade.
         Quando muito, então, começou a ficar tarde dar as dores nas pernas nos braços e muito sono. A Manduri falou para um aldeão que a arrastava no pique largado do samba de gafieira:
         - Houve muito desmatamento por aqui, na região na zona, certo?!
         O som parou para dar lugar às lorotas, anedotas, lendas, vanglorias e gargalhadas, ah eh eh eh!... Muito dito de gauchada, causos de mentirosos. Matavam extirpavam comiam. E todos pareciam estar muito ligados, uma vez. E as duas visitas já nem tinham por que ter dúvidas: eram moças de muito prestígio na aldeia.
Manduri pegou o patuá com cara de sapo verde do seio e deu-lhe um beijo profundo estalado. Maria agarrou sua cruz de prata do seio e a beijou carinhosamente repetidamente. A noite, lá no alto, pintada de nuvens vermelhas, ondas enroladas, e sem o que fazer. E a lua ouriçada envolta em saco de estopa ou aniagem. E um e outro bramido na distância. E alguns arrastar de pedras, poeira nos olhos, risos de, ah eh eh eh!... Quem sabe até uma martinta-pereira espoleta reinando por aí, hein?!
         O pastor fez um sinal, que nem era o santo pelo sinal, e dois aldeões trogloditas pegaram a Manduri, e mais outros dois aldeões gorilas pegaram a Maria. E as levantaram meio metro do chão, com surpresa e tudo. Tiraram todas as peças de roupas das moças convidadas. Agitadas as duas muito bastantes as pernas e os braços e os dedos de garras em unhas. E as ataram nas mãos e nos pés. Depois as penduraram de cabeça para baixo num galho isolado de petrificada araputanga da pracinha.
         As sorteadas ficaram ali, vendo o mundo, pendulando, olhando os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos, a vila toda rindo, ah eh eh eh!... gritando, brincando de ciranda, tudo tudo de cabeça para baixo. E elas tiveram quase certeza: como duas podem ser quarenta e poucos: como quarenta e poucos podem conter duas. Abater estripar manducar. E os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas somente aguardavam as fogueiras baixar e tudo virar um brasedo de assar.
         O vento muito calmo levantava uma pouca poeira de nada. Uma mula-sem-cabeça relinchou no capoeirão entre os secos tipis-bravos. Saci, ah eh eh eh!... reivindicou em torvelinho seu setor no meio da rua Única. As gurias nem tinham mais nada para falar mais nada para aprender nem nada para rir nem para pensar.
         Certo aldeão chegou com uma casca-de-vaca na mão. Levantou a casca-de-vaca no ar embalsamado e foi largando com vontade. Então, as duas gurias, cabeças para baixo e olhos fuzilantes, receberam o que mereciam, receberam chá de casca-de-vaca. As marcas assinaladas, táaa! táaa!... penetravam também o instinto dos circunstantes como carne macia amaciada.
         As moças estrangeiras perderam logo logo a expectativa esportiva, depois os sentidos, corpo e parte material, e nem demoraram mais nada para morrer.
         Um lobisomem - àquela hora ainda disfarçado de espantalho com chapéu de cartola -, muito tonto e esfomeado faminto, ali no meio do capoeiral, redepentemente, urinou longemente num forte incontido jato de esguicho.
  


domingo, 11 de dezembro de 2016

Contos de Santa Luzia (3)

                                              


         ...naquele lugar em separado extraordinário desgarrado extraviado...
         Outra outra como outras tardes vermelhas e abafadas e cozidas. Sol fechado e as horas de calor terrível, no duro. O mundo de pedregulho e terra em suspensão.
E tudo uma grande pasmaceira em a vila Santa Luzia. Meses sem chuva. Sol mais vermelho que a terra vermelha. Dias e dias em que os aldeões e as aldeãs e as aldeãzinhas por demais cansados e desinteressados e desanimados. Aldeãs e aldeões já muito agastados desconsolados desidratados. Aldeões e aldeãs e aldeõezinhos insatisfeitos e preguiçosos e falando sozinhos.
O mundo ali todo exposto ao deserto indecente indigente inclemente. Estava bem ruim, péssimo, mas muito pior. O alto enfarruscado de vermelho. As ex-árvores paineiras aricurirobas já pra lá de tontas, raquíticas, subnutridas, esqueléticas, secas e cheias de apelidos depreciativos. Gravetos e folhas secas espalhados pelo chão da pracinha. Pedras assadas, requentadas, tirando faíscas do sol. O pernetinha no meio da rua Única, no meio do pó do redemoinho, no meio do ar terroso irrespirável. E este cagadinho se ria, ih ih ih!... este merdinha seca se ria, ih ih ih!... este fedelho se ria, ih ih ih!...
         A pracinha esburacada, de árvores petrificadas e espetadas em lanças pretas contra o céu ex-paineiras ex-aimontabus, era o lugar escolhido e predileto de reunião dos arteiros dos traquinas. Isso durante o dia encardido ou à boca da noite poeirenta.
E nessa aldeia ou capela de Santa Luzia, aspecto de vila ou arraial, tapera, tempo perdido do perdido e meio, espaço desértico, se encontrava e se entocava um piá mirrado e sequinho e miúdo e precavido, chamado Zé, o Zezinho, de outros apelidos, Micuim ou Mico.
Chegou uma certa hora da tarde 03:15 que dona Maitá a mãe do Z nem teve saída senão gritar para a vila inteira ouvir:
- Zeziii-nho!... Vá até a casa da D. Mucura e peça pra emprestar um aquele velho e esfiapado chapéu de palha de abas largas!
Zezinho acordou assustado que nem viu. Zezio, muito prontamente, muito importante, muito lambuzado de poeira vermelha, já saiu do seu esconderijo debaixo do casebre. E eclodiu enrolado nesse algo parecido com panos de faxina camisetinha e calção sujos rasgados.
A mãe dele ainda gritou mais:
- Volte rapidinho, pois preciso do cha-chapéu agora mesmo!
O Zeo, pés descalços, dedos dos pés abertos acostumados de andar sem calçados, joelhos roídos, pele grossa de encardidos, já saiu afobado deitando o cabelo engomado de poeira. Cuspia como costume de cuspir. Sempre olhando desconfiadíssimo mil vezes por segundo em todas as direções possíveis.
No caminho de ida, cruzou pela área da pracinha onde os outros moleques lidavam e gritavam e xingavam e brigavam à vontade. Nem podia se dar ao desplante de parar. Então, talvez por isso mesmo, os pivetes o provocaram:
- Mico! Aonde você vai?!
- Já volto! Vou ali e já volto!
De volta da carreira que fez até a casa da D. Mucura, o moleque ouviu novamente o convite dos pixotes:
- Mico! Vem atentar de chutar bunda! Vem! Falta um! Falta você!
Inho nem podia parar para atender. Era um menino prestativo, fiel, metódico, sistemático, tímido, chato, tonto, teimoso, embirrento, desconfiado. Mas preferia muito chutar bunda dos outros, como se fosse bola. Ficava só na fantasia e na ilusão de pensar. O mais difícil era o de arrumar um boboca qualquer. Chutar a traseira ou outra parte do freguês era muito excitante porque arriscado.
Meses e meses e continuava a crise da falta de chuvas. Faltava a chuva. Faltando chuva faltavam sapos, libélulas, grilos, besouros, moscas e faltavam escaravelhos. Nem havia nada em lugar algum. Faltavam gafanhotos, faltavam aranhas, caracóis, lagartos, cobras, lacraias, mosquitos, aimirins, faltavam escorpiões. Aconteciam sobras de incêndios no capoeirão, consequentemente faltavam todas as plantinhas e quaisquer plantinhas. Nada de verde nada que se movesse; tudo recamado da poeira sempre em movimentos pelo ar.
         Zé ou Bicho-Colorado era um guri de nada. Zio ou Micuim era um piá que pensava perguntas as absolutas as absurdas. Perguntas que pensava eram do tipo: As estrelas falam entre si? As pedras têm coração? As estrelas são de ouro ou de prata ou de diamante? As pedras dormem de dia ou de noite? Em que país moram as maiores e melhores estrelas? E Zezinho continuava ainda perguntando a si mesmo: Como foi isso? E depois, que aconteceu?
         Nem se sabe quando terminara, quando deixara de funcionar, mas de um tempo pro outro, antes do tempo, todos repararam que Zezinho nem conseguiu mais crescer e se desenvolver. Ele tinha treze, e seu corpinho resistia na altura e massa dos sete. Não, não era filho de anões. Nem neto bisneto trineto tetraneto de pigmeus. Nem parente de caxinguelês. E nem subiria mais que aquilo ali que já subira. Era bem pouco. E isso sempre fora o motivo dos traquinas colocarem o apelido de Mico. Por isso mesmo, nessa dura certeza, ele, Zezinho, tivera um forte e decisivo e urgente pensamento de morrer. Mil maneiras de morrer e sumir e desaparecer. Um seco seco pensamento de se ver do avesso de se ver pelas costas. Um pronto desgosto vazio de chegar e pedir socorro e xingar e gritar palavrões.
         Até que uma hora, naquele dia, uma sexta-feira de manhã quente como forno doentia como fornalha acesa, o padrasto foi e gritou para o pátio ou na direção do terreiro:
- Zeeé-zinho! Vai pro pai lá na ex-marcenaria do seu Guajá e traz de lá a velha e quebrada cadeira de balanço! É pra já!
         Z-Z acordou assustado e meio cego entupido de ciscos num olho. Zo, muito ajuizado e zeloso e engajado e cabisbaixo e resmunguento e craquento, já já saiu do seu esconderijo no buraco debaixo da tábua podre e se apresentou. Cabelos sujos desalinhados cabeça marcada de caroços e calombos e cicatrizes. O ambiente desde antes revolvido misturado remexido nos carvões e nas fuligens.
- Zezinho! Pede pro seu Guajá pendurar na confiança! Vai num pé!...
         O Zi ou Micuim-Amarelo, solas dos pés comidas pelo chão requentado, manquitolando, cigarro de palha de milho na boca torta, disparou para a ex-marcenaria. Juntando pedras que carregava nas mãos conforme preferia umas e não outras.
No caminho de ida, cuspindo quando tinha saliva, ele cruzou a pracinha onde os moleques cheiravam cola e brigavam e discutiam e se corriam atrás com pontapés e pedras e paus. Queria participar, queria ser mais um nas molecagens, mas estava com urgência, com tempo escasso, com tempo gasto, com tempo previsto, com tempo contado. Os bagunceiros queriam detê-lo, e berraram:
- Ei, Mico! Não vem se misturar com nóis?!
- Agora estou com pressa! De repente eu já fui!
Na volta da ex-marcenaria, o convite foi renovado, revoltado:
- Mico! Vem, vamos atacar de incendiar os bobos e os otários! É luta das grandes à beça!
- Infelizmente tô sem poder!
Nesse vaivém Zezinho tinha dúvidas se devia ou não se perder. Sentia muito não poder ficar com seus parceiros incendiários, arteiros, desaforentos, briguentos, espalha-brasas. Incendiar um garotinho bobo qualquer era muito esperto, era a moda e a onda do momento. Primeiro arrumavam um tanto de palha seca, depois atraíam um pivetinho doido e distraído, enchiam o pirralho de palha, igual um espantalho, tocavam fogo. Dali pra frente era se preparar para tirar sarro e muito vendo o pirralhinho riscar a pracinha como um cometa. Às vezes o molequinho mesmo fazia o acaso de correr para o capoeirão seco. A capoeira pegava fogo fogo. A aldeia corria apagar. Um inferno, todos na rua em pleno sol causticante, e um acontecimento.
         E o menino Zés ainda se duvidava: Por que o sol nem para? Por que a lua se quebra toda? Por que as estrelas piscam somente à noite? Por que nem chove quando já todo o mundo espera pela chuva? Por que o mundo teima teima com ondas de poeira vermelha? Por que o tempo de espera nem passa?
         Mico ou Timicuí preferia, sempre preferiu, um dia começou a preferir muito o de se entocar no buraco escuro debaixo do casebre. E já se acostumava, e já nem precisava de mais nada. Nem queria ver ninguém nem fazer outra coisa. Ficava no buraco escuro, entocado, sozinho, quieto, cochilando, como um rato comum como um gambá como um morcego. E se enfiava ali no buraco o dia todo, sempre e tal, como quem nem queria mais nada. Se enfiava no buraco e relaxava e dormia e sonhava qualquer coisa agitada nervosa repetitiva. Se recobria de terra quando sentia frio quando estava com febre.
Depois de parar de crescer, e perder as meninas da idade, Z ficara muito muito mais tímido e desconfiado e arredio e vingativo. Perdera a atitude. Perdera a vez. Perdera a hora. Perdera tudo. Caminhava sem vontade ou fingia que andava. E começou a fumar e fumava vinte cigarros de palha por dia, quarenta por dia, os beiços os pulmões ardentes queimados de tanto chupar fogo e engolir fumaça.
Na roda dos arteiros na pracinha, por exemplo, Mico nem ousava atentar as gurias, contar uma bobagem qualquer, se levantar se destacar durante as arruaças e palhaçadas e macacadas, gritar alto no meio do bando, correr mais que outro, sentar ao lado de uma guria, propor uma aventura, fazer um gol. No meio da galera nem se ouvia sua voz, nem se ouvia sua tosse, nem se ouvia seu pigarrear escarninho. Ficava num canto só observando, encurralado, prendendo a respiração, encolhido, retorcido, torcendo para nem ser visto, torcendo para nem ser ouvido, para nem ser acusado nem ser atucanado. Era um horror se os marmanjos olhassem para ele, um deus-nos-acuda se pedissem para que fizesse tal coisa, uma dor de barriga se apontassem o dedo sujo e acusador.
- Zeiii-nho! Vá pra mim até a capoeira e me traga de lá duas pedras para fazer sopa! Nem vá me fazer esperar!
Zoinho acordou assustado, as orelhas enferrujadas de terra seca. Então, Zezi ou Timicuim, muito rápido e atento e neurastênico, saiu da sua toca e se prontificou a atender o pedido e fazer o carreto. Ficava alojado no buraco um dois três dias, às vezes atacado por acessos de febre. Claro, seu Pacari era gente vizinho e coisa e tal. O seu Pacari ainda recomendou:
- Zezinho! Faz esse frete pra mim! Vá até ao ex-roçado atrás do morrinho de areia e me colha duas pedras que já deixei de propósito! São até muito levinhas! Na volta lhe devolvo as bolinhas de gude!
Zezé disparou para a ex-rocinha do seu Pacari. Se coçando pelo corpo todo arranhando as pernas se estapeando nos braços. Z-Nho era um menino atencioso e solícito e nervoso e esperto e desconfiado e embirrento. Gostava de cuspir quando tinha o quê. Na ida e na volta, cruzou com os meninos vira-latas se combatendo na pracinha sob as carcaças das ex-paineiras ex-guriris. Ainda na ida era feito o convite:
- Mico! Vem se fazer de carrinho de mão!  
- Nem posso! Tô trabalhando pro seu Pacari!
Na volta, vergado ao peso das pedras gêmeas, ouviu o pedido sendo reiterado e revisto e refeito. Até a Marilva, de repente, pintara por lá e ela mesma fez um convite renovado e provocativo:
- Mico! Ei, seu Miquinho! Nem vem não?!
- Não vou poder, Marilva! Tenho que entregar estas pedras, Marilva! Fica pra ontem ou depois de amanhã, Marilva!
Zeio defendia muito as estripulias de carrinho de mão e comer terra e soprar pó vermelho na cara dos pexotes. Era muito arriscado e pagava a pena. Se a Marilva participava então era de matar. E até queria muito ver se a Marilva tinha mesmo força para levá-lo como carrinho de mão. Até se podia dizer que Zezinho sentia coisas por Marilva. Era assim. E continuaria sendo assim.
Zé esperava tudo de Marilva. Assim como uma vez de Junara. Assim como uma vez de Curica. Assim como outrora de Umutina. Assim como de Suzana. Assim como de Juruvoca. Até ali ainda sentia formigamento, principalmente quando chegava perto de Ana Paula. Nem poucas outras vezes, Mico ainda nem conseguia dormir porque a Juriti queria escalar sua garganta e sair pela boca. Eram noites que o Zinho tossia muito. Zezi pensava que a caixa do peito dele mesmo já estava toda esburacada como um labirinto de pedras, como um abandonado cupinzeiro e ou desfigurado em crateras como a lua cheia. E Zé esperara por Tataíra, Mico quisera rolar mais a Inajá, Zezinho dormira fantasiando com Bocaiúva. Também daí pra frente outras pra mais.
         Mico pensava, se perguntava, depois se perguntou: Onde nasce a lua quebrada e cai a lua cheia? Quem puxa a lua de volta pra casa? Quem solta a lua para o céu noturno empoeirado? Que tipo de bicho vive na lua? Pra que que serve uma lua só? A lua quer ser um disco ou um prato? Quantos dinossauros por dia vão parar na lua?
Zeinho nem preferia ter de fazer necessidades em lugares determinados e próprios para esses fins. Ele tinha receio dos outros. Ele mesmo escolhia o lugar e muitas vezes ao acaso. Temia ser seguido e vigiado. Quando precisava fazer, e fazia talvez lá uma ou duas vezes por semana, ele se afastava de tudo e de todos da tropa e corria para o lado oposto. Por quê? Pois os moleques ficavam sempre olhando o burrinho de um e de outro para comparar. Aí, saíam contando, ridicularizando, azarando e falando alto, desmedindo, espalhando nos ouvidos até das meninas. Zezinho levava nisso a pior. E sentia muito ódio disso tudo. Se sentia mal, muito mal, orelhas quentes, dormência nos braços nas mãos, ânsia de vômito. Sempre guardava escondido dentro do calção ou na garra da mão alguma pedra de estoque de precaução por via das dúvidas.
- Zeeziiinhooo! Vá até dona Lili me buscar uma picareta! É pra ontem!
Micuim acordou assustado, as unhas compridas e sujas e azedas. Z tinha dever urgente de atender sua avó Clô. Então, muito ligado e condicionado e lépido e liso e rasteiro, saiu do esconderijo do fundo da toca meio escura e se apresentou. Era mesmo uma figura magérrima uma sombra avermelhada, apareceu.
- Zezinho! Diga à dona Lili que eu quero emprestado a picareta! Mas é pra agora mesmo, viu?!
Zinho-Zinho já voava a jato, e já cruzava a pracinha onde apareciam gritando e correndo e se perseguindo os piores e menores trocistas da vila. Zé ia cuspindo porque precisava de cuspir onde fosse quando fosse. A molecada gritou atrás:
- Mico! Vem escravizar meninas otárias!
- Agora não, gente! Tô indo numa missão importante! Missão mesmo pra lá de principal e capital!
Ao retornar, e com a picareta no ombro, torto carregado de peso de um lado, Zé ouviu a réplica do convite. Recusar era tão e mais difícil:
- Mico! Vem ou não vem?! Já aprisionamos a Léo, seu bocó! Vem de uma vez, seu jacu de taipa!
- Ah, gente! Dão licença! Digam que não! - respondeu Zezio.
Zinhozim preferia mesmo muito ficar e escravizar a otária da Léo. Era uma das versões mais fortes da vila quando o de escravizar alguém. Uma palhaçada muito praticada e típica do lugar. Os molecotes seguravam o pé da menina com uma corda e não deixavam ela fazer mais nada que pensasse fazer. Era com gurias era com guris, mas incrível mesmo com gurias. E quando ela nem queria fazer nada, os moleques a obrigavam a fazer alguma coisa qualquer. E assim esse puxa-puxa durava até enjoar. Até que a molecadinha se cansasse. Às vezes a menina torturada num dia era mantida presa e atada até o outro dia e também no terceiro dia. Às vezes a menina ou menino até nem tinha permissão de fazer xixi e se mijava todo na bermuda. Nada mais do que isso.
         E o piá Z ainda se questionava sobre tudo e nada: Onde fica o começo do mundo? Onde está o fim do mundo? Quem detonou o tempo? Quem fez o mundo e sumiu? Por que o planeta tem esse barulho ensurdecedor? Por que o mundo tem uma pedrona em cima? Aonde o mundo pensa chegar, uma vez?
         ... um como que pouco pras oito e também conhecido como dez pras oito ou sete e cinquenta...
Zé preferiria muito principalmente três coisas: Uma viagem até a lua cheia em noite sem nuvens de pó vermelho; uma fuga qualquer nos braços da Mari; uma força de erguer do chão dois meninos grandes, um para cada sovaco; um dia inteiro sozinhos no capoeirão atrás das pedras e com Mari.
- Zéee-nho! Vem aqui bem perto que quero lhe falar a sério! Quero um carreto seu! - chamou o tio Coripó.
O Zi acordou assustado, corpo todo marcado contundido de tanto se debater em delírios e pesadelos. E mais o quê, amarelo e esquelético e fino e rápido, boca seca, ainda zonzo dos sonhos delirantes, cabelo vermelho do pó da terra, pele e ossos, e leve e ligeiro como um risco. Então, saiu da sua toca fria, muito sim senhor, aos pulos, pronto a servir. Cuspindo com mania com hábito crônico. E já levando sempre na ideia que estava ali para atender e prestar serviço e atenção igual um cachorro.
- Zezinho! Faz de muito rapidíssimo e rasteiro! Faz um negócio pra mim! Vá até a tapera da estrebaria do seu Tarumaí e me traga de lá uma ferradura velha e carcomida! Volte logo logo! Que é pra dar sorte!
Com muita mania de alerta e prontidão, e nariz escorrendo empoeirado, lá foi o Zézio. Afinal, era o tio Coripó quem pedia. O dia estava tapado de poeira natural da região. E Zezi atravessou a pracinha com o objetivo claro e já planejado, e o alvo já na alça de mira da menina dos olhos, o rumo já definido. Os moleques, todos muito tolos, molengas, já levantando poeira em tumulto, permanentemente no bababi no rolo no conflito, vinham com pedidos, gritando, vociferando. E veio o pedido-convite dos descamisados:
- Mico! Vem aqui, seu culepe! Vem fazer estripulia!
- Nem nem posso neste exato momento! Tenho uma incumbência por fazer! Tenho uma obrigação a executar!
De repente Zezé, cara de maracujá seco e enferrujado, já voltava afobado, resfolegando, língua solta na boca torta. Os garotos, assim rolando na poeira, soltavam os zurros, os uivos, os pios, os bufos, os coaxos, os grasnados e os relinchos. E insistiam convidando:
- Mico! Não me diga que nem quer aprontar aqui com nóis?! Vem de uma vez!
- Meu tio me espera com impaciência! Ele está com vontade de pregar ferradura no alto da porta! Meu tio Coripó é muito imprevisível e irascível e supersticioso!
 Zi sentiu muito não poder parar ali horas e horas rolando na poeira vermelha rastejar no pó da terra. Os mais espertos e heróicos subiam nos galhos secos das ex-árvores paineiras ou saguarajis da pracinha e pulavam. Voavam de braços abertos e perninhas duras e... pooo-fe!... aterrissavam no solo vermelho e duro. Era coisa para moleque muito corajoso e destemido e suicida. O Guató era o que pulava de mais alto. E muitas vezes durante uma partida. Todos queriam ser como o moleque Guató. E todo o mundo piava assobiava e se coçava alérgico porque era muito impressionante esses eventos perigosos e violentos.
         Na caixinha confusa escura e desimportante dos seus treze anos, Zeinho se preparava para ser sempre o Mico. O engodo de todo o sempre dum Micuim. Dormia no buraco e sonhava como um gato, como um cachorro, como um jabuti, como um lagarto, como um urutau. Então, cobria a entrada da toca com retalho de laje, com pedaço de tábua, com pneu furado, com sobra de latão. Ficava ali esperando. Mas aquele tempo nem passava. Um tempo nem de espera mas de mor-do-mi-a.
         ...pois caso passassem ou ficassem para trás eram passados vinte anos ou o dobro sessenta e cinco anos em um total de dezoito anos...
         Um domingo desprevenido, o tempo apocalíptico, o sol de rachar por dentro das ondas de poeira vermelha, remoinhos de sacis, o vento uns cento e vinte por hora, abalou a vilinha desequilibrou mais ainda o povoadinho. Nem chovia há duzentos anos. Os casebres soltaram poeira do telhado de sapê. Sacis rindo, ih ih ih!... no dia mormacento. Não, o mundo nem passava ali. Nem na ida nem na volta e em estação nenhuma. Pois nessa hora seu Jacurutu, o ex-farmacêutico, gritou esquentado lá da janela destrambelhada:
         - Zéee-nhooo! Vai pra mim até o grotão buscar vê se acha um osso de ex-formiga tanajura para fazer refeição no almoço do meio-dia!   
Zezinho acordou assustado, a boca os dentes encardidos de terra. Seu Jacurutu era vizinho da direita. Zizizi escutou o pedido e já se arrancou. Zinho era ligeiro quando queria, era lento quando queria, era teimoso quando nem queria. Cochilou desmaiado ali no buraco por um tempo que nem se sabia. Sem demora e já saiu correndo no trote pronto para correr, tirando tatuzinho do nariz, cuspindo pro alto pro chão na palma das mãos, se mandando como um robozinho muito domesticado e mirrado e torto e encardido.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Adrianinha e as Palmeiras Paisagens de Ir e Ida




         Era uma lenda verde tenra guria bonita. Nem era modelo de passarela mas era Adrianinha feliz simpática doze anos mesmo assim e passeava de bíci. Adorava sapos de tudo que era tipo desde os bichos vivos de verdade que coaxavam, rrrau! rrrau!... aos de brinquedo e de fofura e de decalque e de adesivo e de desenho animado e de estátua qualquer estatura sapo de louça plantado no canteiro do jardim.
         Ela morava de frente para uma praça da Bandeira na esquina da avenida Abaíra com a rua-travessa Caiabi. E todos por ali sabiam pelo menos alguma coisa do mundo em fora, embuá, tabujajá, cumbaca, munzuá, urutau, copaíba, Lagoa Bonita do Sul, rio Parnaíba, serra do Sincorá, oro-uim...
         - Você viu curió por aí? - perguntou a curió.
         Ao contorno redor disso aconteciam muitas histórias mas que nem tinham nada a ver. Só uma história tinha sentido e ligação e era e foi o aparecimento por ali de um sapo voador. O sapo-gameleiro amarelo alado surgiu do nada aéreo sobrevoou o local e aterrissou na praça 15 de Novembro, pla-pla-fe!... A guria nomeada Adrianinha viu.
         - Quando éramos aves - suspirou o guaçupitá.
         De tarde o sapo como tipo avião assobiou e a guria ouviu foi espiar olhou olhou e ela mesma pulou a janela.
         - Onde você mora? De onde você vem?
         - Sou natural de Maquiné, mas moro em Xangri-lá. Já morei em Catuípe e São Félix e Lavras e Birigui e Águas Mornas...
         Quando se abraçaram o sapo de asas transparentes virou uma juriti quando se abraçaram a juriti virou um japucanimpium porém o gavião virou uma borboleta-do-manacá e a borboleta virou uma crista-de-mutum mas a planta virou ainda frango-d’água. Adrianinha se divertiu muito vendo os vira-viras.
         Um curiango se agitou e falou para uma curiango:
         - Onde há abio há bugio.
***
         - Entra logo de uma vez, Adrianinha. Daqui a pouco vai escurecer.
         Quando eu tinha a idade tenra, chegava perto da noite, minha mãe me chamava chamava estivesse onde estivesse brincando de bicicleta subir em árvore correndo com o vira-lata Tapuio, etc., pulando sapata.
         Pronto, eu tinha que interromper tudo e voltar e entrar e parar de fazer o que estava fazendo, etc., e entrar em casa, tipo assim me esconder me proteger da noite.
         Então, quando era menor tinha que me agasalhar da escuridão noturna.
         As coisas também somem durante a noite e esperam pelo dia. O sol parece ser D. As palavras mudam por dentro por fora. As casas se fecham e o mundo assiste pela tevê.
         Mas de noite era que eu viajava mais que de dia. Viajava mais de noite que num dia inteiro. A noite derrapante e eu que fingia dormir dormir.     
***
         Adrianinha olhou bem e viu o rio do Coco. O dia claro já chegando com as horas. Menina conversando com as árvores com o rio com os peixes, jaraqui, ubari, camboatá, cangati, pirá. Os peixes querendo voar como os pássaros. Voar como a pirapuia.
         - Quando éramos árvores - suspirou um candiru.
         Era ainda cedo da manhã. Nuvens afofadas. O verão cheirava e axupés zumbiam. Um colhereiro parado numa perna só dentro do alagado. Da parte da Amazônia Legal vinha um vento verde de tapiriris copas enfloradas de paraíbas, paus-d’arco, imburanas-de-cheiro, icacorés-catingas, frutas-de-lobo... Os maracanãs-de-cabeça-azul grasnavam e pousavam e decolavam dos ramos balançosos das mandapuçás. Uma cabeça-de-boi perguntou prum cipó-de-são-joão ali os dois encostados:
         - O verão vem aí. O verão é melhor que a pri-mavera e em quê?
         De repente, as nuvens brancas se reuniram no bando de nuvens pesadas escuras baixas cheias. As aves piaram forte, anhupocas, saracuras, periquitos-das-ilhas, bigodes, maguaris... O gato-do-mato-pequeno esticou as orelhas e arrepiou o pelo. O vento nordeste balançou gigantescas árvores, angelim-amargoso, sebastião-de-arruda, sucupiraçu, mulungu, todas as árvores. A luz do dia ficou meio que fantasmagórica. Um chicote de fogo irado rasgou o céu de alto a baixo. A chuva veio com tudo porque tinha razões que a própria. As curicacas no alto do pinheiro araucária olhando o pinheiral grasnaram comemoraram. Família unida de capivaras umas oito pessoas chegou veio correndo se apinchou de chuá!... no rio Santo Antônio. E o dia meio que se escondendo de si mesmo um pouco mais cedo. 
         Uma formiga-cortadeira falou para um formiga-cortadeira:
         - Eu sou tua amiga. Sempre fomos amigos. Somos amigos antigos de longa data. Amigos desde a pequena era da nossa infância.
         E assim continuou bem feito. Riscaram mais relâmpagos tremeram os trovões cortinas de água da chuva descarregaram e a Adrianinha ouvindo cair a fofa a chuva o vendo e se sentiu disposta:
         - É melhor assim.
         Chuva e mais o dia molhado as árvores molhadas a paisagem os caminhos as casas os carros arvoredo pingando água fria, catiguá, copinho, garapa-branca, pindobeira, jatobá-vermelho... O vento avisava as plantas e contava folha por folha. As árvores que gostavam da chuva como todo mundo. Os postes de luz com lâmpadas acesas. Os carros de lanternas acesas.
         Adrianinha precisou de uma dúvida e ligou para Ana e Paula as duas das primeiras amigas:
         - Uma coisa que nem entendo agora agora.
         - Quem é?
         - Por que as formigas-quenquém nem sentem o frio? Por que nem sentem o calor? Por que quando sabem que vai chover?
         Por telefone as duas irmãs responderam numa só voz:
         - Bom dia!
***
         Eu olhava os fogos de artifício em pleno céu paralisado vago noturno. Tapuia abafava suas longas orelhas com as mãos. Os zunidos das bombas subindo no ar e explodindo, bummm!... e a cascata de estrelas de cor. Fogos de artifício bombas tiros noite explosiva estouros de espumantes gente gritando se abraçando se beijando comemorando carnavalizando.
         - Adrianinha! Vamos brincar de imitar um bicho?
         Mais tarde custei a dormir mesmo se pudesse dormir com todo esse barulho.
***
         E Adrianinha agradeceu saudou andou de bíci pra cima pra baixo comeu sorvete de pequi e foi se acomodar num longo parque Ibirapuera em um banco debaixo de uma frondosa mamorana-grande com passarinhos exímios cantores intérpretes, cricriós, estrelinhas, lavadeiras-de-cabeça-branca, azulões, tesoureiras... o parque tinha um lago onde ninguém nadava mas tudo era possível disponível repuxos e barquinhos de pedalinho.
         - E olha que nem falei do sol das nuvens dos aviões de carreira - disse uma pedra para outra pedra.
         Foi só depois das 14 horas que Adrianinha viu outro milagre. Tinha uma cidade Barra da Estiva. A cascata dos Três Monges. Nem muito longe uma serra do Acaraí. Nesse lugar que o milagre ia acontecer. Passou a ponte Ernesto Dornelles.
         - Ali está a cidade! - gritou alardeou a guaruba.
         A guriazinha passou a mão então pelo rio Sepotuba entrou na cidade seguiu direto para a avenida Tapixaba. O sol encontrou as horas agitadas de automóveis todos os trânsitos as lojas os bancos as escolas. Uma praça com nome Tianguá. A menina olhou e decidiu:
         - Vou dar uns coqueiros e palmas para esta praça, é.
         Ela se sentou num banco da praça e se concentrou no milagre. Foi e buscou onde for uma porção de coqueiros e palmeiras para povoar a praça. O milagre já estava emplacado, pronto. Opção do milagre as palmeiras murumurus. As aves araçaripocas gargalharam animadas presenteadas. A cidade debaixo do céu e o céu debaixo do braço. Jabuti-machado gostou da sombra. Gorjearam pipiaram cantaram os tchintchorrintchos, corrupiões, maipurés, freirinhas, bem-te-vis-do-gado...
         Chegou a avó e depois do lanche era sempre assim a guria escolhia muito bem ouvir histórias de lendas dos índios catuquinaru ou mura ou marabitana ou pitaguari... A avó materna sempre contava histórias curtas ou longas. Uma história com no mínimo 11 finais diferentes. A guria gostava imenso de budim de puxa-puxa de sagu com musse de chocolate na bolachinha maria e escolhia o melhor final dependendo dos planos lá dela Adrianinha. Assim todas as tardes das 16h praticamente era isso.
         - Onde há avô ou vovó há histórias - ziuziu uma cigarra.
         Quando foi um dia a guria quis experimentar voar e voou como um sapo voador como um pássaro japiim, sabiacica, pássaro-azul, noivinha, pintassilgo... e até voou bem legal e bem rápido. Quando se deu conta viu o mar e sobrevoou o mar as ilhas as montanhas o rio Iruí e o rio Piravevê e o rio Juruena principalmente as cidades turísticas, Jacareí, Nova Redenção, Cachoeira, Perdões, Coroados, São Bonifácio, Santo Ângelo...
         Aí a guria achou e escolheu um lugar muito maneiro. Era numa ilha bordada de praias brancas a praia de Jurerê e a praia da Reserva e a praia da Guarita montanha no centro e muito florestada.
         - Aqui perto que é o rio Una? - perguntou o outro.
         - Pode ser o rio Mutumparaná e nem duvido - disse a outra.
         E os dois o casal de papagaios-do-peito-roxo partiram partilharam participaram o par a dubla em voar.
         Na ilha Anhatomirim tinha mais uma praça na praça Itaetê tinha uma casa que fazia esquina com a avenida Augusto dos Anjos e a rua-travessa Catauixi. A guria exclamou:
         - Espera aí, meu!
         Uma árvore falou para outra árvore sapucaia-branca:
         - Sonhe e planeje e embarque, uma vez.
***
         Me sentava na frente da tevê e procurava os canais, este já assisti, este já também, este nem falá, este... peraí... Bem que eu tinha medo de filme de terror à noite e ninguém me deixava assistir. Então, quando eu ia dormir queria dormir de luz acesa. Então, eu olhava debaixo da cama dentro do armário desconfiava do cabide em pé parado no canto do quarto.
         - Adrianinha! Apague essa luz e vai se deitar! Amanhã você tem que acordar cedo pra escola!
         Então eu ficava estudando até mais tarde. Até cansar e dormir de luz acesa. Até acostumar a dormir de luz apagada.   
***
Adrianinha reparava em tudo mesmo. A menina reparou no rio Paranapanema nas árvores o rio sinuoso entre as árvores urucum-da-mata, saranduba, peroba-iquira, pinhão-roxo, bucho-de-boi... viu a índia puxar o cabelo do índio notou a fumaça vazando pelo teto de palha catolé da oca. A voz do rio falava qualquer coisa e nem se entendia que língua ele borbulhava. Pios de urus no verde fechado. O rio seguia com suas águas verdes a praia secava ao sol do meio-dia os tuiuiús os tracajás as borboletas as garças-brancas os ipequis. Índio cavava ubá na beira do rio na praia branquíssima para fazer canoa.
         A menina guria aproveitou que era dia de comer tapioca. Era ali perto no país dos pirarrã. Tinha tapioca beiju pamonha. Preferiu tapioca pois era o dia da tapioca. Adrianinha comentou:
         - Muito boa tapioca, dona Curuaí.
         A índia respondeu na pergunta:
         - Você vem e vai de ontem pra hoje, menina?
         - Olha. Eu venho de Rio Maria passei por Barra Longa e passei por Foz do Iguaçu e passei por Ciríaco e passei por Sertãozinho e pretendo ir até Esplanada. Mais ou menos perto do rio Taquari já na serra do Caparaó.
         - Mas por quê, menina?
         - Tenho mil curiosidades por lá e acolá.
         - E você viaja olhando tudo ao redor?
         - Viajo olhando de um tudo e todo o tempo.
         - E você viaja ouvindo tudo?
         - Viajo ouvindo tudo que se canta e se fala ao meu derredor.
         O cacique Jari sentou na esteira e olhou a chuva. O cacique tinha planos planaltos planícies para o futuro. O cacique tinha plantas arbustos árvores verdes-esmeraldas para o por vir.
         - Chuva é a primeira maravilha - falou o cacique Jari.
         Uma índia Jataí pintada de urucum e jenipapo tocava tori para ouvir e a aldeia toda ouvia. As cunhantãs cuidavam dos cabelos das cunhãs. Pios de tiê no alto copa da curuiri. Guerreiros caçadores construíam aratacas ensinando os irmãozinhos curumins. Mascote mico-leão-dourado doméstico. As índias velhas demonstravam às índias jovens como era a dança da tribo com miçangas e guizos de muçuruna-maracá. O índio velho Jacumã riu solto tonitruante. A tarde ia quente amarela pela altura das nuvens colossais. 
         Junto da tarde as aves procuravam o lugar para um banho de poeira. Um par de tico-ticos-reis-vermelhos aterrissaram pularam aos poucos como se tivessem molas atentos caminhando correndo pipiando na língua lá deles antes de bater asas comentar um para a outra:
         - Nem sempre é preciso mentir, né?!
         Umas árvores se mexeram em ondas de vento, araticum-do-brejo, cebola-brava, timborana, auíba, catauari, cardo-ananá, samambaiaçu... a vegetação tomada de plantas. Plantas vegetais todas em tons verdes para sempre.
         - Quando quando éramos peixes - suspirou um itapicuru.
***
         - Mãe! Por que tem de dormir? E por que tem a noite fechada?
         A mãe parou o que estava fazendo olhou para mim e respondeu:
         - Acho porque precisa, né, guria! Embora a galáxia e as estrelas e a lua...
         Eu sempre achava que noite só atrapalhava e dificultava as coisas.
         - Mas precisa pra quê pra quem? Os aviões sabem voar à noite? A coruja come de quê no escuro?
         Logo via ainda que mãe voltava a fazer o que estava fazendo.
***
         Taí, foi no outro dia o sol abriu o dia todo. Uma quinta-feira. Todas as cortinas de todas as janelas e as portas. O tempo cronometrado dentro do mundo original, etc.
         A menina Adrianinha no ar novo. Olhou como sempre olhava as árvores em redor. E contou as árvores e as folhas de cada árvore. Começando com a peroba-vermelha.
         Um rio Cariacá passava ali rente da aldeia e nem parava para conversar. Embora tanto rio passasse nem passava todo o rio de uma vez. Quer dizer que o rio passava com correnteza e nem diminuía nem extinguia nem baixava nem se consumia. Os rios sempre iguais e os mesmos.
         - Curupira é ente mágico? - quis entender a Adrianinha.
         - Muito mágico muito brincalhão muito esperto muito ecológico. Uma vez Curupira percebeu caçadores tupiniquins procurando caça no mato. Aí o que ele fez? - perguntou com suspense a índia Jataí.
         - Se transformou em... anta? Em coruja-de-crista? Em rasga-mortalha?
         - Passou perto, menina. Ele se transformou em gigante do tamanho de um louro-tamancão. Só para assustar os caçadores e afastá-los da caça. Deu certo. Os caçadores saíram correndo e nem nunca mais reapareceram mais.
         A índia Jataí voltava em conversas sempre que tinha ocasião e os afazeres domésticos dessem oportunidade. Curumins e cunhãs ali junto ouvindo e olhando queixos caídos. Jataí desenrolava o carretel e uma novidade atrás da outra:
         - Curupira é ente que protege os matos. Mas é um ser que se disfarça muito e se faz passar pelo que ele quiser. Fica espiando entre os espinhos atrás das folhas o tempo todo camuflado. Aparece e desaparece num piscar de olhos num sopro num ih-u!... Fica até disfarçado de curuquerê-do-capim. Fica até dias e dias disfarçado de marolinho-do-campo. Aprecia muito se fazer passar por macaco paraguaçu. E faz de tudo para atrapalhar os caçadores e lenhadores e coletores que vão em busca de mel silvestre.
         - Quem é curupira, irmã Jataí?
         - O curupira é um ente sobrenatural e que veio nos raios de Tupã. Foi criado por Tupã para proteger os matos os bichos cuidar de tudo na mata. Tupã um dia resolveu criar curupira e criou mesmo. Tupã largou um raio mágico e pronto curupira já estava muito bem criado. E curupira veio viver no mato que é o lugar dele protegendo as matas e bichos da floresta.
         - Curupira tem poderes para virar em lobo-guará?
         - E em jacarerana?
         - E em mucura?
         - Claro que curupira tem todo esse poder - explicava a índia Jataí. Ele pode ser o que quiser. Dizem que já foi muitas muitas vezes caititu. Já virou urutago. Já se disfarçou de tatupeba.
         - Curupira já se disfarçou de planta, tia Jataí?
         - Se disfarçou e se disfarça de qualquer coisa, se disfarçou já de tudo que é coisa, inclusive de planta de árvore. Se disfarçou por exemplo de árvore iperana.
         - E a iperana andou por aí falando andando estraçalhando?
- Foi uma vez ele ouviu motosserra e foi lá conferir qual era o quê. Chegando lá na clareira viu muito estrago e árvores jogadas no chão. Ficou furioso como a fúria, ficou irado como a ira, ficou feroz como a fera. De pronto se multiplicou em dois bilhões de muriçocas e atacou com tudo em enxame os madeireiros. Esses nem tiveram tempo de levar as ferramentas e caminhões e tratores. Milhões bilhões de insetos atacantes atacaram os invasores lenhadores sem dó nem piedade. Os madeireiros tiveram que salvar a própria pele e se mandar para sempre correndo sem parar. Curupira é ente muito poderoso e mágico e vingativo.
         A árvore jacarandatã conversava as mil coisas possíveis com o vento sul. Estava ficando um pouco de frio. Umas folhas da jacarandatã caindo ali perto da Adrianinha, perguntaram:
         - Ei, guria! Procurando o quê?
         - Eu? Eu procuro o dia a dia, é.
         - O dia sempre existiu, uma vez - responderam juntas as folhas tingas caídas. E há sempre tempo para ir e vir e ir.
         Mais aquele dia na aldeia. O rio passava e nem passava fazia que passava mas parecia parado parecia corrente parecia gente. Os índios e índias ficavam olhando ali da margem. O tempo no ar sem um pingo de vento.
         O barco estava lotado de turistas que vinham conhecer a floresta e seus pertences autóctones. Muitos desses visitantes eram anônimos das cidades de Ferros, Arandu, Conceição da Feira, Taquarituba, Lençóis, Giruá... Perto do meio-dia aportaram na aldeia. O rio estava ótimo e brilhava ao sol. A velha índia Cauaçu deu as boas-vindas:
         - Vocês querem beiju?
         - De que é feito o beiju?
         - É feito de uma farinha colhida numa longínqua querência do céu.
         - E onde fica essa querência do céu, dona Cauaçu?
         - Fica lá no alto da montanha. Mas ninguém vai lá não. Ninguém chega lá em cima. Poucos que tentaram já nem voltaram mais.
         O capricho da mata era de verdes muitos verdes tons de verde todas as espécies as coisas os nomes diversos diferentes, caapiá-açu, cardamomo-da-terra, jalapa-vermelha, tauari, biru-manso...
         Adrianinha e a curuminzada foram todos para o mato buscar mel frutas e quem sabe encontrar por acaso um sagui-de-tufos-brancos sem pai nem mãe nem avó órfão para adotar de bicho de estimação de mascote.
         Um muricizeiro falou para outro muricizeiro:
         - Hi!... De lá aparecem crianças para comer nossas frutas amarelas e suculentas, tá!
         - He!... Quando atiram pedras e paus para derrubar nossas frutas amarelas saborosas, é!
         As crianças iam largando migalhas iscas pelo caminho do mato. Os passarinhos logo viram logo. As aves já seguiram por ali. E também os quatis. Eram muitas formigas. As formigas ficaram batendo antenas se coçando chiando perguntinhas silenciosas fofocando aborrecendo:
         - Ei! ei!... quanta comida olha a comida, ti-que! ti-que!...
         De repente, saltando do meio do mato, de trás de uma sapucaia-de-flor-grande, o quê?, o quem?, uma cutia noite e dia e toda laranjada e com pintas brancas e pretas. Ela olhou os curumins e cunhãs se ergueu nas patas traseiras e disse advertindo:
         - Quem mandou caçar no meu mato?
         A curuminzada assustada paralisou hipnotizou em estátua. Um saiu correndo e todos imitaram e saíram correndo. Cada um mais afobado que outro. Gritando e estalando o mato pela trilha do mato em fora.
         Chegando apressados na ocara foram contar tudo para a prima Jataí:
         - Uma cutia falante? Olha meus primos... só pode ser o curupira disfarçado.
         - E ele tinha esse tamanho, oooh!...
***
         Nem foram uma noite ou duas. Foram noites que eu ajudava mãe e tia e primas a fazer doces pudim principalmente torta de chocolate bolo gigante de aniversário. Tinha mate doce. Eu gostava de brincar de seguir: uma ia na frente e as outras seguiam imitando os passos e os jeitos e as caricaturas até onde a escuridão deixava.
         - Adrianinha! Por que você nem adota um gatinho pra acompanhar o Tapuio, né?!
         Então a gente parava de brincar de pega-pega para comer creme de laranja ou copo de sorvete de duas cores açaí e jabuticaba feito em casa, etc.
***
         No dia seguinte bem cedo com o primeiro raio do sol os bugios urrando, uh-ruuu! uh-ruuu!... anunciando chuva no decorrer do dia. Mas por enquanto um dia cheio de gorjeios voos cores espalhados. A indiada acordou cedo para o banho no rio.
         E o rio assim nem havia outro. O rio assim nem se fala.
         Tudo as plantas recebendo besouros as árvores recebendo borboletas as flores recebendo abelhas beija-flores metálicos abelhas borboletas besouros libélulas mutucas joaninhas...
         Era o dia de sol mas podia ser D.
         O rio descia porque era sempre mais fácil e simples. E continuava correndo chão abaixo. Dos dois lados ziguezagues o arvoredo mutumba, jacarandá-preto, tingui, mungaba, caviúna, angico-rajado, castanha-de-bugre, folha-de-serra... Passava lá na frente pela cidade de Planaltina e Pescaria Brava e Palmares do Sul e Andaraí e outras cidades banhando cidades.
         O trem o ônibus partia com chuva se chovesse ou nem chovesse com chuva ou sol o trem partia o avião partia de hora em hora.
         - Vou pegar o comboio das 8 para Terra Nova - disse também o ouriço-preto.
         E lá para onde se foi o trem.   
         Adrianinha pegou o ônibus até Águas Vermelhas. Ia comprar logo logo um chapéu de palha de buriti trançada que vira num anúncio de moda. Ia escolher algum que gostasse de usar no dia a dia. A paisagem era ligeira distante sempre a mesma. O latão já percorria corria em Água Limpa. O bus ia com calma que só mudava a paisagem ligeira, raramente a distante, nunca a bem longe. A menina nem fora de avião preferindo o lotação pois o ônibus observa melhor de perto a paisagem. Na ponte de ferro lá embaixo o rio Pelotas de águas espelhadas e pedras e arvoredo e todos os vegetais possíveis, araçá-branco, mangabarana, cará-barbado, morcegueira, acapurana-da-terra-firme... Olhando o asfalto o horizonte o gingado do latão o futuro para todos os lados.
         Quem busca D busca todo mundo.
         A estrada o caminho já tinha outra curva para a direita. Uns jaós se assustaram gritaram alçaram dos galhos da fruta-de-pombo. As nuvens andavam soltas com o vento. O sol com calma. A coruja-do-mato piou, pipiou!... e voou rasteiro se isso for possível se isso for verdade se isso for feitiço. Rebanho de gado branco cada vez mais nasceram perto da tarde que foi tudo ótimos.
         Um carajuru disse para outra canarana:
         - O rio Iriri riu de mim riu de nós rio de todos rio de tudo.
***
         Eu nem cogitava sair de noite durante a noite. Uma vez a gente na casa da vizinha de serão em visita de cortesia passando a rua do outro lado. O jardim estava infestado de morcegos. Minha amiga Jarandéua me convidou:
         - Vamos pegar vaga-lumes vamos?
         Eu esperava sempre a manhã seguinte. Outros dias viriam sobre o mundo. Um tempo nem atropela outro tempo. Sonhava com o dia de manhã. Com o novo dia de sol novo manhã nova.
         Quem sabe sabe a manhã. Quem vê vê a manhã.
***
         Adrianinha queria fazer um milagre uma mágica em Pugmil. Foi pra lá com trem das 7h. Enquanto o trem andava trilhando ela olhava a paisagem. E tinha paisagem de todas as distâncias. A perto andava para trás. A distante se movia com moleza. A bem distante no horizonte esperava parada aguardando isolada azulada montanhosa.
         Em certa estação da serra da Ouricana, a menina perguntou a um cardeal-do-banhado, indagou:
         - Será que você sabe se Pugmil precisa de milagre eu posso com milagre que milagre?
         A ave trilou no ouvido da guria menina:
         - Sim, a cidade de Pugmil carece de milagre de rio. Um rio por favor. Faça um rio por milagre e Pugmil te agradecerá. Se você cumprir essa promessa vai ser estátua em tamanho natural na central praça Tiradentes.
         Adrianinha achou engraçado e ficou segurando o queixo. E já imaginava o rio caudaloso que de milagre em milagre banharia a cidade de Pugmil. Ela tinha vários rios na cabeça prontos para Pugmil rio Botucaraí rio Real rio Brumado rio dos Sinos rio Retiro... E riu sozinha para si mesma.
         Três horas depois a menina estacionava em Pugmil e realizava o corrente milagre do rio. Vibrou consigo e disse:
         - Ótimo! Realizo o milagre do rio... toque!
         ... e a menina magicou o rio Crixá-Açu descendo veloz a serra da Aratanha. E então muita coisa se mexeu por conta. Uma montanha grande o bastante caminhou para o lado, um mato se arborizou para o outro lado direito, guabirobas, aroeiras-de-bugre, cina-cinas, curupicaís, jequitibás-vermelhos, macaúbas e um concerto de buritis, umas pedras se precipitaram, umas aves gorjearam, o rio borbulhou, blu-blu-blu!... riu gargalhou fez cachoeira afora.
         Ali por perto, no banco da praça Tiradentes o cacique Ingaí dos matsé tocou o toré fez cantar o maracá falou de braços abertos:
         - Tudo passa e se passa muito rápido. Acontece acontece muitas vezes assim sem diferença como rio tranquilo.
***
         Olhava da minha janela as poucas pessoas passar na rua enoitecida. Quando passavam automóveis. Quando passavam a pé. Veio do lado da praça 7 de Setembro um cara falando com o telefone. Ele parou falando depois continuou caminhando falando entrou na esquina falando e desapareceu gesticulando com a mão esquerda para o alto.
         - Adrianinha! O que você está fazendo aí na janela? Vem me ajudar a passar a roupa vem!
         Eu fiquei melhor ficou melhorado assim com a rua iluminada por oito lâmpadas que eu contava. Mas os vira-latas ainda atacavam as latas de lixo e tinham medo de gente e de carros. O disse-me-disse da almecegueira arranhando esbatendo os raminhos riscando a persiana.
***
A guria acordou cedo saltou fora da cama espiou pela janela. O tempo corria lá fora e bem desanuviado. O relógio analógico corria em volta de si mesmo a tevê acelerava as imagens como nos filmes de efeitos especiais ou desenhos animados os carros buzinavam com pressa-pressa disparavam na avenida Maçambara as pessoas agitadas nas calçadas o dia fazia arco no céu o céu fazia um tampo azul no dia que exclamou a guria:
         - É agora ou nunca jamé!
         Daí a pouco a guria falou alto, explanou:
         - Devo fazer meus deveres de aula e estudar muito!
         Depois trocou conversas com o espelho reflexo de perfil emplacou:
         - Quando, logo logo posso cursar um curso universitário e fazer uma profissão pessoal pra mim mesma e meu futuro.
         De repente na aula a guria percebeu direitinho que já habitava dentro das palavras, trampa, cumbá, caiçara, zabumba, murundu, carumbé, camboatá-mosquiteiro... Todas as palavras com planetas satélites nebulosas galáxias superestrelas e já constituídas. Cada palavra, brenha, malvaísco, maracujá-suspiro, matarana, bacurau... com seus corredores quartos cozinha banheiro armário janela criado-mudo. Já que nenhuma palavra era vazia ou inútil ou noite.
         - Onde há céu há chapéu - latiu um jaguané.
         O rio via tudo e o sol nem via nada; o sol via tudo e o rio nem via nada.
***
         O difícil silêncio da noite fazem os cri-cris!... dos grilos e os vu-vuuus!... das corujas-carijós, eu acho.
Eu assistia o ataque dos plantadores de cana ao engenho e casa-grande. Eles corriam pelos pátios com tochas acesas jogando fogo nas janelas e portas lá para dentro das casas e prédios. Todos que nem queriam pegar fogo já saíam correndo atropelados e toque-toque!... na porta:
- Adrianinha! Você está assistindo filme de terror outra vez está?
         Depois os plantadores se abraçavam se trançavam caíam na gandaia rastejavam ao redor das fogueiras e bebiam e dançavam com suas mulheres uivando para a noite.
***
         Num pleno domingo de manhã Adrianinha desceu na calçada cruzou a rua-travessa Acarapi bem no traçado dos pedestres embarcou na bíci e foi rumo do parque Marinha do Brasil (país mais cheio de praias de norte a sul praia do Pântano do Sul e praia do Matadeiro e praia de Jeribucaçu e praia do Espelho).
         Preguiçosa a menina misturava os pensamentos confundia as opiniões e tinha ideias brilhantes: para que serve um rio uma montanha umas árvores? Para usar chapéu de palha segurar os cabelos no vento fugir dos dias de sol forte dizer bom dia.
         Um sapo-martelo perguntou para outra comadre sapo-ferreiro:
         - Será que tem previsão de que vai chover?
         O sol estava favorável o dia perfeito como se quer as pessoas sortidas os sorrisos doces os olhos iluminados desde dentro.
         Adrianinha foi ganhando aquela mágica vontade de falar e parou na primeira casa de amiga que encontrou. Falar com a Catu e por que e o que dizer ou ouvir:
         - Um dia eu chego lá no fim do mundo. Até chegar lá eu conheço muita coisa com minha sorte sortida. Depois talvez eu volte e reconheça tudo de novo e outra vez, é.
         A Catu falou sorriso macio cabelos longos e negros cabelos galopantes a galope cabelos interativos e à vontade cabelos brilhantes e escorregadios:
         - É que se sabe que o mundo é redondo e é pequeno, uma vez.
         Adrianinha brilho na infância e agora mesmo:
         - Tenho visto cidades e lugares e pretendo mais.
         - Cidades? Conforme que cidades?
         - Umas pra cá e outras mais pra lá Axixá do Tocantins, Campanário, Anaurilândia, Carpina, Ilhota...
         Catu ouvindo Adrianinha lembrar assim:
         - Tenho visto muita árvore e muita planta de todas as cores.
         - Árvores floridas quem sabe?
         - Árvore perto de árvore total de mato, folha-de-bolo, colher-de-vaqueiro, babaçu, araticum-ponhê, cuipuna, mairá...
         A guria volteou pelaí pelo parque do Caracol todo. O parque tinha um traçado muito bom para se passar o domingo todo ali deitado na grama e olhando as árvores. Frufrufulhar de asas arriscas e eram umas marianinhas. Carreira de formigas as içaúbas precisavam trabalhar. Ainda se ouvia a cascata jogar água lá embaixo na garganta verde do vale.
         Tamatião lembrando para uma tamatião:
         - Foi aquela vez que eu queria ser um índio dos cabixiana lembra?!
E Adrianinha pessoalmente pedalou por umas mais horas pelaí a menina. E cumprimentou o Rui que viu e encontrou por acaso bebendo água na bica:
         - Oi! Você também por aqui?
         Ficaram mais amigos esqueceram do tempo pedalaram ao sol da manhã as alamedas o lago Miraguaí cristalino as frutas maduras nas árvores verdes, bicuíba-branca, azeda-de-são-paulo, acapu, ouricuri, ubatinga...
         - Você quer comprar um livro de histórias de lendas de índios eu vendo tô com promoção? - perguntou o piá.
         - Acontece árvore que fala e bicho que conta vantagem e ente jurupari e cavalo-do-rio no rio do tamanho do São Francisco e etc., aí nessas histórias, acontece, hein? - perguntou a Adrianinha.
         Depois de se distraírem muito e esquecerem o resto, os dois resolveram vazar embora, se separaram numa altura, a guria voltou para casa empurrando a bíci.
         Dias carregados com a umidade do ar em oitenta e oito por cento.
         - Onde há pinheiro há pinha há pinhão - disse o gambá.
***
         A família fechava, pla-pla-fe!... as janelas, pa-tra-tram!... a porta, guardava a casa da noite e jantava conversando assistindo tevê tudo ao mesmo tempo.
         Depois a família ia até a sala assistir tevê. Eu assistia tevê até um tempo e depois já ia para o quarto ver o computador fazer os deveres e assistir tevê.
         - Adrianinha! Você escova os dentes, oquei?!
         Eu nunca esquecia de escovar os dentes antes de dormir. Mas ainda era cedo. Eu pensava que sim. Eu eu mesma podia comer uma bolachinha.
         Eu e ficávamos eu e o mundo assim mesmo em silêncio por uns segundos minutos. E o silêncio respirava brilhava cheirava. O silêncio era sem sentido e eu comentava o que sabia de mim para mim mesma:
         - Que silencioso, né?! Que parado, né?!
***
         Depois a Adrianinha pegou o ônibus das sete e trinta para Bertopólis. O carro corria pelo asfalto e fazia um sol ameno lá fora. A paisagem era rápida média rochosa vegetal ondulante duradoura. A paisagem rápida passava sem se dar conta. A paisagem média dava para reparar um pouco. A paisagem duradoura fazia as coisas monótonas e distantes e paradas e serra da Boa Esperança. Tudo caprichosamente inventado. A menina nem foi de trem porque preferiu o ônibus. Era um carro muito gingado gingante. Curumins cunhãs dos ajuru abanaram para o ônibus do alto do barranco. As paisagens se tocavam uma vez que outra.
         Uma unha-de-gato falou ali folha com folha com uma folha-de-santana:
         - Queria ir com o rio Caraíva abaixo sempre como fazem as baronesas, em?!
         - Já eu queria crescer mais um tantão como fazem as quixabeiras, é.
         O ônibus o bus contornou já a serra das Frecheiras caminhões carregados de tranqueiras a estrada ainda tirando distância entre Itatiba, Miracema, Aperibé, Cambará do Sul...
         - Uma árvore duas árvores umas árvores e fingem nem me ver - disse sozinha a menina.
         As árvores voam, nem se sabe bem para onde nem como mas voam, coajinguva, comer-de-arara, jururá, ingá-feijão... Pronto, ela viu um araçazeiro e se lembrou dos ótimos araçás. Pois mais um pouco e já seriam 13h.
         - Desculpe a demora - falou o pássaro japué.
         - Desculpe a memória - falou a palmeira tinamalu.
         A anta caminhou a cutia parou; a curtia andou a anta parou. Caraná-branca antes de ser árvore fora um inseto grilo-preto. Uma borboleta de cor verde antes de voar fora um peixe piau.
         A chuva perguntou uma coisa e o vento respondeu outra.
     Adrianinha entrou em casa que era perto de uma praça Dom Feliciano onde passeavam donas e donos com seus pets vendedor de pipocas banca de jornais caraipé-verdadeiro enfeitado de lâmpadas de cores nas noites de fim de ano uma avenida Piratini pra cá e uma rua-travessa Carajá pra lá.