Era uma lenda verde tenra guria bonita.
Nem era modelo de passarela mas era Adrianinha feliz simpática doze anos mesmo
assim e passeava de bíci. Adorava sapos de tudo que era tipo desde os bichos vivos
de verdade que coaxavam, rrrau! rrrau!... aos de brinquedo e de fofura e de
decalque e de adesivo e de desenho animado e de estátua qualquer estatura sapo
de louça plantado no canteiro do jardim.
Ela morava de frente para uma praça da Bandeira
na esquina da avenida Abaíra com a rua-travessa Caiabi. E todos por ali sabiam
pelo menos alguma coisa do mundo em fora, embuá, tabujajá, cumbaca, munzuá, urutau,
copaíba, Lagoa Bonita do Sul, rio Parnaíba, serra do Sincorá, oro-uim...
- Você viu curió por aí? - perguntou a
curió.
Ao contorno redor disso aconteciam
muitas histórias mas que nem tinham nada a ver. Só uma história tinha sentido e
ligação e era e foi o aparecimento por ali de um sapo voador. O sapo-gameleiro
amarelo alado surgiu do nada aéreo sobrevoou o local e aterrissou na praça 15
de Novembro, pla-pla-fe!... A guria nomeada Adrianinha viu.
- Quando éramos aves - suspirou o
guaçupitá.
De tarde o sapo como tipo avião
assobiou e a guria ouviu foi espiar olhou olhou e ela mesma pulou a janela.
- Onde você mora? De onde você vem?
- Sou natural de Maquiné, mas moro em
Xangri-lá. Já morei em Catuípe e São Félix e Lavras e Birigui e Águas Mornas...
Quando se abraçaram o sapo de asas
transparentes virou uma juriti quando se abraçaram a juriti virou um japucanimpium
porém o gavião virou uma borboleta-do-manacá e a borboleta virou uma
crista-de-mutum mas a planta virou ainda frango-d’água. Adrianinha se divertiu
muito vendo os vira-viras.
Um curiango se agitou e falou para uma
curiango:
- Onde há abio há bugio.
***
- Entra logo de uma vez, Adrianinha.
Daqui a pouco vai escurecer.
Quando eu tinha a idade tenra, chegava
perto da noite, minha mãe me chamava chamava estivesse onde estivesse brincando
de bicicleta subir em árvore correndo com o vira-lata Tapuio, etc., pulando
sapata.
Pronto, eu tinha que interromper tudo e
voltar e entrar e parar de fazer o que estava fazendo, etc., e entrar em casa,
tipo assim me esconder me proteger da noite.
Então, quando era menor tinha que me agasalhar
da escuridão noturna.
As coisas também somem durante a noite
e esperam pelo dia. O sol parece ser D. As palavras mudam por dentro por fora.
As casas se fecham e o mundo assiste pela tevê.
Mas de noite era que eu viajava mais
que de dia. Viajava mais de noite que num dia inteiro. A noite derrapante e eu que
fingia dormir dormir.
***
Adrianinha olhou bem e viu o rio do
Coco. O dia claro já chegando com as horas. Menina conversando com as árvores
com o rio com os peixes, jaraqui, ubari, camboatá, cangati, pirá. Os peixes
querendo voar como os pássaros. Voar como a pirapuia.
- Quando éramos árvores - suspirou um
candiru.
Era ainda cedo da manhã. Nuvens
afofadas. O verão cheirava e axupés zumbiam. Um colhereiro parado numa perna só
dentro do alagado. Da parte da Amazônia Legal vinha um vento verde de tapiriris
copas enfloradas de paraíbas, paus-d’arco, imburanas-de-cheiro,
icacorés-catingas, frutas-de-lobo... Os maracanãs-de-cabeça-azul grasnavam e
pousavam e decolavam dos ramos balançosos das mandapuçás. Uma cabeça-de-boi perguntou
prum cipó-de-são-joão ali os dois encostados:
- O verão vem aí. O verão é melhor que a
pri-mavera e em quê?
De repente, as nuvens brancas se
reuniram no bando de nuvens pesadas escuras baixas cheias. As aves piaram
forte, anhupocas, saracuras, periquitos-das-ilhas, bigodes, maguaris... O
gato-do-mato-pequeno esticou as orelhas e arrepiou o pelo. O vento nordeste
balançou gigantescas árvores, angelim-amargoso, sebastião-de-arruda,
sucupiraçu, mulungu, todas as árvores. A luz do dia ficou meio que fantasmagórica.
Um chicote de fogo irado rasgou o céu de alto a baixo. A chuva veio com tudo
porque tinha razões que a própria. As curicacas no alto do pinheiro araucária
olhando o pinheiral grasnaram comemoraram. Família unida de capivaras umas oito
pessoas chegou veio correndo se apinchou de chuá!... no rio Santo Antônio. E o
dia meio que se escondendo de si mesmo um pouco mais cedo.
Uma formiga-cortadeira falou para um
formiga-cortadeira:
- Eu sou tua amiga. Sempre fomos
amigos. Somos amigos antigos de longa data. Amigos desde a pequena era da nossa
infância.
E assim continuou bem feito. Riscaram mais
relâmpagos tremeram os trovões cortinas de água da chuva descarregaram e a Adrianinha
ouvindo cair a fofa a chuva o vendo e se sentiu disposta:
- É melhor assim.
Chuva e mais o dia molhado as árvores
molhadas a paisagem os caminhos as casas os carros arvoredo pingando água fria,
catiguá, copinho, garapa-branca, pindobeira, jatobá-vermelho... O vento avisava
as plantas e contava folha por folha. As árvores que gostavam da chuva como
todo mundo. Os postes de luz com lâmpadas acesas. Os carros de lanternas
acesas.
Adrianinha precisou de uma dúvida e
ligou para Ana e Paula as duas das primeiras amigas:
- Uma coisa que nem entendo agora
agora.
- Quem é?
- Por que as formigas-quenquém nem
sentem o frio? Por que nem sentem o calor? Por que quando sabem que vai chover?
Por telefone as duas irmãs responderam
numa só voz:
- Bom dia!
***
Eu olhava os fogos de artifício em
pleno céu paralisado vago noturno. Tapuia abafava suas longas orelhas com as
mãos. Os zunidos das bombas subindo no ar e explodindo, bummm!... e a cascata
de estrelas de cor. Fogos de artifício bombas tiros noite explosiva estouros de
espumantes gente gritando se abraçando se beijando comemorando carnavalizando.
- Adrianinha! Vamos brincar de imitar
um bicho?
Mais tarde custei a dormir mesmo se
pudesse dormir com todo esse barulho.
***
E Adrianinha agradeceu saudou andou de
bíci pra cima pra baixo comeu sorvete de pequi e foi se acomodar num longo
parque Ibirapuera em um banco debaixo de uma frondosa mamorana-grande com
passarinhos exímios cantores intérpretes, cricriós, estrelinhas,
lavadeiras-de-cabeça-branca, azulões, tesoureiras... o parque tinha um lago
onde ninguém nadava mas tudo era possível disponível repuxos e barquinhos de
pedalinho.
- E olha que nem falei do sol das
nuvens dos aviões de carreira - disse uma pedra para outra pedra.
Foi só depois das 14 horas que Adrianinha
viu outro milagre. Tinha uma cidade Barra da Estiva. A cascata dos Três Monges.
Nem muito longe uma serra do Acaraí. Nesse lugar que o milagre ia acontecer.
Passou a ponte Ernesto Dornelles.
- Ali está a cidade! - gritou alardeou
a guaruba.
A guriazinha passou a mão então pelo
rio Sepotuba entrou na cidade seguiu direto para a avenida Tapixaba. O sol
encontrou as horas agitadas de automóveis todos os trânsitos as lojas os bancos
as escolas. Uma praça com nome Tianguá. A menina olhou e decidiu:
- Vou dar uns coqueiros e palmas para
esta praça, é.
Ela se sentou num banco da praça e se
concentrou no milagre. Foi e buscou onde for uma porção de coqueiros e
palmeiras para povoar a praça. O milagre já estava emplacado, pronto. Opção do
milagre as palmeiras murumurus. As aves araçaripocas gargalharam animadas
presenteadas. A cidade debaixo do céu e o céu debaixo do braço. Jabuti-machado
gostou da sombra. Gorjearam pipiaram cantaram os tchintchorrintchos,
corrupiões, maipurés, freirinhas, bem-te-vis-do-gado...
Chegou a avó e depois do lanche era
sempre assim a guria escolhia muito bem ouvir histórias de lendas dos índios
catuquinaru ou mura ou marabitana ou pitaguari... A avó materna sempre contava
histórias curtas ou longas. Uma história com no mínimo 11 finais diferentes. A
guria gostava imenso de budim de puxa-puxa de sagu com musse de chocolate na
bolachinha maria e escolhia o melhor final dependendo dos planos lá dela Adrianinha.
Assim todas as tardes das 16h praticamente era isso.
- Onde há avô ou vovó há histórias -
ziuziu uma cigarra.
Quando foi um dia a guria quis
experimentar voar e voou como um sapo voador como um pássaro japiim, sabiacica,
pássaro-azul, noivinha, pintassilgo... e até voou bem legal e bem rápido.
Quando se deu conta viu o mar e sobrevoou o mar as ilhas as montanhas o rio Iruí
e o rio Piravevê e o rio Juruena principalmente as cidades turísticas, Jacareí,
Nova Redenção, Cachoeira, Perdões, Coroados, São Bonifácio, Santo Ângelo...
Aí a guria achou e escolheu um lugar
muito maneiro. Era numa ilha bordada de praias brancas a praia de Jurerê e a praia
da Reserva e a praia da Guarita montanha no centro e muito florestada.
- Aqui perto que é o rio Una? -
perguntou o outro.
- Pode ser o rio Mutumparaná e nem
duvido - disse a outra.
E os dois o casal de papagaios-do-peito-roxo
partiram partilharam participaram o par a dubla em voar.
Na ilha Anhatomirim tinha mais uma
praça na praça Itaetê tinha uma casa que fazia esquina com a avenida Augusto
dos Anjos e a rua-travessa Catauixi. A guria exclamou:
- Espera aí, meu!
Uma árvore falou para outra árvore
sapucaia-branca:
- Sonhe e planeje e embarque, uma vez.
***
Me sentava na frente da tevê e
procurava os canais, este já assisti, este já também, este nem falá, este...
peraí... Bem que eu tinha medo de filme de terror à noite e ninguém me deixava
assistir. Então, quando eu ia dormir queria dormir de luz acesa. Então, eu
olhava debaixo da cama dentro do armário desconfiava do cabide em pé parado no
canto do quarto.
- Adrianinha! Apague essa luz e vai se
deitar! Amanhã você tem que acordar cedo pra escola!
Então eu ficava estudando até mais
tarde. Até cansar e dormir de luz acesa. Até acostumar a dormir de luz apagada.
***
Adrianinha reparava em tudo mesmo. A menina reparou no
rio Paranapanema nas árvores o rio sinuoso entre as árvores urucum-da-mata,
saranduba, peroba-iquira, pinhão-roxo, bucho-de-boi... viu a índia puxar o
cabelo do índio notou a fumaça vazando pelo teto de palha catolé da oca. A voz
do rio falava qualquer coisa e nem se entendia que língua ele borbulhava. Pios
de urus no verde fechado. O rio seguia com suas águas verdes a praia secava ao
sol do meio-dia os tuiuiús os tracajás as borboletas as garças-brancas os
ipequis. Índio cavava ubá na beira do rio na praia branquíssima para fazer
canoa.
A menina guria aproveitou que era dia
de comer tapioca. Era ali perto no país dos pirarrã. Tinha tapioca beiju
pamonha. Preferiu tapioca pois era o dia da tapioca. Adrianinha comentou:
- Muito boa tapioca, dona Curuaí.
A índia respondeu na pergunta:
- Você vem e vai de ontem pra hoje,
menina?
- Olha. Eu venho de Rio Maria passei
por Barra Longa e passei por Foz do Iguaçu e passei por Ciríaco e passei por
Sertãozinho e pretendo ir até Esplanada. Mais ou menos perto do rio Taquari já
na serra do Caparaó.
- Mas por quê, menina?
- Tenho mil curiosidades por lá e
acolá.
- E você viaja olhando tudo ao redor?
- Viajo olhando de um tudo e todo o
tempo.
- E você viaja ouvindo tudo?
- Viajo ouvindo tudo que se canta e se
fala ao meu derredor.
O cacique Jari sentou na esteira e
olhou a chuva. O cacique tinha planos planaltos planícies para o futuro. O
cacique tinha plantas arbustos árvores verdes-esmeraldas para o por vir.
- Chuva é a primeira maravilha - falou
o cacique Jari.
Uma índia Jataí pintada de urucum e
jenipapo tocava tori para ouvir e a aldeia toda ouvia. As cunhantãs cuidavam
dos cabelos das cunhãs. Pios de tiê no alto copa da curuiri. Guerreiros
caçadores construíam aratacas ensinando os irmãozinhos curumins. Mascote
mico-leão-dourado doméstico. As índias velhas demonstravam às índias jovens como
era a dança da tribo com miçangas e guizos de muçuruna-maracá. O índio velho
Jacumã riu solto tonitruante. A tarde ia quente amarela pela altura das nuvens
colossais.
Junto da tarde as aves procuravam o
lugar para um banho de poeira. Um par de tico-ticos-reis-vermelhos aterrissaram
pularam aos poucos como se tivessem molas atentos caminhando correndo pipiando
na língua lá deles antes de bater asas comentar um para a outra:
- Nem sempre é preciso mentir, né?!
Umas árvores se mexeram em ondas de
vento, araticum-do-brejo, cebola-brava, timborana, auíba, catauari, cardo-ananá,
samambaiaçu... a vegetação tomada de plantas. Plantas vegetais todas em tons
verdes para sempre.
- Quando quando éramos peixes -
suspirou um itapicuru.
***
-
Mãe! Por que tem de dormir? E por que tem a noite fechada?
A mãe parou o que estava fazendo olhou
para mim e respondeu:
- Acho porque precisa, né, guria!
Embora a galáxia e as estrelas e a lua...
Eu sempre achava que noite só atrapalhava
e dificultava as coisas.
- Mas precisa pra quê pra quem? Os
aviões sabem voar à noite? A coruja come de quê no escuro?
Logo via ainda que mãe voltava a fazer
o que estava fazendo.
***
Taí, foi no outro dia o sol abriu o dia
todo. Uma quinta-feira. Todas as cortinas de todas as janelas e as portas. O
tempo cronometrado dentro do mundo original, etc.
A menina Adrianinha no ar novo. Olhou
como sempre olhava as árvores em redor. E contou as árvores e as folhas de cada
árvore. Começando com a peroba-vermelha.
Um rio Cariacá passava ali rente da
aldeia e nem parava para conversar. Embora tanto rio passasse nem passava todo
o rio de uma vez. Quer dizer que o rio passava com correnteza e nem diminuía
nem extinguia nem baixava nem se consumia. Os rios sempre iguais e os mesmos.
- Curupira é ente mágico? - quis
entender a Adrianinha.
- Muito mágico muito brincalhão muito
esperto muito ecológico. Uma vez Curupira percebeu caçadores tupiniquins
procurando caça no mato. Aí o que ele fez? - perguntou com suspense a índia
Jataí.
- Se transformou em... anta? Em
coruja-de-crista? Em rasga-mortalha?
- Passou perto, menina. Ele se
transformou em gigante do tamanho de um louro-tamancão. Só para assustar os
caçadores e afastá-los da caça. Deu certo. Os caçadores saíram correndo e nem nunca
mais reapareceram mais.
A índia Jataí voltava em conversas
sempre que tinha ocasião e os afazeres domésticos dessem oportunidade. Curumins
e cunhãs ali junto ouvindo e olhando queixos caídos. Jataí desenrolava o
carretel e uma novidade atrás da outra:
- Curupira é ente que protege os matos.
Mas é um ser que se disfarça muito e se faz passar pelo que ele quiser. Fica
espiando entre os espinhos atrás das folhas o tempo todo camuflado. Aparece e
desaparece num piscar de olhos num sopro num ih-u!... Fica até disfarçado de
curuquerê-do-capim. Fica até dias e dias disfarçado de marolinho-do-campo.
Aprecia muito se fazer passar por macaco paraguaçu. E faz de tudo para
atrapalhar os caçadores e lenhadores e coletores que vão em busca de mel
silvestre.
- Quem é curupira, irmã Jataí?
- O curupira é um ente sobrenatural e
que veio nos raios de Tupã. Foi criado por Tupã para proteger os matos os
bichos cuidar de tudo na mata. Tupã um dia resolveu criar curupira e criou
mesmo. Tupã largou um raio mágico e pronto curupira já estava muito bem criado.
E curupira veio viver no mato que é o lugar dele protegendo as matas e bichos
da floresta.
- Curupira tem poderes para virar em
lobo-guará?
- E em jacarerana?
- E em mucura?
- Claro que curupira tem todo esse
poder - explicava a índia Jataí. Ele pode ser o que quiser. Dizem que já foi
muitas muitas vezes caititu. Já virou urutago. Já se disfarçou de tatupeba.
- Curupira já se disfarçou de planta,
tia Jataí?
- Se disfarçou e se disfarça de
qualquer coisa, se disfarçou já de tudo que é coisa, inclusive de planta de
árvore. Se disfarçou por exemplo de árvore iperana.
- E a iperana andou por aí falando
andando estraçalhando?
- Foi uma vez ele ouviu motosserra e foi lá conferir
qual era o quê. Chegando lá na clareira viu muito estrago e árvores jogadas no chão.
Ficou furioso como a fúria, ficou irado como a ira, ficou feroz como a fera. De
pronto se multiplicou em dois bilhões de muriçocas e atacou com tudo em enxame os
madeireiros. Esses nem tiveram tempo de levar as ferramentas e caminhões e
tratores. Milhões bilhões de insetos atacantes atacaram os invasores lenhadores
sem dó nem piedade. Os madeireiros tiveram que salvar a própria pele e se
mandar para sempre correndo sem parar. Curupira é ente muito poderoso e mágico
e vingativo.
A árvore jacarandatã conversava as mil
coisas possíveis com o vento sul. Estava ficando um pouco de frio. Umas folhas
da jacarandatã caindo ali perto da Adrianinha, perguntaram:
- Ei, guria! Procurando o quê?
- Eu? Eu procuro o dia a dia, é.
- O dia sempre existiu, uma vez -
responderam juntas as folhas tingas caídas. E há sempre tempo para ir e vir e
ir.
Mais aquele dia na aldeia. O rio
passava e nem passava fazia que passava mas parecia parado parecia corrente
parecia gente. Os índios e índias ficavam olhando ali da margem. O tempo no ar sem
um pingo de vento.
O barco estava lotado de turistas que
vinham conhecer a floresta e seus pertences autóctones. Muitos desses
visitantes eram anônimos das cidades de Ferros, Arandu, Conceição da Feira, Taquarituba,
Lençóis, Giruá... Perto do meio-dia aportaram na aldeia. O rio estava ótimo e
brilhava ao sol. A velha índia Cauaçu deu as boas-vindas:
- Vocês querem beiju?
- De que é feito o beiju?
- É feito de uma farinha colhida numa
longínqua querência do céu.
- E onde fica essa querência do céu,
dona Cauaçu?
- Fica lá no alto da montanha. Mas
ninguém vai lá não. Ninguém chega lá em cima. Poucos que tentaram já nem voltaram
mais.
O capricho da mata era de verdes muitos
verdes tons de verde todas as espécies as coisas os nomes diversos diferentes,
caapiá-açu, cardamomo-da-terra, jalapa-vermelha, tauari, biru-manso...
Adrianinha e a curuminzada foram todos
para o mato buscar mel frutas e quem sabe encontrar por acaso um
sagui-de-tufos-brancos sem pai nem mãe nem avó órfão para adotar de bicho de
estimação de mascote.
Um muricizeiro falou para outro
muricizeiro:
- Hi!... De lá aparecem crianças para
comer nossas frutas amarelas e suculentas, tá!
- He!... Quando atiram pedras e paus para
derrubar nossas frutas amarelas saborosas, é!
As crianças iam largando migalhas iscas
pelo caminho do mato. Os passarinhos logo viram logo. As aves já seguiram por
ali. E também os quatis. Eram muitas formigas. As formigas ficaram batendo
antenas se coçando chiando perguntinhas silenciosas fofocando aborrecendo:
- Ei! ei!... quanta comida olha a
comida, ti-que! ti-que!...
De repente, saltando do meio do mato,
de trás de uma sapucaia-de-flor-grande, o quê?, o quem?, uma cutia noite e dia
e toda laranjada e com pintas brancas e pretas. Ela olhou os curumins e cunhãs se
ergueu nas patas traseiras e disse advertindo:
- Quem mandou caçar no meu mato?
A curuminzada assustada paralisou
hipnotizou em estátua. Um saiu correndo e todos imitaram e saíram correndo.
Cada um mais afobado que outro. Gritando e estalando o mato pela trilha do mato
em fora.
Chegando apressados na ocara foram
contar tudo para a prima Jataí:
- Uma cutia falante? Olha meus
primos... só pode ser o curupira disfarçado.
- E ele tinha esse tamanho, oooh!...
***
Nem foram uma noite ou duas. Foram
noites que eu ajudava mãe e tia e primas a fazer doces pudim principalmente
torta de chocolate bolo gigante de aniversário. Tinha mate doce. Eu gostava de
brincar de seguir: uma ia na frente e as outras seguiam imitando os passos e os
jeitos e as caricaturas até onde a escuridão deixava.
- Adrianinha! Por que você nem adota um
gatinho pra acompanhar o Tapuio, né?!
Então a gente parava de brincar de
pega-pega para comer creme de laranja ou copo de sorvete de duas cores açaí e jabuticaba
feito em casa, etc.
***
No dia seguinte bem cedo com o primeiro
raio do sol os bugios urrando, uh-ruuu! uh-ruuu!... anunciando chuva no
decorrer do dia. Mas por enquanto um dia cheio de gorjeios voos cores espalhados.
A indiada acordou cedo para o banho no rio.
E o rio assim nem havia outro. O rio
assim nem se fala.
Tudo as plantas recebendo besouros as
árvores recebendo borboletas as flores recebendo abelhas beija-flores metálicos
abelhas borboletas besouros libélulas mutucas joaninhas...
Era o dia de sol mas podia ser D.
O rio descia porque era sempre mais
fácil e simples. E continuava correndo chão abaixo. Dos dois lados ziguezagues
o arvoredo mutumba, jacarandá-preto, tingui, mungaba, caviúna, angico-rajado,
castanha-de-bugre, folha-de-serra... Passava lá na frente pela cidade de
Planaltina e Pescaria Brava e Palmares do Sul e Andaraí e outras cidades banhando
cidades.
O trem o ônibus partia com chuva se
chovesse ou nem chovesse com chuva ou sol o trem partia o avião partia de hora
em hora.
- Vou pegar o comboio das 8 para Terra
Nova - disse também o ouriço-preto.
E lá para onde se foi o trem.
Adrianinha pegou o ônibus até Águas
Vermelhas. Ia comprar logo logo um chapéu de palha de buriti trançada que vira
num anúncio de moda. Ia escolher algum que gostasse de usar no dia a dia. A
paisagem era ligeira distante sempre a mesma. O latão já percorria corria em
Água Limpa. O bus ia com calma que só mudava a paisagem ligeira, raramente a
distante, nunca a bem longe. A menina nem fora de avião preferindo o lotação
pois o ônibus observa melhor de perto a paisagem. Na ponte de ferro lá embaixo
o rio Pelotas de águas espelhadas e pedras e arvoredo e todos os vegetais
possíveis, araçá-branco, mangabarana, cará-barbado, morcegueira, acapurana-da-terra-firme...
Olhando o asfalto o horizonte o gingado do latão o futuro para todos os lados.
Quem busca D busca todo mundo.
A estrada o caminho já tinha outra
curva para a direita. Uns jaós se assustaram gritaram alçaram dos galhos da fruta-de-pombo.
As nuvens andavam soltas com o vento. O sol com calma. A coruja-do-mato piou,
pipiou!... e voou rasteiro se isso for possível se isso for verdade se isso for
feitiço. Rebanho de gado branco cada vez mais nasceram perto da tarde que foi
tudo ótimos.
Um carajuru disse para outra canarana:
- O rio Iriri riu de mim riu de nós rio
de todos rio de tudo.
***
Eu nem cogitava sair de noite durante a
noite. Uma vez a gente na casa da vizinha de serão em visita de cortesia
passando a rua do outro lado. O jardim estava infestado de morcegos. Minha
amiga Jarandéua me convidou:
- Vamos pegar vaga-lumes vamos?
Eu esperava sempre a manhã seguinte. Outros
dias viriam sobre o mundo. Um tempo nem atropela outro tempo. Sonhava com o dia
de manhã. Com o novo dia de sol novo manhã nova.
Quem sabe sabe a manhã. Quem vê vê a
manhã.
***
Adrianinha queria fazer um milagre uma
mágica em Pugmil. Foi pra lá com trem das 7h. Enquanto o trem andava trilhando
ela olhava a paisagem. E tinha paisagem de todas as distâncias. A perto andava
para trás. A distante se movia com moleza. A bem distante no horizonte esperava
parada aguardando isolada azulada montanhosa.
Em certa estação da serra da Ouricana,
a menina perguntou a um cardeal-do-banhado, indagou:
- Será que você sabe se Pugmil precisa
de milagre eu posso com milagre que milagre?
A ave trilou no ouvido da guria menina:
- Sim, a cidade de Pugmil carece de
milagre de rio. Um rio por favor. Faça um rio por milagre e Pugmil te agradecerá.
Se você cumprir essa promessa vai ser estátua em tamanho natural na central praça
Tiradentes.
Adrianinha achou engraçado e ficou
segurando o queixo. E já imaginava o rio caudaloso que de milagre em milagre banharia
a cidade de Pugmil. Ela tinha vários rios na cabeça prontos para Pugmil rio Botucaraí
rio Real rio Brumado rio dos Sinos rio Retiro... E riu sozinha para si mesma.
Três horas depois a menina estacionava
em Pugmil e realizava o corrente milagre do rio. Vibrou consigo e disse:
- Ótimo! Realizo o milagre do rio...
toque!
... e a menina magicou o rio Crixá-Açu
descendo veloz a serra da Aratanha. E então muita coisa se mexeu por conta. Uma
montanha grande o bastante caminhou para o lado, um mato se arborizou para o outro
lado direito, guabirobas, aroeiras-de-bugre, cina-cinas, curupicaís,
jequitibás-vermelhos, macaúbas e um concerto de buritis, umas pedras se
precipitaram, umas aves gorjearam, o rio borbulhou, blu-blu-blu!... riu
gargalhou fez cachoeira afora.
Ali por perto, no banco da praça
Tiradentes o cacique Ingaí dos matsé tocou o toré fez cantar o maracá falou de
braços abertos:
- Tudo passa e se passa muito rápido.
Acontece acontece muitas vezes assim sem diferença como rio tranquilo.
***
Olhava da minha janela as poucas pessoas
passar na rua enoitecida. Quando passavam automóveis. Quando passavam a pé. Veio
do lado da praça 7 de Setembro um cara falando com o telefone. Ele parou
falando depois continuou caminhando falando entrou na esquina falando e
desapareceu gesticulando com a mão esquerda para o alto.
- Adrianinha! O que você está fazendo
aí na janela? Vem me ajudar a passar a roupa vem!
Eu fiquei melhor ficou melhorado assim
com a rua iluminada por oito lâmpadas que eu contava. Mas os vira-latas ainda
atacavam as latas de lixo e tinham medo de gente e de carros. O disse-me-disse
da almecegueira arranhando esbatendo os raminhos riscando a persiana.
***
A guria acordou cedo saltou fora da cama espiou pela
janela. O tempo corria lá fora e bem desanuviado. O relógio analógico corria em
volta de si mesmo a tevê acelerava as imagens como nos filmes de efeitos
especiais ou desenhos animados os carros buzinavam com pressa-pressa disparavam
na avenida Maçambara as pessoas agitadas nas calçadas o dia fazia arco no céu o
céu fazia um tampo azul no dia que exclamou a guria:
- É agora ou nunca jamé!
Daí a pouco a guria falou alto, explanou:
- Devo fazer meus deveres de aula e
estudar muito!
Depois trocou conversas com o espelho
reflexo de perfil emplacou:
- Quando, logo logo posso cursar um
curso universitário e fazer uma profissão pessoal pra mim mesma e meu futuro.
De repente na aula a guria percebeu
direitinho que já habitava dentro das palavras, trampa, cumbá, caiçara,
zabumba, murundu, carumbé, camboatá-mosquiteiro... Todas as palavras com planetas
satélites nebulosas galáxias superestrelas e já constituídas. Cada palavra, brenha,
malvaísco, maracujá-suspiro, matarana, bacurau... com seus corredores quartos
cozinha banheiro armário janela criado-mudo. Já que nenhuma palavra era vazia
ou inútil ou noite.
- Onde há céu há chapéu - latiu um
jaguané.
O rio via tudo e o sol nem via nada; o
sol via tudo e o rio nem via nada.
***
O difícil silêncio da noite fazem os
cri-cris!... dos grilos e os vu-vuuus!... das corujas-carijós, eu acho.
Eu assistia o ataque dos plantadores de cana ao
engenho e casa-grande. Eles corriam pelos pátios com tochas acesas jogando fogo
nas janelas e portas lá para dentro das casas e prédios. Todos que nem queriam
pegar fogo já saíam correndo atropelados e toque-toque!... na porta:
- Adrianinha! Você está assistindo filme de terror outra
vez está?
Depois os plantadores se abraçavam se
trançavam caíam na gandaia rastejavam ao redor das fogueiras e bebiam e dançavam
com suas mulheres uivando para a noite.
***
Num pleno domingo de manhã Adrianinha desceu
na calçada cruzou a rua-travessa Acarapi bem no traçado dos pedestres embarcou
na bíci e foi rumo do parque Marinha do Brasil (país mais cheio de praias de
norte a sul praia do Pântano do Sul e praia do Matadeiro e praia de Jeribucaçu
e praia do Espelho).
Preguiçosa a menina misturava os
pensamentos confundia as opiniões e tinha ideias brilhantes: para que serve um
rio uma montanha umas árvores? Para usar chapéu de palha segurar os cabelos no
vento fugir dos dias de sol forte dizer bom dia.
Um sapo-martelo perguntou para outra comadre
sapo-ferreiro:
- Será que tem previsão de que vai
chover?
O sol estava favorável o dia perfeito
como se quer as pessoas sortidas os sorrisos doces os olhos iluminados desde
dentro.
Adrianinha foi ganhando aquela mágica vontade
de falar e parou na primeira casa de amiga que encontrou. Falar com a Catu e
por que e o que dizer ou ouvir:
- Um dia eu chego lá no fim do mundo.
Até chegar lá eu conheço muita coisa com minha sorte sortida. Depois talvez eu
volte e reconheça tudo de novo e outra vez, é.
A Catu falou sorriso macio cabelos
longos e negros cabelos galopantes a galope cabelos interativos e à vontade
cabelos brilhantes e escorregadios:
- É que se sabe que o mundo é redondo e
é pequeno, uma vez.
Adrianinha brilho na infância e agora
mesmo:
- Tenho visto cidades e lugares e
pretendo mais.
- Cidades? Conforme que cidades?
- Umas pra cá e outras mais pra lá
Axixá do Tocantins, Campanário, Anaurilândia, Carpina, Ilhota...
Catu ouvindo Adrianinha lembrar assim:
- Tenho visto muita árvore e muita
planta de todas as cores.
- Árvores floridas quem sabe?
- Árvore perto de árvore total de mato,
folha-de-bolo, colher-de-vaqueiro, babaçu, araticum-ponhê, cuipuna, mairá...
A guria volteou pelaí pelo parque do
Caracol todo. O parque tinha um traçado muito bom para se passar o domingo todo
ali deitado na grama e olhando as árvores. Frufrufulhar de asas arriscas e eram
umas marianinhas. Carreira de formigas as içaúbas precisavam trabalhar. Ainda
se ouvia a cascata jogar água lá embaixo na garganta verde do vale.
Tamatião lembrando para uma tamatião:
- Foi aquela vez que eu queria ser um
índio dos cabixiana lembra?!
E Adrianinha pessoalmente pedalou por umas mais horas
pelaí a menina. E cumprimentou o Rui que viu e encontrou por acaso bebendo água
na bica:
- Oi! Você também por aqui?
Ficaram mais amigos esqueceram do tempo
pedalaram ao sol da manhã as alamedas o lago Miraguaí cristalino as frutas
maduras nas árvores verdes, bicuíba-branca, azeda-de-são-paulo, acapu, ouricuri,
ubatinga...
- Você quer comprar um livro de
histórias de lendas de índios eu vendo tô com promoção? - perguntou o piá.
- Acontece árvore que fala e bicho que
conta vantagem e ente jurupari e cavalo-do-rio no rio do tamanho do São
Francisco e etc., aí nessas histórias, acontece, hein? - perguntou a Adrianinha.
Depois de se distraírem muito e
esquecerem o resto, os dois resolveram vazar embora, se separaram numa altura,
a guria voltou para casa empurrando a bíci.
Dias carregados com a umidade do ar em
oitenta e oito por cento.
- Onde há pinheiro há pinha há pinhão -
disse o gambá.
***
A família fechava, pla-pla-fe!... as
janelas, pa-tra-tram!... a porta, guardava a casa da noite e jantava
conversando assistindo tevê tudo ao mesmo tempo.
Depois a família ia até a sala assistir
tevê. Eu assistia tevê até um tempo e depois já ia para o quarto ver o
computador fazer os deveres e assistir tevê.
- Adrianinha! Você escova os dentes,
oquei?!
Eu nunca esquecia de escovar os dentes
antes de dormir. Mas ainda era cedo. Eu pensava que sim. Eu eu mesma podia
comer uma bolachinha.
Eu e ficávamos eu e o mundo assim mesmo
em silêncio por uns segundos minutos. E o silêncio respirava brilhava cheirava.
O silêncio era sem sentido e eu comentava o que sabia de mim para mim mesma:
- Que silencioso, né?! Que parado, né?!
***
Depois a Adrianinha pegou o ônibus das
sete e trinta para Bertopólis. O carro corria pelo asfalto e fazia um sol ameno
lá fora. A paisagem era rápida média rochosa vegetal ondulante duradoura. A paisagem
rápida passava sem se dar conta. A paisagem média dava para reparar um pouco. A
paisagem duradoura fazia as coisas monótonas e distantes e paradas e serra da
Boa Esperança. Tudo caprichosamente inventado. A menina nem foi de trem porque
preferiu o ônibus. Era um carro muito gingado gingante. Curumins cunhãs dos
ajuru abanaram para o ônibus do alto do barranco. As paisagens se tocavam uma
vez que outra.
Uma unha-de-gato falou ali folha com
folha com uma folha-de-santana:
- Queria ir com o rio Caraíva abaixo
sempre como fazem as baronesas, em?!
- Já eu queria crescer mais um tantão
como fazem as quixabeiras, é.
O ônibus o bus contornou já a serra das
Frecheiras caminhões carregados de tranqueiras a estrada ainda tirando
distância entre Itatiba, Miracema, Aperibé, Cambará do Sul...
- Uma árvore duas árvores umas árvores
e fingem nem me ver - disse sozinha a menina.
As árvores voam, nem se sabe bem para
onde nem como mas voam, coajinguva, comer-de-arara, jururá, ingá-feijão... Pronto,
ela viu um araçazeiro e se lembrou dos ótimos araçás. Pois mais um pouco e já
seriam 13h.
- Desculpe a demora - falou o pássaro
japué.
- Desculpe a memória - falou a palmeira
tinamalu.
A anta caminhou a cutia parou; a curtia
andou a anta parou. Caraná-branca antes de ser árvore fora um inseto
grilo-preto. Uma borboleta de cor verde antes de voar fora um peixe piau.
A chuva perguntou uma coisa e o vento
respondeu outra.
Adrianinha entrou em casa que era perto
de uma praça Dom Feliciano onde passeavam donas e donos com seus pets vendedor
de pipocas banca de jornais caraipé-verdadeiro enfeitado de lâmpadas de cores
nas noites de fim de ano uma avenida Piratini pra cá e uma rua-travessa Carajá
pra lá.