E conheci tal porta, coisa e qual.
Já entrei por uma porta, sabe como é! E eu fui a essa uma palestra no auditório
do teatro Logaritmo, e sentei na plateia. No meio mais para o lado
intermediário junto a determinada escadinha entre e ou de acesso aos acentos.
Estava bom e cômodo acomodado. Livre arbítrio. E vi a porta na paisagem no
cenário. Na ponta do palco bem para o lado e discreta e uma boa porta,
aparentemente visualmente disciplinarmente. Daquelas de par em par, como se
diz. Porta de madeira e bem pintada de cor cinza, justamente um cinza metálico
um cinza sem pompa sem graça reles ou mesmo quiçá porém chauvinista. Uma bela
porta objeto local.
A mediadora apoiadora fiandeira
paraninfa, Mandi Plangente Manda-Tudo (escritório fixo frente a praça Jerônimo
Monteiro, Cachoeiro de Itapemirim) apresentou sem muita preleção delongas os
dois palestrantes, o cabo de guerra: um homem de madura idade, Calunga Asbesto do
Vissungo (residência no bairro da Liberdade, rua Vergueiro com a rua Pirapitingui);
e uma mulher de média idade, Poita Estrovenga Jacundá-Verde (atelier na avenida
Augusto Meyer com Plínio Brasil Milano, bairro Auxiliadora). E a mediatriz
intermediária começou adiantou com as perguntas, a fazer perguntas inquirir
provocar atacar flechar pungir incitar impacientar:
- Como estão as coisas aqui e ali? Pode
ser agora e já? Será que teremos mais chuva hoje a partir da tardezinha, hein?
Querem comer alguma coisa enquanto pensam, enquanto escutam? De que arquivo
vocês falam e argumentam? Vocês dois gostam de mascotes mais que de pessoas mais
do que viajar mais do que livros? Podemos nos fixar nas dificuldades da safra
de verão? Falam quantas línguas? A lei é a lei e o resto é o resto? Teria que
ser obrigatoriamente uma loja de eletrodomésticos linha branca (demanda
reprimida)? Alguns frutos do mato que vocês tomam a sério, literalmente? E
procuram especulam encontrar exatamente o quê?
Então o primeiro palestrante começou
a falar, logicamente a mulher, nessa ordem de praxe. Mulher esgalgada
escanzelada e cabelo curto estilizado. Olhar iluminado, sobrancelhas travadas
grossas. Despejou a capa de chuva no encosto da cadeira de ferro. Um talismã
amuleto em forma de sapo verde (poder mágico das índias guerreiras da Amazônia,
lenda) preso a uma correntinha suspensa do pescoço. Vinte anos já prestados à UFSC.
Por um sagrado momento atenuou o seu semblante carregado, crispado, tenso.
Prefere alimentos de baixo teor calórico e sem glúten sem lactose. Nem é de
beber álcool mais que uma taça de espumante nas viradas de ano:
“Eu quero e eu posso, meu lema! Os
escroques obtém as coisas às custas dos outros e abiscoitam ganham com intrujices
e manhas. Temos os imperfeitos atrapalhados misturados alérgicos. Comida
improvisada nem é comida, comigo. Verdade clara, insofismável intransferível
indiscutível. Os impostos mordem abocanham ignominiosamente qualquer pessoa.
Isso passa e repassa. Nas margens do rio Jabuti com árvores mata ciliar e
mutambos, olhos-de-boi, cravos-do-campo, vassouras-das-feiticeiras, poaias. Mais
importante que tudo é o legado de cada uma.”
Aquele segundo palestrante, senhor
de cabelo rebelde, puxou a fala e disparou. Fala num timbre com energia ranço
polidez. Sujeito dispéptico. Em mangas de camisa e colarinho folgado, um olhar
de leve faceiro, nariz ossudo comprido, vinco na testa, as sobrancelhas enormes
tufadas. Passou o lenço de papel pela testa banhada em suor. Ouvido afiado. Fora
anos atrás da hierarquia do exército, tenente-coronel. Concertou a garganta,
coçou a orelha direita, mexeu com o pé esquerdo no piso de ladrilhos:
[Por mim, tudo bem! Meus parentes
querem escrever um livro contando a saga da família e desde a Europa. Nem somos
de todo infensos ao exercício físico diário. Acho que sim. O lagostim o
crustáceo na água, a ave no ar gavião-puva, o tinhorão a
paracuuba-cheirosa-da-várzea o cunabim o sururucujá na terra. De tudo mesmo
ficou aquela viagem turística a Serra, o bairro Jacaraípe, as lagoas Juara e
Jacuném. Meus dois filhos, um casal, nem seguem a profissão do pai. Ora, além
de um lustro quinquênio que nem mais abro e leio as revistas e os jornais
impressos!]
Eu estava me comportando na palestra
e inserido na plateia a claque. Enquanto rolava a conversa conversação o debate
ou sei lá o quê, eu olhava a porta existente na plataforma no tablado na parede
oposta. Uma tábua em pé atrás dos palestrantes, estes sentados em poltronas
fofas e vermelhas de desenho moderno. Tinha um aviso na cara da porta, um
adesivo colado carimbado adesivado, e que eu nem conseguia ler direito assim distante.
Eu ouvia a conversa e olhava a porta, esse o meu jeito de esperar. Porta
fechada contrastando com a língua solta dos dois debatedores mais a mediadora
inquiridora atiçadora predadora incentivadora. Eu aguardava que a porta se
abrisse a qualquer momento, é. Contava com isso. Contagem regressiva. A porta
devia ter um sabor próprio ou característico. Porta corta-fogo ou
anti-incêncido. Porta doméstica caseira plebeia objetiva.
- Que história retroativa é essa,
senhor e senhora? A subvenção é uma forma de crocodilagem ou sabotagem? Que tal
ajudar auxiliar os filhos dos sumidos na enchente do último ano? Há manual pra
isso? O que vocês sabem ou duvidam sobre a descoberta desse novo planeta? Pode
que fora mesmo uma tramoia trapaça chicana dos imigrantes?
Sobrancelhas contraídas. Cabeça
baixa. De repente mordiscava a tampa azul-escura da caneta azul de tubinho
branco transparente. O olhar passeava das luminárias à plateia às paredes em
torno lisas sem adornos. Lenta, procurando se acalmar. Face contente com leve
rubor. Duas covinhas quando ria. Uma compressão na garganta. Fala doce suave,
melindrada. Nas tardes de chuva, ia à biblioteca Júlio Afrânio Peixoto a ver se
se interessava por velhas revistas de informação geral e economia em particular.
“Gosto de visitar aeroportos. Chegou
a hora de descobrir e parar com achar pensar imaginar. Parem com o carnaval
fora de época, micareta! Socorram os aviltados desonrados rebaixados
envilecidos deslustrados. Sei como é. Acordo cedo no verão com pios de aves e sanhaço,
sabiá-laranja, papa-capim, saíra, pomba-rola, anu-de-enchente,
tchintchorrintcho, guaruba. De visita nas férias do meio de ano em Guaçuí e
Varre-Sai e Nanuque. Meu sobrinho vai casar e eu nem sei o que dar de presente.
Eu que o diga!”
Contraindo os maxilares,
sobrancelhas travadas, olhos caliginosos. Disfarçou um bocejo com jeito de
cansado. Pensava, enquanto nem ouvia a debatedora oponente, em tirar férias
navegar pelo rio Benevente. Seus lábios estavam ficando mais frios.
Compenetrado. Raramente ficava zangado com as opiniões contrárias. Xilofonista
nas horas vagas de descanso de relaxamento de desconexão.
[Sentia alumbramento de um êxtase
renovado. É, pode ser! Ter vontade é ter sorte. Facultar a saída facilitar dar
permissão. Minuto: unidade de medida de tempo equivalente a 60 segundos ou 1/60
da hora (fonte, d.h.). São muitos os roteiros e eu me interesso e Turiaçu,
Guariba, Conceição da Barra, Piúma, Linhares e a lagoa de Juparanã. Escolhos
abrolhos arrecifes. Fosse onde fosse. Me dou os parabéns.]
Eu olhava a porta e a mesma fechada.
Porta portão portinhola portal. Era o jeito da porta dela. Entrada de palco de
casa de prédio de cidade. Imaginei a porta se abrindo e aparecendo umas aves
gurinhatás sabiás-do-piri uns micos saguis-leãozinhos uns peixes lambaris
bagres charutinhos. Aparecerá uma pessoa e me dirá: “A porta que se abre e eu
apareço estou aqui e só você percebe esta minha presença neste palco. Você me
vê primeiro. Por esta epifania você ganha um milhão.” E por acreditar e esperar
esse milhão, eu olho a porta e nem tiro os olhos da mesma. Ouvindo a palestra
os palestrantes e olhando espreitando espiando a porta. Quase esqueço de pensar
na fala abalizada dos conversadores conservadores. A qualquer momento a
palestra abre a porta e eu escuto alguém entrar. A porta parada em pé. A mesma
devia ter um gosto por algo. A mesma devia ter um sabor por algo. Porta
comprometida e compenetrada de si. Alguns rabiscos na pele da porta rasuras
riscos escarificação, sempre os há, marcas a canivete ponta de chave unhas
cascos garras dentes.
- Que é passear descalço na areia da
praia de Regência? Que querem? Vamos perder a caminhada? Vão subir e se elevar
aos céus? Há jabuticabas na praça Coronel Horácio, em Curuçá? Quantos rios
servem e alimentam o lago do Guariba? Bolacha ou biscoito nevados ou nem de
açúcar? Feijão por cima ou por baixo do arroz? Salada com cebola ou pimentão?
Descalçou os sapatos salto agulha e
os pés vestidos com meias pretas ambos apoiados nos respectivos pés da cadeira.
Olhos contentes brilhando. De momento repentinamente se empolgou riu
nervosamente e bateu a mão direita no joelho correspondente. Alteou o busto.
Cabelo trançado em forma de rolete coque no alto da cabeça. Vergada sobre a
mesa, o cotovelo direito apoiado, a mão esquerda segurando a cabeça. Pronto,
era o que precisava aí, esboçou um sorriso. Bisavô arrieiro tropeiro.
Respirando rápido coração acelerado. Bem acomodada satisfeita na cadeira de
encosto alto e de couro tauxiado.
“Sigo o viso do meu pai. Agora, é
aguentar o rojão. É, pode ser. Já cruzei cidade como esta daqui. Com minhas
palavras é isto. Nem almejo vida nova. Sim, paciência disciplina estudo. Vou
plantar uma sibipiruna no quintal e ver como se vai. Paro pra pensar nestas
coisas aleatórias e então me conformo com a sorte. A palavra conjuntura é um
termo adequado. Faço vitaminas do mandapuçá ou munduru ou jabuticaba-do-cerrado
(frutinhas de bagas globosas), pindaíba, jaracatiá, pixirica, ameixa-da-terra,
cambuci. Se D existir estarei salva, é.”
Movimento ágil dos polegares curtos
grossos nas mãos entrelaçadas inchadas. Olhou a oponente pelo canto dos olhos.
Rosto sombreado, bochechas frouxas. Sobrancelhas alteadas e tentando espichar o
corpo, principalmente os membros tanto inferiores como superiores. Rosto
afogueado. Um rilhar dos dentes briquismo ameaçador. O suor a lhe escorrer das
têmporas. Atirava momentaneamente o corpo para trás no encosto da poltrona,
isso quando tinha obrigação de ficar atento ouvindo sua contendora. Cruzava os
braços numa atitude instintiva psicológica de defesa. Quando escondia a boca
com a mão estava precisando falar alguma coisa urgentemente.
[Iguais parecidas idênticas e com a
mesma causa comum e consequência. Muita gente na festa. Tive o gosto e hoje
pago. Iba ou haste de planta como de assa-peixe e ingá-bravo e jenipapo-rosa e
paricá-de-esponjas e manjerona-do-campo. Prefiro as árvores frutíferas. Sagu
mais musse de chocolate mesclado com bolachas maria, meu doce sobremesa de
infância predileto. Entre frio e calor prefiro este último. Nem deixo por menos
que isto. Já consultei o médico fiz todos os exames obtive os resultados, por
este ano basta.]
Um momento e a porta olhou nos meus
olhos e disse, juro que ouvi: “Miau!...” Minutos hora olhando a porta. Tanto
que minha memória a reconheceria futuramente em outros lugares e ambientes e eventos.
Parada imóvel como uma porta fechada. A porta e suas circunstâncias. Se eu
fosse falar com ela... Vou tentar lhe falar de todo modo. Tenho coisas curiosas
para conversar com ela. Tem sim uma cadeira ali bem perto dela e de um vigia de
um guarda de um servidor de um assistente de palco. O silêncio fechado da mesma
porta e sempre muito mais longo monótono. Para inibir a passagem de alguém.
Para indicar que os ambientes são distintos.
- Será que vai ficar mesmo legal?
Querem um café? Onde e como vocês moram, com quem? Os salários estão bons? Que
idades? Vocês, o que acham? Que altura e idade pode ter esse jequitibá-vermelho
aqui em frente no meio da praça Carlos Gomes? Comem angu no desjejum? Acham que
o rio Turi vai subir quanto neste mês de março? Será que estaremos retornaremos
para casa antes das 23h?
Tatuada nos antebraços, tatuagens
que lembram ideogramas chineses e frases em árabe. Rascunhava minutava num
pequeno bloco alguns tópicos da fala do adversário e que depois na vez iria
discorrer. O rosto enrugado, as sobrancelhas grisalhas contraídas. Escondia vez
a vez o rosto com as mãos, então se defendendo como podia de um bocejo mais
ameaçador afrontoso. Respirava, inspirava expirava.
“As abelhas aramás fazem sim suas
surtidas ataques assaltos investidas no nosso parreiral. Vamos falar falamos
dos ignóbeis hediondos desprezíveis. De tudo mesmo ficou aquela viagem a Santa
Leopoldina, o rio Mangaraí. Tenho sim que ler mais poesia contemporânea. E
viajar de transatlântico está na moda.”
Uma cara enorme e vincada. Consentia
anuía muito frequentemente sacudindo sim com a cabeça. Corpo achatado amplo,
pomo de adão saltado, pescoço curto e largo. Voz baixa e seca. Braço cabeludo
descansando sobre o braço da poltrona, olhos fixos sobre a mesa e num ponto
qualquer aleatório pensativo distraído. Sério calado obscuro. Seu bisavô fora
componedor do jornal Maratimba, gazeta local da cidade natal. Aflito chateado
dispersivo audacioso. O olhar passeava pelo abajur de bronze que lhe lembrava lembrando
um candelabro ou um lustre.
[Me sinto positivo. Os peixes da
água capturados na puçá ou pari paritá e piaus, cascudos, carás, aracutingas.
Assim eu ajudo meu sonho a acontecer. Em Iconha (água ardente ou montanhas
personificadas, em tupi) desce o sol junto com as 18h e 45min; ali acontece a
disputa da praia de Areia Preta e a praia de Meaípe entre respectivamente a
terceira idade e a galera jovem; ali mesmo a noite é muito mais próxima de nós;
ali sim os vaga-lumes acendem vibram nos tufos de grama da praça José Geraldo
Vieira; ali ainda o jantar fica para depois da passagem do trem das 20h. É mais
ou menos isto. Nossa avó materna já nos deixou faz tempo e agora é lembrada com
nome de rua nesta cidade.]
A porta tinha a ver com a salão. Uma
porta dormindo fechada trancada em pé. Se a porta se abrir a qualquer momento é
porque alguém pode entrar entrará nesta história. Porta de madeira de lei feita
da ibabiraba. Porta iluminada pelas luminárias lâmpadas e a claraboia, cúpula
envidraçada e praticada no teto. Um exemplo paradigma modelo que serve como
padrão. Grave, fechada em si e sem cumprimentar ninguém. A porta devia ter
cheiro, talvez um óleo de peroba, que de onde eu espiava e olhava nem ouvia
nada. A porta merece todos os aplausos que ouve e escuta.
Que encontro estamos promovendo?
Vocês conhecem a praia Barra de São João, a ilha Barra do Serinhaém? Dirigem
carro? Tocam música? Explicam a física quântica? Seria uma abordagem tipo de
professores acadêmicos de engenharia civil? Querem conhecer a foz do rio Jacuí?
Estão cansados, senhora e senhor? Terminamos logo com isto? Quanto vale 15 dias
nas montanhas ou serra do Cipó?
Bebia o cafezinho numa pequena
xícara branca de porcelana decora com flores e servido por um garção fardado
empertigado e surgido do nada de repente. Seus irmãos, maiores que ela mais
velhos, têm uma retífica retificadora de automóveis em Guarapari. Mecha de
cabelo preso no laço de fita azul. Acaba de reler, e pela terceira vez na
década, o romance “A Maçã no Escuro” de Clarice Lispector.
“Já tenho estrada suficiente para
entender nem me surpreender com nada e um pouco de tudo. As pessoas são assim e
mais. A manjuba, peixe marinho Atlântico; um lagarto, a lagartixa-das-dunas;
mamífero xenartro e ventas narinas estranhas, tamanduá-colete; marreca ave,
apaí ou irerê ou paturé ou piadeira. Antes nós nem víamos a ponte Canoa Boieira
sobre o rio Jacuné, antes nem tínhamos a fábrica de brinquedos Almofariz, antes
nem tínhamos esta ralé escória choldraboldra parasita apegada ao governo do
Estado. Meu cão Xodó está bem amestrado e dança sobre as patas traseiras sobe
em árvores carrega chinelos e sapatos deita e rola na grama do jardim atende com
brandura ao carteiro.”
Desconfiado lento oblíquo modesto
cauto. Tossiu, concertou a garganta, as pálpebras semisserradas. Entroncado, um
pouco deslocado na cadeira de palha trançada. Muito sisudo com cacoete sempre
toda vida repuxando os cantos da boca. Ruga forte no meio da testa. Gestos com
o braço a mão direita, solene solenemente. Bigode ralo e hirsuto, cerdoso. Vai
ao barbeiro cortar o cabelo duas vezes por mês ou de 15 em 15 dias, e sempre aos
sábados pela manhã com hora marcada às 10h.
[Por agora na praça da Bandeira temos
e muito bem povoada as plantas ipecacuanhas-pretas araribás cúbios
marmelos-do-campo pojós e pássaros os curiós cambaxirras coleirinhas pucaçus
pintassilgos bentererês macucos. Hoje está o dia que madruguei. Antes que me
esqueça, parabéns e regozijo pela efeméride que se avizinha. Tenho minhas
batidas e sucos de croada ou coroa-de-frade, cabeludinha-do-cerrado, puruí ou
goiaba-preta, mangaba, cagaita, murici, gabiroba. Nem nunca imaginaria que uma
coisa desse porte pudesse estar relacionada com outra tão mínima insignificante
miúda. Podemos ir todos ao baile de formatura, óbvio. Assim é que eu gosto. Já
falei pra minha senhora, vou trocar de marca de erva-mate.]
A porta estava a minha espera, eu
adivinho. A porta me encarava e sem olho mágico. Uma espécie de epifania presença
entidade e presa à parede à moldura pelas dobradiças. Típica mocoronga tabaroa
rústica. Com trinco maçaneta chave de ouro. Porta passagem para um corredor e
que daria acesso aos banheiros aos vestiários e para outras dependências e portas
e portões. Longe o dia que a porta fora gente na floresta.
Se se ofereceram, por que nem continuam
articulando? Já vão quantos dias sem chuva? Que lhes devo prometer ou pagar
para que fiquem mais 30 minutos? Nem haverá consequências? Como vai a
humanidade? A que horas sai o voo para Caxias do Sul? Como nem percebemos há
mais tempo? Que temos de novidades? Ordens superiores de quem superior? O que
encontraram? Quem mencionou formulou esta frase com suas nuances subliminares?
Isto é possível hoje em dia?
Enquanto espera ouve aguarda sua vez
de falar, rabisca algo aleatoriamente no caderninho ou um desenho uma palavra
que outra uma firma assinatura jamegão. Legista especialista em leis de
trânsito. Rosto iluminado e as pupilas radiantes, tanto pelas luminárias
pendentes do teto de telhas de acrílico como por uma luz interior. Peitos
arrojados altos. Gesticula e fala pelos cotovelos, vai fazer 50 anos em julho.
Olhos austeros, fazendo beicinho biquinho para sorver o café da xicrinha. Se
aposentará em breve pela UFSC e cairá na compulsória. Tem sempre razão no que
diz. Está acima da verdade verdadeira. Sempre posicionada ao lado da ordem e do
progresso. Em teoria considera tudo e na prática o possível.
“Como nunca vi ou nunca se viu, eu
garanto. Sempre fui assim. Sim, compromisso é compromisso. Me lembro de tudo e
como se fosse ontem. Seria bom uma chuvinha para refrescar. Benza-o D, caro
amigo debatedor! Na festa congada ticumbi alardo, no rio Santa Maria da Vitória
o cardume de anujás ou cumbacas, em terra os teiús, nas árvores os monos ou
muriquis, no ar nas asas os cumatangas e jacus e corrupiões e xeréus. As horas
e os minutos voam. É uma boa história. A notícia mais rica milionária é que vão
construir edificar no bairro Cambucá desta cidade um resorte superpovoado de
coqueiros-aracuris e juçaras e babaçus e buritis.”
Pálpebras risonhas. Pescoço
encordoado avermelhado. Rugas vincadas nos cantos da boca. Espinha dorsal
curvada reverente. Provedor de instituição beneficente hospital São José.
Rodava os olhos pelo palco pela plateia verificava o teto as paredes a porta
que dava para os sanitários. Calva luzidia, mãos impacientes, pernas elásticas
dobráveis, pés apertados dentro de sapatos de couro marrom. Alteava alternava
olhares pra cá pra lá. Coçava o queixo, refletia, olhava a assistência e falava
na sua vez.
[Nem se pode deixar que outros,
pessoas estranhas, façam por nós. Se nem chover firme e forte por uma hora ou
duas, dentro do prazo de 15 dias, faltará água na cidade. Tudo como antes e o
tempo passando. Monopolizar açambarcar o mercado de laticínios. Na juventude na
época universitária, fomos muito de carraspanas porres bebedeiras tiorgas e
essas coisas tontas. Foi um sonho que tive esses dias. Conjugo que a cidade de
Muqui (tupi, “entre morros”) tem parte de casas tem parte de água o rio Mucuri
tem parte de terra isolada a ilha de Itaputera tem parte de mato com rochas
enrocado o parque Pedra do Fritz. Me falta visitar viajar para Roraima, antes
de ontem.]
Difícil
arrombar a porta, robusta. Por trás as fauces goela garganta de bicho selvagem.
Que nem se move facilmente, perra emperrada. Aponta pra o corredor que vai dar
em outra porta envidraçada automática de correr ou giratória de sensor e saída saindo
na rua Bambina com a Vicente de Sousa, bairro do Botafogo. Uma passadeira de
linóleo conduz a partir da porta até a mesa e as cadeiras do palco onde a
apresentadora e os dois palestrantes debatem. Passam da porta os com reserva
pessoas convidados. Sólida respeitável e duradoura. Uma porta idêntica a esta é
algo inesperado. Totalmente concreta ignorante calhorda zorra indolente. A
porta ali é diferente do mar da praia do dia da lua do cardume de uararas da
plantação de pitas da geleia de pitangatubas. Detém o vento a chuva mas nem o
ruído da rua as buzinas dos automóveis o atrito do trânsito.
- O que é que vocês nem sabem? E agora?
O que é que vão dizer lá em casa? Vocês estão fugindo da verdade? Que é que
está sucedendo com o mundo? Como vão as coisas em a praia da Cruz, Marataízes?
Vejam, o instituto Chão Limpo nem pode colaborar conosco? Vocês sabem e
reconhecem que são os outros filósofos atuais? Sabem como é? Que árvores da
flora nacional devemos plantar no jardim botânico local: goiabeira-serrana,
cereja-do-mato ou purga-de-gentio, pitomba, jatobá?
Sincera impressionada e sempre
pronta esperta atenta a dar seu veredito sobre tudo sobre qualquer coisa.
Movimentos graciosos e elementares. Quase muita maquiagem. A mão ossuda
escorregando pelo rosto e já atirando as pontas dos cabelos aos ombros. Às
vezes ensaia aquele gesto pudico. Leve preocupar frisar da testa.
“Sim, óbvio, as pessoas em geral hão
de ficar intrigadas. E agora mesmo é que são elas. Aqueles dias foram perdidos,
eu sei. Pois o parque da Redenção lotado de árvores perobas-de-gomo e
pitangas-traíras e cajás-mangas e urucuns-da-mata e muriris e guaximas e bocaiuvas,
por exemplo. Nunca é tarde. Um alqueire de terra boa já para plantar cultivar,
gleba roça já cabrocada junto ao debrum da mata, está valendo cerca de
R$800.000 no interior às margens do rio São Domingos em a cidade de Pedro
Canário. Sim, ao som da orquestra, dancei em o casamento de a minha prima Ana
Paula.”
A fala cheia, as mãos enérgicas, os
olhos claros atrás das lentes fortes. Enfarpelado em a roupa nova. Respiração
ansiada, nariz grosso, colarinho duro, camisa de mangas curtas e engomadas,
sujeito alto quase do tamanho da porta. Repuxa os lábios, crispa os dedos, um
sorriso pleno que vem e vai, enche o copo descartável com a água mineral da
garrafinha de plástico, o celular sobre o tampo da mesa e ao alcance da mão
direita. Fisionomia contraída. A larga caixa torácica sobe e desce com o
esforço da respiração.
[É, se passaram uns quantos tantos
dias de lá pra cá. Nem tenho motivos para o suspense. Nessa época eu trabalhava
de noite e estudava de dia. Sei tudo como é. Na faculdade todo mundo sabia
disso. Será o que D quiser! Nem posso e nem vou responder dizendo mentiras ou
chistes ou frases feitas. Eu era muito conhecido, foi uma fase boa da vida e
existência, e um mundo conservado reservado passeando pela avenida Antônio
Bardella pontezinha sobre o córrego Popuca e logo a rua Maria Garcia Utrila,
Guarulhos. Até hoje nem sei. Gosto especialmente do mês de janeiro, o verão
meteorológico.]
Porta tranquila boa simples amena
silenciosa. Apenas uma porta necessária, de fechar e abrir quando se quer. Porta,
quem diria porta, esse apelido intransponível ultrapassável insuportável
intransigente. Talvez se o lugar da porta fosse outro, oxalá!, quem sabe. Eu
acho que saberia se a porta fosse minha, se a porta falasse. Porta persuasiva
agressiva esquisita com cara estupefata. Porta passagem amiga natural da pugna
peleja combate prélio. Acho também que a porta percebeu que eu a estava mirando
admirando. Com conselho de uma oniromante, a porta foi comprada na loja Catambá
da rua Américo de Queirós Facó e trazida embrulhada embalada com plástico-bolha
até aqui a este local de trabalho. Porta, substantivo feminino empoderada.
- Como vieram parar aqui? Se pode
isso, meu D? Será um sonho, estamos sonhando? Tem alguém batendo à porta? Pra
que que serve o telefone? Donde vêm estas dúvidas cabulosas? Já lhes soa bem
este argumento? Vai um licor de uvaia?
Engraçada, cabelos ruivos e sempre
assim. Tinha um sorriso riso risada gargalhada que levava às vezes a lhe faltar
o fôlego. Lenço de cabelo cendal tecido de seda ou lã fina em volta do pescoço.
Sempre de dieta a partir das segundas-feiras.
“Olha, sinto resuscito a música do
vento farfalha nas plantas e mais o pássaros cantando interpretes e
joão-teneném, jacucaca ou jacupemba, bicudo, mutum, graúna, jauá. Postes de
tensão e árvores paus-de-pilão acompanhando o traçado do meio-fio da rua Caboclo
Bernardo, bairro Ariovaldo Favalessa. O negócio lucrativo que me diz: “Nem
tenho pressa de chegar”. Minha bela horta no fundo da propriedade com amigo
milho feijão inhame araçá amiga grumixama taioba mandioca alface. Sim, posso me
conformar.”
Sério e cordial e voz um pouco
grossa e alta. Olhar vago. Mergulhado pasmado para dentro de si. Camisa de
mangas curtas com o primeiro botão aberto. Rosto fechado de rugas cavadas. Era
o palestrante de hoje, sem tirar nem pôr. Quase falando num tom musical estilo
de comício. Sentia as fontes pulsantes a latejarem.
[Havia tempos que eu vinha pensando
lendo repensando nisso e mais ou menos de acordo com a contemporaneidade. Uma
ideia mais pra lá de nova para mim. Venho do oeste, missioneiro. Tenho muito a
fazer. Com perdão do clichê, caí como um pato um marrequém-do-igapó ou tiriba.
Sim, longe enormemente geograficamente as soluções evasivas. Pois as
estimativas variam muito. Vou plantar uma floresta no meu terreno do lado do
rio Itaúnas, e ubás embaúbas sapucaias copaíbas perobas jacarandás abio-do-mato
ou acá ou curiola. Hoje só acompanho esportes olímpicos, deixei de lado o
futebol. Quero descobrir um tesouro que nem precisa ser de ouro prata pedras
preciosas relíquias religiosas.]
Se eu fechar os olhos a porta fica. A
porta de força fortaleza perigo sacrifício energia e fabricada pelo homem nos
arredores arrabaldes de São Mateus e Conceição da Barra. Compenetrada da sua
função, nem participa de brigas arruaças assuadas motins. Com cara de
circunstância e à paisana. Solidária sóbria digna radioativa. Descerebralizada.
A porta que esconde e protege, convém e interfere intervém. Disposta realizada
ancha vaidosa. Por hoje chega, então, e a porta nem tem mais nada que dizer.