Conheço a história de Maria e José. Como
todos entendem, tem que se fazer as coisas bem feito já que se vai fazê-las.
O casal era um pouco ingênuo romântico para a nossa época,
e as famílias respectivas muito tradicionais.
Não sei se é desnecessário separar o
ontem aqui e agora e o amanhã. Não adianta gemer acariciar representar, pois já
fomos alguma espécie de bem-te-vi nessa terra que só produzia pássaros hoje
aviões ou transatlânticos mais tarde espaçonaves para uma estrela em Escorpião.
De tiara azul cabelo liso polido preto
Maria ficou linda, só isso. Guria de beleza radiosa em olhos enternecidos. Boca
macia apetitosa perfumada.
José ficou esse tempo todo ali amorcegando
e emendando um ano no outro até disfarçar um colar de vinte e dois anos. E pra
ele era tudo o que faltava.
Nem conheciam nem distinguiam o mar
azul-verde do céu azul-turquesa.
Os olhos dela alongados rasgados e dele o
ritmo que se acelerou. Alta branca roupa amarela e quase amarela sem palavras
tudo jogando as pernas em passadas sobre a calçada na praça da Bandeira e pra
onde quisesse ir. Os olhares dela pra longe bastantes, os pensamentos em tais e
tais sublimidades, os desejos em sorvetes de pitanga. Um jeito de ser bem voltado
pra dentro de si mesma.
Um cometa em cauda com particulares
fulgurante.
Certo dia eles combinaram com o acaso se
encontrar, e se encontraram. Já que José estava disposto, a pediu em namoro. Já
que Maria estava predisposta, o aceitou em namoro.
- Você não acha¿!
- É o que há!
- Não qué¿!
- Você não acha¿!
O sol dourava e poucas nuvens, árvores
faziam longas sombras, em outras coisas, bando de anus-pretos voltando pra casa
frondosa braúna-parda.
Mas desavisadamente os pais de Maria não queriam o
namoro. Maria e José ficaram arrasados sem saber o próximo passo. Pensaram um
único dia um único jeito no meio de uma única noite calada: fugir.
Uma chuva orgulhosa universalista vertical medindo a
altura da lua.
Eles fugiram para uma cidade Lençóis na
beira de um rio Condeúba. Longas pernaltas de tuiuiús compassadamente pela água
rala e cuidadosas de quando em quando. Ficaram por grandes apertos se escondendo
da polícia, dos satélites espiões, das câmaras dos shoppings, etc. Aí, também
começaram a alvitrar principalmente por causa de brigas.
A vida de araras é ótima. Mas existem as
mesmices. Sempre amanhece anoitece amanhece e nem muito o que fazer.
Pelas calçadas os seres flutuantes, e de
pouca sorte, em total: gentes. Apenas todos os dias do ano, o sol vive
viajando, pra cima e pra baixo. O movimento nessa rua sempre fora agitado
principalmente nos fins de semana.
Por isso assim, eles viajavam constantemente em
proveito de conhecer outros lugares, Pilão Arcado, Inhumas, Itapevi, Terenos,
Valença, Guajeru, Salto do Jacuí, Icó. Sempre que podiam, e era seguido. Admiravam
montanhas, rios, praias, árvores, aqui e ali fazendo fotos com o celular.
Inda mais que não pareciam conseguir
tirar um rebento. Mas plantavam cada ano um renque de plantas como compensação,
guaporé, sapucaia-branca, capeba, jenipapim, tapiá-mirim, cuipeúna, babaçu. As
baitacas, em dias de belo começo de noite, povoavam as copas e palravam todos e
as conversas iam interessantes.
O rio Maria e o rio José pareciam fazer
paranás igarapés igapós por certos trechos. O rio desenha num mapa de
geografia. O rio e sua automática de memória.
José tinha doentio ciúme de Maria em
tudo, seu jeito de chupar picolé, de se pentear, de mostrar os dentes, de ficar
cismando, de cruzar as pernas, de preferir certos óculos escuros, enfim uma
doença lá dele. Sem contar com o fato de Maria bonita e jeitosa gostar de usar saias
ou vestidos de cores modernas.
E passa o ano passava ano plantavam aleia
de árvores cheirosas, carobaguaçu, aroeira-de-bugre, dedaleira-preta, mimosa,
gameleira-branca, cana-brava, taioba, onde e como aconteciam pios gorjeios e
assobios dos distintos emplumados diversos, guaxe, carriça, macuco,
batuíra-de-coleira, ferrão, jaó, mutum-cavalo, suindara.
Ele tinha enorme ciúme e não a deixava sair de casa se
encontrar com o sol, o vento, o mar e a chuva. Começaram logo as agressões com
gritos e silêncios e depois os safanões. Ele rasgava-lhe a roupa, cortava-lhe
os cabelos quando dormia, passava dos limites.
Um dia qualquer, que sendo terça-feira já bastava, se
empolgaram o céu o sol as árvores as cores os seres, uma coisa só e importante.
Maria não segurou mais e voltou pra casa dos pais. Sem
esperar que Maria foi e semanas depois engravidou.
Preocupadas espalhadas acesas na noite clara, as
estrelas se perguntaram: pra onde foi a lua¿
Na beira do rio Aguapeí, povoavam as jacutingas os
colhereiros as araçaris os jaburus as irerês os frangos-d’água.
José jogou na mega-sena acumulada. Maria dormia na
cama de solteira com a televisão ligada.
À medida que o tempo passa. A medida em que o tempo
passa.
“Eu, José, queria ver o parque Barigui, queria
conhecer por dentro o teatro Guaíra.”
“Eu, José, o mundo todo e a Amazônia legal mais que
tudo.”
“Eu, José, e aqueles seis dias em Ilha Comprida
passaram assim tão rápidos.”
“Eu, José, por pura curiosidade subi naveguei o rio
Jaguaribe, dias de sol e chuva se misturaram, plantações de carnaúbas, açude de
Orós e visitei Castanhão.”
E isso, Maria tocava flauta-doce e muito. O olhar
perdido no meio de uns olhinhos verdes de chorar à noite.
Esses tempos assim tão temporais, manhãs e tardes e
jaçanãs, céu claro ventos afoitos campo afora.
No meio do rio Negrinho, os habitantes de mandi-chorão
jaú sauá curimbatá jurupoca pacu candiru-açu.
“Eu, José, tenho certeza que já vi Itaboraí.”
“Eu, José, já voltei de São Gonçalo do Sapucaí.”
“Eu, José, nem conhecia rio Aquidauana e serra de
Maracaju.”
E o tempo, já esquecido, foi no resumido: faz tempo.
Chuva voltando à terra dos galibi-maruorno em busca do
por vir.
“Eu, José, visitei Pinheiro, a praça junto da igreja
Matriz, as ruas com árvores, a forma baixa das casas, as linhas das ruas,
circulei por ruas que iam até o rio Turiaçu.”
Bom dia! Posso entrar¿ O sol se projetou na madrugada para
dentro da maior escuridão. E os pássaros começaram a aplaudir baguari
japu-verde juriti tiriva japim-da-mata-encarnado do meio das árvores umbrosas.
As cores do lugar. Até mesmo os milagres movimentaram.
Depois de três anos em separados, com o
filho Jesus, Maria e José se cruzaram por acaso num sítio de bate-papo.
Começaram a teclar e a teclar. Um mês nesse vai e vem de mensagens amigas
virtuais, marcaram um encontro num barzinho no centro da cidade natal.
Ah!, a emoção foi a mesma.
Por algum motivo que agora nem vem ao
acaso.
Os rios que sempre alcançam. Árvores
rangendo num capão, que ele mais ela não queriam contar, e eram duzentas e
trinta e duas mil árvores plantas ervas de diferentes tipos e cores e alturas.
O sol amanheceu e ficou pairando por aí.
Está muito em moda hoje em dia nas
cidades modernas de Barracão, Canavieiras, Salto, Piraí, Campanha, Rio Bonito,
Conceição do Coité, Cristina, Vassouras.
Sorriso, sorrisos cada vez mais, sorrindo
olhar e todo o mais, vinham se chegando aumentando, e se reencontraram.
O rio o sol todo o mundo a todo momento
também são daqui.
Em cada tempo tentando escolher que
pessoa quer ficar. Uma pessoa para ser. E que também pareça interessante.
Se falaram o que cada um viu naquele dia.
Depois os sonhos da noite anterior. Ainda mais as atrações nos diversos canais.
Mostraram nas fisionomias uns raciocínios sem motivos. Transformaram o abstrato
em concreto, o extraordinário em natural, ou vice-versa. Exercitaram a voz e a
imaginação. E mais ninguém.
A chegada da noite veio com estrelas. Fez
muito bem. Uma diferença para melhor. Avencas-da-terra em geral opinam pouco. Murmuravam
os japiaçós de moradia no meio do capim-açu. Assim que é: os dias as noites com
seus conteúdos.
Se num casal, vivendo uns anos em
comunhão e três anos um para cada lado, não houver nenhum desentendimento é
porque eles não se gostam e que só ficariam unidos porque não tem nada pra
fazer.
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