Noite ventosa tinha que ser aquela, e
olhos brilhantes acesos na escuridão compacta, vigiavam a janela do quarto da
namorada no Morro do Azeite, São José do Ouro. Corridas de preá na várzea.
Marotagens de jananaíra entre a folhagem nos carreiros do mato. Pios modulados de
invisível coruja-preta. Depois de um tempão os passos se foram, um último olhar
pela casa apagada, silenciosos e opacos como sombras.
Todo mundo é ciumento. A razão é debaixo
do nariz. Uns resistem mais outros menos a esse mico.
Porém, no outro dia, ela veio com aquela
cara de guaipeca faminto, que lhe cai bem em certos momentos, e me pediu
desculpas esfarrapadas. Mas eu terminei e pronto. Só que aí ela subiu nos
degraus e promoveu progrediu desabafou me prometeu:
- Vou te matá na melhor oportunidade que tivé, me
aguarde!
- Eu não digo nada!
- Como é do teu costume!
- Ah..., por favor!
Pensei em Deus espacial. Vi a lua complacente. Porque
eu queria ver o porquê de.
Andei pelas ruas sombreadas em jacarandás-mimosos saguarajis
timbés paxiubaranas-miúdas guacuris guamirins-felpudos cambarás-de-lixa.
Conversando comigo, aproveitando um sorvete com chocolate e pitanga, e andando
melhor que eu penso. As horas lentas sem que eu, eu mesmo, tivesse o preparo
para comentar.
Lembrei demais, lembrei muito mais, lembrei
tanto quanto precisei lembrar, em que dia mês e ano, aquele lugar tão merecido
de lembranças, lugar sem igual incomparável, sentados no capim-gomoso de frente
pro rio São Lourenço caindo em cachoeira véu de noiva serra da Gandarela.
Porém, não consigo pensar em outras
coisas.
Quando fechou o sinal pedestre, muitos
carros rodaram exageradamente nem podiam ser contados, fiquei emudecido filtrado
encandeado poitado pela beleza do espetáculo.
Se passaram semanas e nada. O mundo e eu
seguimos nossa sina já trançada nas estrelas de cinco pontas. Rios de seres e
de coisas que iam e que voltavam. Por meia hora fiquei guardando o olhar num
buriti do meio da praça General Osório. Uns verdes em tons de inocentes alamandas-amarelas,
por enquanto ou etc. Risos prolongados de joão-de-barro, risos simples e
engraçados, risos silvestres, risos cristalinos.
Os caminhos e os lugares para andar e ver. Ideias
muito espalhadas. Árvores voando com saudade do leste. Mandijubas no céu. A jurema-da-pedra
estava onde sempre sonhou estar. Uma menina na porta com vasinho de bromélia
florida.
Mas inesperadamente a ex engravidou.
Claro que fiquei desenxabido. Me juraram que o filho é meu. Dúvida eu tive e
muitas a partir daí. Acompanhei o rio a montante e ressabiado. Certeza eu sempre
que alguma coisa.
De por onde andar na cidade como um
filósofo. Sabendo que ontem mesmo tinha passado num posto de saúde ver a
pressão mostrar a língua arregalar a esclerótica ouvir os batimentos falar
trinta e três subir e descer cinco degraus botar as mãos para o alto.
Porém, faço só o que acho que deve ser
feito.
Sou homem, assumo meu filho se meu filho
for. Caso com ela e seremos felizes para sempre, como é e será o início do
sonho.
E Deus me perguntou o que eu mais ainda queria.
Aí, eu resolvi botar mania na casa. Decidi
que minha mulher não poderá mais sair à tarde, porque não é legal mulher sair
de casa à tarde. Muito menos usar vestido ou roupa legue na rua, mesmo acompanhada
dos irmãos dela.
Com ou sem explicação, com ou sem pedidos
de explicação o mundo vai em frente. A cada dia que me ocorre, a primeira coisa
que tenho, é encontrar o que procuro.
Proibi que usasse óculos escuros, pois toda puta já
usa óculos escuros e não pega bem.
Minha mulher e mãe do meu futuro filho não atenderá
telefone nem internet ou sequer poderá ir ao armazém da esquina, sem a
companhia da minha mãe.
Somente eu curtirei a minha esposa os seus cabelos os
seus olhos os seus pensamentos. Sob minha asa a bombordo.
Mulher que amo e beijo não faz exposição pública gratuita
da sua figura.
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