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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Em Todo o Caso


 


      


         

       Noite ventosa tinha que ser aquela, e olhos brilhantes acesos na escuridão compacta, vigiavam a janela do quarto da namorada no Morro do Azeite, São José do Ouro. Corridas de preá na várzea. Marotagens de jananaíra entre a folhagem nos carreiros do mato. Pios modulados de invisível coruja-preta. Depois de um tempão os passos se foram, um último olhar pela casa apagada, silenciosos e opacos como sombras.

       Todo mundo é ciumento. A razão é debaixo do nariz. Uns resistem mais outros menos a esse mico.

       Porém, no outro dia, ela veio com aquela cara de guaipeca faminto, que lhe cai bem em certos momentos, e me pediu desculpas esfarrapadas. Mas eu terminei e pronto. Só que aí ela subiu nos degraus e promoveu progrediu desabafou me prometeu:

- Vou te matá na melhor oportunidade que tivé, me aguarde!

- Eu não digo nada!

- Como é do teu costume!

- Ah..., por favor!

Pensei em Deus espacial. Vi a lua complacente. Porque eu queria ver o porquê de.

Andei pelas ruas sombreadas em jacarandás-mimosos saguarajis timbés paxiubaranas-miúdas guacuris guamirins-felpudos cambarás-de-lixa. Conversando comigo, aproveitando um sorvete com chocolate e pitanga, e andando melhor que eu penso. As horas lentas sem que eu, eu mesmo, tivesse o preparo para comentar.

       Lembrei demais, lembrei muito mais, lembrei tanto quanto precisei lembrar, em que dia mês e ano, aquele lugar tão merecido de lembranças, lugar sem igual incomparável, sentados no capim-gomoso de frente pro rio São Lourenço caindo em cachoeira véu de noiva serra da Gandarela.

       Porém, não consigo pensar em outras coisas.

       Quando fechou o sinal pedestre, muitos carros rodaram exageradamente nem podiam ser contados, fiquei emudecido filtrado encandeado poitado pela beleza do espetáculo.

       Se passaram semanas e nada. O mundo e eu seguimos nossa sina já trançada nas estrelas de cinco pontas. Rios de seres e de coisas que iam e que voltavam. Por meia hora fiquei guardando o olhar num buriti do meio da praça General Osório. Uns verdes em tons de inocentes alamandas-amarelas, por enquanto ou etc. Risos prolongados de joão-de-barro, risos simples e engraçados, risos silvestres, risos cristalinos.

Os caminhos e os lugares para andar e ver. Ideias muito espalhadas. Árvores voando com saudade do leste. Mandijubas no céu. A jurema-da-pedra estava onde sempre sonhou estar. Uma menina na porta com vasinho de bromélia florida.

       Mas inesperadamente a ex engravidou. Claro que fiquei desenxabido. Me juraram que o filho é meu. Dúvida eu tive e muitas a partir daí. Acompanhei o rio a montante e ressabiado. Certeza eu sempre que alguma coisa.

       De por onde andar na cidade como um filósofo. Sabendo que ontem mesmo tinha passado num posto de saúde ver a pressão mostrar a língua arregalar a esclerótica ouvir os batimentos falar trinta e três subir e descer cinco degraus botar as mãos para o alto.

       Porém, faço só o que acho que deve ser feito.

       Sou homem, assumo meu filho se meu filho for. Caso com ela e seremos felizes para sempre, como é e será o início do sonho.

       E Deus me perguntou o que eu mais ainda queria.

       Aí, eu resolvi botar mania na casa. Decidi que minha mulher não poderá mais sair à tarde, porque não é legal mulher sair de casa à tarde. Muito menos usar vestido ou roupa legue na rua, mesmo acompanhada dos irmãos dela.     

       Com ou sem explicação, com ou sem pedidos de explicação o mundo vai em frente. A cada dia que me ocorre, a primeira coisa que tenho, é encontrar o que procuro.

Proibi que usasse óculos escuros, pois toda puta já usa óculos escuros e não pega bem.

Minha mulher e mãe do meu futuro filho não atenderá telefone nem internet ou sequer poderá ir ao armazém da esquina, sem a companhia da minha mãe.

Somente eu curtirei a minha esposa os seus cabelos os seus olhos os seus pensamentos. Sob minha asa a bombordo.

Mulher que amo e beijo não faz exposição pública gratuita da sua figura.