domingo, 12 de abril de 2015

N Foi Dessa V


 

  
 

       A manhã de vidro limpo que surgia entre as árvores. Uma beleza ainda mais que bela. Era cedo do dia e as ruas estavam sozinhas. Como é engraçado o rio, como é engraçada a embaúba, como são engraçadas as maritacas.  

Mecanicamente então, às oito e meia, partiu um navio embandeirado hasteado. Todos os ouvidos começaram a cantar. Como surgiram as aves? E marolas e ondas e pororocas adequadamente.

       Não precisava voltar. O céu estava azul, o ar estava puro, a natureza toda estava amanhecendo. Verde com verde. Rio do Peixe com rio de peixe. Tavuás com aves. Paxiubaranas-miúdas com arbustos. E isso me deixou animado. O sol vem quando quer.

       Nuvens em figuras psicodélicas, nuvens provisórias, rio barulhento, paisagens deslumbrantes, brincalhão, espontâneo e arborizado, o Circuito das Águas, Cambuquira, Campanha, Carmo de Minas, Conceição do Rio Verde, Heliodora, Lambari, São Lourenço, Soledade de Minas. O rio tem resposta para toda e qualquer pergunta.

       Pois viu o sol o vento o rio os paranás os igapós os igarapés as igaras a manhã a nuvem pela primeira vez... os olhos bem despertos, as patativas os quiriris as garças-brancas os guarás-vermelhos os tachãs. Aqui ali tudo desenhado.

Guaraci sim é patriarca, devagar. E gira com o corpo, lê jornais, assina internet, se aborrece com as guerras, o trânsito, os governos, os governantes, os governados, os sindicatos, os comerciais embutidos entre as notícias. Sua energia cósmica indiscutível indestrutível imprescindível. Tem habilidade de sobra para chutar pedras latinhas sapatos bolas pacotes chinelos caixas, etc., gosta de praias com coqueiros, quiosques de água de coco, mulheres bronzeadas de canga, futebol de pelada na areia, caldo de cana com pastel de queijo, batata-frita com queijo ralado. Quando a segunda-feira passa sem sentir e como um raio um foguete um meteoro um jornal diário. E abraça as nuvens em pleno ar. Escala escada de cipó-timbó, subindo de peconha a urucuri. E o astro do dia, sofá amarelo e controle remoto nas mãos, ainda diz isso daqui:

- Oquei! Gosto do mar doce de mar das águas cheias (muito outros mares).

       À tarde junto à água, me senti com cãibras na alma e como folha inútil tombada no rio. O som da cascata aturdiu o ouvido de tal forma que nenhum surrealismo foi perfeito. Procurei, ali na pureza transbordante realeza exuberante lindeza luxuriante, as cores o canto Marcela Marcela as árvores as pedras brilhantes o ouro de Formosa o tesouro de São Tomé das Letras o diamante de São Bento Abade a esmeralda de Arabutã o rubi da teiniaguá na salamanca do Jarau. Mas foram horas de nada nem nada. Uma tarde a água o sol se encontraram no pôr do sol. A andorinha-do-campo imitou o jerimum que imitou a saracura-do-banhado que imitou a araruta-caixulta que imitou o ararapá. O rio seguiu para o mar. E levou pandorga a minha folha em branco.

       A ilha Grande do Gurupá a aldeia piratapuia o pajé Catanduva papagaio-charão no ombro disse que conhecia plantas muitas árvores cascas folhas resinas para tirar remédio garrafadas chamar os bons espíritos ancestrais curar pacientes, anhangapiri, marolinho-do-campo, aturiapompé, ora-pro-nobis, caraxa, anani.

       A culpa é minha por pensar muito em Marcela Marcela. Cheio de sonhos pintado de fantasias cansado de tentar prever adivinhar acompanhar suas manias e manhas e modas e mesuras. O que foi fazer em Congonhas. Cansado de acordar e contar suas graciosas sardas sardas. Ah, a sua pele de cunhantã como não cobiçá-la! Bonita linda como é deslumbrante a lua.

       O sol olhava ora para a porta ora para mim, mãos paradas, cara de sorriso massa, meio equilibrado entre poucas nuvens esgarçadas. Queria quem sabe a um tempo ser reconhecido e sumir. Disse do alto do seu sol uma frase:

       - Oquei! Conheço isso tudo daqui.

       E nem mais nada quis dizer, nem falou, jururás muito verdes, voo uacauã, jataís-mosquitos, canaranas fechando as margens. As águas ligeiras atrevidas visíveis, quase tão abundantes burburinhantes, corriam entre as pedras os ouvidos.

       O vento adornava mexer as árvores, sapupira, pitombeira, caatingueira, oiticica, auíba, mangueiro, aguaí-amarelo, cajarana. As plantas, mimosas, ruivinhas-do-campo, algarobeiras-pretas, sentiam que o vento asas adorava. Coloquei no rosto os óculos escuros que emprestara de Marcela Marcela. Um bando de ararapirangas em casais atravessou o espaço inadvertidamente.

       As nuvens esbarravam nas montanhas as aves de rapina os horizontes. A eternidade nem muda de pessoa. O sol manobra no início do sistema planetário no meio do sistema estelar no centro do zodíaco na cauda em espiral da nebulosa protossolar.

       E a floresta feita ali mesmo um mar verde com macacos jabutis japiras tiús formigas-de-fogo jandiás juremais curicacas-pardas cujubins. Um bando de humaitás barulhentos rasantes cruzou altas velocidades o céu branco no sentido da lua cheia.

O sol desperta a algazarra local, acordo muito bem disposto, a lua liga a tevê no canal bem na hora do telejornal. De tanto olhar e saber eu já sei e vejo que as estrelas são tortas e tais e sempre as mesmas e continuam no mesmo lugar. E isso me deixa enlevado.

Tendo vinte anos da sua idade. O céu estava azul e talvez muito azul. Rosto claro, olhar tupiniquim, sorriso rasgado, Marcela Marcela, os braços aéreos, as pernas longas, um todo de esguia e carnosa carnaúba. Em si assim é muito positiva. A melhor pessoa que conheço depois de mim. O bom mesmo só uma ou outra vez. Caminhava e caminhava mais e mais, não se cansava, queria ler e estudar muitos livros e morar em Niterói para a baía de Guanabara.

       Precisava voltar. A jandaia estava contente de ir à festa do sol. Pois o sol resplandecia. Havia pedras águas correntes e murmurantes pedras submersas muiraquitãs pedras-verdes talismãs pedras ao ar livre escorregador da Zilda, cachoeira da Grota Seca. Havia árvores magníficas de todas as formas e alturas e cores e cheiros e acarimas. Um riacho corrente que fazia piscina apropriada oportuna contida lindoia. Só faltava gente. Tinha macaco preá anta acari-chicote arraia-de-fogo jacaré-de-papo-amarelo sericoia tuiuiú aturiá. A jandaia ave tinha direito aéreo e terrestre e fluminense de estar ali.     

       Olho para lá. Dos seus olhos não tinha a atenção que procurava e nem saberia a verdade que ainda busco. Um dia a gente acorda de surpresa com o sonho do seu rosto do seu cabelo do seu nome Marcela Marcela do seu sorriso do seu olhar. Quando tupã olhou para baixo viu o abandono da terra. O que foi ver em Santa Rita do Sapucaí. O que foi ver em Santa Cruz Cabrália. O que em São Sebastião do Rio Verde. As flores da sumaumeira adoçam frutos penduram estrelas depois viram sol lua ninho de japim com enxame de tubis. O sol foi e voltou vinte vezes.

       E eu gosto desse silêncio. E se passou meia hora. E continuo a gostar do silêncio. Árvores com flores engraçadas, ramos, ramarias, galhos, esgalhos e ainda folhas folhagens jarrinhas-batatinhas. Um silêncio enigmático misterioso mágico. As margens exuberantes são verdes são matupás, maracujás, avencas, tabocas, samambaias, marantas, mururés, povoadas de socós, seriemas, jaçanãs. Descolo os óculos escuros para não assustar as aves. Um rio vagaroso e de repente por um túnel verde.

       A viagem continuava rio acima, piraíba, gurijuba, pescada, acará, aruanã, curimatã. A qualquer momento poderíamos poderia sofrer uma emboscada. Céu azul grande demais muito alto olhando tudo. O país continental demais fazer muitas coisas haja vista alta lugares altos o sol nasce no alto o rio nasce no alto cascatas araucárias dia luminoso países altos como Serra do Navio, Apuí, Piatã, São Benedito, Brasília, Dores do Rio Preto, Alto Paraíso de Goiás, Sucupira do Norte, fazia o sol, serra da Bocaina serra da Mantiqueira ou mesmo a serra do Sabarabuçu, óculos escuros para proteger a vista e não ser reconhecido.

       A água é seu elemento e nela Marcela Marcela passa os dias, filha de iara, é atraída pelo rio, é por isso que quando vai visitar a mãe se transforma num peixe de escamas ou de couro, ubari ou jurupoca ou tambaqui ou piraputanga ou tucunaré. Foi, e isso é foi duvidoso, foi acontecer o que aconteceu. E nem era para menos. Isso me deixa suspenso.

       O astro prepara o terreno meticulosamente, a algazarra das aves juruebas, o verde dos pequiás, os insetos flutuantes, as nuvens pelo espaço, o sobrecéu azul, a praia bonita branca fidalga, os macacos, Cacequi, Eunápolis, Duque de Caxias, Várzea Alegre, Paraty e ruas calçadas com pés-de-moleque, rio São Bartolomeu, contagem das horas, tapaiúna, bacuri, mangabeira, umiri-de-cheiro, iara tomando banho de lua, meio alienado o sol responde:

       - Oquei! Passo pela rua em frente das janelas.

       Quando abro o portão. Vou entrando sem me anunciar sem cachorro. Pelo lado da casa caminho sozinho até o quintal nos fundos, araticum-folha-de-salgueiro, acaraú-açu, jacitaratipiti, juquiri. Marcela Marcela tomando banho de sol ao lado da piscina azul transparente. Ainda não teria me pressentido. O sol cada vez mais consciente que se isola. Minha emoção como estar perto do céu. E alguns canteiros de jardim e algumas flores florindo flores de bromélias de orquídeas de baunilhas e as flores ali oferecendo sucos e licores e abelhas e beija-flores. Isso me deixa aéreo. O sol o vento jogam tempestade de folhas secas na minha cara. A rua sobe até as nuvens. A iaci some atrás dos araribás-amarelos. E quando atravesso o rio sinto que ainda assalta atravessar o rio.

       E o seu todo é como um sonho que vai e que vem nas ondas nas marolas nas pororocas. E eles obedecem ao destino aos rios. A eternidade nem muda de lugar. O meu pensamento dominante.

 

 

      

 

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