A manhã de vidro limpo que surgia entre
as árvores. Uma beleza ainda mais que bela. Era cedo do dia e as ruas estavam
sozinhas. Como é engraçado o rio, como é engraçada a embaúba, como são
engraçadas as maritacas.
Mecanicamente então, às oito e meia, partiu um navio
embandeirado hasteado. Todos os ouvidos começaram a cantar. Como surgiram as
aves? E marolas e ondas e pororocas adequadamente.
Não precisava voltar. O céu estava azul,
o ar estava puro, a natureza toda estava amanhecendo. Verde com verde. Rio do
Peixe com rio de peixe. Tavuás com aves. Paxiubaranas-miúdas com arbustos. E isso
me deixou animado. O sol vem quando quer.
Nuvens em figuras psicodélicas, nuvens
provisórias, rio barulhento, paisagens deslumbrantes, brincalhão, espontâneo e
arborizado, o Circuito das Águas, Cambuquira, Campanha, Carmo de Minas,
Conceição do Rio Verde, Heliodora, Lambari, São Lourenço, Soledade de Minas. O
rio tem resposta para toda e qualquer pergunta.
Pois viu o sol o vento o rio os paranás
os igapós os igarapés as igaras a manhã a nuvem pela primeira vez... os olhos
bem despertos, as patativas os quiriris as garças-brancas os guarás-vermelhos os
tachãs. Aqui ali tudo desenhado.
Guaraci sim é patriarca, devagar. E gira com o corpo,
lê jornais, assina internet, se aborrece com as guerras, o trânsito, os
governos, os governantes, os governados, os sindicatos, os comerciais embutidos
entre as notícias. Sua energia cósmica indiscutível indestrutível
imprescindível. Tem habilidade de sobra para chutar pedras latinhas sapatos
bolas pacotes chinelos caixas, etc., gosta de praias com coqueiros, quiosques
de água de coco, mulheres bronzeadas de canga, futebol de pelada na areia,
caldo de cana com pastel de queijo, batata-frita com queijo ralado. Quando a segunda-feira
passa sem sentir e como um raio um foguete um meteoro um jornal diário. E abraça
as nuvens em pleno ar. Escala escada de cipó-timbó, subindo de peconha a
urucuri. E o astro do dia, sofá amarelo e controle remoto nas mãos, ainda diz
isso daqui:
- Oquei! Gosto do mar doce de mar das águas cheias (muito
outros mares).
À tarde junto à água, me senti com
cãibras na alma e como folha inútil tombada no rio. O som da cascata aturdiu o
ouvido de tal forma que nenhum surrealismo foi perfeito. Procurei, ali na pureza
transbordante realeza exuberante lindeza luxuriante, as cores o canto Marcela
Marcela as árvores as pedras brilhantes o ouro de Formosa o tesouro de São Tomé
das Letras o diamante de São Bento Abade a esmeralda de Arabutã o rubi da
teiniaguá na salamanca do Jarau. Mas foram horas de nada nem nada. Uma tarde a
água o sol se encontraram no pôr do sol. A andorinha-do-campo imitou o jerimum
que imitou a saracura-do-banhado que imitou a araruta-caixulta que imitou o
ararapá. O rio seguiu para o mar. E levou pandorga a minha folha em branco.
A ilha Grande do Gurupá a aldeia
piratapuia o pajé Catanduva papagaio-charão no ombro disse que conhecia plantas
muitas árvores cascas folhas resinas para tirar remédio garrafadas chamar os
bons espíritos ancestrais curar pacientes, anhangapiri, marolinho-do-campo, aturiapompé,
ora-pro-nobis, caraxa, anani.
A culpa é minha por pensar muito em
Marcela Marcela. Cheio de sonhos pintado de fantasias cansado de tentar prever
adivinhar acompanhar suas manias e manhas e modas e mesuras. O que foi fazer em
Congonhas. Cansado de acordar e contar suas graciosas sardas sardas. Ah, a sua
pele de cunhantã como não cobiçá-la! Bonita linda como é deslumbrante a lua.
O sol olhava ora para a porta ora para mim,
mãos paradas, cara de sorriso massa, meio equilibrado entre poucas nuvens
esgarçadas. Queria quem sabe a um tempo ser reconhecido e sumir. Disse do alto
do seu sol uma frase:
- Oquei! Conheço isso tudo daqui.
E nem mais nada quis dizer, nem falou, jururás
muito verdes, voo uacauã, jataís-mosquitos, canaranas fechando as margens. As
águas ligeiras atrevidas visíveis, quase tão abundantes burburinhantes, corriam
entre as pedras os ouvidos.
O vento adornava mexer as árvores,
sapupira, pitombeira, caatingueira, oiticica, auíba, mangueiro, aguaí-amarelo,
cajarana. As plantas, mimosas, ruivinhas-do-campo, algarobeiras-pretas, sentiam
que o vento asas adorava. Coloquei no rosto os óculos escuros que emprestara de
Marcela Marcela. Um bando de ararapirangas em casais atravessou o espaço
inadvertidamente.
As nuvens esbarravam nas montanhas as
aves de rapina os horizontes. A eternidade nem muda de pessoa. O sol manobra no
início do sistema planetário no meio do sistema estelar no centro do zodíaco na
cauda em espiral da nebulosa protossolar.
E a floresta feita ali mesmo um mar verde
com macacos jabutis japiras tiús formigas-de-fogo jandiás juremais
curicacas-pardas cujubins. Um bando de humaitás barulhentos rasantes cruzou
altas velocidades o céu branco no sentido da lua cheia.
O sol desperta a algazarra local, acordo muito bem
disposto, a lua liga a tevê no canal bem na hora do telejornal. De tanto olhar
e saber eu já sei e vejo que as estrelas são tortas e tais e sempre as mesmas e
continuam no mesmo lugar. E isso me deixa enlevado.
Tendo vinte anos da sua idade. O céu estava azul e
talvez muito azul. Rosto claro, olhar tupiniquim, sorriso rasgado, Marcela
Marcela, os braços aéreos, as pernas longas, um todo de esguia e carnosa
carnaúba. Em si assim é muito positiva. A melhor pessoa que conheço depois de
mim. O bom mesmo só uma ou outra vez. Caminhava e caminhava mais e mais, não se
cansava, queria ler e estudar muitos livros e morar em Niterói para a baía de
Guanabara.
Precisava voltar. A jandaia estava
contente de ir à festa do sol. Pois o sol resplandecia. Havia pedras águas
correntes e murmurantes pedras submersas muiraquitãs pedras-verdes talismãs pedras
ao ar livre escorregador da Zilda, cachoeira da Grota Seca. Havia árvores magníficas
de todas as formas e alturas e cores e cheiros e acarimas. Um riacho corrente
que fazia piscina apropriada oportuna contida lindoia. Só faltava gente. Tinha
macaco preá anta acari-chicote arraia-de-fogo jacaré-de-papo-amarelo sericoia tuiuiú
aturiá. A jandaia ave tinha direito aéreo e terrestre e fluminense de estar ali.
Olho para lá. Dos seus olhos não tinha a
atenção que procurava e nem saberia a verdade que ainda busco. Um dia a gente
acorda de surpresa com o sonho do seu rosto do seu cabelo do seu nome Marcela
Marcela do seu sorriso do seu olhar. Quando tupã olhou para baixo viu o
abandono da terra. O que foi ver em Santa Rita do Sapucaí. O que foi ver em
Santa Cruz Cabrália. O que em São Sebastião do Rio Verde. As flores da
sumaumeira adoçam frutos penduram estrelas depois viram sol lua ninho de japim
com enxame de tubis. O sol foi e voltou vinte vezes.
E eu gosto desse silêncio. E se passou
meia hora. E continuo a gostar do silêncio. Árvores com flores engraçadas,
ramos, ramarias, galhos, esgalhos e ainda folhas folhagens jarrinhas-batatinhas.
Um silêncio enigmático misterioso mágico. As margens exuberantes são verdes são
matupás, maracujás, avencas, tabocas, samambaias, marantas, mururés, povoadas
de socós, seriemas, jaçanãs. Descolo os óculos escuros para não assustar as
aves. Um rio vagaroso e de repente por um túnel verde.
A viagem continuava rio acima, piraíba,
gurijuba, pescada, acará, aruanã, curimatã. A qualquer momento poderíamos
poderia sofrer uma emboscada. Céu azul grande demais muito alto olhando tudo. O
país continental demais fazer muitas coisas haja vista alta lugares altos o sol
nasce no alto o rio nasce no alto cascatas araucárias dia luminoso países altos
como Serra do Navio, Apuí, Piatã, São Benedito, Brasília, Dores do Rio Preto,
Alto Paraíso de Goiás, Sucupira do Norte, fazia o sol, serra da Bocaina serra
da Mantiqueira ou mesmo a serra do Sabarabuçu, óculos escuros para proteger a
vista e não ser reconhecido.
A água é seu elemento e nela Marcela
Marcela passa os dias, filha de iara, é atraída pelo rio, é por isso que quando
vai visitar a mãe se transforma num peixe de escamas ou de couro, ubari ou
jurupoca ou tambaqui ou piraputanga ou tucunaré. Foi, e isso é foi duvidoso,
foi acontecer o que aconteceu. E nem era para menos. Isso me deixa suspenso.
O astro prepara o terreno
meticulosamente, a algazarra das aves juruebas, o verde dos pequiás, os insetos
flutuantes, as nuvens pelo espaço, o sobrecéu azul, a praia bonita branca
fidalga, os macacos, Cacequi, Eunápolis, Duque de Caxias, Várzea Alegre, Paraty
e ruas calçadas com pés-de-moleque, rio São Bartolomeu, contagem das horas,
tapaiúna, bacuri, mangabeira, umiri-de-cheiro, iara tomando banho de lua, meio
alienado o sol responde:
- Oquei! Passo pela rua em frente das
janelas.
Quando abro o portão. Vou entrando sem me
anunciar sem cachorro. Pelo lado da casa caminho sozinho até o quintal nos
fundos, araticum-folha-de-salgueiro, acaraú-açu, jacitaratipiti, juquiri.
Marcela Marcela tomando banho de sol ao lado da piscina azul transparente.
Ainda não teria me pressentido. O sol cada vez mais consciente que se isola. Minha
emoção como estar perto do céu. E alguns canteiros de jardim e algumas flores
florindo flores de bromélias de orquídeas de baunilhas e as flores ali oferecendo
sucos e licores e abelhas e beija-flores. Isso me deixa aéreo. O sol o vento
jogam tempestade de folhas secas na minha cara. A rua sobe até as nuvens. A
iaci some atrás dos araribás-amarelos. E quando atravesso o rio sinto que ainda
assalta atravessar o rio.
E o seu todo é como um sonho que vai e que
vem nas ondas nas marolas nas pororocas. E eles obedecem ao destino aos rios. A
eternidade nem muda de lugar. O meu pensamento dominante.