sexta-feira, 12 de junho de 2015

A BOA-FÉ DE DEUS É INFINITA


      


 

      

       Quais são os meus milagres? Quem viu ouviu falar dos meus milagres? Todos já espiaram os meus milagres a montanha, as árvores, o lago, a sombra, a Larissa bolsa a tiracolo no caminho da faculdade. Uma coisa assim, que é do meu milagre, tem a força de mais de uma duas três... vinte investidas de igarité nesse e noutro lado do rio. Porque os meus milagres são os pássaros os rios a trança longa bonita do cabelo negro de Larissa.  

       O dia oito de outubro do ano de 2015 caiu numa quinta-feira clara aberta ensolarada magnífica esperada Larissa ao meu lado do começo ao fim. No ar o sol animado ia subindo. As horas o acompanhavam, seguiam, folgadas, indianas, comboio, caravana, romaria, procissão. Fui acordar logo em êxtase. Pois o dia estava presente ali mesmo ciciar de cigarras no meio de nós comigo tudo.

       Ela se disfarçou de nuvem e eu a encontrei.

       Tenho que o mundo é pouco é perto é amanhã é Larissa vestida para ir à cascata da Usina. Uns olhos verdes iluminados por dentro, só vendo. Petulantes seios lindos rijos à vista e às vezes meus sonhos tão certos tão corretos tão direitos os lábios carmins carmesins Carmésia. O melhor da beleza: é sempre Larissa.

       - Eu gosto de Cabrobó.

       - Eu gosto e adoro Carapicuíba, Ladário, cabo de São Tomé, bosque jardim botânico Rodrigues Alves.

       Quando conheci Larissa durei muito envelheci amadureci e, porém, muito que já a conhecia Larissa. Nossas idas e vindas pelas margens do rio já se tornavam legendas.

       Estava aí mesmo eu em vista do sol da lua do rio da nuvem e assistia tudo de uma distância conveniente. Tive certeza. Não só eu mas minha alma gostou dela. Alma minha alma dela que almas já foram joão-bobo, saí-veludo, beija-flor-de-papo-branco, irara, maracajá-mirim, bacaba-de-azeite, jupiedi, cipó-bravo. Seria como conviver dentro de um rio uma estrada uma cidade: a alma minha com a dela laçadas pregadas mata-juntadas. E eu ela nós os dois o par na dupla já existíamos pelo ar pelas almas abraçadas mundo afora em dobro em versos em outras modalidades esportivas em repetecos quantas vezes o mundo já existiu e ou o tempo deu as voltas.

       Contei pro pessoal da turma lá em casa e não nem acreditaram em mim. Reflexos cambiantes de luz do sol na água límpida da piscina, o beijo inédito o sorriso inédito a voz inédita o riso inédito, a descoberta foi surpreendente.

       O sul o sol os beijos Larissa são infinitos de Deus. E muitas outras coisas além ao alcance do querer. Já nós dois juntos eternos somos o que o ser precisar ser.

       - Nunca vi ariranha.

       - Nunca vi jenipapeiro, itu, algarobeira, abutua, tatajuba-do-brejo, jundiaí, braúna-do-sertão.

       Olhei provei amamos degustei amei lambi mordi cheirei mordisquei por tanto tempo por partes mais que durante quatro horas. Com calma suavidade inventamos uma viagem de barco até Novo Xingu ou Senhora do Porto.

       Senti meu fogo desassossego medo das minhas próprias asas, capitão-de-saíra, cardeal, papa-capim, pavão-do-mato, quete, suiriri-cavaleiro. Quem nasceu primeiro Larissa ou nós dois?

       Chegou nem se apresentou foi chegando se apresentou veio apareceu surgiu do nada de presente causou curiosidade e preciosa paralisação.

       - Como em todas as cidades do mundo, Belém adora o teatro da Paz.

       - Em Curitiba isso é levado muito a sério e naturalmente como os magníficos os teatros Guaíra, Paiol, São Pedro, Renascença.

       Nuvens em pensamento, sempre no seu esvoaçar, andando de leste para oeste, figuras de bichos ou árvores ou caravelas ou chaleiras ou peças da sala de jantar. Nuvens imaginativas imaginando. Cheias de ideias por onde passam, as nuvens deixam nuvens rastros de queimadas nuvens brancas forno a lenha aviões a jato. As ideias-nuvens das nuvens voam das nuvens para os céus os mares as florestas as folhas em branco dos cadernos escolares.

       Deus infinitamente responsável por tudo pôr do sol por mim por Larissa. E comigo Ele solta uma cunha e põe outra. Me ocorre dizer que enquanto sou feliz posso estar edificando meu agosto. Enquanto vai tudo bem pode me estar sendo preparado o socavão. Se hoje o céu é esse azul clássico, amanhã poderá cair um meteorito e extinguir os curiangos, as lavadeiras, os sapos-de-chifre, as arapuás, as mamoneiras-miúdas, os timbés, os gogós-de-guariba.

       O sol só vive uma coisa: o sol a lua o rio. E do seu jeito o sol faz o que bem quer porque quer. A ideia profissional entendida e competente do sol irrevogável.

       Se acostumar com a pessoa o seu jeito dela beijos doces e muitos. Agrados como eu sempre quis. Tão certos e ótimos que parecem nunca ter sido sonhados. Fala baixa pausada calma como as plantas cercando o rio que corre entre pedras e árvores.

       Tudo que pertence ao mundo me basta me pertence Larissa e a ela pertence e a nós dois. Tudo que é meu que é dela foi feito um para a outra. Cabelos longos fortes lisos brilhantes negros quase arrogantes muito vitaminados dominadores. Abraçada ao livro sentou abriu na página marcada capítulo oito século dezenove Império rua do Ouvidor.

       No começo de um domingo radioso, assim, logo pela manhã, de longe, o sol parecia um trator estranho um trator colheitadeira, um embasbacado, um algo mais feroz para mecânico ou eletrônico que para os humanos. E Larissa segurava a coleira do Tupi durante a avenida Borges de Medeiros época dos floridos jacarandás-cabiúnas cachorrinho muito original e o bicho se parava nos olhava aos poucos andando religioso.

       - O sol se levanta sempre com grandes e muitas ideias nesse começo de tempo em as 5h e 30min.

- Pois o tempo serve suficiente para a casa das 12h ir e vir.

       Já me arrumei com muitas belezas pelo casamento espiritual. Sem que me pressentissem, sem que me abraçassem, sem que me beijassem, sem que me decifrassem o nome, sem que existissem de cá de lá do rio. Tive namoros, noites maravilhosas e férias inteiras nas praias de Ubatuba. E naturalmente meu amor não terminava porque éramos felizes para sempre. E quem nasce para Larissa nem precisa de lugar maior mais movimentado mais negociado mais conhecido mais engajado que Pombos, Bezerros, Guaporé, Dom Joaquim, Vila Maria, serra do Lenheiro. O cabelo suave longo preto longo indo e voltando para trás das orelhas com mecha loura caindo para cá para lá diante do olho verde glauco esverdeados.

       - Por muito tempo ando por aí à toa perdendo procurando lembrando achando você.

       - Sempre nos encontramos já outras tantas vezes e fomos outros tantos nos perdendo nos achando de repente no meio do rio e de nós mesmos.

       O sol foi dominando a atenção do dia e, de manifestação, recebido pessoalmente na cidade no campo na serra da Moeda em todo lugar. Mais tarde o casal nós dois fomos a uma sorveteria aí na altura da praça da Bandeira beber caldo de cana que fortalece os ossos.

       Fora do meu pensamento eu encontro e vejo os murixis os catuena vendendo cestas na rodoviária de Vila Flores os papas-açaís as águas termais de Lins. O mundo boquiaberto do sol da lua. Vale dizer, que a minha vida e a dela, a vida ganha, a vida feita, tudo correndo perfeito como se deve, nada que falte. Voltamos a pé fomos a pé e voltamos pela mesma rua das árvores cheia o vento batendo nas copas um pouco de subida um pouco de descida alguns passarinhos incidentais curiós moramos perto uma do outro.

       O sol apontou no meio-dia mas meu relógio nos disse que eram oito e trinta e dois. Coniventes, as horas passam os dias os meses... se vão como são os meus os dela os nossos. O sorriso o riso bonito lindo por trás dos olhos verdes camuflados das folhas das sombras dos ramos de andiroba.  

       Quando acontece nesse verão, ou no anterior, ou no próximo, já bem de natural e acomodados em nós mesmos, como o sol como a lua como o verão, notícia atualizada, pegamos a estrada e voamos para Olinda, Recife, Belém de Maria, Caruaru, Boa Nova, Constantina, Santa Maria do Suaçuí, surreais, intergalácticos, dormindo no meu ombro no seu ombro.

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