Quando supimpa cheguei, ela estava
trepada no alto da alta laranjeira colhendo frutas para um suco. Nunca poderia
imaginar essa cena in-ter-na-cio-nal! Ao me ver, gorjeou lá de: Suba aqui, me
ajude e depois tomaremos um suco! Mas eu tinha medo de alturas e preferi ficar
amparando os pomos maduros que ela alcançava.
Manhã igual àquela nova feita de sol e
raras nuvens brancas brancas. Éramos prometidos preferidos. Prometidos pelos
olhos pelos corações pelos olhares pelas asas pelos pelos pelas árvores. Que
segredos e mistérios e acasos tinha o mundo tinha o universo.
Pronto, eu chilrei, eu pensei, a seis
quilômetros, um arco-de-chuva veio beber a água do açude. Andorinhas bater de
asas alturas brincadeiras ou fazer guerra reflexos de vidro inocentando o sol
branco o céu branco a cidade branco.
Eu queria congelar o instante. Esse
alumbramento. Que o mundo acabasse. Que as coisas os acontecimentos tudo tudo
as notícias nos deixassem em paz. Eu queria ficar olhando, que ela ficasse
tirando laranjas, que mesmo o vento nem se mexesse, que a cidade fosse um quintal
de Frutal.
Pois me lembrei de quando era guri e ia
na tapera antiga casa dos meus avós. Não existia mais casa nada só umas pedras ruínas
de alicerces jogadas, mas ainda restavam muitos pés de frutas jabuticabeiras
bergamoteiras laranjeiras plantas ornamentais orelhas-de-onça anibas pacapiás oitizeiros
pequiás-amarelos sapucairanas. Eu trepava ali e tirava meio saco de laranjas
para fazer em casa.
Depois de contar o número certo de frutas,
ela desceu ao chão. Como um pássaro, um sol, uma ave, uma sabiá-laranjeira pomba-rola
araúna acanati. E me sorriu feliz por me ver surpreso da sua proeza. E me
cumprimentou me animou me jogou me beijou nos cantos da boca. Vestia aquele
short de plumas brancas sublimando a entrada da cripta e uma espécie de miniblusa
esverdeada sem mangas cheia das formas dos sonhos de sonho. O feitiço dos seus
gestos. Empoeirada dos musguinhos dos liquens e riscada dos espinhos das
gavinhas as pernas vermelhas e as asas esfoladas de se enroscar pelos galhos a
cauda em rabo atado por elástico.
O bando das andorinhas subia descia das
abas das casas revoava em círculos grinfava trissava pelos telhados pelas
alturas. Som de vozes pela rua automóveis. O sol branco entre nuvens brancas.
Era mesmo parecia quem uma felina, uma
onça-pintada, uma mico-leão-dourado, uma sagui-de-duas-cores. Parecia um
desenho animado, uma planta carnívora etê esquisita de outro sistema planetário.
Uma selvagem, uma cabocla da floresta da serra Dois Irmãos, uma índia timbira.
E se trepava num pé de laranjas, treparia
em todos que houvessem. Pra dizer, trepava em toda árvore que precisava trepar.
O corpo adolescente. Impulsividade de artista. Voluntariosa como um bicho do
mato. Boca sumarenta olhos de ternura decote na blusa azul a pele sedosa como
pelugem de filhote de jaguatirica. Ria e cantava de tudo que via.
Tentação de segurá-la entre as asas. Sol
incendiado incendiando, as nuvens brancas painas plumas algodões sacudidos
empurrados pelo vento leste. O vento penteando as altas árvores lá em cima que
eu conhecia algumas, licurizeiro, cuité, monjolo, gameleira-de-pinga, babaçu. Eu
era todo por ela. O pulso aos pulos.
Me convidou para entrar e ajudá-la na
preparação na, mi-mi-mi!... degustação. Ficamos aí pela toca pelo oco da árvore
falando de coisas e situações que vinham esparsas e aleatórias as nossas mentes.
Distraídos do mundo e de outras coisas. A jarra enorme líquida amarelo cubos
boiando com a colher metálica, tililim!, tililim!... de cabo comprido. Do meu
ângulo a olhava cheia das formas apetitosas apetitosa o seu pescocinho perdido a
cauda em rabo modelo de corpo piano os olhos adolescentes resplendentes
espelhantes motivantes aromáticos azulados ou talvez esverdeados.
Lembrei bastante de manhã cedo sempre
escapava depois do sol depois do café da manhã, eu separava tudo rebrilho das
águas e ia para a beira do rio. Todas as casas com janelas de tampos azuis
abertas. Guiava a canoa até um banco de areia no meio da manhã do sol do rio do
céu. Eu já tinha metade do mundo.
Preparado o lanche, fomos nos posicionar empoleirar
na escada de pedra nua basalto que dava para o pátio. Tinha ali por ali uma
grande árvore que eu não sabia que era um louro-canga-de-porco. E outras
árvores inclusive as frutíferas e ornamentais. E pássaros em bando em multidão
em algazarra. Borboletas e mais outros insetos que não dei bola e por que
zumbiam os muriçocas e trabalhavam tanto as içaúbas e mudavam de embalagem
mutantes as taturanas e tal e coisa.
O mundo caminhava o seu dia pela rua vaivém e sem dar
a mínima para nosso enleio e nós o dele. A rua tinha nome de político antigo com
importância. Tocávamos os assuntos vários sem necessidade de resolvê-los. Ela pipiava
já sabia cantar sempre sem parar. Eu me encantava com suas pernas vermelhas e
esfoladas, seu pescoço longo bem emplumado plumas novas, as bochechas a boca
que se remexiam no mastigar o sanduíche ou iam e vinham do copo, os olhos
úmidos, o nariz de desenho na escola de aprendizes. Esse o meu mundo onde eu
tinha a cabeça. Estava ali ela tão linda ao alcance das minhas asas... as
formas bem modeladas equilibradas fantasiosas aerodinâmicas aterrissáveis...
mesmo falando de boca cheia... os pés em sandálias amarelas...
Por que as pontas das asas suadas o rosto vermelho as
orelhas quentes os olhos arregalados deslumbrados. O mundo parado, o sol
branco, tudo acontecendo e aumentando, tudo voando ou navegando. Muito que eu
tinha eu via ali estava ali comigo sentia ali. Era necessário tinha de
desabafar sair voando correr pelo parque a serra do Curral contar para alguém o
prêmio milionário a invenção rara dos deuses.
Lembrei daquela vez hora leve aérea nos encontramos na
entrada do quintal entre o folhedo. Bocas entreabertas. Aninhados ali debaixo
na sombra de um tal de ipê-mandioca florido contando as pétalas conforme o
vento soprava. O vento acariciando no seu rosto pegando de raspão nos olhos
líquidos mexendo com as pontas a franja das penas. E o vento nas copas das
árvores, vento quando havia vento, vento com vento, vento com chuva, vento nas
figueiras-brancas e sempre assim. Rir e se perder nas lonjuras navegar dos rios
Canindé, São Mateus, Sepotuba, ondas embalando docemente, tambiú, piracanjuba, muçambê,
canaflecha, querendo saber de tudo, anhuma, tapicuru-de-cara-pelada, mico-preto,
índios banauá-iafi caçando com murucu, um beijo no rosto.
A rua branco de sol. Uma vez e outra ela passava as costas
da mão direita, não, da esquerda, nos lábios na boca escorrendo sumo. Vento
morno com sombras de nuvens. O som a cor o gosto dos cafunés. Eu ficava ali
olhando sem saber o que dizer, e o vento trazendo aroma e calor até os meus
olhos até os meus nervos até os meus ossos.
Gostosa sensação ao mesmo tempo tão distante intocável
fruta cristalina joia azul ou verde. A voz dela o riso e eu me sentindo bem.
Principalmente porque era minha vizinha irmã do meu amigo e vizinho me
acostumei lavava o carro da família aí na frente da garagem os dias de céu
limpo estendia a roupa na grama do jardim pulava de pedra em pedra contando os
quadradinhos da sapata passeava de bicicleta acompanhando guiando o salsicha
Tuxá.
Recordei assim que pude os meus longos olhos no mato
ou no morro ou na praça Oito de Setembro ou na praia do Arambipe, ouvia o rio
correndo em ziguezagues o rio Parnaíba, o cabeça-de-cuia, orelhas-de-burro, macucus-do-rio-negro,
patacas, cajaranas, cardos-ananás, açucenas-d’água, rumores murmúrios segredos
na folhagem, piaparas, dourados, bagres, matrinxões, sussurros líquidos entre
as pedras, martins-pescadores-da-mata, paturis, tetéus, patos-corredores.
Uma esperança, me mostrou o celular os passeios em
Sobradinho. A asa com asa. O braço com braço. Grudados. E por que parar o mundo?
O brilho esfuziante dos seus olhos. O que adianta parar o tempo o mundo os
telejornais o futuro? Saltitar displicente de galho em galho pela alta altura da
umbrosa acariquara. O verniz de folha nova, o cheiro recente de flor amarela. E
o que eu ganho com isso e aquilo e acolá e etc.
Negociei comigo pelo fundo do meu desejo
da minha tonteira, que ela tomará seu banho na sanga em seguida e será que me
convidará para contar seus arranhões e beliscões? E esfregar as suas costas,
olhar as orelhas? Via a água escorrendo pelo seu corpo plumoso, o líquido
espumando as suas costas, as gotas quentes boas puras passeando na superfície
das penas peles tenras brancas aterrissáveis. Depois me convidaria para ficar?
Até que o dia amanhecesse até que terminasse o verão par de arapongas-do-horto até
os nossos outros duzentos mil anos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário