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domingo, 5 de julho de 2015

PAISAGEM CÓSMICA


      


       
       Quando supimpa cheguei, ela estava trepada no alto da alta laranjeira colhendo frutas para um suco. Nunca poderia imaginar essa cena in-ter-na-cio-nal! Ao me ver, gorjeou lá de: Suba aqui, me ajude e depois tomaremos um suco! Mas eu tinha medo de alturas e preferi ficar amparando os pomos maduros que ela alcançava.

       Manhã igual àquela nova feita de sol e raras nuvens brancas brancas. Éramos prometidos preferidos. Prometidos pelos olhos pelos corações pelos olhares pelas asas pelos pelos pelas árvores. Que segredos e mistérios e acasos tinha o mundo tinha o universo.

       Pronto, eu chilrei, eu pensei, a seis quilômetros, um arco-de-chuva veio beber a água do açude. Andorinhas bater de asas alturas brincadeiras ou fazer guerra reflexos de vidro inocentando o sol branco o céu branco a cidade branco.

       Eu queria congelar o instante. Esse alumbramento. Que o mundo acabasse. Que as coisas os acontecimentos tudo tudo as notícias nos deixassem em paz. Eu queria ficar olhando, que ela ficasse tirando laranjas, que mesmo o vento nem se mexesse, que a cidade fosse um quintal de Frutal.

       Pois me lembrei de quando era guri e ia na tapera antiga casa dos meus avós. Não existia mais casa nada só umas pedras ruínas de alicerces jogadas, mas ainda restavam muitos pés de frutas jabuticabeiras bergamoteiras laranjeiras plantas ornamentais orelhas-de-onça anibas pacapiás oitizeiros pequiás-amarelos sapucairanas. Eu trepava ali e tirava meio saco de laranjas para fazer em casa.

       Depois de contar o número certo de frutas, ela desceu ao chão. Como um pássaro, um sol, uma ave, uma sabiá-laranjeira pomba-rola araúna acanati. E me sorriu feliz por me ver surpreso da sua proeza. E me cumprimentou me animou me jogou me beijou nos cantos da boca. Vestia aquele short de plumas brancas sublimando a entrada da cripta e uma espécie de miniblusa esverdeada sem mangas cheia das formas dos sonhos de sonho. O feitiço dos seus gestos. Empoeirada dos musguinhos dos liquens e riscada dos espinhos das gavinhas as pernas vermelhas e as asas esfoladas de se enroscar pelos galhos a cauda em rabo atado por elástico.

       O bando das andorinhas subia descia das abas das casas revoava em círculos grinfava trissava pelos telhados pelas alturas. Som de vozes pela rua automóveis. O sol branco entre nuvens brancas.

       Era mesmo parecia quem uma felina, uma onça-pintada, uma mico-leão-dourado, uma sagui-de-duas-cores. Parecia um desenho animado, uma planta carnívora etê esquisita de outro sistema planetário. Uma selvagem, uma cabocla da floresta da serra Dois Irmãos, uma índia timbira.

       E se trepava num pé de laranjas, treparia em todos que houvessem. Pra dizer, trepava em toda árvore que precisava trepar. O corpo adolescente. Impulsividade de artista. Voluntariosa como um bicho do mato. Boca sumarenta olhos de ternura decote na blusa azul a pele sedosa como pelugem de filhote de jaguatirica. Ria e cantava de tudo que via.

       Tentação de segurá-la entre as asas. Sol incendiado incendiando, as nuvens brancas painas plumas algodões sacudidos empurrados pelo vento leste. O vento penteando as altas árvores lá em cima que eu conhecia algumas, licurizeiro, cuité, monjolo, gameleira-de-pinga, babaçu. Eu era todo por ela. O pulso aos pulos.

       Me convidou para entrar e ajudá-la na preparação na, mi-mi-mi!... degustação. Ficamos aí pela toca pelo oco da árvore falando de coisas e situações que vinham esparsas e aleatórias as nossas mentes. Distraídos do mundo e de outras coisas. A jarra enorme líquida amarelo cubos boiando com a colher metálica, tililim!, tililim!... de cabo comprido. Do meu ângulo a olhava cheia das formas apetitosas apetitosa o seu pescocinho perdido a cauda em rabo modelo de corpo piano os olhos adolescentes resplendentes espelhantes motivantes aromáticos azulados ou talvez esverdeados.

       Lembrei bastante de manhã cedo sempre escapava depois do sol depois do café da manhã, eu separava tudo rebrilho das águas e ia para a beira do rio. Todas as casas com janelas de tampos azuis abertas. Guiava a canoa até um banco de areia no meio da manhã do sol do rio do céu. Eu já tinha metade do mundo.

       Preparado o lanche, fomos nos posicionar empoleirar na escada de pedra nua basalto que dava para o pátio. Tinha ali por ali uma grande árvore que eu não sabia que era um louro-canga-de-porco. E outras árvores inclusive as frutíferas e ornamentais. E pássaros em bando em multidão em algazarra. Borboletas e mais outros insetos que não dei bola e por que zumbiam os muriçocas e trabalhavam tanto as içaúbas e mudavam de embalagem mutantes as taturanas e tal e coisa.

O mundo caminhava o seu dia pela rua vaivém e sem dar a mínima para nosso enleio e nós o dele. A rua tinha nome de político antigo com importância. Tocávamos os assuntos vários sem necessidade de resolvê-los. Ela pipiava já sabia cantar sempre sem parar. Eu me encantava com suas pernas vermelhas e esfoladas, seu pescoço longo bem emplumado plumas novas, as bochechas a boca que se remexiam no mastigar o sanduíche ou iam e vinham do copo, os olhos úmidos, o nariz de desenho na escola de aprendizes. Esse o meu mundo onde eu tinha a cabeça. Estava ali ela tão linda ao alcance das minhas asas... as formas bem modeladas equilibradas fantasiosas aerodinâmicas aterrissáveis... mesmo falando de boca cheia... os pés em sandálias amarelas...

Por que as pontas das asas suadas o rosto vermelho as orelhas quentes os olhos arregalados deslumbrados. O mundo parado, o sol branco, tudo acontecendo e aumentando, tudo voando ou navegando. Muito que eu tinha eu via ali estava ali comigo sentia ali. Era necessário tinha de desabafar sair voando correr pelo parque a serra do Curral contar para alguém o prêmio milionário a invenção rara dos deuses.

Lembrei daquela vez hora leve aérea nos encontramos na entrada do quintal entre o folhedo. Bocas entreabertas. Aninhados ali debaixo na sombra de um tal de ipê-mandioca florido contando as pétalas conforme o vento soprava. O vento acariciando no seu rosto pegando de raspão nos olhos líquidos mexendo com as pontas a franja das penas. E o vento nas copas das árvores, vento quando havia vento, vento com vento, vento com chuva, vento nas figueiras-brancas e sempre assim. Rir e se perder nas lonjuras navegar dos rios Canindé, São Mateus, Sepotuba, ondas embalando docemente, tambiú, piracanjuba, muçambê, canaflecha, querendo saber de tudo, anhuma, tapicuru-de-cara-pelada, mico-preto, índios banauá-iafi caçando com murucu, um beijo no rosto.

A rua branco de sol. Uma vez e outra ela passava as costas da mão direita, não, da esquerda, nos lábios na boca escorrendo sumo. Vento morno com sombras de nuvens. O som a cor o gosto dos cafunés. Eu ficava ali olhando sem saber o que dizer, e o vento trazendo aroma e calor até os meus olhos até os meus nervos até os meus ossos.

Gostosa sensação ao mesmo tempo tão distante intocável fruta cristalina joia azul ou verde. A voz dela o riso e eu me sentindo bem. Principalmente porque era minha vizinha irmã do meu amigo e vizinho me acostumei lavava o carro da família aí na frente da garagem os dias de céu limpo estendia a roupa na grama do jardim pulava de pedra em pedra contando os quadradinhos da sapata passeava de bicicleta acompanhando guiando o salsicha Tuxá.

Recordei assim que pude os meus longos olhos no mato ou no morro ou na praça Oito de Setembro ou na praia do Arambipe, ouvia o rio correndo em ziguezagues o rio Parnaíba, o cabeça-de-cuia, orelhas-de-burro, macucus-do-rio-negro, patacas, cajaranas, cardos-ananás, açucenas-d’água, rumores murmúrios segredos na folhagem, piaparas, dourados, bagres, matrinxões, sussurros líquidos entre as pedras, martins-pescadores-da-mata, paturis, tetéus, patos-corredores.

Uma esperança, me mostrou o celular os passeios em Sobradinho. A asa com asa. O braço com braço. Grudados. E por que parar o mundo? O brilho esfuziante dos seus olhos. O que adianta parar o tempo o mundo os telejornais o futuro? Saltitar displicente de galho em galho pela alta altura da umbrosa acariquara. O verniz de folha nova, o cheiro recente de flor amarela. E o que eu ganho com isso e aquilo e acolá e etc.

       Negociei comigo pelo fundo do meu desejo da minha tonteira, que ela tomará seu banho na sanga em seguida e será que me convidará para contar seus arranhões e beliscões? E esfregar as suas costas, olhar as orelhas? Via a água escorrendo pelo seu corpo plumoso, o líquido espumando as suas costas, as gotas quentes boas puras passeando na superfície das penas peles tenras brancas aterrissáveis. Depois me convidaria para ficar? Até que o dia amanhecesse até que terminasse o verão par de arapongas-do-horto até os nossos outros duzentos mil anos.