sexta-feira, 31 de julho de 2015

FIFTY-FIFTY


      


      

        Daí, que, já quase nem mais me lembro me consolo quatro dias como antigamente nem mais me faço me vejo coisa igual pelo interior do país... Neópolis, Pacatuba, Panelas, Bom Despacho, Pompéu, onde fosse, Vila Velha ou Rio das Ostras, nome de santo ou indígena, Guarapari e Santana do São Francisco, então, paramos na praça da Estação em Abadia dos Dourados ou Águia Branca ou Cruz das Almas diante de um chafariz em contínuo borbulhoso defluxo.

Grupos alegres brincadeiras de bonitas luxuriantes que apresentavam as fendas, as cavidades, as brechas as aberturas tão apreciadas e perseguidas e luxuriosas. Comprimidos de duas cores e caninha de alambique amarela da pinga mineira na gente. A paz em logo em seguida. Um altruísmo desapego abnegação despreocupação desprendimento preocupação com a outra contrária do egoísmo. E mais notícias sensacionais eram bem-vindas chegadas nos ônibus lotados efervescentes das cidades de Propriá, Piúma, Araguari, Pires do Rio, Jaú, Capela. Uma ladeira e no alto a igreja branca barroca. Uma escadaria imitando declive para o interior do terreiro com fogueira de festa junina. Uma esquina com prédio em triângulo invertido vértice dando até para abraçar.

       O dia a semana o mês o ano pois era tudo ao mesmo tempo.

Como não tinha ninguém naquela festa de carnaval, coisa rara, como ninguém se opôs, bandeirinhas de papel, o contingente o imponderável o inescrutável me puseram diante no meio do caminho de uma louca e tonta e desvairada e sedenta. Ela mal me via, cabelos anelados, vibrante, faceira, olhos nos diamantes das estrelas, mal se sustinha e ria o tempo inteiro desbragadamente. Um hálito de cerveja e cigarro fervilhavam trescalavam da sua garganta na boca. E isso já enigmatistava um tanto ou quanto a sua extrema beleza de boas postas de carne e os olhos dissimulados de águas-marinhas. Uma bela hora uma e meia o teto rodopiava um dia dos quatro cantos da festa ela me falou rouca no ouvido mastigando a minha orelha boca gulosa lançando os tais perdigotos: - Eu sou a árvore!

Caminhando à toa, as mãos dadas, um puxando a outra atrelados cabrestados, beijos descontrolados prolongados, afagando os cabelos o rosto os lábios, roendo as unhas, cabelos revoltos, beijei como se beijasse cerveja chope caipirinha com limão verde em casca, camiseta apertada nos mamilos, rosto colado nos selfies com as professoras de Sete Lagoas com os piratas de Campo Formoso com os presidiários de Riachuelo com os monstros de Pescador, na fila comprando fichas, desfilando abraçados a bombordo a boreste, a ala das piabas exultava lenços verdes amarelos tricolores risos gargalhadas triunfais, à deriva por dentro do remoinho, olhar dentro do seu do meu e uma festa um baile que não terminava nunca.

       Então, os dois tomados mamados embebidos mareados fomos até o bar descansar sentar naqueles bancos altos e temerários os cotovelos no balcão uma mistura de destilado com fermentada e chocolate doce em barra fabricado na longitude na latitude de Três Marias. Não nos ouvíamos apesar de conversarmos alto aos berros aos respingos aos gritos e sem parar. Me sentia todo encharcado e amargo e feliz. Gargalhadas estridentes na ala das imbaúbas. Sei como consegui um desejo de ali beijá-la na boca olhos irritados combalidos e a beijei com gosto de espuma. O salão tinha espelhos espalhados pelas paredes e tudo multiplicado aos milhares caleidoscópio multidões confusões fundos com brilhos reflexos. Ela me olhou com cara espantada sei de onde. Lúcida ardilosa no seu espanto. Quase me reconhecendo no meu no dela no nosso anonimato.

       Alguém ouvia as perdizes ouvia os papagaios-campeiros via os pitus via os micos-estrelas bebia as manjeronas-do-campo.

       Seguia seus olhos bem dentro dos seus meus olhos. Eles os dela procuravam escapar pelo chão incompreensíveis para os lados para os outros se ausentar dormir e etc. Pois não seria procurando talvez outros quantos quais olhos? Cigarro entre os dois dedos, o bafo de álcool com arroto de longuinete, voz rouca, equilíbrio periclitante. Olhos inteligentes ágeis lagartixas ágeis por trás dos óculos de grau. Pois não era que tinha mais certezas do que eu?! Nos olhamos nos encontramos no fundo nos sorrimos.

       Um puxava a outra guiava seguia o outro pelo formigueiro, rosto com rosto, beijo prolongado alheio aos encontrões às bolinações, beijos prolongados, línguas nas orelhas, atordoados, chupadas nos pescoços, mãos dadas com dedos entrelaçados. A ala das maritacas encantava pela soltura das penas e a perda risonha do equilíbrio. Os olhos mentem sempre, às vezes brilham outras nem! Tirou o cigarro da boca de um camarada que passava por perto e me encarou e me disse os olhos semicerrados lábios molhados olhos líquidos posse biliardária: - Obrigada por ter vindo ao mundo!

       Horas depois me vi como um pato-de-crista ou um sapo-da-areia e a ela ambos piando ou coaxando na beira do banhado. Uma caravela antiga das colônias portuguesas cheia dos piratas mato-grossenses capixabas potiguares invadiu aportou na balada. Perdi quatro horas por aí. Bebíamos com avidez uma cevada aperfeiçoada em cerveja clara a partir da fábrica desde 1889 de Itabaiana. Fui quatro dias de otorrinolaringologista soldado mecânico beduíno. Sorriu e cantou quando a banda interpretou a canção preferida ela sorriu e cantou.

       Leio os meus os seus nos olhos dela recíprocos olhos não falam olhos grandes extravagantes como se lessem os pensamentos sorriso doce lindíssimos.  

       A chuva desabou aromática fácil demais ostensiva aos estrondos trombuda abrupta assustando as árvores até os cabelos faíscas relâmpagos clarões relampejos e os assobios do vento gargalhadas de joões-de-barro e surucuás-grandes-de-barriga-amarela: - Viu só como é simples e fácil?!, trovoou atroou Deus lá de dentro lá de cima lá de longe. A silhueta esguia, semblante altivo, fala de um recifês irrepreensível, corpo bem distribuído, ardejante, debochada. Um raio lascou uma carobinha bem ali por perto. A chuva a água escorria pelos sulcos caprichosamente dos rejuntes das lajotas da calçada. O que ganhava com aquilo e o que deveria fazer. Praticamente não resistia, e aquilo era bom e ruim, antes e nunca. Sentados pousados como par de curicas-de-bochecha-laranja mão no joelho ombro com ombro um só momento um só pensamento um só olhar um só de dois reclinados para frente ela suspirou asa de supi ou nadadeira de grumatã: - Não há de quê!

       Falei com o vento com as paredes com ela com os automóveis parados na calçada com os pariqui com as árvores. Concordamos com os sicranos beltranos sergipanas. Falamos ao eu disse vento às arvores. Caminhávamos como todo mundo. Os beijos no rosto beijos estalados demorados descontrolados quentes. Árvores perfiladas galhadas galhos entrando pelos galhos, jará, arapari, gabirobeira, umbuzeiro, erva-de-rato-verdadeira, pacapeua, manacarana ao redor do gramado da pista do estrado. Andei e falei navegamos andou e falou nos deslocávamos apertados por dentro do barulho ruídos misturados com beltranas e fulanos e goianas. Pensou o dedo na ponta dos, psiu!... lábios pedindo silêncio pensativa pesou uma coisa e duas mas disse o que falou uma terceira ou outra: - Já você que nunca foi na Pedra da Onça!   

       Nos prendemos na dança do catumbi no forrobodó no fandango pelo meio do labirinto de pares e casais milharal um aquário braços pernas empurrões nos refugiávamos na bebida tropeções contorções e resumi: - É muito divertido! Achava graça achei graça engolimos duas cápsulas e ela não me disse nada. Procurei dançar e fiz as minhas manhas, as firulas, umas fintas, cabelo trançado original em trança única, calor dos corpos atritados arreitados, braços dados, mãos juntas entrecruzadas, uns passos de artista, uns requebros de mestre que me tontearam no chão. E a perdi de vista. Ou ela me fugiu.

       O que podíamos fazer por mim pelos dois juntos por nós.

       Alguém me chamou me chamava eu olhava procurei não reconhecia ninguém respondia me encontrou me conhecia ouvia me chamar. Onde estava todo mundo que eu não identificava ligava o nome à pessoa? Pouco antes, muito muito durante, pouco depois. Para que lado ficava mesmo a Aramina? Pedi quatro horas para pensar. Abraços com beijos gracinhas cócegas. Casquinavam à vontade na ala das onças-pardas. Uma camiseta de time de futebol longa leve gola branca larga vermelha estrelada confortável. A evolução a fantasia a originalidade dos cataguéo dos macurape dos tuiúca dos tingui-botó. Depois renasci como árvore amendoeirana.

Eu reapareci já segurando o seu ombro o seu cotovelo. Como um robô desengonçado um espantalho desencontrado um etê com cara de comigo-ninguém-pode. E enquanto a acariciava enquanto a alisava nos ombros nas costas nos longos cabelos lanosos a apalpava nos bolsos da bermuda ela conversava explicava com sicranas e beltranas e paraenses: - Nem me conte o que está escrito! De mim a vigiava nos seus passos e a prendia pela cintura muito estreita e graciosa. Escamoteando bolinhas de cristal mínimas parecidíssimas com pedrinhas de açúcar para aparar no céu da boca. Me pediu uma bebida e começou a rir muito alto de tudo que passava a sua frente a nossa frente amuleto figa em osso pendurado no pescoço tão engraçado e disse convicta: - Sem pinga ni mim, nada feito!

       Paramos um minuto sonâmbulos na beira da rua de vai e vém. A rua bem cheia de paralelepípedos vinha vindo caminhando paletando a pé. A gargalhada da chuva sobre a cidade as luzes da noite. Uma glória de rua com árvores seguindo árvores até o arvoredo da praça Sete de Setembro com estátua de Tiradentes exalando dignidade. Depois passou um automóvel. Um prédio de oito nove andares com os dentes para fora jardins suspensos pérgulas vasos de alfazemas-bravas e avencas-da-terra e gerânios-brasileiros roupas com bandeiras ao vento na chuva estendidas tatalantes. As árvores na sombra entre os postes de luz. Beijos puros crus selvagens explícitos. Automóveis fazendo curso de pilotagem no estacionamento. O meio-fio e nos sentamos a água corrente limpando as valetas. Exuberante animada ria e falava sem parar maliciosa maneirosa desbocada brincando com os conhecidos pedindo informações dos ausentes e desaparecidos e desencontrados. A rua seguia a meta o rumo alargando e alagando virava sempre a esquina na avenida principal. O rio Pará corria no sentido de Cansanção e Penedo e Várzea Nova e Pindoba e Paraopeba.

       Via que aquilo embora contudo tampouco não nem me acontecia.

       Uns desenhos arabescos no papel de parede me ajoelhei escorreguei na parede bebemos do mesmo copo olhei emborquei cochilei conversávamos com sicranos e beltranas e maxacali cantei sozinho me mijei fumei outro cigarro. E me perguntei: - Para que lado vem e vai a Crucilândia? Esperamos o trem atônito passar rodeando os morros serra da Mantiqueira como cinturão como corrente como centopeia comboio zunindo para Santaluz, Itaguara, Barra dos Coqueiros, Araci, a paisagem em alta velocidade chispante, Jeremoabo, Muribeca,  Governador Valadares, Bonfim. Há quanto tempo abraçados cansados dormindo prostrados rabo de cavalo um segurando o sono da outra. Tudo tão velho tão antigo tão ronco tão anestesiado.

       Foi naquele degrau que acabamos dividindo as quatro operações uma merenda de bolo de abacaxi com camadas e camadas de açaí.

       Foguetes comemorativos, desenhos pirotécnicos, tum!... de tremer a terra, cascatas, bolhas, pagodes chineses, vivas!, cogumelos, guarda-chuvas inflados, laranjas, bergamotas descascadas, frigir de estrelas pretensiosas verdes amarelas azuis e cadentes. Fomos animados pela festa adentro como destemidos de sempre trejeitos caretas roupas novas cantando como casal os corrupiões. Parei na frente do espelho espelhos infinitos nós dois que dividia um dos ambientes da festança e se eu me olhasse estaria igual um boi de canga na roça puxando melancia. Os tais autorretratos com as policiais de Cacimbas com as cangaceiras de Pirambu com as brasileenses de Piaçabuçu com as religiosas de Patrocínio. Sensação de pertencer a outra dimensão. Os olhos embaciados, endemoninhados, parados, descoloridos, enxurrados. A ala das marrecas-cricris piava e ria para a chuva para a noite para os feijões-lagartixas debruçados no corrimão da escada no parapeito com balaustrada da sacada. Segurei sua mão entre meus dedos os seus dedos corpo de palmeira carnaúba mão cheia arredondado nos pontos certos. Os pés atirados para o ar as pernas imitando jogadas de futebol. Vomitei sem ser molestado sozinho abandonado multado ao pé de um cabide vestido em pé. Depois o desfile desfilou desfilava com um cordão de papagaios-do-mangue intercalados ora abraçados enamorados com as araponguinhas-de-asa-branca. Continuei a procurá-la pela sala das luzes a sala das professoras a sala das goiabeiras-brancas a ala das jataís-amarelas a ala das ubás a ala dos xirianá a sala da piscina.

       Andei e olhei olhava ao meu redor a guria que passou em câmara lenta greta rachadura reentrância que passou enquanto eu reparava vigiava todo mundo e ninguém me via latinha na mão eu achei que a vira embarcar não perguntava nada bolsa a tiracolo ela não tinha pressa num carro de automóvel de praça contornando a praça da Liberdade ninguém acreditava por quê? em mim que a beleza jamais a abandonasse o som alto na cidade embrulhada em prédios e casas o pensamento devaneando perto do nada olhava para todos os lados um ventinho embalava os oitizeiros me acudiu dizer uma coisa que gostava muito, sim, isso mesmo a festa toda.

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