Grupos alegres brincadeiras de bonitas luxuriantes que
apresentavam as fendas, as cavidades, as brechas as aberturas tão apreciadas e
perseguidas e luxuriosas. Comprimidos de duas cores e caninha de alambique amarela
da pinga mineira na gente. A paz em logo em seguida. Um altruísmo desapego abnegação
despreocupação desprendimento preocupação com a outra contrária do egoísmo. E
mais notícias sensacionais eram bem-vindas chegadas nos ônibus lotados efervescentes
das cidades de Propriá, Piúma, Araguari, Pires do Rio, Jaú, Capela. Uma ladeira
e no alto a igreja branca barroca. Uma escadaria imitando declive para o interior
do terreiro com fogueira de festa junina. Uma esquina com prédio em triângulo invertido
vértice dando até para abraçar.
O dia a semana o mês o ano pois era tudo
ao mesmo tempo.
Como não tinha ninguém naquela festa de carnaval,
coisa rara, como ninguém se opôs, bandeirinhas de papel, o contingente o imponderável
o inescrutável me puseram diante no meio do caminho de uma louca e tonta e desvairada
e sedenta. Ela mal me via, cabelos anelados, vibrante, faceira, olhos nos
diamantes das estrelas, mal se sustinha e ria o tempo inteiro desbragadamente.
Um hálito de cerveja e cigarro fervilhavam trescalavam da sua garganta na boca.
E isso já enigmatistava um tanto ou quanto a sua extrema beleza de boas postas
de carne e os olhos dissimulados de águas-marinhas. Uma bela hora uma e meia o
teto rodopiava um dia dos quatro cantos da festa ela me falou rouca no ouvido
mastigando a minha orelha boca gulosa lançando os tais perdigotos: - Eu sou a
árvore!
Caminhando à toa, as mãos dadas, um puxando a outra
atrelados cabrestados, beijos descontrolados prolongados, afagando os cabelos o
rosto os lábios, roendo as unhas, cabelos revoltos, beijei como se beijasse
cerveja chope caipirinha com limão verde em casca, camiseta apertada nos
mamilos, rosto colado nos selfies com as professoras de Sete Lagoas com os
piratas de Campo Formoso com os presidiários de Riachuelo com os monstros de
Pescador, na fila comprando fichas, desfilando abraçados a bombordo a boreste, a
ala das piabas exultava lenços verdes amarelos tricolores risos gargalhadas
triunfais, à deriva por dentro do remoinho, olhar dentro do seu do meu e uma
festa um baile que não terminava nunca.
Então, os dois tomados mamados embebidos mareados
fomos até o bar descansar sentar naqueles bancos altos e temerários os
cotovelos no balcão uma mistura de destilado com fermentada e chocolate doce em
barra fabricado na longitude na latitude de Três Marias. Não nos ouvíamos
apesar de conversarmos alto aos berros aos respingos aos gritos e sem parar. Me
sentia todo encharcado e amargo e feliz. Gargalhadas estridentes na ala das
imbaúbas. Sei como consegui um desejo de ali beijá-la na boca olhos irritados
combalidos e a beijei com gosto de espuma. O salão tinha espelhos espalhados
pelas paredes e tudo multiplicado aos milhares caleidoscópio multidões
confusões fundos com brilhos reflexos. Ela me olhou com cara espantada sei de
onde. Lúcida ardilosa no seu espanto. Quase me reconhecendo no meu no dela no nosso
anonimato.
Alguém ouvia as perdizes ouvia os
papagaios-campeiros via os pitus via os micos-estrelas bebia as
manjeronas-do-campo.
Seguia seus olhos bem dentro dos seus
meus olhos. Eles os dela procuravam escapar pelo chão incompreensíveis para os lados
para os outros se ausentar dormir e etc. Pois não seria procurando talvez
outros quantos quais olhos? Cigarro entre os dois dedos, o bafo de álcool com
arroto de longuinete, voz rouca, equilíbrio periclitante. Olhos inteligentes ágeis
lagartixas ágeis por trás dos óculos de grau. Pois não era que tinha mais
certezas do que eu?! Nos olhamos nos encontramos no fundo nos sorrimos.
Um puxava a outra guiava seguia o outro
pelo formigueiro, rosto com rosto, beijo prolongado alheio aos encontrões às
bolinações, beijos prolongados, línguas nas orelhas, atordoados, chupadas nos
pescoços, mãos dadas com dedos entrelaçados. A ala das maritacas encantava pela
soltura das penas e a perda risonha do equilíbrio. Os olhos mentem sempre, às
vezes brilham outras nem! Tirou o cigarro da boca de um camarada que passava
por perto e me encarou e me disse os olhos semicerrados lábios molhados olhos
líquidos posse biliardária: - Obrigada por ter vindo ao mundo!
Horas depois me vi como um pato-de-crista
ou um sapo-da-areia e a ela ambos piando ou coaxando na beira do banhado. Uma
caravela antiga das colônias portuguesas cheia dos piratas mato-grossenses
capixabas potiguares invadiu aportou na balada. Perdi quatro horas por aí. Bebíamos
com avidez uma cevada aperfeiçoada em cerveja clara a partir da fábrica desde 1889
de Itabaiana. Fui quatro dias de otorrinolaringologista soldado mecânico beduíno.
Sorriu e cantou quando a banda interpretou a canção preferida ela sorriu e
cantou.
Leio os meus os seus nos olhos dela recíprocos
olhos não falam olhos grandes extravagantes como se lessem os pensamentos
sorriso doce lindíssimos.
A chuva desabou aromática fácil demais
ostensiva aos estrondos trombuda abrupta assustando as árvores até os cabelos faíscas
relâmpagos clarões relampejos e os assobios do vento gargalhadas de
joões-de-barro e surucuás-grandes-de-barriga-amarela: - Viu só como é simples e
fácil?!, trovoou atroou Deus lá de dentro lá de cima lá de longe. A silhueta
esguia, semblante altivo, fala de um recifês irrepreensível, corpo bem distribuído,
ardejante, debochada. Um raio lascou uma carobinha bem ali por perto. A chuva a
água escorria pelos sulcos caprichosamente dos rejuntes das lajotas da calçada.
O que ganhava com aquilo e o que deveria fazer. Praticamente não resistia, e aquilo
era bom e ruim, antes e nunca. Sentados pousados como par de
curicas-de-bochecha-laranja mão no joelho ombro com ombro um só momento um só
pensamento um só olhar um só de dois reclinados para frente ela suspirou asa de
supi ou nadadeira de grumatã: - Não há de quê!
Falei com o vento com as paredes com ela com
os automóveis parados na calçada com os pariqui com as árvores. Concordamos com
os sicranos beltranos sergipanas. Falamos ao eu disse vento às arvores. Caminhávamos
como todo mundo. Os beijos no rosto beijos estalados demorados descontrolados quentes.
Árvores perfiladas galhadas galhos entrando pelos galhos, jará, arapari,
gabirobeira, umbuzeiro, erva-de-rato-verdadeira, pacapeua, manacarana ao redor
do gramado da pista do estrado. Andei e falei navegamos andou e falou nos
deslocávamos apertados por dentro do barulho ruídos misturados com beltranas e fulanos
e goianas. Pensou o dedo na ponta dos, psiu!... lábios pedindo silêncio
pensativa pesou uma coisa e duas mas disse o que falou uma terceira ou outra: -
Já você que nunca foi na Pedra da Onça!
Nos prendemos na dança do catumbi no
forrobodó no fandango pelo meio do labirinto de pares e casais milharal um
aquário braços pernas empurrões nos refugiávamos na bebida tropeções contorções
e resumi: - É muito divertido! Achava graça achei graça engolimos duas cápsulas
e ela não me disse nada. Procurei dançar e fiz as minhas manhas, as firulas,
umas fintas, cabelo trançado original em trança única, calor dos corpos atritados
arreitados, braços dados, mãos juntas entrecruzadas, uns passos de artista, uns
requebros de mestre que me tontearam no chão. E a perdi de vista. Ou ela me
fugiu.
O que podíamos fazer por mim pelos dois juntos
por nós.
Alguém me chamou me chamava eu olhava
procurei não reconhecia ninguém respondia me encontrou me conhecia ouvia me
chamar. Onde estava todo mundo que eu não identificava ligava o nome à pessoa?
Pouco antes, muito muito durante, pouco depois. Para que lado ficava mesmo a
Aramina? Pedi quatro horas para pensar. Abraços com beijos gracinhas cócegas. Casquinavam
à vontade na ala das onças-pardas. Uma camiseta de time de futebol longa leve gola
branca larga vermelha estrelada confortável. A evolução a fantasia a
originalidade dos cataguéo dos macurape dos tuiúca dos tingui-botó. Depois renasci
como árvore amendoeirana.
Eu reapareci já segurando o seu ombro o seu cotovelo. Como
um robô desengonçado um espantalho desencontrado um etê com cara de
comigo-ninguém-pode. E enquanto a acariciava enquanto a alisava nos ombros nas
costas nos longos cabelos lanosos a apalpava nos bolsos da bermuda ela
conversava explicava com sicranas e beltranas e paraenses: - Nem me conte o que
está escrito! De mim a vigiava nos seus passos e a prendia pela cintura muito
estreita e graciosa. Escamoteando bolinhas de cristal mínimas parecidíssimas
com pedrinhas de açúcar para aparar no céu da boca. Me pediu uma bebida e
começou a rir muito alto de tudo que passava a sua frente a nossa frente amuleto
figa em osso pendurado no pescoço tão engraçado e disse convicta: - Sem pinga ni
mim, nada feito!
Paramos um minuto sonâmbulos na beira da
rua de vai e vém. A rua bem cheia de paralelepípedos vinha vindo caminhando
paletando a pé. A gargalhada da chuva sobre a cidade as luzes da noite. Uma
glória de rua com árvores seguindo árvores até o arvoredo da praça Sete de
Setembro com estátua de Tiradentes exalando dignidade. Depois passou um
automóvel. Um prédio de oito nove andares com os dentes para fora jardins
suspensos pérgulas vasos de alfazemas-bravas e avencas-da-terra e
gerânios-brasileiros roupas com bandeiras ao vento na chuva estendidas
tatalantes. As árvores na sombra entre os postes de luz. Beijos puros crus
selvagens explícitos. Automóveis fazendo curso de pilotagem no estacionamento. O
meio-fio e nos sentamos a água corrente limpando as valetas. Exuberante animada
ria e falava sem parar maliciosa maneirosa desbocada brincando com os
conhecidos pedindo informações dos ausentes e desaparecidos e desencontrados. A
rua seguia a meta o rumo alargando e alagando virava sempre a esquina na
avenida principal. O rio Pará corria no sentido de Cansanção e Penedo e Várzea
Nova e Pindoba e Paraopeba.
Via que aquilo embora contudo tampouco não
nem me acontecia.
Uns desenhos arabescos no papel de parede
me ajoelhei escorreguei na parede bebemos do mesmo copo olhei emborquei cochilei
conversávamos com sicranos e beltranas e maxacali cantei sozinho me mijei fumei
outro cigarro. E me perguntei: - Para que lado vem e vai a Crucilândia? Esperamos
o trem atônito passar rodeando os morros serra da Mantiqueira como cinturão
como corrente como centopeia comboio zunindo para Santaluz, Itaguara, Barra dos
Coqueiros, Araci, a paisagem em alta velocidade chispante, Jeremoabo,
Muribeca, Governador Valadares, Bonfim.
Há quanto tempo abraçados cansados dormindo prostrados rabo de cavalo um
segurando o sono da outra. Tudo tão velho tão antigo tão ronco tão anestesiado.
Foi naquele degrau que acabamos dividindo
as quatro operações uma merenda de bolo de abacaxi com camadas e camadas de
açaí.
Foguetes comemorativos, desenhos
pirotécnicos, tum!... de tremer a terra, cascatas, bolhas, pagodes chineses, vivas!,
cogumelos, guarda-chuvas inflados, laranjas, bergamotas descascadas, frigir de
estrelas pretensiosas verdes amarelas azuis e cadentes. Fomos animados pela
festa adentro como destemidos de sempre trejeitos caretas roupas novas cantando
como casal os corrupiões. Parei na frente do espelho espelhos infinitos nós
dois que dividia um dos ambientes da festança e se eu me olhasse estaria igual um
boi de canga na roça puxando melancia. Os tais autorretratos com as policiais
de Cacimbas com as cangaceiras de Pirambu com as brasileenses de Piaçabuçu com
as religiosas de Patrocínio. Sensação de pertencer a outra dimensão. Os olhos
embaciados, endemoninhados, parados, descoloridos, enxurrados. A ala das
marrecas-cricris piava e ria para a chuva para a noite para os
feijões-lagartixas debruçados no corrimão da escada no parapeito com
balaustrada da sacada. Segurei sua mão entre meus dedos os seus dedos corpo de
palmeira carnaúba mão cheia arredondado nos pontos certos. Os pés atirados para
o ar as pernas imitando jogadas de futebol. Vomitei sem ser molestado sozinho
abandonado multado ao pé de um cabide vestido em pé. Depois o desfile desfilou
desfilava com um cordão de papagaios-do-mangue intercalados ora abraçados
enamorados com as araponguinhas-de-asa-branca. Continuei a procurá-la pela sala
das luzes a sala das professoras a sala das goiabeiras-brancas a ala das jataís-amarelas
a ala das ubás a ala dos xirianá a sala da piscina.
Andei e olhei olhava ao meu redor a guria
que passou em câmara lenta greta rachadura reentrância que passou enquanto eu
reparava vigiava todo mundo e ninguém me via latinha na mão eu achei que a vira
embarcar não perguntava nada bolsa a tiracolo ela não tinha pressa num carro de
automóvel de praça contornando a praça da Liberdade ninguém acreditava por quê?
em mim que a beleza jamais a abandonasse o som alto na cidade embrulhada em
prédios e casas o pensamento devaneando perto do nada olhava para todos os
lados um ventinho embalava os oitizeiros me acudiu dizer uma coisa que gostava
muito, sim, isso mesmo a festa toda.
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