sexta-feira, 17 de março de 2017

Paisagem Longe Nem Somente Essa Vai Longe


        

Quando nasceu o sol o sol era todo de fogo pelas mãos pelos pés pelos olhos e corpo presente em geral já fazendo muito barulho e algazarra amedrontando céus e terras o mundo inteiro. Uma árvore sempre será esse ser mu-muito legal.  Vuuu!... de vento também se ouviu no alto nem era somente cata-vento também avião. E o sol da liberdade em raios fúlgidos. Cupendipes índios alados que os apinajé diziam existir no rio Tocantins.
         A terceira vez que vi Japira me caracterizou como grosso, papudo, apesar, completou, de gostar de mim como amigo como confidente como conterrâneo. E demonstrou isso me chamando insistentemente de Apoena. Um pouco se aninhou no meu ombro como ave macia, terna, dengosa, perfumada, roupa branca. Me pediu gostou do meu cabelo caramelado artificialmente. Eu acarinhei agradei lhe massageando as costas. Haviam me dito que alisar as costas das meninas lhes é fatal nunca se esquecem e acabam por se apaixonar perdidamente.
         Muito tempo antigamente uma era distante distanciada as mulheres da tribo assurini-do-xingu se viram sozinhas sem homens. Aí, elas foram em peregrinação pela floresta serra dos Brandões em o Estado do Paraná ave símbolo a gralha-azul. Ao cruzar o rio Uaupés uns peixes as atacaram e rasgaram seus ventres. Dessa revolução nasceram muitos curumins e cunhantains. Dentre as meninas uma em especial se destacou como a mais bela a Araruama. E cada vez mais bela à medida que crescia. Iluminada ao sol do novo mundo. Daí, ela Araruama tomou o suco da fruta da cucura proibida e engravidou. Foi para uma montanha muito além das ruínas da fortaleza do Príncipe da Beira e teve o raio amãtiti.
A outra vez que vi Japira já era da outra turma. Mas nem havia perdido o costume de me chamar com aquele apelido. E tanto fez que comecei a pensar ela por inteira por partes por atacado por fim de semana por sessão de cinema por baile em Santa Isabel do Rio Negro. E acreditei que me vi pensando em mim e muito por mim com egoísmo. E quando foi minha surpresa que ela veio na véspera do dia dos namorados espontaneamente de braços abertos como uma ave no levantar voo ou pousar voo correndo me abraçar, bom prol lhe faça.
         Quando Verbena completou 18 anos na aldeia dos nambiquara-do-campo resolveu fugir de casa para conhecer os namorados e virar mãe ceci. Um dia encontrou o Cacuri um guerreiro guarini dos puruborá no mato e se apaixonaram. Foram tomar banho no rio Tefé. Ao sair da água ig viram um casal de pássaros sanhaços-amarelos. Seguiram os plumosos pelo mato pulando de galho em galho de planta em planta, açucena-do-mato, camalotilho, cambará-de-lixa, eguará, puruí... Aí, mais tarde ela Verbena conseguiu engravidar e mergulharam outra vez no lago e voltaram a ser gente. E tiveram a primeira filha que foi a iara deusa das águas. O casal teve outros passeios e outros filhos. A imagem do Cruzeiro do Sul resplandecia. Um dos filhos Igarapé caminho da canoa resolveu um dia ir à caça cruzou banhados igupás pajonais vales e caçou uns pássaros, suiriri, jacamim-una, jauá, irerê, e essas aves eram os avós que eles nem conheciam.
         A oitava vez que vi Japira encontrei ela no shopping Iaualapiti e faziam compras e mais compras com a irmã mais velha a Tariana. Quando foi mesmo fazia uma tarde amena ela Japira já me olhava a um tempinho e depois que nos vimos direitinho me tirou uns deboches com o rostinho a carinha torta entortando de um lado e outro carinha de cadelinha estimada. E me disse que esperava a irmã Tariana terminar um negócio de compra de carro novo ou seminovo parcelas entrada seja o que for. Ela ainda me disse abra as aspas antigamente eu respeitava muito o tom de voz as ideias as ordens os conceitos as opiniões de minha irmã mais velha Tariana mas hoje... quer saber?!... nem tô nem aí e feche as aspas.
         A mãe ceci Verbena dessas crianças cansada de ver tanta matança de bichos de animais fugiu com a filharada para o céu subindo pela árvore uacu muitos dias e noites onde se congelaram em estrelas organizadas de constelação. Andaram um pouco passeando pelo universo e diversos professores criaram a lenda do meteoróide que anos depois viraria o meteorito de siderito do Bendegó hoje em dia pousado no museu nacional da Quinta da Boa Vista. Mas também dizem que foram para o rio Ribeira de Iguape e viraram em ensopados de cardume.
         Mais tarde mesmo uma dessas estrelas a Yami noite cunhã-teco-ima filha de Verbena resolveu descer à terra ibi. Nem se sabe bem o que veio buscar e encontrar. Chegando na terra ela decidiu separar as gentes dos bichos e as árvores dos insetos e assim por diante. Para cada animal ou planta ou inseto foi ensinando a profissão o ofício a arte. E numa nuvem perto de uma cidade Pomerode perto de umas montanhas da serra do Tombador rente a um lago na sombra do manacá-da-serra ela encontrou o primo Parimá muito legal e que fazia tempo que nem se viam.
         Ao namorarem dizem o primo Parimá acabou contraindo um mal-estar e morreu ali mesmo. Parimá sicrano foi encantado em pedra na noite longa interminável e à espera do sol ou seja como uma cascata à espera da enchente. A estrela Yami noite icamiaba acabou dando à luz vários peixes e plantas e pássaros. Saracura se escondeu, lontra mergulhou, socó caçou peixe pira desavisado, jacaré se esquentou na areia da praia branca, gavião-de-penacho correu sombra no chão, etc. Capivara pastou o verde tenro na beira do lago, mauaris foram no rumo do sol poente, jacaré-coroa respirou no espraiado. O mugido do vento, o murmúrio do capim-canutão, o coaxar da manduvirana, o roncar da garça-branca, os acesos olhos de jacaré estrelando a noite na barranca do rio Paraguai, o gorjear idêntico do cravo-do-mato, o conversar das iraxins.
         A segunda vez que vi Japira me tirou selfie me riu com vontade de quem estava aí para me gozar me chamando de Apoena Apoena. O apelido nem me era ofensivo, mas achei também que brincava comigo e se ria à socapa. A turminha à qual pertencia com méritos era pesada, por isso enquanto fiquei na minha, com os pés atrás e os braços cruzados e as mãos nos bolsos e olhando fingidamente lá fora longe como um cachorro que olha de soslaio. Deixei que falasse e se risse como lhe ia e lhe vinha pela veneta, parabém.       
         No meio da paisagem que o sol levantou a manhã coema teve água da chuva em rio dos Bois árvores tenras pintadas nas cores, fruta-de-árvore, jatobá-vermelho, sapirangui, maúba... e animais terrestres, quati, graxaim, ema, lobo-guará... e alados, cara-suja, iratauá, biguá, martim-pescador-da-mata... e ensopados, acará-branco, lambari, dourado... Mas isso e aquilo e aquele outro pouco ou nada importaram, já que a exceção sempre confirmava a regra geral e intocável. Era o sol dono de todas as coisas e veio vindo falando e os animais chegaram com ele dono que era da mata do campo e dos rios e dos igapós. Mostrando a cada animal e planta o seu lugar no mundo. Paz no futuro e glória no passado. Onde tudo que se planta cresce. Botar os pingos nos ii e dar nomes aos bois.
         Pois na reserva distante e contestada dos caripuna-do-amapá brotaram misteriosamente uns filhos do coaraci e umas filhas da jaci. Os índios chamaram isso de o Evento do Curuça. Uma coleção de astros e estrelas de primeira grandeza perfeita sublime. Os mistérios os sortilégios os tabus. São são são e sadio ser santo. E as cunhantãs se transformaram em cunhãs muito altas a um passo de virar árvores. Mas isso foi sorte para poucas. Elas cheias de variantes detalhes. Os cabelos castanho-escuros foram dois elementos competentes. Assim, seus bebês foram presenteados com aquilo que teriam de caçar pescar comer beber dormir e se divertir.
         Um velho cuera ex-soldado de fronteira nome Carajuru deitado eternamente em berço esplêndido morador na região do rio Oiapoque disse ao pesquisador este vindo de Paracambi que conhecera um índio de 70 anos que falava de um lugar cheio de ouro e prata e pedras preciosas a perder de vista por dentro e por fora dos rios caudalosos, rio Paraná, rio Trombetas, rio Acangapiranga, rio Amanguijá, etc. O tal e qual 70 anos índio dos fulniô falava abanheenga com os interpretes. 
         A terceira vez que vi Japira ela estava jantando na churrascaria Touaou rua Conselheiro Saraiva rente à praça General Osório bairro Exoaladi em Westfália e eu com amigos ali na mesa ao lado nem pude evitar de compará-la com uma ave sonsa. Como que caiu meu facão de mateiro jogado no chão. Me olhou cruzamos finalmente os olhares me mirou me cumprimentou mastigando em silêncio o meu apelido que somente sabíamos. Isso tudo me derrotou por uma hora. Comia um bocado e olhava o namorado e ria com discrição o cabelo como nunca vira lotada lotada de projetos para amanhã. E largava o talher com calma e método e segurança e dignidade. E usava o guardanapo de linho. E tomava o gole de chope como passarinha. E voltava a falar uma frase curta com começo meio e fim. E prestava atenção e ria com discrição milimétrica. Os movimentos pequenos quase lentos sincronizados com a cabeça pescoço mãos como uma oriental. Depois ela foram para o matadouro, eu achei.
         Pois que se traduzia se disse esse índio fulniô de 70 anos o pai dele ouvira do pai dele do pai dele um relato completo e o nome das quatro índias guató que se perderam na floresta e depois foram resgatadas que acharam por acaso pelos muitos rios acima os lugares dos tesouros inestimáveis incontáveis. Tudo estaria lá e estaria ao alcance das mãos. Era para ter cuidado pois em dezembro época das chuvas no norte a serra do Congumé passava um período de muitas chuvas que tupã mandava. O pesquisador também ouviu dos contos e recontos que uma das índias a Auíba quis ficar por lá e até casou com um índio íra-tapuia lendário da região todo pintado de ouro e enfeitado de batoques pedras preciosas dos pés à cabeça nos beiços no nariz nas orelhas.            

         A primeira vez que vi Japira nem me lembro muito bem. Era mais uma na manada. Acho que sentava lá atrás na sala de aula e estava bonitinha cabelo molhado aceitável como muitas por aí. Ao som do mar e à luz do céu profundo. Uma moreninha displicente, faceira, filha única e desimpedida. Mas eu tinha outras coisas por fazer e corrigir, e fazia malfeito, que nem me dava tempo nem me tirava um tempo de olhá-la com jeito. Nem podia cuidar da sua cabecinha até porque estava com dedos diante de todos os nossos conhecidos presentes, prolfaça.

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