Princípios de quando, de agosto, de
setembro, de julho, nada importante, nada a declarar, todos os meses e estações
iguais, princípios de dezembro, verão cheio a pleno vapor, chão maninho,
estéril. Toda a região torrada pela seca. Nuvens vermelhas de poeira no amplo espaço
desconsiderado desorientado.
Beatriz apareceu com tudo que uma
mulher podia conferir testemunhar. Quisera mesmo ser atriz em Brasília,
Brasilândia, Brasileia... Até aí, Beatriz se parecia com um trem apitando nas curvas
da serra de Jacarará. Namorara cinco meses um tocantinense aviador comercial
rota Cabo de Santo Agostinho-Ilha de Itamaracá-Vitória de Santo Antão. Fora
vendedora de calcinhas de porta em porta nas ruas e bairros de Amparo, Salto,
Indaiatuba, Piripiri... Trabalhara na produção de uma fábrica de cervejas
artesanais em Itajubá. Ela ainda fora uma bonita e sólida casa verde com portas
e janelas azuis dando para a rua Trajano de Morais em Tucuruí. Beatriz fora uma
época nada que reclamar. Beatriz tinha ainda os dez anéis, um em cada dedo das
mãos. E perfume discreto pessoal exclusivo da essência das flores da cunuri. Beatriz
dos longos cabelos pretos arrumados em uma trança com fita verde. Fora
prestadora de serviços autônoma em a praia do Bessa, Tracunhaém. Veio vindo
desde lá onde morara uma vez no Embu das Artes. E aparentemente nem carregava
problema pecado algum no corpo na alma na mente e no currículo.
Assim e então, meses atrás, entrou Beatriz na aldeia
Santa Luzia já pelo portão do nascente do embarque. E veio de longe pacas. Um vento
por ali que transportava poeira no nome, vento avermelhado, nuvens de pó
vermelho, silêncio, quietude, poeira que subia do chão seco e estorricado. Até
onde a vista alcançava. E do começo ao fim do mundo. Até por toda parte e
arredores.
Beatriz sim que estava fortona, olhos
pretos oblíquos, olhos azuis oblíquos, olhos esverdeados oblíquos. Olhou lá
para uma ex-lavoura, queimada pelo calor, semeada das pedras de canga, tucurus mortos
e paus ficados podres mumificados. O alto com o chão uma e única coisa
avermelhada. Viu um espantalho abraçado na poeira do ermo. Beatriz pensou: que
chapéu maneiro tem aquele otário. Foi ver tudo de perto. Um calor de nem
aguentar. E tome bafão para derreter os miolos a consciência o discernimento.
Ela foi e chegou a dois palmos do espantalho.
O farrapo na dele era a dele parado ali quieto e crucificado nas estacas de
taquara. O medonho nem pensava. Antes que o tal se desse conta ela se atirou
para cima e o derrubou, e o prendeu com as coxas fortes, e o penetrou, e o
galopou, galopou... E comeu o palhaço à força, levantando poeira, jogando cisco
e pedras para todos os lados. Pobre robô? Que nada!
Depois, nada além de meia hora depois, até que o espantalho
suspirou, arrumou a gravata rasgada, ajeitou o chapéu de palha seca de buriti. O
espantalho que em tapadas noites de lua cheia virava mutante, virava lobisomem,
e já virara lobisomem diversas vezes. Que preferia sair por aí na calada das
noites avermelhadas a sondar a rondar a azucrinar as casinhas das aldeãs
solteiras e ou viúvas desamparadas carentes.
O que aconteceu, então? O que nem
aconteceu?
Portanto, vila Santa Luzia era um nome
muito curto. O que se podia fazer? Pois nem chovia há milênios. Tudo tudo abandonado
largado contaminado. Tudo embaçado de nuvens de pó vermelho. As cores do dia a
dia nesse lugar fora do tempo? Casinhas tímidas de pau-a-pique e cobertas de
sapê.
Em pouco tempo, meia hora depois do
pega-pra-capar lá na ex-rocinha, Beatriz já estava de bucho cheio; e este já se
mexendo e provocando enjoos arrepios e chutando. Era o filho com o espantalho.
Mais um pouco, trinta minutos, e estalou um piá cabeçudo, neurastênico, manhoso,
prematuro - três e treze um palmo dois quilos menos vinte três gramas - e com falha
no piar. Piava desse jeito, piou:
- Biéeee!...
Passou toda aquela noite piando sem
parar. No outro dia pela manhã o curumim já carregava cinco anos de história.
Beatriz nem pensou muito com aquele calor e lhe deu pronto o nome de Rei. Rei
de quê? Rei dos cumanaxó homenagem aos cumanaxó.
Então, Rei dos pauxi era um guri de
cinco anos ou mais que se jogava no chão, rolava no pó vermelho, comia terra com
folhas secas e lambia pedrinhas de basalto. Escolhia fazer isso, de se jogar na
poeira, por dois motivos: porque nem se importava de ralar os cotovelos e os
joelhos; porque tinha alma de artista, apesar de tímido e nervoso; porque era
filho único e tinha necessidades urgentes, carências misteriosas e sempre
insatisfeitas de se exibir e se mostrar e se apresentar e se destacar.
As ex-árvores da pracinha, as ex-plantas
do capoeirão, tudo tudo, nada nada se mexia, tudo cinzento, tudo petrificado
estaqueado apontando o alto. O saci equilibrava o redemoinho num pé só. De
súbito, sempre assim, uma enorme e pesada nuvem vermelha entupia a vista da
aldeola.
Beatriz, então, naquela manhã inflamada
incendiada esbraseada, pensou um pouco mais e decidiu ir embora da aldeia Santa
Luzia. Queria gavionar com o filho por outras bandas e províncias do país? Ela
grampeou o Rei dos marimã pela orelha mais próxima e foram indo e se mexendo. Quem
diria que tal Barretos capital do rodeio, Apucarana do boné, Monte Sião do
tricô, Itaúnas do forró, Trindade capital do gesso, hein?! Rei dos
apaniecra-canela se jogou no chão e começou a lamber o pozinho vermelho. Um aldeão,
pés descalços e facão na cinta, chapéu preso no barbicacho e camisa amarrada na
frente, se apresentou em nome da coletividade geral local:
- Ir embora? Como assim?
Beatriz respondeu na lata:
- Ah, é?! Então você vai patinar no
seco, pra ver que bom que é!
Assim, Beatriz - largando o guri no
chão, pooofe!... - rodou a baiana, cuspiu de lado, fez risco com o pé, os cabelos
já largados sobre os ombros. O vilão estava ali parado no meio do nada como um
i e podre e minúsculo. Beatriz jogou fora a blusinha, jogou a saia pro espaço das
saias, jogou distante a calcinha preta aromada de essências extraídas da
madeira da muirajuba, bateu provocativamente na barriguinha sem gorduras,
barriguinha como duma tábua de passar roupa, barriguinha sarada, cavada, trincada,
e chamou o cara para a peleja. E Beatriz o provocou assim mais ou menos:
- É pra já, murrinha!
E os dois se engalfinharam tanto tanto!
Beatriz normalmente seria uns cinco dedos para menos todavia, como usava sapatos
de salto alto agulha, emparelhou com o tipo. E o cabelo dela amarrado em rabo
de cavalo já chicoteava o ar e adjacências. Dentes apertando os lábios pintados
de roxo. E virou daqui, virou dali... procurando um ângulo... exercitando os
músculos... conversando baixinho com o espírito da encrenca.
Os aldeões, as aldeãs, os aldeõezinhos afogueados
assistiram a tudo sem perder um lance. Parecia um teatro amador na praça lá em
Guajará-Mirim? Em Ipojuca? Em Porto Calvo? Os aldeões nem tiraram os olhos especialmente
dos peitos acintosos da Beatriz. As aldeãs preferiram olhar seu salto alto
imponente equilibrado prepotente matronal.
O aldeão desafiante veio e bateu com um
tapa que explodiu no rosto de Beatriz, baaau!... Esta foi rolar no pó vermelho
da rua Única. Rei dos taguari, vendo isso, correu e se jogou também no chão. O
menino ainda berrou. Ninguém sabia que tipo de berro era aquele, que bicho ele
interpretava, mas já havia berrado outras vezes, assim:
- Biéeee!...
A Beatriz se ergueu despois de cinco
seis minutos, sacudiu a cabeça para sim sim, para nem não, o rabo de cavalo
pendulou, chicoteou, zuniu, os olhos confundidos cheios de poeira vermelha. Um
tanto desorientada e desanimada dormente desacelerada cinco dedos na cara empanada
de pó. Sentiu vontade de tomar um trago de caninha legítima mineira de
alambique engarrafada lá no interior de Camaragibe? E se encaminhou novamente,
suor escorrendo da testa franzida vincada, para a sombra do adversário.
E os lutadores se atracaram e, dessa vez, num abraço
de tamanduás-bandeiras. De longe parecia uma dança contradança de salão. O aldeão
foi rápido e usou o joelho: nada que te quero nada. Beatriz aproveitou o
espanto do rival e também aplicou o joelho: obteve um bom resultado que doeu no
oponente e até nos circunstantes. O vilão dobrou e rolou no chão com fortes
dores no extremo sul da zona do agrião. O aldeão se contorceu todo e ficou algum
tempo em posição fetal, de animal, de verme. O tipo machucado queria desabafar
palavrões e desabafava e desabafou por entre dentes sujos de poeira. Foi que durante
e ao cabo até babou, roncou:
- Caiçuma, abunã, pacavira...
E a poeira que se ergueu grudou no suor dos espectadores,
que já eram péssimos. E os circunstantes bateram papo daqui, bateram papo dali,
comentando a peleja. Muitos aldeões comentaram os grandes peitos da lutadora. As
aldeãs se interessaram pelas coxas depiladas da ex-atriz. Até o aldeão levantar
len-ta-men-te... foi uma feira de comadres e diz que diz.
Nem chovia há muitos anos. Nem se sabia
o porquê. Nem se sabia que mau olhado caíra ali na vila de Santa Luzia. Muitas
perguntas sem respostas. A capoeira volta e meia se incendiava como por birra
ou acaso ou encanto ou falcatrua. Firmamento nem aparecia mais sempre envolto
em nuvens vermelhas. Um silêncio de quilômetros quadrados sobre tudo. E antes
ainda. Uma poeirama constante. Saci e lobisomem e mula sem cabeça, primos por
afinidade primos distantes mas primos.
No outro dia um sol encoberto e calor
sufocante de trincar até mesmo as pedras. O tempo parado acomodado estacionado como
há centenas. O povo se escondia sempre enfiado pelos interiores dos casebres
tortos bagunçados desapetrechados.
Rei dos uassu nem se ligava muito nas correrias dos moleques
do arraial. Em vez de pôr fogo na capoeira, Rei dos assurini-do-tacantins escolhia
se atirar no pó vermelho, nadar na terra intratável, fazer desenhos na areia
calcinada. Subia uma ex-árvore paineira mais próxima e se pinchava lá de cima,
pooofe!... E mergulhava do alto da ex-mapati no fofo vermelho do chão,
pooofe!... Até que tinha fôlego subia e se jogava assim da ex-morcegueira,
pooofe!... Nem poucas vezes aceitava se esconder nos buracos, nas tocas dos
falecidos tatus, dos falecidos lagartos, dos falecidos gambás, etc extintos.
O que todos ali sabiam era que nem chovia há meses. A
aldeia nem passava de um engano sem volta. Os aldeões e as aldeãs, desgrenhados
e cobertos de pó o tempo todo, nem sabiam mais o que fazer ou desfazer ou
prever. Andavam moribundos. Andavam sonâmbulos. Andavam para desandar.
Mas Rei dos aruaque só se enturmava com
os moleques se fosse o centro das gozações. Então, se deixava encobrir de pó
vermelho de cinzas ciscos pedras cacos de vidro. Os moleques rinchavam e chutavam
e batiam dando sardelinhas na bunda. E Rei dos bororo era levado a engolir
muita poeira vermelha muito peteleco muito desaforo. Rei dos jauaperi era preso
e amarrado no tronco seco de uma ex-paineira uma ex-tapaciriba-amarela uma
falecida quina-branca... Ali, atado incomunicável, era mijado pela turba de culepes
endiabrados. Assim era esquecido largado abandonado e nem reclamava. Rei dos
uaiuai se saía com um latido muito do esquisito. O latido podia ser um latido,
um grunhido, um urro de onça-jaguatirica extinta, pio imitando ex-ave noturna,
mas o oficial era mesmo o seu berro, assim berrado:
- Biéeee!...
Dona Beatriz estava disposta a sair
daquela aldeia falida de famigerados e famigeradas famélicos. Era muita poluição
e falta de ar pro seu currículo. Pegou subjugou abruptamente o Rei dos tirió pela
orelha e foram rumo sul da aldeia. Porém, o magricela se recusou, fincou pé,
travou os cascos no chão e se irritou profundamente. E Rei dos carnijó, nervoso
porque contrariado, bravo como um ex-filhote de maracajá, se atirou no chão com
unhas e dentes e desespero horrível. O guri dinhonhinho ainda jurou coisas
impossíveis pro seu tamanho. E casquinou um nervoso ruído, desse jeito, que
podia ser um pio ou um assobio:
- Biéeee!...
Beatriz também
tinha motivos de sobra e gritou de onde estava, se curvou toda para dentro do
moleque e bufou seus grunhidos histéricos:
- Então é isso, é assim, é por aí?!
Agora você vai ver só, seu mico-leão-dourado-da-cara-preta de araque!
Tia Beatriz, mais firme impossível, surpreendeu
o Rei dos iauanauá pela orelha e o arrastou como pôde como trapo sujo como
coisa inútil. O piazinho vinha de arrasto mesmo e sapateando como barata do
avesso. A orelha esticando esticando perigosamente. Aí, surgiu um aldeão, galochas
pretas de borracha, calças remendadas arregaçadas até os joelhos, estilo animal
de altos chifres e cavanhaques, e barrou o caminho da senhora Beatriz, e brigou
berrando, voz de barítono:
- Só pisando sobre minha carcaça vocês
saem daqui, uma vez!
Beatriz largou o Rei dos uaiumara,
pooofe!... jogou a saia para o alto o alto, jogou o corpete para longe, jogou o
escapulário, apinchou a haste de osso que segurava o cabelo em coque, soltou as
largas pulseiras de fantasia e disse, falou com o ódio relampeando nos olhos
bonitos cor do ferro em brasa estampado no rosto cor da terra local:
- De-de-demorou!
E os dois se engalfinharam numa luta
muito séria e máscula e primitiva e brutamontes. Se pegaram se juntaram como
dois jabutis extintos numa luta perigosa até o final dos tempos. E mãos abanando
porém de unhas afiadas e enferrujadas venenosas. Uma com ódio louca do outro, outro
com ódio louco da uma. O aldeão pregou magistralmente um tapa, baaau!... na
cera do ouvido da musculosa Bia. Esta caiu de arrasto no pó vermelho do centro
da rua Única. Muitos aplaudiram e falaram de boca cheia o tradicional:
- Porra, meu!
Rei dos catauixi aproveitou e se jogou também, rechinando:
- Biéeee!...
Depois de cinco minutos, pareceu mais,
Beatriz acordou. Já estava extenuada e cansada e muito desconfortável deitada
só daquele um lado. Já estava fatigada antes. Todos em volta também haviam
aplaudido o aldeão e ela nem ficara sabendo. Os aldeões continuaram olhando
para os grandes seios ainda dando pano pra mangas. As aldeãs também mas por
outro motivo mais antropófagas.
E Beatriz chegou suada para continuar o entrevero. O
olhar perdido, meio sombreado, quase fora de ponto, quase fora de foco, os globos
ainda nem bem entrando nas respectivas órbitas. E ela encontrou pela frente da
proa o mesmo aldeão. Os dois pularam um contra o outro ao mesmo tempo no mesmo
espaço esbarrando peito com peito. Pularam para o alto em direções opostas e
contraditórias e antípodas.
Mas Beatriz chegou primeiro e levou vantagem sobre o
tal oponente. Ágil e velhaca como uma extinta onça-parda das bravas. E ela já
foi aplicando um mata-leão e, com o calcanhar, foi pisoteando e amassando e
triturando os países baixos do adversário. O suíno praticamente ficou morto, anestesiado,
garfado, falido, ali no chão todo encolhido mirrado. E o tal aldeão sentiu tanto
que praticamente perdeu as vãs filosofias de encontrar um dia de volta seus
dois amendoins tão necessários e fajutos. O cara ainda ficou com os braços e
pernas muito moles olhos desgovernados respiração faltando.
A poeira vermelha subira e tomara a cara dos
espectadores, grudando no suor, pintando todos com a máscara muito péssima. A
maioria torcera para o da casa, era óbvio. Então, quase todos cruzaram os
braços e dispersaram.
À noite Beatriz foi tirar o Rei dos
tariana de sob a poeira e, puxando-o pela orelha de ontem, falou e disse sem
porta-voz, voz quase humana:
- Eu vou embora desta v-vila! Vou e
você vem comigo nem que eu tenha de lhe partir a carinha e todos os dentinhos,
tá ligado?!
O piá Rei dos guaxi só fez espernear e chilrar
e chorar como um ex-lobo-guará:
- Biéeee!...
Então, mais um aldeão pulou no cercado,
pulou no círculo de giz, na arena improvisada. Trancando a passagem de B. O aldeão
desafiou batendo no peito. Era dessa vez um aldeão sem camisa e pelos vermelhos
nos braços, no peito, nos sovacos, na cara suja. O ronca e fuça vociferou como
um ex-graxaim guaxo lá das perdidas e secas campinas, zurrou:
- Chega mais! Venha brigar com o degas
aqui!
Beatriz soltou o Rei dos arara no pó
vermelho, pooofe!... jogou a bolsa para o alto, jogou a saia de banda, jogou a
camiseta com versos do Mário Quintana para a galera, atirou com o sutiã de
rendinhas, soltou o relógio de pulso, jogou a ponta do cigarro, jogou o
celular, se livrou do colar de pérolas quatro voltas e jurou, cuspindo
marimbondos, disse jurando:
- Nem se assuste nem se distraia por aí,
meu Rei dos charrua, que nós já já vamos indo!
Então, os dois desafiantes se
engalfinharam, e no duro, e ali mesmo no seco no centro da rua Única. Beatriz,
ao preparar as garras, levou um tapa no, baaau!... funil do ouvido esquerdo e
se deixou rolar sem forças e sem dó de si mesma pelo pó vermelho da mesma e
única rua da vila da vila. Ela simplesmente lambeu o vermelho feito de pó e sem
querer. O Rei dos carijó pegou o exemplo e se atirou atrás, voando quase alto como
extinto jacamim-de-costas-brancas, e aterrissou no solo vermelho, soprando seu pio
estranho, coaxou:
- Biéeee!...
Seis minutos depois, Beatriz acordou
ouvindo extintos sabiás-laranjas cantando num domingo de manhã na ex-laranjeira
da vizinha lá longe quem sabe uma outrora cidade nomeada distante no tempo no
espaço Itatiba, Sobral, Urupá, Ibiúna? E mesmo de joelhos, e num gesto rápido
demais, agarrou os baixos países do aldeão e, com as duas mãos, apertou-os,
apertou-os, e como os apertou... E apertou tanto os tais feijõezinhos que
aquelas duas letrinhas evaporaram pelos buracos do nariz do condenado, fumegando
lá em cima no norte da cara do freguês. E por que ela sempre pegava por ali?
Com luta renhida, sempre era motivo de
levantar uma poeira. E levantou um poeirão vermelho que grudou na cara dos
circunstantes torcedores fantásticos. Todos com o rosto maquilado e
pessimamente maquilado. Era até um povo do outro mundo. Um povinho descabelado
e avermelhado e murrinha. Os aldeões filosofaram as vantagens dos peitos da
oponente e seus bicos agudos. As aldeãs acompanharam as suas coxas duronas mas
num outro sentido.
Na madrugadinha, era uma noite abafada
fechada fadada ao fracasso, um prenúncio de manhã calorenta, comum e sem volta,
foi que Beatriz agarrou o Rei dos aticum pela aba da orelha. A orelha do guri
já estava calejada e encaroçada como de lutador de judô. O piá tentou em vão travar
com os pés descalços e com as unhas grandes dos pés sujos. Beatriz ia mal e mal
arrastando-o pela única rua poeirenta e de pedras soltas.
Então, de dentro da nuvem de pó, um aldeão se perfilou,
pernas abertas, estátua no caminho, fechando o caminho, desafiando para um
duelo, pernas afastadas como de lenhador de muita folga e muito que folgar. O aldeão
cuspiu de lado e soltou um palavrão monstruoso:
- Ó aqui sua ácido desoxirribonucleico!
O dito cujo estava com mais os avantajados de dois
metros e vinte de altura, oito metros e tanto de largura, dezoito metros com os
braços abertos. Parecia um boneco inflado dos de frente de posto de gasolina. De
perto quase dois e oitenta. De longe muito longe, um metro e noventa e sete. Pés
pesões de pegadas em Sousa lá no Vale dos Dinossauros. Pernas abertas braços
abertos para o alto como um x prepotente ganancioso polichinelo. Ele gluglutiu
soltando ronronidos de extinto jacareúna:
- Nana nina nem! Fim de linha, minha
neguinha destemida!
Beatriz já sabia da história e de cor e
salteado. E a mulher era bicho corajoso feita na hora na forja na intempérie. E
isso podia ser útil e podia ser inútil. E Beatriz nem queria repetir outro
daqueles encontros desencontrados. Mas só repetiria se fosse o caso. E era o
caso obrigatório. Beatriz soltou o Rei dos coroado no chão, pooofe!... lançou
fora e para longe e para sempre a saia plissada curtinha até os joelhos como
das colegiais curitibanas e porto-alegrenses e pessoenses... jogou alto os
óculos escuros, rasgou e largou fora o tomara-que-caia abrindo assim o peito
vasto galopante com as duas mãos de unhas pintadas, jogou para riba os
braceletes de prata de ouro de cobre, atirou longe o par de botinhas de couro
cru de capivara com solão plataforma de vidro muito fabricadas em lugar de
Baturité nos antigos, fez rápida e agilmente um rabo de cavalo atando o cabelo
com umas fitas verde e azul, mãos na cintura e bradou, e bradou com a garganta amarga
e arranhada de tanta poeira:
- Pula pra cá, filho de uma cata-vento
de folha de gravatá extinto!
Os dois se engalfinharam como dois cachorros
de rinha. Beatriz tomou um tapa na orelha leste, baaau!... do labirinto
profundo que a obrigou cair no pó vermelho, enterrando as fuças, aterrissando
em câmera lenta, um desastre de avião com re-petição. E foi pouco. E parecia o
fim de tudo ou o começo do nada. Rei dos juruna mergulhou logo em seguida, um
peixinho, um biquinho sem trampolim, assim mesmo no seco, arrulhando:
- Biéeee!...
Cinco ou seis minutos depois, e a noite
pingava já suas últimas fogueirinhas no cobertor escuro do firmamento entre
nuvens de cinza calcinada, Beatriz, muito zonza, ainda tonta, pra lá de
abobada, pra lá de uma cidade fantástica chamada Atibaia?, o cérebro balançando
dentro da cachola, procurou ganhar mais uns minutos, esperou mais uns instantes
para dar acordo de si, contou até cento e poucos. E pronto, pulou pronta de pé
e tinindo pro revide.
E ganhou mais uns minutinhos rodeando o oponente
lentamente estudadamente por aqui por ali. Mais dois ou três minutinhos e
Beatriz se pôs com as garras em tensão. Fingiu dar um bote no nariz do
oponente. Este, crente que ia receber um soco no nariz, se escudou com as mãos.
Então, sem deixar tempo para que o aldeão raciocinasse e voltasse, Beatriz
parou o braço no ar, revoltou o corpo de lado muito com rapidez e... rápida
mesmo rapidíssima pra caramba... baixou as calças do adversário e lhe aplicou
os dentes poderosíssimos no cachinho dos butiazinhos. E por que ela achava que
por ali era sempre mais fácil?
Com os grãos, os dois grãos de uva na boca, entre os
dentes, Beatriz fez misérias. E sacudiu o aldeão para cá e para lá, de lá para
cá, para cima e para baixo, fez espirais, redemoinhos, tobogãs, pêndulos, tocou
a flauta do ualalocê. E depois os mastigou como se fossem almôndegas cruas
antigamente feitas e servidas nos restaurantes de Cabedelo, Açailândia,
Januária, Itaguaí... Tentou até trocá-los de lugar, alterná-los, complicá-los,
confundi-los. Nessa altura o aldeão já estava do azul para o branco para o
vermelho para o amarelo entrando no lilás frouxo frouxo. Fisgado como extinto
pacu no ex-rio Itapecuru? Flechado como ex-tracajá no extinto rio Paranaíba? E tocando
piano nas pedrinhas do chão com os dedinhos esticadinhos de pés de bailarino sujos
encardidos.
Então, num esforço mágico e gigantesco, pescoço
taurino, Beatriz ergueu o cabra nos dentes. Essa eu queria ver! Os dentes
firmes e fixos e poderosos no cacho do freguês. Para arrematar. Para ganhar um
dez. E o aldeão ficou como um peixe arpoado num rio ilusório de antigamente
perdido no tempo no espaço ex-rio Jaru, como um ex-pirarucu posando para foto, todo
o peso no ar de peixe para foto de exibição e em preto e branco. Se a senhora Beatriz
pudesse contar até três - estava com a boca cheia - contaria um dois três e
já!...
Só assim e então, Beatriz largou o cacho do aldeão e
largou o azarão na poeira vermelha. Ela nem quis saber do estrago nem olhou
para trás nem disse nada. E para o aldeão as coisas adquiriram em volta uns
movimentos de ir e vir que antes nem tinham. A poeira vermelha grudou no suor,
entrou na boca dos circunstantes apalermados. Outros aldeões olharam fixos os
bicos dos seios da moça feroz. As aldeãs olharam suas mandíbulas poderosas de boca
dura lábios espumantes e língua grossa gosmenta.
Nem chovia há dois mil séculos. Calor
insuportável e o comum dos dias. Pedras e pedregulhos compraram propriedades de
largos campos junto ao capoeirão esturricado. De repente, de momento, mais um incêndio
na capoeira. Martinta-pereira piou em represália, triiié!...
Rei dos pareci acordou cedo. Saiu do
buraco onde dormitava. O tempo nem falava nada. Antes de qualquer coisa, Rei dos
tape deu um bico no meio do pó vermelho da rua Única. Rolou nervoso no meio da sujeira.
E nem queria mais sair dali. Beatriz foi até ele e o ergueu pela orelha
encardida calejada escolhida. Rei dos gavião já estava ficando com a orelha
maior que a outra, e a cabeça torta viciada. Beatriz preferia muito a orelha
esquerda, pegando-a com a mão direita, como por acaso, como de zás-trás. Beatriz
falou decidida, sem admitir réplica ou sapateado ou nhenhenhém:
- Vamos se mandá daqui, seu ferida, e é
já!
O culepe jogou os braços com as mãos
para cima e grinfou:
- Biéeee!...
Pois sim, então, uma aldeã saltou na
frente da Beatriz. A aldeã queria travar a saída das visitas. Aldeã com pose de
mandona, com cicatriz no nariz, com outra cicatriz no lábio inferior, com mais
uma cicatriz das grandes no ventre, com tatuagem no tríceps, sandálias
franciscanas de pescador em couro cru provavelmente antigamente extintamente
fabricada em Carolina ou Itiúba ou Monte Santo ou Igarassu... anéis nos
polegares, lenço militar vermelho de pescoço, correntinha no bolso da bermuda
verde desbotada, um começo de bigode debaixo do nariz aquilino, pneuzinho indiscreto
e visível sobrando entre a blusinha e a cinta, cabelos verdes e curtos e soltos
e leves, dentes afiados, piercing no umbigo saltado, etc. Ela mesma impediu a
passagem de Beatriz e do guri, dizendo, disse, voz de soprano:
- Quero ver o quê! E vai ser hoje, meu
chapa!
Beatriz largou o Rei dos avá-canoeiro
no chão, pooofe!... Este optou por mergulhar de peixinho na poeira da rua, nadar
de braçada, rolar como peixe dourado moribundo fora da água fria, e cricrilou:
- Biéeee!...
Beatriz aceitou
o desafio da tuiuiu de bunda grande, falando:
- Vou tirar todo o teu esse bigode-de-de!
E vou depená a tua ba-ba-qui-nha! E vou pegar pra mim esse seu chulé esborrachado
e rinchante de sola de pneu careca, copiou?!
Jogaram as roupas para o alto. A aldeã
jogou tudo mesmo que podia para cima e lá pro alto. Deixou os seios grandes
balançando balangando perigosamente. Beatriz jogou a blusa azulzinha, jogou a
camiseta com bordadinhos de florzinhas e de raminhos da ingazeira, jogou o
sutiã preto em forma de taça, se desfez da tiara de osso, se livrou dos sapatos
plataforma com saltos de plástico duro uma vez muito fabricado e adquirido lá
em Leopoldina e Caratinga e Rio Bonito e imediações aleatórias de lá por perto
e outras localidades, sungou o calção em v, e coisas outras mais sérias.
A renitente Beatriz ergueu os braços, a carrancuda aldeã
ergueu os braços. Mãos ao alto para o assalto. As duas de sovaco peludo fazia
já alguns meses. Nada mais. Os aldeões olharam os seios e compararam com as
próprias mãos virtuais. Olharam e desconfiaram dos sovacos. As aldeãs
torcedoras fanáticas se dividiram entre peitos e sovacos mas por outros motivos
canibais.
Se aproximaram as duas adversárias inimigas figadais.
As lutadoras se deram as mãos, se olharam dentro das meninas dos olhos, se
cumprimentaram e desejaram má e péssima desdita, xingaram, trovejaram, e
explicaram:
- Vou arrancar a tua cabeça e dar aos moleques que
jogam pelota, oquei?!
- Vou empalar ocê aí naquele espeto em pé e queimado
da madeira cumbica, tá sentindo?!
Mais nada a declarar. Aproximaram os peitos, mediram
os peitos, somaram os peitos, e peitos grandes pontudos, e dividiram os peitos:
duas metralhadoras cada. Muita munição. Uma e outra com cada muque! E vastraram
dois metros por cada. Uma ia acabar ali mesmo e sem demora e fim de papo.
De supetão as desafiantes se
engalfinharam como duas ex-quatis, como duas ex-jacaroas, como lutadoras de
sumô. Se agarraram mesmo pelos cabelos, rolaram no pó vermelho, entre as pedras
soltas, folhas secas, pedacinhos de pau que cortavam a pele grossa e encardida.
Rugiram como duas extintas cobras-corais, chiaram como duas ex-onças-pardas e
bufaram como duas ex-bugias no cio. Estava tão escabrosa a peleia que... sopapos
pescoções telefones rasteiras rabos-de-arraia... que parecia briga na tribo e
era mesmo briga na caverna no tempo dos corcundas homens-macacos.
E Beatriz acertou um soco na boca da aldeã. Esta
perdeu dois dentes importantes e na hora. Foi, pegou os dentes olhou os dentes
e fuzilou o olhar de extinto uiraçu. Então, a aldeã mesma correu até ali e
agarrou uma vara seca de taquara-poca. Beatriz agarrou o seu espeto de
mangabeira. As duas cruzaram espadas como nos filmes de ex-cavaleiros galopantes
orientais medievais. Beatriz acertou a perna da outra, onde saltou desenhado um
vergão enorme, tipo paisagem de cordilheira tipo serra que antes havia por lá
acolá uma serra Parima. A aldeã acertou uma bambuzada na orelha da Beatriz,
onde tirou uma lasca de isca, e doeu!...
Com toda a raiva que podia segurar entre os dentes,
Beatriz deu uma voadora nos peitos da outra e a atirou a três metros e tanto. A
aldeã fuzilou aquele olhar de extinta cascavel choca, armou as garras de fera chifruda,
saiu na corrida e pulou sobre Beatriz. Beatriz levou um choque e ambas rolaram
agarradas no meio do pó vermelho e das pedras soltas e folhas secas e gravetos
pontiagudos que feriam sem piedade. Ainda a aldeã punhou duzentas vezes a cara
de Beatriz e o nariz de Beatriz que ficou uma amassada batata.
Mesmo tonta, Beatriz conseguiu alcançar uma pedra das
médias e bateu bateu na testa da oponente que sentiu muito, que ouviu algo
trincar. A aldeã caiu para trás ou se jogou como ex-jaguatirica felina ferida. E
muito rapidamente, nem deu pra ver direito, agarrou também de uma pedra e jogou
para os lados de Beatriz. Beatriz virou a cara para nem levar em cheio no meio
dos olhos mas... a pedra ricocheteou num toco de ex-jenipapo-bravo e voltou
mais violenta e acertou as suas costas largas quentes, poooque!... e doeu mesmo!
Com a forte pancada nas costas, Beatriz foi ao solo
com tudo. Foi também se arrastando até um galho seco de jeniparana. Voltou,
então, com muita gana e disposta a quebrar tudo. Virou o corpo para pegar mais
força nos braços. E acertou a aldeã nas mãos, nos braços e nas costas e... cada
lambada!... cada varada!... cada galhada!... cada taquarada, taaau!... e, segundo
se percebeu ali pertinho e se ouviu os estalos, doeu mesmo!
E as duas voltaram a se agarrar pelos cabelos, rolar
no pó vermelho, rolar sobre o cascalho que riscava o couro, punhados de cabelos
arrancados, unhas quebradas, a maquilagem de vermelho escorrendo no suor, as
orelhas sangrando dos brincos arrancados, o batom manchado, os beiços abertos,
as bocas babando espuma amarronzada... Péssimo péssimo mesmo foram as tais e
quais bocas manchadas, bocas babando, lábios cortados...
Por isso mesmo surgiu uma faca enferrujada
rebrilhando na pouca claridade da hora incerta, ali no meio da parada das duas lutadoras,
no meio do forrobodó. A aldeã viu primeiro. Foi ajudada pela malícia da política
local de interessados puxa-sacos. E foi mais rápida.
E golpeou Beatriz dez vezes aqui, ali
no fígado, entre os rins... vinte vezes golpeou, golpeou... furou o baço, o
fígado, o coração... e no antebraço, no crânio, na coxa direita... golpeou
facadas pelos séculos e séculos. Deixou a faca dependurada para enfeite, para
lembrança, para contrapeso, para relembrança. E a aldeã ainda rosnou nheengatu
fanhosa como extinta jararaca, roncou:
- Vai, cramulhona! Vai ser bucha de
canhão assim lá em casa!
Vendo Beatriz morrer, percebendo B
parada deitada de olhos abertos na poeira vermelha, Rei dos atroari caiu também
para trás no meio daquela rua descalça. E assim Rei dos caeté nem quis mais
levantar, nunca mais se erguer e reinar. O Rei dos pano empanado de poeira
cabelo duro olhar sem sombra. Rei dos zoé tinha os braços de extinto
falcão-de-peito-vermelho umas parcas asas de avião mas nem aproveitou mais
nada. Rei dos furniô tombou durinho de longuinho sobre a tábua de bater de
passar, pooofe!...
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