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quinta-feira, 23 de março de 2017

Contos de Santa Luzia (9)






         Princípios de quando, de agosto, de setembro, de julho, nada importante, nada a declarar, todos os meses e estações iguais, princípios de dezembro, verão cheio a pleno vapor, chão maninho, estéril. Toda a região torrada pela seca. Nuvens vermelhas de poeira no amplo espaço desconsiderado desorientado.
         Beatriz apareceu com tudo que uma mulher podia conferir testemunhar. Quisera mesmo ser atriz em Brasília, Brasilândia, Brasileia... Até aí, Beatriz se parecia com um trem apitando nas curvas da serra de Jacarará. Namorara cinco meses um tocantinense aviador comercial rota Cabo de Santo Agostinho-Ilha de Itamaracá-Vitória de Santo Antão. Fora vendedora de calcinhas de porta em porta nas ruas e bairros de Amparo, Salto, Indaiatuba, Piripiri... Trabalhara na produção de uma fábrica de cervejas artesanais em Itajubá. Ela ainda fora uma bonita e sólida casa verde com portas e janelas azuis dando para a rua Trajano de Morais em Tucuruí. Beatriz fora uma época nada que reclamar. Beatriz tinha ainda os dez anéis, um em cada dedo das mãos. E perfume discreto pessoal exclusivo da essência das flores da cunuri. Beatriz dos longos cabelos pretos arrumados em uma trança com fita verde. Fora prestadora de serviços autônoma em a praia do Bessa, Tracunhaém. Veio vindo desde lá onde morara uma vez no Embu das Artes. E aparentemente nem carregava problema pecado algum no corpo na alma na mente e no currículo.
Assim e então, meses atrás, entrou Beatriz na aldeia Santa Luzia já pelo portão do nascente do embarque. E veio de longe pacas. Um vento por ali que transportava poeira no nome, vento avermelhado, nuvens de pó vermelho, silêncio, quietude, poeira que subia do chão seco e estorricado. Até onde a vista alcançava. E do começo ao fim do mundo. Até por toda parte e arredores.  
         Beatriz sim que estava fortona, olhos pretos oblíquos, olhos azuis oblíquos, olhos esverdeados oblíquos. Olhou lá para uma ex-lavoura, queimada pelo calor, semeada das pedras de canga, tucurus mortos e paus ficados podres mumificados. O alto com o chão uma e única coisa avermelhada. Viu um espantalho abraçado na poeira do ermo. Beatriz pensou: que chapéu maneiro tem aquele otário. Foi ver tudo de perto. Um calor de nem aguentar. E tome bafão para derreter os miolos a consciência o discernimento.
         Ela foi e chegou a dois palmos do espantalho. O farrapo na dele era a dele parado ali quieto e crucificado nas estacas de taquara. O medonho nem pensava. Antes que o tal se desse conta ela se atirou para cima e o derrubou, e o prendeu com as coxas fortes, e o penetrou, e o galopou, galopou... E comeu o palhaço à força, levantando poeira, jogando cisco e pedras para todos os lados. Pobre robô? Que nada!
Depois, nada além de meia hora depois, até que o espantalho suspirou, arrumou a gravata rasgada, ajeitou o chapéu de palha seca de buriti. O espantalho que em tapadas noites de lua cheia virava mutante, virava lobisomem, e já virara lobisomem diversas vezes. Que preferia sair por aí na calada das noites avermelhadas a sondar a rondar a azucrinar as casinhas das aldeãs solteiras e ou viúvas desamparadas carentes.
         O que aconteceu, então? O que nem aconteceu?
         Portanto, vila Santa Luzia era um nome muito curto. O que se podia fazer? Pois nem chovia há milênios. Tudo tudo abandonado largado contaminado. Tudo embaçado de nuvens de pó vermelho. As cores do dia a dia nesse lugar fora do tempo? Casinhas tímidas de pau-a-pique e cobertas de sapê.
         Em pouco tempo, meia hora depois do pega-pra-capar lá na ex-rocinha, Beatriz já estava de bucho cheio; e este já se mexendo e provocando enjoos arrepios e chutando. Era o filho com o espantalho. Mais um pouco, trinta minutos, e estalou um piá cabeçudo, neurastênico, manhoso, prematuro - três e treze um palmo dois quilos menos vinte três gramas - e com falha no piar. Piava desse jeito, piou:
         - Biéeee!...
         Passou toda aquela noite piando sem parar. No outro dia pela manhã o curumim já carregava cinco anos de história. Beatriz nem pensou muito com aquele calor e lhe deu pronto o nome de Rei. Rei de quê? Rei dos cumanaxó homenagem aos cumanaxó.
         Então, Rei dos pauxi era um guri de cinco anos ou mais que se jogava no chão, rolava no pó vermelho, comia terra com folhas secas e lambia pedrinhas de basalto. Escolhia fazer isso, de se jogar na poeira, por dois motivos: porque nem se importava de ralar os cotovelos e os joelhos; porque tinha alma de artista, apesar de tímido e nervoso; porque era filho único e tinha necessidades urgentes, carências misteriosas e sempre insatisfeitas de se exibir e se mostrar e se apresentar e se destacar.
         As ex-árvores da pracinha, as ex-plantas do capoeirão, tudo tudo, nada nada se mexia, tudo cinzento, tudo petrificado estaqueado apontando o alto. O saci equilibrava o redemoinho num pé só. De súbito, sempre assim, uma enorme e pesada nuvem vermelha entupia a vista da aldeola.
         Beatriz, então, naquela manhã inflamada incendiada esbraseada, pensou um pouco mais e decidiu ir embora da aldeia Santa Luzia. Queria gavionar com o filho por outras bandas e províncias do país? Ela grampeou o Rei dos marimã pela orelha mais próxima e foram indo e se mexendo. Quem diria que tal Barretos capital do rodeio, Apucarana do boné, Monte Sião do tricô, Itaúnas do forró, Trindade capital do gesso, hein?! Rei dos apaniecra-canela se jogou no chão e começou a lamber o pozinho vermelho. Um aldeão, pés descalços e facão na cinta, chapéu preso no barbicacho e camisa amarrada na frente, se apresentou em nome da coletividade geral local:
         - Ir embora? Como assim?
         Beatriz respondeu na lata:
         - Ah, é?! Então você vai patinar no seco, pra ver que bom que é!
         Assim, Beatriz - largando o guri no chão, pooofe!... - rodou a baiana, cuspiu de lado, fez risco com o pé, os cabelos já largados sobre os ombros. O vilão estava ali parado no meio do nada como um i e podre e minúsculo. Beatriz jogou fora a blusinha, jogou a saia pro espaço das saias, jogou distante a calcinha preta aromada de essências extraídas da madeira da muirajuba, bateu provocativamente na barriguinha sem gorduras, barriguinha como duma tábua de passar roupa, barriguinha sarada, cavada, trincada, e chamou o cara para a peleja. E Beatriz o provocou assim mais ou menos:
         - É pra já, murrinha!
         E os dois se engalfinharam tanto tanto! Beatriz normalmente seria uns cinco dedos para menos todavia, como usava sapatos de salto alto agulha, emparelhou com o tipo. E o cabelo dela amarrado em rabo de cavalo já chicoteava o ar e adjacências. Dentes apertando os lábios pintados de roxo. E virou daqui, virou dali... procurando um ângulo... exercitando os músculos... conversando baixinho com o espírito da encrenca.
         Os aldeões, as aldeãs, os aldeõezinhos afogueados assistiram a tudo sem perder um lance. Parecia um teatro amador na praça lá em Guajará-Mirim? Em Ipojuca? Em Porto Calvo? Os aldeões nem tiraram os olhos especialmente dos peitos acintosos da Beatriz. As aldeãs preferiram olhar seu salto alto imponente equilibrado prepotente matronal.
         O aldeão desafiante veio e bateu com um tapa que explodiu no rosto de Beatriz, baaau!... Esta foi rolar no pó vermelho da rua Única. Rei dos taguari, vendo isso, correu e se jogou também no chão. O menino ainda berrou. Ninguém sabia que tipo de berro era aquele, que bicho ele interpretava, mas já havia berrado outras vezes, assim:
         - Biéeee!...
         A Beatriz se ergueu despois de cinco seis minutos, sacudiu a cabeça para sim sim, para nem não, o rabo de cavalo pendulou, chicoteou, zuniu, os olhos confundidos cheios de poeira vermelha. Um tanto desorientada e desanimada dormente desacelerada cinco dedos na cara empanada de pó. Sentiu vontade de tomar um trago de caninha legítima mineira de alambique engarrafada lá no interior de Camaragibe? E se encaminhou novamente, suor escorrendo da testa franzida vincada, para a sombra do adversário.
E os lutadores se atracaram e, dessa vez, num abraço de tamanduás-bandeiras. De longe parecia uma dança contradança de salão. O aldeão foi rápido e usou o joelho: nada que te quero nada. Beatriz aproveitou o espanto do rival e também aplicou o joelho: obteve um bom resultado que doeu no oponente e até nos circunstantes. O vilão dobrou e rolou no chão com fortes dores no extremo sul da zona do agrião. O aldeão se contorceu todo e ficou algum tempo em posição fetal, de animal, de verme. O tipo machucado queria desabafar palavrões e desabafava e desabafou por entre dentes sujos de poeira. Foi que durante e ao cabo até babou, roncou:
- Caiçuma, abunã, pacavira...
E a poeira que se ergueu grudou no suor dos espectadores, que já eram péssimos. E os circunstantes bateram papo daqui, bateram papo dali, comentando a peleja. Muitos aldeões comentaram os grandes peitos da lutadora. As aldeãs se interessaram pelas coxas depiladas da ex-atriz. Até o aldeão levantar len-ta-men-te... foi uma feira de comadres e diz que diz.
         Nem chovia há muitos anos. Nem se sabia o porquê. Nem se sabia que mau olhado caíra ali na vila de Santa Luzia. Muitas perguntas sem respostas. A capoeira volta e meia se incendiava como por birra ou acaso ou encanto ou falcatrua. Firmamento nem aparecia mais sempre envolto em nuvens vermelhas. Um silêncio de quilômetros quadrados sobre tudo. E antes ainda. Uma poeirama constante. Saci e lobisomem e mula sem cabeça, primos por afinidade primos distantes mas primos.
         No outro dia um sol encoberto e calor sufocante de trincar até mesmo as pedras. O tempo parado acomodado estacionado como há centenas. O povo se escondia sempre enfiado pelos interiores dos casebres tortos bagunçados desapetrechados.
Rei dos uassu nem se ligava muito nas correrias dos moleques do arraial. Em vez de pôr fogo na capoeira, Rei dos assurini-do-tacantins escolhia se atirar no pó vermelho, nadar na terra intratável, fazer desenhos na areia calcinada. Subia uma ex-árvore paineira mais próxima e se pinchava lá de cima, pooofe!... E mergulhava do alto da ex-mapati no fofo vermelho do chão, pooofe!... Até que tinha fôlego subia e se jogava assim da ex-morcegueira, pooofe!... Nem poucas vezes aceitava se esconder nos buracos, nas tocas dos falecidos tatus, dos falecidos lagartos, dos falecidos gambás, etc extintos.
O que todos ali sabiam era que nem chovia há meses. A aldeia nem passava de um engano sem volta. Os aldeões e as aldeãs, desgrenhados e cobertos de pó o tempo todo, nem sabiam mais o que fazer ou desfazer ou prever. Andavam moribundos. Andavam sonâmbulos. Andavam para desandar.
         Mas Rei dos aruaque só se enturmava com os moleques se fosse o centro das gozações. Então, se deixava encobrir de pó vermelho de cinzas ciscos pedras cacos de vidro. Os moleques rinchavam e chutavam e batiam dando sardelinhas na bunda. E Rei dos bororo era levado a engolir muita poeira vermelha muito peteleco muito desaforo. Rei dos jauaperi era preso e amarrado no tronco seco de uma ex-paineira uma ex-tapaciriba-amarela uma falecida quina-branca... Ali, atado incomunicável, era mijado pela turba de culepes endiabrados. Assim era esquecido largado abandonado e nem reclamava. Rei dos uaiuai se saía com um latido muito do esquisito. O latido podia ser um latido, um grunhido, um urro de onça-jaguatirica extinta, pio imitando ex-ave noturna, mas o oficial era mesmo o seu berro, assim berrado:
         - Biéeee!...
         Dona Beatriz estava disposta a sair daquela aldeia falida de famigerados e famigeradas famélicos. Era muita poluição e falta de ar pro seu currículo. Pegou subjugou abruptamente o Rei dos tirió pela orelha e foram rumo sul da aldeia. Porém, o magricela se recusou, fincou pé, travou os cascos no chão e se irritou profundamente. E Rei dos carnijó, nervoso porque contrariado, bravo como um ex-filhote de maracajá, se atirou no chão com unhas e dentes e desespero horrível. O guri dinhonhinho ainda jurou coisas impossíveis pro seu tamanho. E casquinou um nervoso ruído, desse jeito, que podia ser um pio ou um assobio:
         - Biéeee!...
 Beatriz também tinha motivos de sobra e gritou de onde estava, se curvou toda para dentro do moleque e bufou seus grunhidos histéricos:
         - Então é isso, é assim, é por aí?! Agora você vai ver só, seu mico-leão-dourado-da-cara-preta de araque!
         Tia Beatriz, mais firme impossível, surpreendeu o Rei dos iauanauá pela orelha e o arrastou como pôde como trapo sujo como coisa inútil. O piazinho vinha de arrasto mesmo e sapateando como barata do avesso. A orelha esticando esticando perigosamente. Aí, surgiu um aldeão, galochas pretas de borracha, calças remendadas arregaçadas até os joelhos, estilo animal de altos chifres e cavanhaques, e barrou o caminho da senhora Beatriz, e brigou berrando, voz de barítono:
         - Só pisando sobre minha carcaça vocês saem daqui, uma vez!
         Beatriz largou o Rei dos uaiumara, pooofe!... jogou a saia para o alto o alto, jogou o corpete para longe, jogou o escapulário, apinchou a haste de osso que segurava o cabelo em coque, soltou as largas pulseiras de fantasia e disse, falou com o ódio relampeando nos olhos bonitos cor do ferro em brasa estampado no rosto cor da terra local:
         - De-de-demorou!
         E os dois se engalfinharam numa luta muito séria e máscula e primitiva e brutamontes. Se pegaram se juntaram como dois jabutis extintos numa luta perigosa até o final dos tempos. E mãos abanando porém de unhas afiadas e enferrujadas venenosas. Uma com ódio louca do outro, outro com ódio louco da uma. O aldeão pregou magistralmente um tapa, baaau!... na cera do ouvido da musculosa Bia. Esta caiu de arrasto no pó vermelho do centro da rua Única. Muitos aplaudiram e falaram de boca cheia o tradicional:
- Porra, meu!
Rei dos catauixi aproveitou e se jogou também, rechinando:
         - Biéeee!...
         Depois de cinco minutos, pareceu mais, Beatriz acordou. Já estava extenuada e cansada e muito desconfortável deitada só daquele um lado. Já estava fatigada antes. Todos em volta também haviam aplaudido o aldeão e ela nem ficara sabendo. Os aldeões continuaram olhando para os grandes seios ainda dando pano pra mangas. As aldeãs também mas por outro motivo mais antropófagas.
E Beatriz chegou suada para continuar o entrevero. O olhar perdido, meio sombreado, quase fora de ponto, quase fora de foco, os globos ainda nem bem entrando nas respectivas órbitas. E ela encontrou pela frente da proa o mesmo aldeão. Os dois pularam um contra o outro ao mesmo tempo no mesmo espaço esbarrando peito com peito. Pularam para o alto em direções opostas e contraditórias e antípodas.
Mas Beatriz chegou primeiro e levou vantagem sobre o tal oponente. Ágil e velhaca como uma extinta onça-parda das bravas. E ela já foi aplicando um mata-leão e, com o calcanhar, foi pisoteando e amassando e triturando os países baixos do adversário. O suíno praticamente ficou morto, anestesiado, garfado, falido, ali no chão todo encolhido mirrado. E o tal aldeão sentiu tanto que praticamente perdeu as vãs filosofias de encontrar um dia de volta seus dois amendoins tão necessários e fajutos. O cara ainda ficou com os braços e pernas muito moles olhos desgovernados respiração faltando.
A poeira vermelha subira e tomara a cara dos espectadores, grudando no suor, pintando todos com a máscara muito péssima. A maioria torcera para o da casa, era óbvio. Então, quase todos cruzaram os braços e dispersaram.
         À noite Beatriz foi tirar o Rei dos tariana de sob a poeira e, puxando-o pela orelha de ontem, falou e disse sem porta-voz, voz quase humana:
         - Eu vou embora desta v-vila! Vou e você vem comigo nem que eu tenha de lhe partir a carinha e todos os dentinhos, tá ligado?!
         O piá Rei dos guaxi só fez espernear e chilrar e chorar como um ex-lobo-guará:
         - Biéeee!...
         Então, mais um aldeão pulou no cercado, pulou no círculo de giz, na arena improvisada. Trancando a passagem de B. O aldeão desafiou batendo no peito. Era dessa vez um aldeão sem camisa e pelos vermelhos nos braços, no peito, nos sovacos, na cara suja. O ronca e fuça vociferou como um ex-graxaim guaxo lá das perdidas e secas campinas, zurrou:
         - Chega mais! Venha brigar com o degas aqui!
         Beatriz soltou o Rei dos arara no pó vermelho, pooofe!... jogou a bolsa para o alto, jogou a saia de banda, jogou a camiseta com versos do Mário Quintana para a galera, atirou com o sutiã de rendinhas, soltou o relógio de pulso, jogou a ponta do cigarro, jogou o celular, se livrou do colar de pérolas quatro voltas e jurou, cuspindo marimbondos, disse jurando:
         - Nem se assuste nem se distraia por aí, meu Rei dos charrua, que nós já já vamos indo!
         Então, os dois desafiantes se engalfinharam, e no duro, e ali mesmo no seco no centro da rua Única. Beatriz, ao preparar as garras, levou um tapa no, baaau!... funil do ouvido esquerdo e se deixou rolar sem forças e sem dó de si mesma pelo pó vermelho da mesma e única rua da vila da vila. Ela simplesmente lambeu o vermelho feito de pó e sem querer. O Rei dos carijó pegou o exemplo e se atirou atrás, voando quase alto como extinto jacamim-de-costas-brancas, e aterrissou no solo vermelho, soprando seu pio estranho, coaxou:
         - Biéeee!...
         Seis minutos depois, Beatriz acordou ouvindo extintos sabiás-laranjas cantando num domingo de manhã na ex-laranjeira da vizinha lá longe quem sabe uma outrora cidade nomeada distante no tempo no espaço Itatiba, Sobral, Urupá, Ibiúna? E mesmo de joelhos, e num gesto rápido demais, agarrou os baixos países do aldeão e, com as duas mãos, apertou-os, apertou-os, e como os apertou... E apertou tanto os tais feijõezinhos que aquelas duas letrinhas evaporaram pelos buracos do nariz do condenado, fumegando lá em cima no norte da cara do freguês. E por que ela sempre pegava por ali?
         Com luta renhida, sempre era motivo de levantar uma poeira. E levantou um poeirão vermelho que grudou na cara dos circunstantes torcedores fantásticos. Todos com o rosto maquilado e pessimamente maquilado. Era até um povo do outro mundo. Um povinho descabelado e avermelhado e murrinha. Os aldeões filosofaram as vantagens dos peitos da oponente e seus bicos agudos. As aldeãs acompanharam as suas coxas duronas mas num outro sentido.
         Na madrugadinha, era uma noite abafada fechada fadada ao fracasso, um prenúncio de manhã calorenta, comum e sem volta, foi que Beatriz agarrou o Rei dos aticum pela aba da orelha. A orelha do guri já estava calejada e encaroçada como de lutador de judô. O piá tentou em vão travar com os pés descalços e com as unhas grandes dos pés sujos. Beatriz ia mal e mal arrastando-o pela única rua poeirenta e de pedras soltas.
Então, de dentro da nuvem de pó, um aldeão se perfilou, pernas abertas, estátua no caminho, fechando o caminho, desafiando para um duelo, pernas afastadas como de lenhador de muita folga e muito que folgar. O aldeão cuspiu de lado e soltou um palavrão monstruoso:
- Ó aqui sua ácido desoxirribonucleico!
O dito cujo estava com mais os avantajados de dois metros e vinte de altura, oito metros e tanto de largura, dezoito metros com os braços abertos. Parecia um boneco inflado dos de frente de posto de gasolina. De perto quase dois e oitenta. De longe muito longe, um metro e noventa e sete. Pés pesões de pegadas em Sousa lá no Vale dos Dinossauros. Pernas abertas braços abertos para o alto como um x prepotente ganancioso polichinelo. Ele gluglutiu soltando ronronidos de extinto jacareúna:
         - Nana nina nem! Fim de linha, minha neguinha destemida!
         Beatriz já sabia da história e de cor e salteado. E a mulher era bicho corajoso feita na hora na forja na intempérie. E isso podia ser útil e podia ser inútil. E Beatriz nem queria repetir outro daqueles encontros desencontrados. Mas só repetiria se fosse o caso. E era o caso obrigatório. Beatriz soltou o Rei dos coroado no chão, pooofe!... lançou fora e para longe e para sempre a saia plissada curtinha até os joelhos como das colegiais curitibanas e porto-alegrenses e pessoenses... jogou alto os óculos escuros, rasgou e largou fora o tomara-que-caia abrindo assim o peito vasto galopante com as duas mãos de unhas pintadas, jogou para riba os braceletes de prata de ouro de cobre, atirou longe o par de botinhas de couro cru de capivara com solão plataforma de vidro muito fabricadas em lugar de Baturité nos antigos, fez rápida e agilmente um rabo de cavalo atando o cabelo com umas fitas verde e azul, mãos na cintura e bradou, e bradou com a garganta amarga e arranhada de tanta poeira:
         - Pula pra cá, filho de uma cata-vento de folha de gravatá extinto!
         Os dois se engalfinharam como dois cachorros de rinha. Beatriz tomou um tapa na orelha leste, baaau!... do labirinto profundo que a obrigou cair no pó vermelho, enterrando as fuças, aterrissando em câmera lenta, um desastre de avião com re-petição. E foi pouco. E parecia o fim de tudo ou o começo do nada. Rei dos juruna mergulhou logo em seguida, um peixinho, um biquinho sem trampolim, assim mesmo no seco, arrulhando:
         - Biéeee!...
         Cinco ou seis minutos depois, e a noite pingava já suas últimas fogueirinhas no cobertor escuro do firmamento entre nuvens de cinza calcinada, Beatriz, muito zonza, ainda tonta, pra lá de abobada, pra lá de uma cidade fantástica chamada Atibaia?, o cérebro balançando dentro da cachola, procurou ganhar mais uns minutos, esperou mais uns instantes para dar acordo de si, contou até cento e poucos. E pronto, pulou pronta de pé e tinindo pro revide.
E ganhou mais uns minutinhos rodeando o oponente lentamente estudadamente por aqui por ali. Mais dois ou três minutinhos e Beatriz se pôs com as garras em tensão. Fingiu dar um bote no nariz do oponente. Este, crente que ia receber um soco no nariz, se escudou com as mãos. Então, sem deixar tempo para que o aldeão raciocinasse e voltasse, Beatriz parou o braço no ar, revoltou o corpo de lado muito com rapidez e... rápida mesmo rapidíssima pra caramba... baixou as calças do adversário e lhe aplicou os dentes poderosíssimos no cachinho dos butiazinhos. E por que ela achava que por ali era sempre mais fácil?
Com os grãos, os dois grãos de uva na boca, entre os dentes, Beatriz fez misérias. E sacudiu o aldeão para cá e para lá, de lá para cá, para cima e para baixo, fez espirais, redemoinhos, tobogãs, pêndulos, tocou a flauta do ualalocê. E depois os mastigou como se fossem almôndegas cruas antigamente feitas e servidas nos restaurantes de Cabedelo, Açailândia, Januária, Itaguaí... Tentou até trocá-los de lugar, alterná-los, complicá-los, confundi-los. Nessa altura o aldeão já estava do azul para o branco para o vermelho para o amarelo entrando no lilás frouxo frouxo. Fisgado como extinto pacu no ex-rio Itapecuru? Flechado como ex-tracajá no extinto rio Paranaíba? E tocando piano nas pedrinhas do chão com os dedinhos esticadinhos de pés de bailarino sujos encardidos.
Então, num esforço mágico e gigantesco, pescoço taurino, Beatriz ergueu o cabra nos dentes. Essa eu queria ver! Os dentes firmes e fixos e poderosos no cacho do freguês. Para arrematar. Para ganhar um dez. E o aldeão ficou como um peixe arpoado num rio ilusório de antigamente perdido no tempo no espaço ex-rio Jaru, como um ex-pirarucu posando para foto, todo o peso no ar de peixe para foto de exibição e em preto e branco. Se a senhora Beatriz pudesse contar até três - estava com a boca cheia - contaria um dois três e já!...
Só assim e então, Beatriz largou o cacho do aldeão e largou o azarão na poeira vermelha. Ela nem quis saber do estrago nem olhou para trás nem disse nada. E para o aldeão as coisas adquiriram em volta uns movimentos de ir e vir que antes nem tinham. A poeira vermelha grudou no suor, entrou na boca dos circunstantes apalermados. Outros aldeões olharam fixos os bicos dos seios da moça feroz. As aldeãs olharam suas mandíbulas poderosas de boca dura lábios espumantes e língua grossa gosmenta.
         Nem chovia há dois mil séculos. Calor insuportável e o comum dos dias. Pedras e pedregulhos compraram propriedades de largos campos junto ao capoeirão esturricado. De repente, de momento, mais um incêndio na capoeira. Martinta-pereira piou em represália, triiié!...
         Rei dos pareci acordou cedo. Saiu do buraco onde dormitava. O tempo nem falava nada. Antes de qualquer coisa, Rei dos tape deu um bico no meio do pó vermelho da rua Única. Rolou nervoso no meio da sujeira. E nem queria mais sair dali. Beatriz foi até ele e o ergueu pela orelha encardida calejada escolhida. Rei dos gavião já estava ficando com a orelha maior que a outra, e a cabeça torta viciada. Beatriz preferia muito a orelha esquerda, pegando-a com a mão direita, como por acaso, como de zás-trás. Beatriz falou decidida, sem admitir réplica ou sapateado ou nhenhenhém:
         - Vamos se mandá daqui, seu ferida, e é já!
         O culepe jogou os braços com as mãos para cima e grinfou:
         - Biéeee!...
         Pois sim, então, uma aldeã saltou na frente da Beatriz. A aldeã queria travar a saída das visitas. Aldeã com pose de mandona, com cicatriz no nariz, com outra cicatriz no lábio inferior, com mais uma cicatriz das grandes no ventre, com tatuagem no tríceps, sandálias franciscanas de pescador em couro cru provavelmente antigamente extintamente fabricada em Carolina ou Itiúba ou Monte Santo ou Igarassu... anéis nos polegares, lenço militar vermelho de pescoço, correntinha no bolso da bermuda verde desbotada, um começo de bigode debaixo do nariz aquilino, pneuzinho indiscreto e visível sobrando entre a blusinha e a cinta, cabelos verdes e curtos e soltos e leves, dentes afiados, piercing no umbigo saltado, etc. Ela mesma impediu a passagem de Beatriz e do guri, dizendo, disse, voz de soprano:
         - Quero ver o quê! E vai ser hoje, meu chapa!
         Beatriz largou o Rei dos avá-canoeiro no chão, pooofe!... Este optou por mergulhar de peixinho na poeira da rua, nadar de braçada, rolar como peixe dourado moribundo fora da água fria, e cricrilou:
         - Biéeee!...
 Beatriz aceitou o desafio da tuiuiu de bunda grande, falando:
         - Vou tirar todo o teu esse bigode-de-de! E vou depená a tua ba-ba-qui-nha! E vou pegar pra mim esse seu chulé esborrachado e rinchante de sola de pneu careca, copiou?!
         Jogaram as roupas para o alto. A aldeã jogou tudo mesmo que podia para cima e lá pro alto. Deixou os seios grandes balançando balangando perigosamente. Beatriz jogou a blusa azulzinha, jogou a camiseta com bordadinhos de florzinhas e de raminhos da ingazeira, jogou o sutiã preto em forma de taça, se desfez da tiara de osso, se livrou dos sapatos plataforma com saltos de plástico duro uma vez muito fabricado e adquirido lá em Leopoldina e Caratinga e Rio Bonito e imediações aleatórias de lá por perto e outras localidades, sungou o calção em v, e coisas outras mais sérias.
A renitente Beatriz ergueu os braços, a carrancuda aldeã ergueu os braços. Mãos ao alto para o assalto. As duas de sovaco peludo fazia já alguns meses. Nada mais. Os aldeões olharam os seios e compararam com as próprias mãos virtuais. Olharam e desconfiaram dos sovacos. As aldeãs torcedoras fanáticas se dividiram entre peitos e sovacos mas por outros motivos canibais.
Se aproximaram as duas adversárias inimigas figadais. As lutadoras se deram as mãos, se olharam dentro das meninas dos olhos, se cumprimentaram e desejaram má e péssima desdita, xingaram, trovejaram, e explicaram:
- Vou arrancar a tua cabeça e dar aos moleques que jogam pelota, oquei?!
- Vou empalar ocê aí naquele espeto em pé e queimado da madeira cumbica, tá sentindo?!
Mais nada a declarar. Aproximaram os peitos, mediram os peitos, somaram os peitos, e peitos grandes pontudos, e dividiram os peitos: duas metralhadoras cada. Muita munição. Uma e outra com cada muque! E vastraram dois metros por cada. Uma ia acabar ali mesmo e sem demora e fim de papo.
         De supetão as desafiantes se engalfinharam como duas ex-quatis, como duas ex-jacaroas, como lutadoras de sumô. Se agarraram mesmo pelos cabelos, rolaram no pó vermelho, entre as pedras soltas, folhas secas, pedacinhos de pau que cortavam a pele grossa e encardida. Rugiram como duas extintas cobras-corais, chiaram como duas ex-onças-pardas e bufaram como duas ex-bugias no cio. Estava tão escabrosa a peleia que... sopapos pescoções telefones rasteiras rabos-de-arraia... que parecia briga na tribo e era mesmo briga na caverna no tempo dos corcundas homens-macacos.
E Beatriz acertou um soco na boca da aldeã. Esta perdeu dois dentes importantes e na hora. Foi, pegou os dentes olhou os dentes e fuzilou o olhar de extinto uiraçu. Então, a aldeã mesma correu até ali e agarrou uma vara seca de taquara-poca. Beatriz agarrou o seu espeto de mangabeira. As duas cruzaram espadas como nos filmes de ex-cavaleiros galopantes orientais medievais. Beatriz acertou a perna da outra, onde saltou desenhado um vergão enorme, tipo paisagem de cordilheira tipo serra que antes havia por lá acolá uma serra Parima. A aldeã acertou uma bambuzada na orelha da Beatriz, onde tirou uma lasca de isca, e doeu!...
Com toda a raiva que podia segurar entre os dentes, Beatriz deu uma voadora nos peitos da outra e a atirou a três metros e tanto. A aldeã fuzilou aquele olhar de extinta cascavel choca, armou as garras de fera chifruda, saiu na corrida e pulou sobre Beatriz. Beatriz levou um choque e ambas rolaram agarradas no meio do pó vermelho e das pedras soltas e folhas secas e gravetos pontiagudos que feriam sem piedade. Ainda a aldeã punhou duzentas vezes a cara de Beatriz e o nariz de Beatriz que ficou uma amassada batata.
Mesmo tonta, Beatriz conseguiu alcançar uma pedra das médias e bateu bateu na testa da oponente que sentiu muito, que ouviu algo trincar. A aldeã caiu para trás ou se jogou como ex-jaguatirica felina ferida. E muito rapidamente, nem deu pra ver direito, agarrou também de uma pedra e jogou para os lados de Beatriz. Beatriz virou a cara para nem levar em cheio no meio dos olhos mas... a pedra ricocheteou num toco de ex-jenipapo-bravo e voltou mais violenta e acertou as suas costas largas quentes, poooque!... e doeu mesmo!
Com a forte pancada nas costas, Beatriz foi ao solo com tudo. Foi também se arrastando até um galho seco de jeniparana. Voltou, então, com muita gana e disposta a quebrar tudo. Virou o corpo para pegar mais força nos braços. E acertou a aldeã nas mãos, nos braços e nas costas e... cada lambada!... cada varada!... cada galhada!... cada taquarada, taaau!... e, segundo se percebeu ali pertinho e se ouviu os estalos, doeu mesmo!
E as duas voltaram a se agarrar pelos cabelos, rolar no pó vermelho, rolar sobre o cascalho que riscava o couro, punhados de cabelos arrancados, unhas quebradas, a maquilagem de vermelho escorrendo no suor, as orelhas sangrando dos brincos arrancados, o batom manchado, os beiços abertos, as bocas babando espuma amarronzada... Péssimo péssimo mesmo foram as tais e quais bocas manchadas, bocas babando, lábios cortados...
         Por isso mesmo surgiu uma faca enferrujada rebrilhando na pouca claridade da hora incerta, ali no meio da parada das duas lutadoras, no meio do forrobodó. A aldeã viu primeiro. Foi ajudada pela malícia da política local de interessados puxa-sacos. E foi mais rápida.
         E golpeou Beatriz dez vezes aqui, ali no fígado, entre os rins... vinte vezes golpeou, golpeou... furou o baço, o fígado, o coração... e no antebraço, no crânio, na coxa direita... golpeou facadas pelos séculos e séculos. Deixou a faca dependurada para enfeite, para lembrança, para contrapeso, para relembrança. E a aldeã ainda rosnou nheengatu fanhosa como extinta jararaca, roncou:
         - Vai, cramulhona! Vai ser bucha de canhão assim lá em casa!
         Vendo Beatriz morrer, percebendo B parada deitada de olhos abertos na poeira vermelha, Rei dos atroari caiu também para trás no meio daquela rua descalça. E assim Rei dos caeté nem quis mais levantar, nunca mais se erguer e reinar. O Rei dos pano empanado de poeira cabelo duro olhar sem sombra. Rei dos zoé tinha os braços de extinto falcão-de-peito-vermelho umas parcas asas de avião mas nem aproveitou mais nada. Rei dos furniô tombou durinho de longuinho sobre a tábua de bater de passar, pooofe!...