domingo, 29 de outubro de 2017

Contos de Santa Luzia (21)

                                               

            Depois, um dia inseto, e por qualquer “se”, a menina se tornou uma moça - isso com força e vontade e aptidão. Aí, sua ilusão apareceu tresandou e passou ao comportamento do dia a dia. E ela não se preocupou mais com nada a não ser encontrar um namorado um chamego um ficante. Se revestiu de maquiagem dourada. E respirou, soprou, fungou, tossiu. E pensou viagens aleatórias. Quem entende? Agora uma coisa indiferente: ela se mostrou completamente outra.
            Cogitou de si para si remoeu, e suspirou:
            - Sei o que hei...
            Com quatorze anos e a dissimulação nos olhos azeitonados... Quando olhava não somente olhava, mas sugeria - cada um que entendesse o que quisesse.  Assim, um olhar enviesado, matreiro, manhoso, vesgo, indeterminado, três por quatro. Acompanhado de esgar debochado, sensual, venenoso, sugestivo, intercalado, inconcluso. Quem entende? E principalmente, ela não sabia o que pensar.
            A moça se lembrava sempre que quando era menor seu padrasto a jogava para cima, pegava na volta; e a jogava para riba, amparava na queda. O padrasto repetia essa palhaçada, e os dois se entendiam muito. Ela gritava de assustada, o padrasto uivava de tolo.
            O nome da moça: Batota. E ela procurava o Solstício. Andava na rua Única pegando Solstício na cara na cabeça. Descobriu o perigo que o Solstício cometia fazia a sua pele. E o Solstício até comprovou. Talvez pudessem andar juntos e uma para o outro. Talvez tivessem acontecido mesmo um para a outra. O Solstício para o calor; a Batota para o dourado.
E verão e calor e mormaço e poeira vermelha eram fenômenos truques que não faltavam na vila Santa Luzia. Os dias mais longos, as noites assim mesmo alaranjadas.
            Batota passou para o meio da única rua, rua Única, rua ali da aldeia de Santa Luzia. O pó vermelho encobrindo empanando empenhando tudo. O Solstício derretendo tudo. Não chovia há uma década. O calor provocava sonolência, preguiça, miséria, dor de cabeça. Batota se deitou perto da capoeira seca, no meio da areia cinzenta, pernas abertas para provocar e chamar para si toda a atenção do Solstício.
            E o Solstício veio logo veio pronto e com tudo. O Solstício, aliás, nunca saiu dali do lugar. O Solstício fazia o verão inventava o deserto, e entrou em contato com ela. Logo o Solstício foi para o zênite, e não saiu mais do meio-dia, e das doze badaladas. O dia quente tonteando todas as coisas. Solstício implicante. O dia abafadão, o oco meio encoberto de fuligem vermelha. O Solstício um forno, um caldeirão, uma fogueira, um vulcão.
            Uma mula sem cabeça que caiu na esparrela torturada atada pela perna presa na armadilha no meio do capoeirão incinerado.
            Batota torrava ao Solstício quanto podia. O corpo era dela... as partes também... ninguém tinha nada com isso. Nuvens de poeira vermelha às vezes atrapalhavam. E Batota abraçada ao Solstício, ao calor, ao dourado. Tudo podia acontecer com ela. E disse isso a si mesma e muita coisa mais:
            - A culpa não é só minha, minha.
            As árvores ressequidas e terminadas pensavam, pouco pensavam, lá entre com elas as desmilinguidas capebas-mirins: “Essa moçoila quer algo mais e uns quebrados.”
E passou um redemoinho dirigido por um saci que gritou, que ferveu, que já foi perguntando:
            - Aonde ela quer ir e chegar?
            E outro redemoinho de poeira irônica estacionou ali e respondeu:
            - É, eu nem duvido. Esta pergunta é desimportante.
            Quando Batota menos esperava, fosse à hora que fosse, pronto... uma pedra repicava no chão perto dos seus pés. Eram decerto os incertos moleques que estilingavam.
            À noite Batota namorava a Birra. Não perdia tempo. Podia ser da janela, ou do telhado de palha seca de ex-bacabaís, ainda mesmo do meio da rua Única. Olhava a Birra no alto, enfim. Quando as nuvens de poeira não eram tão fechadas, uma vez. Noites mais ilegais, a Birra aparecia a Birra prometia e a Birra confundia dentro dos seus olhos. E emaranhava o seu cabelo tinto de poeira amarela. Agora, ali na noite, Batota se mostrava outra.
            Nas noites os lobisomens se atrasavam e confundiam as horas. As matintapereras torciam o pescoço. Imagens rápidas, riscos de fogo e gás incendiando, ruídos camuflados dentro da escuridão, flashs acompanhados de grunhidos invisíveis. Rastos de sons não identificados. Presenças inventadas. Sensações mágicas, feiticeiras. Coisas indevidas. Eram os fantasmas da aldeoca. Eram entidades, elementos, patrocínios, e senhoras e senhores fantásticos. Eram rastos de pés descalços, eram riscos de rabos, marcas de dentes, eram impressões digitais, garatujas de garras, eram pegadas de patas, sinais de cascos.
            Um jurupari, encapotado na sua naturalidade de diacho, riscou com mais esta:
            - Outra vez essa Batota?
            O outro jurupari mais distante, já respondia:
            - É mesmo. É uma pergunta desinteressante.
            Batota, sardenta, penugens de cobre, cabelos de fogo, penugens nos braços e pernas. Os moleques e as molecas lhe atiravam paus, pedras, cacos de telha. Os pixotes a chamavam de mico-leão-da-cara-dourada. E Batota dizia ou gritava:
            - Vai ver que é!
            Batota, então, se escondia no capoeirão seco. Deitava ali à espera que o Solstício a consumisse, bronzeasse, lambesse, arretasse. Olhando o Solstício: bolo de fogo: carroça de fogo: serra circular de fogo. Fogo que engolia o deserto. Calor sufocante por dentro da poeira vermelha.
            Batota gritava desesperada, estonteada, furiosa, desnorteada, e surpresa:
            - Me coma inteira! Me lasque fogo! Me queime toda!
            Tanto tempo Batota ali no ex-roçado pegando o Solstício... O Solstício querendo lhe extrair o fígado. E ela pegou a tremer e a sofrer uma insolação. O Solstício querendo chupar seu fígado como por um canudinho feito de raio uv.
            Batota pegou fogo e o capoeirão queimou como gasolina. Não chovia nunca! E Batota levantou chamas enormes. O capoeirão subiu na fumaça.
Os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos correram para o incêndio. E não havia o que fazer ou desfazer. A estiagem conseguia provocar muitos desses incêndios perigosos e incontroláveis e criminosos e espontâneos e simultâneos.
            A Batota queimou até a boca da noite. Batota queimou até a medula. Aí, voltou, lábios queimados de Solstício, nariz pimentão vermelhão, pele assada de bronze e cobre. Olhos muito claros, muito abertos, e tipo peixe morto. Meninas dos olhos requeimadas também. Voltou para casa. No caminho pela trilha em zigue-zague tropeçou, se adiantou aos trambolhões e caiu, pofe!...
            Depois que se tornara uma moça, Batota vinha sentindo que também queria sair na noite. O vento terroso tentando pegar a sua mão. Procurando acobertar seus rastos. Ela procurava consertar a linha do cabelo, balançar a cabeça para os lados, sacudir os ombros para cima, ajeitar a linha dos olhos, arrumar a garganta, quase se engasgando, se engasgava, tossia, rufava, cuspia fora. De imediato lhe vinha à mente:
            - Onde já se viu!
E a Birra gostava dela, tanto que a enfeitiçava e a cobria de mitos e entes fantásticos. Assim, esse foi o motivo de Batota, às vezes - quando a caturrice incidia em certos dias da semana, sexta-feira, quando a caturrice varava as sombras das nuvens de poeira -, se transformar se modificar em mula sem cabeça.
Aí, era assim: pocotó! pocotó! e pocotó!... no meio da rua Única, pra cá e pra lá. Não importava a hora da noite. Trotava, mansa ou preocupada, pocotó! pocotó! e pocotó!... para cima e para baixo da única rua da aldeia de Santa Luzia.
            Dois anhangás-pitãs no alto do telhado de sapê da capela, comentando as coisas que viam e não viam, comentaram esportivamente, o primeiro falou:
            - Mais uma vez... olhe lá... a mula sem cabeça, na dela!
            O outro rabinho de escorpião, perguntou:
            - Perdeu a cabeça?
            - É, ora! É uma pergunta muito irreprochável.
            E um arbusto seco na capoeira ressequida ex-cipó-rego balançou pra cá e pra lá com o vento empoeirando, pensando: “Só não quero que venha pôr fogo na capoeira, por acaso!”
            Batota voltava no fim da noite para casa, quase claro, quase tonta. E de repente, os olhos vazios, vazios. O dia nascendo igual por dentro do deserto de poeira marrom. Ela com os cabelos cobertos de fuligem, folhas secas, pauzinhos secos grudados.
Pois a Batota ia passando e um, vuuuu!... raspou muito perto da sua orelha esquerda. Decerto uma pedra atirada com incerta atiradeira por um desses guris aloprados.
            Quando Batota saiu pra rua às dez horas em ponto, procurou no oco o tal e qual de Solstício... O Solstício dominando o mundo. Uma dupla de matintapereras, discutiu:
            - Por que dez em ponto?
            - Ora, o que é que você quer?!
            - Se bem quê!
            - Qual o quê!
            Batota, dois seios em início de carreira, descia uma pequena colina de areia, descia pelo outro lado. O Solstício muito forte quente intenso perverso. Do outro lado já os guris bobos a estilingaram. Geralmente era isso o que acontecia. Naquele dia também. E foi num dia que até lhe acertaram nas costas. Outra vez ela correu, tropeçou, abriu os braços para aterrissar, caiu e aterrou, pofe!...
De uma feita, Batota atravessou pelo atalho da capoeira seca, os pixotes no seu encalço, o Solstício olhando tudo, e o Solstício a incendiou. Aí, foi então, que Batota virou redemoinho de chamas círculos de fuligens. Parecia o saci endiabrado, em dia brabo, em dia de espiral de pó vermelho. Mas, sei lá, a capoeira ardeu e os moleques não tiveram mais chance alguma.
            O Solstício era rasteiro, chato, sem conversa, e queimava muito mal as meninas dos olhos da Batota. O Solstício vinha buscar na cama caso Batota não pensasse em se levantar tão cedo. O não deixava por menos. O Solstício queria porque queria todas as horas do dia.
            Batota conheceu um culepe de palavras surreais. Mas pra quê! O Solstício ficou borbulhando, ardendo, frigindo, torrando os seus ancestrais loucos ciúmes.
O crila falava coisas aéreas, aleatórias, alheias, e assim, destravou:
            - Valores, normas e padrões... Quebrados, decimais e proporções... Colônia, colonizador, colono, colonização...
            A desprendida Batota gostou do piá por vários motivos. E o catraio era cheio de truques e não só com as palavras etéreas. Já o Solstício não gostou nada. O Solstício espiava pelas frestas e frinchas. O guri era endemoniado, e Batota preferia fazer pirraça. O Solstício, um marmanjão com invejas de um guri merdinha seca! Dito e feito.
            Pois a mula sem cabeça se enleou numa corrente de armadinha, um pé destroncado doendo muito, e ficou presa torturada abandonada esgoelada no calor sufocante.
            Três anos se passaram. Sem chuva, que já durava um milênio.
            E o Solstício ficou insuportavelmente quente. E a noite ficou fria. E Batota pegou gripe. Pegou resfriado e cuspiu e enxugou o nariz com as costas da mão e ardeu. Cuspiu no chão, cuspiu para o outro lado, cuspiu mais uma vez. Batota respirava com dificuldade, espirava e cuspia.
            O Solstício às vezes acordava de péssimo humor, envolto em nuvens de pó vermelho, e queria saber, perguntando, indagou:
            - O que você pensa de mim?
            E Batota impaciente, ou manhosa, ou sestrosa, falou:
            - Hoje não, que estou vazia.
            À noite Batota saía, naquela noite Batota saiu, como quase sempre saía. A noite da aldeia de Santa Luzia era quase nada, deserta, secreta. Então era mesmo deserta. Por isso ninguém viu Batota sair. Nuvens de poeira. Talvez ninguém a tenha revisto mesmo. Só ouviram o tal patear de, pocotó! pocotó! e pocotó!... Depois de uma parada estacionada outra vez o, pocotó! pocotó! e pocotó...
            Batota viu a Birra no oco e bateu os dentes. A caturrice não tinha som. Som tinham uns rastos de lobisomem. Som tinham uma com duas matintapereras riscando gemendo nos seus voos corridos e rasantes. A caturrice tinha, isso talvez, uma cor normal de poeira roxa. Tinha gestos livres e soltos e secos. A caturrice que banhava seus cabelos de vermelho. A caturrice que banhava a Batota de poeira. A que jogava sombras na galáxia. A com sexta-feira e pânico de calças curtas. A caturrice noturna com fantasminhas nada calmos.
            A Birra chegou perto e suspirou, rasgou:
            - Como você é dourada, Batota!
            - Dourada?
            - Dourada com gosto de terra, no ponto.
            - Ponto?
            - Ponto, pois não! Ponto maduro com baba escorrendo pelos cantos da boca.
            - Escorrendo?
            - É, escorrendo porque muito de salivar.
            - Salivar?
            - Salivar no duplo sentido.
            Os aldeões e as aldeãs ouviam o trote, o passo, o pocotó! pocotó! e pocotó!... da Batota. Os vilões se reviravam na rede de dormir sem poder deixar de ouvir. As vilãs espiavam pelas frestas das janelas pequenas e portas tortas. Espiavam quietos, psiu!... E sabiam que podiam atirar, acertar e matar a mula sem cabeça. Porém, se errassem também sabiam que a vingança seria horrorosa horripilante. E mais. Para matar mesmo uma mula de padre só com um tiro de bala de prata entre os olhos da bichorna. E quede os olhos da mula sem cabeça, hein?!
Assim, por essa pata ou esse pé, estava a dúvida dos aldeões e das aldeãs em não interferir no rumo notívago da Batota. Até porque, os vilões e as vilãs eram todos iguais e parecidos com seus ancestrais. Ou seja, não há o que acrescentar nem tirar de manhosos e matreiros e ardilosos e sagazes e perspicazes.
            Era meia-noite, e era a hora h da Batota correr para cima e para baixo da rua Única, relinchar e escoicear e nitrir, pocotó! pocotó! e pocotó...
Um jurupari quase cego, comentou:
            - Essa bichorna é folgada.
            O outro jurupari ali perto, quase surdo, replicou:
            - Mas ela não morrerá nunca, então?
            - Taí, meu! Esta é uma pergunta indeterminada.
            Uma ex-paineira, cabeleira desgrenhada e seca, pensou: “Esta Batota tem mesmo o cheiro de areia madura ensolarada, no ponto, ou seja!
            Já Batota estava deitada pegando o Solstício pelas barbas ali no meio do capoeirão encarvoado. Grande de seios, larga de boca, firme de pernas, feiticeira de olhos. Seios pontudos e firmes como dois espetos de pau. Boca sedenta de lábios grossos.
Uns moleques resolveram incomodá-la de perto. Foi pra já! Batota os viu ou os adivinhou chegando, e tentou correr para o outro lado. Correu tudo que podia, mas foi pouco. Tropeçou, testavilhou e caiu, pofe!... Os moleques a pegaram pelo cabelo ruivo. Aí, foi difícil para Batota aguentar. Eram quantos mesmo? Uns oito ou nove. E puxaram o cabelo vermelho dela; e cuspiram na bunda lá dela; e apertaram os mamilos lá dela; e enfiaram os dedos nos buracos; e mostraram os vários e variados burrinhos tortos lá deles; e fizeram ela correr e se rasgar toda nos galhos secos espinhentos da capoeira.
Agora, uma coisa. O Solstício viu tudo e não fez nada. É mesmo? É sério! O Solstício olhou, viu, viu meio entre nuvens de poeira vermelha, e não fez nada. O Solstício decepcionou. Quem entende? Quem sabe? O Solstício sempre quer parecer esse ser incerto.
            Um arbusto comum miserável uirari balançando por causa da rusga, por causa do entrevero, pensou: “Por que o Solstício, esse nosso chefe do dia insuportável, praticamente um deus terrível, não a defendeu?”
            Alguns dias se passaram. Não chovia há dez anos.
E Batota não perdia o quefazer para chegar no meio do capoeirão minado, onde se sentia aguardada espiada, e se deitar toda pelada, relaxada, em x, e esticada ao... Solstício. E naquela manhã de oco entupido de pó, não fez diferente, não agiu por menos. Se estendeu de comprido de estrela mãos espalmadas no meio do capoeirão queimado.
Foi ali foi dali, nessa moleza, que os culepes da vila a encontraram. Foi cercada e não teve como escapar. Lutou lutou, mas eles a pegaram de jeito. Tentou correr, correu, tropeçou, titubeou e caiu, pofe!... Parecia repeteco do filme de outro dia, não?! Jogaram-na numa rede e a penduraram no alto, num galho queimado de ingazeira seca, penduraram-na de pés amarrados de cabeça para baixo. E fizeram cócegas e deram mordidas e arranharam e beliscaram até vê-la se mijar nas bermudas, e invertida.
            Batota ficou esquecida lá presa na rede, suspensa no galho, enovelada na rede, emaranhada nas malhas da armadinha: como um ponto de exclamação. O tal e qual Solstício indiferente e inclemente e expatriado.
Dois sacis comentaram o descaso entre si:
            - Praticamente condenada à morte.
            O outro separou estendeu diante de si em pequenos tabletes a sua ideia fantástica e falou, perguntando. Perguntou:
            - Será possível antes das dezessete horas?
            - É, seu! É uma pergunta e tanto ou quanto imponderável.
            Batota passou a tarde toda presa nas malhas da rede da teia. E veio a noite. Saiu a Birra. A Birra a convidou. Batota se metamorfoseou em mula sem cabeça. Com as labaredas próprias dela, queimou as malhas que a prendiam e despencou no chão, caiu assim, como um peso morto, escorregou, pofe!... Na queda sofreu uma pequena escoriação torção numa das patas, torceu o tornozelo. Foi rumo da rua Única da aldeia manquitolando capengando, poco-tó! poco-tó! e poco-tó!...
            Dia tomado de fuligem poluição escura tempestade de areia. Que calor! Que mormaço! Que bafão! Não chovia há anos. As ex-capitaris apontavam seus dedos carcomidos secos queimados para o oco.
A impaciente Batota estava histérica, pegando fogo, suando por todos os poros. Olhou pelo buraco da janela, viu os moleques na rua perseguindo um piá deficiente. O piá tortinho chorava lágrimas sujas de pó. O piá perseguido se encolhia de nojo. O sorteado sabia que estava pelo seu dia d. E o piá latia pedindo por sos. E logo o maltratado tropeçou desequilibrou abriu os braços num crucifixo e caiu, pofe!...
            Ao acordar pela manhã, então, Batota sentiu a barriga. É, estava diferente. Quiçá desinteressante. Alguma coisa lhe acontecia. Assim mesmo, saiu para andar pela rua Única e talvez pela capoeira morta. Chegou num lugar qualquer e vomitou tudo que sabia, tudo que podia e mais uns quebrados.
O Solstício viu tudo e a acompanhou. O Solstício sempre seguia de perto de junto encima dos calcanhares lá dela; pegando nos cabelos de fogo e medindo a sombra lá dela; lambendo a pele bronzeada dourada acariciando a penugem lá dela.
Aí, mais tarde, não muito, o Solstício levou Batota para o seco capoeirão. Batota subiu um morrinho e o Solstício foi atrás no rasto e no encalço. Ali mesmo o Solstício a incendiou na barriga. Batota se esparramou se derreteu cochilou. E lá naquela hora, Batota se transformou em outra.
            A Birra cuidava da escuridão. A Birra tão estouvada como uma aparição fantástica, assustadora, cheia, sempre atrás das nuvens vermelhas pesadas grossas. A Birra peculiar e sui generis.
E Batota, muito à vontade, andou pela vila, pocotó! pocotó! e pocotó!... A Birra a encontrou grávida. A Birra lhe apinchou um balde de poeira vermelha. E Batota estava mesmo isso aí de barriga redonda bojuda. Toda coberta de poeira prateada. Agora, me diga: e naquela certa hora já se mostrava outra?
            A Birra ainda quis ter certeza:
            - E isso aí, Batota?
            - Foi o Solstício, é.
            Então, a Birra satélite, lunática, luneta...
            E o Solstício mormaço, soalheira, bafão...     
            A mãe de Batota perguntou mesmo do seu jeito, apontando para a barriga da filha, chamou atenção injuriou e inquiriu:
            - Pode me dizer algo sobre essa sua tua barriga? Posso pretender entender alguma coisa sobre isso aí assim desse jeito graúdo abaulado arredondado?
            Batota olhou a própria barrigona, pôs o dedo no umbigo saltado, e pensou, disse, falou mesmo, interrogando:
            - O quê?
            Aí veio o padrasto, e se sentou de pernas abertas na cadeira de braços, e inquiriu:
            - Como assim? Qual é o “o quê?”
            E Batota, segurando com ambas as mãos os enormes seios fartos fartos volumosos volumosos, pensou e disse: vamos ouvi-la:
            - E-videntemente!... E-vi-den-te-mente!...
            Dia raivoso, caloroso dia. Batota, barrigão, cruzou a rua poeirenta, chegou na pracinha. Uma moribunda capeba-do-campo resolveu pensar fraco sufocada: “Por que sair de casa pegando esse Solstício todo na cabeça?”
            Dois sacis, dois redemoinhos, dois diachinhos, duas arruaças, entre si:
            - Ela vai ao capoeirão seco.
            - Quando volta nem sei.
            - Retornará somada ou dividida? Voltará hoje?
            - Tão-só e isto é. São umas deselegantes perguntas imperfeitas.
            Batota andou rumo do capoeirão calcinado, despreocupada, mãos nas cadeiras, cabelos longos caídos nos ombros. Ela ainda se preparou para o Solstício. E o Solstício a seguiu lá de cima, entre a poeira vermelha, raspando no teto do oco do côncavo.
            No capoeirão desmilinguido, num monte de pedras, Batota se sentou. O Solstício queimava. Uns pivetes escondidos atrás das capoeiras tortas mandaram fundadas. Uma pedra a acertou no ombro direito. Batota sentiu muita dor ali na hora e tal. Entortou, desmaiou, caiu de frente, pofe!... e rolou no chão.
            Solstício, o fabuloso verão, já ia solto. Eram o quê... dez horas!
Batota acordou toda doída, toda moída, toda coberta de pó vermelho e pronta, toda dolorida, no ponto para dar cria. E foi... umas dores... e umas dores por dentro querendo se abrir... contrações e dores rascantes querendo rasgar... Batota ficou sozinha nessa hora do começo ao fim. Cortou o cordão com uma pedra batendo contra outra ou com os dentes.
            E era um guri de asas de fogo. Um pixote com asas de pontas douradas. E as asas cobertas de poeira. Um curumim enrugado curvado sobre si. Um pivete de olhos de fogo. Um culepe de asas douradas. Um crila empoeirado. Um catraio empanado maquiado de poeira cinzenta.
            Batota o reconheceu, e o aconchegou no peito farto farto, lhe deu os seios volumosos volumosos, e o protegeu cobrindo com os braços, cobrindo com os cabelos ruivos ou empoeirados. Não chovia mesmo há duzentos mil anos-luz.
A Batota já sabia que a dita seria difícil naquela aldeia seca do meio do deserto abandonado. Não caía água há anos e anos. Assim, decidiu se livrar do filhote. Tentou incentivá-lo a partir para o espaço sem fim, para a galáxia sem começo, rumo às estrelas sem nome, para outro planeta desconhecido, para o meio do Solstício de verão:
            - Vá! Vá para o teu pai! Vá para o teu pai Solstício! Vá para onde você quiser e se sentir potente e útil! Vá e vire uma estrela inédita!
            E jogou o piá no ar como se joga um punhado de poeira. Como se joga uma pedra. O guri voou já pronto e insatisfeito. Como se joga uma paina. Titubeante no começo, sem prática no início, sem destino, mas sempre para cima, para o alto, para o Solstício. Nem precisou olhar para trás. E o pixote alado, então, de fato voou para o centro do Solstício naquele verão interminável. Agora, àquela hora ali, Batota se mostrava outra.
            Já o padrasto foi procurá-la no meio do capoeirão falido e chegou na hora. Encontrou a Batota naquela situação de moleza e naquela situação de sem rumo. Discutiram longamente como dois torcedores de times rivais. Por quê? Porque ninguém tinha razão. Veja por quê:
            - Eu já esperava e não pensei nisso...
            - Pois não.
            - Também nem sei...
            - Por isso mesmo...
            - E mais do que isso...
            - A quem?
            - Não há que ver.
            - De início...
            De certo modo, então, o padrasto pegou o bebê - que dormia de barriga vazia - e o levou para a palhoça. Eram mais ou menos umas 14h e 41min. O chão estalando de seco. O solo rachado trincado. As pedras estourando de quentes.
Batota, tonta de sono, tonta de dores recém-passadas, tonta de emoções desencontradas, tonta de tanto ficar ao Solstício, zonza de perder o filhote para o espaço sideral... correu atrás. Correu atrás como pôde. Os braços jogados pra frente das pernas. Correu como uma tonta mesmo. Correu, tropeçou, tentou se equilibrar, sobrou, e caiu, pofe!...
            O padrasto chegou primeiro à pracinha. Escolheu ao acaso uma imensa paineira seca. Uma mamica-de-cadela barriguda e sedenta. Depois, com ferramentas e esforço físico, abriu um buraco no tronco seco e barrigudo da ex-árvore. Feito isso, o ritual, na frente de todo o povinho da aldeia - inclusive de Batota que já havia chegado e estava ali toda sem vontade -, fez mais e foi mais em frente e enfiou a criança no cerne da ex-árvore. A cria resmungou dormindo, nhã-nhã-nhãs!... Então, o padrasto reparou a casca da ex-paineira de volta no lugar. Tapou o buraco muito fortemente, costurou, emendou, pregou, grampeou, amarrou, colou, lacrou, apertou muito apertado. Será que o bebê ia sobreviver na árvore exangue exaurida exausta? E se sacudir pelos galhos secos? E murmurar pelas folhas extintas? E sair pelas sementes falidas?
            A noite surgiu e a Birra veio pressurosa visitar de perto o mundo conhecido e mal pago. Batota estava sentada junto da ex-árvore barriguda. A Birra sumia entre as nuvens cinzentas, ou mais baixa ou mais alta, entre as nuvens vermelhas.
            Uma pedra não autorizada soprou, vu-huuu!... aterrissou cantou junto do pé da moça. Sem incerteza se foi um moleque arteiro atirando com bodoque. Podia ser mesmo, por aquelas bandas!
A mula sem cabeça, pocotó! pocotó! e pocotó!... pateava ali em torno da ex-paineira grávida. E depois escoiceou a ex-árvore tentando reaver o rebento. Tentando reaver o seu bebê. Não deixou a aldeia dormir aquela noite e outras noites e noites.
E a mula de padre tinha a memória derretida. Por onde andava naquelas noites sem estrelas sem lua sem nada? De repente caiu num buraco e ficou presa torturada na ratoeira. E se mostrou transformada outra.
  


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