Depois,
um dia inseto, e por qualquer “se”, a menina se tornou uma moça - isso com
força e vontade e aptidão. Aí, sua ilusão apareceu tresandou e passou ao
comportamento do dia a dia. E ela não se preocupou mais com nada a não ser
encontrar um namorado um chamego um ficante. Se revestiu de maquiagem dourada.
E respirou, soprou, fungou, tossiu. E pensou viagens aleatórias. Quem entende?
Agora uma coisa indiferente: ela se mostrou completamente outra.
Cogitou
de si para si remoeu, e suspirou:
-
Sei o que hei...
Com
quatorze anos e a dissimulação nos olhos azeitonados... Quando olhava não
somente olhava, mas sugeria - cada um que entendesse o que quisesse. Assim, um olhar enviesado, matreiro, manhoso,
vesgo, indeterminado, três por quatro. Acompanhado de esgar debochado, sensual,
venenoso, sugestivo, intercalado, inconcluso. Quem entende? E principalmente, ela
não sabia o que pensar.
A
moça se lembrava sempre que quando era menor seu padrasto a jogava para cima,
pegava na volta; e a jogava para riba, amparava na queda. O padrasto repetia
essa palhaçada, e os dois se entendiam muito. Ela gritava de assustada, o padrasto
uivava de tolo.
O
nome da moça: Batota. E ela procurava o Solstício. Andava na rua Única pegando
Solstício na cara na cabeça. Descobriu o perigo que o Solstício cometia fazia a
sua pele. E o Solstício até comprovou. Talvez pudessem andar juntos e uma para o
outro. Talvez tivessem acontecido mesmo um para a outra. O Solstício para o calor;
a Batota para o dourado.
E verão e
calor e mormaço e poeira vermelha eram fenômenos truques que não faltavam na
vila Santa Luzia. Os dias mais longos, as noites assim mesmo alaranjadas.
Batota
passou para o meio da única rua, rua Única, rua ali da aldeia de Santa Luzia. O
pó vermelho encobrindo empanando empenhando tudo. O Solstício derretendo tudo.
Não chovia há uma década. O calor provocava sonolência, preguiça, miséria, dor
de cabeça. Batota se deitou perto da capoeira seca, no meio da areia cinzenta,
pernas abertas para provocar e chamar para si toda a atenção do Solstício.
E
o Solstício veio logo veio pronto e com tudo. O Solstício, aliás, nunca saiu
dali do lugar. O Solstício fazia o verão inventava o deserto, e entrou em
contato com ela. Logo o Solstício foi para o zênite, e não saiu mais do meio-dia,
e das doze badaladas. O dia quente tonteando todas as coisas. Solstício
implicante. O dia abafadão, o oco meio encoberto de fuligem vermelha. O Solstício
um forno, um caldeirão, uma fogueira, um vulcão.
Uma
mula sem cabeça que caiu na esparrela torturada atada pela perna presa na
armadilha no meio do capoeirão incinerado.
Batota
torrava ao Solstício quanto podia. O corpo era dela... as partes também...
ninguém tinha nada com isso. Nuvens de poeira vermelha às vezes atrapalhavam. E
Batota abraçada ao Solstício, ao calor, ao dourado. Tudo podia acontecer com
ela. E disse isso a si mesma e muita coisa mais:
-
A culpa não é só minha, minha.
As
árvores ressequidas e terminadas pensavam, pouco pensavam, lá entre com elas as
desmilinguidas capebas-mirins: “Essa moçoila quer algo mais e uns quebrados.”
E passou um
redemoinho dirigido por um saci que gritou, que ferveu, que já foi perguntando:
-
Aonde ela quer ir e chegar?
E
outro redemoinho de poeira irônica estacionou ali e respondeu:
-
É, eu nem duvido. Esta pergunta é desimportante.
Quando
Batota menos esperava, fosse à hora que fosse, pronto... uma pedra repicava no
chão perto dos seus pés. Eram decerto os incertos moleques que estilingavam.
À
noite Batota namorava a Birra. Não perdia tempo. Podia ser da janela, ou do
telhado de palha seca de ex-bacabaís, ainda mesmo do meio da rua Única. Olhava
a Birra no alto, enfim. Quando as nuvens de poeira não eram tão fechadas, uma
vez. Noites mais ilegais, a Birra aparecia a Birra prometia e a Birra confundia
dentro dos seus olhos. E emaranhava o seu cabelo tinto de poeira amarela.
Agora, ali na noite, Batota se mostrava outra.
Nas
noites os lobisomens se atrasavam e confundiam as horas. As matintapereras
torciam o pescoço. Imagens rápidas, riscos de fogo e gás incendiando, ruídos
camuflados dentro da escuridão, flashs acompanhados de grunhidos invisíveis. Rastos
de sons não identificados. Presenças inventadas. Sensações mágicas,
feiticeiras. Coisas indevidas. Eram os fantasmas da aldeoca. Eram entidades,
elementos, patrocínios, e senhoras e senhores fantásticos. Eram rastos de pés
descalços, eram riscos de rabos, marcas de dentes, eram impressões digitais, garatujas
de garras, eram pegadas de patas, sinais de cascos.
Um
jurupari, encapotado na sua naturalidade de diacho, riscou com mais esta:
-
Outra vez essa Batota?
O
outro jurupari mais distante, já respondia:
-
É mesmo. É uma pergunta desinteressante.
Batota,
sardenta, penugens de cobre, cabelos de fogo, penugens nos braços e pernas. Os moleques
e as molecas lhe atiravam paus, pedras, cacos de telha. Os pixotes a chamavam
de mico-leão-da-cara-dourada. E Batota dizia ou gritava:
-
Vai ver que é!
Batota,
então, se escondia no capoeirão seco. Deitava ali à espera que o Solstício a
consumisse, bronzeasse, lambesse, arretasse. Olhando o Solstício: bolo de fogo:
carroça de fogo: serra circular de fogo. Fogo que engolia o deserto. Calor
sufocante por dentro da poeira vermelha.
Batota
gritava desesperada, estonteada, furiosa, desnorteada, e surpresa:
-
Me coma inteira! Me lasque fogo! Me queime toda!
Tanto
tempo Batota ali no ex-roçado pegando o Solstício... O Solstício querendo lhe extrair
o fígado. E ela pegou a tremer e a sofrer uma insolação. O Solstício querendo
chupar seu fígado como por um canudinho feito de raio uv.
Batota
pegou fogo e o capoeirão queimou como gasolina. Não chovia nunca! E Batota
levantou chamas enormes. O capoeirão subiu na fumaça.
Os aldeões e as
aldeãs e os aldeõezinhos correram para o incêndio. E não havia o que fazer ou
desfazer. A estiagem conseguia provocar muitos desses incêndios perigosos e
incontroláveis e criminosos e espontâneos e simultâneos.
A
Batota queimou até a boca da noite. Batota queimou até a medula. Aí, voltou,
lábios queimados de Solstício, nariz pimentão vermelhão, pele assada de bronze
e cobre. Olhos muito claros, muito abertos, e tipo peixe morto. Meninas dos
olhos requeimadas também. Voltou para casa. No caminho pela trilha em
zigue-zague tropeçou, se adiantou aos trambolhões e caiu, pofe!...
Depois
que se tornara uma moça, Batota vinha sentindo que também queria sair na noite.
O vento terroso tentando pegar a sua mão. Procurando acobertar seus rastos. Ela
procurava consertar a linha do cabelo, balançar a cabeça para os lados, sacudir
os ombros para cima, ajeitar a linha dos olhos, arrumar a garganta, quase se engasgando,
se engasgava, tossia, rufava, cuspia fora. De imediato lhe vinha à mente:
-
Onde já se viu!
E a Birra
gostava dela, tanto que a enfeitiçava e a cobria de mitos e entes fantásticos.
Assim, esse foi o motivo de Batota, às vezes - quando a caturrice incidia em
certos dias da semana, sexta-feira, quando a caturrice varava as sombras das
nuvens de poeira -, se transformar se modificar em mula sem cabeça.
Aí, era assim:
pocotó! pocotó! e pocotó!... no meio da rua Única, pra cá e pra lá. Não
importava a hora da noite. Trotava, mansa ou preocupada, pocotó! pocotó! e
pocotó!... para cima e para baixo da única rua da aldeia de Santa Luzia.
Dois
anhangás-pitãs no alto do telhado de sapê da capela, comentando as coisas que
viam e não viam, comentaram esportivamente, o primeiro falou:
-
Mais uma vez... olhe lá... a mula sem cabeça, na dela!
O
outro rabinho de escorpião, perguntou:
-
Perdeu a cabeça?
-
É, ora! É uma pergunta muito irreprochável.
E
um arbusto seco na capoeira ressequida ex-cipó-rego balançou pra cá e pra lá
com o vento empoeirando, pensando: “Só não quero que venha pôr fogo na capoeira,
por acaso!”
Batota
voltava no fim da noite para casa, quase claro, quase tonta. E de repente, os
olhos vazios, vazios. O dia nascendo igual por dentro do deserto de poeira marrom.
Ela com os cabelos cobertos de fuligem, folhas secas, pauzinhos secos grudados.
Pois a Batota
ia passando e um, vuuuu!... raspou muito perto da sua orelha esquerda. Decerto uma
pedra atirada com incerta atiradeira por um desses guris aloprados.
Quando
Batota saiu pra rua às dez horas em ponto, procurou no oco o tal e qual de
Solstício... O Solstício dominando o mundo. Uma dupla de matintapereras,
discutiu:
-
Por que dez em ponto?
-
Ora, o que é que você quer?!
-
Se bem quê!
-
Qual o quê!
Batota,
dois seios em início de carreira, descia uma pequena colina de areia, descia pelo
outro lado. O Solstício muito forte quente intenso perverso. Do outro lado já os
guris bobos a estilingaram. Geralmente era isso o que acontecia. Naquele dia
também. E foi num dia que até lhe acertaram nas costas. Outra vez ela correu,
tropeçou, abriu os braços para aterrissar, caiu e aterrou, pofe!...
De uma feita, Batota
atravessou pelo atalho da capoeira seca, os pixotes no seu encalço, o Solstício
olhando tudo, e o Solstício a incendiou. Aí, foi então, que Batota virou
redemoinho de chamas círculos de fuligens. Parecia o saci endiabrado, em dia
brabo, em dia de espiral de pó vermelho. Mas, sei lá, a capoeira ardeu e os
moleques não tiveram mais chance alguma.
O
Solstício era rasteiro, chato, sem conversa, e queimava muito mal as meninas
dos olhos da Batota. O Solstício vinha buscar na cama caso Batota não pensasse em
se levantar tão cedo. O não deixava por menos. O Solstício queria porque queria
todas as horas do dia.
Batota
conheceu um culepe de palavras surreais. Mas pra quê! O Solstício ficou
borbulhando, ardendo, frigindo, torrando os seus ancestrais loucos ciúmes.
O crila falava
coisas aéreas, aleatórias, alheias, e assim, destravou:
-
Valores, normas e padrões... Quebrados, decimais e proporções... Colônia,
colonizador, colono, colonização...
A
desprendida Batota gostou do piá por vários motivos. E o catraio era cheio de
truques e não só com as palavras etéreas. Já o Solstício não gostou nada. O Solstício
espiava pelas frestas e frinchas. O guri era endemoniado, e Batota preferia
fazer pirraça. O Solstício, um marmanjão com invejas de um guri merdinha seca!
Dito e feito.
Pois
a mula sem cabeça se enleou numa corrente de armadinha, um pé destroncado
doendo muito, e ficou presa torturada abandonada esgoelada no calor sufocante.
Três
anos se passaram. Sem chuva, que já durava um milênio.
E
o Solstício ficou insuportavelmente quente. E a noite ficou fria. E Batota
pegou gripe. Pegou resfriado e cuspiu e enxugou o nariz com as costas da mão e
ardeu. Cuspiu no chão, cuspiu para o outro lado, cuspiu mais uma vez. Batota respirava
com dificuldade, espirava e cuspia.
O
Solstício às vezes acordava de péssimo humor, envolto em nuvens de pó vermelho,
e queria saber, perguntando, indagou:
-
O que você pensa de mim?
E
Batota impaciente, ou manhosa, ou sestrosa, falou:
-
Hoje não, que estou vazia.
À
noite Batota saía, naquela noite Batota saiu, como quase sempre saía. A noite
da aldeia de Santa Luzia era quase nada, deserta, secreta. Então era mesmo
deserta. Por isso ninguém viu Batota sair. Nuvens de poeira. Talvez ninguém a
tenha revisto mesmo. Só ouviram o tal patear de, pocotó! pocotó! e pocotó!...
Depois de uma parada estacionada outra vez o, pocotó! pocotó! e pocotó...
Batota
viu a Birra no oco e bateu os dentes. A caturrice não tinha som. Som tinham uns
rastos de lobisomem. Som tinham uma com duas matintapereras riscando gemendo
nos seus voos corridos e rasantes. A caturrice tinha, isso talvez, uma cor
normal de poeira roxa. Tinha gestos livres e soltos e secos. A caturrice que
banhava seus cabelos de vermelho. A caturrice que banhava a Batota de poeira. A
que jogava sombras na galáxia. A com sexta-feira e pânico de calças curtas. A caturrice
noturna com fantasminhas nada calmos.
A
Birra chegou perto e suspirou, rasgou:
-
Como você é dourada, Batota!
-
Dourada?
-
Dourada com gosto de terra, no ponto.
-
Ponto?
-
Ponto, pois não! Ponto maduro com baba escorrendo pelos cantos da boca.
-
Escorrendo?
-
É, escorrendo porque muito de salivar.
-
Salivar?
-
Salivar no duplo sentido.
Os
aldeões e as aldeãs ouviam o trote, o passo, o pocotó! pocotó! e pocotó!... da Batota.
Os vilões se reviravam na rede de dormir sem poder deixar de ouvir. As vilãs
espiavam pelas frestas das janelas pequenas e portas tortas. Espiavam quietos,
psiu!... E sabiam que podiam atirar, acertar e matar a mula sem cabeça. Porém,
se errassem também sabiam que a vingança seria horrorosa horripilante. E mais. Para
matar mesmo uma mula de padre só com um tiro de bala de prata entre os olhos da
bichorna. E quede os olhos da mula sem cabeça, hein?!
Assim, por
essa pata ou esse pé, estava a dúvida dos aldeões e das aldeãs em não interferir
no rumo notívago da Batota. Até porque, os vilões e as vilãs eram todos iguais
e parecidos com seus ancestrais. Ou seja, não há o que acrescentar nem tirar de
manhosos e matreiros e ardilosos e sagazes e perspicazes.
Era
meia-noite, e era a hora h da Batota correr para cima e para baixo da rua Única,
relinchar e escoicear e nitrir, pocotó! pocotó! e pocotó...
Um jurupari
quase cego, comentou:
-
Essa bichorna é folgada.
O
outro jurupari ali perto, quase surdo, replicou:
-
Mas ela não morrerá nunca, então?
-
Taí, meu! Esta é uma pergunta indeterminada.
Uma
ex-paineira, cabeleira desgrenhada e seca, pensou: “Esta Batota tem mesmo o
cheiro de areia madura ensolarada, no ponto, ou seja!
Já
Batota estava deitada pegando o Solstício pelas barbas ali no meio do capoeirão
encarvoado. Grande de seios, larga de boca, firme de pernas, feiticeira de
olhos. Seios pontudos e firmes como dois espetos de pau. Boca sedenta de lábios
grossos.
Uns moleques
resolveram incomodá-la de perto. Foi pra já! Batota os viu ou os adivinhou
chegando, e tentou correr para o outro lado. Correu tudo que podia, mas foi
pouco. Tropeçou, testavilhou e caiu, pofe!... Os moleques a pegaram pelo cabelo
ruivo. Aí, foi difícil para Batota aguentar. Eram quantos mesmo? Uns oito ou
nove. E puxaram o cabelo vermelho dela; e cuspiram na bunda lá dela; e
apertaram os mamilos lá dela; e enfiaram os dedos nos buracos; e mostraram os
vários e variados burrinhos tortos lá deles; e fizeram ela correr e se rasgar
toda nos galhos secos espinhentos da capoeira.
Agora, uma
coisa. O Solstício viu tudo e não fez nada. É mesmo? É sério! O Solstício
olhou, viu, viu meio entre nuvens de poeira vermelha, e não fez nada. O Solstício
decepcionou. Quem entende? Quem sabe? O Solstício sempre quer parecer esse ser
incerto.
Um
arbusto comum miserável uirari balançando por causa da rusga, por causa do
entrevero, pensou: “Por que o Solstício, esse nosso chefe do dia insuportável, praticamente
um deus terrível, não a defendeu?”
Alguns
dias se passaram. Não chovia há dez anos.
E Batota não
perdia o quefazer para chegar no meio do capoeirão minado, onde se sentia aguardada
espiada, e se deitar toda pelada, relaxada, em x, e esticada ao... Solstício. E
naquela manhã de oco entupido de pó, não fez diferente, não agiu por menos. Se
estendeu de comprido de estrela mãos espalmadas no meio do capoeirão queimado.
Foi ali foi
dali, nessa moleza, que os culepes da vila a encontraram. Foi cercada e não
teve como escapar. Lutou lutou, mas eles a pegaram de jeito. Tentou correr,
correu, tropeçou, titubeou e caiu, pofe!... Parecia repeteco do filme de outro
dia, não?! Jogaram-na numa rede e a penduraram no alto, num galho queimado de ingazeira
seca, penduraram-na de pés amarrados de cabeça para baixo. E fizeram cócegas e
deram mordidas e arranharam e beliscaram até vê-la se mijar nas bermudas, e invertida.
Batota
ficou esquecida lá presa na rede, suspensa no galho, enovelada na rede,
emaranhada nas malhas da armadinha: como um ponto de exclamação. O tal e qual
Solstício indiferente e inclemente e expatriado.
Dois sacis
comentaram o descaso entre si:
-
Praticamente condenada à morte.
O
outro separou estendeu diante de si em pequenos tabletes a sua ideia fantástica
e falou, perguntando. Perguntou:
-
Será possível antes das dezessete horas?
-
É, seu! É uma pergunta e tanto ou quanto imponderável.
Batota
passou a tarde toda presa nas malhas da rede da teia. E veio a noite. Saiu a Birra.
A Birra a convidou. Batota se metamorfoseou em mula sem cabeça. Com as
labaredas próprias dela, queimou as malhas que a prendiam e despencou no chão,
caiu assim, como um peso morto, escorregou, pofe!... Na queda sofreu uma
pequena escoriação torção numa das patas, torceu o tornozelo. Foi rumo da rua Única
da aldeia manquitolando capengando, poco-tó! poco-tó! e poco-tó!...
Dia
tomado de fuligem poluição escura tempestade de areia. Que calor! Que mormaço! Que
bafão! Não chovia há anos. As ex-capitaris apontavam seus dedos carcomidos
secos queimados para o oco.
A impaciente Batota
estava histérica, pegando fogo, suando por todos os poros. Olhou pelo buraco da
janela, viu os moleques na rua perseguindo um piá deficiente. O piá tortinho
chorava lágrimas sujas de pó. O piá perseguido se encolhia de nojo. O sorteado
sabia que estava pelo seu dia d. E o piá latia pedindo por sos. E logo o maltratado
tropeçou desequilibrou abriu os braços num crucifixo e caiu, pofe!...
Ao
acordar pela manhã, então, Batota sentiu a barriga. É, estava diferente. Quiçá desinteressante.
Alguma coisa lhe acontecia. Assim mesmo, saiu para andar pela rua Única e talvez
pela capoeira morta. Chegou num lugar qualquer e vomitou tudo que sabia, tudo
que podia e mais uns quebrados.
O Solstício viu
tudo e a acompanhou. O Solstício sempre seguia de perto de junto encima dos
calcanhares lá dela; pegando nos cabelos de fogo e medindo a sombra lá dela; lambendo
a pele bronzeada dourada acariciando a penugem lá dela.
Aí, mais
tarde, não muito, o Solstício levou Batota para o seco capoeirão. Batota subiu
um morrinho e o Solstício foi atrás no rasto e no encalço. Ali mesmo o Solstício
a incendiou na barriga. Batota se esparramou se derreteu cochilou. E lá naquela
hora, Batota se transformou em outra.
A
Birra cuidava da escuridão. A Birra tão estouvada como uma aparição fantástica,
assustadora, cheia, sempre atrás das nuvens vermelhas pesadas grossas. A Birra
peculiar e sui generis.
E Batota,
muito à vontade, andou pela vila, pocotó! pocotó! e pocotó!... A Birra a
encontrou grávida. A Birra lhe apinchou um balde de poeira vermelha. E Batota
estava mesmo isso aí de barriga redonda bojuda. Toda coberta de poeira
prateada. Agora, me diga: e naquela certa hora já se mostrava outra?
A
Birra ainda quis ter certeza:
-
E isso aí, Batota?
-
Foi o Solstício, é.
Então,
a Birra satélite, lunática, luneta...
E
o Solstício mormaço, soalheira, bafão...
A
mãe de Batota perguntou mesmo do seu jeito, apontando para a barriga da filha,
chamou atenção injuriou e inquiriu:
-
Pode me dizer algo sobre essa sua tua barriga? Posso pretender entender alguma
coisa sobre isso aí assim desse jeito graúdo abaulado arredondado?
Batota
olhou a própria barrigona, pôs o dedo no umbigo saltado, e pensou, disse, falou
mesmo, interrogando:
-
O quê?
Aí
veio o padrasto, e se sentou de pernas abertas na cadeira de braços, e
inquiriu:
-
Como assim? Qual é o “o quê?”
E
Batota, segurando com ambas as mãos os enormes seios fartos fartos volumosos
volumosos, pensou e disse: vamos ouvi-la:
-
E-videntemente!... E-vi-den-te-mente!...
Dia
raivoso, caloroso dia. Batota, barrigão, cruzou a rua poeirenta, chegou na
pracinha. Uma moribunda capeba-do-campo resolveu pensar fraco sufocada: “Por
que sair de casa pegando esse Solstício todo na cabeça?”
Dois
sacis, dois redemoinhos, dois diachinhos, duas arruaças, entre si:
-
Ela vai ao capoeirão seco.
-
Quando volta nem sei.
-
Retornará somada ou dividida? Voltará hoje?
-
Tão-só e isto é. São umas deselegantes perguntas imperfeitas.
Batota
andou rumo do capoeirão calcinado, despreocupada, mãos nas cadeiras, cabelos
longos caídos nos ombros. Ela ainda se preparou para o Solstício. E o Solstício
a seguiu lá de cima, entre a poeira vermelha, raspando no teto do oco do côncavo.
No
capoeirão desmilinguido, num monte de pedras, Batota se sentou. O Solstício
queimava. Uns pivetes escondidos atrás das capoeiras tortas mandaram fundadas.
Uma pedra a acertou no ombro direito. Batota sentiu muita dor ali na hora e tal.
Entortou, desmaiou, caiu de frente, pofe!... e rolou no chão.
Solstício,
o fabuloso verão, já ia solto. Eram o quê... dez horas!
Batota acordou
toda doída, toda moída, toda coberta de pó vermelho e pronta, toda dolorida, no
ponto para dar cria. E foi... umas dores... e umas dores por dentro querendo se
abrir... contrações e dores rascantes querendo rasgar... Batota ficou sozinha
nessa hora do começo ao fim. Cortou o cordão com uma pedra batendo contra outra
ou com os dentes.
E
era um guri de asas de fogo. Um pixote com asas de pontas douradas. E as asas
cobertas de poeira. Um curumim enrugado curvado sobre si. Um pivete de olhos de
fogo. Um culepe de asas douradas. Um crila empoeirado. Um catraio empanado
maquiado de poeira cinzenta.
Batota
o reconheceu, e o aconchegou no peito farto farto, lhe deu os seios volumosos
volumosos, e o protegeu cobrindo com os braços, cobrindo com os cabelos ruivos
ou empoeirados. Não chovia mesmo há duzentos mil anos-luz.
A Batota já sabia
que a dita seria difícil naquela aldeia seca do meio do deserto abandonado. Não
caía água há anos e anos. Assim, decidiu se livrar do filhote. Tentou
incentivá-lo a partir para o espaço sem fim, para a galáxia sem começo, rumo às
estrelas sem nome, para outro planeta desconhecido, para o meio do Solstício de
verão:
-
Vá! Vá para o teu pai! Vá para o teu pai Solstício! Vá para onde você quiser e
se sentir potente e útil! Vá e vire uma estrela inédita!
E
jogou o piá no ar como se joga um punhado de poeira. Como se joga uma pedra. O guri
voou já pronto e insatisfeito. Como se joga uma paina. Titubeante no começo,
sem prática no início, sem destino, mas sempre para cima, para o alto, para o
Solstício. Nem precisou olhar para trás. E o pixote alado, então, de fato voou
para o centro do Solstício naquele verão interminável. Agora, àquela hora ali, Batota
se mostrava outra.
Já
o padrasto foi procurá-la no meio do capoeirão falido e chegou na hora.
Encontrou a Batota naquela situação de moleza e naquela situação de sem rumo.
Discutiram longamente como dois torcedores de times rivais. Por quê? Porque
ninguém tinha razão. Veja por quê:
-
Eu já esperava e não pensei nisso...
-
Pois não.
-
Também nem sei...
-
Por isso mesmo...
-
E mais do que isso...
-
A quem?
-
Não há que ver.
-
De início...
De
certo modo, então, o padrasto pegou o bebê - que dormia de barriga vazia - e o
levou para a palhoça. Eram mais ou menos umas 14h e 41min. O chão estalando de
seco. O solo rachado trincado. As pedras estourando de quentes.
Batota, tonta
de sono, tonta de dores recém-passadas, tonta de emoções desencontradas, tonta
de tanto ficar ao Solstício, zonza de perder o filhote para o espaço sideral...
correu atrás. Correu atrás como pôde. Os braços jogados pra frente das pernas. Correu
como uma tonta mesmo. Correu, tropeçou, tentou se equilibrar, sobrou, e caiu,
pofe!...
O
padrasto chegou primeiro à pracinha. Escolheu ao acaso uma imensa paineira seca.
Uma mamica-de-cadela barriguda e sedenta. Depois, com ferramentas e esforço
físico, abriu um buraco no tronco seco e barrigudo da ex-árvore. Feito isso, o
ritual, na frente de todo o povinho da aldeia - inclusive de Batota que já
havia chegado e estava ali toda sem vontade -, fez mais e foi mais em frente e
enfiou a criança no cerne da ex-árvore. A cria resmungou dormindo, nhã-nhã-nhãs!...
Então, o padrasto reparou a casca da ex-paineira de volta no lugar. Tapou o
buraco muito fortemente, costurou, emendou, pregou, grampeou, amarrou, colou,
lacrou, apertou muito apertado. Será que o bebê ia sobreviver na árvore exangue
exaurida exausta? E se sacudir pelos galhos secos? E murmurar pelas folhas extintas?
E sair pelas sementes falidas?
A
noite surgiu e a Birra veio pressurosa visitar de perto o mundo conhecido e mal
pago. Batota estava sentada junto da ex-árvore barriguda. A Birra sumia entre
as nuvens cinzentas, ou mais baixa ou mais alta, entre as nuvens vermelhas.
Uma
pedra não autorizada soprou, vu-huuu!... aterrissou cantou junto do pé da moça.
Sem incerteza se foi um moleque arteiro atirando com bodoque. Podia ser mesmo,
por aquelas bandas!
A mula sem cabeça,
pocotó! pocotó! e pocotó!... pateava ali em torno da ex-paineira grávida. E
depois escoiceou a ex-árvore tentando reaver o rebento. Tentando reaver o seu
bebê. Não deixou a aldeia dormir aquela noite e outras noites e noites.
E a mula de
padre tinha a memória derretida. Por onde andava naquelas noites sem estrelas
sem lua sem nada? De repente caiu num buraco e ficou presa torturada na
ratoeira. E se mostrou transformada outra.
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