A
menina Lilás, muito tão galante formosa maravilha, pedalava andava de bíci pela
rua Tupiniquim quando, desastre, caiu, baque!... batendo a moringa. No instante
imediato nem viu nada, nem disse que não e nem que sim, ficou cega, tonta, flutuou
entre copas de árvores, flutuou entre nuvens, e ouviu somente o ciciar dos
marimbondos, chite! chite!... rodar na volta, zu-zuiiim!... No quê, e finalmente,
morreu.
Fatalmente
mais pra lá que pra cá e enterrada entre raízes de taiobas e senes e
mangaritos, sua alma de fantasma pálido, palidez de papel branco, branco como vapor
de nuvem branca, se desprendeu do corpo, evaporou levitou e foi parar na lua
cheia, na lua satélite, na platinada, lua redonda.
E a alma ficou por lá sete e
oito dias e sempre hibernando dentro duma cratera escura e fria e deserta e
assombrada. Tentando decifrar a charada do número pi. Procurando o começo do
universo. Igual tevê fora do ar. Tentando traduzir os porquês.
Não, sim que interessante;
sim, não que interessante.
Depois disso e tempo,
embarcou de volta para a Terra num cometa de vassoura. Cruzou o espaço e, na
montanha Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí, desceu, aterrissou, tombou, pousou
e se acomodou. A menina renasceu no dia primeiro de janeiro daquele ano ótimo
novo bom ano e ano redondo de 2020.
Nesse
dia naquela mesma tarde se apresentaram doze visitantes parentes padrinhos tripulantes
que eram a abelha iraí o peixe piapara o jasmim-do-mato pareciam os doze meses
do ano o colibri-rubi o lagarto anijuaganga a vespa-de-rodeio a maitaca e como
na foto de time de futebol seis em pé e seis agachados o tapira a planta
sambaíba o macaco-de-bando o caeté-vermelho o lobo-guará e o gavião-couã sendo
que uns vieram do oriente outros do ocidente. E chegaram de tão distante para
conhecê-la e adorá-la e presenteá-la e servi-la e conhecê-la.
As casas nas cidades do
mundo inteiro daqui da rua Raimundo Correia até a praia Pitinga e a ilha de
Itamaracá foram enfeitadas com ramos de árvores flores engraçadas bandeirinhas
de papel de seda de variadas cores e balõezinhos de encher de todas as cores e
barraquinhas de feira de todos os tipos de doces e sucos e mangabas e abacaxis
e gabirobas e pitombas e pitangas e guabijus... Se fez feriado, festa, carnaval,
procissão, manifestação, ceia, luau, baile, forró, maracatu, boi de mamão...
Os visitantes contraparentes
camaradas bem chegados fãs de carteirinha depositaram junto ao berço da bebê
Lilás preciosidades como merengues, chocolates em barra, pamonhas, beijus,
bolachas recheadas, guaranás dietéticos, castanhas-do-pará, pés de moleque,
rapaduras, goiabas-do-mato colhidas na hora, puxa-puxas... E tudo bonito e
acondicionado como um presépio de shopping center.
Uma
das madrinhas talvez a mais milionária, de nome Sambaíba, e boa contribuinte, respirou
fundo olhou a menininha recostada na almofada, e falou, fotografou:
-
Talecoisa! Anuncio que aqueles que amam as coisas do céu obterão uma excelente
recompensa.
A
menina Lilás da cor lilás, muito mirradinha e do tamanho de um coquinho de
palmeira iatá, olhos tenros e saborosos, e sempre prodigiosa, aproveitou que
tudo era para ela e caiu esfomeada no guaraná, nos canapés, sorvetes, quindins,
brigadeiros, amendoins, nos acarajés, nos mandolates, jenipapos e tudo mais.
Apareceu
um visionário e sábio e esperto, de nome Lobo-Guará, para comentar e poetar:
-
No quê. A estrela cadente, que a trouxe, deusa, é um cavalo maior de todos, pelos
fosforescentes, crina azulada, patas de ouro veloz.
O
inteligente profeta Lobo-Guará fez uma pausa, contou nos dedos até dez e
continuou:
-
Uh! Você, nossa enviada, o segurou bem para não ser precipitada no espaço;
esporeou o corcel ionizado.
Já
o terceiro dentre eles, de nome Tapira, nem se conteve, rechonchudo mais que
todos, declarou e declamou e contou e dedilhou:
-
Eôh! Vieram estrelas, estrelas; caíram nas ruas, nas salas; e ninguém pôde
contá-las!
Agora
a menina Lilás recebia outros presentes, os de brincar, desmontar, sacolejar, pipitim!
lilitim!... e nem chorava, nem ronronava.
O Piapara, o cara estudado e
viajado e que vivia muito bem mergulhado no caudaloso rio Aracoiaba, falou borbulhou
trovou outra oportunidade:
-
Arrá! Você, nossa salvadora, ganhou um cometa e veio. A sua chegada nessa
estrela de cristal, milagrosa e vespertina, fez a vida mais bonita.
Após
a novidade nem estar mais em a moda, os doze padrinhos e feiticeiras foram
embora. Pegaram cada qual o seu caminho e retornaram pro norte pro sul. Desses
tantos amigos e amigas que estiveram, e se foram, elas e eles interpretavam
sonhos, acariciavam astros, eram adivinhos e grandes caçadores de cometas. Em
vez de pescarem no mar no rio no lago na laguna, olhavam pro céu. Diziam que
essa estrela de cauda caudata era sinal de boa coisa.
Os
doze profetas comerciantes do oeste do leste seguiram para suas casas lá longe,
Poxoréo, Rondonópolis, praça Mauá, cada qual para sua morada de natural, Getulina,
Sabará, reserva da nação carijó, rio Uatumã, sempre tranquilos e festivos e
bonachões prometendo voltar voltar, ilha do Rodeadouro, forte Tamandaré da Lage
e mesmo a aldeia dos aicamã.
Lilás era deixada crescer. Era
isso, pois não?! Sim, era sempre assim. E outros quetais. Tudo como antes. E
era muito divertido. Muito simples.
E olha o sol atômico no céu
da manhã sem nuvem! Nem era lá, e aqui, um dia qualquer. E olhando assim,
meuê-meuê, o astro de quinhentos milhões de anos parecia abrir um portal de
ouro. Pensando bem, cada dia era um sucesso. Cada dia respira fundo.
Um
piscar de olhos e o tempo passou dez anos e um dia. Tudo calmo, a paz era
eterna. O destino tal e qual.
A menina Lilás passeava pelo
campo nem tão longe do Planalto Central, cabelos longos e grossos e típicos,
olhos grandes e esverdeados, sempre olhando tudo ao redor, sempre decorando o
nome das plantinhas e dos bichos que voavam nadando a uirapiana a mãe-do-sol o
canindé a patativa... Era a terra de Goiás ou Mato Grosso, terras do sem fim de
campo e mato, tudo tudo nos tons verdes o mucujê a murtinha o
vinhático-do-campo a criciúma o papo-de-peru-do-miúdo a sumaré-das-pedras... tudo
calor e chuva perto da noite, e tralalava assim:
-
Estou, estou, andando estou, olêeee!... é o campo de planos e chapadas e
planícies, olêeee!... e que calôoo, olêeee!...
Chegou
perto de uma árvore no caminho e jogou:
-
E aí seu Recital?!
O
pé de árvore nem entendeu e devolveu pois já na dúvida:
-
Meu nome nem é esse e nem é Recital. Pode me chamar de Guaraperé, tá ligada?!
A
menina estava aí, enfim, saída da casca, independente da estrela crinuda que a
trouxera do centro da lua. A primeira estrela apareceu, a segunda estrela
também surgiu, a terceira estrela realmente pintou, a quarta brilhou, a quinta
nasceu, a sexta estrela existiu no céu do entardecer. O céu se encheu das
constelações desenhadas que alguns chamam de zodíaco.
Aí
a Lilás apontou o dedo e exigiu, discotecou:
-
E aí Recital! Como é o do zodiacal?
A
estrela apontada se converteu em diamante eterno raro lá no fundo do universo e
respondeu de pronto, um pouco sentida, um pouco oferecida, um pouco elevada:
-
Meu nome? Meu prenome? Meu sobrenome? Hein?! Tá viajando, guria! Eu sou a
Antares e na bandeira do B sou o Piauí. Entendeu?!
O
dia estava acordado com sol e mais vento soprando do sul. O sol ia no caminho
de subida, por enquanto. Nem fazia frio nem calor, mais ou menos. Se ouvia se
olhava o rio Retiro e a água corria velozmente. Sol bem bom de se curtir e até
agradável. O ar de repente quente e esquentando mais quando o ambiente também
parecia bem mais amarelo.
Deus
geral e comum. Pegadas soltas de animais livres. Canto de timbres metálicos de
pássaros, saíras, papos-brancos, juízes-do-mato, bigodes, jubacangas... E
cidades com múltiplos propósitos e conhecimentos, São Bonifácio, Telha,
Ibateguara, Águas Mornas, Quipapá...
Lilás passeava tranquila,
tudo que nem sabia o nome para ela era Recital, quando de repente, no quê, nem
mais que de repente, surgiu, e bem a sua frente, uma preguiça-gigante e
pré-histórica. Lilás quase caiu de susto, se segurou como pôde e se desviou pro
lado. A fera foi atrás foi no encalço foi na persiga. A menina chateada, muito
grilada, aborrecida, contrariada, imperdível, parou, se voltou e disse, assim,
corajosamente, estupendamente, na lata, nas fuças:
-
Tô passada, tá certo! Hem!, sua Recital! Que história é essa de me pegar no pé,
de me seguir? Será que nem posso brincar, ficar na minha e sossegar? Qual é,
meu!
-Tá
falando comigo?
-
E tem outra inoportuna Recital em acá?
-
Tô com fome, nem como há um século, aí pensei que...
-
Que eu seria o seu almoço! Tá pateta, é? Tá doida, é? Caiu e bateu a cabeça
quando era pequena? Por que nem vai comer plantinhas piri do alagado, um ex?
- Mas eu nem sei preparar
saladas verdes e tenras! Eu nem sei comer pasto do banhado! Eu não sei pratos
de verdura! Eu nem sei sucos ou batidas!
- Então, vá comprar sorvete
de pupunha de maracujá-suspiro de açaí, etc., e assim por diante!
Ouvindo
isso, no quê, a preguiça-terrícola ficou uma arara, resfolegou, frerrrrr!... e
partiu para cima de Lilás tentando agarrá-la com suas unhas enooormes e dentes
caninos pontiagudos. A menina se safou escorregou baixando entortando montanha
abaixo. E, então, começou uma grande ocasião de perseguição.
Ali
por perto da montanha Cambirela, em Palhoça, havia uma extensa, nem sei se
existe ainda, uma enorme roça de mandiocas um mandiocal. Uma plantação longe
larga e pontilhada aqui e ali de árvores da mata espalhadas tipo
alecrim-do-campo mais pra lá um tento-das-campinas pra cá uma
figueira-de-folha-branca e assim uma larga variedade delas. Mais predominava a
roça mesmo de mandiocas e o verde do mandiocal. A cena se passava em frente por
ali mesmo. Perto inclusive da cachoeira das Andorinhas.
-
Nem vou perder tempo com isso! - reclamou a menina.
Em certo momento a fera
quase alcançou a guria mas, graças a um bom drible, a menina conseguiu, mais
uma vez, enganar ludibriar e fugir. Melhor que isso, pois com o drible bem dado,
a preguiça-gigante resvalou e caiu sentada na macega, sem fôlego.
-
Ai! ui! ói!... acho que vou morrer... cansei. Tô muito fora de forma...
pra essas carreiras, ai! ui! ói!... Olhe
como disparou meu coração... ponha a mão aqui, sinta... Nem tô mais na idade,
ai! ui! ói!... Como chama mesmo sua graça?
A
menina arredondou, pronto, os olhos para a preguiça-gigante e disparou o falar
indignada:
-
Nem tente me conversar! Nem caio na sua!
-
Cansei de verdade... Vamos, ai! ui! ói!... fazer as pazes.
-
Não, nem confio em preguiça-gigante faminta.
-
Nossa! Que sufoco. Pra falar a verdade, ai! ui! ói!... nem tô nem com fome. Faz
um pouco acabei de almoçar um pratão de salada de comandás e jambus e araçaís e
folhas de bolaina. Custaria tudo 1 real à hora.
-
Então, por que insiste nessa palhaçada?
-
Sei lá. Acho que é força do hábito, um costume, ai! ui! ói!… que adquiri ainda
pequena lá na serra da Capivara. Fui educada assim...
- Que comportamento
abominável, horrível, desprezível!
-
Não, nem sou tão má assim. Vocês é que correm de mim, ai! ui!... e como gosto
de manter minha fama... Até que sou mais vegetariana...
Bem,
no quê, a menina Lilás resolveu dar um voto de confiança à preguiça-gigante.
Aceitou serem amigas.
-
Tô confiando em você! Vê lá se...
-
Fique fria. Quando prometo, tá prometido. Palavra, ai! ui!... de Embiara, a
preguiça-gigante!
-
Sou a Lilás, prazer!
Apertaram
as mãos, sorriram, trocaram beijos, tepe! tepe! tepe!... e abraços. A menina
indagou:
-
Você vive o tempo todo nesse mundo do cerrado goiano, nesse calor irregular, nesse
bafão, nesse vento caloroso de forno aceso, é?
-
Já me acostumei. Vivo aqui desde altas eras. Quase que pertenço a esse lugar. E
você?
-
Sou natural do sul, dos pampas, das praias, das serras, das coxilhas, dos alagados,
nasci lá, vivi um tempo e morri...
-
Morreu? Mas...
-
Calma, eu explico, amiga Embiara. Depois de morrer, meu corpo descansou na
terra e minha alma evaporou para a lua. Ali, numa cratera lunar, numa cratera
com cara de cone invertido, me recriei rapidinho. Psicologicamente aprendi
aritmética geometria trigonometria física nuclear astronomia engenharia
bumerangue ioga... E voltei, voltei de carona numa cauda de cometa, uma estrela
peregrina, que pousou de raspão neste pico da Pedra do Baú. Foi ali pela beira
do ano novo. Renasci no primeiro dia novo do ano, entende?! Compreendeu?!
-
Que barato! Que sorte! Que aventura!
-
Foi uma loucura o meu renascimento. Vieram até doze madrinhas padrinhos, lá de
bem longe, do sudeste do nordeste sul-americano.
-
Que chique! Você deve ser muito importante e uma das principais. Quem sabe a
melhor a primeira. Quem sabe a protagonista.
-
Me encheram de vários e variados presentes e doces e guloseimas. Todos úteis,
legais, engraçados e gostosos.
-
Massa!... Escuta. Você pretende continuar por aqui, pelo cerrado e Planalto Central?
-
Não, vou voltar pro meu sul sal sol. É lá que é meu lugar. Quero correr pelos
campos, florestas, restingas e praias do meu rincão natural. Embora embora o
frio o minuano a geada, e quem sabe uma neve.
-
Hum!... entendo.
-
Sabe, lá nem temos esse calor-calor. Há mais opções de temperatura, mais pinheiros-do-paraná
na paisagem, tantas cidades de estilos variados, tantos morros e morrinhos que
chamam de coxilhas, bastante grenal nos domingos de tarde, tantas pessoas tomando
chimarrão na praça no parque - desabafou a menina Lilás.
-
Tem razão. Aqui é um campo muito desabitado de que quem nem se acostuma...
-
E de você? Cadê sua família? Você é daqui ou de Amapá do Maranhão de Sergipe?
-
Vivo particularmente sozinha e só e desacompanhada. Sou única nesse lugar. Meus
parentes todos vivem em Lagoa Santa e Itajá mais arredores. Aliás, foi por isso
que corri atrás de você. Você acabava de invadir o meu território meu ambiente
sagrado meu lugar de culto.
- Sua possessiva compulsiva
obsessiva!
-
Sei, e depois as preguiças-gigantes pré-históricas, de modo geral, têm um
temperamento nervoso e antigo e arqueológico. Acho que nem nascemos pra
conviver socialmente com humanos e bichos e etês. As preguiças-gigantes são
muito grandes enormes e gigantes. As preguiças-terrícolas como eu, são muito
imprevisíveis insociáveis. As preguiças-gigantes são muito dominadoras e
indomáveis. Nós somos muito famintas e quase quase em extinção. Nem sei mais o
que fazer.
-
Nem sei o que dizer. Talvez fosse bom consultar um psicólogo, um naturalista,
um ecologista, um meteorologista.
-
Você acha? Você joga vídeo game?
-
Bem, mas por enquanto deixe pra lá. Vamos pensar no dia de hoje. Veja. Por
acaso você, nessas suas andanças, nunca topou com um senhor chamado Anhanguera?
É um cara já velhinho, às vezes nem tão bom, outras nem tão feliz... usa barba
longa, se veste todo de pelo vermelho... anda se disfarçando de tudo que é
bicho ou planta... já virou bugio já foi tatu-bola já se fantasiou interpretou
um craveiro-do-campo pulou carnaval imitando um agrião-do-pará voa alto como um
tanatau...
-
O tal velhinho que, dizem, torce pro colorado e que chamam de diabo velho? -
perguntou a Embiara.
-
Sim, sim, esse mesmo. Gostaria muito de conhecê-lo e entrevistá-lo.
-
A última vez que o vi... bem, foi há três anos, quando tentei roubar uma comida
da despensa lá dele.
-
O quê?! De novo?! Tá vendo! Por isso que nem tem amigos confiáveis. Você anda
na calada da noite e pé ante pé, né, meu?!
-
É, foi mal. Anhanguera, se me lembro, ficou uma onça-vermelha e de brabo.
-
Que coisa.
-
No fim das contas a comida nem deu pro cheiro e pro meu apetite.
-
Pelo menos. Mas... mas será que você poderia fazer o favor de me levar até a
casa do vovô? Nem precisa entrar, se você não quiser.
-
Tranquilo! Tudo por uma boa amizade junto de ti perto de ti e te vendo sorrir.
Descendo
descendentes do rio maior descendo no barco onde a corrente de água pertencida
faz luz espelhos na superfície líquida e tal. Janelas abertas cortinas bandeira
vento para o barco a vela. Ninguém ninguém ninguém (três vezes) tinha carro
novo pra vender no interior do país. O rio é bom e faz parte desse lugar e
avança morro abaixo. Como um rio deve sempre ser. Como a luz. E caminha. A
praia com jacarés capivaras tuiuiús, saracuras... junto dos arbustos da
montanha. E o barco pedala.
Os dois perderam um tempo entre o dia 18 e o dia
28 com as noites também. Para a direita do rio Ganhamoroba ficava uma
localidade chamada Ceres, e para a esquerda outra nomeada desde sempre de
Rubiataba. Mas nem entraram. No quê, encontraram um índio panhame na calçada da
rua Tuibaé:
-
E aí, Recital! Vai chover logo ou já imediatamente agora mesmo?
O
índio panhame tentou negociar:
-
Carataí Panhame tem cestos chapéus esteiras de fibra de ouricuri para vender.
Vai comprar? Vai levar uma? É bom e barato e quase de graça. Pra ocês faço
desconto de 60 por cento. Uma pechincha! Uma ninharia!
A
caverna ou gruta ou loca, onde morava Anhanguera, ficava um ponto distante do
lugar que se encontravam. Depois do mato das guariúbas, pra lá um pouco da
região dominada pelos índios paiaiá. E desde a criação do mundo corria o rio
Pomomba crescia a montanha do Jabre e cantavam esses e outros passarinhos que
se precisava ouvir pelo menos uma vez a juriti a camisa-de-meia o uirapuru o tietê
os sebinhos...
O
sol da tarde de verão mergulha de luz e estupendo. Chegam sempre uns sons que
pintam e desenham e colorem. Os rios originais com barcos e navegações. E vamos
navegando por aí mesmo. E se sabe se vê que o sol é engraçado mesmo, a lua, a
chuva, as abelhas, as paisagens também são muito enlaçadas. Tudo insiste em
fazer tudo muito remoçado de verdade. Uma hora ou outra a chuva cai das folhas
das árvores pingando respingando e enchendo de enxurrada os lagos e lagoas
banhados e arroios e poços.
Para passar o tempo iam
conversando e cantando. E nem se extraviavam do caminho. A menina dizia assim,
no quê, decodificou:
-
Estou, estou, andando estou, olêeee!... com uma preguiça-gigante maior,
olêeee!... no cerrado de Mato Grosso, olêeee!... canhada abaixo, olêeee!... cascata
perpendicular, olêeee!... por aqui, por ali, olêeee!...
Chegada
uma tal hora passaram perto de um clube um enxame de bocas-de-barro abelhas de
muito mel, e Lilás puxou papo, bate-papo:
-
E aí, Recital! Muito mel legal no dial?
Uma
delas abelha típica boca-de-barro ficou olhando pensando, respondeu zunindo:
-
Que Recital, menina?! Tá surtando? Veio pra comprar ou barganhar?
Uma
quinta-feira com nem tantas nuvens no céu, cruzaram a nado o rio São Francisco
altura da ilha Massangano e descansaram dois tempos a seguir debaixo de um pé
de batiputá. Bem, parecia ser. A Lilás foi tirar as dúvidas e ela mesma
proferiu:
-
E então, seu Recital! Como te chamas verde em ramas e folhas novas?
A
árvore sombrosa e amiga olhou balançou no vento gostou sacudiu as folhas verdes
e falou balançando os galhos ramos hastes brotos botões de flor:
-
Sabe, seria bom me chamar Recital, coisa e tal, gostei, é.
Depois
de horas, chegaram. O tareco de vidro e ferro na porta tocou, blim-blom!... e Anhanguera
em pessoa as atendeu. A menina e o velhinho bravo se abraçaram, se beijaram,
tepe! tepe! tepe!... como se fossem neta e avô.
-
Que maravilha, seu Anhanguera! Quis tanto conhecê-lo!
-
Igualmente, minha florzinha de barbasco. Que o céu seja lavado de chuva, e por
dentro e por fora.
Mas
em relação à Embiara preguiça-gigante, Anhanguera nem teve o mesmo
desprendimento e acolhimento e sentimento e momento. O velhinho vaidoso vestido
de típico tradicional saiote de penas arazoia a olhou com reservas. Lilás
explicou a situação tentou botar panos quentes, argumentou:
-
Olha, seu Anhanguera. Eu que insisti para que a Embiara me acompanhasse. Aliás,
ela quer lhe pedir desculpas pelo que andou fazendo no passado. Nem é, Embiara? Fale!
-
Exatamente, seu Anhanguera. Me arrependo de tudo que fiz, principalmente ter
tentado roubar seu prato favorito de pequis. Sabe, eu mudei, estou mudando, a
Lilás vem seguidamente me orientando me ensinando me polindo.
-
Bem, deixe pra lá. Vocês querem entrar? Entrem! Temos sobremesa de caju com a
castanha bem torradinha - foi convidando o convencido barbudinho.
A
casa do Anhanguera era uma lapa normal e limpa e escura sem luz elétrica sem
confortos modernos e outros entretenimentos urbanos. Nem tinha nada de enfeite
que ele nem pensava nisso. Umas esteiras tipo tupé para se recostar e olhe lá. Uma
fogueirinha ali para esquentar um pouco o interior da gruta. Umas pedras
grandes escovadas conforme para sentar se acomodar.
Lilás e a preguiça-gigante
ficaram um bom tempo comendo a tal sobremesa. E olhavam as paredes e ouviam o
velhinho falar suas aventuras pra lá do outro mundo do outro tempo etc. Também nem
mexeram em quase nada que nem havia nada para fuçar. A menina colocou:
-
Seu Anhanguera, sei que é cedo, também um pouco de indelicadeza da minha parte,
mas... será que poderia lhe fazer um pedido-pedido?
-
Sei. Que foi, florzinha de taiuiá-de-cipó?
-
Bem, por lá, pelo sul inteiro, pra eu dizer a verdade, nem temos muito esse
espírito mágico de nos transformar em bicho ou árvore, quando necessário. As
noites andam em baixa, muito futebol e pouca mágica. Será que o senhor, com
suas feitiçarias e boas pajelanças, nem poderia me auxiliar? Gostaria de
transformar os dias e noites pacatos em dias e noites divertidíssimos.
-
Hum!, legal. Gostei de ver. Que bom que você se interessa por isso. Vou lhe
ajudar, e com fantasias novas.
Anhanguera
foi lá num outro cômodo do buraco, se demorou um instante, se demorou dois
momentos, pareceu entrar por passagens secretas, fendas secretas, escadas
secretas, paredes com ouvidos, corredores secretos, armários secretos, sótãos
secretos, pedras secretas, chão de alçapão, poço profundo, e na volta trouxe um
vidrão com resina supersecreta e ultrassecreta e megamágica que logo explicou,
declarando:
-
Veja. Nesse frasco liso se encontra um ótimo e estonteante espírito carnavalesco.
Pode levá-lo, é totalmente eficiente. Use-o como perfume e bastará.
-
Ah, obrigada! E é da minha cor, lilás.
-
Eu mesmo o fiz. Sabia que você um dia viria buscá-lo. Nem tem erro, é pra alegrar
todo o ambiente a sua volta.
-
Mas como adivinhou que eu viria, seu Anhanguera? Alguém avisou? Os entes
apitaram coisas pra lá de secretas e confidenciais?
-
Os astros, minha flor da purga-de-pastor, os astros. Você voltou na estrela que
um dia fora a estrela guia. Estava escrito até nos olhos da avezinha
maria-é-dia. Estava escrito nas penas irisadas bonitas do tuipara-estrelinha.
Essa poção foi sacralizada por todos os sábios e astrolátios e pajés do mundo. Estava
previsto. Estava escrito de dourado nas estrelas e nem só nas estrelas como nas
asas dos tiatãs. Até nas folhas tenras verdes da fechilha, nas escamas do
rápido tambaqui. E em todo lugar que se olhasse.
-
Nem sei o que dizer... sem palavras... vou emo... pi-pi-pi!...
Após,
depois e mais tarde, a visitação se consumou e acabou e Lilás e Embiara se
despediram do velhinho Anhanguera o tuntunqué, e abraços, promessas, fotos, beijos...
e saudades antecipadas.
E
isso que nem que era bom; e isso que sim que era ruim.
As
duas amigas caminharam, andando devagarzinho, e já iam bem distantes da loca de
Anhanguera. As duas melhores um bom tempo conversando, chegaram a um ponto,
pararam. Lilás resolveu se despedir também da companheira maior:
-
Bem, Recital, devo ir. Hoje é meu dia de partir e repartir.
-
Mas já? Puxa, logo agora que estava me acostumando com uma amiga!
-
Você fará amizades com outras pessoas, bichos, etês, objetos, sonhos...
Então.
Uma foi para este lado, a outra para o outro. A saudade já apertava o coração
de ambas e uma e outra. Ainda se voltaram, olharam, abanaram, riram...
E
Lilás foi descendo um morrinho, pegando uma estrada, jornada. Ali os lugares de
Trancoso e Cedro de São João e Arraial dAjuda perto de Porto Seguro. Mais lá uma
Colônia Leopoldina e a lagoa de Marapendi. Era tudo assim e outras coisas mais.
Mato e arvoredo das tais árvores predominantes as aimarás na serra dos Aimorés.
Lilás procurava nem pensar na separação dos amigos das amigas, e entoando,
descolada:
-
Estou, estou, caminhando estou, olêeee!... nem posso parar, nem quero congelar,
olêeee!... voltando pro meu ninho, olêeee!... é lá que é o meu lugar,
olêeee!...
O
barco é mais lento que o trem. O trem é mais seco que o aeróstato. O aeroplano
é mais caro que o auto. E o drone é um avião não tripulado.
Já
um sol acordou mais cedo e em mais um mês e março em meio da semana 12 o dia
quinta-feira 2003 o ano.
E
tudo estava ficando cada vez mais aconchegante. No quê. Tudo tão bonito como
uma tarde ouvindo histórias da avó na varanda da casa da vovó. Verão comum,
ainda bem! Ou de-boa passear de bíci no porto de Suape, na praça Tapirapé. Ou
ainda como subir em jabuticabeira carregada de jabuticabas para colher... ja-bu-ti-ca-bas.
Por isto isso aquilo e nem muito mais.
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