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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Lilás e Ano Bom (juvenil)


    

            A menina Lilás, muito tão galante formosa maravilha, pedalava andava de bíci pela rua Tupiniquim quando, desastre, caiu, baque!... batendo a moringa. No instante imediato nem viu nada, nem disse que não e nem que sim, ficou cega, tonta, flutuou entre copas de árvores, flutuou entre nuvens, e ouviu somente o ciciar dos marimbondos, chite! chite!... rodar na volta, zu-zuiiim!... No quê, e finalmente, morreu.
            Fatalmente mais pra lá que pra cá e enterrada entre raízes de taiobas e senes e mangaritos, sua alma de fantasma pálido, palidez de papel branco, branco como vapor de nuvem branca, se desprendeu do corpo, evaporou levitou e foi parar na lua cheia, na lua satélite, na platinada, lua redonda.
E a alma ficou por lá sete e oito dias e sempre hibernando dentro duma cratera escura e fria e deserta e assombrada. Tentando decifrar a charada do número pi. Procurando o começo do universo. Igual tevê fora do ar. Tentando traduzir os porquês.
Não, sim que interessante; sim, não que interessante.
Depois disso e tempo, embarcou de volta para a Terra num cometa de vassoura. Cruzou o espaço e, na montanha Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí, desceu, aterrissou, tombou, pousou e se acomodou. A menina renasceu no dia primeiro de janeiro daquele ano ótimo novo bom ano e ano redondo de 2020.
            Nesse dia naquela mesma tarde se apresentaram doze visitantes parentes padrinhos tripulantes que eram a abelha iraí o peixe piapara o jasmim-do-mato pareciam os doze meses do ano o colibri-rubi o lagarto anijuaganga a vespa-de-rodeio a maitaca e como na foto de time de futebol seis em pé e seis agachados o tapira a planta sambaíba o macaco-de-bando o caeté-vermelho o lobo-guará e o gavião-couã sendo que uns vieram do oriente outros do ocidente. E chegaram de tão distante para conhecê-la e adorá-la e presenteá-la e servi-la e conhecê-la.
As casas nas cidades do mundo inteiro daqui da rua Raimundo Correia até a praia Pitinga e a ilha de Itamaracá foram enfeitadas com ramos de árvores flores engraçadas bandeirinhas de papel de seda de variadas cores e balõezinhos de encher de todas as cores e barraquinhas de feira de todos os tipos de doces e sucos e mangabas e abacaxis e gabirobas e pitombas e pitangas e guabijus... Se fez feriado, festa, carnaval, procissão, manifestação, ceia, luau, baile, forró, maracatu, boi de mamão...
Os visitantes contraparentes camaradas bem chegados fãs de carteirinha depositaram junto ao berço da bebê Lilás preciosidades como merengues, chocolates em barra, pamonhas, beijus, bolachas recheadas, guaranás dietéticos, castanhas-do-pará, pés de moleque, rapaduras, goiabas-do-mato colhidas na hora, puxa-puxas... E tudo bonito e acondicionado como um presépio de shopping center.
            Uma das madrinhas talvez a mais milionária, de nome Sambaíba, e boa contribuinte, respirou fundo olhou a menininha recostada na almofada, e falou, fotografou:
            - Talecoisa! Anuncio que aqueles que amam as coisas do céu obterão uma excelente recompensa.
            A menina Lilás da cor lilás, muito mirradinha e do tamanho de um coquinho de palmeira iatá, olhos tenros e saborosos, e sempre prodigiosa, aproveitou que tudo era para ela e caiu esfomeada no guaraná, nos canapés, sorvetes, quindins, brigadeiros, amendoins, nos acarajés, nos mandolates, jenipapos e tudo mais.
            Apareceu um visionário e sábio e esperto, de nome Lobo-Guará, para comentar e poetar:
            - No quê. A estrela cadente, que a trouxe, deusa, é um cavalo maior de todos, pelos fosforescentes, crina azulada, patas de ouro veloz.
            O inteligente profeta Lobo-Guará fez uma pausa, contou nos dedos até dez e continuou:
            - Uh! Você, nossa enviada, o segurou bem para não ser precipitada no espaço; esporeou o corcel ionizado.
            Já o terceiro dentre eles, de nome Tapira, nem se conteve, rechonchudo mais que todos, declarou e declamou e contou e dedilhou:
            - Eôh! Vieram estrelas, estrelas; caíram nas ruas, nas salas; e ninguém pôde contá-las!
            Agora a menina Lilás recebia outros presentes, os de brincar, desmontar, sacolejar, pipitim! lilitim!... e nem chorava, nem ronronava.
O Piapara, o cara estudado e viajado e que vivia muito bem mergulhado no caudaloso rio Aracoiaba, falou borbulhou trovou outra oportunidade:
            - Arrá! Você, nossa salvadora, ganhou um cometa e veio. A sua chegada nessa estrela de cristal, milagrosa e vespertina, fez a vida mais bonita.
            Após a novidade nem estar mais em a moda, os doze padrinhos e feiticeiras foram embora. Pegaram cada qual o seu caminho e retornaram pro norte pro sul. Desses tantos amigos e amigas que estiveram, e se foram, elas e eles interpretavam sonhos, acariciavam astros, eram adivinhos e grandes caçadores de cometas. Em vez de pescarem no mar no rio no lago na laguna, olhavam pro céu. Diziam que essa estrela de cauda caudata era sinal de boa coisa.
            Os doze profetas comerciantes do oeste do leste seguiram para suas casas lá longe, Poxoréo, Rondonópolis, praça Mauá, cada qual para sua morada de natural, Getulina, Sabará, reserva da nação carijó, rio Uatumã, sempre tranquilos e festivos e bonachões prometendo voltar voltar, ilha do Rodeadouro, forte Tamandaré da Lage e mesmo a aldeia dos aicamã.
Lilás era deixada crescer. Era isso, pois não?! Sim, era sempre assim. E outros quetais. Tudo como antes. E era muito divertido. Muito simples.
E olha o sol atômico no céu da manhã sem nuvem! Nem era lá, e aqui, um dia qualquer. E olhando assim, meuê-meuê, o astro de quinhentos milhões de anos parecia abrir um portal de ouro. Pensando bem, cada dia era um sucesso. Cada dia respira fundo.
            Um piscar de olhos e o tempo passou dez anos e um dia. Tudo calmo, a paz era eterna. O destino tal e qual.
A menina Lilás passeava pelo campo nem tão longe do Planalto Central, cabelos longos e grossos e típicos, olhos grandes e esverdeados, sempre olhando tudo ao redor, sempre decorando o nome das plantinhas e dos bichos que voavam nadando a uirapiana a mãe-do-sol o canindé a patativa... Era a terra de Goiás ou Mato Grosso, terras do sem fim de campo e mato, tudo tudo nos tons verdes o mucujê a murtinha o vinhático-do-campo a criciúma o papo-de-peru-do-miúdo a sumaré-das-pedras... tudo calor e chuva perto da noite, e tralalava assim:
            - Estou, estou, andando estou, olêeee!... é o campo de planos e chapadas e planícies, olêeee!... e que calôoo, olêeee!...
            Chegou perto de uma árvore no caminho e jogou:
            - E aí seu Recital?!
            O pé de árvore nem entendeu e devolveu pois já na dúvida:
            - Meu nome nem é esse e nem é Recital. Pode me chamar de Guaraperé, tá ligada?!
            A menina estava aí, enfim, saída da casca, independente da estrela crinuda que a trouxera do centro da lua. A primeira estrela apareceu, a segunda estrela também surgiu, a terceira estrela realmente pintou, a quarta brilhou, a quinta nasceu, a sexta estrela existiu no céu do entardecer. O céu se encheu das constelações desenhadas que alguns chamam de zodíaco.
            Aí a Lilás apontou o dedo e exigiu, discotecou:
            - E aí Recital! Como é o do zodiacal?
            A estrela apontada se converteu em diamante eterno raro lá no fundo do universo e respondeu de pronto, um pouco sentida, um pouco oferecida, um pouco elevada:
            - Meu nome? Meu prenome? Meu sobrenome? Hein?! Tá viajando, guria! Eu sou a Antares e na bandeira do B sou o Piauí. Entendeu?!
            O dia estava acordado com sol e mais vento soprando do sul. O sol ia no caminho de subida, por enquanto. Nem fazia frio nem calor, mais ou menos. Se ouvia se olhava o rio Retiro e a água corria velozmente. Sol bem bom de se curtir e até agradável. O ar de repente quente e esquentando mais quando o ambiente também parecia bem mais amarelo.
            Deus geral e comum. Pegadas soltas de animais livres. Canto de timbres metálicos de pássaros, saíras, papos-brancos, juízes-do-mato, bigodes, jubacangas... E cidades com múltiplos propósitos e conhecimentos, São Bonifácio, Telha, Ibateguara, Águas Mornas, Quipapá...
Lilás passeava tranquila, tudo que nem sabia o nome para ela era Recital, quando de repente, no quê, nem mais que de repente, surgiu, e bem a sua frente, uma preguiça-gigante e pré-histórica. Lilás quase caiu de susto, se segurou como pôde e se desviou pro lado. A fera foi atrás foi no encalço foi na persiga. A menina chateada, muito grilada, aborrecida, contrariada, imperdível, parou, se voltou e disse, assim, corajosamente, estupendamente, na lata, nas fuças:
            - Tô passada, tá certo! Hem!, sua Recital! Que história é essa de me pegar no pé, de me seguir? Será que nem posso brincar, ficar na minha e sossegar? Qual é, meu!
            -Tá falando comigo?
            - E tem outra inoportuna Recital em acá?
            - Tô com fome, nem como há um século, aí pensei que...
            - Que eu seria o seu almoço! Tá pateta, é? Tá doida, é? Caiu e bateu a cabeça quando era pequena? Por que nem vai comer plantinhas piri do alagado, um ex?
- Mas eu nem sei preparar saladas verdes e tenras! Eu nem sei comer pasto do banhado! Eu não sei pratos de verdura! Eu nem sei sucos ou batidas!
- Então, vá comprar sorvete de pupunha de maracujá-suspiro de açaí, etc., e assim por diante!
            Ouvindo isso, no quê, a preguiça-terrícola ficou uma arara, resfolegou, frerrrrr!... e partiu para cima de Lilás tentando agarrá-la com suas unhas enooormes e dentes caninos pontiagudos. A menina se safou escorregou baixando entortando montanha abaixo. E, então, começou uma grande ocasião de perseguição.
            Ali por perto da montanha Cambirela, em Palhoça, havia uma extensa, nem sei se existe ainda, uma enorme roça de mandiocas um mandiocal. Uma plantação longe larga e pontilhada aqui e ali de árvores da mata espalhadas tipo alecrim-do-campo mais pra lá um tento-das-campinas pra cá uma figueira-de-folha-branca e assim uma larga variedade delas. Mais predominava a roça mesmo de mandiocas e o verde do mandiocal. A cena se passava em frente por ali mesmo. Perto inclusive da cachoeira das Andorinhas.
            - Nem vou perder tempo com isso! - reclamou a menina.
Em certo momento a fera quase alcançou a guria mas, graças a um bom drible, a menina conseguiu, mais uma vez, enganar ludibriar e fugir. Melhor que isso, pois com o drible bem dado, a preguiça-gigante resvalou e caiu sentada na macega, sem fôlego.
            - Ai! ui! ói!... acho que vou morrer... cansei. Tô muito fora de forma... pra  essas carreiras, ai! ui! ói!... Olhe como disparou meu coração... ponha a mão aqui, sinta... Nem tô mais na idade, ai! ui! ói!... Como chama mesmo sua graça?
            A menina arredondou, pronto, os olhos para a preguiça-gigante e disparou o falar indignada:
            - Nem tente me conversar! Nem caio na sua!
            - Cansei de verdade... Vamos, ai! ui! ói!... fazer as pazes.
            - Não, nem confio em preguiça-gigante faminta.
            - Nossa! Que sufoco. Pra falar a verdade, ai! ui! ói!... nem tô nem com fome. Faz um pouco acabei de almoçar um pratão de salada de comandás e jambus e araçaís e folhas de bolaina. Custaria tudo 1 real à hora.
            - Então, por que insiste nessa palhaçada?
            - Sei lá. Acho que é força do hábito, um costume, ai! ui! ói!… que adquiri ainda pequena lá na serra da Capivara. Fui educada assim...
- Que comportamento abominável, horrível, desprezível!
            - Não, nem sou tão má assim. Vocês é que correm de mim, ai! ui!... e como gosto de manter minha fama... Até que sou mais vegetariana...
            Bem, no quê, a menina Lilás resolveu dar um voto de confiança à preguiça-gigante. Aceitou serem amigas.
            - Tô confiando em você! Vê lá se...
            - Fique fria. Quando prometo, tá prometido. Palavra, ai! ui!... de Embiara, a preguiça-gigante!
            - Sou a Lilás, prazer!
            Apertaram as mãos, sorriram, trocaram beijos, tepe! tepe! tepe!... e abraços. A menina indagou:
            - Você vive o tempo todo nesse mundo do cerrado goiano, nesse calor irregular, nesse bafão, nesse vento caloroso de forno aceso, é?
            - Já me acostumei. Vivo aqui desde altas eras. Quase que pertenço a esse lugar. E você?
            - Sou natural do sul, dos pampas, das praias, das serras, das coxilhas, dos alagados, nasci lá, vivi um tempo e morri...
            - Morreu? Mas...
            - Calma, eu explico, amiga Embiara. Depois de morrer, meu corpo descansou na terra e minha alma evaporou para a lua. Ali, numa cratera lunar, numa cratera com cara de cone invertido, me recriei rapidinho. Psicologicamente aprendi aritmética geometria trigonometria física nuclear astronomia engenharia bumerangue ioga... E voltei, voltei de carona numa cauda de cometa, uma estrela peregrina, que pousou de raspão neste pico da Pedra do Baú. Foi ali pela beira do ano novo. Renasci no primeiro dia novo do ano, entende?! Compreendeu?!
            - Que barato! Que sorte! Que aventura!
            - Foi uma loucura o meu renascimento. Vieram até doze madrinhas padrinhos, lá de bem longe, do sudeste do nordeste sul-americano.
            - Que chique! Você deve ser muito importante e uma das principais. Quem sabe a melhor a primeira. Quem sabe a protagonista.
            - Me encheram de vários e variados presentes e doces e guloseimas. Todos úteis, legais, engraçados e gostosos.
            - Massa!... Escuta. Você pretende continuar por aqui, pelo cerrado e Planalto Central?
            - Não, vou voltar pro meu sul sal sol. É lá que é meu lugar. Quero correr pelos campos, florestas, restingas e praias do meu rincão natural. Embora embora o frio o minuano a geada, e quem sabe uma neve.
            - Hum!... entendo.
            - Sabe, lá nem temos esse calor-calor. Há mais opções de temperatura, mais pinheiros-do-paraná na paisagem, tantas cidades de estilos variados, tantos morros e morrinhos que chamam de coxilhas, bastante grenal nos domingos de tarde, tantas pessoas tomando chimarrão na praça no parque - desabafou a menina Lilás.
            - Tem razão. Aqui é um campo muito desabitado de que quem nem se acostuma...
            - E de você? Cadê sua família? Você é daqui ou de Amapá do Maranhão de Sergipe?
            - Vivo particularmente sozinha e só e desacompanhada. Sou única nesse lugar. Meus parentes todos vivem em Lagoa Santa e Itajá mais arredores. Aliás, foi por isso que corri atrás de você. Você acabava de invadir o meu território meu ambiente sagrado meu lugar de culto.
- Sua possessiva compulsiva obsessiva!
            - Sei, e depois as preguiças-gigantes pré-históricas, de modo geral, têm um temperamento nervoso e antigo e arqueológico. Acho que nem nascemos pra conviver socialmente com humanos e bichos e etês. As preguiças-gigantes são muito grandes enormes e gigantes. As preguiças-terrícolas como eu, são muito imprevisíveis insociáveis. As preguiças-gigantes são muito dominadoras e indomáveis. Nós somos muito famintas e quase quase em extinção. Nem sei mais o que fazer.
            - Nem sei o que dizer. Talvez fosse bom consultar um psicólogo, um naturalista, um ecologista, um meteorologista.
            - Você acha? Você joga vídeo game?
            - Bem, mas por enquanto deixe pra lá. Vamos pensar no dia de hoje. Veja. Por acaso você, nessas suas andanças, nunca topou com um senhor chamado Anhanguera? É um cara já velhinho, às vezes nem tão bom, outras nem tão feliz... usa barba longa, se veste todo de pelo vermelho... anda se disfarçando de tudo que é bicho ou planta... já virou bugio já foi tatu-bola já se fantasiou interpretou um craveiro-do-campo pulou carnaval imitando um agrião-do-pará voa alto como um tanatau...
            - O tal velhinho que, dizem, torce pro colorado e que chamam de diabo velho? - perguntou a Embiara.
            - Sim, sim, esse mesmo. Gostaria muito de conhecê-lo e entrevistá-lo.
            - A última vez que o vi... bem, foi há três anos, quando tentei roubar uma comida da despensa lá dele.
            - O quê?! De novo?! Tá vendo! Por isso que nem tem amigos confiáveis. Você anda na calada da noite e pé ante pé, né, meu?!
            - É, foi mal. Anhanguera, se me lembro, ficou uma onça-vermelha e de brabo.
            - Que coisa.
            - No fim das contas a comida nem deu pro cheiro e pro meu apetite.
            - Pelo menos. Mas... mas será que você poderia fazer o favor de me levar até a casa do vovô? Nem precisa entrar, se você não quiser.
            - Tranquilo! Tudo por uma boa amizade junto de ti perto de ti e te vendo sorrir.
            Descendo descendentes do rio maior descendo no barco onde a corrente de água pertencida faz luz espelhos na superfície líquida e tal. Janelas abertas cortinas bandeira vento para o barco a vela. Ninguém ninguém ninguém (três vezes) tinha carro novo pra vender no interior do país. O rio é bom e faz parte desse lugar e avança morro abaixo. Como um rio deve sempre ser. Como a luz. E caminha. A praia com jacarés capivaras tuiuiús, saracuras... junto dos arbustos da montanha. E o barco pedala.
            Os  dois perderam um tempo entre o dia 18 e o dia 28 com as noites também. Para a direita do rio Ganhamoroba ficava uma localidade chamada Ceres, e para a esquerda outra nomeada desde sempre de Rubiataba. Mas nem entraram. No quê, encontraram um índio panhame na calçada da rua Tuibaé:
            - E aí, Recital! Vai chover logo ou já imediatamente agora mesmo?
            O índio panhame tentou negociar:
            - Carataí Panhame tem cestos chapéus esteiras de fibra de ouricuri para vender. Vai comprar? Vai levar uma? É bom e barato e quase de graça. Pra ocês faço desconto de 60 por cento. Uma pechincha! Uma ninharia!
            A caverna ou gruta ou loca, onde morava Anhanguera, ficava um ponto distante do lugar que se encontravam. Depois do mato das guariúbas, pra lá um pouco da região dominada pelos índios paiaiá. E desde a criação do mundo corria o rio Pomomba crescia a montanha do Jabre e cantavam esses e outros passarinhos que se precisava ouvir pelo menos uma vez a juriti a camisa-de-meia o uirapuru o tietê os sebinhos...
            O sol da tarde de verão mergulha de luz e estupendo. Chegam sempre uns sons que pintam e desenham e colorem. Os rios originais com barcos e navegações. E vamos navegando por aí mesmo. E se sabe se vê que o sol é engraçado mesmo, a lua, a chuva, as abelhas, as paisagens também são muito enlaçadas. Tudo insiste em fazer tudo muito remoçado de verdade. Uma hora ou outra a chuva cai das folhas das árvores pingando respingando e enchendo de enxurrada os lagos e lagoas banhados e arroios e poços.  
Para passar o tempo iam conversando e cantando. E nem se extraviavam do caminho. A menina dizia assim, no quê, decodificou:
            - Estou, estou, andando estou, olêeee!... com uma preguiça-gigante maior, olêeee!... no cerrado de Mato Grosso, olêeee!... canhada abaixo, olêeee!... cascata perpendicular, olêeee!... por aqui, por ali, olêeee!...
            Chegada uma tal hora passaram perto de um clube um enxame de bocas-de-barro abelhas de muito mel, e Lilás puxou papo, bate-papo:
            - E aí, Recital! Muito mel legal no dial?
            Uma delas abelha típica boca-de-barro ficou olhando pensando, respondeu zunindo:
            - Que Recital, menina?! Tá surtando? Veio pra comprar ou barganhar?
            Uma quinta-feira com nem tantas nuvens no céu, cruzaram a nado o rio São Francisco altura da ilha Massangano e descansaram dois tempos a seguir debaixo de um pé de batiputá. Bem, parecia ser. A Lilás foi tirar as dúvidas e ela mesma proferiu:
            - E então, seu Recital! Como te chamas verde em ramas e folhas novas?
            A árvore sombrosa e amiga olhou balançou no vento gostou sacudiu as folhas verdes e falou balançando os galhos ramos hastes brotos botões de flor:
            - Sabe, seria bom me chamar Recital, coisa e tal, gostei, é.
            Depois de horas, chegaram. O tareco de vidro e ferro na porta tocou, blim-blom!... e Anhanguera em pessoa as atendeu. A menina e o velhinho bravo se abraçaram, se beijaram, tepe! tepe! tepe!... como se fossem neta e avô.
            - Que maravilha, seu Anhanguera! Quis tanto conhecê-lo!
            - Igualmente, minha florzinha de barbasco. Que o céu seja lavado de chuva, e por dentro e por fora.
            Mas em relação à Embiara preguiça-gigante, Anhanguera nem teve o mesmo desprendimento e acolhimento e sentimento e momento. O velhinho vaidoso vestido de típico tradicional saiote de penas arazoia a olhou com reservas. Lilás explicou a situação tentou botar panos quentes, argumentou:
            - Olha, seu Anhanguera. Eu que insisti para que a Embiara me acompanhasse. Aliás, ela quer lhe pedir desculpas pelo que andou fazendo no passado.  Nem é, Embiara? Fale!
            - Exatamente, seu Anhanguera. Me arrependo de tudo que fiz, principalmente ter tentado roubar seu prato favorito de pequis. Sabe, eu mudei, estou mudando, a Lilás vem seguidamente me orientando me ensinando me polindo.
            - Bem, deixe pra lá. Vocês querem entrar? Entrem! Temos sobremesa de caju com a castanha bem torradinha - foi convidando o convencido barbudinho.
            A casa do Anhanguera era uma lapa normal e limpa e escura sem luz elétrica sem confortos modernos e outros entretenimentos urbanos. Nem tinha nada de enfeite que ele nem pensava nisso. Umas esteiras tipo tupé para se recostar e olhe lá. Uma fogueirinha ali para esquentar um pouco o interior da gruta. Umas pedras grandes escovadas conforme para sentar se acomodar.
Lilás e a preguiça-gigante ficaram um bom tempo comendo a tal sobremesa. E olhavam as paredes e ouviam o velhinho falar suas aventuras pra lá do outro mundo do outro tempo etc. Também nem mexeram em quase nada que nem havia nada para fuçar. A menina colocou:
            - Seu Anhanguera, sei que é cedo, também um pouco de indelicadeza da minha parte, mas... será que poderia lhe fazer um pedido-pedido?
            - Sei. Que foi, florzinha de taiuiá-de-cipó?
            - Bem, por lá, pelo sul inteiro, pra eu dizer a verdade, nem temos muito esse espírito mágico de nos transformar em bicho ou árvore, quando necessário. As noites andam em baixa, muito futebol e pouca mágica. Será que o senhor, com suas feitiçarias e boas pajelanças, nem poderia me auxiliar? Gostaria de transformar os dias e noites pacatos em dias e noites divertidíssimos.
            - Hum!, legal. Gostei de ver. Que bom que você se interessa por isso. Vou lhe ajudar, e com fantasias novas.
            Anhanguera foi lá num outro cômodo do buraco, se demorou um instante, se demorou dois momentos, pareceu entrar por passagens secretas, fendas secretas, escadas secretas, paredes com ouvidos, corredores secretos, armários secretos, sótãos secretos, pedras secretas, chão de alçapão, poço profundo, e na volta trouxe um vidrão com resina supersecreta e ultrassecreta e megamágica que logo explicou, declarando:
            - Veja. Nesse frasco liso se encontra um ótimo e estonteante espírito carnavalesco. Pode levá-lo, é totalmente eficiente. Use-o como perfume e bastará.
            - Ah, obrigada! E é da minha cor, lilás.
            - Eu mesmo o fiz. Sabia que você um dia viria buscá-lo. Nem tem erro, é pra alegrar todo o ambiente a sua volta.
            - Mas como adivinhou que eu viria, seu Anhanguera? Alguém avisou? Os entes apitaram coisas pra lá de secretas e confidenciais?
            - Os astros, minha flor da purga-de-pastor, os astros. Você voltou na estrela que um dia fora a estrela guia. Estava escrito até nos olhos da avezinha maria-é-dia. Estava escrito nas penas irisadas bonitas do tuipara-estrelinha. Essa poção foi sacralizada por todos os sábios e astrolátios e pajés do mundo. Estava previsto. Estava escrito de dourado nas estrelas e nem só nas estrelas como nas asas dos tiatãs. Até nas folhas tenras verdes da fechilha, nas escamas do rápido tambaqui. E em todo lugar que se olhasse.
            - Nem sei o que dizer... sem palavras... vou emo... pi-pi-pi!...
            Após, depois e mais tarde, a visitação se consumou e acabou e Lilás e Embiara se despediram do velhinho Anhanguera o tuntunqué, e abraços, promessas, fotos, beijos... e saudades antecipadas.
            E isso que nem que era bom; e isso que sim que era ruim.
            As duas amigas caminharam, andando devagarzinho, e já iam bem distantes da loca de Anhanguera. As duas melhores um bom tempo conversando, chegaram a um ponto, pararam. Lilás resolveu se despedir também da companheira maior:
            - Bem, Recital, devo ir. Hoje é meu dia de partir e repartir.
            - Mas já? Puxa, logo agora que estava me acostumando com uma amiga!
            - Você fará amizades com outras pessoas, bichos, etês, objetos, sonhos...
            Então. Uma foi para este lado, a outra para o outro. A saudade já apertava o coração de ambas e uma e outra. Ainda se voltaram, olharam, abanaram, riram...
            E Lilás foi descendo um morrinho, pegando uma estrada, jornada. Ali os lugares de Trancoso e Cedro de São João e Arraial dAjuda perto de Porto Seguro. Mais lá uma Colônia Leopoldina e a lagoa de Marapendi. Era tudo assim e outras coisas mais. Mato e arvoredo das tais árvores predominantes as aimarás na serra dos Aimorés. Lilás procurava nem pensar na separação dos amigos das amigas, e entoando, descolada:
            - Estou, estou, caminhando estou, olêeee!... nem posso parar, nem quero congelar, olêeee!... voltando pro meu ninho, olêeee!... é lá que é o meu lugar, olêeee!...
            O barco é mais lento que o trem. O trem é mais seco que o aeróstato. O aeroplano é mais caro que o auto. E o drone é um avião não tripulado.
            Já um sol acordou mais cedo e em mais um mês e março em meio da semana 12 o dia quinta-feira 2003 o ano.
            E tudo estava ficando cada vez mais aconchegante. No quê. Tudo tão bonito como uma tarde ouvindo histórias da avó na varanda da casa da vovó. Verão comum, ainda bem! Ou de-boa passear de bíci no porto de Suape, na praça Tapirapé. Ou ainda como subir em jabuticabeira carregada de jabuticabas para colher... ja-bu-ti-ca-bas.
            Por isto isso aquilo e nem muito mais.