quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Gato em Fugas (juvenil)




Parte 2

            Setenta e sete dias, Sete Cidades, sete-cores, sete-casacas, setecentas e setenta horas, Sete Lagoas, sete-cascas, dezessete chaves, setecentas e setenta e sete noites, sete-barbas...
            D sol, vigiado por aquelas umas raras nuvens boas e altas e esfiapadas, passava agora de raspão pelo chão azul do céu, etc. O dia em aumento panorama paisagem e azul.
            O cheiro do arvoredo. Pronto, já se veem se ouvem os patos-corredores, as carquejas-de-bico-manchado, os frangos-d’água, os carões, os cujubins, asas-de-telhas... Quem nem observa a palmeira ouricuri? Que idade avançada tem a ibirapitanga? Assim, todos falavam se agitavam ao mesmo tempo e procurando espaço.
            Jurema tinha uns dez anos de idade, pele avermelhada, um colar de miçangas, o cabelo negro liso e solto, vestida apenas de calção ou bermuda. O vento corria com seu cabelo.
A cunhantaim Jurema descansava, brincava, curtia o sol e a água da beira do rio Juruá, perto do pátio da aldeia da sua famosa tribo aimoré. Total: Estado do Acre. Ela em companhia da tia Mamangava.
De dentro da mata veio um chamado miado...
- Miau!... Miau!...
...que despertou a atenção da indiazinha e da madrasta. “Certamente um gatinho-do-mato perdido carente sozinho”, elas pensaram.
Então, a cunhantaim e a tia Mamangava foram atrás do chamado e realmente encontraram um felino, um até gatinho carijó. Estava ali, num tronco de árvore baraúna, meio assustado, meio carente, meio esquisito, meio medroso, meio de olhos arregalados, meio faminto, meio de orelhas em pé, meio agarrado ao tronco da árvore, meio bizarro, meio procurando. Com certeza desamparado e várias vezes despreparado.
            - É um gatinho, filhote de jaguatirica! Que lindo, que bonito! Esse é meu! - declarou a cunhantaim Jurema.
            - Jeito de abandonado ou perdido ele tem. Deve é estar perdido, meio perdido, perdidinho da silva - completou a Mamangava.
            - Vou levar pra oca. Será meu mascote xerimbabo. Será meu amigo. Será minha estimação. Andará como eu andar, ficará sempre comigo e seguirá minha sombra - disse a Juma.
            O gato encostou as orelhas mágicas no braço da indiazinha e perguntou, ronronando conforme e realmente muito acomodado pacífico:
            - Tem mingau de milho na tua casa?
            - Tem. Tem mingau com amora-verde tem beiju tem pamonha, quer?
            Jurema, que era filha única, uma filha que só tinha ao pai, já que a mãe morrera quando ela nasceu... Era uma filha obediente, calma, atenciosa, principalmente gostava de aprender a fazer tigelinhas de barro. Fazia as tigelinhas, esperava que secassem ao sol, depois as quebrava por pura brincadeira. Um dia, quando fosse mais velha, uma moça uma cunhantã, talvez herdasse tudo aquilo, seria a cacique, ou uma das mulheres do guerreiro mais valente, e conheceria outros lugares, outros rios, outras lagoas, outras montanhas, outras tribos, andaria de avião, outras cidades, outras terras, praia de Cabo Branco, outros países, outros mundos e fundos, navegaria de transatlântico, outros sonhos, passearia de teleférico em Caxambu, outros ofícios, outras profissões. Ela a indiazinha mais bonita da aldeia, pois alguém tinha de ser.
Quando Jurema estava deitada na rede deitada na esteira, pensava nos acontecimentos do dia. E começava pelo melhor:
            - Nem sei se devo incomodar meu pai, ele anda sempre cheio de coisas para resolver.
            - Mas ele vai te ouvir - explicou Mamangava.
            - Nem posso perder esse gatinho, olha! - apontou Jurema, muito feliz.
            O gato era realmente muito querido, felpudo, fofo, carente, dengoso e logo logo gostou do colo, do calor, do carinho, dos abraços, do sorriso da cunhantaim. O felino se sentiu em casa, protegido, amado, respeitado, paparicado.
            - Já sei o que vai acontecer. Vou amar esse gatinho até sempre - declarou a indiazinha.
            O que é que se pode negar a uma cunhantaim? Resultado. O pai cacique da grande tribo aimoré, o nome dele era Icapirira Aimoré, concordou que Jurema ficasse com aquele gato manhoso e malandro e melodioso.
            O felino mexia as quatro patinhas mansas e silenciosas a cauda as orelhas os olhos e seus longos bigodes. O gato se mexia e tinha preguiça de andar rápido. O gato, então, parecia ótimo de saúde e bem esperto demais. Nem era de perder tempo com coisas extras.
            - Pai, ele já me reconhece!
            - Sim, é bom.
            - Ele vai ter uma esteira e uma rede para dormir só dele.
            - Você já deu um nome pra ele, cunhantaim?
            - Ah, é! Isso. Que nome? Um nome pessoal.
            - Nem precisa ser agora nesta hora. Escolha um que você nem vá se arrepender. Um nome divertido e fácil. Selecione.
            - Um nome... Por que nome?
            Aquela mata era povoada de araçaripocas, jacurutus, jebrebajus, catuabas, cumanãs, catanduvas, guibás... Aquela aldeia nem tinha automóvel, lancha, chuveiro quente, pista de pouso para aviões, mas cultivava roças de mandioca milho amendoim abóbora...
            Juma começou a pensar um nome, pensou, pensava, caminhava pela oca, olhava o gato que sossegara no seu colo, pensava, pensava passeando com ele nos braços pela ocara, esse nome nem, esse nome também nem, hum!... esse talvez, acariciava entre as orelhas, e repetia o nome em voz alta, e qual?, levava o gato no ombro, o gatinho incomodava com os cabelos dela e tinha uns olhos agateados.
            - Já sei, já sei que nome vou dar ao meu gato, pai! Ele se chamará... Tiê!
- Tiê é um bom nome, um nome bonito, nome rápido, nome alto. Você escolheu tá escolhido - aprovou o pai.
            - Então, de hoje em diante... - Jurema olhou seu gato que ela pensava ser filhote de jaguatirica, fez carinho e completou - você se chamará Tiê.
            O gato olhou a menina e fez que sim com a cabeça, etc. O gato Tiê cruzou os braços. O gato ainda falou com todos os erres e esses, traduzido:
            - Gostei do nome. É sonoro. É forte. É nome de herói.
            E nem se discutiu mais nome nenhum. Tiê era o nome que o gato queria e ponto. Ele teria toda a liberdade do mundo, direito de ir e vir pelas ocas da aldeia, direito a melhor comida, direito de fazer necessidades num cochinho de terra no canto da oca, direito de ir à cidade, direito de colo, direito de atender quando alguém o chamasse de Tiê, direito a muito cafuné. E Jurema tinha já seu mascote mumbavo.
            E para que tudo isso desse certo e continuasse, um problema tinha que ser resolvido. Resolvido ainda hoje nesta hora:
            - Pai, temos um problema que nem pode passar de hoje.
            - Qual, filha? Qual, por favor?!
            - Os cachorros, os filhos de tapir, os macacos-aranhas, as sucuris, as jiboias, os mambiras todos são os problemas. O Tiê detesta, nem aguenta, nem suporta, sente cócegas só em pensar que existe toda essa fauna perigosa passeando aqui pelo pátio da aldeia. Vamos ter que tirar os cachorros do pátio, as antas do quintal, os macacos-aranhas dos caibros das palhoças, as sucuris e jiboias das sombras das barracas e tendas e casebres, os mambiras dos cupinzeiros e cercados, hein?, pai!
            - Todos esses bichos são mascotes aí do pessoal todo da tribo, filhinha! Todos querem ter seu mascote. Todos vão ficar chateados e até muito irritados. E são criaturas de paz.
            - É melhor. O Tiê nem quer ver esses tipos por perto.
            - Mas...
            - Eu prefiro, de hoje em diante, apenas e somente o meu Tiê.
            - Hum!... Você tá exigente, em?!
            - Mas nem tem outro jeito. Esses outros mascotes são enormes e vão acabar atacando o meu mimi. Não, pai, sem cães, sem antas, sem macacos, sem cobras, sem tamanduás-mirins.
            Essa questão era um problema realmente tribal. E complexo. E grande enorme. Tudo porque o cacique nem sabia dizer não para a filha e sem palavras para comunicar o fato ao restante da aldeia. E aquele que tivesse de perder seu mascote ficaria muito frustrado. Então, como resolver com isso e de um dia pro outro?
            - Minha querida pequena!... - dizia o morubixaba Icapirira, querendo repensar o plano da cunhantaim.
            - Pai, por favor! Nem há outro jeito. Repito: o Tiê nem suporta fauna desse tamanho no seu espaço! Tenha dó do meu bichano, papai!
            Pronto, se criou um impasse na tribo aimoré. O que fazer? De um lado o direito de quem gostava de bichos grandes e comilões, e de outro lado o predileto da cunhantaim o seu fofo amigo Tiê que miava de receio dos grandes bichos soltos pela ocara.
            Eta!, que essa história põe a gente em dilema, entre a lua e as estrelas, entre a sanga e a lagoa, entre a cor e o peixe. Problema, problema porque para ser resolvido.
            Breve breve, de momento em momento as risadas cristalinas dos joões-de-barro. Pé de goiabeira-do-mato bem plantada no meio do sol. Revoada de bando dos maipurés.    
            Enfim, com isso mesmo, o morubixaba chefe das pirâmides de farinha de mandioca torrada, decidiu consultar um seu sacerdote, um nativo de visão, visionário, conselheiro, o pajé Itapema.
E o pajé chegou com embornal cheio de folhas verdes, raízes domesticadas, cipós doces e amargos, frutinhas ités amassadas, folhas secas, raízes raladas e maracá a tiracolo feito de porongo com cara de gente e cheio de sementes e pedrinhas, etc., pulseiras de miçangas, tornozeleiras de guizos...
O cacique falou primeiro:
            - Amigo pajé, me aconselhe. O que faço com os grandes bichos de estimação que nem podem conviver na boa com o maracajazinho da minha cunhantaim?
            - Deixe eu ver aqui. Hum!... Estou pensando... consultando com os espíritos do além... e do aquém, também.
            O sacerdote pegou o cachimbo com cabo de taquara-poca e começou a espirar fumaça no ambiente. O feiticeiro xamã da tribo se acocorou, pegou no embornal um punhado de pedras lisas do rio que já levava consigo e jogou ali no chão. Sacudiu muito bem o maracá e procurou ler o desenho das pedrinhas espalhadas.
            - Pelas sete mil asas abertas dos alados em geral, hum!...
Assim, o pajé olhou aquelas pedrinhas formando certa figura no chão, figura de bicho ou algo mais estranho ainda, uma coisa quase sem forma e esquisita, mas que para o feiticeiro tinha tudo a ver, então, ele cachimbou, sacudiu o maracá e olhou bem olhado a matemática das pedrinhas e viu reconheceu interpretou. Viu o que viu no meio das pedrinhas, pedrinhas que lhe falaram direto no juízo da consciência, pajé tossiu, pajé falou, pajé explicou:
            - Três ou quatro coisas eu vejo, cacique Icapirira.
            - Fale, sacerdote.
            E o pajé falou por enigmas que ninguém entende, ou que pouca gente da tribo entendia, resmungou fabulou:
            - A primeira coisa, então, são essas cidades: Sena Madureira é aqui? Xapuri é aqui? Brasileia é aqui? Rio Acre é aqui? Monjolos é pra cá? Tangará da Serra é mais acima? Dona Francisca idem?
            - E a segunda coisa qual é, pajé Itapema?
            - Segunda importância: Nossos vizinhos irmãos índios kaxinauá são importantes? Os índios yauanauá são importantes? Os índios poyanauá são importantes? Os índios jaminauá são importantes? Os índios campeba são importantes? Os xetá são também importantíssimos?
            - Diga a terceira verdade, amigo Itapema.
            - Digo a terceira coisa, compadre Icapirira: O rio Tarauacá existe e é lenda? O rio Muru existe e é lenda? O rio Jurupari existe e é lenda? O rio Humaitá existe e é lenda? O rio Breu existe e é lenda? O rio Caracol existe ou é lenda?
            - Que importância tem uma quarta surpresa? Fale!
            - A quarta importância é para ouvir e pensar: A pitombeira é árvore de pitombas, o uirari é arbusto do voorara, o curimbatá é peixe de nadar, o surucuá-de-cauda-preta é pássaro de cantar, o sariguê é bicho de andar e cheirar, o pato-crioulo é ave de imigrar...
            O pajé e xamã Itapema falou esses mistérios e essas frases modelares. Depois olhou para o futuro, para bem longe, para a altura das nuvens. Viu o futuro que estava desenhado no ar e que só ele interpretava somente e apenas ele sabia ler e traduzir. Continuou explicando o que via na sombra da bolha invisível do futuro virtual:
            - Pouco tempo, muito tempo. O tempo é uma grumixama.  O tempo é um papagaio-de-peito-roxo. O tempo tem mais montanhas e mais igarapés. O tempo tem mais rios e lagos. O tempo tem caminho de estradas ruas e becos. O tempo são os ibijaús-guaçus.
            Itapema se ergueu do chão, o longo sorriso, sacudiu mil vezes o maracá cheio de pedrinhas e sementes secas, treque! treque!... depois de andar em roda ir e voltar, só então resolveu falar mais essas verdades, e disse:
            - O frango-d’água-azul pesca na beira da água. Que vantagem tem o surubi? O rio caminha Juruá espelhado. A anta gosta de um capim-gomoso. O mar forte tem tempestade borrasca tormenta e temporal. Cajubis voam de cajueiro em cajueiro.
            Dito e feito isso, o pajé sossegou e continuou por aí olhando o mato o rio o céu muito grande e comprido, o voo interminável dos urubus-jerebas.
            O tubixaba Icapirira Aimoré, depois de ouvir e por acaso compreender direitinho todas as verdades ditas pelo amigo pajé, voltou para os fundos da sua oca, deitou na sua rede, ficou olhando o próprio pensamento, muito preocupado, pensativo, sossegado, incomodado. Já já ia decidir o que fazer no caso do convívio dos bichos mascotes.
            - Sim, vou fazer alguma coisa...
            E Icapirira viu uma floresta andar com os próprios pés e patas e asas. Viu uma nuvem cair no rio e virar piracema de peixes semipreciosos quase voadores. Viu o sol se orgulhar do seu nome Guaraci. Viu a lua Jaci se enfeitar de iara dos longos cabelos negros. Viu borboleta amarela inventar o azul o lilás o verde o amarelo olhos grandes. E viu outras coisas saindo do seu particular próprio pensamento e se espalhando pelo território da tribo aimoré. Adormeceu. Viu ou pressentiu farfalhar de sons indistintos...
            - Minha cunhantaim me pergunta de que xerimbabo eu gosto mais.
            Quarta-feira erguida no ar como uma paisagem de quadrinhos. A cor da manhã onde o tempo começou em matinada.
            O azul acordou cedo esperto e cheio de disposição. Tinha um casal de tucanos-de-peito-amarelo tomando café no alto da janiparandiba. Ar livre aberto aos anuguaçus. O rio Juruá e feliz repassava as azedinhas-do-brejo begônias-de-folha-estreita as nuvens os pacus os pássaros na pele azul lisa cintilante.
            E a decisão decidida do morubixaba pai da cunhantaim Jurema, atitude pensada e sonhada, foi mandar construir uma oca especialmente para o mascote da filha. Na palhoça do cacique continuariam os cachorros como mascotes; na oca dos demais índios e índias continuariam os filhotes de tapir; continuariam as sucuris rastejando pelo chão e na sombra; as jiboias rastejando pelos cantos e sombras e beiras de água; os macacos-pregos pendurados nos caibros e galhos e cordas; e ainda os tamanduás-mirins buscando os cupins dentro do cercado dos cupinzeiros. Um mundo nem interferiria no outro: cada mascote mumbavo com seu cercado. E tudo se resolve preservando o gosto de cada um e de todos ao mesmo tempo.
            Sem problemas mais desse tipo, Jurema aceitou a decisão do pai e foi morar com o gato Tiê nos seus próprios domínios. E o caso familiar ou tribal estava resolvido sem grandes amuos, muxoxos, deselegâncias, arranhões e choros.
            E a cunhantaim planejou coisas junto com seu mascote Tiê e sua madrasta e confidente Mamangava:
            - Sabe, minha tia e mãe e amiga! Vou mandar erguer na aldeia uma estátua em honra ao Tiê, ao gato em geral, a todos os felinos desse mundo. Quero ser a protetora dos gatos em especial, dos gatos em geral, dos felinos domésticos, dos felinos selvagens.
            - Sim, cunhantaim. É uma curiosa decisão. O gato lhe trouxe sorte e um grande coração. Nada mais justo e acertado que criar um centro de admiração ao felino. É uma excelente ideia. Mande esculpir na madeira ou talhar na pedra.
            - Teremos o dia do gato ou dia do felino - continuava planejando a Jurema -, que poderá ser o dia do aniversário do Tiê. O mesmo dia que o encontrei na mata, dia vinte e nove (29) de julho. Teremos orações específicas para os felinos; teremos procissões para os gatos; aprenderemos histórias e lendas e causos que narrem acontecimentos de gatos; teremos a inauguração de uma estátua muito alta; teremos recantos dedicados aos gatos ou felinos. O resto do plano eu vejo depois e continuo.
            - Acho bom que o povo da tribo participe. Os deuses novos custam a pegar, será preciso muita persistência, muita paciência, muita propaganda e todo seu carisma, cunhantaim Jurema - completou Mamangava.
            - Você poderá cuidar disso por mim, tá certo?! - e fez um biquinho assim com os lábios bem uma expressão de mistério ou enigma.     
            O ar e o espaço azul, que são muito irmãos e parecidos, se deixavam inundar de luz total. As nuvens leves, como nuvens empurradas pelo vento dos quadrantes, tinham cara de coisas úteis. E os passarinhos, comendo os fios de sol, brincavam de pular de árvore em árvore. As asas-de-sabre de flor em flor. Uma beleza, uma delícia e tudo mais. Mato solto perambulava, jurubeba-de-espinho, flor-de-couro, mangabeira, carandá, jabuticaba-açu, grama-do-pará, juá-amarelo e seus descendentes... Estavam no tempo certo da paisagem.
            - Quando vamos comer mel de abelha lá na montanha? - lembrou o Tiê.
            - Logo. Hoje. Mais tardar amanhã - respondeu a indiazinha.
            - Eu quero aprender a voar do alto dos galhos - lembrou o gato.
            - Quer pescar também?
            - O rio é muito fundo - lembrou o gato mágico.
            - Vamos de ubá.
            - E se chover - lembrou o gato endeusado.
            A maior parte das pessoas preferem todo o futuro pela frente, e olham para o porvir com esperança e doçura.
            O gato Tiê, pequena estatura, ainda sonhou com viagens curtas e longas.
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            Amadureceram. Tanto a cunhantaim Jurema cresceu e virou cunhantã Jurema de vinte e poucos anos, como o gato Tiê ficou mais em idade avançada e olhos bem mais abertos assombrados vigilantes.
            Todo mundo da aldeia esperava que o gatinho se transformasse num grande gato-do-mato, jaguatirica, em onça-pintada, ou onça-parda, mas isso nem ocorreu.
Tiê era mesmo um gato descendente de gatos domésticos e nem crescia muito, já estava de bom tamanho. Aquele mesmo tamanho que foi encontrado um dia no mato pela indiazinha Jurema ficou para sempre assim.
            E a cunhantã Jua nunca largava seu mascote xerimbabo. E ela já pensava em casamento e essas coisas da idade da juventude de uma índia. O Tiê também pensava em casamento, mas ainda nem encontrara uma namorada da mesma espécie da mesma altura ou um pouco menos. As gatas que ouvia miar viviam no mato alto e elas cresciam muito rapidamente como jaguaretês e ele tinha pavor de apanhar delas, pois eram mais fortes e de garras mais longas afiadas, etc.
            Frequentemente Jurema e Tiê iam à cidade de Cruzeiro do Sul ou Sapezal ou Campos de Júlio, ali um pouco distante e vizinha da aldeia, para vender coisas e comprar outras. Por exemplo, vendiam abóboras e compravam tevê de plasma. Vendiam cestos feitos de taquara e compravam tecidos vermelhos e amarelos para fazer vestidos ou bermudas. Vendiam artesanato de madeira e barro para comprar talheres e panelas.
            O leito do rio Juruá, o chão onde o rio se deitava e se enroscava e dormia, perto da aldeia, era de areia fina e barro vermelho e pedras preciosas. As margens desse rio eram de árvores e arbustos e aguapés. Povoados de curimbatás, miuás, mururés-carrapatinhos, etc., azedas-graúdas, ucuubeiras, ananases-de-agulha...
            Certo dia o Acre inteiro amanheceu com uma aborrecida e desenxabida notícia: o cacique Icapirira Aimoré da tribo aimoré estava falecido.
Todo o Estado do Acre enlutou, e por três semanas chorou por esse seu cacique famoso que se fora. Muitas manifestações em homenagem ao cacique tiveram lugar também na cidade de Cruzeiro do Sul, São João da Barra, Nova Olímpia, Cascadura um bairro do RJ, na serra de Amambaí... Houve festa e danças rituais e foguetório e procissão para nem se esquecer jamais do finalizado mandachuva. Houve cortejo, bandeirinhas de papel colorido penduradas de árvore a outra árvore pelo meio da ocara cantorias pajelança que duraram no mínimo um mês.
            Claro, sem dúvida, é óbvio, Jurema e a tribo aimoré inteira ficaram arrasados com a perda do cacique Icapirira. Por dias e dias perderam o rumo, deixaram de comer caça, nem dormiram, e choraram tudo o que podiam e tinham direito. Juma chorou abraçada ao Tiê. Mamangava abraçou chorosa a Jurema com o Tiê.
            No lugar mais bonito da aldeia aimoré, às margens do rio Juruá, a cunhantã mandou enterrar o vaso contendo os restos mortais do cacique seu pai. Junto com o morubixaba foram os seus apetrechos de caça arco fechas tacape cachimbo suas coisas pessoais e muita comida para a longa viagem até a floresta dos antepassados. Depois mandou também construir uma imensa pirâmide de farinha de mandioca sobre o túmulo. A maior imitação de pirâmide do mundo e feita de farinha de mandioca torrada. 
E para o povo da cidade, por exemplo, a cunhantã mandou fazer mil arrumações e benfeitorias, irrigou as terras de plantio, cultivou os jardins do centro da cidade, mandou plantar árvores frutíferas e floríferas na praça que levava o nome do cacique Icapirira. Jurema falou ao vivo na tevê e no rádio para todos da tribo amigos parentes aderentes:
            - Meu pai Icapirira será visto na história da tribo aimoré e da cidade como o maior entre os maiores caciques. Eu espero isso. E desde já agradeço.
            Com o desaparecimento do cacique Icapirira, e a tristeza que veio logo em seguida, a cunhantã Jurema ficou ainda mais apegada ao gato Tiê. E aproveitou para doar todos os cães mascotes do pai. E doou todos os cães para parentes distantes que moravam noutras tribos e até mesmo noutras cidades do Acre, Abadiânia, Capim Branco, Nova Aliança, Potirendaba, Icapuí, Alto Paraíso de Goiás, Santa Vitória do Palmar, Poço Branco...
            A própria Jurema comentou com a madrasta e conselheira e confidente Mamangava:
            - Meu pai gostava tanto de cães! Todos os cães do meu pai serão bem tratados, lá longe nas terras distantes dos parentes contraparentes compadres e comadres tios e tias fulanos e beltranos e sicranos.
            Mais tarde, três meses mais tarde, o cacique Icapirira já comemorado na tristeza e na glória da sua passagem da terra para o além, a aldeia resolveu escolher ou oficializar a índia Jurema como tubixaba ou cacique. Algo inédito entre os índios aimoré.
            - Eu vou seguir os bons conselhos dos anciões anciãs da tribo. Eu vou agir com calma inteligência. O deus Tiê estará sempre comigo e vai me ajudar. Serei sempre muito grata pela confiança de vocês todos, e obrigada!
            Assim, todo mundo preferiu ter gato como mascote mumbavo. O gato virou a mania nacional do Acre. Todos que gostavam de bicho de estimação preferiram adotar um felino tamanho pequeno. Gatos de todo tipo: gatos selvagens e gatos domésticos e gatos domesticáveis. Gatos carijós gatos pretos gatos colorados gatos gatas de olhos azuis negros verdes iluminados.
Jurema ou Juea, sentada no chão do lado de fora da oca e segurando o queixo com as duas mãos, olhava interessada para as mãos do Tiê. Os rastos do Tiê, rastos pelo chão, rastos em alto-relevo, rastos em médio-relevo, rastos em baixo-relevo, rastos indeléveis, rastos virtuais... O Tiê de pelos cauda miados olhos cinzentos e rastos de felino leve suave solto.
- Muito bom estar contigo sempre por perto, Tiê.
- Queria ser pássaro pra viajar longe, partir para outras terras, partir e sempre.
- E me deixar sozinha, praticamente?!
- Meu sonho é voar mais alto que o gavião-de-penacho, é. Mais rápido que um avião de verdade, entende?! Eu e eu mesmo gostaria muito de poder voar e rápido por cima da montanha, hum!...
            O gato Tiê carregava segredos da espécie que nem revelava a ninguém por nada, nem a ele mesmo. Os olhos agateados de gato do gato.
            Uma quinta-feira à tarde, a cunhantã Jurema trocava ideia com a Mamangava:
            - Veja, minha madrasta! Todos adotaram um gato como bicho de criação.
            - Sim, e isso é influência sua, minha filha. O povo sempre segue o exemplo das mais fortes e mais bonitas. Se o povo gostou do gato é porque gostou da cunhantã Juma.
            E, então, mais um certo dia. Certa ocasião aconteceu tremenda grande ventania na floresta toda. O vento tão forte fez estragos e derrubou árvores. Árvores retorcidas depenadas desarrumadas descabeladas. Algumas árvores gigantes como jequitibá, maúba-preta, bicuíba-branca, canela-limbosa, curacicaá, uvaia-do-campo, catiguá... foram arrancadas do chão com raízes e tudo. E o vento furioso vinha por que e de onde?
            Nem foi um dia isolado, nem foi um fato isolado. Clarões de relâmpagos, seguidos por trovões de tremer o chão, e os ventos desesperados com rajadas fortes, e por fim a chuva de chuá! chuá!...
            Choveu para encher o rio Juruá, o rio Perdido, o rio Madeira, o rio das Antas... Choveu para pintar de tons verdes as matas capões e florestas. Choveu porque Tupã esperava chover por aqueles dias, dois a três dias sem parada.
O gato Tiê esperou tudo se acalmar a chuva dar uma trégua e se aventurou para o mato. A cunhantã Jurema sentindo falta do mascote foi atrás e o seguiu, chamando-o pelo nome de batismo:
- Tiê! Tiê!...
O gato Tiê nem bola, continuou pela mata interior adentro, etc. Ele que era um gato doméstico e medroso de mato e medroso de encarar bicho do mato e temeroso de sujar as mãos na lama.
Depois de horas a cunhantã foi alcançar encontrar o amigo Tiê numa caverna toda incrementada toda cheia de tororós estátuas de gatos e de felinos toda a caverna cheia de deuses felinos ancestrais ou ultrapassados, jaguatiricas, onças-pretas, gatos-do-mato, onças-pintadas, etc. E Tiê olhando tudo aquilo maravilhado hipnotizado fixado paralisado.
Um dos deuses estátua perdeu a compostura de pedra e veio falar com Tiê na língua dos deuses felinos ancestrais:
- Miau!... 
Tiê escutava e somente fazia assim com a cabeça, dizendo sim, aprovando tudo. O gato Tiê ouvia o seu deus superior falar alguma coisa misteriosa importante e concordava com tudo. Tiê parecia um brinquedo de mola.
Quando o deus ancestral dos gatos e felinos terminou de convencer ao Tiê, a cunhantã Jurema pôde se aproximar e pegar o amigo no colo. Daí, voltaram pelo mesmo caminho. E Jurema já estava contente, o gato abraçado no colo parecia espiritualizado.
Por último, já na aldeia, o gato Tiê estava tão impressionado com a viagem ao mundo dos deuses felinos dos seus avós e etc., que ficou dias e noites olhando sem ver, pensando o vazio, todo dominado por um pressentimento e um hipnotismo de estranhar. Se comportava como um gato raro.
- Nem sei o que me deu, Jurema... Eu estava ali no pátio e de repente ouvi um miado me dizendo me convocando... e eu peguei sem querer e fui... - dizia o gato Tiê todo meio dominado pelos mistérios do além e do aquém.
- Os deuses antigos te chamaram, Tiê? Os deuses do chão e do ar, Tiê?
- Sei lá. Acho que sim. Talvez. Quem sabe. Nem eu mesmo sei direito e ao certo.
Uma hora o gato Tiê caiu do barranco perto do rio Juruá e mergulhou na água cristalina. Ele que detestava água fria. E nem sabia nadar. Foi sem querer. E quase se afogando, foi salvo pelos curumins e cunhantains parentes da cunhantã Jurema.
- Você queria tomar banho, amigo Tiê?
- Você queria aprender a nadar, seu Tiê?
- Você queria pescar, tio Tiê?
- Você queria atravessar o rio, compadre Tiê?
Na mesma daquela interessante noite, o Tiê ficou louco, maluco, tonto, esquisito, pirado. E começou a se sentir mal e pior impossível. Pegou febre e começou a delirar a falar coisas sem importância coisas inúteis coisas sem pé nem cabeça. Teve vários sonhos com gatas namoradas que eram filhas protegidas de deuses ancestrais de deusas ancestrais.
            Nem demorou dois dias e o gato Tiê começou a falar com aquela cara de quem precisava casar urgentemente. Foi sem aviso nenhum. A cunhantã se sentou no chão, pendeu a cabeça no ombro do gato e foi mimando-o. Depois de uns minutos o gato começou a falar como um namorador nato:
            - Cunhantã! Eu gostaria muito de viajar e conhecer outros lugares, São Francisco de Itabapoana, rio Jequitinhonha, serra da Bodoquena, reserva e território dos apurinã... namorar gatas especiais, gatas que sobem em árvores, gatas que aparecem na tevê, felinas que vão à praia todos os dias da semana, gatas e nem meninas, entende?!
            A cunhantã se surpreendeu tanto com a novidade do seu mascote Tiê que saltou em pé para comemorar a boa notícia. E toda a tribo ficou sabendo na hora que o Tiê já queria novos ares e se encher de compromissos e sair na noite para a balada.
            - Sim e exatamente! - comemorou Jurema. Namorar e casar duas ideias ótimas numa causa só e vale a pena. Vou seguir o seu exis.
            Nem foi tanto assim (e foi neste país e neste meio tempo), que a cacique Jurema casou com o guerreiro Jacamim e tiveram muitos filhos filhas em sequência de escadinha. Jacamim era forte e belo e agradável era tudo que a Jurema esperava de um guerreiro moderno e estudado na faculdade de agronomia. E tiveram muitos dias para curtir o convívio amigável, etc.
            O gato Tiê foi deixado um pouco de lado na história íntima de Jurema, mas nem completamente.
            E era tudo isso mesmo. O gato Tiê virou e continuou sendo um deus nos acuda muito sério e feliz e divino ali na tribo aimoré.
E o felino Tiê procurava pela aldeia, procurava mil coisas, sem ter o que fazer. Sentava na terra vermelha do lado da oca para pegar sol. Olhava o mundo sem ver nada. Admirava as aves, pássaros, passarinhos, trontrons, anambés-pretos, xexéus-de-bananeira, virapurus... e queria subir alto voar. Observava com respeito os falcões e gaviões e harpias. Talvez sonhando com a namorada que escolheria amada distante ou muito perto, e quem sabe!
- Sim, eu mesmo digo e repito para mim mesmo: bom, e bem. Posso contar até dez.
Ficava andando pela oca, pelo pátio de terra batida, admirando a sombra das árvores, olhando o rio de longe, mexendo nas coisas, cheirando, deitando na rede, sem nada para fazer. Pulando, pulando de pulo em pulo, pulando de degrau em degrau, pulando o pulo do gato, pulando de lado, pulando e caindo com as quatro patas firmes no chão. Aliás, como todos os felinos abelhudos devem fazer e que sabem se divertir sozinhos. Brincando de caçar gafanhotos mariposas baratas manchas de luz e sombra...
Quando chovia o Tiê procurava Jurema e se enroscava nos pés da cunhantã. Com frio. Tiê era ágil como um gato-do-mato, como ele mesmo, como um maracajá, como uma jaguatirica, como um gato doméstico comum, como um jaguarundi.
            - Cunhantã! Quando você me leva na cidade mais próxima?
            - Eu vou te levar amanhã mesmo. Quer?
            - Tenho muita coisa que ver na cidade e no seu centro histórico patrimônio nacional.
            - Você nem está pensando em viajar para longe, está?!
            O gato queria diversão atração distração carnaval feira livre balada e férias na praia da Joaquina. Tiê tinha o coração maior que a barriga, maior que os olhos. Tiê olhava no mapa e queria conhecer o cânion do Xingó. Tiê queria conhecer a base aérea de Santa Cruz. O gato queria conhecer e ficar um tempo com a tribo marubo. Tiê precisava de férias e queria conhecer a famosa avenida Cajubá em Brasília-DF cheia de joalherias bancos embaixadas...
            E o deus Tiê nem tinha receio de teiú, nem tinha medo de formiga-carregadeira, nem tinha pavor de saruê, nem tinha prevenção de xenxém, nem tinha negociação com urubu-de-cabeça-vermelha, nem tinha preconceito de camurupim, nem tinha raiva de jia, nem tinha inveja de bando de tucura. E que mais que Tiê nem tinha susto? Só os deuses deusas poderosos dos felinos felinas sabem, hum!
            Tiê estava feliz e soberano e cheio de pretensões a namorador conquistador barato. O gato quase ria o tempo todo. Um tipo que se achava. O gato chorava miau uma ou outra vez por mês só de manhoso. E o Tiê quase achava graça das pessoas dos índios todo dia indo nadar e caçar ou pescar ou plantar mandioca.
            - Por que nem dormem em vez de plantar e colher? - se perguntava o gato.
            - Por que nem ficam trocando ideias fáceis em vez de caminhar no mato e se cansar? - se perguntava o gato.
            - Por que nem assistem tevê em vez de trabalhar? - se perguntava sozinho o gato Tiê.
            Mas o gato achava muita graça em brincar com coisas encontradas na ocara. O Tiê achava pouca graça dos humanos e outros bichos. Os humanos achavam muita muita graça em adorar o gato Tiê. O Tiê tinha gosto e esperteza para procurar novidades e romances repletos de aventuras.
            Fizeram uma estátua de barro tamanho normal do Tiê ali perto da pirâmide de farinha de mandioca esta a mais alta do mundo. Toda a tribo olhou de frente a inauguração. A estátua de corpo inteiro, sentada no altar, a cabeça de felino, os olhos parados no longe, olhos olhando tudo e fixamente, olhos acesos dia e noite como de dois faróis, orelhas acompanhando o olhar ao longe. Gato parecendo miar o tempo todo. Gato-do-mato, filhote de jaguatirica, com estátua do tamanho de uma onça-pintada jaguarapinima das grandes. De noite iluminado pela lua majestosa.
            - Eu sou bonito assim? - se orgulhava o gato Tiê no espelho do rio.
            - Você nem só é bonito como famoso e virou um deus - respondia a cunhantã Jurema.
            - Um deus... com poderes... os maiores possíveis...
            - É, você está nosso deus com D.
            - Então eu quero viver mil anos e conhecer o mundo todo viajar de navio de avião de trem de caminhão. Depois descansar na rede diante de uma praia salgada com coqueiros. E coqueiros que nem dão coco na cabeça, estou certo!
            Esse seria o início da era do deus gato Tiê.      Em vez de uma ou duas, três estátuas, dezenas de estátuas, centenas, milhares, estátuas em todos os cantos, em todas as cidades do Acre e de alguns lugares do país e do mundo. Toda casa tinha seu altarzinho do gato. Estátuas de ferro, de bronze, de pedra, de barro, de madeira, de plástico, de nuvem. Estátuas pintadas de branco de preto pichadas desenhadas virtuais.
            - Você tem longos cabelos bonitos, Jurema - disse o gato todo romântico.
            - As gatas têm pelos, nem cabelos.
            - Eu sei e concordo.
            - Sabia que o sabiá sabe assobiá?
            - Sabe que a moeda tem dois lados e a cara nem vê a coroa desde sempre?
            E na rua, qualquer rua de Cruzeiro do Sul, quando Jurema passava com seu séquito, e acompanhada do gato Tiê, toda a massa vibrava, gritava, aplaudia, abanava, chorava e ria. As crianças saíam do colégio com caderno na mão. As donas de casa apareciam na janela ou na varanda e estendiam os braços. Os senhores paravam o trabalho na fábrica na loja no armazém paravam o trânsito para tirar o boné:
            - Viva o Tiê, o nosso deus! Viva! Viva!...
            E a notícia do gato endeusado pululou e pipocou e entrou pelo ar e foi levada pelos sete ventos redes sociais aos cinco continentes aos quatro oceanos. A propaganda bateu no tronco oco da árvore e foi de árvore para árvore subindo e descendo serra. Manchetes escritas em barro, em pergaminho, em papiro, em papel, em tela de computador foram lidas e declamadas. A notícia fez gosto e entrou na ideia de todas as pessoas urbanas ou rurais e bichos selvagens ou domésticos terrestres ou alados.
            Um dia atrás do outro. Um dia e outra noite. Um dia por dentro do dia. Uma noite entre dois dias. Dias, semanas, meses fazendo calendário. Tudo parecia igual. Mas o mundo ia bem por ali mesmo. Um mundo redondo amplo vasto largo.
            Mais do que nunca, mais do que em outras histórias, o gato Tiê, o deus dos aimoré, era tratado a mel puro de abelha silvestre. Nem dava dois passos sem companhia de alguém. Tinha o pelo sempre muito bem cuidado, lavado com sabão perfumado, escovado, cortado, penteado, disfarçado, trançado, pintado, massageado. Fazia sessões de carinhos e carícias e cafunés. Pegava sol na manhã até as dez horas. Só comia queijo importado de Minas, rapadura da Paraíba, pé de moleque do Espírito Santo, quindim da Bahia, pamonha da ilha de Marajó, beiju do Amapá, caldo de cana de Sergipe, chimarrão do Paraná.
            - Tiê! Posso te dizer algo importante no momento? - perguntou a Juma.
            - Pode tudo, querida - disse o gato.
            - Nunca vou te esquecer, aconteça o que acontecer. Eu prometo e juro!
            - Nada irá acontecer, cunhantã Ema, que já nem tenha sido planejado e escrito antecipadamente. Te garanto e assino embaixo. O futuro já está discutido bem... dito. 
E todas as pessoas e bichos da tribo, sem exceção e exclusão mesmo da índia Jurema, se ajoelhavam quando Tiê entrava na oca ou saía da oca.
Sim, era tudo no maior respeito, consideração, adoração, devoção, gritaria e pedidos de proteção. E se alguém, seja gente ou bicho quem fosse, ficasse doente ou ruim ou muito mal, era só orar, dar um presente e pronto, o gato Tiê fazia a cura. Fez até muitos milagres com um simples gesto das orelhas felpudas.
- Se você tem fé você avança! - diziam e repetiam os mais experientes da aldeia.
Algumas árvores por aí plantavam verdes azul amarelo tons de verde. Árvores andavam pra cá pra lá acompanhadas de borboletas besouros cigarras louva-a-deus... As plantas tinham força sobre a tribo aimoré, manjerona-do-campo, alecrim-do-mato, solidônias, capim-de-bode, marurus, falsas-tiriricas...
Tiê era assim mesmo: zombava de quaisquer doenças ou enfermidades. Era só pedir pra ele que, tóim!... os males levavam na cuca e iam embora para nunca mais.
Por enquanto, o Tiê parou no pátio e olhou para o céu: as andorinhas. Essas tais e quais aves rápidas mexiam com ele. Tiê queria viajar e conhecer logo sua melhor amiga a sua namorada predileta, prometida.
            Corria tão bem o divino dia a dia do bom deus Tiê, estava tão rica a índia Jurema. Então, perguntar sobre o quê, uma vez?
            - Pode perguntar o que quiser, Tiê - incentivou a Ju.
            - Eu estava pensando...
            - Sim, o que é?
            - Você sabe fazer sorvete, Jurema?
            - Que ideia, Tiê! Desde quando que temos sorvete aqui na aldeia? Pense em outra coisa.
            - Então, eu quero viajar para Barbacena. Me disseram uma vez, ouvi falar, que lá os gatos são bem tratados com quitutes feitos pelas vovós pelas tias pelas comadres.
            - E aqui na aldeia você nem é um deus das índias?
            - Aqui está tudo bem e eu moro legal. Mas eu quero passear. Um gato precisa fugir de casa de vez em quando, né?! Fugir é o começo da história. Sempre foi.
            Pois foi exatamente por esses dias prósperos que em uma bela manhã de domingo, e era realmente bela a manhã sol forte céu aberto azul e azul, que do deserto caatinga invadiu um exército de formigas inimigas aladas ou terrestres e cheias de tenazes para morder e cortar e retalhar e levar embora.
            Foi em absoluta passagem de tempo em plena hora das dez da manhã. Um dia como outro qualquer do calendário, etc. Um silêncio absurdo. E ar puro.
            Já dez horas e cinco minutos um estardalhaço uns barulhos enormes uns ruídos uma quebradeira e uma correria vindo da floresta.
            As árvores tombavam e os animais de pernas de asas fugiam espavoridos alucinados.
            E a aldeia ouviu e viu todo esse fenômeno e nem entendeu nada. Também ficou esperando para ver o que era todo aquele estrondo apavorante e que vinha vindo como rolo compressor.
            Um bando de tucanos-de-bico-preto passou sobrevoando e contando para todos ouvir:
            - For-mi-gas!!!
            A reserva da tribo aimoré estava sendo invadida por exército muito ganancioso voador caminhante e colorido em uns bilhões e bilhões de formigas-correição.
            E isso era o fim de tudo e o melhor mesmo era fugir e nem lutar para não morrer.
            As formigas carnívoras vegetarianas vieram com tudo pra cima da desprevenida nação da índia Jurema. Apareceram em bando e formigueiros lá da fronteira, além da serra do Divisor. Nem havia deus gato Tiê que suportasse tamanho exército inimigo. Uma máquina gigantesca feita de bilhões e trilhões de insetos roedores trabalhadores engenheiros arquitetos.
            Bem nutridas comendo tudo que encontravam e devorando tudo que viam, etc., e latindo como lobos-guarás, assobiando como uirapurus, batendo os dentes como porcos-do-mato, etc., arranhando como aimirins, mostrando as tenazes ferozes como formigas comilonas... E essa surpresa pegou a todos desprevenidos ali naquele sítio situado no Acre - Áquiri ou Uwákuru.
            Os índios e as índias aborígenes autóctones corriam sem rumo pelo pátio sem saber de nada como tontos:
            - Quem nos salvará? Quem nos olhará?
            - Para onde vamos fugir e nos esconder?
            - Será que o deus Tiê está nesta hora?...
Mais ou menos o ataque foi frontal e fatal e federal. A aldeia nem resistiu, nem teve tempo para contra-atacar. Foram vencidos, feridos, expulsos, despachados, corridos, carimbados, aniquilados. O inimigo ganancioso assaltou assustou a tribo aimoré, devorou tudo, picou o resto e roubou o que podia carregar.
- Nem esqueçam o pão... o sopão... o sabão... - diziam os comandantes do formigueiro.
Todos da tribo esqueceram o deus Tiê e correram para o rio, os animais para bem longe, os alados para mais longe ainda. Os que puderam se salvar atravessaram o rio, os que nem puderam, etc.
            E as formigas-corredeiras fizeram os estragos profissionais e competentes. Antes de mais nada, antes de pouco mais ou menos, antes de qualquer conversa vai ou conversa vem, elas detonaram tudo e pronto. E tudo ficou sem capricho bagunçado carcomido pisoteado roído amassado e em ruínas. Um desastre nuclear?
            Uma capitã das formigas-correição gritava e com sede de vingança:
            - Vamos, camaradas! Carreguem tudo! Levem tudo que puderem carregar! Comem e bebam o que puderem! Nem deixem nada pra trás! O último que sair nem apague a luz!
            As invasoras bicudas ciscaram e pintaram paredes, postes, antenas de telefone, ocas, palhoças. E os dias e as noites se encheram de quebra-quebra e deglutição. Cada guaiú batia a tenaz de um jeito, fazendo uma coisa, gritava outra coisa. As invasoras nem perdiam tempo, pois que era outro dia.
            - Carreguem banco de madeira caxim... rede de dormir feita da palha do buriti... - berrava uma oficial de alta patente do exército invasor.
            E era uma montanha de formigas-cegas todas muito enormes bem famintas que nem acabava mais. Formigas bonitas, até. Ninguém nem sombra perto delas. Guerreiras estranhas e curiosas. Nenhuma coisa ficava esquecida, nem para contar história nem por sombra nem por dúvida nem por sorte nem por azar.
            E todas essas formigas-da-chuva pareciam ter enlouquecido. Ferozes e loucas de uma vez, sim ou nem. Quando muito seu único propósito era comer comer comer...
            - Deixem as pedras, o restante podem carregar - dizia a gerente das formigas-correição.
            E o bando e os bandos se acercaram das pirâmides de farinha de mandioca armazenadas pala tribo e com idade de cem, duzentos, mil e trezentos anos. E os bandos de bilhões de formigas foram comendo tudo aquilo de pirâmide, comendo com as mãos, com os pés, com as asas, com as antenas. Uma poeira branca e azul sobre a região de ex-floresta e proximidades. Voaram pedrinhas, pedaços de madeira lascada, muito mais coisas para todo lado, cisco, faíscas, relâmpagos. Tudo patrocinado pelos garranchos das bicudas.
            A índia Jurema estava tão mal que pensou que ia derreter de desgosto:
            - Que pesadelo é este, gente?! Onde se perdeu o nosso Tiê? Como são estas tais e quais em bilhões de morupetecas, de onde vieram e por quem?
            Juema, que já nem sabia se era ainda cacique ou governadora, pensou com o esposo Jacamim. A hora nem era para espernear, teimar, resistir, berrar, fazer bico, esperar milagre do Tiê. Tinham que dar no pira dar no pé deitar o cabelo abrir.
            Então correram os dois até gastar os quilômetros que faltavam para chegar na cidade de Cruzeiro do Sul ou Guaporé ou Augusto de Lima ou Bálsamo, ou seja, a cidade mais próxima.
            E caminharam dia e noite, de tarde e de manhã bem cedo, no clarão da lua, na maravilha estrelada das estrelas pequenas e distantes, sob o sol na sombra sob a chuva.
            - O mundo é tão importante que vou dividi-lo em vegetal mineral animal e astral.
            Isso mesmo levou e foram algumas semanas de meses. O escuro a umidade o sol de queimar e a longa estrada de terra vermelha, etc., quando caminhar caminhar...
            O casal de índios se entreolhou certa hora certa altura e Jurema se convenceu:
            - O meu Tiê se perdeu na guerra invasão das formigas! E agora?!
            Jacamim procurou pela calma nessa hora:
            - Calma, querida. Acho que ele se escondeu... se refugiou... se separou...
            Assim mesmo se ouviram mais de uma vez os murmúrios sussurros e lamentos da inconsolável índia Jurema:
            - E o meu Tiê que se perdeu... ou foi devorado... ou fugiu... ou se isolou...
                                   888     
            O que é o tempo com relógio no pulso? O tempo do tempo analógico ou digital. O tempo que é boi e vaca ao mesmo tempo. O tempo que é tucano-de-bico-verde. O tempo que é peixe dourado. O tempo da madressilva-verdadeira, da camambira, da quina-do-mato, da quixabeira, da erva-cidreira-do-mato, da mandubirana... A folhinha em tempo que passeia panorama pela esquina das calçadas passo de zebra rua Leopoldo Miguez o compositor e rua Evaristo da Veiga o poeta. Tempo que passa boi e passa boiada e de uma invernada para outra invernada aguadas.
            Olhando para cima, ao redor, durante as horas, durante os dias, o céu era azul ou estrelado, sempre azul, azul sério, mas muitas e eternas estrelas de cinco pontas.
            Esperar, esperar porque o tempo estava sem pressa. Uma hora pequena, um dia pequeno, um ano pequeno, e o tempo nem passou.     
O gato ficou sem ter com quem e pra onde ir. Estava indo e voltando andando em roda e olhando para trás, perdido, desengonçado. Sozinho, a primeira coisa foi se refugiar no alto de uma pedra desinteressante para as formigas e pensar o que fazer e por onde ir um caminho a tomar um rumo alternativo. Subiu no alto de uma rocha e começou a miar, a falar sozinho, baixinho, enrodilhado em si mesmo:
- E esta, agora...
- Lá se foram por formigas abaixo os meus sonhos de deus divino e tudo mais...
- Quero ficar do tamanho de uma onça-pintada acanguçu das brabas...
- Quero virar um rio caudaloso... e afluente do Trombetas.
- Peregrinarei daqui até o mar e nem deixar rastos pegadas vestígios...
- Quero viajar alto e rápido como um avião a jato de caça...
- Tenho saudades dos gatos que são rio árvore praia hotel butique...
A nova. A lua. A nova lua. A lua nova.
Vento distraído dos quatro cantos do planeta.
As cores livres do dia brincando de pintar.
Periquitos-tuim passaram altos pássaros numa direção comum.
Nuvens silenciosas afofando travesseiros ante os lençóis frágeis de azul.
O destino das plantas mexendo as folhas, capitães-do-mato, airatubeiras-dos-índios, ingás-ferrugens, congonhas-do-sertão...
Dia acontecendo e o gato se viu no ambiente e miou dentro do comandante do dia. Mais um pouco e mais tarde:
- Eu tenho notícias científicas de mim? Eu me pertenço?
Uma tarde, já muito ilhado, resolveu descer da pedra lisa e arriscar a sorte e foi andando para um lado que escolheu à vontade. Sempre tinha receio de ficar sem a companhia dos humanos. Humanos gostam de gatos nem chutam gatos nem comem gatos...
Um alto e grande bando de avoantes e velozes em ordem alfabética abcd... passou naquela algazarra.
- Estas muitas avoantes ribaçãs pombas-do-meio pararis vão até em plena Paraíba, sim senhor sim senhora! Paraíba de Nosso Senhor, Nossa Senhora!
O gato escolheu o mesmo rumo do nariz. E caminhou e andou uma lonjura de estrada poeirenta e desabitada. De um lado campo cerrado e do outro muito mato. As formigas nem estavam ali e nem estiveram ali, nem tinham passado por ali. E ele ouvia os pássaros cantar e tinha receio de ouvir guaiú maquinar. De noite subia numa árvore seca para dormir mais sossegado sem pensar em formigas-correição. De noite se enrolava no alto de uma forquilha sem pensar em insetos devoradores e sonhando com comida quentinha no pires.
- De repente eu estou num restaurante de comida rápida com suco de abacaxi...
- Aqui eu posso dormir uns minutos sossegado e pescar uma fantasia.
- Aqui no alto fecho os olhos e vejo longe e me previno de tudo, é.
- Uma vez no futuro próximo de passagem na rua tal Francisco Braga compositor e entrado no restaurante sentado diante de uma pizza repartida...
Mais outro dia continuou ele andando e sem saber pra onde nem para quem. Sempre andando e sempre desorientado pela estrada BR-101 da serra da Boa Vista.
Até que certa vez chegou foi se acercando da periferia de uma cidade e era a cidade de Anápolis, bairro Tubiacanga, praça com este nome: João B. dos Santos, rua Azáfama. E por que ali, exatamente?
- Opa! Finalmente um lugar de gente. Pessoas gostam de gatos, vai ver.
Achou uma casa branca com janelas verdes e começou a miar de fome e sede e desamparo e perigo e proteção.
 Apareceu uma menina de cabelo de fogo rebelde e logo logo o adotou, etc. A menina gritou de contentamento e euforia e de sonho realizado instantaneamente:
- Meu gatinho!! Que achado!
- Tem suco de abio, aí?
Nova sorte para o gato, novas amizades para o gato e para a menininha, novo lugar para se virar e isso eram as leves aventuras do gato.
Quando foi meia hora depois:
- Meu nome é Jacitara, e todos me chamam Jaci. E o seu?
O gato ouviu e nem respondeu na hora. O gato lambia os beiços as patas o pelo relaxava respirava. O gato deu um miado e a menina interpretou como quis ou como pôde:
- Então seu nome será Tiju. Legal, vamos brincar de qualquer coisa. De tarde eu vou para a escola e vou te apresentar aos meus amigos e as minhas amigas colegas, etc.
            A aventura desses dois na cidade, à primeira vista, poderia ser quase tranquila, quase sossegada, quase calma, quase deserta, quase pacata, muito boa mesmo.
            - Tiju! Você sabe dançar?
            - Nem sei dançar. Por quê? É preciso e necessário?
            - Quer dançar? Quer aprender?
            - Nem quero dançar. Dançar para cansar.
            - Ah!, venha. Deixa de ser tímido, meu!
            Pois uma tarde Tiju e Jacitara estavam na frente da televisão comendo amendoim torrado. O noticiário entrou de urgente em cima da hora inesperadamente:
            - Atenção telespectadores: a cidade de Anápolis foi invadida pela capoeira gramíneas ervas lianas cipós arbustos legumes folhagens e etc., e outras arbustos. Isso é perigoso porque o povo já está no meio do capim, das ervas e do mato rasteiro...
            Jacitara ficou surpresa com o caso. Tiju olhou para a menina e disse:
            - Eu tenho a solução para o caso da invasão da capoeira nesta cidade. E honestamente.
            A menina perguntou como quem interroga:
            - E qual a tua solução, Tiju?
            O Tiju foi na beira do arroio e combinou e convocou e convenceu as antas as capivaras os búfalos os nelores zebus para virem pastar.
            No dia marcado pelos herbívoros, a cidade foi tomada de animais em bando pastando por tudo. As antas eram as melhores. Muitos ruminantes paquidermes, praticamente. Abaixavam a cabeça mordiam um bocado de erva doce e mastigavam com vontade bovina.
            As antas muito caminharam e muito comeram. As antas se saciaram e a cidade ficou limpa de ervas vegetais invasoras. As antas foram embora todas muito redondas e gordas e o gato Tiju virou herói. Só podia.
Tiju virou herói e deu entrevista na televisão e no rádio e na rede, etc. E muito chique.
- Eu fiz bem feito porque tive uma atitude de cidadão decente! E pro mês que vem...
            No ano seguinte, Tiju se candidatou a prefeito e ganhou as eleições. Seu apelo de campanha política batendo na tecla era assim:
            - Eu salvei a cidade das ervas daninhas, e posso salvar o mundo. Confiem em mim, etc.
            Com esses motes e argumentos e cláusulas, Tiju se candidatou a prefeito e ganhou. Pela primeira vez um gato assumiu a prefeitura da cidade de Anápolis. Um gato de colarinho branco e às vezes de chapéu pantaneiro com cinto de fivelão à gaúcha.
            Então, as tribos da região mandaram caciques morubixabas pedir ajuda e auxílio e demarcações, os nukuini os arara os kaxarari os kulina os kampa os katukina os machineri os guaná os tucuju os charrua... e quem mais. A prefeitura lotou de índios pedindo coisas ao prefeito e vereadores. E o prefeito Tiju resolveu a maior parte dos pedidos dos índios e virou político de fama regional.
            Ano seguinte se candidatou a governador, ganhou folgado e foi morar com Jacitara lá em Goiânia, etc. Sempre falando alto como político papudo e cheio de histórias pra contar:
            - Todos têm direito e liberdade pra sonhar e realizar seus sonhos, todos têm direito a viajar de avião, todos têm direito a banheiro no quarto, todos têm direito a desfrutar das melhores frutas da região, todos têm direito a tirar férias na praia Imbé...
            Olhando a cidade de Goiânia, a bonita capital Estadual, a cidade do poder no Goiás, o gato Tiju falou para a menina Jacita:
            - Nunca vi lugar melhor que este para chover 280 dias ao ano. Menos aos domingos.
            No mês seguinte, por acaso, Goiânia era invadida por trilhões de vaga-lumes, uma endemia ou pandemia.
            Tiju disse, muito capaz e original confiante e nem confiado:
            - Deixe pra mim que eu resolvo, porque eu sei resolver.
            Tiju resolveu pedindo aos sapos que viessem almoçar na capital do Estado. Os sapos e vaga-lumes são inimigos figadais. Batráquios e vaga-lumes nem combinaram desde o começo do mundo, etc. Daí que os vaga-lumes foram embora fugindo e também os sapos e as jias.
            A cidade ficou livre dos saltadores em geral e o gato Tiju mais herói do que nunca. Abria os braços para abarcar o mundo inteiro. Tiju virou conhecidíssimo em rede nacional de tevês. Se candidatou a presidente do B com esses dizeres frases e palavras de ordem:
            - O B nem pode pensar somente no dia a dia e na semana de sete dias! Um país bonito deve olhar para o futuro e fazer promover divulgar suas praias lindas!
            E ganhou as eleições já no primeiro turno. Estava com pressa e foi para Brasília. Conquistou muitos e novos amigos e amigas. A maioria os humanos porque eram os mais chegados, e porque era melhor.
            E foi sem a menina Jacitara, pois a menina Jatara tinha de morar com os pais e estudar perto de casa, etc., perto dos amigos, dos primos e primas. E isso chateou a menina, e o gato nem tomou conhecimento ou maiores emoções ou sentimentos.
            A menina ainda perguntou, aflita, abraçada a si mesma, braços cruzados:
            - Você vai mesmo me deixar e me abandonar, Tiju?
            - Vou para Brasília, como sempre, ora! O dever me chama! E negócio de menina é ficar em casa dos pais, correto?!
            E em Bra-sí-lia nove horas da manhã terça-feira trinta e oito graus na sombra: um exemplo. Andando pela avenida Joaquim Osório Duque Estrada mais larga do mundo.
            Tem chuva? E pé de capitiú? E os suiriris-do-campo aterrissando de vereda no jirimato? A tribo dos campeba acampou na Esplanada dos Ministérios? Que idade avançada tem o potó?
            Tiju viu Brasília e se deslumbrou, obrigado! Se apresentou ao povo em carro aberto e abanando com a pata igual fazia já antigamente Getúlio Vargas tirando continências e sorrindo sempre, etc., olhar alto sorriso fixo rosto transcendente pose firme.
            Ali no planalto os compromissos quase sufocaram os seus sete fôlegos de gato. Ele já foi aprender cuanhama quimbundo umbundo quicongo... começou a tocar violão de seis cordas decorou piadas de papagaio e os hinos das datas nacionais e lendas de jabuti. Passou a se vestir com calças pretas e camisa branca tênis marrom sem marca óculos escuros boné verde-amarelo com palavras boas frases certeiras na ponta da língua. Nos finais de semana, e sempre à beira do impecável lago Paranoá, apostava corridas com o pessoal do partido os correligionários os aderentes os camaradas os guarda-costas... Começou a escolher hora e selecionar dia para beber cerveja água mineral café suco de abacaxi. Manducar comia de tudo um pouco churrasco gaúcho quitutes mineiros acarajé tapioca rapadura açaí vaca atolada arroz e feijão. Ia ao Jardim Botânico plantar uma que outra mudinha de planta natural: araparirana mandiocaçu poaia-do-brasil babaçu... ia à estação rodoviária, frequentava ao Vale da Lua, passeava pela feira livre da rua Alcindo Guanabara nas quintas-feiras pela manhã, comparecia à festa de São João no bairro Francisco Manoel da Silva... e fazia todo o esforço do mundo e mais um pouco para arrumar uma esposa pretendente namorada ou amiga.
O gato presidente também atravessava um período de profundo interesse na política alta e política baixa. Sabia fazer discurso que emocionava o público ouvinte o povo da vila o povo da universidade o povo dos sindicatos. E pegava na mão de todas as beldades que via por perto tirava selfies com as atrizes de novela cantoras e cantores os jogadores de futebol com as jogadoras especialmente da seleção de vôlei...
            Como presidente maior inquilino do palácio do Planalto, o gato achou por bem receber e atender atenciosamente ao povo pessoalmente democraticamente nos sábados pela manhã. E pensou melhor e decidiu arranjar pra si mesmo popularmente um outro nome ou apelido. Daí, junto com auxiliares e colaboradores e assistentes e assessores, o felino resolveu abrir uma votação para escolha do seu novo nome um nome mais fácil ou mais popular um nome votado.
            As opções eram estas e ganharia a mais votada:
            a - (  ) Mucunã
            b - (  ) Juberi
            c - (  ) Curixo
            d - (x) Toré
            e - (  ) Nuporanga
            O povo deveria escolher um nome dentre os cinco sugeridos. Assim, e depois de duas semanas de votação pela rede, a população decidiu que o presidente gato se chamaria Toré. Letra d, nome bonito e fácil e simpático e estridente e prático.
            Quase nem faltava nem sobrava mais nada. O mandatário da nação começou a se encher de compromissos e palavras e entrevistas e sorrisos e namoradas e tudo que enche lota a sorte de um político de fama nacional e internacional:
            - Que que eu tenho de fazer hoje? - perguntava ele aos seus auxiliares muito próximos.
            - Qual minha agenda para hoje de manhã?
            - Posso tomar um suco de caju antes de sair?
            - Com qual amiga eu devo sair hoje mesmo?
            - Vou inaugurar uma ponte um viaduto uma rua uma hidroelétrica no rio Cuiabá? É no rio Xingu? É no rio Solimões?
            E o presidente solteiro gato Toré começou viajando de propósito e de avião governamental por todo o B dos quatro pontos cardeais. O B longo largo profundo ondulado bonito nosso e já na forma de coração, “deitado eternamente em berço esplêeeendido...”
            Aconteciam problemas no Piauí de falta de chuvas, por acaso? Então, o presidente Toré se aprontava pegava amigos do poder pegavam avião presidencial e iam até Teresina resolver os problemas da seca dos açudes das barragens das piscinas... Chegando lá o gato presidente era homenageado se faziam discursos e o cacique dos brasileiros e brasileiras Toré discursava também e inaugurava um canal de irrigação que abasteceria de água o ano todo as granjas as hortas as lavouras de cultivo.
            Surgiam problemas no Paraná com falta de mão de obra especializada na indústria petroquímica? Então, o presidente Toré pegava sua comitiva de governo pegava avião do exército e ia até o estádio do Café falar com os paranaenses de Curitiba e Cruzmaltina e Ivaté e Altamira do Paraná, Bom Sucesso... Nas proximidades morava uma beldade ex-modelo fazendeira proprietária de cabanha, e com fotos memoráveis nos jornais revistas e sítios do mundo inteiro. 
            Apareciam dificuldades no Estado do Espírito Santo devido o desmatamento sem controle? Então, o gato Toré, como presidente da nação verde-amarela, pegava avião mais seus colaboradores e iam até os capixabas ver de perto o que foi e nem foi, etc. O povo que gostava comparecia aplaudia e era sempre a maioria; a minoria que nem gostava vaiava e era vaiada ou até nem comparecia.
            Explodia rebelião de presos em Natal, Rio Grande do Norte? Então, o presidente Toré voava pra lá o mais depressa possível para acabar com os distúrbios e da maneira mais sincera e mais honesta que existia. Um mandatário dos direitos humanos. E tratava a todas as gentes com mão no ombro e pelo nome.
            Um gato presidente viajado e que falava seis idiomas. E até pro exterior voou se apresentando na ONU, em Lima, em Maputo, em Luanda, em Teerã, em Santo Domingo...
            - O clima está bom para este ano olímpico, hem?!, gente boa.
            - A praia de Geribá é tão bonita que se pode ir de barco ou a pé.
            - Hoje aqui a hora o dia o tempo serão sempre importantes nas férias de fim de ano.
            Os urubus nem deixavam aviões pousar ou decolar lá em Porto Alegre? Então, o gato presidente ia até lá ia até os urubus e negociava amigavelmente. Dava até uma ilha do Guaíba, que podia ser a ilha da Pintada ou a ilha das Pedras Brancas ou a ilha da Casa da Pólvora, totalmente de presente para as aves se estabelecerem criarem seus filhotes se esbaldarem.
            As formigas-correição expulsaram a tribo aimoré da reserva? O presidente Toré chegava e conversava, levava duas horas conversando, chegava num acordo com a rainha das formigas e o formigueiro voltava para o interior da alta floresta para o fundo da terra e nem aterrorizava mais os pacatos indígenas.
            Chegavam comentários que as capivaras nem deixavam os banhistas do Peri nadar e andar de canoa? O presidente da nação ia pessoalmente dialogar com as capivaras e tudo saía num ótimo acordo para as partes e as roedoras ganhavam um mato com dois lagos exclusivos na estação ecológica do Taim.
            Quando aparecia enchente em Mato Grosso do Sul? Para acolá ia o presidente olhando do alto céu estendido na poltrona do avião. Parava estrategicamente em Campo Grande e dialogava deixava verbas e ia para a sacada do palácio do governador fazer discurso e abanar para o povo sul-mato-grossense. No almoço pegava na mão de uma beldade muito mais alta que ele e os sorrisos de ambos seriam estampados nos jornais e nos telejornais e sítios.
            - O presidente vem aí?
            - Está vindo e com grande multidão atrás dele.
            - Chega de supetão abana bate continência e retorna pra Brasília.
            Por isso mesmo o mundo deu mais algumas voltas. Até que em agosto do dia 16 do corrente ano seguinte ao mandato, a capital federal foi invadida por bando enxame de mosquitos pernilongos borrachudos. Os invasores armados de bicos e trombetas e pernas longas até os dentes nem tiveram piedade dos habitantes e inquilinos. Começaram a atacar na manhã bem cedo e na tarde ao anoitecer. Nem deixavam dormir de dia nem de noite. Foi uma guerra que teve uns vencedores e uns perdedores. Os espinhosos venceram. Os inquilinos fugiram para outros lugares distantes ou andares altos dos prédios.
            Com movimentos ágeis dos mais rápidos que há e típico dos felinos de quatro patas, o gato Toré presidente, urgente urgentíssimo, solicitou permissão e vazou e saiu por aí todo descaracterizado assustado sozinho miando perdido. Por causa principal dos ataques dos predadores invasores e protegido apenas por máscara cirúrgica. Nem conseguiu telefonar nem pegar um táxi.
            Sozinho, sem memória de nada, o gato saiu do interior dos zumbidos zunidos bicadas e caminhou sem pressa pela mata sem rumo certo pelo mato sem destino. Ele que tinha receio de andar sozinho longe de gente, receio de andar no mato, receio de chuva, receio de alagamento, receio de ficar sem as cinco refeições...
            Com assombro de tudo esquecido de tudo sem memória com pavor da noite e muito faminto, o gato ficou miando acendendo os olhos como faróis e andando à toa pelos grotões.
            O gato entrou pelo cerrado do Estado de Goiás sempre fugindo e se internou num oco de baraúna, junto ao rio Verde e perto da terra dos iranxe. Parou porque cansou ia dar um tempo, no caso.
            - Aqui me parece um bom lugar para esperar, é.
            - Aqui eu posso esperar o meu reinício, é.
            - Ali ou aqui tanto faz como tanto fez, é.
            O seu miado foi ouvido a quilômetros de distância. Dentro da manhã que estava já se soltando se tornando aurora. Desde a ilha amanhecida de Santa Catarina. E também dentro do sonho aconchegado no sono espaçoso da menina Lilás.
            Lilás acordou sobressaltada e se ergueu da esteira, o cabelo todo descabelado pelo sonho escorregadio. Quase teve um ataque do miocárdio. Tinha que salvar seu gatinho de estimação, o Catupé.
            E Lilás saiu correndo da casa de palha da vizinha, onde estava hospedada. E também sabia onde encontrar o gato sumido o seu bichano. Pegou a trilha e entrou no capão de mato:
            - Ca-tu-péeee!!...
            O gato estava mesmo naquela árvore, uma baraúna com tronco furado, já vista no sonho sonhado, encontrada naturalmente no meio da mata fechada.
            Foi ali que o gato e a menina se abraçaram de vez e de repente contentes, para sempre. E quem disse primeiro:
            - Vamos à praia da Ferradura, Azeda, Azedinha?

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