quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Gato em Fugas (juvenil)




Parte 1

            Era longe um pouco longinho. E preguiçoso de caminhos.
            O estuário do Guaíba drena drena para a lagoa dos Patos, a lagoa drena drena para o mar oceano Atlântico. Faz tempo. Faz conforme. Faz porque fez.
            E o sol está perto e está longe, ao mesmo tempo.
            Olhando bem, a Lilás parecia uma menina lilás com asas de borboleta lilás. E voava sobre as sete cores da rua da estrada. Uma mochila com uns pendurados fivelas cintos decalques cordões. A rua cheia de casas goiabeiras-serranas com cada cor uma casa. A rua Quenquém cheia de cores e sons e Lilás voando flutuando como borboleta irisada cor lilás de cor em casa.         
            Um Estado do RGS e Porto Alegre, bairro Floresta, mês de janeiro, dia 10 uma quinta-feira, 11 horas e 20 minutos (hora local).
            A menina Lilás estava no aeroporto Salgado Filho. E toda novinha em folha pronta disposta dez anos de idade em férias para embarcar rumo de Floripa e se encontrar com as amigas Rê e Pérola e Esmeralda, no mínimo.
            O voo atrasa atrasou atrasava...
            - Atenção passageiros de todos os voos domésticos e internacionais. Comunicamos que o espaço aéreo está interditado no momento, por favor aguardem - anunciou uma voz de mulher pelo alto-falante.
            Na verdade por que os voos travaram bem nesse dia? Todo mundo grudado no telefone celular e perambulando. Uma comédia. Um desperdício de tempo.
            - Demora muito! - Lilás suspirou consigo mesma pela décima vez nessa hora.
            Uma senhora gritava ao telefone dizendo andando pra lá e pra cá falando com nem sei quem e todos ouvindo o falar bem alto:
            - É, pois os urubus só faltam daqui a pouco invadir o saguão do aeroporto... Porque o espaço aéreo já foi!... Eles vão pôr todo mundo pra correr a pé!... É a vingança das aves!...
            Então, olhando pra fora, através das vidraças da sala de espera do aeroporto, os futuros passageiros já tinham certeza que o céu estava nas asas dos urubutingas. E que pareciam dispostos a nem deixar ninguém mais voar naquele espaço naquele tempo.
            A capital de Cuiabá distava 8.000 quilômetros. A capital de Porto Velho distanciava 5.000 quilômetros. Hoje, a capital de Palmas fazia uma distância de 3.500 quilômetros.
            Um enxame penca de urubus-perus sobrevoava observando o aeroporto e era perigoso enfrentá-los desafiá-los.
            Lilás também telefonou para casa pra casa:
            - Então, se nem dá pé eu vou de trem... Então, se nem dá pé eu vou de ônibus... Então, se nem dá pé eu vou de navio... É ver o que posso fazer. E passo bem!
            E as aves, grandes aves, pesadas aves, voavam sobrevoavam braços bem abertos os arredores do aeroporto, voavam baixo, voavam alto, crocitando, guinchando e defecando nos ombros nas cabeças nas costas dos humanos. E sempre impedindo a manobra dos aviões de asa dura tanto para descer com para subir. Os urubupebas tinham razões de sobra para isso?
            Um urubu-de-cabeça-vermelha, e parecia um dos mandachuvas morubixaba, parou no ar asas abertas fôlego de bico semiaberto e falou para o seu povo alado, grasnou:
            - Nem pensar em deixar esses humanos voar, hein?! Ora já se viu! Onde se viu?!
            Voavam revoluteavam, se empoleiravam nas árvores na beira dos prédios sobre o capô dos automóveis nos postes de tensão, descansavam, voavam outra vez, trocavam ideias, afiavam os bicos nas pedras nos fios de alta tensão e voltavam a assombrar os ares do aeroporto. Nem desistiriam nunca.
            A menina estava acompanhada de uma funcionária do juizado de menores e com a devida autorização por escrito preto no branco dos pais. Todos lhe perguntavam, tia, tio, homem, mulher, moço, moça, funcionário da companhia aérea, policial, etc., todos perguntaram curiosos:
            - Nem tem receio de viajar desacompanhada dos grandes?
            - Nem prefere ficar em casa estudando e brincando?
            - Dez anos de idade nem é pouco para viajar sozinha e pra onde?
            - Tá preocupada em perder o voo? Já voou antes?
            - Se ficar doente e tiver dor de barriga?
            - E se você se perder?
            - Se perder as malas e bagagens e os endereços?
            E muitas outras perguntas que a menina já sabia responder de cor e com a resposta na ponta da língua, bilíngue português e gauchês:
            - Já estou careca de viajar - e indicava apontando a cabeleira que ia até os ombros.
            O saguão do aeroporto tomado de pessoas frustradas de voar. A maioria andando pra lá e pra cá com o ouvido colado no telefone celular. Uma comédia. Uma onda sem vento.
            Todo mundo estava cansado de esperar as condições de voo. Lilás também. Aí a menina pegou suas coisas deu a mão para a funcionária do juizado pegaram um táxi e foram para a rodoviária. Do outro lado da cidade, praticamente.
            A natureza mais a natureza dos urubus-ministros se revoltaram contra aquela intromissão nos domínios aéreos antes somente das aves alados asados emplumados.
            - Eu até gosto de andar de ônibus, mas porém demora.
            O urubu-de-cabeça-amarela, o chefe da manada do bando, lá de cima das nuvens baixas, discursando e falando alto como político na chuva como militante fechando a avenida Dom Silvério Gomes Pimenta como funcionário público no piquete, crocitou, pissitou:
            - Acra! Que história é esta de tomar conta do nosso espaço aéreo do nosso território do nosso direito sossegado de voar e revoar e revoltar, hein?! Pois era só o que faltava! Isto nem vai ficar assim! As correntes de ar quente, as melhores correntes de ar quente, são nossas! Muito nossas! Minha casa nem é vossa casa!
            Os urubus estavam bravos mostravam as garras e com razão, etc. E diziam outras coisas piores e mais ácidas que nem é bom reproduzir nem é bom falar nem é bom recomendar. Tomaram conta do céu porque sempre tinham sido os donos do espaço aéreo antes mesmo dos humanos chegar, bem antes dos aviões, dos balões, dos parapentes, dos paraquedistas...
            A guriazinha suspirou, quase com muita paciência e economia de movimentos:
            - Se os urubus são donos do espaço aéreo e nem querem deixar o gênero humano voar, então se viaja por terra. É uma!
            A capital de Fortaleza fica a 2.800 quilômetros. A capital de Aracaju fica a 2.755 quilômetros. Sempre a capital de Vitória fica a 1.290 quilômetros em linha reta.
            A boa funcionária seguia obedecia a vontade da menina para tudo auxiliando nos trâmites da papelada para poder viajar desacompanhada. Isso sempre acontece no embarque e no desembarque de rodoviárias aeroportos estações portos. Tem sempre alguém monitorando os miúdos.
Era já o mundo da rodoviária muito movimentada pela proximidade das férias de final e início de ano, etc., carnaval e praias.
            De repente, do nada, um indivíduo de quatro patinhas de veludo começou a seguir os passos bípedes da Lilás. Quase ninguém o viu, ou melhor, algumas pessoas o viram mas nem deram bola. Acharam até comum demais. Acharam um animal doméstico e comum e banal.
            A menina comprou a passagem no guichê. O bilhete dizia que o box era o 17 o horário era das 12h30min a empresa de ônibus Viação Anani. E boa viagem! E boas festas!
            Lilás olhou para trás pensando que ouvira um miado? Olhou olhou e nem viu nada.
            - Eu estou ouvindo coisas a mais e vendo de menos.
            Nem vendo nada, foi em frente, entregou a mala pesada ao cobrador, se despediu da funcionária do juizado se abraçaram se beijaram, tepe! tepe!... e a menina subiu a bordo. Os quatro pés de veludo se resumiam num gatinho, era um gato felino, sem ninguém perceber foi atrás da guriazinha, se esgueirando, pelo rodapé das coisas, junto ao chão.
            O ônibus decolou da rodoviária com meia hora de atraso. A menina deu abano de tchau soprou beijinhos para a funcionária do juizado espremeu o nariz no vidro sorria.
            E o gatinho fez isso: se ajeitou clandestinamente debaixo da poltrona da menina.
            Sentado no corredor, do lado da Lilás, ia um senhor de idade dos sessenta anos com jornal aberto na frente dos olhos. Fingindo ler matérias importantes de política nacional.
            - Oi!
            - Você tá viajando sozinha, menina? Meus parabéns!
            Logo a menina fechou os olhos. A saída de Porto Alegre era povoada de casas, de viadutos, de algumas plantas aqui e ali capins-da-roça tiriricas avencas-de-folha-miúda bejucos samambaias barbas-de-bode mandacarus ervas-do-charrua... plantadas entre os cultivos. Era muito chão pela proa até Florianópolis. E parando quantas vezes pelo caminho.
            Bem que a menina suspirou bocejou:
            - E vamos nos acomodar na poltrona reclinável. E janela com paisagem passando.
            Eram 120 quilômetros para passar de Osório. Eram 200 quilômetros para além de Laguna. Eram mais 890 quilômetros para chegar e passar Imbituba. Eram 1.300 quilômetros para Palhoça. Eram todos uns 2.700 quilômetros até ver Batatais. Eram todos uns 3.040 quilômetros até mais Goianinha. Para lá dos 4.123 km alcançar Faxinal do Soturno.
            Em seguida a um cochilo, Lilás olhou pro lado e a pessoa do banco vizinho sentada no corredor era um rapazinho de óculos e boné lendo um gibi de cabeça pra baixo. Ou fingia ler esticando olho para o lado dela.
            - Oi!
            - Você costuma viajar nesta idade tenra idade de guriazinha, hein?! 
            O gato clandestino nem falou nada dormiu durante toda a viagem até o meio do caminho, que era a cidade de Sombrio, Estado de Santa Catarina. Nessa parada do ônibus todos os passageiros desceram para um lanche noturno. O felino deve ter sentido fome sede e correu atrás de Lilás, se mostrando. Se apresentou miando em pessoa:
            - Miau! Faminto faminto!
            - Ué! - se espantou a menina. Que novidade felina, meu!
            O gato veio direto para os braços dela que o tratou como amigo já conhecido:
            - De onde foi que você veio? É daqui? Tem parente no ônibus? Que nome?
            - Por favor! Tem um trocado para um lanche? Eu até saí de casa e sem bagagem.
            Lilás o abraçou e ficaram juntos para o resto da viagem. Assim mesmo a menina achou melhor levá-lo de clandestino para nem pagar passagem. E o escondeu na bolsa a tiracolo.
            Do lado, no corredor e vizinho de poltrona, ia uma mulher alta e loura com revista na mão na frente da cara. Uma revista com assuntos dos artistas da moda cantores da Bahia jogadores de futebol e suas mulheres de perucas longas e trançadas e que faziam ondas na mídia midiaticamente.
            - Oi!
            - Você está viajando sozinha, garotinha? Que importância você!
            Mais um pouco de solavancos e Lilás e o gato acabaram dormindo. A menina sonhou que levantava voo e ficava pelo espaço olhando a paisagem correr lá embaixo por baixo, o avião era uma fruta pendurada na árvore, a menina também era uma fruta pendurada no avião gigante, fazia um tempo bom, o avião lotado de passageiros, lá fora lá embaixo a paisagem se desenrolando em vales montanhas rios cidades pequenas pedaços de terra cultivada. O gato sonhou que ele era dentro de um calidoscópio mais ou menos iluminado de raios de sol.
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            Uma certa vez de quando para sempre e além. O rio Apa, por exemplo, era mais importante que o mar ou o oceano. O pana da serra do Divisor era mais conhecido que seus inquilinos espécies animais.
A menina Lilás pelo mundo da ilha de Santa Catarina e Florianópolis. A menina na ilha da magia Floripa das trinta e duas praias, da ponte Hercílio Luz, da fortaleza Santa Cruz de Anhatomirim, fortaleza Santo Antônio de Ratones, forte de Santana do Estreito...
            As amigas da Lilás já estavam a postos esperando no terminal rodoviário Rita Maria e pulando. A funcionária do juizado também. E se abraçaram e se riram e se beijaram, tepe! tepe!... muito saltitantes, etc., alegremente. Uma euforia indescritível:
            - Que lindíssima!
            - Que legal!
            - Que praias!
            - Que bichano!
            Daí a menina Lilás tirou o gato da sacola, que já esticava o pescoço para fora e se apresentando, e o apresentou:
            - Quidemais! Esse é meu amigo gato. Ele veio de clandestino e ficou meu amigo e ficamos juntos quase toda a viagem. Mas nem conversamos nada de nada e nem deu para conversarmos nada, até por enquanto. Nem seu nome eu sei. O que fiquei na dúvida.
            Pronto, as meninas já adotavam o gato. Gostaram imediatamente do felino. E Esmeralda o pegou nos braços e nem largou mais o minifelino fofo:
            - Ele é tão morninho e amigável e agradável!
            Depois outras coisas na sequência. Oito e vinte da noite, aquela mesma quinta-feira, pernoite na casa de quem, de quem?
            - Na minha casa, isso sim! - disse a Rê.
            A noite de Floripa choveu toda a madrugada. As meninas na casa alugada pelos pais de Rê para passar as férias, etc. Parecia que o dia seguinte ia ficar sem praia. Parecia que o dia seguinte seria de shopping, e olhe lá!
            Cada dia um. Cada noite uma.
            Na noite que choveu e chovia muito, o vento na chuva toda a noite, as meninas pensaram num nome para o gato. O felino só olhava tevê e nem aí nem ali nem aqui. Aceitava convite de todas em particular ou em grupo, porém olhava tudo meio que... gatamente.
            - Que nome você quer, gatinho?
            - E você torce para que time, fofo?
            O gato olhou para elas bocejou se voltou para a televisão meio meio indiferente, etc., e sem responder. Os olhos os gatos são todos iguais. Espertos e calmos ao mesmo tempo. Agradáveis desatentos meigos conformados moderados. Miam um pouco conversam quase nada e muito deitados esticando as patas.
            As guriazinhas decidiram escolher um nome e isso era felicidade, e sem outra palavra:
            - Nome de três sílabas: Tamboril - sugeriu a Rê.
            - Nome dissílabo: Japi - declarou Pérola.
            - Um nome polissílabo: Tapirapé - escolheu Lilás.
            - Belo nome seria: Catupé - a ideia da Esmeralda.
            Quando ouviu Catupé, o gato antenou as orelhas e disse miando mais ou menos na língua dos felinos soltos e despreocupados e manhosos, miou falando com tradução simultânea:
            - Este mesmo e eu ouvi! Pode ser esse aí sim que eu gostei: Catupé. Eu autorizo me chamar de Catupé, olá?!
            Veio outra noite passou a noite e a igreja tem capela tem catedral e tem basílica. O farmacêutico tem farmacopola tem boticário. Navegam no alto mar as fortes embarcações as procelas as procelárias.
            No outro dia o sol entrou pelas janelas de correr e tinha de tudo um pouco. Mesmo apitos de navio, buzinas de carros, acelerações de motos, sirenes e alarmes. Mesmo carro de som rua Lima Barreto fazendo anúncio de show na praia Mole.
            Um azul de céu azul pintado bem de azul e até demais. Nenhum travesseiro de nuvem.
            A novidade para as meninas era o barulho de mar por todos os lados, inclusive com vento maresia e cheiro de mar e guinchos de aves marinhas gaivotas maçaricos talha-mares, etc., paraquedistas, asas-deltas, parapentes, teco-tecos...
            Durante o café das oito nove e meia da manhã a ilha tinha praias e aventuras por todos os cantos por todos os poros, e uma ma-ra-vi-lha!
            - Vamos até a fortaleza de Santa Bárbara?
            - Baía Sul ou Baía Norte?
            - Praia da Armação?
            - Lagoa do Peri?
            Todas as dúvidas das meninas eufóricas em férias com o dia limpo e o dia pronto para desfrutar, etc., muitas opções de tesouros e recantos mágicos.
            O gato Catupé lembrou de perguntar:
            - Quando que vamos jogar bola na areia fofa da praia da Daniela?
            - Sempre que você quiser, meu gatiiiinho - respondeu Esmeralda.
            - Eu quero aprender a cabecear sem fechar os olhos! - disse o gato.
            - Então, você sonha em ser jogador de futebol e seleção?
            - Primeiro eu quero ser goleiro. É porque quero a bola sempre perto de mim.
            - Você prefere campo de grama ou quadra coberta de grama artificial sintética?
            - Eu nem gosto de pegar chuva, isso sim - lembrou o gato Catupé. Talvez prefira piso de jogar futsal.
            Uma estrada que desenhava para as praias e mais praias do sul da capital dos manezinhos. Uma estrada asfaltada à beira da Baía Sul e cercada de capoeiras, barrancos de areia, dunas, campos de areia, alguns mangues, morros de pedra, jamacarus, marmeladas-de-cachorro, jambus, papuãs, marias-pretas, alamandas-cheirosas, cabeças-de-boi...
            As meninas tinham decidido pela lagoa do Peri e tudo mais. Viajavam no coletivo o latão e era um calor e era um regozijo. O Catupé nos braços da Esmeralda e de olho na paisagem mormacenta.
            - Olhe lá, Catupé! Olhe aqui! Tá vendo o túnel?! Já se viu!
            E o gato olhava através do vidro do ônibus pra onde o dedo da guria apontava. A graça do gato nem era a graça da menina e companhia, tá certo. Gatos e meninas são diferentes desde sempre, parabéns!
Uma certa altura da estrada, um bando de cajazeiras dividiam o supervento do alto-mar em milhões de suspiros e zunidos e assobios balançando as folhas verdes ao vento. Os cabelos das guriazinhas ao vento. O pelo do gato ao vento. Onde se olhava e lá estava o mar.
            E era o que acontecia exatamente.
            Lugar que escolheu muito sol quente, e poeira de areia fina, e escolheu muita tromba de água no verão, e chuvarada no começo do ano, uma temperatura entre média de 27°C.
            A Rê dava explicação ao leiteiro:
            - Eu gostaria de escorregar nas dunas, entende?! Como um tobogã!
            Então, a Pérola lembrou:
            - Vamo vê os surfistas na praia da Joaquina!
            A Lilás completou:
            - Vamo surfar como os surfistas, isso sim, ora! Pra que esperar mais?!
            Por acaso a Esmeralda falou uma pergunta:
            - O que será um dia muito cálido? Um forno de temperatura alta.
            O gato Catupé cheirou o ar e miou:
            - Aqui se respira ar salgado e mormaço, tá ligado?!
            E o sol foi subindo uma escada de raios cheios de cores, cores fáceis do outro mundo. O sol subia desperdiçando ouro da manhã. Astro solar estilingue de elástico. O sol subiu e só uma e outra vez olhou para trás ia olhando para trás com horas marcadas de cores salteadas. O sol esquecido da lua?
            E as árvores à beira das praias à beira do mar nem se assustavam com as próprias sombras. As sombras mudavam de lugar e as próprias árvores nem se assustavam, carnaúbas, jataís, babaçus, ajuruatubiras... e os bacuraus-tesouras voando de uma palma a outra. Chilreavam as andorinhas, voos rasantes, voos espetaculares entre as casas algumas antigas mansões senhoreais, voos escandalosos em plena terça-feira.
            Junto do mar na orla azul, sempre pássaros do mar, albatrozes, pombas-galegas, fragatas, pandorgas, nuvens, aviões monomotores e bimotores, urubus-de-cabeça-amarela... revoando todos pelo prazer de voar, planar, e de nadar no azul, passear no céu escampado, azul de poucas e raras nuvens brancas.
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            O latão pesadão parou na vila Tarimba dos fabricantes da farinha de mandioca torrada. As meninas e outros veranistas excursionistas naquela conhecida empolgação de turistas invadindo o dia no paraíso:
            - Quede a lagoa do Peri, cadê de uma vez?!
            - Quero passar toda a história só de biquíni!
            - Olha lá uma barraquinha de água de coco, de garapa, de beiju!
            - Nem vou nem ligar naturalmente pros meus cabelos naturais! 
            Dali pra frente seriam mais dois quilômetros a pé até a lagoa do Peri, sempre seguindo uma trilha pelo mato nativo, subindo o morro para descer o morro. Avistar a lagoa do alto do morro era já uma vista privilegiada e de, uaaaau!...
            Leves de pensamento, os passarinhos diários revoavam pelo azul e retornavam a pousar nas árvores variadas de verdes e tons. E bonitas imburanas-de-cheiro, belos cipós-escada-de-macaco, favelas, ervas-botões, sucupiras-da-mata, ingás-do-mato, uiraris... As árvores tinham o pensamento mais leve ainda, e erguiam os braços ramos viçosos para abraçar o ar a brisa do mar o vento nordeste.
            - Eu vou na frente porque sou mais inteligente.
            - Eu vou na frente porque sou mais bonita e assumo meus cabelos cacheados.
            - Eu vou na frente porque sou mais novinha em folha e nem faço perguntas.
            - Eu vou na frente porque nem tenho receio de nada e sou empoderada.
            O gato Catupé ficou ouvindo por um minuto a conversa engraçada das gurias, etc. Depois riu sozinho se rindo. O gato quando andava nunca tropeçava, quando pulava era ótimo no pulo, quando falava era se julgando masculino engraçado e supercampeão:
            - Eu vou na frente porque sou sargento e capitão e coronel e general!
            Mais adiante pediram informações a um manezinho da ilha e subiram e desceram o morro. Caminhos estreitos, azinhagas, atalhos, tarrinheiras, picadas, trilhas, furos no matinho. O canto do xexéu. O canto da jaçanã. O gorjeio da saripoca-de-bico-riscado. A curiosidade do araçari-de-bico-branco.
            As gurias falavam muito, olha só! olhe ali! eu nem falei! repara naquela direção! e outras coisas que nem continham a ansiedade. E muita excitação, que é natural:
            - Trouxemos roupa de banho - lembrou Lilás.
            - Será que se pode alugar uma canoa? Deve ter muito canoeiro ali, né?! - era a Pérola.
            - Com certeza. E eu quero aprender a remar a ubá - falou Esmeralda.
            - Vou pegar uma ponta de cipó e pular na água. Vou me largar de tirolesa. É se largar ou andar de tirolesa, dúvida - sonhou a Rê.
            Esmeralda segurava o Catupé, temia que ele encontrasse um jacaré-de-papo-amarelo qualquer, brigasse, ou pisasse um espinho, ou se cansasse com o caminho.
            - Você pode encontrar um predador, né, meu?!
            Mas sem demora, descendo o morro, deram com o grande Peri, todo azul, estendido ao sol, bonito, cercado de verde por todos os lados, preservado, líquido, reservado, espelhado, e outras coisas agradáveis. E tinha muito peixe.
            Mais pra lá, separado por um cordão de areia e conchinhas empilhadas pelo tempo, uma restinga, e depois estava o mar, beirando com o horizonte do céu bem distante, o céu azul sem nuvem ou poucas nuvens de paina, muito calor, muito sol forte, e muito bom!
            - Olhem a lagoa, sócias! - berrou Pérola.
            - Espelhando o céu! - sonhou a Rê.
            - Maravilha das paroxítonas! - resumiu Lilás.
            - Massa! Paradisíaca! - disse Esmeralda, erguendo o Catupé para que ele olhasse também. Olhe, Pé! Nem é o paraíso de água esmeralda encontrado na terra?
            O Catupé nem olhou profissionalmente para a lagoa decorada de árvores e areia. Somente teve receio que sua melhor amiga tentasse jogá-lo ao chão ou se distraísse e o deixasse cair na água. E se agarrou tão firme com firmeza na camiseta que a menina se doeu e protestou:
            - Aaaaai!... Puxa vida!, Catu. Precisa se grudar em mim com unhas e dentes?!
            - Sou bicho de terra, muito natural e legalmente - falou Catupé. Que profundidade tem essa lagoa. É lagoa ou lago, hein?!
            Continuaram cercando a lagoa, andando pela trilha ao redor, muito batida pelos turistas, veranistas, manezinhos. Muitas gaivotas, pelicanos, atobás, tesourões, biguás, marrecas-caneleiras... que gracejavam, crocitavam, berravam, e voavam junto com passarinhos cantores do mato, trinca-ferros, canários-da-terra, tizius, pintassilgos, pitiguaris... e borboletas de cores metálicas, besouros pesadinhos e zunidores, mosquitos de muitos tipos e libélulas pilotando helicópteros de quatro asas.
            Trilharam um carreiro rabiscado entre plantas, árvores e arbustos e cipós. Procuravam uma praiazinha bem aconchegante maneira. Passaram pelas últimas árvores, jatobás-do-campo, guaximbés, mutambeiras, oiticicas, angicos, jaborandis, araputangás, bicos-de-guarás, quarubas-de-flor-roxa... Atalharam perfurando por entre ervas gramíneas lianas e folhagens. E desceram morrinhos de pedras e pedregulho e pirambeira. Finalmente um bom gramado, um campestre, um lajedo, aromas de verde, uma prainha de nada à beira da lagoa como era do começo do mundo. E viram a imensidão do céu profundo, a luz do sol ardente.
            - É isso aí! - vibrou Esmeralda.
            - Que legal! E aí está chegando D!
            - Um vento que vem do mar e temperado!
            - Mais um passo e estaremos no céu de anil e diante do Brasil!
            O gato Catupé nem falou nada nessa hora de beleza e já fazia um tempo que meditava olhava em volta. E sério. E sábio. Estava preocupado com o quê? De certo sabia de coisas que os outros nem veem, nem ouvem, não sentem, nem sabem, nem fazem ideia, nem fazem a mínima praça ou lugar.
            Um bicho doméstico um bicho do mato, qualquer bicho, todos os bichos sabem de coisas antes que as coisas aconteçam. Os bichos leem as sombras escutam o silêncio sentem a terra sentem o vento sentem o sol.
            Lagoa do Peri, rodeada de morros, lagoa de água doce, lagoa estranha, perto das praias do Pântano do Sul, Matadeiros, Campeche... outras tantas, fortaleza de Naufragados.
            Se ouviram umas vozes estardalhaços de outros banhistas em pouca distância. Inclusive banhistas acompanhados dos seus mascotes alguns cachorros que latiram pro mato, etc. Uma gritaria um auê de crianças e jovens brincando na água morna na areia cálida nas pedras frias.
            A lagoa vivia vinte e quatro horas por dia, dia e noite, com todas as horas para comer e dormir no seu leito. O Peri era diariamente preenchido por dez a vinte riachinhos que desciam dos dez doze morros ao redor. E era diferente de todo mundo. Canto do tangará, gargalhadas do joão-de-barro e sua esposa a maria-de-barro, o assobio da araponga...
            Os cantos, os gorjeios, os pios, os estalinhos dos bicos, e os suaves tatalares de asas dos cem ou cento e vinte alados tipos espécies da redondeza. Muitos coleirinhas, par de tuins, casal de tico-ticos, bando de periquitos-ricos, um casal de bem-te-vis-de-três-riscos trocando um assunto qualquer lá deles. Ora era isto e isso, ora era aquilo. Tudo real e irreal ao mesmo tempo misturado um pouco virtual extraordinário.
            - O mundo é bom e guarda umas surpresas quando menos se espera.
            - Eu gosto me olhar dentro da natureza e me sentir parte, entende?!
            - Ouvir passarinhos, ver árvores, nadar na beira da lagoa...
            - Pássaros amarelos e árvores lilases e água limpa cantora.
            Nesse exato instante, de repente, sem motivo aparente, sem aviso, sem que nada pudesse justificar, o Catupé arrepiou, se desligou dos braços de Esmeralda e pulou pro chão, deu no pé, correu, fugindo para uma trilha do mato profundo. Hum?!... A menina se surpreendeu, se aborreceu, saltou em pé, bateu o pé, nem entendeu nada e chamou chamou:
            - Ei, Pé! Ca-tu-pé! Vooolte!...
            O que foi que fez o gato fugir apressado e todo sem se despedir? Logo ele que tinha receio de mato e surpresas! Que estava acontecendo nos arredores da lagoa? Era perigo à vista? Tinha o bichano pressentido alguma coisa absurda?
            Pois já se ouvia uns estalos pela beira da lagoa, no meio dos capins e arbustos uns rebuliços, uns guinchos bravos e irritados, moitas assustadas, etc., uma bagunça.
            De supetão, com rumor que assustava a natureza, sem comunicar ninguém exatamente, sem nada nem ninguém saber perfeitamente, surgiu por aí tudo um bando de capivaras enfurecidas e atropelantes. Uma delas, a capitã, gritou com raiva na voz e nos gestos:
            - Se salve quem puder, pois de hora em diante as capivaras tomam conta da lagoa, fui clara e contundente?!
            Sem demora um bando enorme de capivaras associadas tomou de assalto toda a beira da água em toda a volta da lagoa. E só se via turista e veranista dar o pira. E só se viu capivara aparecer para tomar banho e se deitar na grama macia na sombra rolar na terra fofa subir em galho de árvore e se apinchar na água com direito a, tchibum!...
            As amigas também seguiram fugindo da invasão. As capivaras arreganhavam os dentes para todo mundo. Pronto, as meninas aproveitaram para ir no encalço do gato Catupé. Que será que o gato estava pensando desaparecendo sem pedir licença? Ficou com muito receio de ser mordido pelas capivaras invasoras, tá certo! E as gurias voltaram a chamá-lo, procurando debaixo de troncos caídos, no alto de barrancos, por detrás de rochas, por dentro de buracos, no interior de cavernas e grutas e locas e esconderijos:
            - Catupéeee! Puxa, Pé! Venha aqui, seu pirata! - chamava Esmeralda, principal preocupada.
            - É, vem aqui que estamos de partida!
            - Nem se desampare!
            Todas as pessoas que estavam na água deitadas por ali no gramado brincando de peixe já se mandavam morro acima para bem longe. O receio de ataque das capivaras em bando contagiou a todos. As meninas idem e ibidem.
            Foi uma hora procurando o gato pelo mato fechado. O malandrinho havia desaparecido, se escondido, se camuflado, fugido, sumido, evaporado. Uma mata grande e cheia. O rugido o trincar dos dentes das capivaras no fundo ambiente musical. Um guincho marcando território lá pelo alto do azul do céu com o gavião-carijó, iiiinhéeee!...
E as meninas continuavam divulgando, pisoteando uma trilha, declamando:
            - E o Catupé se mandou mesmo sem a gente. Eu nem acredito!
            - O que vamos fazer pra urgentemente? Chamar o corpo de bombeiros.
            - Nunca vi invasão de capivaras. Nem na tevê nem no cinema, etc., nem no teatro. Agora somente agora na sorte da história real.
            - Acho que as capivaras querem de volta o que era delas, ou seja, a lagoa e a vida boa e a água fresca.
            - Sempre ouvi falar que capivaras gostam de água pasto e lama.
A mata era alta copada. Não, nem era ainda floresta. Uma árvore sempre bem junto de outra. Uma mata cerrada do tamanho de uma cidade pequena. Lugar de capivaras, antas, porcos-do-mato, pacas, cutias, ratões-do-banhado, tatus, preguiças-de-bentinho... Lugar de associação de bugios. Lugar dos gatos-do-mato caçar espreitar pular de cima do galho da imbuia-amarela.
            - Eta, bichinho independente! - exclamou Pérola.
            - Deve tá sempre muito com receio das capivaras. Só pode, né?!
            - Onde será que se enfiou, hein? Será que foi pra casa a pé, pés ante pés?
            - Nem sei dizer. Ele detesta mesmo brigas e estardalhaços e disputas e rivalidades. Detesta mais mordida de capivara.
            E procuraram, procuraram, chamaram, pensaram, exclamaram, pesquisaram, varreram o lugar e isso por mais de duas horas e meia.
            Tempo perdido, brincadeiras na beira da lagoa esquecidas perdidas, Catupé desaparecido, tempo bagunçado, etc., fim de passeio.
            Andaram aí, pela redondeza, viram duas e até três daquelas casas antigas de fabricar farinha de mandioca, subiram em árvores, olharam os galhos das árvores, atrás de tocos, olharam ao longe, troncos caídos, oco de árvores e nada. O gato desaparecera. Prestaram atenção se ouviam algum miado, se ouviam o bando de capivaras por perto, tudo já estava meio adormecido e controlado. Porém nem se via rastro do gato, nem se ouvia miado do mimoso felino doméstico.
            - É melhor a gente esperar que Catupé nos encontre. E nós vamos fazer piquenique em outro lugar longe da lagoa - disse Pérola.
            - Sim, é uma ideia. Estou certa que os deuses nos ajudarão, é.
            - Um dia de sol como este mesmo!
            Escolheram um lugar de grama macia no meio das árvores na sombra. Enquanto esperavam o gato. Enquanto só pensavam no gato corrido. Enquanto o dia fazia sua parte.
            Comeram um sanduíche variado e repleto de assuntos, alface, queijo, marmelada, tomate, pão, cebola... Beberam um suco de abacaxi gelado no canudinho. 
            - Que coisa! Vamos esperar que Catupé volte sozinho - se conformou Esmeralda.
            - Nem vai acontecer nada com ele.  Esse é um gato esperto, escaldado, prático, nem se mete em confusão e vira-lata sabido - foi a Rê.
            - Com certeza ele sabe se virar. Oxalá! 
            - É, mas será que ele tem inimigos concorrentes naturais? - declarou Esmeralda.
            E assim, consolando Esmeralda e preocupadas com o gato Catupé, se acomodaram ali pelo meio do mato numa pequena clareira. Um lugar de frente para as estrelas e a lua cheia.
            Até que Pérola falou se imaginando:
            - E se a gente fosse índia dos caiapó-cubem-cram-quem ou curuaia ou campé? Nem sei como seria, mas que seria legal, seria e hum!...
            A Lilás estava de braços cruzados o cabelo despenteado alçado e lembrou:
            - Então a gente podia comer raízes folhas flores de muitas plantas!
            A Rê se empolgou:
            - E até formigas gafanhotos ruguinhas brancas da madeira!...
            Sem demora passou um bando de capivaras. Capivaras cor de capivara. Vinham do sul e iam pro norte. Capivaras saltando, lentas, nadando, pastando, roendo, berrando, subindo em árvores, voando, produzindo estalidos, dirigindo triciclo com reboque, pulando obstáculos, derrapando morro abaixo, dando cambalhotas, em grupos conversando de três ou quatro ou cinco... Capivaras falantes e engraçadas e travessas e roedoras.
            Uma capivara das grandes parou no meio do bando, viu as meninas, quis assustar as guriazinhas, e berrou para quem quisesse ouvir:
            - A lagoa do Peri é nossa propriedade! É muito nossa e fazem tempos desde sempre antanhos anualmentes outroras, uma vez!
            Disse isso riu riram todas as capivaras gargalharam e dispararam para o lado da lagoa e tchibum!... na água boa e cristalina cor de azul refletida de céu azul sem nuvens.
            As meninas, então, ficaram de boca aberta. Viram o mundo em correria de capivaras e nem falaram nada. Nem comer continuaram comendo os bons quitutes, etc., se quer saber!
            As borboletas nem tanto brancas, borboletas nem tanto aqui nem ali nem pra lá. As borboletas verdes ou azuis ou amarelas ou lilases muito aladas de cores felizes que até nem sabiam pra onde voar. Procissão de formigas-carregadeiras subindo e descendo o tronco da caiapiá. Outros tantos mosquitos flebótomos asas-de-palha procurando o que fazer. Assobios de jacus, gritos de tiribas-verdes, resmungos de ouriço-preto, correrias em zigue-zagues de lagartixas-das-dunas, voos periclitantes dos içabitus...
            Esmeralda nem quis nem saber de bando de capivaras. Rê e Pérola e Lilás também perderam a graça do divertimento e muito. Esmeralda totalmente pensativa no amigo gato escondido. Pensava repensava sem ver sem ouvir sem falar. Olhar fixo olhando o nada, olhando o rasto das capivaras felizes rumo da lagoa.
            - Você quer uma ideia, Esmeralda? - falou a amiga Rê.
            - Me deixem. Perdi a vontade o apetite a graça o paraíso, etc. Vou esperar pelo Pé - disse Esmeralda, muito aborrecida, frustrada, desanimada, sentada no lajedo, arrancando distraída as folhinhas uma a uma da erva-de-santa-maria.
            Capivaras por todos os cantos e abençoadas. As capivaras gritando ao máximo, soltando foguetes de festa de fim de ano, tomando cerveja, comendo pipoca sem sal, cantando músicas enredo de sambas samba-canção.
            Esmeralda ainda lá sentada contando os dedos das mãos, burro amarrado, olhar vermelho e paradão, sem alma para nada, sem energia para se alegrar, sentada numa raiz do pé de oiti-boi. Casal de batuíra-de-coleira tentando animar a menina cantando ali pertinho. As horas passando ao redor do mundo, e vice-versa. O céu de toldo azul e amarelo.
            - Já fazem as horas, né, gente! Acho que Catupé se perdeu refugiado estressado com o bando de capivaras. Ou foi raptado, sei lá! - e assim Esmeralda se preocupava cada vez mais e profundamente.
            - Iiiiih!... Que que é isso, mana! Assim estraga tudo, puxa vida!
            - É, guria, vamos com calma.
            - Nem sei mais o que pensar. Ele se perdeu sozinho no mato ou as capivaras o encontraram pela última vez. Eu amo o Pé, tenho certeza.
            - Nem aconteceu nada. Antes do escurecer ele retorna. E se ele nem aparecer, nós iremos procurá-lo pelo mundo todo mundo afora. Nem pode ter ido longe nem pode estar correndo risco de perigo.
            - Vamos encontrá-lo nem tenha dúvidas.
            - Sinto frio e calor, e ao mesmo tempo.
            Levaram o resto do recreio naquela calma sem novidade. Nem havia jeito maneira de elevar o astral da Esmeralda. A amiga nem queria saber de nada, só pensava no Catupé.
Um barulhinho e pronto, se erguia de olhos arregalados, já pensando que era o gato, chamava pelo felino, caminhava até a beira do matinho, escutava vê se nem vinha bando de capivaras. Nem tirava os olhos lacrimejantes do mato, das trilhas, e era um suspiro, ife!... atrás do outro, ife!... e assim por diante todo o tempo, ife! ife!...
            - Querem saber! Eu vou atrás do Catupé, esteja onde estiver, seja o que for, fio por fio, mesmo brigando com as capivaras revoltadas, nem que tenha que ir até o Piauí até o Tocantins, até o rio Soturno... Nem saio daqui deste mato, nem volto pra casa sem o meu amigo - declarou, pronto, muito decidida, a menina Esmeralda.
            Dizendo isso, assim, ela se ergueu, tentou secar as lágrimas e entrou por uma trilha que escolheu e foi chamando chamando. As árvores se enroscavam lá em cima fazendo um túnel de folhas, ubatingas, canas-do-mato, abutuas-do-amazonas, icacorés-catingas... As outras três garotinhas preocupadas, sentidas, foram atrás, ajudando a chamar chamar. Afinal a tarde já estava caindo, era tempo mesmo do Catupé... eta!, gatinho, aparecer. Tinha que aparecer e reaparecer e comparecer.
            - Péeee!... Ei!, Ca-tu-péeee...
            As horas iam passando em números arábicos, a tarde entrando, a alegria se ouvia das capivaras na lagoa, e nada, nada do gato. As meninas gastaram a voz, gritaram, bateram palmas, bateram pé. Perderam a conta de tanto que andaram pela mata, subindo e descendo barrancos, pedregulho e perau, olhando árvores altas, espiando debaixo de cada tronco tombado, buracos, tocas, casas de farinha em ruínas, e nada. Nem rastro, nem sombra, nem miados. O felino simplesmente se pulverizara, evaporara, sumira no ar, se escafedera.
            - Péeee!... Onde tá você! Chega mais! Estamos indo embora que já é noite! Mimimi!...
            E perguntavam e perguntaram e indagaram e questionaram as plantas que encontravam pelo caminho das trilhas e quebradas, guaricanga-de-bengala, taboca-gigante, ipê-peroba, embira-branca, jará, jatuaúba-preta... sorte incrível de outras espécies e tipos.
Decidiram as meninas com valentia e foram até as capivaras e as questionaram:
            - Vocês nem viram um gatinho assim e assim?!
            - Gatinho que acende os olhos no escuro? - pergunta da mãe capivara.
            - Sim, isso mesmo - disseram as meninas.
            - Gatinho que brinca no espelho tentando pegar a imagem refletida? - pergunta do pai capivara.
            - Sim, isso mesmo - resposta das meninas.
            - Não, nem vimos mais gordo nem mais magro, ah ah ah!...- riso das capivaras de orelhas miúdas risonhas festivas e amantes da natureza.
            Chegou a noite e breu puro e bacuraus. E as quatro meninas desanimaram muito. Claro, Esmeralda era a que se mostrava mais abatida, inconformada, cansada de se lamentar. Ficou rouca de tanto pedir, implorar, insistir. O Catupé, afinal, se perdeu, ou fugiu, ou foi sequestrado, ou abandonou o barco, simplesmente pulou fora. O gato passou repassou para outra dimensão?
            - Nem dá mais, gente! Já é muito escuro - alertou a Lilás, muito decepcionada.
            - É, mana, vamos deixar para outra vez - aconselhou Pérola.
            - Será que o Catupé fugiu de mim? Nem me ama mais? Se for isso eu morro e chorarei duas semanas sem parar e nem vou mais estudar - Esmeralda amava demais o bichano.
            - Nem, e imagine! Você o tratava tão bem. Imagine se ele faria uma coisa dessas - consolava Rê.
            - Nem sei, não. Às vezes a gente pensa, ife!... mas, vai ver, e nem é nada daquilo - choramingou Esmeralda.
            - Bem, noite chegou e pronto, amiga.
            - Nem vou sem o meu Pé!
            - Ah, querida! Nem fique assim. Vamos deixar para amanhã cedo, bem cedinho.
            - Mas ele morrerá de frio... Se é que já nem está morrendo...
            - Imagine. É um gato de sorte, esperto, forte, de sete vidas, de sete fôlegos...
            - É, sim, e amanhã de manhã logo bem cedo, nós voltaremos aqui. Olharemos tudo, chamaremos os bombeiros, os guardas-florestais, os guias autorizados do parque. Pois é claro que voltaremos - explicou a Pérola.
            - Sinto tanto receio e cuidado por ele - dizia a inconsolável Esmeralda. Sinto tanto frio. Estou com febre. E o meu Pé está aí, pelo mato, todo perdido, talvez pisoteado. Perdido, falando sozinho, miando ao vento, conversando com as pedras, ouvindo as plantas, se alimentando de grumixamas e pitangas e guabijus, com desconfiança do escuro, com pavor de uivo de capivara. E perdido perdido desencontrado.
            Foi trabalhoso, custoso, muito custoso, difícil mesmo convencer a Esmeralda a voltar para casa sem o seu Catupé.
            - Em algum lugar ele está.
            Quem morava na mata desde sempre? Era gambá, era casal de bem-te-vi-do-mato, era coruja caburé-de-orelha, a família do quati. O galinho-da-serra apareceu, pulou, se mostrou, piou meio tímido, se embelezou, saltou por entre os ramos verdes e carregados da cabeludeira.
            Muitos vaga-lumes. As estrelas são mais importantes que a lua? A noite estava sossegada, cheia de estrelas tão altas, cricris!... de insetos, voos tontos de marandovás, rururus!... de sapos-martelos, voos rasantes de morcegos comedores de mosquitos.
            E mesmo com tudo calmo e pacífico, do alto Cruzeiro do Sul, a noite estava sem sabor sem apetite sem sono sem poesia para a turma das meninas. Tiveram cuidado e trabalho para acompanhar o carreiro, subir o morro, descer o morro e chegar ao povoado dos fabricantes de farinha de mandioca torrada.
            - Seguinte. Vamos ficar aqui, vamos passar a noite no povoado, e amanhã bem cedinho a gente volta lá pro meio da mata procurar o Catupé. Topam? - falou a Esmeralda.
            - Olha... - Pérola nem sabia o que dizer.
            - Pois é, mas... - se encabulou a Lilás.
            - Eu sei que quando... - suspirou cansada a Rê.
            - Sim! Vocês me devem isso, vocês prometeram! Eu já vou ficar!
            A Esmeralda se mostrava muito determinada, muito ocupada no seu imenso cuidado com gato, insistiu:
            - Fico aí, em qualquer canto! Eu vou ficar!
            - Tá, tá legal. Acha que vamos deixá-la sozinha? Somos amigas - disse Lilás.
            - Claro, imagine! Nem volto pra casa sem você, maninha.
            - É nóis! - falou a Rê.
            Então, tiveram a interessante ideia de pedir pouso numa dessas casas da vila. Pensaram, olharam pra cá, pra lá, repensaram, calcularam... É essa? Que pode ser aquela? Aquela outra? Seria aqui ou ali? Decidiram por uma casinhola com varanda na frente e foram. Uma palhoça pequena tipo de índio e coberta de palha com varanda coberta de palmas de palmeira guaricanga-de-bengala. Então, tá!
            - Vamos tentar esta aqui mesmo, hein?! - falou a Pérola.
            Se aproximaram da casinha em verde e azul, uma morada nem muito grande, aparência de casa normal de índio apinajé ou índio barauana ou coroado... feita de madeira e tijolos, coberta de folhas de buriti, pequena, simpática, ótima, e bateram palmas. Um cãozinho irritado latiu, apareceu rápido, bravo, atacando, arremetendo. Logo atrás do cãozinho apareceu uma mulher, cinquenta anos, fez o bichinho calar. A mulher olhou as visitas e disse:
            - Pois, sim?
            - Boa noite, dona. Nós somos da excursão e... - começou continuou e terminou falando a Rê contando a história.
            Apareceu um homem, mais um menino pequeno, uma menina um pouco maior. Esmeralda recontou tudo direitinho, e assim por diante:
            - Sim. Bem... a gente tava no Peri e, então, chegaram sem avisar as capivaras e, o nosso gato, o meu gato Catupé, desapareceu. E está perdido pelo mato... Que sendo assim...
            As meninas explicaram e ficaram esperando e a mulher decidiu e ali na hora:
            - Tá bom. Vocês podem ficar.
            - Valeu, dona!
            - Mas nem pode ser aqui fora, ao relento. Vocês podem dormir no chão da sala. É o que temos. É o que podemos. Vamos ajeitar uns colchonetes e cobertores.
            As meninas foram convidadas a entrar e a contar melhor toda aquela história. E recontaram em detalhes pormenores. Fizeram uma refeição e recontaram tudo que passaram, etc., mais algumas coisas que lembraram e outros casos.
            O menino de dez se chamava Peri, e a menina de doze se chamava Cecília ou Ceci. E se levou mais outro tempo com isso e aquilo. Tal hora todos postos para dormir. Apagaram a luz como se apaga a luz e pronto.
Esmeralda levou tempo até cansar e pegar no sono. No seu sono profundo, pesado, agitado, sonhou infalivelmente com o gato Catupé. Ouviu o chamado do gato: “Miau! miau!...” lá do mato, lá do mato do Peri, lá do meio do turbilhão de capivaras. A menina ouviu. A guriazinha ouviu o chamado e procurou, recorreu, respondeu:
- Ca-tu-péeee!... Mimimi!...
            Era um lugar entre as pedras, no mato escuro, fechado, tudo meio perdido na névoa na cerração na neblina, bandos de capivaras indo e vindo, um morro subindo, uma toca de tatu-bola, um buraco no barranco, troncos caídos, muita folhagem dando cobertura, bem ali num oco de árvore baraúna.
            E o Catupé chamava: “Miau! miau!...” esperando que a menina o descobrisse. Tudo parecia um labirinto, tudo parecia uma escuridão e tinha um sol forte, tudo cheio de mistérios e brilhos de olhos no escuro.
E Esmeralda foi chegando perto, quase chegou perto, chegou perto, pertinho de onde estava o gato perdido enovelado na camuflagem...

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