Dizem aí para cá acolá quiçá o que
todo mundo já sabe, ou isso mesmo: que o sorriso é branco da paz, o riso é
azul-anil, a gargalhada é verde-amarela, kkkk!... Todas as cores suaves brandas
idôneas aperfeiçoadas e luxuriosas. E com muito gosto e sabor.
Tudo já vinha sendo tramado e mais
ou menos idealizado tratado em conversas anteriores diálogos de orelha, mas foi
somente na saída do colégio NSAparecida, naquela sexta-feira de quase meio-dia
e 11:30 pulsantes, que as meninas Lilás Rê Esmeralda Pérola ratificaram,
combinaram bem combinado, decidiram bem decidido, antes que cada qual
esquecesse sua parte na história.
- Diga moeda e lembro na hora h da
rua da Moeda, pois em!
- Razões e lições, hum!...
- Eu preciso do meu bem açaí,
compreende?!
- Temos muito rio em frente para curtir
a cachoeira Paraíso, naturalmente!
E a conversa conversar foi começando ali
mesmo, ali mesmo na descida do morrinho do colégio pela calçada da direita em
direção à avenida Domingos José Martins, enquanto uns colegas pegavam carona,
pegavam o ônibus escolar, outros seguiam a pé, “marcha soldado... cabeça de
papel... quem nem marcha direito... vai preso pro quartel... o quartel pegou fogo...
São Francisco deu sinal... acode acode acode... a bandeira nacional!...” As
quatro amigas titulares necessárias mesma altura vegetarianas uns dizem veganas
seguiam andando. Moravam no mesmo bairro, na mesma rua, entre poucos
quarteirões, pra lá do córrego Faiança:
- Então tá, né, meninas! Vocês vêm
lá em casa e de lá a gente vai pro som, né?! - combinou a Lilás. Muito massa,
meu!
- Com certeza, galeriiiinha! -
respondeu Rê.
- Pode contar conosco, u-huuuuu!...
- concordou Esmeralda, irmã de Pérola.
- Sim, com certeza estaremos lá -
emendou a Pérola, irmã da Esmeralda. Eu tenho tudo agendado apontado anotado,
tá legal?!
O tumulto da calçada do colégio se
dispersou, assim como as quatro inseparáveis amigas eternas, quase irmãs,
sócias, moradoras do mesmo bairro Sagrada Família, identificadas na mesma rua
Placidina de Araújo números pares ou ímpares. Voltando pra casa lentamente, 2
km e meio, subindo o morrinho que domina a cidade, volta e meia, continuaram o
mesmo assunto, assunto do som música baile e festa:
- Eu gosto de bate-estaca, tão
entendendo? - colocou Esmeralda. Nem digo que é música, mas é ótimo é original
é moderno é isso aí mesmo... Uma vez eu e meus pais fomos em... a gente... uma
viagem de negócios do meu pai, foi lá em Pimenteiras do Oeste, pra lá de Santa
Fé do Sul... e havia muitas árvores na beira da estrada os tais e quais
buritis... um pouco pra cá de Miguel Pereira... serra do Umbu...
- Sim, isso aí. É legal. Mas eu
também gosto de eletrônicas, tum! tum! tum!... É muito muito bem espacial e
planetário cosmo universo, hem?! - conversava a Rê.
- Pelo menos nesse caso eu concordo
e discordo. Um pouco de balada com romance nem faz mal a ninguém, tô certa?! -
disse a Pérola. Tem gosto pra tudo e...
- Uma vez, eu me lembro, faz um século
e meio, a gente, principalmente eu mesma, gostava muito de pagodes e axés... os
maracatus, é - arriscou a Lilás. É muito de carnaval na veia bem típico e de
raiz... se nem me falha a memória... interiorzão tipo assim como Santa Cruz do
Rio Parto, Portel ou Candeias do Jamari, tão ligadas?! A gente andando na rua
de casas... portas e janelas com cores enfeites de colchas...
E as quatro meninas já saíam rindo
olhando para o gosto que nem se discute de uma e da outra. Era muito difícil
essa história de gosto sabor apetite musical e tal e qual. O bom mesmo era
salada mista e de frutas da Amazônia.
- Me escutem. Vocês sabem se o Nando
vai também? Pergunta!!
- Ih... olha ela ali aí aqui pra cá
pra lá! Tá a fim do cara, é? Entendi, entendi...
- Nada a vê, meu! Cada uma que me
acontece, etc.
- É, claro clara! Nem tenho nada que
ver, tá certo. Agora...
- Ora! Então, nem preciso mentir,
né?! Ele é um meu grande amigo, um meu melhor amigo... e sem assim compromiiissos...
- Ah!, gente, ele nem é dos mais ou
menos bobo. Até que é bonitinho, de repente, um dia sim e outro nem tanto...
- É só pedir que ele vem e te beija.
Nem gosto de cara assim fácil, valeu?!
- Tá, tá legal! Vou procurar um cara
carimbado e de difícil acesso, em?!
- É, vamos deixar o FerNando de
lado. É bonito mas nem é dois mais dois cinco.
- Então... sem faltar, hein?! Amanhã
tal hora em pontos lá em casa aquecimento para o som! Sensacional!
Lilás voltava pra casa apenas
pensando no som, com que roupa, com qual cabelo, com que classe, etc., com que
atitude que tênis que celular com qual penteado. Pensava em Nando, o galã da
turma. Nando chegara a pouco no colégio, transferido de Conselheiro Lafaiete e
uma cidade longe longe em Mato Grosso, e já abalava corações com seus cabelos longos
sempre presos em rabo de cavalo e a tal argolinha na orelha direita como os piratas
corsários do carnaval, cheio de estilo, cheio de sotaque da fronteira com MS,
olhar de paisagem terramarear, torcedor do Vila Nova F. C. arquirrivais do A. C.
Goianiense...
- Uma coisa é certa como a
matemática das sextas-feiras e 11 horas pouco antes da saída: todas as meninas
querem ficar com o N. Porém, por quê? Qual é o real motivo? É justo nem é
justo? D lhe pague, amém!
Chegou a rir sozinha no meio da rua
escritor Júlio Ribeiro esquina rua poeta Alcy Araújo Cavalcante. Já se sentia embalada
pela festa o baile o som, mais a galera, a bagunça toda a farra o fandango o
folguedo... e enfim tudo de bom.
O lugar possui tem um clima tropical
superúmido, o índice pluviométrico anual é superior a 2000 mm milímetros nos
meses de verão alto verão. A estação seca que dura 3 meses vai de junho e julho
até agosto é quando raramente cai uma gota de água. Quando finalmente chove e
chove mesmo as precipitações são em forma de chuva e raras vezes em forma de
granizo, podendo vir acompanhadas de raios e trovões. Com mais de 200 dias de
sol por ano, a umidade relativa do ar é elevada uma das mais altas. As maiores
temperaturas do ano passado 2020 por exemplo foram registradas durante os meses
de setembro outubro e novembro chegando a ultrapassar a marca dos 37°C e a
umidade do ar também pode sempre ficar abaixo dos 25% ou mesmo dos 20% - muito
muito abaixo dos 60% considerados ideais pela OMS-organização mundial da saúde.
Lilás passou a tarde de sexta-feira
trancada em seu quarto recolhida e espontaneamente. Se preocupou com anotações
na agenda apontamentos, Natividade de Natividade em TO ruínas da igreja NS do
Rosário dos Pretos uma das consideradas 7 maravilhas brasileiras, e experimentando
uns panos, ouvindo umas novas músicas inéditas, e cheia de preguiça acomodada,
telefonando para as melhores necessárias amigas, combinando roupas e cores de
roupas, cores de perfumes, etc., detalhes inesperados, variáveis, modas
exóticas ecológicas... Uma tarde inteira para relaxar e imaginar acalmar e muito
sérias comuns...
A menina andava já com o coração
selvagem na mão em a ação querendo por as manguinhas de fora apavorar, total:
namorar. E escrevia no diário desde o mês passado, e palavras abreviadas como
convém. Desenhava mais que escrevia geometrias estilizadas números primos rios
cidades lagoas lago do Amapá rio Caciporé parque do Solstício reserva Serra das
Confusões... Quase nem tinha ainda palavras conhecidas do seu conhecimento palavras
fáceis confiáveis certas automáticas e muito g de gigante de genial de gênio
geniosa... Uma porção sem fim de perguntas. Pouca ou nenhuma resposta, siglas,
geônimos, adjetivos, onomatopeias... Desenhava tudo que sabia desenhar e
caprichadamente caprichosamente cidade de Óleo município de Aripuanã aldeia dos
palicur... Gostava de desenhar um rio correndo montanha abaixo normal fazendo
cascata véu de noiva certa altura da montanha, uma queda-d’água maior do mundo
catarata, pássaros voando no céu aberto, batuíras-de-peito-tijolo,
tucanos-de-peito-branco, surucuás, acanatis e etc., ilha ou terra que acaba. E
escutava música de todos os ritmos harmonias regiões, viajava nas canções
sintonias, desfiles em frente ao espelho grande e de corpo inteiro, sorrisos
ensaiados caras gestos trejeitos, batons para experimentar a cor o sabor o
brilho, templo budista Gonpa Khadro Ling em Três Coroas retiro visitação ioga
meditação, hum! hum!...
No fim da tarde a menina Lilás
telefonou para a cabeleireira marcando hora agendando entrevista. A roupa já
estava separada sobre o encosto da cadeira no quarto de dormir. Claro, poderia
desistir a qualquer momento. Desistir? Nem pensar!
- E o perfume, hein?! Vou estrear um
cheiro novo, diferente sensacional? Forte? Discreto? Miraculoso? É, miraculoso:
nem-te-esqueças-de-mim.
Correu para a agenda-diário e anotou o
perfume que usaria usual casual causal. Acontecimento importante. Algo assim
como baunilha ou aroma de folhas de murta ou flor de oiti. Coleção de abelhas
sem ferrão colmeia meliponário. Oiti uma palavra fofinha, sim. E um perfume outra
coisa de se pensar e saber muito. Todos se reconhecem pelo cheiro. O cheiro de
uma menina tem que ser pessoal, bom, indecifrável, arrasador, praticamente incolor.
Desses que nem deixam dúvidas embora, nem pedra sobre pedra. Pra detonar,
marcar por onde passou passa e andou e dominou.
Ensaiou dançar as músicas dos conjuntos
da moda os grupos populares batuques cordas murmurés. Saber se comportar, rodar,
desfilar no na boate eram coisas básicas para chamar a atenção. Nem se pode
ficar parado, olhando, enquanto outros se divertem, se paqueram, se encontram,
ficam, flertam e compartilham.
Ufa!, que calor. Andava pelo quarto
de camiseta básica, à vontade, rolando na cama, mexendo em tudo, calção folgado
e sem vontade de estudar, pensando apenasmente prevendo o sábado de tarde, hora
do som da galera do sexto ano do ensino fundamental e convidados.
- Tds têm de comparecer! Nem vão
esquecer, em?! Eu prometo! Eu garanto!
Pegou o telefone e discou para as
irmãs Pérola e Esmeralda, outra vez, n vezes aquele dia, terceira vez naquela mesma
horinha e agora:
- Oi!... É Lilás. Sim, eu mesma e
sim senhoras.
- Tudo bé? Tudo g?
- Já sabem como vão vestidas, hum?!
Olhem, eu estou pensando, até separei em peças, penso em ir de preto. E vocês?
Preto básico e confortável.
As irmãs falaram juntas ao mesmo
tempo no telefone dividido:
- Passei a tarde toda pensando nisso
- dizia Lilás. E as horas nem passavam... e mesmo agora nem passam que eu estou
vendo.
- A gente idem. Eu tô em dúvida, mas
a Esmeralda já decidiu pelo preto.
- É, vai ser bom. Vamos todas de
preto, então. Por quê? É um dia de noite como outra qualquer, é.
- Preto é legal, próprio pra noite,
prum som altas estrelas no céu, etc. Acho que todas vão de preto na noite,
então.
O som seria à tarde, tardezinha, mas
para elas todas, para a turma toda, era como se fosse de noite na noite. A noite
tem todo um clima de mais idade mais responsabilidade mais ou menos
independência. Hotel mais de 50 mil estrelas no céu.
Lilás continuou trocando ideias
fáceis com as amigas preferidas por mais uma meia hora 30 minutos e justificável.
Isso de roupas e cores de panos, tecidos, comprimentos, babados, rendas, detalhes,
era muito sério, caimento, tudo muito importante, corte e costuras estampas
etiquetas. Nem se pode errar, nem se pode dar chance ao acaso, ou à
concorrência, afinal todas as meninas estariam lá e olhando e comentando
concordando. E pagar mico, jamé!
Desligou o telefone e ficou ouvindo
pagode, ensaiando o ritmo, o balanço, etc., alguma dança específica preferida...
A maioria da tchurma sabia, por que ela nem?!
- Nem vou passar em brancas nuvens,
nem vou passar de estátua desimportante, nem vou balançar a cauda para as
migalhas que vier, nem cair do galho podre... nem sou repuxo da praça Pirapema.
Na noite da mesma sexta-feira, Lilás
assistiu à novela e se emocionou com algumas cenas sempre iguais num cenário de
despedida no aeroporto Brigadeiro Camarão. Desnecessário? E também divertido. Pareciam
copiar o que ela sentia no momento e como beijar, ser acariciada no cabelo, na
ponta do queixo, algumas palavras necessárias e em tom suave, muito perto,
cenário da fortaleza de São José de Macapá. Tudo lentamente em câmara lenta
panorama turístico tipo Anauerapucu distrito de Santana, o vento geográfico. Um
amor cheio de altos e baixos, de problemas, obstáculos, amigos, dúvidas,
certezas, risos, amigas, pastel de queijo e guaraná num bar da rua Aruá mais
movimentada de Ourinhos ou Ilhota ou Passa Vinte... o camarada galã era bonito
e dividido entre as melhores amigas e sorridente contente. O que mais?
- Oh, um dia vou ser atriz, ou
modelo, ou voleibolista! Me aguardem!
Corria ao quarto e confessava isso
para o diário escrevendo rapidamente e hora marcada apontamentos urgentes. Tudo
que lhe chamava a atenção transferia para a agenda-diário. Só esperava para o
futuro, para si mesma, uma certeza de fama e muitos autógrafos fotos memória. E
passar por romances porque o sonho
existia latino.
- Ah, ser atriz, trabalhar na tevê,
passar autógrafos, cativar fãs pelo país e o mundo, ter a foto nas revistas e
sítios, ficar em cartaz na vitrine do cinema, ditar moda e comportamentos... e
um exemplo para as pessoas...
E foi dormir com aquelas ideias palavras
todas acesas na cabeça cheia de cores preenchida. Deitou com vontade de ficar
pensando e imaginando e sonhando coisas muito boas na estrada sem fim, rio
Amapá Grande. Se deitou no aconchego do leito ouvindo música, sem sono, somente
na fantasia, escalando árvores centenárias, andiroba, copaíba-jutaí,
ipê-contra-sarna, qualé-azul... A cabeça toda criando aventuras, sucessos, nuvens,
famas repentinas absurdas, viagens de barco e reserva Rio Ouro Preto e Chapada
dos Pareci e aldeia dos caiabi nação oiampi...
- Como é esportiva a sorte de
artista! Sempre fazendo entrevista na tevê no blogue no sítio na live! Isso sim
é corrente de rio que corre pro mar aberto olímpico universal! Alguém sabe de
mim em Porto Grande em Guaribas em Caracol, por ex?!
Pegou no sono já tarde tarde,
ouvindo mpbu, levando sonhos de aventuras para o fundo do poço do sono do sonho
do rio Carapanatuba do rio Matapi... Na manhã seguinte, o sábado do som,
acordou feliz sorriso giz igual de uma grande atriz.
- É hoje, uaaaau!... Adrenalina
puuuura!... Eeeeu meeesma!...
Decidiu ir até a casa da Rê. Ia
cheia de planos, perguntas e respostas. Faltou pouco para nem cair da bíci ali
perto da praça em forma de coração Barão do Serro Azul. Nem olhava o mundo já
conhecido da lua prateada, do bairro Xingu, da cidade de Nova Iguaçu. A
passarela cruzando a avenida Coelho Neto das altas palmeiras uruás.
- Olha, Rê! Eu posso ficar até ali
pelas sete e meia, nem mais, nem talvez, nem menos. Depois disso nem pensar. Se
eu demorar já imagina, né! E vão me buscar, e me cobrarão pagar os altos micos
na frente de todos.
- Nem brinque com algo tão sério. A
minha mãe também é da mesma opinião e costume e hábitos. A mãe somente deixou
porque sabe que a tchurma toda vai, etc. Outra coisa. Vamos todas de preto negro
e ponto?
- Claro! É óbvio ululante!
- Comprei um sutiã, venha ver,
bonito e caro. Chegou pelo correio.
- Ora! Você tem obsessão por roupas
artesanais muito pessoais.
- É que eu adoro como um achado,
entende? Esportivamente falando.
Ao meio-dia, já na mesa, Lilás tinha
um importantíssimo comunicado à família:
- Então, de hoje em diante nem vou
mais comer carne. Sou uma vegetariana convicta. E digo mais: nada nem nunca
jamais vou comer algo que diz respeito aos animais, coitados coitadinhos
inocentes prejudicados assassinados. Eles também são gente boa, tá legal?! Fui
clara?, hum!
Mais um lance de independência da
menina, coisa que ela inventava para mostrar que estava valendo seu peso em
ouro e queria uma sorte legal. Andou pensando muito sobre isso e aquilo tanto
quanto possível assim e assado.
- Talvez pode ser quem sabe!...
Depois do almoço foi para o quarto,
telefone, música e sono... Sono profundo e sem querer, assim mesmo, atirada em
diagonal na cama, caderno de deveres aberto na página da matemática dos
conjuntos, janela aberta, sono irresistível, sono de empedrar de tanto dormir
se entregar ao paisagismo caminhos caminhada rio abaixo rio Uaiá Miçu e reserva
Lago de Cuniã e Alto Paraíso e Guabiruba e Mesquita, aribambas-miudinhos,
maracujás-pintados, besouros-amarelos, gaturamos, guriris, guaraçaís-pardos...
e foram criados na natureza e para todos e aproveite.
Duas e meia da tarde acordou
amarrotada e com fome e sede e vontade de brincar pedalar de bicicleta. Ligou o
som muito alto e começou a pensar urgentemente na festa. As meninas já estariam
estourando dali a pouco para apanhá-la. Cantando junto com a cantora interprete
líder da banda em português em espanhol em inglês em tupinambá em nheengatu...
Lembrou de alguma coisa urgente e
correu pro telefone e ligou atenderam:
- Esqueci completamente! Tive umas
distrações! Ainda tá de pé? Posso?
- Ora, sua menina avoada! Então
venha de uma vez! Essa é boa, né, ah ah ah!...
- Valeu! Obrigadão! Até!
Lilás disparou pro salão Gurijuba da
cabeleireira mais notável. Ir ao baile sem um cabelo nem seria legal. Mas
também nada muito exótico ou difícil ou polêmico. E teve que amargar uma longa
espera em dose dupla ao quadrado. Ler reler ver rever folhear, fazer o quê, uma
revista das pirâmides egípcias maias incas astecas museu Joaquim Caetano da
Silva a população da cidade de Santa Maria do Herval é bem miscigenada e
praticamente todos os Estados estão representados...
- E daí, gatinha! Onde será o som?
Aniversário? - perguntou a cabeleireira.
- Um som da galera de aula, é! E é
capaz de ficar muito legal, é! Nem entra criança nem marmanjo, compreende?!
Mais um tanto de esperar, esperar
aguardar... Muitas mulheres conversando sobre tudo e nada: relevo, chapadão
planalto planície. Tevê ligada no programa do sábado à tarde curumins de
barquinho a remo pegando presente dos barcos de passeio catamarãs hidrovia no
estreito de Breves transporte hidroviário palafitas ribeirinhos. A cabeleireira
entra com outra pergunta:
- Então vai um penteado pra tarde?
Tem uma ideia? Sugere.
- Igual aquele da atriz na novela
Falso-Oró!... Achei bárbaro colosso farto! Achei show! Acho da moda!
Praticamente necessário!
- Xá comigo! Sairá daqui fechando o
trânsito e abrindo os olhos das pessoas.
- Capriche! E pago em dobro!
- Oh, sem dúvida! Criatividade é com
a gente, cê sabe!
Lilás voltou pra casa em cima das
quatro horas capazes e úteis. E toda nervosa, agitada, pra fazer maquiagem, se
vestir, se achar, existir... essas coisas do começo da adolescência. Na chegada
já tinha um recado mensagem de texto esperando por ela.
- Certo, vou ver e verificar. Ufa!,
que me atrasei.
Dado o recado recebido: “Tudo bem?! Tudo
bom?! Como vai?! Segue que açaí nós vamos até aí açaí, honestamente, para
pensar açaí para fazer açaí, totalmente, açaí porque açaí boa noite açaí, completamente,
para todos nós açaí você muito mais açaí, geralmente, e em um novo planeta
açaí, exemplarmente, como Foz do Iguaçu açaí ‘onde nascem as nuvens’,
espetacularmente, açaí. O dia ou noite açaí então açaí. E até açaí D açaí lhe
espero açaí.”
Com tranquilidade a menina tranquilamente
telefonou às amigas e as tranquilizou. Pediu que a viessem buscar. Mas elas
acharam melhor todas se encontrar na casa da Rê, que ficava a meio caminho de
todas elas, uma mão na roda.
Trânsito hilário berrando coisas
desconexas espalhafatosas nas ruas na avenida Senador Cândido Mendes de Almeida
quase em frente de casa. Um quadro de tráfego desordem desorganizado tipo
palavras difíceis de dizer rapidamente assim, astênico ou pirangueiro ou
distônico ou buraçanga ou catambá ou ecótono, e a gente no meio dele procurando
andando pelaí cruzando na faixa de validade pedestre. Caminhando trotando pela
calçada da rua Ildefonso Pereira ciclo via e bem servida de lojas vitrines
lojinhas salas galerias sucursais consulados empórios magazines e bodegas.
A cidade, senhores e senhoras!,
atualmente conta com 32 bairros oficiais e 2 conjuntos residenciais fechados. O
bairro mais populoso é o Gelo Baiano; e o menos povoado seria o Embuá. Os
bairros mais populosos estão na zona sul. A cidade possui quatro bairros
banhados pelo rio Piabanha (muito povoado de sapos rãs ranilhas pererecas
piraras jaús jatuaranas piraíbas...). A boa e melhor vocação da cidade é o comércio
além também do extrativismo agricultura indústria e lazer.
Dezessete horas Lilás apontou, toda
bonita, certinha, perfeita, confortável, na casa da Rê da rua registrada com
registro nome de rua da Bilha-Bagana. Ali também estavam a Esmeralda e a Pérola,
preciosas sempre necessárias amigas. Foi aplaudida de pé. Se caso aplaudissem de
pé foi porque todas quatro estavam muito bem, obrigada!, etc., e assim por
diante. Se deram as mãos e riram muito os autóctones, kkkks!...
Entre a casa de Rê e o clube Porto
da Estrela, que custava umas três ou quatro quadras rumo norte, Lilás descobriu
que esquecera os lenços de papel para apagar o suor do rosto. E um lenço de
pescoço com estampa carnavalesco, esvoaçante nas pontas.
- Isso só acontece comigo! Ou com
mais alguém, duvido!
- Fique fria, querida. Eu lhe
empresto dos meus - ofereceu Esmeralda.
- Ah, muito obrigada e lhe devo
essa. Que calor, meu!
- No dia de são nunca você me paga.
Eu lhe digo.
Chegando ao clube esqueceram do
resto e já procuraram o banheiro e se preocuparam com ajeitar a blusa, a
bermuda, o cabelo, o batom, o sorriso, o jeito de ser ensaiado e simples e
empoderado, etc., tudo completo nos conformes.
- Tô legal, gente? Eu acredito em
ocês! Olhe lá, em!
- Meu cabelo, como tá? Tá alinhado? Como
foi? Se nem existisse vento nesta parte do mundo seria melhor.
- Quer me emprestar sua escova? E os
grampos sobrados? E o arquinho?
O clube Porto da Estrela fervia na
entrada na saída dentro do escurinho da boate mais ou menos nas cores amarelo
vermelho. Quase todos os presentes eram da mesma faixa etária das meninas, da
mesma turma, do mesmo colégio, do mesmo bloco de carnaval “As Mocreia!”, da
mesma galera, mesma cia.
- Vamos dar uma volta no salão e ver
o climão!...
Aquelas gritarias, músicas ruidosas altas,
luzes psicodélicas e de brilhos intensos constantes, cheio de luzes correndo e
piscando, coloridas, som a mil e tum! tum! tum!... muita gente conhecida e para
dizer a verdade. E a galera rebentando, toda dançante, elétrica, saltitante
como pipoca e pipoca estalante gritante. Meninos olhando meninas igual de
sempre e para nem perder o costume. Essas gurias já se colocando
automaticamente no centro dos acontecimentos e dançando no estilo reconhecendo
o terreno, fingindo conhecer uns poucos, fingindo nem conhecer a maioria,
fingindo conhecer este e nem reconhecer aquele, sorriso sempre a marca
registrada pessoal.
- Vou tomar um guaraná - decidiu
Lilás. Bem gelado e abaixo de zero.
- A gente veio aqui para dançar ou
conversar? O que que se quer?
- Eu estou muito elétrica com tudo
isso. Eu preciso fazer um lanche bem bom.
- O mundo é assim, gente! Então,
calma, hein?!
O balanço do som era pesado, louco,
catastrófico, paquidérmico, mas todos se achavam e se entendiam e se aceitavam.
Quem foi até o barzinho buscar um refri zero cal? As outras três aguardaram,
espiando ao redor, tudo e mais um pouco.
- Tão vendo alguém interessante e
importante conhecido de outros carnavais shoppings festas juninas padroeiras
pontos turísticos? - perguntou Rê.
- Assim, assim... - resmungou a
Pérola. É uma fauna legal e fascinante.
- São sempre os mesmos da nossa
turma e alguns penetras - disse Esmeralda.
- Alguns da aula de natação, do
futsal...
Lilás presente e ofereceu o
refrigerante na latinha e no canudinho inteligente.
- Aceitem. É um refri produzido
ecologicamente e garantido pelos indígenas da chapada dos Pacaás Novos e
roraimenses e amapaenses.
- Nem, obrigada. Nem sou de filá dos
outros. E eu tenho minhas escolhas.
- Hum... somente um golinho para
testemunhar. Leve e suave.
- Obrigada, nem quero borrar meu
batom invisível. A tarde-noite promete.
Esperaram terminar o suco de guaraná
e então sim invadir de vez a pista de dança. Era a vez e a hora momento
adequado de uma música dançante, irresistível, sucesso: “o que eu bebo?, ora...
é água, água mineral, ora... é água, água mineral, ora!...” Sempre é assim.
Primeiro as músicas de agito, axé, frevo, mais tarde as baladas, novelas, e por
último as românticas de casais juntinhos, pra dançar de rosto colado, namorar,
beijar quando e se possível.
Todas olharam ao mesmo tempo e
naquela direção, todas se certificaram ao mesmo tempo, todas olharam e riram ao
mesmo tempo os, ah ah ahs!... kkkks!... todas ao mesmo tempo. Alguém, e se sabe
lá quem?, falou primeiro e principiando:
- É mesmo!
- Nem vamos ficar babando, gente.
Calculem o fiasco.
- Imagine!
- O que é, é! O que será, será!
Era um Nando que as vigiava e de
longe longe, junto mais dois amigos. Eles também nem sabiam o que fazer,
praticamente, ou deixar de fazer, praticamente, e nem fazer, praticamente...
vai saber. Ainda no meio do conjunto entre as meninas:
- A gente poderia ir até lá, né?! É
uma!
- É melhor ficar na nossa por aqui
que tudo irá bem e terminará na hora certa.
- Nem custará nada, gente!
- Deixe o mundo dar mais uma volta,
somente mais uma voltinha, hum!... E vamos contar até 10, nove, oito, sete...
Primeiro foram ao banheiro, as
quatro em pessoa, uma atrás da outra em fila indiana da maior para a menor em
altura... Retocaram batom, ajeitaram o cabelo sempre alterado, todas as outras
olhadas e conferidas, etc., a vestimenta, o ombro, o cabelo na cabeça, a franja
quem tinha franjinha, a profundidade do olhar... Depois voltaram para a pista
de dança e mais empolgadas que nunca que sempre. Talvez como quem nem quer nada.
Já cumprimentavam o Nando de longe, distribuindo sorrisos, acenos, alegrias,
bom humor, gestos ensaiados, bem-humoradas, falantes... Dançaram como os índios
as índias cunhantãs da tribo aquáua ou tirió. E trocando gritos no meio do
ruído musical gingando com as cadeiras os ombros as pernas:
- O que vamos fazer?!
- Quanto mais mar mais céu, tá certo?!
- Umas tais e quais sipiris que são
árvores de altura verdadeira!
- Como se vê, né, galerinha: tudo
começa uma vez no início com o princípio!
- Quantos moram e quantas vivem em
cidadãos e cidadãs de Uruaçu?
- O Marco Zero cartão-postal de
Macapá latitude zero grau linha do Equador relógio do sol equinócios 2 dias e 2
noites os iguais...
- Que horas são, gentem?!
- Então, o baile é pequeno porém
muito bem organizado.
Os três curumins também desceram à
pista para sacudir o esqueleto, le-que! le-que!... E vieram pra cima das
quatro, meio tímidos, é verdade é verdadeiro. Sobrava, teoricamente na
realidade, uma das meninas. Mas a música era agitada, os pares dançavam soltos
esticados aloprados praticamente malucos, o que então nem ocasionou nenhum
constrangimento. Abriram um círculo e inventaram coreografias meio
desencontradas aeróbicos olímpicos. Nando nem se decidia abertamente por
nenhuma delas, é verdade é vero. Seria timidez, dúvida, ou o quê? Tudo bem, a
tarde era aquilo ali. O melhor que isso aí somente o futuro saberia dizer. Quem
sabe lá! Quem sabe onde! Por que tudo isso! Aonde vamos meu D!
- Eu vou na praia do Perequê, Porto
Belo, é! Devo sair hoje mesmo!
- Qual sua cor favorita! Seria o
bronze com cenoura?
- Qual minha cor favorita? Pode ser
time ou clube também?!
- Gosto muito de jogar futebol e
vôlei e peteca, e tu?!
- Como é de se esperar, devido ao
meu pai, vou estudar engenharia civil lá em Vitória do Jari! Segundo o IBGE, a
população da cidade é de 88 mil habitantes e a 30ª do Estado de Roraima...
- Muito giro, muito!
- O que fazer para onde vou em o meu
aniversário?, você me pergunta!
- Palhoça palhal palhar!...
- Isso é um código secreto segredo? Um
aquaviário e uma aquavia? Escaleres tipo a remo e a motor e a vela!
O grupo dançou forte por meia hora e
riu espalhafatoso por meia hora e cantou forte por vinte minutos e pulou forte
por meia hora como se pula na tribo dos trumai dos guaná dos terena... pulando
sem parar, dança da chuva em volta da fogueira, dança dos espíritos da floresta,
fantasma do além do aquém. Então, subitamente, o som deu lugar às músicas antigas
de carnaval e foi aquele reboliço porque todo mundo começou a pular ainda mais
e igual a umas pipocas quentes. E inventaram trenzinho, mãos nos ombros do
amigo ou da amiga e todo mundo na carona um do outro uma corda cordão, “Alá lá
ô ô ô, mais que calôooo... estava atravessando o deserto do Saaaara... quando o
sol queimou a minha caaaara... Alá lá ô ô ô ô...” Quem é que podia resistir a
uma folia dessas tão bagunçada importante alegre urgente? Depois se cantou
aquela marchinha, que foi assim, “vocês estão me vendo aí?... eu nem aí!... vocês
estão me rindo ali?... eu nem aí!... vocês estão me acenando pra cá?... eu nem
aí!... vocês estão me abanando de cá?... eu nem aí!... vocês estão me esperando
aqui?... eu nem aí!...”
Nem demorou muito mais. Nem demorou
mais muito. Só mais uns minutos, vinte minutos, meia hora, uma hora no máximo e
tudo acabou, a música silenciou como quando termina e apagam as luzes para
sempre, “está, chegando, a hora... meu bem... e eu tenho, de ir, embora... ia-ia!...”
As meninas do quadrado com os três
meninos pareceram, no início, ou no finalmente, nem entender saber bulhufas
bulutas. Eles olharam e elas disfarçaram e eles disfarçaram e elas riram os, ah
ah ahs!... Ninguém tomou qualquer iniciativa mais notável mais amigável mais
acertada. Muita indefinição, falta de confiança das duas três quatro partes, da
parte deles e da parte delas... reticências, e assim mesmo por diante. Ou
orgulho, ou vaidade, temor de andar na chuva sem guarda-chuva e se molhar...
- Então tá, né!... Você já viu falar
da praia Meia-Praia?
- Sim, por que nem! Eu posso abrir a
porta e fechar a janela! Nem tem galho!
- Você pode, por favor!, fechar a
porta e abrir as janelas!
- Devemos arejar a sala de estar com
a cozinha assim como os outros cômodos da casa da moradia, é!
- Muito giro, muito!
- Você pode abrir a porta agora e
fechar as janelas mais tarde, por favor?!
- A península de Bombinhas com praia
do Mariscal morros pontas reentrâncias costões rochosos escarpas abruptas e
locais de enseadas...
- Tem ciclovia durante toda a orla,
é.
E então... sabe como é, bobeou o
gato pega. Aconteceu isso. Enquanto o nosso quarteto nem se mexia, uma outra
menina, disfarçada de figurante de filme tropical dançante, foi é e... roubou o
Nando. Pronto. Nem tinha já mais graça. Acabou antes de começar. E foram para a
praia de Quatro Ilhas e bem na moda.
- Ah, vamos embora!
- É, bobeamos e tal!
- Ih, praticamente na prática cansei
e nem entendi nada!
- Deixamos pra lá! Vamos até o pátio
pegar um ar renovado!
Foram mesmo até o pátio do clube, as
quatro uma atrás da outra, as quatro juntas, as quatro lado a lado tomando
muito espaço no ambiente cheio e ruidoso. Elas estavam bem, o clube trepidava
de carnaval, muito giro, o som dilatava as paredes, o som quebrava as vidraças
das casas na vizinhança, era bom e era muito bom perfeitamente ótimo mais-que-perfeito.
- Todas foram até o rio Mutuacá e
ninguém pegou o barco!
- Todas foram até o rio Vila Nova e
poucas entraram na barcaça!
- Todas foram até o rio Flexal e
todas subiram no navio!
- Todas foram até o rio Pedreira e
uma após uma adentraram o catamarã!
Pouco depois, porém, as quatro já
estavam de volta à pista ao palco à arena na quadra de jogo e ga-mi-ficar. Saía
um pagode de sucesso, contagiante, pipocante, intenso, original tão ou mais
intenso. Fizeram a tal rodinha e dançaram dando as tais e quais sambadinhas.
Alguém perguntou por perguntar, por falar, por tocar no assunto e por nada por
tudo:
- Será que sai uma música lenta?! E
rosto com rosto?
- É uma, né?! Muito giro, muito!
- Ainda ainda nem pensei no caso...
se acontecer e chegar, claro!
- Eu também nem sei se dançaria
coladinha, tá ligada?! É de outros tempos, em!
Pararam os pagodes batucadas a
percussão, os pagodes mudaram para as românticas melosas, as luzes ficaram mais
lentas, os pisca-piscas ficaram mais lentos, as luzes alucinantes pararam de rodar
tão rápidas e enlouquecidas e alucinógenas, o ambiente mais estudado e as
músicas juntinhas cheias de intimismo lirismo conversinhas no ouvido.
- Me olhe! Breves fica perto de
Anapu e Melgaço e Itaubal, é?
- Onde nasceu o Brasil, exatamente?
Uma comunidade remanescente quilombola em Ferreira Gomes? Pode ser!
- Nós todas fomos juntas e foi
ma-ra-vi-lhoso, então. Me deu fome de caruru com tacacá e maniçoba acarajé açaí
com tapioca...
- Eu mesma quero aprender mais ou
menos uns 6 ou 7 idiomas. Muito giro.
As quatro do quadro da posteridade dançaram
com uns carinhas anônimos, com outros carinhas ao acaso, com coleguinhas do sexto
ano e tal, com uns conhecidos lá da serra da Lombarda. Mas sem aquela aflição
empoderada e tão intensa. Tudo tranquilo e
calmo. Todas tranquilas. E o B é nosso bonito e continental.
- Pra falar sério e a verdade
verdadeira eu mesma nunca fui ainda em e gostaria São João do Polêsine. O que é
uma estação ecológica de Maracá-Jipioca, hein?, meu!
- Você quer um refri ou um suco sumo
de pupunha, por favor!
- O meu tio junto com minha tia
foram lá estudar os peixes apaiaris branquinhas tucunarés... do rio Parauaú.
Disseram dizem que por lá chove, troz-troz!... muito rápido e todos os dias à
tarde.
- Eu mesma nem consigo aprender a
tocar qualquer instrumento que seja, é. Queria muito ser cunhantã uriú, né?!
A noite ainda nem estava toda
tombada para os lados noturnos. Estava entardecendo quietamente mas ainda nem escurecia.
As meninas decidiram chegar até a sorveteria Aruaná mais ao fim do quarteirão
na praça Abdallah Houat. Sentaram ali e ficaram quase quietas. Estavam cansadas
do agito e saboreando o gosto de abacaxi e chocolate e caju e açaí.
- Eu mesmo amo açaí... E que coisa
mais linda adorável o açaí...
- Sem açaí eu nem existiria... Antes
e depois da era do açaí...
- O açaí é uma riqueza social...
Sempre haverá açaí misturado ou puro...
- Açaí já com a manhã... açaí pela
tarde... açaí de noite... açaí no espaço cosmo...
Mais um pouco e já estavam andando
para casa. O dia tinha sido e pronto. Era voltar para casa e esperar a manhã amanhã
o outro dia. O dia tinha estado e ponto. As gurias ainda trocando aquelas
palavras e aquelas frases já sabidas de açaí. Nem riam pouco. Já sorriam pouco.
Ainda vinham abraçadas e cansadas e desanimadas. O sol em seu movimento
aparente. Cenografia cenário paisagem vista ambiente panorama, botão-de-casaca
e ibijaú-guaçu e angelim-do-campo e mulatinho e amapá-doce... Perto de casa
Lilás se separou das amigas muito lenta-mente:
- Amanhã a gente se fala, telefono,
inté!
- Valeu! Amanhã, então.
- Estarei sempre pensando em nós e
no que fazer, tá certo?
- O que é palíndromo? Faz uma hora
que escutei essa palavra, uma vez.
Já passava das dezenove quando Lilás
botou o pé em casa. O pessoal estava assistindo tevê, preparando uma janta,
telefonando, fazendo coisas pela casa, etc. Se apresentou e em seguida foi pro
quarto, o banheiro, o telefone, até aí pelas vinte horas, vinte e pouco.
No quarto, depois de jantar, depois
de contar aos de casa o ocorrido no passeio, depois de um pouco de tevê com a
coletividade familiar, depois e após, Lilás foi pro quarto e deitou e passou a
tarde da boate a limpo pensando pensando. A mente viajou entre mil e tantas
caras, figuras, agitos, embalos, risos, sensações. Nem sentia muita saudade de
nada, nem. Nem sentia muito mais, nada. Dormiu logo e profundamente com o espírito
na alma.
É claro. Pela primeira vez na semana
ou na quinzena o sol apareceu reapareceu aparentemente para ficar. Algumas
coisas o trânsito feliz as lojas abertas a rua Ipaussu os prédios novos
crescendo contentes e coisas que antes precisavam de um alerta. Mas o
importante para Lilás era sair de bíci e pedalar pela orla avenida Beira-Mar
Norte. Até o CIC e o viaduto que vai para as praias do norte praia da Daniela
do Santinho do Forte da Ponta das Canas da reserva do Lago Piratuba... ou se
possível, dando aquela esticada, chegar mais para lá junto da UFSC e o bairro
da Trindade e as vilas menos típicas onde ainda hoje predominam uma o candomblé
outra a umbanda mais aquela o tambor de mina e que são sujeitos muito antigos.
Claro, tudo reconhecido automaticamente. Óbvio que os solstícios os equinócios
são marcações da astronomia e constantes.
Bem cedo, na manhã seguinte
madrugada, então, o domingo de sol forte, pegou a bíci e saiu pedalando pelo
bairro, pela rua Placidina de Araújo monumentos megálito pináculo. Era uma
manhã cheia de luz, e cheiros, passarinhos cruzando os ares, joões-de-barro,
canarinhos-da-terra, corruíras, tico-ticos, sabiás-laranja, tesoureiras,
almas-de-tapuio... poucos carros, raros os caros, carro vermelho, amarelo,
branco, preto, lilás... árvores em fila comportada ao longo da calçada em
matinhos em grupos de três quatro cinco, quarubas-de-flor-roxa, agoniadas,
borragens, flechilhas, cipós-chumbos, bacabas... e se encontrou com os Amigos
Protetores do Maracujá e foi dar uma volta até a associação passou a manhã com
eles plantaram alguns maracujás, regaram, adubaram, podaram, ajoelharam diante
dos pés recém-nascidos e deram graças aos céus pela existência do maracujá
tanto os parentes como descendentes afilhados aparentados compadres comadres...
que por acaso poderiam estar em perigo de extinção.
Pela tarde, o quarteto inseparável combinado
combinou ir ao shopping Rio Pequeri. Se encontraram no portão da casa da Rê,
como sempre, e foram. Rindo e falando todas de uma vez ao mesmo tempo, falando
tudo e falando alto e rindo muito gestos pra frente revolucionários desenhados
em coreografias artificiais no ar no físico translúcido do ar:
- Vamos ver qual e tal filme, gente?
Já vamos pensando, né, gentes?!
- Mas você já sabe o que está em
cartaz, gentem?!
- Aquele da montanha russa que
despenca com todo mundo ou deve ser esse ou aquele dos bonecos amestrados, só
pode. Eu prefiro chegar sentar e ver aceitar na hora.
- O da montanha 31 de Março é muito enigmático
fiquei sabendo e até meio horrível assustador, né, gente?! Minha opinião! Nem
nada adequado.
- Ficamos na dúvida, hein?!, gente.
Uma pausa para o sorvete de... açaí.
Antes de tudo, circularam pelos
corredores e departamentos e lojas e vitrines e lanchonetes também e ainda bem comeram
pipoca, gomas, balas, pipoca com sabor chocolate, batata frita, chocolate ao
amendoim, etc., uma barra imensa de chocolate ao leite... E todas eram amigas e
falantes e intensas e conversavam ali e pronto:
- Amanhã é outro dia de colégio,
alguém duvida? Nem vejo a hora da chegada das férias e viajar conhecer a Casa
do Pinhal em São Carlos, como ex.
- Ah, vocês já fizeram o trabalho de
História Colonial? Falando nisso, eu queria muito pessoalmente contar algo com
Santa Rita do Jacutinga. Isso me encanta.
- Eu já ouvi falar na reserva
biológica do Jaru e do rio Cajari. Nem sei o que nos esperaria. Um dia vou andar
por dentro da floresta Amazônica e conhecer os mais distintos insetos bichos e
plantas, acariquaras, louva-a-deus, guarabás, vaquinhas, formigas-correição...
Sabe como é e o que é sonho desde sempre? Então está aí.
- A cidade de São Miguel do Guaporé
fica sempre em GO talvez Estado do ES perto de SP na divisa com RJ. Os nômades índios
galibi do oiapoque fazem esta migração e constantemente durante em o verão e
pescam os peixes mais saudáveis do rio das Velhas.
Voltavam pra casa, caminhando,
parando e rindo e conversando. De repente pensaram em pegar o ônibus. Do ponto
do largo Veiga Cabral. As quatro lado a lado e eram inseparáveis consertáveis
indispensáveis concursáveis.
Em casa, à noite, no quarto próprio
e particular exclusivo, rolando na cama com o caderno-diário, Lilás escreveu isto
abaixo, com os cumprimentos necessários:
- O seu domingos de hoje: que teve
sim altos e baixos e muito sorvete de açaí e outros frutos e coloridos.
Assistimos pela enésima vez aquele filme que conta o desastre de uma montanha
russa lá em Ceará e a terra dos famosos escritores irmãos Villas-Boas, Cláudio,
Leonardo, Orlando. Tudo por causa de uma quadrilha tal e tal vinda de nem sei
onde me esqueci o nome, me desculpem. Espero conseguir um pôster daquela
jogadora de vôlei da seleção uma tal e qual empoderada para pendurar atrás da
porta do quarto, ou na parede sobre a cama, em algum lugar de destaque e de
fácil re-visão. Outra coisa e importante. A Associação Amigos do Maracujá me
convidou para participar de um encontro das várias associações da redondeza dos
arredores adjacências países vizinhos cidades limítrofes, Bernardino de Campos,
Gaspar, Espigão do Oeste, Senador José Porfírio, Canitar, Pracuúba... e que vai
ser na cidade escolhida a dedo de André da Rocha. Eles estão querendo atrair
mais e mais sócios companheiros companheiras camaradas patrocinadores
apoiadores. Nem sei se os de casa me deixarão ir, eu quero ir, mas nem vão me
deixar que eu tenho certeza quase certeza absoluta espero que sim. Paciência.
F-o-i: digo, fui.
E é por contar contado tudo que foi
e é e será acontece porque assim tem há precisão matemática.
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