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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A Velocidade do Quadrado (juvenil)




            Dizem aí para cá acolá quiçá o que todo mundo já sabe, ou isso mesmo: que o sorriso é branco da paz, o riso é azul-anil, a gargalhada é verde-amarela, kkkk!... Todas as cores suaves brandas idôneas aperfeiçoadas e luxuriosas. E com muito gosto e sabor.
            Tudo já vinha sendo tramado e mais ou menos idealizado tratado em conversas anteriores diálogos de orelha, mas foi somente na saída do colégio NSAparecida, naquela sexta-feira de quase meio-dia e 11:30 pulsantes, que as meninas Lilás Rê Esmeralda Pérola ratificaram, combinaram bem combinado, decidiram bem decidido, antes que cada qual esquecesse sua parte na história.
            - Diga moeda e lembro na hora h da rua da Moeda, pois em!
            - Razões e lições, hum!...
            - Eu preciso do meu bem açaí, compreende?!
            - Temos muito rio em frente para curtir a cachoeira Paraíso, naturalmente!
E a conversa conversar foi começando ali mesmo, ali mesmo na descida do morrinho do colégio pela calçada da direita em direção à avenida Domingos José Martins, enquanto uns colegas pegavam carona, pegavam o ônibus escolar, outros seguiam a pé, “marcha soldado... cabeça de papel... quem nem marcha direito... vai preso pro quartel... o quartel pegou fogo... São Francisco deu sinal... acode acode acode... a bandeira nacional!...” As quatro amigas titulares necessárias mesma altura vegetarianas uns dizem veganas seguiam andando. Moravam no mesmo bairro, na mesma rua, entre poucos quarteirões, pra lá do córrego Faiança:
            - Então tá, né, meninas! Vocês vêm lá em casa e de lá a gente vai pro som, né?! - combinou a Lilás. Muito massa, meu!
            - Com certeza, galeriiiinha! - respondeu Rê.
            - Pode contar conosco, u-huuuuu!... - concordou Esmeralda, irmã de Pérola.
            - Sim, com certeza estaremos lá - emendou a Pérola, irmã da Esmeralda. Eu tenho tudo agendado apontado anotado, tá legal?!
            O tumulto da calçada do colégio se dispersou, assim como as quatro inseparáveis amigas eternas, quase irmãs, sócias, moradoras do mesmo bairro Sagrada Família, identificadas na mesma rua Placidina de Araújo números pares ou ímpares. Voltando pra casa lentamente, 2 km e meio, subindo o morrinho que domina a cidade, volta e meia, continuaram o mesmo assunto, assunto do som música baile e festa:
            - Eu gosto de bate-estaca, tão entendendo? - colocou Esmeralda. Nem digo que é música, mas é ótimo é original é moderno é isso aí mesmo... Uma vez eu e meus pais fomos em... a gente... uma viagem de negócios do meu pai, foi lá em Pimenteiras do Oeste, pra lá de Santa Fé do Sul... e havia muitas árvores na beira da estrada os tais e quais buritis... um pouco pra cá de Miguel Pereira... serra do Umbu...
            - Sim, isso aí. É legal. Mas eu também gosto de eletrônicas, tum! tum! tum!... É muito muito bem espacial e planetário cosmo universo, hem?! - conversava a Rê.
            - Pelo menos nesse caso eu concordo e discordo. Um pouco de balada com romance nem faz mal a ninguém, tô certa?! - disse a Pérola. Tem gosto pra tudo e...
            - Uma vez, eu me lembro, faz um século e meio, a gente, principalmente eu mesma, gostava muito de pagodes e axés... os maracatus, é - arriscou a Lilás. É muito de carnaval na veia bem típico e de raiz... se nem me falha a memória... interiorzão tipo assim como Santa Cruz do Rio Parto, Portel ou Candeias do Jamari, tão ligadas?! A gente andando na rua de casas... portas e janelas com cores enfeites de colchas...
            E as quatro meninas já saíam rindo olhando para o gosto que nem se discute de uma e da outra. Era muito difícil essa história de gosto sabor apetite musical e tal e qual. O bom mesmo era salada mista e de frutas da Amazônia.
            - Me escutem. Vocês sabem se o Nando vai também? Pergunta!!
            - Ih... olha ela ali aí aqui pra cá pra lá! Tá a fim do cara, é? Entendi, entendi...
            - Nada a vê, meu! Cada uma que me acontece, etc.
            - É, claro clara! Nem tenho nada que ver, tá certo. Agora...
            - Ora! Então, nem preciso mentir, né?! Ele é um meu grande amigo, um meu melhor amigo... e sem assim compromiiissos...
            - Ah!, gente, ele nem é dos mais ou menos bobo. Até que é bonitinho, de repente, um dia sim e outro nem tanto...
            - É só pedir que ele vem e te beija. Nem gosto de cara assim fácil, valeu?!
            - Tá, tá legal! Vou procurar um cara carimbado e de difícil acesso, em?!
            - É, vamos deixar o FerNando de lado. É bonito mas nem é dois mais dois cinco.
            - Então... sem faltar, hein?! Amanhã tal hora em pontos lá em casa aquecimento para o som! Sensacional!
            Lilás voltava pra casa apenas pensando no som, com que roupa, com qual cabelo, com que classe, etc., com que atitude que tênis que celular com qual penteado. Pensava em Nando, o galã da turma. Nando chegara a pouco no colégio, transferido de Conselheiro Lafaiete e uma cidade longe longe em Mato Grosso, e já abalava corações com seus cabelos longos sempre presos em rabo de cavalo e a tal argolinha na orelha direita como os piratas corsários do carnaval, cheio de estilo, cheio de sotaque da fronteira com MS, olhar de paisagem terramarear, torcedor do Vila Nova F. C. arquirrivais do A. C. Goianiense...
            - Uma coisa é certa como a matemática das sextas-feiras e 11 horas pouco antes da saída: todas as meninas querem ficar com o N. Porém, por quê? Qual é o real motivo? É justo nem é justo? D lhe pague, amém!
            Chegou a rir sozinha no meio da rua escritor Júlio Ribeiro esquina rua poeta Alcy Araújo Cavalcante. Já se sentia embalada pela festa o baile o som, mais a galera, a bagunça toda a farra o fandango o folguedo... e enfim tudo de bom.
            O lugar possui tem um clima tropical superúmido, o índice pluviométrico anual é superior a 2000 mm milímetros nos meses de verão alto verão. A estação seca que dura 3 meses vai de junho e julho até agosto é quando raramente cai uma gota de água. Quando finalmente chove e chove mesmo as precipitações são em forma de chuva e raras vezes em forma de granizo, podendo vir acompanhadas de raios e trovões. Com mais de 200 dias de sol por ano, a umidade relativa do ar é elevada uma das mais altas. As maiores temperaturas do ano passado 2020 por exemplo foram registradas durante os meses de setembro outubro e novembro chegando a ultrapassar a marca dos 37°C e a umidade do ar também pode sempre ficar abaixo dos 25% ou mesmo dos 20% - muito muito abaixo dos 60% considerados ideais pela OMS-organização mundial da saúde.
            Lilás passou a tarde de sexta-feira trancada em seu quarto recolhida e espontaneamente. Se preocupou com anotações na agenda apontamentos, Natividade de Natividade em TO ruínas da igreja NS do Rosário dos Pretos uma das consideradas 7 maravilhas brasileiras, e experimentando uns panos, ouvindo umas novas músicas inéditas, e cheia de preguiça acomodada, telefonando para as melhores necessárias amigas, combinando roupas e cores de roupas, cores de perfumes, etc., detalhes inesperados, variáveis, modas exóticas ecológicas... Uma tarde inteira para relaxar e imaginar acalmar e muito sérias comuns...
            A menina andava já com o coração selvagem na mão em a ação querendo por as manguinhas de fora apavorar, total: namorar. E escrevia no diário desde o mês passado, e palavras abreviadas como convém. Desenhava mais que escrevia geometrias estilizadas números primos rios cidades lagoas lago do Amapá rio Caciporé parque do Solstício reserva Serra das Confusões... Quase nem tinha ainda palavras conhecidas do seu conhecimento palavras fáceis confiáveis certas automáticas e muito g de gigante de genial de gênio geniosa... Uma porção sem fim de perguntas. Pouca ou nenhuma resposta, siglas, geônimos, adjetivos, onomatopeias... Desenhava tudo que sabia desenhar e caprichadamente caprichosamente cidade de Óleo município de Aripuanã aldeia dos palicur... Gostava de desenhar um rio correndo montanha abaixo normal fazendo cascata véu de noiva certa altura da montanha, uma queda-d’água maior do mundo catarata, pássaros voando no céu aberto, batuíras-de-peito-tijolo, tucanos-de-peito-branco, surucuás, acanatis e etc., ilha ou terra que acaba. E escutava música de todos os ritmos harmonias regiões, viajava nas canções sintonias, desfiles em frente ao espelho grande e de corpo inteiro, sorrisos ensaiados caras gestos trejeitos, batons para experimentar a cor o sabor o brilho, templo budista Gonpa Khadro Ling em Três Coroas retiro visitação ioga meditação, hum! hum!...
            No fim da tarde a menina Lilás telefonou para a cabeleireira marcando hora agendando entrevista. A roupa já estava separada sobre o encosto da cadeira no quarto de dormir. Claro, poderia desistir a qualquer momento. Desistir? Nem pensar!
            - E o perfume, hein?! Vou estrear um cheiro novo, diferente sensacional? Forte? Discreto? Miraculoso? É, miraculoso: nem-te-esqueças-de-mim.
Correu para a agenda-diário e anotou o perfume que usaria usual casual causal. Acontecimento importante. Algo assim como baunilha ou aroma de folhas de murta ou flor de oiti. Coleção de abelhas sem ferrão colmeia meliponário. Oiti uma palavra fofinha, sim. E um perfume outra coisa de se pensar e saber muito. Todos se reconhecem pelo cheiro. O cheiro de uma menina tem que ser pessoal, bom, indecifrável, arrasador, praticamente incolor. Desses que nem deixam dúvidas embora, nem pedra sobre pedra. Pra detonar, marcar por onde passou passa e andou e dominou.
            Ensaiou dançar as músicas dos conjuntos da moda os grupos populares batuques cordas murmurés. Saber se comportar, rodar, desfilar no na boate eram coisas básicas para chamar a atenção. Nem se pode ficar parado, olhando, enquanto outros se divertem, se paqueram, se encontram, ficam, flertam e compartilham.
            Ufa!, que calor. Andava pelo quarto de camiseta básica, à vontade, rolando na cama, mexendo em tudo, calção folgado e sem vontade de estudar, pensando apenasmente prevendo o sábado de tarde, hora do som da galera do sexto ano do ensino fundamental e convidados.
            - Tds têm de comparecer! Nem vão esquecer, em?! Eu prometo! Eu garanto!
            Pegou o telefone e discou para as irmãs Pérola e Esmeralda, outra vez, n vezes aquele dia, terceira vez naquela mesma horinha e agora:
            - Oi!... É Lilás. Sim, eu mesma e sim senhoras.
            - Tudo bé? Tudo g?
            - Já sabem como vão vestidas, hum?! Olhem, eu estou pensando, até separei em peças, penso em ir de preto. E vocês? Preto básico e confortável.
            As irmãs falaram juntas ao mesmo tempo no telefone dividido:
            - Passei a tarde toda pensando nisso - dizia Lilás. E as horas nem passavam... e mesmo agora nem passam que eu estou vendo.
            - A gente idem. Eu tô em dúvida, mas a Esmeralda já decidiu pelo preto.
            - É, vai ser bom. Vamos todas de preto, então. Por quê? É um dia de noite como outra qualquer, é.
            - Preto é legal, próprio pra noite, prum som altas estrelas no céu, etc. Acho que todas vão de preto na noite, então.
            O som seria à tarde, tardezinha, mas para elas todas, para a turma toda, era como se fosse de noite na noite. A noite tem todo um clima de mais idade mais responsabilidade mais ou menos independência. Hotel mais de 50 mil estrelas no céu.
            Lilás continuou trocando ideias fáceis com as amigas preferidas por mais uma meia hora 30 minutos e justificável. Isso de roupas e cores de panos, tecidos, comprimentos, babados, rendas, detalhes, era muito sério, caimento, tudo muito importante, corte e costuras estampas etiquetas. Nem se pode errar, nem se pode dar chance ao acaso, ou à concorrência, afinal todas as meninas estariam lá e olhando e comentando concordando. E pagar mico, jamé!
            Desligou o telefone e ficou ouvindo pagode, ensaiando o ritmo, o balanço, etc., alguma dança específica preferida... A maioria da tchurma sabia, por que ela nem?!
            - Nem vou passar em brancas nuvens, nem vou passar de estátua desimportante, nem vou balançar a cauda para as migalhas que vier, nem cair do galho podre... nem sou repuxo da praça Pirapema.
            Na noite da mesma sexta-feira, Lilás assistiu à novela e se emocionou com algumas cenas sempre iguais num cenário de despedida no aeroporto Brigadeiro Camarão. Desnecessário? E também divertido. Pareciam copiar o que ela sentia no momento e como beijar, ser acariciada no cabelo, na ponta do queixo, algumas palavras necessárias e em tom suave, muito perto, cenário da fortaleza de São José de Macapá. Tudo lentamente em câmara lenta panorama turístico tipo Anauerapucu distrito de Santana, o vento geográfico. Um amor cheio de altos e baixos, de problemas, obstáculos, amigos, dúvidas, certezas, risos, amigas, pastel de queijo e guaraná num bar da rua Aruá mais movimentada de Ourinhos ou Ilhota ou Passa Vinte... o camarada galã era bonito e dividido entre as melhores amigas e sorridente contente. O que mais?
            - Oh, um dia vou ser atriz, ou modelo, ou voleibolista! Me aguardem!
            Corria ao quarto e confessava isso para o diário escrevendo rapidamente e hora marcada apontamentos urgentes. Tudo que lhe chamava a atenção transferia para a agenda-diário. Só esperava para o futuro, para si mesma, uma certeza de fama e muitos autógrafos fotos memória. E passar por  romances porque o sonho existia latino.
            - Ah, ser atriz, trabalhar na tevê, passar autógrafos, cativar fãs pelo país e o mundo, ter a foto nas revistas e sítios, ficar em cartaz na vitrine do cinema, ditar moda e comportamentos... e um exemplo para as pessoas...
            E foi dormir com aquelas ideias palavras todas acesas na cabeça cheia de cores preenchida. Deitou com vontade de ficar pensando e imaginando e sonhando coisas muito boas na estrada sem fim, rio Amapá Grande. Se deitou no aconchego do leito ouvindo música, sem sono, somente na fantasia, escalando árvores centenárias, andiroba, copaíba-jutaí, ipê-contra-sarna, qualé-azul... A cabeça toda criando aventuras, sucessos, nuvens, famas repentinas absurdas, viagens de barco e reserva Rio Ouro Preto e Chapada dos Pareci e aldeia dos caiabi nação oiampi...
            - Como é esportiva a sorte de artista! Sempre fazendo entrevista na tevê no blogue no sítio na live! Isso sim é corrente de rio que corre pro mar aberto olímpico universal! Alguém sabe de mim em Porto Grande em Guaribas em Caracol, por ex?!
            Pegou no sono já tarde tarde, ouvindo mpbu, levando sonhos de aventuras para o fundo do poço do sono do sonho do rio Carapanatuba do rio Matapi... Na manhã seguinte, o sábado do som, acordou feliz sorriso giz igual de uma grande atriz.
            - É hoje, uaaaau!... Adrenalina puuuura!... Eeeeu meeesma!...
            Decidiu ir até a casa da Rê. Ia cheia de planos, perguntas e respostas. Faltou pouco para nem cair da bíci ali perto da praça em forma de coração Barão do Serro Azul. Nem olhava o mundo já conhecido da lua prateada, do bairro Xingu, da cidade de Nova Iguaçu. A passarela cruzando a avenida Coelho Neto das altas palmeiras uruás.
            - Olha, Rê! Eu posso ficar até ali pelas sete e meia, nem mais, nem talvez, nem menos. Depois disso nem pensar. Se eu demorar já imagina, né! E vão me buscar, e me cobrarão pagar os altos micos na frente de todos.
            - Nem brinque com algo tão sério. A minha mãe também é da mesma opinião e costume e hábitos. A mãe somente deixou porque sabe que a tchurma toda vai, etc. Outra coisa. Vamos todas de preto negro e ponto?
            - Claro! É óbvio ululante!
            - Comprei um sutiã, venha ver, bonito e caro. Chegou pelo correio.
            - Ora! Você tem obsessão por roupas artesanais muito pessoais.
            - É que eu adoro como um achado, entende? Esportivamente falando.
            Ao meio-dia, já na mesa, Lilás tinha um importantíssimo comunicado à família:
            - Então, de hoje em diante nem vou mais comer carne. Sou uma vegetariana convicta. E digo mais: nada nem nunca jamais vou comer algo que diz respeito aos animais, coitados coitadinhos inocentes prejudicados assassinados. Eles também são gente boa, tá legal?! Fui clara?, hum!
            Mais um lance de independência da menina, coisa que ela inventava para mostrar que estava valendo seu peso em ouro e queria uma sorte legal. Andou pensando muito sobre isso e aquilo tanto quanto possível assim e assado.
            - Talvez pode ser quem sabe!...
            Depois do almoço foi para o quarto, telefone, música e sono... Sono profundo e sem querer, assim mesmo, atirada em diagonal na cama, caderno de deveres aberto na página da matemática dos conjuntos, janela aberta, sono irresistível, sono de empedrar de tanto dormir se entregar ao paisagismo caminhos caminhada rio abaixo rio Uaiá Miçu e reserva Lago de Cuniã e Alto Paraíso e Guabiruba e Mesquita, aribambas-miudinhos, maracujás-pintados, besouros-amarelos, gaturamos, guriris, guaraçaís-pardos... e foram criados na natureza e para todos e aproveite.
            Duas e meia da tarde acordou amarrotada e com fome e sede e vontade de brincar pedalar de bicicleta. Ligou o som muito alto e começou a pensar urgentemente na festa. As meninas já estariam estourando dali a pouco para apanhá-la. Cantando junto com a cantora interprete líder da banda em português em espanhol em inglês em tupinambá em nheengatu...
            Lembrou de alguma coisa urgente e correu pro telefone e ligou atenderam:
            - Esqueci completamente! Tive umas distrações! Ainda tá de pé? Posso?
            - Ora, sua menina avoada! Então venha de uma vez! Essa é boa, né, ah ah ah!...
            - Valeu! Obrigadão! Até!
            Lilás disparou pro salão Gurijuba da cabeleireira mais notável. Ir ao baile sem um cabelo nem seria legal. Mas também nada muito exótico ou difícil ou polêmico. E teve que amargar uma longa espera em dose dupla ao quadrado. Ler reler ver rever folhear, fazer o quê, uma revista das pirâmides egípcias maias incas astecas museu Joaquim Caetano da Silva a população da cidade de Santa Maria do Herval é bem miscigenada e praticamente todos os Estados estão representados...
            - E daí, gatinha! Onde será o som? Aniversário? - perguntou a cabeleireira.
            - Um som da galera de aula, é! E é capaz de ficar muito legal, é! Nem entra criança nem marmanjo, compreende?!
            Mais um tanto de esperar, esperar aguardar... Muitas mulheres conversando sobre tudo e nada: relevo, chapadão planalto planície. Tevê ligada no programa do sábado à tarde curumins de barquinho a remo pegando presente dos barcos de passeio catamarãs hidrovia no estreito de Breves transporte hidroviário palafitas ribeirinhos. A cabeleireira entra com outra pergunta:
            - Então vai um penteado pra tarde? Tem uma ideia? Sugere.
            - Igual aquele da atriz na novela Falso-Oró!... Achei bárbaro colosso farto! Achei show! Acho da moda! Praticamente necessário!
            - Xá comigo! Sairá daqui fechando o trânsito e abrindo os olhos das pessoas.
            - Capriche! E pago em dobro!
            - Oh, sem dúvida! Criatividade é com a gente, cê sabe!
            Lilás voltou pra casa em cima das quatro horas capazes e úteis. E toda nervosa, agitada, pra fazer maquiagem, se vestir, se achar, existir... essas coisas do começo da adolescência. Na chegada já tinha um recado mensagem de texto esperando por ela.
            - Certo, vou ver e verificar. Ufa!, que me atrasei.
Dado o recado recebido: “Tudo bem?! Tudo bom?! Como vai?! Segue que açaí nós vamos até aí açaí, honestamente, para pensar açaí para fazer açaí, totalmente, açaí porque açaí boa noite açaí, completamente, para todos nós açaí você muito mais açaí, geralmente, e em um novo planeta açaí, exemplarmente, como Foz do Iguaçu açaí ‘onde nascem as nuvens’, espetacularmente, açaí. O dia ou noite açaí então açaí. E até açaí D açaí lhe espero açaí.”
            Com tranquilidade a menina tranquilamente telefonou às amigas e as tranquilizou. Pediu que a viessem buscar. Mas elas acharam melhor todas se encontrar na casa da Rê, que ficava a meio caminho de todas elas, uma mão na roda.
            Trânsito hilário berrando coisas desconexas espalhafatosas nas ruas na avenida Senador Cândido Mendes de Almeida quase em frente de casa. Um quadro de tráfego desordem desorganizado tipo palavras difíceis de dizer rapidamente assim, astênico ou pirangueiro ou distônico ou buraçanga ou catambá ou ecótono, e a gente no meio dele procurando andando pelaí cruzando na faixa de validade pedestre. Caminhando trotando pela calçada da rua Ildefonso Pereira ciclo via e bem servida de lojas vitrines lojinhas salas galerias sucursais consulados empórios magazines e bodegas.
            A cidade, senhores e senhoras!, atualmente conta com 32 bairros oficiais e 2 conjuntos residenciais fechados. O bairro mais populoso é o Gelo Baiano; e o menos povoado seria o Embuá. Os bairros mais populosos estão na zona sul. A cidade possui quatro bairros banhados pelo rio Piabanha (muito povoado de sapos rãs ranilhas pererecas piraras jaús jatuaranas piraíbas...). A boa e melhor vocação da cidade é o comércio além também do extrativismo agricultura indústria e lazer.
            Dezessete horas Lilás apontou, toda bonita, certinha, perfeita, confortável, na casa da Rê da rua registrada com registro nome de rua da Bilha-Bagana. Ali também estavam a Esmeralda e a Pérola, preciosas sempre necessárias amigas. Foi aplaudida de pé. Se caso aplaudissem de pé foi porque todas quatro estavam muito bem, obrigada!, etc., e assim por diante. Se deram as mãos e riram muito os autóctones, kkkks!...
            Entre a casa de Rê e o clube Porto da Estrela, que custava umas três ou quatro quadras rumo norte, Lilás descobriu que esquecera os lenços de papel para apagar o suor do rosto. E um lenço de pescoço com estampa carnavalesco, esvoaçante nas pontas.
            - Isso só acontece comigo! Ou com mais alguém, duvido!
            - Fique fria, querida. Eu lhe empresto dos meus - ofereceu Esmeralda.
            - Ah, muito obrigada e lhe devo essa. Que calor, meu!
            - No dia de são nunca você me paga. Eu lhe digo.
            Chegando ao clube esqueceram do resto e já procuraram o banheiro e se preocuparam com ajeitar a blusa, a bermuda, o cabelo, o batom, o sorriso, o jeito de ser ensaiado e simples e empoderado, etc., tudo completo nos conformes.
            - Tô legal, gente? Eu acredito em ocês! Olhe lá, em!
            - Meu cabelo, como tá? Tá alinhado? Como foi? Se nem existisse vento nesta parte do mundo seria melhor.
            - Quer me emprestar sua escova? E os grampos sobrados? E o arquinho?
            O clube Porto da Estrela fervia na entrada na saída dentro do escurinho da boate mais ou menos nas cores amarelo vermelho. Quase todos os presentes eram da mesma faixa etária das meninas, da mesma turma, do mesmo colégio, do mesmo bloco de carnaval “As Mocreia!”, da mesma galera, mesma cia.
            - Vamos dar uma volta no salão e ver o climão!...
            Aquelas gritarias, músicas ruidosas altas, luzes psicodélicas e de brilhos intensos constantes, cheio de luzes correndo e piscando, coloridas, som a mil e tum! tum! tum!... muita gente conhecida e para dizer a verdade. E a galera rebentando, toda dançante, elétrica, saltitante como pipoca e pipoca estalante gritante. Meninos olhando meninas igual de sempre e para nem perder o costume. Essas gurias já se colocando automaticamente no centro dos acontecimentos e dançando no estilo reconhecendo o terreno, fingindo conhecer uns poucos, fingindo nem conhecer a maioria, fingindo conhecer este e nem reconhecer aquele, sorriso sempre a marca registrada pessoal.
            - Vou tomar um guaraná - decidiu Lilás. Bem gelado e abaixo de zero.
            - A gente veio aqui para dançar ou conversar? O que que se quer?
            - Eu estou muito elétrica com tudo isso. Eu preciso fazer um lanche bem bom.
            - O mundo é assim, gente! Então, calma, hein?!
            O balanço do som era pesado, louco, catastrófico, paquidérmico, mas todos se achavam e se entendiam e se aceitavam. Quem foi até o barzinho buscar um refri zero cal? As outras três aguardaram, espiando ao redor, tudo e mais um pouco.
            - Tão vendo alguém interessante e importante conhecido de outros carnavais shoppings festas juninas padroeiras pontos turísticos? - perguntou Rê.
            - Assim, assim... - resmungou a Pérola. É uma fauna legal e fascinante.
            - São sempre os mesmos da nossa turma e alguns penetras - disse Esmeralda.
            - Alguns da aula de natação, do futsal...
            Lilás presente e ofereceu o refrigerante na latinha e no canudinho inteligente.
            - Aceitem. É um refri produzido ecologicamente e garantido pelos indígenas da chapada dos Pacaás Novos e roraimenses e amapaenses.
            - Nem, obrigada. Nem sou de filá dos outros. E eu tenho minhas escolhas.
            - Hum... somente um golinho para testemunhar. Leve e suave.
            - Obrigada, nem quero borrar meu batom invisível. A tarde-noite promete.
            Esperaram terminar o suco de guaraná e então sim invadir de vez a pista de dança. Era a vez e a hora momento adequado de uma música dançante, irresistível, sucesso: “o que eu bebo?, ora... é água, água mineral, ora... é água, água mineral, ora!...” Sempre é assim. Primeiro as músicas de agito, axé, frevo, mais tarde as baladas, novelas, e por último as românticas de casais juntinhos, pra dançar de rosto colado, namorar, beijar quando e se possível.
            Todas olharam ao mesmo tempo e naquela direção, todas se certificaram ao mesmo tempo, todas olharam e riram ao mesmo tempo os, ah ah ahs!... kkkks!... todas ao mesmo tempo. Alguém, e se sabe lá quem?, falou primeiro e principiando:
            - É mesmo!
            - Nem vamos ficar babando, gente. Calculem o fiasco.
            - Imagine!
            - O que é, é! O que será, será!
            Era um Nando que as vigiava e de longe longe, junto mais dois amigos. Eles também nem sabiam o que fazer, praticamente, ou deixar de fazer, praticamente, e nem fazer, praticamente... vai saber. Ainda no meio do conjunto entre as meninas:
            - A gente poderia ir até lá, né?! É uma!
            - É melhor ficar na nossa por aqui que tudo irá bem e terminará na hora certa.
            - Nem custará nada, gente!
            - Deixe o mundo dar mais uma volta, somente mais uma voltinha, hum!... E vamos contar até 10, nove, oito, sete...
            Primeiro foram ao banheiro, as quatro em pessoa, uma atrás da outra em fila indiana da maior para a menor em altura... Retocaram batom, ajeitaram o cabelo sempre alterado, todas as outras olhadas e conferidas, etc., a vestimenta, o ombro, o cabelo na cabeça, a franja quem tinha franjinha, a profundidade do olhar... Depois voltaram para a pista de dança e mais empolgadas que nunca que sempre. Talvez como quem nem quer nada. Já cumprimentavam o Nando de longe, distribuindo sorrisos, acenos, alegrias, bom humor, gestos ensaiados, bem-humoradas, falantes... Dançaram como os índios as índias cunhantãs da tribo aquáua ou tirió. E trocando gritos no meio do ruído musical gingando com as cadeiras os ombros as pernas:
            - O que vamos fazer?!
            - Quanto mais mar mais céu, tá certo?!
            - Umas tais e quais sipiris que são árvores de altura verdadeira!
            - Como se vê, né, galerinha: tudo começa uma vez no início com o princípio!
            - Quantos moram e quantas vivem em cidadãos e cidadãs de Uruaçu?
            - O Marco Zero cartão-postal de Macapá latitude zero grau linha do Equador relógio do sol equinócios 2 dias e 2 noites os iguais...
            - Que horas são, gentem?!
            - Então, o baile é pequeno porém muito bem organizado.
            Os três curumins também desceram à pista para sacudir o esqueleto, le-que! le-que!... E vieram pra cima das quatro, meio tímidos, é verdade é verdadeiro. Sobrava, teoricamente na realidade, uma das meninas. Mas a música era agitada, os pares dançavam soltos esticados aloprados praticamente malucos, o que então nem ocasionou nenhum constrangimento. Abriram um círculo e inventaram coreografias meio desencontradas aeróbicos olímpicos. Nando nem se decidia abertamente por nenhuma delas, é verdade é vero. Seria timidez, dúvida, ou o quê? Tudo bem, a tarde era aquilo ali. O melhor que isso aí somente o futuro saberia dizer. Quem sabe lá! Quem sabe onde! Por que tudo isso! Aonde vamos meu D!
            - Eu vou na praia do Perequê, Porto Belo, é! Devo sair hoje mesmo!
            - Qual sua cor favorita! Seria o bronze com cenoura?
            - Qual minha cor favorita? Pode ser time ou clube também?!
            - Gosto muito de jogar futebol e vôlei e peteca, e tu?!
            - Como é de se esperar, devido ao meu pai, vou estudar engenharia civil lá em Vitória do Jari! Segundo o IBGE, a população da cidade é de 88 mil habitantes e a 30ª do Estado de Roraima...
            - Muito giro, muito!
            - O que fazer para onde vou em o meu aniversário?, você me pergunta!
            - Palhoça palhal palhar!...
            - Isso é um código secreto segredo? Um aquaviário e uma aquavia? Escaleres tipo a remo e a motor e a vela!
            O grupo dançou forte por meia hora e riu espalhafatoso por meia hora e cantou forte por vinte minutos e pulou forte por meia hora como se pula na tribo dos trumai dos guaná dos terena... pulando sem parar, dança da chuva em volta da fogueira, dança dos espíritos da floresta, fantasma do além do aquém. Então, subitamente, o som deu lugar às músicas antigas de carnaval e foi aquele reboliço porque todo mundo começou a pular ainda mais e igual a umas pipocas quentes. E inventaram trenzinho, mãos nos ombros do amigo ou da amiga e todo mundo na carona um do outro uma corda cordão, “Alá lá ô ô ô, mais que calôooo... estava atravessando o deserto do Saaaara... quando o sol queimou a minha caaaara... Alá lá ô ô ô ô...” Quem é que podia resistir a uma folia dessas tão bagunçada importante alegre urgente? Depois se cantou aquela marchinha, que foi assim, “vocês estão me vendo aí?... eu nem aí!... vocês estão me rindo ali?... eu nem aí!... vocês estão me acenando pra cá?... eu nem aí!... vocês estão me abanando de cá?... eu nem aí!... vocês estão me esperando aqui?... eu nem aí!...”
            Nem demorou muito mais. Nem demorou mais muito. Só mais uns minutos, vinte minutos, meia hora, uma hora no máximo e tudo acabou, a música silenciou como quando termina e apagam as luzes para sempre, “está, chegando, a hora... meu bem... e eu tenho, de ir, embora... ia-ia!...”
            As meninas do quadrado com os três meninos pareceram, no início, ou no finalmente, nem entender saber bulhufas bulutas. Eles olharam e elas disfarçaram e eles disfarçaram e elas riram os, ah ah ahs!... Ninguém tomou qualquer iniciativa mais notável mais amigável mais acertada. Muita indefinição, falta de confiança das duas três quatro partes, da parte deles e da parte delas... reticências, e assim mesmo por diante. Ou orgulho, ou vaidade, temor de andar na chuva sem guarda-chuva e se molhar...
            - Então tá, né!... Você já viu falar da praia Meia-Praia?
            - Sim, por que nem! Eu posso abrir a porta e fechar a janela! Nem tem galho!
            - Você pode, por favor!, fechar a porta e abrir as janelas!
            - Devemos arejar a sala de estar com a cozinha assim como os outros cômodos da casa da moradia, é!
            - Muito giro, muito!
            - Você pode abrir a porta agora e fechar as janelas mais tarde, por favor?!
            - A península de Bombinhas com praia do Mariscal morros pontas reentrâncias costões rochosos escarpas abruptas e locais de enseadas...
            - Tem ciclovia durante toda a orla, é.
            E então... sabe como é, bobeou o gato pega. Aconteceu isso. Enquanto o nosso quarteto nem se mexia, uma outra menina, disfarçada de figurante de filme tropical dançante, foi é e... roubou o Nando. Pronto. Nem tinha já mais graça. Acabou antes de começar. E foram para a praia de Quatro Ilhas e bem na moda.
            - Ah, vamos embora!
            - É, bobeamos e tal!
            - Ih, praticamente na prática cansei e nem entendi nada!
            - Deixamos pra lá! Vamos até o pátio pegar um ar renovado!
            Foram mesmo até o pátio do clube, as quatro uma atrás da outra, as quatro juntas, as quatro lado a lado tomando muito espaço no ambiente cheio e ruidoso. Elas estavam bem, o clube trepidava de carnaval, muito giro, o som dilatava as paredes, o som quebrava as vidraças das casas na vizinhança, era bom e era muito bom perfeitamente ótimo mais-que-perfeito.
            - Todas foram até o rio Mutuacá e ninguém pegou o barco!
            - Todas foram até o rio Vila Nova e poucas entraram na barcaça!
            - Todas foram até o rio Flexal e todas subiram no navio!
            - Todas foram até o rio Pedreira e uma após uma adentraram o catamarã!
            Pouco depois, porém, as quatro já estavam de volta à pista ao palco à arena na quadra de jogo e ga-mi-ficar. Saía um pagode de sucesso, contagiante, pipocante, intenso, original tão ou mais intenso. Fizeram a tal rodinha e dançaram dando as tais e quais sambadinhas. Alguém perguntou por perguntar, por falar, por tocar no assunto e por nada por tudo:
            - Será que sai uma música lenta?! E rosto com rosto?
            - É uma, né?! Muito giro, muito!
            - Ainda ainda nem pensei no caso... se acontecer e chegar, claro!
            - Eu também nem sei se dançaria coladinha, tá ligada?! É de outros tempos, em!
            Pararam os pagodes batucadas a percussão, os pagodes mudaram para as românticas melosas, as luzes ficaram mais lentas, os pisca-piscas ficaram mais lentos, as luzes alucinantes pararam de rodar tão rápidas e enlouquecidas e alucinógenas, o ambiente mais estudado e as músicas juntinhas cheias de intimismo lirismo conversinhas no ouvido.
            - Me olhe! Breves fica perto de Anapu e Melgaço e Itaubal, é?
            - Onde nasceu o Brasil, exatamente? Uma comunidade remanescente quilombola em Ferreira Gomes? Pode ser!
            - Nós todas fomos juntas e foi ma-ra-vi-lhoso, então. Me deu fome de caruru com tacacá e maniçoba acarajé açaí com tapioca...
            - Eu mesma quero aprender mais ou menos uns 6 ou 7 idiomas. Muito giro.
            As quatro do quadro da posteridade dançaram com uns carinhas anônimos, com outros carinhas ao acaso, com coleguinhas do sexto ano e tal, com uns conhecidos lá da serra da Lombarda. Mas sem aquela aflição empoderada e tão intensa. Tudo tranquilo e  calmo. Todas tranquilas. E o B é nosso bonito e continental.
            - Pra falar sério e a verdade verdadeira eu mesma nunca fui ainda em e gostaria São João do Polêsine. O que é uma estação ecológica de Maracá-Jipioca, hein?, meu!
            - Você quer um refri ou um suco sumo de pupunha, por favor!
            - O meu tio junto com minha tia foram lá estudar os peixes apaiaris branquinhas tucunarés... do rio Parauaú. Disseram dizem que por lá chove, troz-troz!... muito rápido e todos os dias à tarde.
            - Eu mesma nem consigo aprender a tocar qualquer instrumento que seja, é. Queria muito ser cunhantã uriú, né?!
            A noite ainda nem estava toda tombada para os lados noturnos. Estava entardecendo quietamente mas ainda nem escurecia. As meninas decidiram chegar até a sorveteria Aruaná mais ao fim do quarteirão na praça Abdallah Houat. Sentaram ali e ficaram quase quietas. Estavam cansadas do agito e saboreando o gosto de abacaxi e chocolate e caju e açaí.
            - Eu mesmo amo açaí... E que coisa mais linda adorável o açaí...
            - Sem açaí eu nem existiria... Antes e depois da era do açaí...
            - O açaí é uma riqueza social... Sempre haverá açaí misturado ou puro...
            - Açaí já com a manhã... açaí pela tarde... açaí de noite... açaí no espaço cosmo...
            Mais um pouco e já estavam andando para casa. O dia tinha sido e pronto. Era voltar para casa e esperar a manhã amanhã o outro dia. O dia tinha estado e ponto. As gurias ainda trocando aquelas palavras e aquelas frases já sabidas de açaí. Nem riam pouco. Já sorriam pouco. Ainda vinham abraçadas e cansadas e desanimadas. O sol em seu movimento aparente. Cenografia cenário paisagem vista ambiente panorama, botão-de-casaca e ibijaú-guaçu e angelim-do-campo e mulatinho e amapá-doce... Perto de casa Lilás se separou das amigas muito lenta-mente:
            - Amanhã a gente se fala, telefono, inté!
            - Valeu! Amanhã, então.
            - Estarei sempre pensando em nós e no que fazer, tá certo?
            - O que é palíndromo? Faz uma hora que escutei essa palavra, uma vez.
            Já passava das dezenove quando Lilás botou o pé em casa. O pessoal estava assistindo tevê, preparando uma janta, telefonando, fazendo coisas pela casa, etc. Se apresentou e em seguida foi pro quarto, o banheiro, o telefone, até aí pelas vinte horas, vinte e pouco.
            No quarto, depois de jantar, depois de contar aos de casa o ocorrido no passeio, depois de um pouco de tevê com a coletividade familiar, depois e após, Lilás foi pro quarto e deitou e passou a tarde da boate a limpo pensando pensando. A mente viajou entre mil e tantas caras, figuras, agitos, embalos, risos, sensações. Nem sentia muita saudade de nada, nem. Nem sentia muito mais, nada. Dormiu logo e profundamente com o espírito na alma.
            É claro. Pela primeira vez na semana ou na quinzena o sol apareceu reapareceu aparentemente para ficar. Algumas coisas o trânsito feliz as lojas abertas a rua Ipaussu os prédios novos crescendo contentes e coisas que antes precisavam de um alerta. Mas o importante para Lilás era sair de bíci e pedalar pela orla avenida Beira-Mar Norte. Até o CIC e o viaduto que vai para as praias do norte praia da Daniela do Santinho do Forte da Ponta das Canas da reserva do Lago Piratuba... ou se possível, dando aquela esticada, chegar mais para lá junto da UFSC e o bairro da Trindade e as vilas menos típicas onde ainda hoje predominam uma o candomblé outra a umbanda mais aquela o tambor de mina e que são sujeitos muito antigos. Claro, tudo reconhecido automaticamente. Óbvio que os solstícios os equinócios são marcações da astronomia e constantes.
            Bem cedo, na manhã seguinte madrugada, então, o domingo de sol forte, pegou a bíci e saiu pedalando pelo bairro, pela rua Placidina de Araújo monumentos megálito pináculo. Era uma manhã cheia de luz, e cheiros, passarinhos cruzando os ares, joões-de-barro, canarinhos-da-terra, corruíras, tico-ticos, sabiás-laranja, tesoureiras, almas-de-tapuio... poucos carros, raros os caros, carro vermelho, amarelo, branco, preto, lilás... árvores em fila comportada ao longo da calçada em matinhos em grupos de três quatro cinco, quarubas-de-flor-roxa, agoniadas, borragens, flechilhas, cipós-chumbos, bacabas... e se encontrou com os Amigos Protetores do Maracujá e foi dar uma volta até a associação passou a manhã com eles plantaram alguns maracujás, regaram, adubaram, podaram, ajoelharam diante dos pés recém-nascidos e deram graças aos céus pela existência do maracujá tanto os parentes como descendentes afilhados aparentados compadres comadres... que por acaso poderiam estar em perigo de extinção.
            Pela tarde, o quarteto inseparável combinado combinou ir ao shopping Rio Pequeri. Se encontraram no portão da casa da Rê, como sempre, e foram. Rindo e falando todas de uma vez ao mesmo tempo, falando tudo e falando alto e rindo muito gestos pra frente revolucionários desenhados em coreografias artificiais no ar no físico translúcido do ar:
            - Vamos ver qual e tal filme, gente? Já vamos pensando, né, gentes?!
            - Mas você já sabe o que está em cartaz, gentem?!
            - Aquele da montanha russa que despenca com todo mundo ou deve ser esse ou aquele dos bonecos amestrados, só pode. Eu prefiro chegar sentar e ver aceitar na hora.
            - O da montanha 31 de Março é muito enigmático fiquei sabendo e até meio horrível assustador, né, gente?! Minha opinião! Nem nada adequado.
            - Ficamos na dúvida, hein?!, gente. Uma pausa para o sorvete de... açaí.
            Antes de tudo, circularam pelos corredores e departamentos e lojas e vitrines e lanchonetes também e ainda bem comeram pipoca, gomas, balas, pipoca com sabor chocolate, batata frita, chocolate ao amendoim, etc., uma barra imensa de chocolate ao leite... E todas eram amigas e falantes e intensas e conversavam ali e pronto:
            - Amanhã é outro dia de colégio, alguém duvida? Nem vejo a hora da chegada das férias e viajar conhecer a Casa do Pinhal em São Carlos, como ex.
            - Ah, vocês já fizeram o trabalho de História Colonial? Falando nisso, eu queria muito pessoalmente contar algo com Santa Rita do Jacutinga. Isso me encanta.
            - Eu já ouvi falar na reserva biológica do Jaru e do rio Cajari. Nem sei o que nos esperaria. Um dia vou andar por dentro da floresta Amazônica e conhecer os mais distintos insetos bichos e plantas, acariquaras, louva-a-deus, guarabás, vaquinhas, formigas-correição... Sabe como é e o que é sonho desde sempre? Então está aí.
            - A cidade de São Miguel do Guaporé fica sempre em GO talvez Estado do ES perto de SP na divisa com RJ. Os nômades índios galibi do oiapoque fazem esta migração e constantemente durante em o verão e pescam os peixes mais saudáveis do rio das Velhas.
            Voltavam pra casa, caminhando, parando e rindo e conversando. De repente pensaram em pegar o ônibus. Do ponto do largo Veiga Cabral. As quatro lado a lado e eram inseparáveis consertáveis indispensáveis concursáveis.
            Em casa, à noite, no quarto próprio e particular exclusivo, rolando na cama com o caderno-diário, Lilás escreveu isto abaixo, com os cumprimentos necessários:
            - O seu domingos de hoje: que teve sim altos e baixos e muito sorvete de açaí e outros frutos e coloridos. Assistimos pela enésima vez aquele filme que conta o desastre de uma montanha russa lá em Ceará e a terra dos famosos escritores irmãos Villas-Boas, Cláudio, Leonardo, Orlando. Tudo por causa de uma quadrilha tal e tal vinda de nem sei onde me esqueci o nome, me desculpem. Espero conseguir um pôster daquela jogadora de vôlei da seleção uma tal e qual empoderada para pendurar atrás da porta do quarto, ou na parede sobre a cama, em algum lugar de destaque e de fácil re-visão. Outra coisa e importante. A Associação Amigos do Maracujá me convidou para participar de um encontro das várias associações da redondeza dos arredores adjacências países vizinhos cidades limítrofes, Bernardino de Campos, Gaspar, Espigão do Oeste, Senador José Porfírio, Canitar, Pracuúba... e que vai ser na cidade escolhida a dedo de André da Rocha. Eles estão querendo atrair mais e mais sócios companheiros companheiras camaradas patrocinadores apoiadores. Nem sei se os de casa me deixarão ir, eu quero ir, mas nem vão me deixar que eu tenho certeza quase certeza absoluta espero que sim. Paciência. F-o-i: digo, fui.
            E é por contar contado tudo que foi e é e será acontece porque assim tem há precisão matemática.