Lilás foi passar as férias de aula
final de ano no sítio granja Buçal da Maniçoba propriedade particular própria registrada
dos tios maternos. Interior do Estado de São Paulo, interior de Araçatuba,
interior do distrito de Cincerro, linha sexta ou também conhecida como linha
Coelho Neto - aliás, Estado da federação com as mais famosas linhas férreas
ferrovias malha ferroviária do B do país. Por lá ainda brincavam lazer as
amigas inseparáveis Rê, Esmeralda, Pérola, o primo Cajuí e o cãozinho Totó
(este de tamanho médio e enfezado linguagem sotaque dialeto patoá
compreensíveis).
- Lilás: Eu conheci uma pessoa feliz
que sabia 4 idiomas e entendia tudo, é.
- Rê: Que blusa bonita e
chamativa... É cara?
- Cajuí: Sim. Mas ganhei de
aniversário.
- Esmeralda: Você gosta de Maceió?
- Pérola: Nem sei, nunca estive lá.
Porém pretendo um dia.
- Totó: Auauau!... Qual o rio dessa
cidade, Alexandria?
E riam a bandeiras despregadas,
“kkkkk!... Um povo vilão sertanejo que gostava de música caipira de raiz e que
sabia curtia fazer artesanato nos alimentos bordados cerâmicas cestarias couros
madeiras pedras rendas tecelagens trançados conchas plásticos metais... E riam
a bandeiras soltas desprendidas, ah ah ah!...
Porque ao amanhecer no dia a dia tudo
estava em ordem e iniciando, em ordem e progressivo progredindo, os cascudos e
jundiás e traíras no açudinho, coqueiros-pindobas e canelas-de-velho e
folhas-largas no capãozinho, capivaras e cutias e cutiaras e acapitãs e
maitacas e saracuras-sanãs e patos-crioulos... ao longo da mata ciliar.
Cajuí: Ocês sabem que lá no morro do
Campanário tem um home querendo laçar D?
Esmeralda: Seu mentiroso. Onde já se
viu possível. Nem existe essa de laçar D. É impossível e antenatural e ancestral.
É até artesanal patriarcal maternal.
Cajuí: Uai, sô! Mais é pura verdade,
gente. Vamos lá vê?
Lilás: Pois então, vamos.
Esmeralda: Nem vamos até lá por nada,
né?! É muito longe, ora!
Rê: Por que nem brincamos de gueime?
De correr de roda de outras coisas normais de qualquer coisa mais saudável,
hein?
Pérola: Será que é o mesmo D que
criou e fez acontecer os idiomas os climas as temperaturas as altitudes as
ondas do mar o rio Piranhas-Açu?...
Agarraram pegaram por enquanto a
trilha o trilho que já os levava ao morro colina. Parecia uma subida fácil, porém
o sol estava forte o calor era muito o morro era em rampa aclive. Nem
passarinho piava para nem se cansar. Era hora muito quente do dia, sem vento,
terça-feira, onze e vinte, conforme passo a passo. Árvores altas médias
arbustos plantas orquídeas bonitas que se destacavam na paisagem, mutambas,
carurus-bravos, sabugueiros, carvalhos-nacionais, gravatás,
coqueiros-guarirobas...
Pérola: Tá calor demais. Acho que nem
vou aguentar e resistir, senhoras e senhores!
Esmeralda: É só uma subida assim
mesmo... um pouco mais aborrecida que a maioria das subidas, ufa!... Um dia
chegaremos lá.
Pérola: Nenhuma nuvem nesse nosso
céu de anil.
Rê: Esquecemos de trazer lanche e
merenda e mantimentos. Vamos passar fome e sede. Já pensaram numa boa batida de
várias frutas tropicais misturadas entre elas?
Totó: Auauau!... Eu também tou com fome e sede e
vontade de dormir na sombra.
Cão guaipeca Totó era um legítimo
sombra e água fresca. Era novinho ainda. Um cãozinho pouco experiente e novato.
Nem sabia nada das coisas ou do mundo ou da sorte ou mais além do seu faro. Era
um pedinte contumaz. Vivia pechinchando alimentos. Aprendeu a falar a língua
das pessoas porque sabia escutar com suas orelhas grandes. E balançava mais a
cauda que a cabeça. E nem gostava de sol forte nem gostava de frio nem gostava
de chuva nem gostava de noite de lua luar. Praticamente gostava de se sentir em
companhia dos humanos da fazenda onde aconteceu nascer um dia e estar por
acaso.
Lilás: E o tal home, será que vai
apreciar nossa visita incidental?
Cajuí: Olha! Nem sei, nem.
Totó: Auauau!... Intão vai sê perigoso.
Rê: Eu por mim voltaria. Sabe, o
pomar tá carregadinho de coisas ótimas pra comer. Tipo cajus amarelinhos e ou
vermelhinhos, tipo pequis amarelinhos, tipo pitangas vermelhinhas ou
amarelinhas, tipo araçás-de-coroa vermelhinhos, tipo guabirobas amarelinhas,
tipo araticuns-do-mangue amarelinhos...
Esmeralda: Nem me faz água na boca,
por favor!
Lilás: E o que a gente vai fazer se
o home nem quiser nada conosco, galera?
Cajuí: Nóis ficamos espiando do meio
do mato apenas pra vê qual é a dele.
Pérola: Vamos fazer uma, ufa!... paradinha.
Rê: E aproveitar pra ver se têm
frutos silvestres por acá. Logo quem uns tarumãs, umas sete-capotes, umas
amoras-do-mato, uns guabijus, uns taperebás...
Cajuí: Tamo chegando, gente! Vamos
aguentar o repuxo.
Todo mundo pensou numa sombra preguiçosa
com cadeira de balanço e de braços, e tudo. Todo mundo então pensou no seu suco
de maracujá cheiroso geladinho, no seu suco de açaí madurinho geladinho, no seu
suco de abio saborosíssimo. Se deliciando ao gosto e sabor da melancia
estalando de madura ao mesmo tempo que manobrando na boca seus carocinhos
sementes impertinentes assim até para cuspi-los na distância e só por esporte.
Esmeralda: Tomara que chova, mas nem
muito.
Pérola: Chuva? Água? Muita água
também nem, né!
Rê: Preciso comer muito bem nestas
férias. Estou magérrima. Nem devo sair pelo mundo assim toda magrinha magrinha
igual um palito de picolé. Vou conhecer ainda Pacatuba e Pomerode e Maracanaú
e...
Pérola: Ufa!, como cansa subir este...
morro, esta ladeira. Tudo muito íngreme.
Lilás: Vamos pensar noutra coisa.
Que g se a gente cantar pra chamar chuva?
Pérola: Chuva? Água? Chamar chuva
como silvícola chama chuva batendo tambor, é? Estou desanimando.
Totó: Auauau!... Minha língua caiu
da boca e nem qué mais voltar.
Rê: A minha vai de arrasto e já há
um tempão.
Esmeralda: Alto!... Esperem!... Acho
que vi uma cobra deslizando aí... - e apontou para algum lugar no meio da
touceira ou ervas daninhas ou macegas ou barbas-de-bode...
Totó: Auauau!... Onde? Donde? É das
brabas? Posso atacar? Vô farejar? Onde ela se escondeu? Já fugiu? Já se foi?
Esmeralda: Nem sei, meu! Nem sei
mais. Vamos! Foi engano, acho.
Rê: Sua exibida! Quer aparecer, é?
Assustando a gente.
Lilás: Tô acabando. E meus pés estão
fritando, largando fumaça e chulé.
Pérola: Se eu tivesse ficado com
minha sombra lá em casa e descansadinha...
Cajuí: Só mais um pouquinho. É pra
já. É ainda hoje.
Esmeralda: Ninguém nasceu
caminhando. E este seu pra já vai longe longe até amanhã. O mundo virou uma
subida e tanto...
Rê: Nem aguento... dar mais um passo
sem comer uma boa... sobremesa, hummmm!... de chocolate de abóbora de abacaxi
de coco e mel natural, oi!... ora!...
Pérola: Nem provoca a gula gulosina
gulodice. Meu estômago já tá reclamando.
O céu estava muito azul, bem azul,
azul como era para ser, somente uns fiapinhos de nuvens. Nenhum bichinho do
mato à vista. Nenhuma asa no céu todo bem azul. Todos escondidos na sombra. O
sol reinava sozinho e firme e forte. O vento era um bafo de forno aceso. Região
do Polígono das Secas e o clima semiárido quente. A escalada da turma comitiva subia
o morro se agarrando quase de joelhos.
Cajuí: Falta nadinha de nada. Ói!...
Já estamos na área de atuação do home.
Esmeralda: Eu mereço esta subida,
gente?! Eu nem mereço esta canseira, gente!
Rê: Vocês estão sentindo o cheirinho
de... amendoim torrado na hora? Cartuchos de amendoim torrado acompanhado mais
a garapa bem gelada? Servida na bandeja...
Lilás: Nem apenas imagino como já
estou vendo e prevendo e degustando. Também conhecida como caldo de cana...
Rê: Oi!... Uma salada... de
frutas... bem fresquinha tenra. Incrementada com rodelas de banana, picados de morango,
fatias de mamão, gomos de laranja, pedaços de caju...
Esmeralda: Coitada da menina! Ela tá
delirando.
Pérola: E eu... também... E eu
também quero.
Cajuí: E esse sujeito laçador... que
nem aparece.
Lilás: Será que ele... existe mesmo, ou é coisa... da sua invenção, primo?!
Totó: Auauau!... Deve de sê invenção
bem inventada.
Rê: Em vez... de comer comida... tô
comendo poeira, pife! pife!...
Pérola: Acho que... esse home...
devia laçar D mais... perto de nossas casas.
Esmeralda: O melhor... seria mesmo pela
televisão... ou internet... ou uma live...
Cajuí: Pois ora, gente, chegamos! E
mais perto do céu!
Então pararam um minuto para respirar
melhor. E olharam em volta, o panorama, o horizonte, a paisagem, o que seja o
que for o que fosse. A paisagem era tão nova tão calma e a sorte das coisas tão
justa que parecia ser ali o centro do mundo do universo serra da Aratanha - pelo
menos naquele exato instante.
Lilás: Ufa!... Meus pés dizem amém e
minhas pernas também.
Totó: Auauau!... Tô com uns três quilos
de menos, a goela seca, os olhos ardendo, as quatro patas queimando e largando
borracha, as orelhas abanando como ventoinhas...
Rê: E o meu estômago vazio e
abandonado? Ninguém pensa nele, em?!
Já no alto do morro, e mais animada,
a turma procurou pelo home que desejava queria sonhava planejava imaginava
laçar D. E o encontrou perto de uma árvore jequitibá, deitado e dormindo na
sombra. A patota foi acordá-lo, reanimá-lo, instigá-lo:
Lilás: Ei, home! Acorde, acorde!...
Responde!... Reage!...
Home: Quê? Que foi? É D? É NS? É o
T-P?
Lilás: Nada! Nem é D. É a tchurma.
Esmeralda: Você ainda nem laçou D?
Tá esperando o quê? Hoje é domingo, é feriado, é Sete de Setembro? D nem está
trabalhando?
Home: Nem estou esperando nada de
especial. O caso é que nem estou com a sorte do meu lado. O tempo nem quer me
ajudar. Olhem só para este céu imaculado e limpinho!... Nem há uma nuvem e
fiapo de nuvem, sequer nuvenzinha esgarçada...
Rê: Você tem um sanduba? Tô nas
últimas. Nem aguento de tanta saudade de comida. Um sanduba com água de coco.
Home: Nem e infelizmente comi o
último lanchinho há duas horas. Mas eu ia dizendo que... O tempo nem está bom,
sabem?! Sem nuvens nem tenho como chegar perto de D, entendem?! Ou Ele se aproximar
de mim, também.
Pérola: E o que a nuvem tem a ver
com você laçar D? Esta eu nem entendi e me explique melhor. Esta eu quero
saber. Esta é nova pra mim e eu quero entender.
Home: Com a nuvem D vem olhar a
Terra, senta ali, bonitão, distraído, e aí... Nesta pequena distração qualquer eu
atiro a corda... tá laçado e feito a fatura, entendeu agora?!
Lilás: Mas vai que Ele nem é bobo,
ou então se vinga em você.
Cajuí: Aí a porca torce o rabo! Aí o
dia vira noite de repente eclipse total do sol!
Totó: Auauau!... E um raio cairá na
sua cabeça com faíscas coriscos, trans-tchem!...
Home: Nem nada, gente! D gosta de
ser laçado. D é calmo. D é da paz. D inventou este mundo de cá para se
distrair. D gosta de inventar e inventou. D gosta muito de brincadeiras e
brinca. D é da luz. D agricultou os solos latossólicos e de mangue, por ex.
Rê: Quem falou isso tudo pra você?
Um anjo? Uma anja? Um monge, uma monja?
Esmeralda: Deve ter sonhado aí, já que
uma vez estava dormindo e roncando...
Lilás: Pois é. Acho que é impossível
laçar D daqui da terra. Quem sabe se o senhor subir num helicóptero ou na
própria estação espacial internacional...
Pérola: É, aí pode até dar certo ou se
tornar possível.
Cajuí: O senhor pode expricá como
faz pra laçar D e quais os apetrechos necessários? É uma mão de obra
especializada.
Home: Agora tô cansado. Foi o dia
todo nessa lida, me dói o braço, me cansaram as costas, o ombro me lateja.
Joguei quinhentas e mil vezes o laço no espaço. Passei perto de laçar D umas
quinhentas vezes e nem quero mais conversa. Nem fotos e nem bate-papo.
Totó: Auauau!... Mas é só uma vez, somente
até a gente vê para crê...
Esmeralda: É, uma amostrinha. Apenas
pra demonstrar. Seus 15 minutos de fama.
Home: Tá bom, mas só uma veizinha.
Se tivesse nuvem quem sabe eu laçaria, mas hoje... Somente pra demonstrar e a
pedido. Estou pensando trocar de sítio quem sabe tentar a Chapada da Serra
Verde ou serra do Coqueiro, enfim!...
Lilás: Claro, só uma atirada simples
assim. Faz de conta que as nuvens estão ali e que D se sentou numa delas. E D
de corpinho inteiro gigantesco e todo vestido de longas roupas brancas cabelos
ao vento espiritual espiritualizado...
O home, assim então, subiu no
guamirim para ficar mais perto ainda do céu e elevado bem alto tope. Atirou a
mão em pala para olhar mais longe que podia. Conformado, disse, explicou e
narrou desde arriba:
Home: Olha que estou vendo mais
adiante e ao redor os 360 graus. Aquele é o rio Natal, junto com seus
mananciais cascatinhas remansos sumidouros... Mais ali o bairro Cidade Alta com
a praça Vermelha ou André de Albuquerque... Todavia para leste nascente ainda a
imagem a aglomeração povoada povoado Rio dos Cedros...
Meio desequilibrado pelo vento impertinente ameaçador
constante, e se segurando como podia lá no topo cume, o home se preparou para
fingir laçar. Avisou que ia atirar rodou o laço no ar mirou uma nuvem
imaginária logo ali, e D que poderia estar assim bem sentado sentadinho, e vrrum!
vrrum!... rodopiou ainda vinte vezes o laço em volta da cabeça e o jogou para a
nuvem lá pra cima no ar no espaço em o nada...
Home: Viu?! É assim. Só que hoje o
tempo nem tá pra peixe, quer dizer, nem tá pra D. Vocês entenderam ou querem
que eu desenhe?! - declarou o home, já descido da aroeira.
Depois da demonstração, o home
desceu da árvore caroba-do-mato e veio descansar novamente, se deitando na
sombra na esteira de palha trançada. Nem tinha nenhum bicho de estimação para
lhe fazer companhia e amizade. Nem tinha nada para ler ou comer ou beber ou
admirar. Se tivesse um cachorrinho vira-latinha ou uma arara-de-barriga-amarela
ou uma juriti mesmo uns exemplares da flora selvagem podia passar o tempo teria
com que distrair sua aposentadoria.
Lilás: O que o senhor pretende fazer
com D caso consiga laçá-Lo? Vai vendê-Lo? Vai colocá-Lo num programa de tevê ou uma live? Vai exibi-Lo numa caixa de
vidro colorido? Vai leiloá-Lo?
Home: Acho que na live é bem pensado.
Já me fizeram boas propostas. E eu prefiro mesmo a live ou a tevê, atinge mais
público. Quero ficar famoso. Quero deixar um legado.
Pérola: E se D tiver humor contrário
nem quiser representar, hein? Como que fica?!
Home: Vou fazer um contrato com Ele.
Talvez de um ano ou dois. Ele receberá todos os direitos de imagem, etc. Se Ele
cumprir direitinho, sem reclamações, eu Lhe darei passe livre depois de dois ou
três anos.
Rê: Mas nem é desaforo, em?! Claro
está que é!
Home: Nem, que nada! D nem sofre
dessas coisas humanas e pequenas. D é calmo e bárbaro e onipresente. D é forte
como um dragão de ficção. D é o que Ele quiser e mais além. D é a história
contada de frente pra trás e de trás pra frente com prefácio e epílogo e
apêndice. D é a agricultura dos solos neossólicos e argilosos, por ex. D é o
raro e endêmico lagartinho-de-folhiço. D são as esplendidas orquídeas
laranjinha e baunilha e catleia...
Esmeralda: E tudo sucesso! E taí! Tomara
que o senhor nem consiga seu intento.
Lilás: É, tomara que Ele lhe lace
primeiro. É minha opinião.
Home: Que que deu agora? Estão
contra mim? Chegam aqui na hora da sesta e ainda me contrariam? Nem quero nem
saber. Cansei. Vão passeá! Vão veranear uma sugestão quem sabe em praia do
Porto, Baía Formosa, e até sempre!
Totó: Auauau!... Nem aguento estes
caras que cospem no prato que comem. Nem aguento brincadeira sem graça. Afinal
se a gente for contar D é tudo, D é caranguejo ostra siri molusco... D é rio
Guariju e aves aratingas e formigas tocandiras...
Cajuí: Que tal a gente se mandar pra
casa, galera! Vamo deixar o home dormir sossegado e na paz de D.
Esmeralda: Vamos. Deixemos aí este
vaidoso insistente. Deixemos aí este pecador convicto. Nem se interfere assim
sem mais nos planos do universo, uma vez.
Home: Acho bom mesmo. Vão embora e nem
atrapalhem minha paciência. Me deixem laçar D em paz. Tenho este direito. O parque
do pico Cabugi ou serrote da Itaretama nem foi feito criado num dia único em
24h, tá certo?! E cada um tem o direito e o dever de ter seu próprio D, tão
ligados?!
Rê: Onde se viu querer humilhar D,
principalmente. D tem mais o que fazer, meu!
Esmeralda: É, e nem vale a pena
mexer com quem tá quieto.
Pérola: Sem coração. Sem razão. Sem crença.
Sem vergonha. Sem escrúpulos.
E a turma contrariada frustrada com
a perspectiva da traquinagem do home para com D, resolveu descer o morro. Morro
abaixo todo santo ajuda. Borboletas com olhos nas asas tentavam voar, sacudidas
pelo vento. O sol ria amarelo cheio de raios perpendiculares pertencidos.
Qualquer um poderia achar que estava muito calor, e estava mesmo.
Marimbondos-chapéus eletrizavam o ar com seus voos elétricos. As árvores,
coitadinhas, plantas de todos os tamanhos, de todos os verdes, as mucujês e as
inajás e as andirobas, principalmente essas, derretiam debaixo do sol quente e
seco. Para todo lado apareciam uns matinhos acompanhando o caminho, sambaíbas,
pitombeiras, folhas-de-bolo, jatobás, copaíbas, leiteiras, favas-de-besouro,
curuanas... O solo predominante de areia marrom baixa fertilidade e excessiva
drenagem.
Caiu a tardezinha. Já bem de
tardinha, de repente. E a turma já sabia sem ter muita certeza, perto da noite,
o sol sumindo atrás do horizonte, a turma já sabia de ver os passarinhos que
voltavam para as árvores onde se hos-pe-da-vam. Tardezinha, começo de noite.
Entravam no escuro das folhas das mil árvores e ali dentro piavam, rezavam, contavam,
cantavam, chiavam, bibicavam, chilreavam, aguardando a noite bem escura para
dormir. É isso mesmo, o sol se escondia atrás de morros e montes e elevações e
promontórios com nomes distintos escolhidos conforme a localidade ou cidade ou
departamento ou comarca, rio Gurgueia, Demerval Lobão, Ilópolis, monólito da
Pedra do Cruzeiro, Baixo Guandu, Umarizal, ponte João I. França com estais
assimétricas em harpa, São João da Urtiga, santuário Frei Damião em Guaratiba...
À meia-noite o Cajuí ouviu barulho
no pátio da casa fazendola e levantou da cama para ver o que era qual que era. Despertou
aos poucos e bocejando, intrigado. Abriu a janela do quarto e teve um espanto. Totó,
seu amigo de confiança, latia e acoava e gania e atiçava. O primo já correu
acordar a turma, conjunto de pessoas amigas:
Cajuí: Acorde, gente! Acordem!
Lilás, sonolenta: Que foi, primo...
no meio da noite, meu!...
Esmeralda: Nem se pode, ooofe!...
dormir, gentem!
Cajuí: Uma mula sem cabeça!... Eu vi!
No pátio e se mexendo!
Totó: Auauau!... Eu também acho que
vi e ouvi!
Pérola: É mentira. É piada.
Cajuí: Mas eu vi com estes olhos e
binóculos que D me deu! Tá duvidando?! Vem lá fora vê! Vem dar uma olhada,
gente! Nem custa!
Foram até a janela, olharam o pátio
e nada. Somente as estrelas espalhadas no céu escuro. Uma lua minguante, caco
de prato prateado, o vácuo do infinito escuro, os astros muito longe no
infinito. E um silêncio que estralava de insetos os mais variados. Mas Cajuí nem
desistiu e voltou, e ficou conversando:
Cajuí: Olhem lá no milharal!... Tão
vendo?! A labareda dela... no milharal!...
Lilás: Oh, gente! É verdade. Tem uma
luz mesmo e se mexendo. Vamos atrás?
Totó: Auauau!... Eu vô primeiro e
corajosamente destemidamente!
Pérola: É imaginação, minha galera!
Os sonhos nem são verdades.
Rê: É uma festa? Pode ser fogueira fogaréu
de São João, gente!
Esmeralda: Nem. Talvez seja uma
estrela cadente... Vamos ver de perto e ao vivo.
Enfim se largaram pelo milharal
pimental pepinal trigal atrás da luz reluz fogacho ou da mula sem cabeça. Fosse
o que fosse, vai saber!, um animou o outro, um encorajou a outra e se mandaram
atrás daquele mistério obscuro ou brilhante. Mistério de arrepiar os cabelos.
Mistério de ver enigmas em tudo que era canto.
Rê: Vamos voltar e dormir, gente! É
perigoso. É esquisito. É assombroso.
Lilás: Que nada. Vai ser legal.
Pérola: É assombração? É coisa do
outro planeta? É minissérie?
Cajuí: Que bem pode pegar a gente e
todos nós.
Rê: Então nem vou. É suicídio, é
loucura, é... é o fim da picada.
Pérola: Também acho. E tá muito
escuro. Esqueci de botar passar perfume...
Totó: Auauau!... Tem restinho de lua
e ainda se pode vê. Sinto, isque! isque!... um cheiro de pessoa humana humano
humanoide cachimbando cachimbo fumo fumarento...
Muito importante que se diga logo o
seguinte: ninguém da turma entendia de assombrações, mulas sem cabeça, sacis,
juruparis, feiticeiros e outras coisas diferentes e ótimas que andam ou nem
andam ou fingem andar nas noites de mistérios e esconderijos e encantamentos.
Eles a turma iam investigar por puro prazer de mistérios e receio dos mistérios,
e mistérios de mistérios mais os enigmas charadas suspenses intrigas.
Pérola: Nem consigo ver com clareza.
De repente pode aparecer uns morcegões, uns vampirões, umas corujas-diabo, umas
narcejas-de-bico-torto, uns bacuraus...
Lilás: Olhem, lá adiante... O clarão
lumaréu da alma penada. Vamos sem barulho. Vamos sem muita pressa. Vamos pé
ante pé.
A noite nem parecia real oficial. Nem
se via nada em volta. Noite muito tenebrosa ou sinistra ou tétrica ou
confidencial. Iluminados médio e média pela lua e as estrelas pedaço de lua. A
turma, vacilante ou nem ou talvez, seguiu a luz a chama largada na noite pela
mula sem cabeça e tudo ali por dentro do milharal arrozal alfaçal sojicultural.
Era passo a passo, muito cuidado, muita tensão para nem errar, sem fazer
barulho, nem chamar a atenção. Olhando onde pisar encostar pegar passar...
Esmeralda: Dá pra ver o rastro
dela? Eu nem tô vendo por onde ela
passou.
Totó cheirava o local com cuidado
redobrado. Ia na frente. Ia e vinha. Parecia empolgado, impávido, interessado,
determinado, valentão, heroico, brabo, nervoso. E Totó disse, a certa altura da
investigação minuciosa:
Totó: Auauau!... É aqui! Vamo seguir
pra este lado, gente do céu!
Lilás: Olhe pra cá, turma! A coisa está
indo lá para os lados da ponta da roça!
Pérola: E se essa mula sem cabeça
ficar braba com a gente? Alguém já conhece como funcionam uns bichos desses
tais e quais os acéfalos e... sem memórias?
Cajuí: Ela pode se revoltar e atacar
todos nós de uma só vez, é.
Rê: É bobagem, é perda de tempo
seguir este plano. Vamos voltar e dormir e deixar para hoje de manhã. Hoje já é
outro dia, cambada!
Pérola: Se ela vier pra cima da
gente, como vai ser? Estamos todos desarmados. Somos todos de tenra idade, de
menores.
Esmeralda: Aí a gente corre até
perder as pernas. E cada um por si e D por todos.
Rê: Mas a mula sem cabeça corre mais
que a gente, tem quatro patas, sabe trotar no escuro, vai a galope, dispara com
velocidade... Vai até no hipódromo, se ela quiser.
Totó: Auauau!... Pode deixar, gente
boa! Eu mordo os cascos dela.
Cajuí: Mas ocês esqueceram que ela nem
tem olhos já também nem tem cabeça?!
Lilás: Mas como é que tá indo aonde
tá indo? Esta história é estranha, no mínimo.
Quando chegaram do outro lado do
milharal repolhal cajuzal cafezal chircal da horta do lavrado da plantação, se
depararam com um casebre, um quitungo, um barraco feito de costaneiras e
mata-juntas. Totó já cheirava o ambiente e nem estava gostando de nada nada. Foram
até o pátio e bateram palmas, chamando a atenção de quem morava ali. Mas pra
quê!... Logo vieram dois cães muito nervosos latindo e bramindo e fremindo sem
parar. Eram já dois bichos impossíveis de controlar e muito dispostos,
continuaram falando:
Os dois cães: Auauau!... Auauau!...
Eu mordo! Eu corto! Eu mordo e eu recorto!
Lilás: Essa nem!... E agora, gente!
É guerra!
Esmeralda: Mula sem cabeça que nada.
Tem é cachorro brabo, isso sim. Péssimo negócio. Incrível encontro. É um
zoológico.
Totó: Auauau!... Eu pego! Pode deixar!
Eu pego e repego!
Cajuí: Esta e a casa que mora a dona
siá Rosa. A cachorrada é dela.
O menino parou de falar porque os
cães chegavam mais perto, intratáveis. E vinham que vinham para atacá-los. Totó
se encolheu, ficou parado, paralisado, encolhido, nervoso, cheio de precaução,
cheio de pontuação reticências... Muito nervoso e irritado resfolegante. Totó
também latia, mostrava os dentes arreganhados, tremia de nervoso, queria brigar
e nem queria apanhar sozinho. Era tudo muito nervoso nervosismo.
Lilás: Correm! Correm! São os cães!
São os cuscos!
Esmeralda: D nos acuda... e muito
mais!...
Os dois cães: Auauau!... Auauau!...
Eu mordo! Eu corto! Eu mordo e eu recorto!
Pérola: Alguém diz pra eles parar e
já!...
Totó: Auauau!... Eu pego! Eu pego e repego!
Cajuí, que conhecia a casa de siá
Rosa, saiu pro limpo e tentou acalmar os bichos. Tentou separar o conflito. Depois
tentou se fazer conhecer pelos cães da vizinha. O menino até já uma vez fizera
amizade com aqueles cães superexaltados. Uma amizade de visita. Totó também. Nem
eram cães grandes, eram até pequenos, mas estavam cegos de brabos, muito
nervosos e histéricos e mandões e territoriais. Totó nem se acalmava. O primo
se esforçava e suava frio e tentava conversar com os dois cães vizinhos de
cerca.
Cajuí: Calma, Preto! Calma,
Pandorga! Quietos! Sosseguem!
Preto: Auauau!... Eu corto! Eu corto
e recorto!
Pangorga: Auauau!... Eu mordo! Eu
mordo e remordo!
Totó: Auauau!... Eu pego! Eu pego e repego!
Isso pouco adiantou. Preto estava
muito bravo. Pandorga estava pra lá de impulsivo. O primo procurando
inutilmente um entendimento. Totó nem queria saber nem queria pensar. Então, nem
ia adiantando coisa alguma. Isso às vezes só piora a situação. A turma foi
salva porque do nada de repente veio surgiu soou uma voz articulada e já na
portinha da casinha bangalô:
Uma dona alguém que assobiou, e disse: Quieto aí,
Preto! Quieto aí, Pandorga! Vem pra cá venham os dois e já e já! Donde se viu,
seus bagunceiros!
Aí até mesmo o Totó se pacificou,
boca aberta e língua pendente. A voz era de uma mulher uma matrona uma senhora
dona de casa. E os dois cães, meio a contra gosto e evidentemente, pararam de
querer atacar os visitantes inesperados noturnos.
Depois que os cães se aquietaram, a turma foi se
juntando e se aproximando da palhoça da oca do puxadinho do casebre de pau a
pique. Suavam frio, visivelmente assustados, surdos tontos zonzos bobos
traumatizados. Totó desconfiava dos anfitriões. Preto e Pandorga cheiravam as
visitas e sempre prevenidos. E uma dona em trajes de dormir pijama estava à
porta e segurava apontando uma lanterna a pilha.
Siá Rosa: Mas ora se nem é o menino Cajuí,
sô! Que faz aqui nesta hora, sô?
Cajuí: Me desculpa, siá Rosa... ufa!
Foi por pouco...
Siá Rosa achou por bem, já que a
turma estava espantada e meio que perdida confusa, chamá-los para dentro do lar
e residência cafofo. Nem era bom ficar batendo papo no sereno ao relento. Preto
e Pandorga viram Totó entrar na casa e foram no rastro. Preto e Pandorga
ficaram quietos e olhando e cuidando e cheirando de perto o Totó. Totó nem dava
as costas pros dois hospedeiros, nem falá! Pra começo de conversa, uma
tensãozinha no ar.
Siá Rosa: Sentem aí, pessoal. A casa
é pobre nem reparem que é um puxado improvisado temporário no meio da plantação.
Mas, menino Cajuí, que que veio fazer aqui esta alta hora da noite no meio da
noite madrugada, sô?! Tua mãe sabe, teu pai sabe?
Cajuí: Pois olha, siá Rosa! A gente
veio atrás da tal e qual mula sem cabeça. Nós vimos ela passá com labaredas e
chamas e tudo pelas ventas. Entrou se internou pelo milharal, canavial, feijoal,
ervilhal.
Esmeralda: É mesmo, siá Rosa. A
gente seguiu a luz dela, sabe! As línguas de fogo que saíam e saem do pescoço
cortado lá dela...
Lilás: Infelizmente ou felizmente
ela nos enganou e a gente a perdeu de vista. Foi aí que viemos parar no seu
quintal.
Siá Rosa: Pois olha!... Nem vi mula
sem cabeça. Será que ocês nem tão enganados? Podia ser pode ser um zorrilho
jaritataca jaguané jaguaré...
Rê: Eu acho também que foi engano e
um mal entendido pois eu duvido que ela exista. É pura superstição. É um conto
muito antigo e fora de moda.
Pérola: Quem viu foi o primo Cajuí.
Cajuí: Mas vi, gente! Tava dormindo
e aí ouvi um toque! toque! toque! toque!... (quatro vezes) e fui vê era ela, a
mula sem cabeça. Tinha fogo no lugar da cabeça. Parecia um fósforo aceso e
pegando fogo.
Esmeralda: A senhora nem viu nada?
Nem coisa parecida? Nem coisa nenhuma? Fogo nenhum? Os cães nem fizeram alvoroço
e escândalo?
Siá Rosa: Nada, nada memo. Ocês querem
experimentar um bolinho de fubá? Um milho verde? Uma batata-doce bem assada?
Umas pitombas? Um doce de abóbora? Pinhão na água no sapeco na chapa...
Lilás: Obrigada. Mas sabe, siá Rosa,
a gente seguiu a tal luz. Pois é, a luz existiu. O fogo corria pelo milharal,
aboboral, chuchuzal, cevadal.
Siá Rosa: Talvez e podia ser a lua
as estrelas uma estrela guia ou cadente...
Rê: Pois a luz eu também vi, mas a
mula sem cabeça... já acho exagero e difícil.
De repente um choro de bebê neném.
Siá Rosa foi até o quartinho e o choro sossegou. Logo apareceu Siá Rosa com uma
criança no colo de três ou quatro meses e acalentando e ninando e embalando. As
visitas rodearam a mãe e o recém-nascido. O neném era uma trouxinha de gente mínima
menorzinho e muito engraçado.
Siá Rosa: Este é meu filho. Oi, nem
é uma beleza?
Esmeralda: Tá com fome, pelo jeito.
Siá Rosa: Vou lhe dar o peito pra mamar.
Toda noite é esta mesma história. Mas ocês fiquem, comam do bolo de fubá, do
pão de milho, do biscoito de mel, da bolacha de castanha-do-pará... Comam umas bergamotas,
uns cajus, umas jabuticabas e cajás...
Totó estava mais tranquilo, parecia.
Preto e Pandorga já cheiravam Totó, e numa boa. Faziam que já se conheciam de
longa data e já podiam ser velhos amigos inclusive camaradas e parceiros. A
qualquer momento poderiam trocar experiências e rir juntos.
A menina Lilás nem queria aborrecer
a dona da casa. A patroa governanta nem parecia muito aborrecida. Lilás
procurou meio que se desculpar, filtrando:
Lilás: Talvez fosse melhor voltar
pra casa, nem é, gente?
Siá Rosa: Pois fiquem até clarear o
dia, ora! Caminhar por este milharal bananal peral pereiral parreiral tarde da
noite nem é bom e aconselhável.
Rê: Tô concordando. E até já sei:
seu bolo de fubá é simplesmente um fenômeno, junto com a geleia de casca de
pequi.
Siá Rosa: Agradecida, menina!
Pérola: Pensando bem... a caminhada
pelo milharal abacaxizal umbuzal cupineiro cupinzeiro muricizal abriu meu
apetite e minha vontade de comer.
Siá Rosa: Então, pra passar as horas...
ocês querem ouvir a história da mula sem cabeça? Uma história que eu já ouvi
falar, ouvi dizer, ouvi contar e ouvi recontar...
Lilás: A senhora sabe a versão da
história da mula sem cabeça? Que barato!
Siá Rosa: Sei de ouvir dizer.
Esmeralda: Pois conte, siá Rosa!
Cajuí: Vai sê de arrepiá.
Rê: Então é melhor deixar a gente
comê primeiro, senão pode embrulhar o estômago. Eu nem preciso perder o apetite
nesta hora.
Lilás: Que nada, gentem! É só uma
história, uma lenda, um conto popular inventado. Qualquer coincidência com a
realidade é mera semelhança e ou parecença.
Pérola: Mas e se der receio, pavor,
horror, terror, arrepios?
Siá Rosa se ajeitou na cadeira de
balanço de braços com acomodação pros braços. Cadeira boa de taquarapoca.
Cadeira antiga ecumênica e confortável acolchoada. Siá Rosa partiu e deu o
pontapé inicial, começamos, começando:
Siá Rosa: Era uma vez quando JC ou NS
ainda nem andava por estas bandas e terras e glebas e assentamentos. O causo
que sei se passou em minha família mesmo. Um parente antigo falado (avô do meu
avô) chegou em casa um belo dia com uma arca cheia de ouro bruto em pedra recolhido
garimpado numas minas profundezas das Minas Gerais, e por onde hoje passam e andam
os sítios cidades de Monsenhor Gil e Arvorezinha e Itueta e Anaurilândia e
Pedro Avelino e o parque do Mocambinho e o rio Canindé... Todo mundo da família
ficou feliz deu pulo de contente esfregou as mãos friccionou os dedos positivo
e indicativo deu pulo de mais de metro, e já pensando que iam ficar ricos e
mais pouco além de poderosos importantes. Mas o causo era que o tal e qual ouro
tinha sido roubado e na mão grande na mão ligeira. Que sucedera sucedeu sucedia?
Daí pra frente, que resultou? Bem, ocês sabem. Todo ouro roubado tem uma maldição
por cima e por detrás e por debaixo e por meio pelo meio. Assim esse caso nem
era diferente. Causo foi seguindo o curso e toda sexta-feira de lua cheia esse
tal e qual parente da família esse tal e qual (avô do meu avô) virava mula sem cabeça.
O coitado virava um mutante, mu-tan-te!... Saía pra noite como um perdido um louco
um conde-nado atrás de fazer má-criação pra qualquer um que aparecesse pelo
caminho e zurrando zornando e ornando ornejando... Fazia de tudo que era
esconder desviar bicho doméstico, roubar arrasar produto da horta, roubar
amendoim, roubar milho verde ou milho maduro, estragar a plantação, enterrar o
que estava desenterrado e desenterrar o que estava enterrado... Voltava pra
casa pela manhã as estrelas já apagando o sol já nascendo os pássaros cantando
os mortais comuns indo ao trabalho. Aí, então, com o sol iluminando tudo, ele
(avô do meu avô) passava a ficar bom de novo virava gente outra vez virava o legítimo
reconhecível parente próximo. Essa maldição perdurou toda uma ou duas ou três ou
quatro gerações da família. Mas foi um dia uma vez que... Aconteceu que um senhor
fazendeiro botou capanga atrás de caçar a mula sem cabeça. Esperaram ele (avô
do meu avô) chegar no galinheiro e quando chegou para roubar... bem de perto e
de tocaia... tacaram fogo de espingarda e a queima-roupa. Com vários chumbos no
corpo o meu parente próximo (avô do meu avô e sua tal e qual maldição) acabaram
morrendo finando desaparecendo deixando esta para uma no além ou aquém. Para nem
deixar pistas e indícios, os capangas jagunços jogaram o corpo do ex-mutante no
meio do mato espesso grosso. Quando clareou o dia nossa família se perguntou
apreensiva: “Cadê o coitado (avô do meu avô) do parente próximo?” Muitos dias
semanas após essa pergunta indagação, foram encontrados os restos mortais do
seu cadáver carcaça (avô do meu avô) e que os urubus-jerebas mais as formigas
sarassarás-de-pernas-ruivas e os vermes e as baratas tinham deixado sobre a
piçarra ou tapururuca. Foi um baque do destino com o horror. E esta é a
história que conheço e reconto, sem cortes a partir do começo e com meio até o
fim e verídica verossimilhante, e o causo narrativa que veio e vem desde sempre
antanho (avô do meu avô) e que a minha família herdou entre os parentes
contraparentes. Alguns tais e quais oriundos vindos chegando migrados emigrados
imigrados de lugares do Estado ou de algumas regiões do país ou mesmo do
exterior.
Siá Rosa parou de contar, olhou o
bebê inocente dormindo no colo, sorriu para as visitas esperando que elas se
desligassem do causo e relaxassem. Lilás foi a primeira a falar logo na
sequência:
Lilás: Nossa! Deu pra assustar.
Parece quase a história da iara ou a lenda do boto.
Esmeralda: Apenas que esses nem são
de labaredas e chamas e fogaréu.
Siá Rosa: Querem mais uma fatia do
bolo de fubá? Um copo de suco de abacaxi?
Rê: É uma história antiga. Coitado
do tal parente avô do seu avô, hem, siá Rosa?!
Siá Rosa: Nem fale, menina! Uma maldição
exemplar.
O dia clareou e a turma se despediu
de siá Rosa. Preto e Pandorga vieram acompanhar até o meio do milharal,
algodoal, mandiocal, macaxeiral, batatal... Totó tinha outros amigos de hoje em
diante? E a turma voltou pelo mesmo caminho cruzando o milharal, o tomatal, o
cebolal, o morangal, o mogangal...
A sorte e o mundo e o tempo e o
sonho são um e único e mesma coisa conjunta conjunto agrupada. E nem consegue
parar. Por que assim essa coisa? Nunca se saberá. Pois todo mundo tem sua sorte
determinada colocada sagrada e já escrita. E as pessoas e bichos e coisas podem
exportar importar morar nos diversos lugares sistemas ambientes como
constantemente consta, Vila Segredo distrito de Ipê, Beneditinos, Teresina de
Goiás, Resplendor, Fontoura Xavier, Machadinho, Poço Dantas, Santa Cruz com a
estátua imponente de Santa Rica de Cássia, a praia da Lagoinha...
E nem demorou muito minha gente. Na
semana seguinte o home, o home que queria e sonhava laçar D o patrão, passou
repassou pela fazenda Buçal da Maniçoba. Propriedade esta particular
agronegócio solos luvissólicos e planossólicos agricultáveis. E puxando o
próprio D da chuva do tempo pela corda pela soga pelo cabresto pelo barbante. Nem
é que o tal havia laçado mesmo, sô!
Home: Olhem! Reparem! Eu nem disse,
eu nem redigo?! Estamos aqui pra todo mundo vê! Lacei D pessoa de todos nós
compatriotas correligionários conterrâneos! Tal e qual! Este mesmo NS que
inventou o céu a terra as pombas-pedreses os periquitos-dos-cáctus os aracuás os
martins-pescadores-verdes as uvaieiras as cidrilhas os agriões-do-pará os solos
férteis chernossólicos e cambissólicos o rio Catu a municipalidade de Guamaré e
Nova Andradina a catedral NS de Apresentação...
D NS e o home que o havia laçado
cruzavam o pátio a eira naquele importante instante. D onipotente e home
laçador pisavam o caminho do chão, a estradinha britada do sítio, a ruazinha de
terra vermelha, o chão de pedrinhas friáveis. Cruzavam por baixo de cerca de
arame farpado, avançavam por porteira de troncos de panã, enfrentavam por ponte
pontilhão mata-burros feita de toras de mangabeira descascadas lisas...
Sim, era D onipresente e cheio de
graça. Reconhecível e reconhecido. D raro e parecido idêntico igual com os
desenhos dos livros de as Bíblias e sagradas escrituras e novelas de tevê, nas decorações
das capelas das igrejas dos templos dos santuários dos reformatórios. D
universal e o home laçador. Faltavam os anjos e anjas e arcanjos santos santas
do dia a dia. Mas sem sombras de dúvidas o D único número 1 pensador do
universo do céu do mar dos alados das aves concrizes galos-de-campina cardeais
chocas-barradas beija-flores bingas cuitelos colibris... dos grandes conglomerados
aglomerados sufragâneos urbanos municipais novas edições revistas e ampliadas,
Rio Tinto, Portalegre, Extremoz, Serrinha dos Pintos, Campestre da Serra, nação
povo zoró...
O pessoal habitante todo da fazenda veio ver e
arredores e vizinhanças. Muitos ficaram perplexos, assustados, alarmados com a
cena inusitada. Os outros já ficaram com dor de cabeça dor de barriga dor de
dente dor de omoplata dor de joelho...
Cajuí: Reparem que D está associado ao home,
entendem?!
Rê: E vão fundar uma religião um clube uma agremiação
um partido...
Mas vendo que a fisionomia de D super-herói era boa nem
pensaram em libertá-Lo desatá-Lo. Afinal D planeta se quisesse teria poderes
para fazer qualquer milagre, quanto mais se desprender daquela cordinha de
barbante feita de algodão ou linho ou lã ou seda. D presente até sorria e fazia
piada.
Pérola: Mas é D mesmo e físico?
Cajuí: Pois é, gente. D mesmo foi
laçado pelo home. O tal do home laçou mesmo D.
Rê: Que travessura, que banalidade,
que erro enorme e descomunal.
Esmeralda: Será que D gueime vai
fazer alguma coisa? Quer dizer: um grande milagre, algum fenômeno, revolucionar,
o paraíso na terra?
Lilás: Parece conformado. Tá até
gostando. É um personagem de ficção, quase.
Totó: Auauau!... Eu vejo! Eu cheiro
e revejo!
E D sólido concreto ali mesmo, ao
vivo, sim puxado pela corda, de cabresto, preso, roupa amassada, sem chapéu,
rosto tostado de sol. Todo Ele, tudo meio estranho, esquisito e o mundo
continuando muito à vontade. E olhando bem, D etéreo parecia meio aéreo, fora
de si, confiante demais, quase um homem muito simples. O mesmo D que fez ou
continua criando segue organizando as cabriúvas as quatindibas os
mangues-brancos as marizeiras o bando de picaçus os pica-paus-barrados as
cutiaias os sapinhos-admiráveis-de-barriga-vermelha o rio São Nicolau o teatro
4 de Setembro o monumento aos santos mártires de Cunhaú e Uruaçu as danças típicas
do coco e do bambelô...
Esmeralda: Vamos segui-los. Estão
indo no sentido da cidade de Cachoeira do Arari ou mesmo a localidade de
Capitão Gervásio Oliveira quem sabe Florânia e Arez...
Lilás: Seguimos nessa que é bom à beça. E estamos de
férias.
Pérola: E cá pra nós, vai começando esta uma procissão
devota.
E sempre, mais bom que se diga e repita, estamos
plenamente no Estado do Maranhão que é um Estado da federação do B e que ainda
muito se orgulha orgulhoso de suas antigas construções coloniais portuguesas
decoradas em azulejos. Cuja capital sempre sob o efeito da maritimidade
bastante perceptível e que onde se formam volta e meia alguns nevoeiros frentes
frias ventos com rajadas mais ou menos fortes. E cidade numa razão sexual de
86, 25 a menor do nordeste e uma das menores do país e do hemisfério sul.
Rê: Pensava que D pudesse ter roupa
melhor, entendo. Tá com o cabelo sem pentear, chinelo de dedo batendo no
calcanhar, plete! plete!...
Esmeralda: Muito pobrezinho pé no chão, coitadinho
e desarrumado, quase um mendigo homem de
rua e comum e carente.
Pérola: Vai ver que recém-saído
acordado levantado da cama... ou da nuvem.
Cajuí: Se dirigem para a cidade mais
próxima e pelas estradinhas vicinais...
Rê: Vão fazer o que na cidade de
Viamão? Vão fazer o que em a aldeia dos xipaia? Dar entrevista na televisão?
Fazer sessão de autógrafos? Rezar uma missa campal? Passear ocupar o tempo no
largo Mozart Diógenes?
A turma curiosa e a vizinhança
curiosa seguiam os dois, D divino e home bípede, estrada afora debaixo do sol
forte estradinha de poeira vermelha e quem sabe no rumo do parque ambiental da
Macaúba ou o farol Mãe Luiza ou coluna da Pedra do Rosário... D presidente
sendo guiado pelo home vice-prefeito. O home terráqueo na frente e D aéreo
etéreo cosmonauta seguindo e ou sendo puxado pela corda.
Era verdade verdadeira e verdade
grande inédita pois D líquido estava ali no meio do povo. Todo Ele inteiro
desfilando preso e diante dos olhos da turma dos olhos dos outros dos olhos de
todos nós e vós. D o T-P e cabeludo e barbudo e bigodudo. Cabelos e barba e
bigodes brancos e costeletas e suíças muito brancas totalmente brancos da cor
do gelo geada. Vestido somente com branca túnica dos ombros aos pés como um
pijama. Como alguém se veste de quimono de roupão ao sair do banho. E D
infinito, quem se habilitaria?, ainda parecia um simples ser humano simples e
mortal e camarada e cordial. Era impensável mas Ele mesmo já criara inventara
as coisas da terra do mar e do ar tais e quais as guajuviras os camboatás os
alecrins-de-são-josé o bando de soias a praça José de Barros as bibliotecas públicas
municipais estaduais universitárias comunitárias a grande Teresina (a terra da
cajuína) construída em traçado geométrico e que fica instalada desde sempre na
área da Chapada do Corisco...
Senhores e senhoras entoavam cantos
sacros e com vozes harmoniosas afinadas postadas clássicas muito empolgantes
vibrantes. Estrada rumo à cidadezinha de Jequitaí ou Miguel Leão ou Araruna,
estradinha estendida na paisagem como cordão corda vermelha, caminho de
passagem entre palmeiras buritis, aldeia cutaxó, cruzando os rios afluentes com
a ponte metálica João L. Ferreira sobre o rio Parnaíba, campos, morros, bando
de bois pastando mascando pachorrentamente.
Dado momento, vendo-se rodeado de bom ambiente fiel
fidedigno, D principal e es-pe-táaaa-cu-lo mandou parar a procissão, a
passeata, a multidão, a turbamulta, os fogos e morteiros, subiu numa pedra ali
mesmo dentro do parque Lagoas do Norte e falou justamente naquele tom ou som ou
voz natural dos deuses:
D: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro
ases estão na minha mão! Os quatro ases são: ouros e espadas e copas e paus,
tatu-galinha e tatu-de-folha e tatu-liso e tatuetê! Em verdade em verdade vos
digo: virá o dia, sem demora, que um grande terremoto abalará toda a estrutura
da terra! Cairão todas as casas e prédios e viadutos e torres! Tudo sumirá
engolido para o interior do caldeirão aceso! As pessoas se perderão umas das
outras; pai e filho nunca mais se verão, mãe e filha nunca mais se abraçarão!
Tudo isso por causa do pecado e do rancor e da incerteza que tomaram conta dos vossos
corações e mentes e sorrisos e atitudes! O dia do fim está próximo dobrando já
a esquina, e breve virá o julgamento definitivo inapelável! Vocês querem ver o
sol diminuir e apagar?
Lilás: Que que D tá querendo
explicar e ou ensinar?
Rê: Que está brabo com as pessoas
que derrubam árvores, prendem passarinhos, pescam na piracema, jogam lixo fora
da lixeira, que se deixam corromper e corrompem...
Esmeralda: Que já perdeu a vontade
de olhar o mundo como jardim do paraíso.
Dizendo tudo aquilo que disse, D itinerante
e o home laçador continuaram pela mesma estrada avenida Café Filho ou Buarque
de Macedo... O povo interessado, crente e assustado, seguia no rastro. Uma
carroça ou carreto, puxado por quatro homens honestos, foi posto à disposição
de D para a longa viagem jornada. A partir daí, D secular viajou de carreta
tração humana 4x4. D inseto sempre sendo conduzido seguro pelo home laçador. O
home traga-balas sempre guardando ou puxando ou amparando D super pela corda,
também se aboletou subiu de carona. Um calor que ninguém daqui tem noção.
D micareta olhava as pessoas ao seu
redor e que o acompanhavam. Os pobres e as pobres os ricos e as remediadas que
caminhavam matematicamente ao redor da carroça. D olhava e admirava essas
tantas pessoas, mais que olhava e admirava as aves do céu, mais que olhava e
admirava as cores do céu. D urânio e lâmpada de led que fez o mundo em poucos
dias para as pessoas e os bichos e as coisas, assim mesmo: as canafístulas e as
favas-de-bolota, os cutitiribás-grandes e as caapomongas, as urtigas-de-cipó e
os chapéus-de-couro, as galinhas os galos os frangos as frangas os pintos... E
acima de tudo mais outros parques atrativos e repositórios ambientais
ecológicos com espaço harmônico autossustentável para os mercados supermercados
hipermercados...
Mesmo com céu nublado o calor era
muito o mormaço insuportável a sensação de desconforto derretimento. A estrada
de terra de pedras soltas, cansava o passo. A carroça mesmo tinha dificuldades
para rodar manobrar e acompanhar planejar executar. Isso foi motivo suficiente
para que D memorável e o home laçador e carroça tracionada estacassem no portão
de uma casa de alvenaria e ali bebessem uma caneca de água h2o.
Esmeralda: Será que D nem gostaria
de pegar um automóvel táxi moderno, hein?!
Lilás: D milionário é um ser um ente
um tanto simples e sem luxos.
A dona de casa, que serviu ao D
exemplar e ao home laçador com água boa e fresquinha, foi por Ele mesmo o NS
abençoada e recomendada e condecorada. A distinta senhora se ajoelhou se rebaixou
se emocionou ao mesmo tempo que cobriu a cabeça com os braços e as mãos
escondendo a testa entre os joelhos agradecida e agradeceu o prazer que D homo
sapiens lhe dava com sua divina visita. Depois beijou várias vezes, com muito
cuidado e gosto, a mão de D réptil suas vestes seu turbante. D dos deuses se
ergueu na arrastável carroça de arrasto e falou:
D: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro
ases estão na minha mão! Os quatro ases são: sul e norte e leste e oeste, soim
e sonhim e sagui e mico! Em verdade em verdade vos digo: um grande maremoto súbito
subirá das profundezas do oceano Atlântico e inundará toda a terra firme toda a
costa do B! Como um tsunami! E na forma de enchente enxurrada. O sertão virará
mar e o mar virará sertão! Essa é a condenação pelos erros da luxuria e
bruxaria e injustiça! (Aproveitou para colocar uma bala de menta na boca). Eu
sou o P T-P, e afirmo que o juízo é amanhã! O final que ninguém quer se
aproxima, todos baterão com a cabeça no chão e nem mais se erguerão! Nem haverá
tempo para choro ou ranger de dentes ou prorrogação! O fim está próximo, muito
perto mesmo, quase ali na esquina! Vocês querem ver o sol em plena noite?
Pérola: D está brabo com D e todo
mundo.
Esmeralda: É, D perdeu a esportiva.
D artesanato confecciona expõe e vende.
Dizendo mais aquelas palavras
locuções expressões frases, D campeão deu ordem para que a carroça prosseguisse
andasse. A multidão crescia sem contar e a partir do pré-escolar até o
fundamental e médio e técnico e universitário. Muitos nem se contentavam apenasmente
em olhar, achavam melhor tocar as vestes, pegar na mão, tirar foto com celular,
pedir autógrafo, gritar palavras de entusiasmo, vivar, lembrar, solicitar
conselhos remédios recibos e outros tipos de pedidos...
Rê: Eu nunca parei pra pensar que um
dia D pudesse estar assim, bem perto de mim, ao vivo, se dirigindo a nós, se
comunicando. Isto sim que é surreal e atípico.
Pérola: D já vive uma eternidade.
Antes de tudo, durante tudo, depois de tudo tudo.
Lilás: D é assim e nem quer e nem
pode mudar. Quem é que pode com D?
Devido ao caminho irregular, a carroça quebrou uma
roda e pifou. Com o solavanco tropeço, D criador e o home laçador foram jogados
para fora do veículo e para o chão. Felizmente nada de mais grave sofreram, e foram
amparados pelo povo que os cercava. E para tirar o pó da garganta, o susto dos
olhos, se sentaram na mesa do bar Regeira. Foi-lhes servido uma cerveja ou um
chope e uma porção de batatas fritas por conta da casa. D peixe estava tão à
vontade que ofereceu algumas batatinhas para as criancinhas que o rodeavam. Pegou
criancinhas no colo, beijou no rostinho, acarinhou o cabelinho, sorriu, e
prometeu praias mais limpas e menos povoadas jardins suspensos mais decorados e
floridos parques de diversão grátis para menores de idade terceira idade
agentes da saúde...
Logo logo, ainda hoje, D fiel se ergueu e olhou a
multidão compacta. Deixou o copo de cerveja pela metade meio cheio e meio vazio
e os amendoins torrados no pratinho sobre a mesa e foi falando com toda a razão
cheio de razão absolutamente racional:
D: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro
ases estão na minha mão! Os quatro ases são: terra e fogo e ar e água, aba e
sopé e falda e fralda! Em verdade em verdade vos digo: do centro da terra
explodirá um vulcão fantástico, e sua força e fogo derreterá tudo na
superfície! Todos sumirão num piscar de olhos! Isso porque nem me obedecem,
esquecendo minhas leis ou mandamentos minhas regras e ordenanças! (Um gole de
cerveja geladinha trincada). O fim será amanhã! Eu sou o P dos pais e condeno
todos aos esgotos profundos os subterrâneos do inferno! Vocês querem ver o sol
implodir desmoronar?
D vegetal tomou o último gole de
suco de pequi uma rapadurinha na boca agradeceu a hospitalidade e seguiu
caminho em fora. Agora iam todos a pé e passo a passo. D constante
constantemente era presenteado com biscoitos, quindins, doces os mais variados
e deliciosos, iogurtes, jabuticabas, gabirovas, potes de mel silvestre, geleias,
bolinhos de chuva, tijolinhos de coco, paçoquinha, pé de moleque... Velhos e
moços e crianças vinham para tocar suas vestes cumprimentá-Lo parabenizá-Lo...
Os desassossegados e descamisados os viciados e desempregados gemiam tossiam
choravam esperneavam e apertavam os dentes, e eram consolados. E eram
acariciados recomendados diagnosticados. E todos abençoados recomendados. Assim
porque D uniforme ali presente já era dono e proprietário de façanhas muito
conhecidas muito importantes, rio Forqueta, camboatãs-mosquiteiros, caneleiros,
perpétuas-do-brasil, jejus, gaviões-pombo-pequenos, tesouras-do-brejo, praça
Pedro Velho ou Cívica, praia da Redinha, cachoeira da Mulada em o distrito de
Criúva interior de Caxias do Sul, danças do forró pisadinha arrocha brega...
Cajuí: Gente do céu e celestes! Será
mesmo que devo pedir pra D ressuscitar a Merendinha, ex minha vaquinha malhada
de estimação e que se foi no inverno passado?
Esmeralda: Vá rapidinho, então. Ele
tem muito milagre pra fazer. Olha só quanto povo pedinte. A fila é enorme. A
procissão é gigantesca. É preciso muita sorte e comprar o bilhete com
antecipação.
Cajuí: Todavia sou jovem demais para
ser um eleitor, tá ligada?!
Rê: Meu modo de ser nem é de barco a
vela, entendam?!
O caminho, o dia de sol forte, o
povo falando igual colmeia de abelhas nervosas exigia muita paciência de D
pedra e seu laçador humanoide. O povo também sentia o calor, mas o populacho
era curioso e acreditava e insistia e persistia e se contorcia. Nem se
economizavam, uma vez.
Pararam todos tranquilos sob um branquilho centenário
amparado por duzentas muletas de apoio escoras. D popular subiu o barranco, foi
até o gramado, tirou os chinelos. Uma moça lhe refrescou os calos e bolhas dos
pés com água da fonte. D padeiro e homem laçador beliscaram brigadeiros,
quindins, salgadinhos diversos, pudins de macaxeira, beberam suco de açaí direto
na cumbuquinha cuiambuquinha tigelinha... D como nunca se viu antes e quinze
minutos a seguir cuspindo semente de melancia ali no chão tossindo preparando a
garganta se preparando para falar preparado e disse falou, sem mandar dizer sem
intermediário sem evangelhos tábuas da lei:
D: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro
ases estão na minha mão! Os quatro ases são: círculo e quadrado e triângulo e
retângulo, peixe-aipim e congro-real e vira-vira e tiravira! Em verdade em
verdade vos digo: o dia que chega próximo inapelável está marcado para amanhã!
A terra sem habitantes ficará inútil e sem serventia! Isso porque insistem em
fugir da minha palavra, da minha lei, da minha mão, do meu caminho! Pecaram
contra Mim (orque!... - arroto) desculpem... e contra vocês mesmos! Contra tudo
e contra todos! Minha ira nem deixará pedra sobre pedra, estaca ao lado de
estaca, ponte sobre rio, trens sobre trilhos! Eu digo e nem volto atrás! Eu
digo e nem Me arrependo! Eu digo e escrevo preto no branco! Vocês querem ver o
sol explodir emulsificar?
Então pegaram em conjunto todos ao
mesmo tempo, D especial e homem laçador e povo curioso (subindo no início o
morrinho do Saraquá), e novamente a estradinha de vermelho rumo da cidade de
Tabatinga ou Nova Santa Helena ou São José do Ouro ou Martins ou Mataraca... A procissão
cada vez maior e barulhenta, acontecimento. Um homem se projetou em frente a D índio
e ofereceu seus ombros largos para carregá-Lo transportá-Lo. Sobre os ombros do
oferecido (que parecia alguém muito familiar), D arrecife se sentiu mais feliz
quase imperador muito agradecido pra lá de contente e com disposição para cumprimentar
abanar sorrir muito mais. Esse mesmo S do céu da terra dos oceanos e T-P do
tempo e do espaço e também que era o voluntário inventor das coisas em geral
existentes conhecidas, cardumes de charutinhos, bandos de tem-tens-de-estrela, matos
de juquirizinhos, capões de itaúbas, ruas artérias logradouros avenida Frei
Serafim...
Lilás: Todos somos muito otimistas.
Pérola: Tem uma linha de trem que
faz este mesmo horário. Quem sabe, né!
Quarenta e sete quilômetros à frente
o pobre homem oferecido, já cansado esfalfado derretido sufocado, tropeçou e
caiu caiu, foi pro beleléu. Pronto. E D gordo foi jogado sobre os fiéis, e
ainda assim bateu o vértice o nariz no chão, taque!... Tonto e acidentado e
doído passou a mão no machucado, ai! ai!... upa!... oi! oi!... e viu o sangue
sujar sua túnica sua roupa de passeio domingueira. Imediatamente foi pronto socorrido
e pensado e atendido. E em dois minutos estancada a ferida o defeito o problema.
Outrossim e em frente seguindo o previsto o imprevisto,
D valente nem se deu por vencido ou vendido e foi se lavar o rosto as mãos os
pés abluções e comeu doce de jaca mastigou doce de batata-doce bebeu uma água
de coco passou um pano xadrez úmido na mancha da roupa olhou a multidão sem-número
cada vez maior que o cercava e o conduzia e falou declarou sentenciou:
D: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro
ases estão na minha mão! Os quatro ases são: primavera e inverno e outono e
verão, anambeúna e anambé-preto e anambé-una e mãe-de-tucano! Em verdade em
verdade vos digo: cairá chuva e granizo os 40 dias e as 40 noites, sem parar. E
dessa vez nem haverá um Meu filho JC! Um simples nariz quebrado nem impedirá
que minha voz soe e voe aos quatro ventos! Eu vos digo e redigo: a condenação
será amanhã! Isso porque a inveja e a avareza apodreceram todos os corações e
decisões e razões! (Parou para comer um bocado de sanduíche e beber um gole de
suco de abio). Podem ir chorando podem desde já arrancar os cabelos se cobrir
de cinzas, porque nada se salvará! Nenhum tipo homem e ou bicho e ou árvore,
ficará para semente! Cobrirei o azul de fumaça e toda a terra de lama
incandescente! Vocês querem ver o sol quadrado?
Lilás: O tombo foi muito feio.
Machucou muito o bico, coitado.
Rê: Pensei que o sangue de D fosse
de outra cor, e pra variar. Sangue verde, por exemplo. Nem posso duvidar de
nada na presença de D. Nem vamos esquecer que D criou e contém o parque das
Dunas mais o rio Potenji, é.
Pérola: Está doendo o machucado. Viram
só como se incomodou, o dileto?
Esmeralda: Mas D pode fazer um
milagre a qualquer momento. E um mais rápido e genial que o outro. Nada nem
nada pra Ele é fracasso.
Cajuí: E pode recomendar ao povo
população: “Olha, gente! Tenho um milagre!” E aí Ele diz a abracadabra... taí o
milagre mais verdadeiro do mundo. Incomparável e normal igual o pão com geleia
de pitanga, queijo com goiabada, açaí com tapioca...
Prosseguindo na caminhada aventura,
D difícil ou fácil foi e se apropriou duma bíci cor de prata nova em folha. Pedalando
comodamente calmamente preferencialmente, D novo novíssimo passou por cima
atropelou os ramos e flores e pétalas que o povo jogara na frente. E assim, com
freios de pedal e nas mãos, entrou no perímetro urbano da cidade de Afuá ou
Terra Nova do Norte ou Chapecó ou Colônia do Gurgueia ou Bataguassu ou aldeia
território dos curuaia ou nação pátria dos cupinharó...
Cajuí: Quem vai homenagear NS e
nosso D o T-P, hein, gente?
Lilás: Uma comitiva de médicos
advogados professores parlamentares...
Rê: Os sul-americanos em geral...
acho quê.
Pronto. Dito e feito. Logo na
entrada da primeira rua da cidade avenida Fontes Ibiapina houve esse tradicional
foguetório despertar de fogos exibição pirotecnia. E escolas de samba e danças
de capoeira, berimbaus e tamborins, banda tocando marchinhas de carnavais
antigos, acenos com bandeirinhas de cores e balões inflados coloridos, arcos
feitos de flores diversas e folhas da bananeira, trios de rainhas princesas simpatias...
Sempre o povo corria acompanhando,
corria e ria e pulava, brincava de pegar, sem até mesmo saber o que fazer com
tanta festa e descontração. Maravilhados, todos pulavam com o som do tambor dos
pratos da percussão. Sabiam de ouvir falar que D sucesso era o dono e atual
governador das coisas sobre a superfície da terra, ou suas cópias mais ou menos
naturais, tais e quais: lagos artificiais e quadras poliesportivas ao ar livre
e mirantes e trilhas de passeio e auditórios e anfiteatros e espelhos d’água e
florestas fósseis e herbários e banheiros públicos e ciclovias e rampas de
esqueite e galerias de arte santeira...
D capital primordial recebeu, das mãos do prefeito e
autoridades locais presentes dos considerados dos nomeados dos escolhidos dos
pretendidos dos conceituados dos justos dos honestos, a chave da cidade. A
multidão que já o acompanhava e mais a que o aguardava, se somaram causando um tumulto
nunca visto um engarrafamento uma greve geral. Parecia festa de padroeiro, todo
o povo estava ali e desfrutando. Os sinos gravados e divulgados pelos
alto-falantes da igreja matriz repicavam de alegria, e foguetório foguetes
explodiam ribombavam no ar da tarde.
Pérola: Daqui um pouco já perdemos D de vista e mais a
multidão compacta, é.
Esmeralda: Muita fama e progresso e carnaval fora de
época, em?!
Cajuí: E tudo começou num simples passeio simplesinho,
conforme.
Assim mesmo, D ator aglutinou a massa popular. O povo
aplaudiu gritou vivas tirou o chapéu fez continência e se curvou. As mulheres
murcharam as sombrinhas e guarda-chuvas e guarda-sóis e se curvaram, as
crianças correram para frente e para trás procurando ficar por perto e ao mesmo
tempo brincar. Todos Lhe jogaram os beijos as flores e os ‘ai meu deus!’. Sem
contar os que desmaiaram, choraram, esperaram, acreditaram, testemunharam,
penitenciaram, solicitaram... Era emoção única e inenarrável. D vera-efígie ao
vivo na praça Saraiva. Nem olhavam para o céu, nem erguiam as mãos para o porvir.
D turmalina paraíba estava ali na praça Vigário Antônio Joaquim e ao natural e
presencial. A bandinha aproveitou e tocou mil e tantas músicas populares bem
agitadas de axés e congadas e reisados e maracatus e hinos pátrios...
Nas escadarias da igreja catedral da
Sé, D apeou da bicicleta magrela subiu alguns degraus se voltou olhou a onda
popular a seus pés, o home laçador por perto, a cidade de Divinópolis ou
Putinga ou Galinhos ou Governador Dix-Sept Rosado ou Sananduva... ao alcance da
mão na sombra de um abraço apertado fraterno na distância de um sorriso
generoso franco e falou mandou nem delegou:
D: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro
ases estão na minha mão! Os quatro ases são: azul e verde e vermelho e amarelo,
suinã e bico-de-arara e bucare e feijão-bravo! Em verdade em verdade vos digo: vossas
próprias atitudes armadilhas estão sendo preparadas para se autodestruírem como
numa guerra fratricida e sem precedentes! Dessa pandemia de Covid-19, de uma só
batalha interminável perseverante, ninguém sairá com história pra contar! Eu
vim para prevenir que o juízo será amanhã de manhã! Isso porque vocês todos são
uns loucos, uns insensatos, uns sovinas, uns ‘cospem no prato que comem’ uns ‘reclamam
do que têm’! Pra falar sinceramente divinamente e em primeira mão, já nem aguento
mais! Nem querem me ouvir? Pois bem, largo de mão! Só nem vão dizer aqui e ali e
além e aquém que nunca jamais foram avisados por Mim! Vocês querem ver o sol
desconsertado? Vocês querem ver o sol golaço?
Pérola: D tá irritado irado furioso
perigoso escandaloso afrontoso insulso...
Cajuí: Pura água boa límpida inodora
incolor insípida...
Rê: E nem manda dizer as coisas que
têm que se dizer que precisam ser ditas...
Acabando acabada essa falação
discurso showmício, D entrou no templo igreja santuário passeou pela nave molhou
dois dedos na pia de pedra basalto com água benta dobrou o joelho direito fez o
sinal da cruz e passeou andou caminhou até o altar-mor. Ali diante do altar
bonito e bem pintado e afrescos, imagens de outros santos e santas, tabernáculos
e troféus e vasos com flores, diante do seu magérrimo filho JC crucificado, se ajoelhou
de vez e baixou a cabeça e se entregou à oração à reza à missa ao culto ao
ritual.
O povo crente o seguia seguiu discreto e discretamente.
Pelos vitrais, coloridos com desenhos lembrando a passagem de JC pela face da
terra, entrava um sol fraco de fim de tarde de fim de dia tardezinha de fim de
estação verão. No teto esvoaçavam revoavam as andorinhas e corruíras e
tico-ticos e rolinhas fogo-apagou e sabiás-laranjas... Volta e meia carimbando selavam
a cabeça de um e outra devoto fiel seguidora penitente.
Um pouco levado pela emoção
empolgação D potiguar rio-grandense-do-norte norte-rio-grandense se ergueu
satisfeito fez novamente o pelo sinal característico e saiu da casa consagrada
sua própria casa representação na terra. Ladeado pelo padre o pastor o xamã o
prefeito a porta-bandeira o procurador-geral o pró-reitor o primeiro-sargento e
dezenas de políticos da situação e oposição, caminhou em frente direção à praça
Coronel Tristão J. de Fraga em o bairro Partenon e palanque tablado rampa dos
discursos coreto plataforma. A multidão espiritualizada o seguia quase em silêncio
quase ao mesmo tempo quase em estase e quase libertando a catarse velas acesas
nas mãos... Todos os presentes agradecendo fisicamente presentemente
pessoalmente e reagradecendo.
Esmeralda: Puxa, tá anoitecendo. Será
que D vai fazer outro discurso? Será que D vai dormir no hotel Mangual três
estrelas? Será que D vai visitar a creche Camacã?
Lilás: Talvez na casa paroquial ou
pensão dos franciscanos dominicanos.
Pérola: D estrelejado estrelante pode
muito bem pegar um cometa de vassoura e... em dois minutos aterrissar alunissar
estrelissar(?) na estrela Aldebarã.
Cajuí: E decifrar os escritos do
sítio arqueológico Lajedo de Soledade na Chapada do Apodi. E de uma vez por
todas definitivamente sem dúvidas.
Totó: Auauau!... Inté mesmo de olhos
vendados e prevendo o futuro dos astros.
Rê: Queria muito saber como é que é
o céu por dentro e no fofinho, hum!...
Pérola: O céu deve ser nosso e como
o imaginamos. Deve de ser uma planta jurubeba uma ave aquática aiaiá um rio
Paraíba do Meio uma aldeia crixaná...
D potamônimo iurimagua e as
autoridades políticas chegaram ao palanque dos comícios das manifestações das
festas de fim de ano. As luzes da cidade de Veranópolis ou Tombos ou
Porciúncula ou Centenário ou Feliz Natal... se acenderam de repentemente.
Parecia noite de natal ou ano novo ou carnaval, ainda podia ser de festa de
santo padroeiro ou santa padroeira, até formatura entrega de prêmios aos
melhores destacados. D eterno olhou o povo, ergueu os braços em parênteses, ia
falar e soltar a voz o verbo... Ia dizer algo, mas nem pôde. E o tempo travou
entre um tique-taque e outro.
Uma moça saindo do meio da multidão fechada, e muito
nervosa apressada, cruzou atravessou o bloqueio das autoridades sociais,
tropeçou na subida dos degraus da escadinha do púlpito ou altar, e chegou junto
a D e S do céu da terra do mar e mais além proprietário campeão das árvores
arvoredo, crindiúvas, marmeleiros-brancos, maçarandubas-vermelhas, curuatingas,
bugres, pequiás... A guria e já muito enlevada toda ela transfigurada pela
emoção saudosa e esperançosa cabelos formidáveis chegou com tudo e representou
o seu papel na peça exclamou texto na ponta da língua decorado:
Moça: Papai, meu paizinho do céu! Pois
o que o senhor tá fazendo aqui, assim, preso a esta corda, exposto ao ridículo
ao desprezo ao riso ao deboche dos outros? Que teatro popular sem pé nem cabeça
é este? Eu te adoro! Então, vem comigo?!
A multidão, e agora, que sempre
acompanhara tudo crédula e satisfeita e crente, agora mesmo, e de boca aberta e
olhos arregalados procura entender a cena fora das escrituras e figuras de
linguagem. As pessoas ali se entreolham...
Lilás: Quem é esta moça
surpreendente e de arrepiar a pele?
Esmeralda: Deve ser uma devota uma
irmã de caridade uma enfermeira de plantão...
Rê: Convenhamos que nem aguentou e
foi lá agarrar o NS.
Totó: Auauau!... Acho que é a própria
Maria mãe de D. E ela tem direito.
Pérola: Ou mesmo será uma rainha de
bateria, uma musa de poeta, uma Iracema?
As autoridades competentes e eleitas
escolhidas no último sufrágio universal e ali presentes junto a D sideral
cosmopolita, tentaram retirá-la tentaram agarrá-la e nem houve jeito. A moça
parecia possuída por uma força impossível uma emoção ainda maior e mais outra
coisa tipo sei lá o quê. Sempre segurando o progenitor pelo braço ou pela mão, a
jovem jogou a corda no chão com muito empoderamento com ênfase, vazou pela
multidão abrindo caminho, e nem se importou com mais nada.
Então os dois seguiram rua Vazulmiro Dutra abaixo
acima ziguezagueando, andando sem parar passando em frente ao teatro Aricapu,
virando a esquina na travessa do Barbaquá, já pela pracinha Faria Lemos, e
desaparecendo no beco sem eira e beira do Carijo. Embora para sempre ou até o
esquecimento dos tempos.
Muita gente viu, e jura que ouviu, e
conta que o que viu, e aumenta que ouviu, quando eles dois parentes familiares
subiram para as nuvens no elevador do arco-íris ou arco-da-velha ou
arco-de-deus... O último arco-celeste daquele dia junto ao forte de Santa
Catarina. O último arco-da-chuva daquela semana e temporada. No último raio do
sol caindo na tarde faceira. No último raio do astro caindo antes da noite
climatizada. No exato instante que brilhava a primeira estrela e guia de nome
divina na noite calorosa.
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