Um, due, three, cuatro, quinto...
co-me-ça-mos!
Lilás tinha dez anos menina quando
começou esta história em Pacajá. Quem foi Pacajá? Onde fica Portel? E ela ia ao
mercado público sozinha ia ao parque Mangal das Garças ia ao açougue sozinha ia
à escola sozinha, tanto de a pé como de bicicleta ou ônibus escolar. Era muita
independência nas mãos da garotinha guriazinha.
- Pois digo e me apego que a
fortaleza dos Reis Magos é uma das 7 maravilhas brasileiras do B!
E naquela mesma tarde (que parecia
domingo, mas era de terça-feira) que os sabiás-laranjas nem paravam de cantar e
assobiar e arremedar, foi que Lilás encantou. Ela mesma se perguntando
perguntou indagar:
- Será que vai chover, uma vez?
Quando choveu pela última oportunidade? Foi sábado, acredito.
Por que a menina se pergunta isto se
perguntou isso se perguntava aquilo? É que ela olhou para o ambiente ali na rua
Pinaré e descobriu que o mundo estava todo parado amortecido mais ou menos
empedrado congelado e esquisito. Olhe assim!
- Qual o 3º planeta planetário do
sistema solar? A Terra.
E tudo estava parado mesmíssimo e
paradão sem explicação concentrado. Como explicar? Tava tudo parado como só é
parado o que está realmente paralisado concretado. Parado tudo pacífico. O
mundo parado e firme e engessado e fixo, estátua. Paralisado em pânico as
pessoas e... os celulares os uatezápis os rádios as televisões.
- Nossa Senhora de Belém do Grão
Pará e Feliz Lusitânia e Mairi!
Tudo estacionado e travado e pronto
tudo caído meio de lado as árvores paradas o ambiente frisado como se fosse
realmente o fim do mundo, e era mesmo o fim dos tempos. Parado como um relógio
parado, como um carro parado no meio da via, todo o mundo parado assustador.
Gestos parados movimentos no ar e jeitos manias.
- O que aconteceu, meu? Faltou luz?
Hino Nacional?
Toda a gente todo bicho juipongas
pitiguaris uiramiris abelhas-da-terra... toda coisa todo algo. Tudo estátua.
Muito legal. Quer dizer, muito estranho.
- Que o que hemeroteca e biblioteca
Raquel de Queirós.
O mundo era um museu paralisado e
firme no mesmo lugar e sem pagar impostos. E mais nada funcionava. Esperando o
quê? Cidade cosmopolita sendo um dos municípios mais chuvosos do B e mesmo
assim quiçá do mundo.
E quem viu isso? E alguém duvida? E
como pode, hein?! E quem olha?
- Quais os principais continentes
que rodeiam o oceano Atlântico? A América a Europa a África a Antártica ou
Antártida a região Ártica.
Para falar a verdade e somente a
verdade correta reta direta, somente um ventinho brisa circulava vindo do fim
do mundo. Um ventinho quase nem era nada. Mas apenas o vento andava aí, sem
exagero. Que lugar nasceu para ser o fim do mundo e começo do vento dos quatro
cinco ventos? Tempestade a caminho?
Uma calamidade. Gentes todas
estátuas, bichos tipo empalhados, as coisas pregadas ou coladas ou emperradas.
O que era calamidade pública? Uma realidade.
- O pelo das ovelhas o casaco como
se chama como chamam? Lã.
Lilás saiu pedalando sua magrela
pela rua Placidina de Araújo, bairro Basalto e procurando e olhando a apatia da
cidade. Eram os finalmentes do verão. Acontecimento tudo calado em posição de
sentido respeitoso até demais. Baía de Guajará pedindo vela remo motor
voadeiras catraias escaleres catamarãs iates de alta gama.
Nem havia mais a cidade se mexendo
presumida. O telefone nem uatezápi. O que a menina via da sua magrela panorama
era uma cidade parada no tempo e com os pés de galinha bem firmes no chão no
solo do pago no torrão natal. Pronto, isso mesmo, desenhada pintada esculpida
como estátua monumento casario tombado portas e janelas cerradas. Um município
recomendado com o Caminho das Pedreiras.
- Qual a causa e o porquê, hein?,
meu! Então me é difícil compreender!
Lilás foi de bicicleta, já que nem
havia ônibus, metrô, trem, avião ou mesmo charrete com cavalo de aluguel. E
quando pôs os olhos na cidade, assim paralisada, sentiu o que se sente e viu o
que viu: nem tinha cidade se mexendo, era o fim terminal. Tudo quieto e apenas
aquele ventinho arteiro carpinteiro minuano. Nenhuma formiga-correição nem
abelha mandaçaia-grande nem tuco-tuco irerê murucututu...
Por assim dizer. A menina andava
pelas ruas desertas, abandonadas, desoladas, vendo carros parados no meio da
rua Cacique Guaimiaba, vitrines maravilhosas em lojas de porta aberta. Sentiu
pena da cidade. Viu o tempo sendo desperdiçado à toa.
- Oh, que calma demais! Será o
equinócio passando aí ou o solstício mais pra lá?
Seguiu embora a menina, olhando tudo
que surgia, quando viu a anta e o tuiuiú pastando a grama da praça da Bandeira.
Parou no meio de tudo parado e falou:
- Olá, anta! Olá, tuiuiú!
- Tudo bem, Lilás a menina? -
perguntou a anta.
- Tudo legal, Lilás a cunhantaim? -
perguntou o tuiuiú.
- Lugar estranho, nem é sô?! Nada se
mexe, tudo parado, tudo estacionado, tudo dormindo em pé, tudo estátua -
declarava e continuava a menina. E então encontro vocês e... que estranho
encontrar vocês... assim... sim senhor e sim senhora! Lugar particularmente
parado e firme como poste no banhado, em?! Tem ou nem tem uma explicação? É
preciso olhar as flores dos jardins, seguro!
- O quê? A cidade? - perguntou o
pinante tuiuiú.
- Pois é, gente - dizia Lilás. Eu
nunca tinha conhecido um lugar assim, e abandonado, cidade pela hora h,
paralisada, tudo em estado de espera aguardo. Dá pra sentir o intervalo a pausa
o silêncio urbano da cidade. Parece mesmo outro mundo.
- Que nada, a gente se acostuma -
disse a anta. Ruim que nada. Tá é ótimo. Vou atravessar a rua sem olhar pro
lado fora da faixa de validade. Conhece os índios coripó?
- É, é isso aí - completou o tuiuiú.
Somos donos do pedaço. Nem tem ninguém para nos perseguir e nos pedir e nos
servir. Somos uns poucos privilegiados. Tupã escolhe seus eleitos nobres
privilegiados. Tupã resolve tudo e mais um pouco.
- Já pensou? Morou? - indagou a
anta.
- Deixe assim que assim está bótimo!
Depois de dizer isso, o tuiuiú ou
jaburu deu umas ciscadas, ciscou e ciscou, até encontrar umas raízes brancas
desterradas ou sementinhas perdidas confundidas com terra humosa preta de boa
procedência.
- Sabe, menina... Agora que nós os
animais sobreviventes estamos sós e largados, eu gostaria de te dizer que vou
fundar uma escola de samba - declarou o tuiuiú-coral. E muito batuque! Quer ser
a moça da bateria? Aproveite!
- É uma boa ideia, dou a maior
força, e pretendo prestigiar - apoiou Lilás.
- Essa escola de samba poderia se
chamar: Sobreviventes da Praça Mindubi. Que acha? Aceita? Comparecerá? -
retornou o tuiuiú ou cabeça-seca.
- Sensacional, original. Vá em
frente - incentivou a menina da cor lilás. Estaremos lá quando for a hora,
“tomara que chova... três dias sem parar... tomara que chova... quatro dias sem
parar!...”
- Só falta o chefe o cabeça o líder
o cacique. Estou pensando num comandante carismático alegre positivo pra frente
- discursava a ave gigante pernalta.
- É, um líder é preciso. Quem seria?
- quis saber Lilás. Pode ser o Tira: Tiradentes. Pode ser o Pedrinho. Pode ser
a líder. Pode ser a carismática Ceci: Cecília.
- Eu mesmo, de repente, e sem essa
de modestamente - respondeu o tuiuiú. Sou a ave símbolo e original do Pantanal
Mato-Grossense, nem é?
Mas aí, epa!... Mas pra quê!...
Quando o tuiuiú se autoelegeu líder da futura, e ainda nem inaugurada, escola
de samba Sobreviventes da Praça Mindubi, a anta berrou, zurrou,
“ror-ror-rooor!...” e mugiu, “mu-mu-muuu!...” discordando, é claro.
- Nem concordo - disse ela a anta
tapirídea. Nem mesmo concordo. Sabe, amigo tuiuiú autóctone do Pantanal
Sul-Mato-Grossense, nem dê uma de vantagem que ainda nem chegou o seu tempo. Na
minha opinião, o líder, ou a líder, tem de ser um cara de peso, útil toda vida,
mais herbívoro, que se faça respeitar e que nem coma pescado peixes da lagoa.
- E por acaso você quer dizer com
isto que se candidata, minha querida anta? - perguntou, muito sério, o tuiuiú.
Você está se colocando na oposição?
- Sim, senhor! E eu mesma - replicou
a anta.
- Era só o que me faltava. Deixe de
bobagem. Onde se viu e em que gibi! Anta nem tem talento, cintura, molejo,
requebro. Anta é mamífero perissodáctilo, e ponto - discursou e se contrariou
se contraiu se encrespou todo o tuiuiú, vermelho de nervoso, pegando fogo fogo.
Lilás os deixou discutindo
discursando pregando e foi. A menina nem queria dar mais palpite pitada pitaco.
Logo mais esqueceriam esse assunto e inventariam outro pra poder conversar.
Nada de importante, nada de mais. Nada de nadar de braçada. A importância está
no que se acredita. E são coisas que a memória nem aceita lembrar.
- Ouro Preto capital do Estado e uma
das 7 maravilhas brasileiras do B, sim!
Na continuação da jornada do
caminho, a menina viu uma loja de roupas e calçados e afins. E tudo parado
justamente pegando pó. A dona da loja, a atendente, todos parados, manequins
imobilizados, uns sentados outros em pé. Parados e fixos olhando uma coisa ali
na frente diante deles e nada. Era até engraçado. Era até meio assustador. Era
até mesmo horrível e extraordinário. O mitológico cainamé? Incompreensível e
transformador. Uma paisagem lunar. Sem raça humana?
Ao virar a esquina deu de cara com
um cara esquisito ou aloprado inverso:
- Opa, o descuido!
- Opa, sem querer!
- Conheço o senhor de alguma banda,
pois nem? - perguntou Lilás.
- Claro...
- Claro que sim?
- Claro que nem. Ninguém me conhece
na realidade na verdade bem da verdade. Me apresento agora e honestamente: sou
profeta, me chamo o Profeta com P gigante.
- Ah, já nem ouvi falar! Sou a
Lilás! Venho da ilha Combu e gosto de chocolate. Porém sem açúcar artesanal e
natural, é.
- Também nunca ouvi falar de nenhuma
Lilás. Nunca a vi mais gorda ou magra ou talvez. Mas nem se decepcione e antes
de casar, sara. Já embarcou navegou velejou rio Ia abaixo rio Caburaí acima,
uma vez? Sim, é possível! Eu navego muito e conheço pouco e conheço muito e
navego pouco. Já ouviu dizer de Neópolis e Novo Repartimento e Teotônio Vilela?
Tu foste penedense de Penedo, a grande pedra?
- Esperança que é a última que nos
abandona - lembrou a menina.
- Quem espera sempre alcança e como
lambança a balança vaivém!
- Sei. E o mundo parado. Você viu?
Onde nós estamos, meu?!
- Bobinha. Saco vazio nem para em
pé! Quer almoçar comigo? Deixe pra lá a riqueza o apogeu o requinte o luxo. O
teatro da Paz foi feito para ser construído em Olinda em 1 ano e meio, sabia?
- Convidou, pagou! Simboralá!...
- Certo e vambora!... O difícil se
faz hoje; o impossível, amanhã!
- Já ouvi dizer. Quem escreveu esta
daqui: “altas precipitações pluviométricas são grandes e muitas chuvaradas
chuvas”, hein?!
- Corpo são em mente sã! O que quer
comer? Tapioca com bolo de fubá? Tapioca com doce de abóbora? Tapioca com açaí?
Tucumã com tapioca?
- Sorvete de açaí de pitanga de
abacaxi, pipoca caramelada salgada doce, salada de frutas da Amazônia, água de
coco, pupunha...
O Profeta era um legítimo autêntico
profeta pensador estudioso cientista sábio pesquisador. Ficava e gostava de o
tempo todo dizer verdades, ditos e profecias. Muito consciente do mundo ao seu
redor realista. Trajava pobre, como um mendigo esfarrapado pedinte, e via longe
lá no horizonte distante longínquo. Era de cabelo desgrenhado emaranhado
amarrado estopa em rabo de cavalo, roupa amarrotada, tênis soltando a sola e
sem cadarço. Mania de levar sempre junto de si um cajado ou bengala para se
apoiar na subida na descida, conforme. Nem gostava de frio ou de uma chuvinha
de vez em quando nem nada de nadar era do seu agrado sagrado do seu estilo.
- Onde vamos comer alguma coisa,
Profeta? Oiapoque cidade AP sendo o 1380º município mais populoso do B e a
1645ª maior economia, juro!
- No melhor hotel da cidade, o
Caleidoscópio. Lá ainda tem coisas na geladeira. O mundo paralisou mas a fome
continua. Nem nunca te falei mas porém o rio Amazonas é meio de locomoção e
transporte e tem regime quase inédito sendo pluvial e também nival.
- Bom, muito bom. Assim se precisa
pensar duas vezes, né?!
- Outra coisa deixa dizer e antes
que me esqueça: sou vegetariano ou até vegano, se D quiser!
- E Ele há de querer como sempre
desde o além até o aquém daqui pra lá de lá pra cá e em todos os tempos quer e
quis e quererá.
Foram para o restaurante do hotel
Caleidoscópio, prédio na esquina desmobilizada avenida logradouro Boulevard
Castilhos França com a arborizada via Visconde de Maracaju. O mundo paralisado
parado só vivia de personagens soltos ao léu. E os dois se instalaram na ampla
cozinha higienizada asséptica bem arrumada. Descobriram, prepararam e comeram.
Uma fome profunda, “nhame! nhame!...” batatas-do-rio assadas e
ameixas-do-brasil doces e araticuns-de-espinho maduros e amendoins-rasteiros em
cartuchos... E comeram muitos vegetais, taças de saladas de frutas, doces
agridoces coloridos diferentes, palmitos da inajá, castanhas-do-brasil...
Depois descansaram, fizeram a sesta,
cochilaram na beira da piscina azul infinita paisagem panorama monte Karupina
em o horizonte da serra do Imeri. Caíram de corpo esticado numa sesta longa e
lenta e bacana. Por vezes poética. Por vezes suspensa no ar.
E logo logo veio a noite temperada
de estrelas, umas até cadentes, os astros corteses gentis cordiais educados
polidos atenciosos e até mesmo iluminados. Constelações em formas infantis de
brincadeira desenhos artísticos pirotécnicos.
Nem optaram por sair do hotel
Caleidoscópio, ficaram, e assistiram um vídeo, um filme, uma história
alucinante de aventura, e pipoca perfumada, é claro. E retornaram os tais e
quais os bocejos, “ofe! ofe!...” e o mergulho nas almofadas fofinhas. E o
mergulho no mundo do sono. Nem consultar imeios.
- Vamos nos recolher ao berço,
menina. Eu costumo me hospedar no 1616 ano da inauguração fundação de Belém. O
seu você mesma escolhe e por conta própria. Nem fica assistindo tevê até mais
tarde, tá certo?!, recomendação.
- Pode ser no quarto ao lado. Eu
fico no quarto ao lado pegado.
- Falou. Boa noite. Tenha os sonhos
que preferir e a sua escolha.
- Idem e ibidem.
- Ilha Brigue ilha Curuá ficam no
arquipélago do Bailique em AP, confirma?
- De que em que se troca o bandeirão
sempre hasteado lá em Brasília? De uma vez por mês de tempo, te digo!
- Bem mais alto que você.
- Bem mais forte que ocê.
Tarde da noite, madrugadão, Lilás
acordou ouvindo passos pelo corredor do hotel, “toque! toque!...” se ouvia e
nem se via nada. Os ruídos, “toque! toque!...” dos passos vinham do corredor ou
da imaginação? Procurou entender aquilo, pensou que fosse o Profeta, e levantou
para ver ao vivo. Espiou abrindo a porta e viu um fantasma miraculoso. Ela
sabia de fantasmas? O fantasma sabia dela?
Era uma alma um véu branco sobrando
soprando ao vento à brisa e que aparentava brilhante de uma velha e baixinha
senhora antiga. A menina, então, assombrada trancou a porta os pelos do corpo
todo em pé eriçados ouriçados. Mesmo assim o barulho da tal coisa incomum
prosseguiu, cada vez mais perto e grosso e fatal. Uma alma barulhenta: quem já
viu? Um espírito insone: quem já presenciou?
- Que vou fazer? Que posso fazer? -
se perguntou baixinho a menina. Uma vez eu já vi isto em algum outro lugar mas
nem me lembro. Duvido ou nem duvido?
Segundos depois a maior surpresa.
Grande surpresa. Surpresa de fato. A aparição - se se sabe lá o que era aquilo
-, a alma de alguém fidalga ou algo, atravessou o umbral da porta aberta do
quarto da menina assombrada incauta inocente purificada.
- Que que é isso, meu! - exclamou
Lilás, arregalando os olhos até nem poder mais. Quê... o quê... quem... de
quem?!... in-com-pre-en-sí-vel!...
- Quem sou? É isso que a menina quer
saber e me pergunta? - falou a alma do outro mundo paralelo extraordinário.
- Pois é, quem.... Quem é você? O
que quer? Como? E por quê?
- Sou a fantasma do hotel
Caleidoscópio, meu lar. Sou hospede desse hotel desde muito tempo. Aqui mesmo
morri parti e estou morta e mal enterrada. Sempre estou com saudades destes
corredores e cômodos e quartos. E como fantasma alma errante espírito solto
saio vez e outra a passear. Agora passo as noites aqui e a andar, me
distraindo, a pensar a meditar... Mas nem tenha receio, nem tenha sustos, pode
piscar os olhos, eu nem mordo eu nem arranho eu nem escravizo eu nem
hipnotizo... Estou alma e vapor, é.
Lilás fechou a boca, engoliu seco,
piscou os olhos e na sequência perguntou:
- A senhora é... uma senhora dona
madame?
- Ah-eh-ih-oh-uh!... ih! ih! ih!... -
riu a alma, riu com gosto de alma penada. Eu existo? Se eu sou eu e estou aqui?
Essa me pegou desprevenida. Essa é boa, eh eh eh!... Oh oh oh!... Acho que nem
nada a ver, né?!
O riso frouxo da alma penada ou
despenada era um riso sem corpo, portanto sem boca, sem dentes, sem
matéria-prima, sem ressonância, sem graça ou desgraça. Sim que se ouviam os
sussurros as falas as gargalhadas da sombra mas a coisa em si era mesmo fora do
comum e da realidade. Estava e parecia estranho surreal. Nem nada de coisa com
coisa concreta algo assim sem pé nem cabeça e andando ou acontecendo. Nem dava
pra ver direitinho. Só um vaporzinho uma cerraçãozinha patética tipo fumacinha
ou nem isso. O corpo da velhinha (era realmente uma senhora idosa?) restava uma
miragem na forma de pessoa, uma ilusão também sem cheiro, uma aparição azul em
forma humana e quem te viu para quem te vê.
Essa velhinha, essa nebulosa, quase
quase o quê, esse essa fantasma na verdade levitava como sopro de fumaça de
cachimbo, uma cachimbada das boas e num lugar proibido de fumar. E sem aquele
lençol branco e outras coisas tradicionais paramentos como ferramentas
enferrujadas arrastadas ferragens e outros bagulhos e barulhos horripilantes
arrepiantes, etc., tipo escrava acorrentada e enfeitiçada condenada.
- Quede os apetrechos as roupas as
lanternas as madeiras estalando, senhora?
- Que nada, neném! Isso é tudo
folclore. Nada disso passa pelo real e fiel e hoje em dia. Uma fantasma de
verdade é como um sopro, uma ondinha de fumaça azul e só apenas somente. Uma
fumacinha e olhe lá. Se tiver vento, nem fumaça e sem fantasma.
- Mas assim, bem explicado, nem
assusta ninguém e é difícil de acreditar. Somente uns, toque! toque!... é muito pouco, é pouco demais. Fica muito vago.
- Os acordes de, toque! toque!...
vêm dos tamancos que carrego para me prender ao solo. São como âncoras. São
como raízes.
- Você... quer me dizer se os as
fantasmas molham na chuva?
- No meu caso eu prefiro os tamancos
de madeira. Por causa do piso frio, é.
- Legal e g de genial.
Aí a menina multimencionada Lilás
perdeu um pouco o fio da conversa, o tal fio da meada, a velhinha fantasma
pensou um pouco, pensou com seu pensamento feito de fumaça caprichada
nuvenzinha, resolveu resolvendo depois:
- Pois é. Mas... me responda e me
diga. Você quer dar uma volta comigo, passear pelo hotel, espairecer? Sinto
tanta falta de um papo gostoso, de um sopro novo e amigo. Gostaria de olhar a
lua e conversar com alguém, topas? Tem um parque Cabo Orange aqui por perto um
rio o rio Caciporé território nação dos índios pimenteira, vamos nessa?! Uma
rua avenida Brandão formosa casario bonito funcional social arquiteturas,
aceita? A terra firme o vento calmo pacato e um que quedemais!
- Adoraria! Vamo nessa que é bom à
beça!
- Então... simboralá, comadre minha!
- Descemos pelas escadas ou de
elevador?
- Subiremos até o terraço. Nem sei
até onde esticará o horizonte. Vamos olhar o céu noturno e voar... oxalá!
Lilás seguiu o brilho rasto da
fantasma pelo corredor, depois o elevador, andar por andar subindo, até o
terraço. Quis pegar na mão dela, mas nem havia mão alguma. Era uma magia
absurda, isso sim. Uma sensação de espírito folgado. Embora tudo bem.
Já no terraço, sentadas ao redor da
piscina, noite calma, tranquilas, sem frio, olhando horizontes meio distantes e
tal, admiravam as estrelas, os prédios, o trânsito lá embaixo todo parado, etc.
Nem corujas nem bacuraus nem morcegos, somente o globo platinado da lua em
suspensão num fio suspensa. Raros raríssimos movimentos pelo mundo. Universo
imenso infinito perfeito vazio inexplorado dorminhoco.
- Que coisa, nem?! - comentou a
fantasma senhora. Eu, em?!
- O quê? A noite? A lua? A rua? -
perguntou a menina, sem saber o que a velhinha queria dizer exatamente.
- A estrela a sorte o rio a estrada
o caminho. Tudo é uma coisa só e muito estranha e vagal. Antes eu tinha corpo,
agora sou ainda somente uma fumaça. E isso é estranho ou muito estranho. Logo
logo aqui um dia ensolarado sem as nuvens habituais.
- Como se chama a capital do Estado
de São Paulo? São Paulo.
Assim, Lilás aprendeu que também
fantasmas pensam. E sopram e andam e espairecem e interpretam. Tal e qual como
as pessoas de carne e osso e cabelos e relógio no pulso. E podem ser
fantasmagorias iluminuras artes iluminadas imagens luminosas aparências
quimeras de Coruripe, São Sebastião, Igreja Nova, Piaçabuçu, Brejo Grande,
Califórnia, Faxinal. Nem muda muito de mudar, pra falar a verdade.
- Uma pergunta - falou Lilás.
- Chute.
- E a senhora já pode voar sobre a
cidade? Digo, sobrevoar? Do ponto de vista de... uma coruja corujão-orelhudo ou
sabiá-barranco, por ex?
- Claro, que dúvida! Quer me ver
pelas costas, é? Quer me ver de drone ou de pandorga ou de balão de gás?
- Outra coisa, dona senhora... Todos
se tornam fantasmas depois?
- Nem, nem todos. A maioria volta
logo pra terra outra vez. E viram em plantas em animais em outros seres, etc. O
mundo é pequeno porém nem simples como parece à primeira olhada, tá entendendo?
- E essa história esse negócio de
sócios o céu o inferno o paraíso?
- O céu é para poucos e bons e boas,
o inferno é para alguns e algumas, o paraíso é para quem tem fé e crença. Fecha
a conta.
Um morcego parente dos ratos-de-pentes
desceu da noite e veio ali se aboletar a um metro e comendo sementes de abóbora
ou amendoins com casca e tudo. Depois, vendo um pequeno público, tirou da bolsa
a tira colo um violão afinado um cavaquinho e ensaiou uma música de baile
alegre dançante ligeira ovante vitoriosa. Tocou muito bem, obrigado! Um
morcegão de capa impermeável olhos esbugalhados e sombrios.
- Parque do Utinga/Camillo Vianna
inaugurado em? Belém.
A velhinha fantasma fantasmagórica se
lembrou recordou coisas com os olhos parados no tempo no espaço no horizonte na
linha do céu com a terra... E convidou a Lilás para ser seu par numa
contradança. As duas rodopiaram, rodaram e flanaram à beira da piscina. O som
do violão era afinado e limpo e simples... “tre-tri-tru!...” “pre-pri-pru!...”
e dedilhado com unhas de sobra, “vre-vri-vru!...” E raro momento se fosse que
desse pra registrar fotografar e autorretrato curtir mandar aos amigos parentes
fãs.
- Isso já me lembra dos meus bons e
passados tempos nada olvidados. Eu arrumava namorados a três por quatro. E que
gentilezas... Pará é 1 das 27 unidades federativas do B e paraense ou parauara.
E o que é saudade? O que é tempo perdido?
- Conte uma história com este tema,
por que nem?!
- Nasci em Feliz Deserto, saí para
estudar em Santana do São Francisco, me formei e casei com um cara de Ilha das
Flores. Depois...
Foi uma ou foram duas horas e Lilás
achou de descansar um pouco. E se recostaram numas cadeiras espreguiçadeiras.
As nuvens passavam por cima e eram poucas e sofisticadas. As horas um pouco
afobadas. O tempo um tanto banal, oxímoro.
- Quantas piscinas olímpicas o rio
Amazonas despeja e deságua no delta marajoara em cada segundo de competência?
Hipérboles.
Amanhecia e o vento levantava poeira
e mais nada. O vento tem a ver com as chuvas. Os prédios se descobriam ao sol,
as árvores, os carros parados por tudo que era canto, as pessoas de pernas
estendidas e braços estendidos no ar, tudo paralisado e quieto e parado e
bairro Curió-Utinga e bem firme na terra de Pindorama. Sim, era verdade. Sim,
os homens as mulheres atônitos no mesmo lugar. Dia como uma fruta verde no pé.
Feriadão páscoa quarta-feira de cinzas e dia da cidade emancipação.
- Da cidade região metropolitana
(rm) é oitava mais populosa da Amazônia e a trigésima oitava do B e a
trecentésima octogésima terceira do planeta.
- Qual a vitamina proveniente do sol
e dos raios solares? D.
Pois tudo isso tinha um preço de
mercado e haver peso. Na horta e lavoura temporárias eram recolhidos
principalmente arroz (100 mil toneladas), abóbora, mandioca, milho,
couve-flor... Agora na horta cultivo permanente se destacava a produção de
bergamotas (3 mil e quatrocentas toneladas), banana, maracujá, coco, abacaxi,
melancia... Dentro da aquicultura de água doce foram selecionados aos
mostruários aquários públicos 2.600.480 exemplares tipos entre as espécies de
peixes, tambaquis, matrinxãs, bagres-pintados, pirararas,
peixes-agulhas-d’água-doce...
Lilás acordou ainda na cadeira, olhou
pro lado, olhou pro outro e nada da claridade lume do espírito fantasma. A
encantada procurada encantadora velhinha senhora tinha sumido e desaparecido.
Ela e seus tamancos, “toque! toque!...” Desaparecera sem dizer: “água!...” ou
“terra à vista!...” ou “gooool!!...” ou “té um dia!...” ou “jota fui!...” E sem
citar um verso bitonal bitonalidade e bitransitivo.
- Eu já estava me tornando uma fã real
da boa senhora, é. Mas tudo bem e um passo de cada vez. Me comporto bem? Nem
vejo vantagem nenhuma em morrer - tudo isso pensou alto falou sozinha
solilóquio desabafou com seus botões da blusa, a guria.
Multimilionária, multi-idiomas,
multifacetada, multinacional, multiplicada e ela mesma então desceu com o
elevador e foi à calça da rua central Borges de Medeiros. Subiu a rua, rua de
carros parados, pessoas paradas, estátuas. Descobriu mais uma loja toda de
vitrine espetacular e abandonada. Cidade do equilíbrio paisagístico ecológico:
construções e preservações e restaurações. Nada eletrônico funcionava.
- Quem me dera ter o celular ouvindo
música sem parar, hem?!
Na altura da rua Uirá com a avenida
Presidente Vargas, justamente com música nos ouvidos do pensamento, a menina
percebeu que alguém a chamava, gritava, chamava por ela. E procurou identificar
de onde vinham aqueles apelos, gritos e berros e aleluias. E vinham sim. Vinham
de uma mansão, a poucos passos do passeio público, entre palmeiras comportadas
de batauás e árvores frondosas de pitiás e arbustos remoçados de caiatés-açus e
ervas renovadas brilhantinas-dos-telhados... Motivada mobilizada, foi até lá.
Ansiosa esperançosa, foi até lá.
Chegou perto do jardim arborizado e
balançante agitado ao vento e olhou lá pra cima, lá pro alto da ponta do prédio
de sete oito andares. Do alto vinham uns miados e chamados e murmúrios e
resmungos. Deu pra ver mais ou menos, se escutou assim-assim, tal e qual se
ouviu alguém berrar e alardear e alarmar:
- Ei, ó, olhe aqui! Ei, você, venha
cá! Tá me ouvindo?! Terráquea!
No alto do prédio empoleirada e
espiando pela janela aberta uma guriazinha espetacular, braços e mãos
desenhando coreografias rápidas inovadoras, fazia de tudo para ser notada e
percebida e mesmo gritava rugia cantava cantarolava:
- Ei, você embaixatriz ali embaixo no
chão no estacionamento do térreo! Olá!...
- Sim, o que foi?! O que deseja?! -
respondeu a Lilás embaixo na rua e gritando.
- Pode vir até aqui?! Sobe até aqui!
Preciso falar contigo! É urgente! - gesticulava e falava a guria personagem com
as mãos em concha na boca.
Lilás entrou no prédio, subiu oito
ou nove andares até entrar no quarto da menina implorativa solicitante. Pegou o
elevador admirando os números se alternando no painel luminoso. Entrou. Achou.
Viu. Conferiu.
Daí, as duas menininhas se encontraram...
se olharam... se cumprimentaram com garbo e entusiasmo trocaram de nome
telefone sobrenome pré-nome:
- Eu sou Lilás, pessoalmente.
- Eu sou Tocandira, a solicitante.
Sabe soletrar? Fique sabendo que sou natural de Pará de Minas, já ouviu falar?
Já visitou a ilha Caratateua ou Outeiro? Provavelmente que fica perto,
compreende?!
- É, mas eu conheço o rio Aurá.
Conhece? Reconhece?
- Juro que meu celular nem funciona,
e isso há dias.
- Pois é. Nem sei o que acontece com
o mundo ou meio mundo. Hoje é assim.
Foram conferir o ponto de vista que
tinha da janela e a serra do Acari. Um lugar muito alto que dava pra olhar
muito longe na cidadezinha e lonjuras. Era tudo muito parado, já se sabe. O
mundo parado. Poucos pouquíssimos quase nada de personagens no mundo. Elas ali
conversando na paisagem pintada parada e mas porém bem pintada bem paradinha
anestesiada. E trocando umas ideias que vinham na cabeça e isto:
- Que livro você tá lendo? Tem tempo
pra ler? Você gosta de ler ou folhear revistas? Prefere ler ou assistir vídeo
no iutube?
- Eu leio um pouco e outro pouco eu
olho as figuras e observo as legendas. Depois eu escuto música e olho a
internet. Hoje é feriado e a web está de domingo. Eu nem sei o que fazer com
esse mundo parado intervalos comerciais. Você está passeando? Você está indo
pra donde? Você já conhece já pesquisou caiapó-quicretum e Marituba e rio
Cauaburi ou mais além? Tem festa sacra na praça Batista Campos?
Lilás tão galante e atualizada nem
perde momentos de conversa nem perde respostas nem deixa pra depois e pergunta
responde respondeu:
- Estou passeando e olhando o que
resta pra olhar. Tá mesmo tudo parado e desorganizado. Queria voar de
parapente, conhece? Tem gente que tem sorte e voa.
- Por isso te chamei. Preciso tanto trocar
ideias com alguém! Bem, aí os dias foram passando, passaram as semanas, um mês,
dois meses... O tempo é isto e mais?
- Precisaria de um detetive para
investigar esse mundo estacionado, né?! Quando eu penso muito eu já imagino
milhares de kms e rios navegáveis e ilhas e atóis...
- Eu gostaria de ser detetiva. Pelo
menos parente de detetives.
- É uma. Eu mesma queria entender de
geografia, hem?!
- A gente poderia fazer uma dupla.
Uma mais inteligente e outra menos inteligente, uma mais esperta e outra um
pouco louca. Daria certo. Uma faz perguntas a todo momento e outra responde com
eficiência e ciência de acerto, tá ligada?!
- Eu gosto das detetivas que
investigam os mínimos detalhes, é. Às vezes acham coisas muito boas ou muito
legais ou muito engraçadas. Uma maravilha.
- É, seria bom. Ninguém sabe de
coisa alguma. O pior vem no primeiro capítulo, depois vai que vai. Acho que
investigação é melhor que pesquisa, você manja?
- É uma detetiva ou uma detetive?
- Pois tem o policial e a policial.
Que podem ser detetives, detetivescos(as).
Mais um pouco e Lilás e Tocandira
sentaram no chão. Ficaram folheando alguns livros com capa dura e histórias e
figuras e asteriscos. Umas mais de trezentas páginas.
- Vamos ouvir música? Que músicas?
Que sons? Que ritmos e harmonias?
- Acho que é bom... uns maracatus.
Cara!... É muito bom ouvir frevo. E principalmente dançar frevo axé maracatu
toada baião rancheira bossa nova mpbu...
Lilás já pensava em se despedir da
amiga. Perguntou a seguir e lá pelas tantas e quantas e depois de vasto
repertório:
- Se a gente fosse pedalar pela
cidade paralisada, hein?! É uma. Faz uma cara que nem vou mais ao zoológico!
- Eu tou com preguiça. Acho
melhor... deixar pra amanhã...
- Eu estou com saudades do sol. Eu
acho legal e super g de genial.
Mais meia hora e quase nada, Lilás
se despediu de Tocandira e desceu para a rua. Tocandira quis ficar sozinha com
seu mundo de sonho ou virtual e seu quarto cômodo qualquer no alto do prédio e
ficou. Lilás desceu com o elevador, saiu na rua Caeté. Algum vento soprando as
frondes altaneiras das laranjeiras em flor.
Faltavam 793 dias para o dia 22 de
abril do ano 2000, 500 anos do descobrimento. Quem diria?! E quem descobria? E
quem queria levar pra casa?
- E as abelhas transformam as flores
e seus ingredientes em mel, tranquilamente.
Duas horas em seguida, numa esquina
qualquer da cidade congelada rua Augusto dos Anjos com avenida Abaetetuba,
Lilás se deparou com a Tinguá e Picuá, mãe e filha. Elas estavam em frente de
casa no quintal no pátio. A mãe cuidava de um caldeirão, e a filha pegava no
colo o um mascote vira-lata folgado de cauda balançante e de nome Pingue. Lilás
se aproximou para perguntar e inquiriu:
- Esquentando um sopão, dona Tinguá?
É este o seu nome, suponho.
- Nada como um personagem de ficção
com visão de futuro. Você acertou em tudo, no nome e no produto - respondeu a
boa senhora.
Sem cerimônia, com ou sem
cerimônias, Lilás pegou e se enturmou com a guriazinha mais o cãozinho
serelepe. Brincaram de lançar a bolinha de tênis e ver o guaipeca pegar, correr
atiçado e pegar de volta. Sim senhor! Depois corriam dele, ele latia, botava a
língua, se escondiam, o cãozinho achava, etc., o cusquinho se escondia elas o
achavam, e assim por diante. As que gritavam e o que latia, “au-au-au!...”
A Tinguá recomendava os cuidados de mãe
pedia isso e aquilo dava as gargalhadas, ria, “ahahah!... ah ah ah!...” e
sempre envolvida no vapor do sopão. Alguns passarinhos vieram conferir e ver de
perto ali pousaram nos galhos secos do pé de tauari e ficaram espertos
observando saltitando famintos curiosos. Nem demorou muito a mãe chamou a filha
a convidada mais o mascote:
- Filhinha! Venham cá. Chegam mais
as duas os três.
- Que que há do verbo haver, mãe?!
- Preciso de uns temperos pra
condimentos e molhos e etc. Quero que vão a um supermercado buscar pra mim. É
coisa importante, é urgente, deve de ser rápido.
- Diga lá, diga como e já disse o
quê, disse logo!
- Quando ir, quando chegar e o que
encontrar, o que fazer!
A mãe mandou escrever no caderninho
de anotações de bolso recados agenda:
- Vou precisar de... anooootem:
feriado, festa, missas novenas ladainhas, procissões, desfile, marabaixo,
cantos e batuques, passeatas, mais algumas encenações teatrais ao ar livre,
bailes populares caipiras típicos quadrilhas, fandango, carimbó, danças
rituais... Acho que é só. Ah!... mais uns ingredientes que nem podem faltar,
bandeira, brasão ou escudo e hino, tá legal?!
- A gente pode tomar sorvete ou
picolé?
- E vão num pé e voltem noutro. Vão
e voltem num pulo.
As duas meninas tão galantes
embarcaram nas magrelas, botaram os capacetes, e chisparam pela rua, na
avenida, no paralelepípedo, na sombra do palácio Azul, quase tão rápidas quanto
o vento que levantava folhas secas e poeira e cisco. Que o cãozinho tentou fez
de tudo para ir atrás, muito correndo e alegre festivo empolgado brincalhão,
até perder as forças as pernas o fôlego. Quando as ciclistas deram conta já
viam e viram o prédio do super, a Picuá deu ordem e mandou:
- Estacionar naquele estacionamento
ao ar livre!
As duas entraram no supermercado
Jacutinga, capacetes atados à cintura, e foram logo escolhendo as compras
tradicionais: metal, couro, cortiça, madeira, plástico, vidro, borracha,
cerâmica, tecido, fibra, basalto...
Como se pode compreender, nem havia
vendedor, nem havia dono, nem proprietária, e mais ninguém na loja. Tinham,
portanto, tudo à mão e à feição. De frente pro negócio, lógico, sem ter a quem
pagar, as duas se baldaram, se esbaldaram, se maxibaldaram. Que o mundo é
pequeno mas sem ninguém pra cuidar fica enorme.
- Olhe, Lilás! Prove desse chocolate
sem açúcar. Su-ces-so!...
Tinha de tudo ali e dentro do prazo
de validade. Somente nem se encontrava o que nem havia sido inventado e ou
produzido. Um pouco de sorte e tudo estava bom.
- É caju com suco de limão, meu!...
- E este é o sorvete de marimari!...
Nem mesmo pensavam em outra coisa,
queriam ver tudo, provar o máximo do consumo, olhavam com as mãos. E reviraram
todas as prateleiras, artesanatos e biojoias de conchinhas de palha de sementes
de madeira... encheram o carrinho os bolsos.
- Vou carregar o que tiver. Prefiro
balas de goma.
- Vou levar o que puder. Prefiro
paçoquinhas.
E foram, iam de corredor em
corredor, aqui e ali, procurando ver os ingredientes que faltavam, olhando
tudo, tocando tudo, conversando sem parar, elogiando as ofertas as opções os
preços a qualidade a procedência, seção de cama mesa e banho, seção dos
brinquedos e jogos, seção das ferramentas e utensílios, seção das prendas e
roupas...
- Este é originalmente de onde?
Mojuí dos Campos.
- E mais de todas as suas
cidades-irmãs.
Depois se encontraram, e se
acomodaram, na seção de produtos de beleza e para cabelo pele sombras brilhos
tons cores... Foi outro pânico nos olhos. Aí sim as duas piraram de vez,
amoleceram os braços as pernas e se sentaram no chão para curtir.
- Olhe esse batom, uau!... Gente!...
Tem gosto e sabor de... cacau na chuva! - alucinava a Picuá.
- Hum!... Ah, e esse perfume...
estou levitando... é de beldroegas, é de lilases... ui! - aliás, sorria feliz a
Lilás.
- Perfume de lilases? Combina com a
sua cara, querida amiga!
- É, nem sei o porquê da questão.
Alguém me belisca.
- Aaaaah!... Olhe esse quite de
maquilagem! Vou levar. Nem é todo dia que encontro algo assim e em oferta. Tá
decidido.
- Nem nada jamé! Afaste isso tudo de
mim! É muita tentação!
- Para o cabelo, para a pele mais
macia, sombras, etecétera.
- Me acorde e me desperte, por
favor!
Anoitecia quando voltavam, pedalando
lentamente... rua Barão de Marajó e bairro Itapeba em Maricá. No horizonte já
caindo o sol a serra do Mendanha e o maciço do Gericinó, pontos turísticos
ecológicos sítios de trilhas e escalaminhadas. O cão Pingue veio encontrá-las e
feliz bem giz coisa e tal. Em casa as aventureiras entregaram à mãe todo o
pedido, item por item, de a até z, de fio a pavio, da popa à proa:
- Hum!... Vamos ver... isso...
aquilo... o outro... é, tá tudo aqui. Obrigada, minhas meninas! Missão
cumprida.
Com os produtos nas mãos, a Tinguá
foi ao caldeirão dar continuidade à sopa sopão substancioso. Colocava uma coisa
lá dentro e mexia, rindo, engraçada, “ah! ah! ah!...” Acrescentava um sabor de
pimenta-do-mato, um dente de alho, um pozinho de guaraná ralado e mais outra
coisa... e sorria como sempre já antevendo prevendo o sucesso, “eta! eta!...” A
fumaça subia para o céu noturno, até a lua, as diferentes divisões da
atmosfera, alimentando estrelas, empanturrando cometas de vassoura, capitanias
gerais províncias Estados... O cãozinho Pingue descendente em linha incidental
dos cachorros-do-mato-vinagre, uivou pra dona lua, “cauuum! cauuuuum!...”
- Se aqui é noite em Marilândia do
Sul também é.
- Se o mocho-dos-banhados sonora de
noite o uiraçu assobia de dia, é.
As meninas foram dormir, e
precisavam. Volta e meia Lilás ouvia, e achava estranho, os ruídos soltos que
vinham da rua da avenida do bairro das plantas. Estranhas imagens invadiam sua
cabeça, figuras carnavalescas povoavam seus sonhos e fantasias, desfiles de
festa e missa e procissão e arraial e contradanças em pleno baile bailão com
casamento na roça o moço convidando a moça. Nem podia ser mas parecia antes bem
antes no tempo dos cacicados complexos entre os índios baníua a ilha de Cotijuba
os caboclos os mamelucos antes ou pouco depois do descobrimento do B, etc. Era
uma multidão enormidade de ideias e sonhos e desejos que vazavam desde o
inconsciente.
No dia seguinte as duas meninas
acordaram com planos e aventuras e sagas e histórias e expedições e excursões.
Viram a Tinguá estirada na rede, na varanda ou sacada, a resonar, “rom!
rom!...” muito cansada ou ainda cansada. A seus pés o cãozinho também relaxava
e curtia uns raios de sol nascentes. Voavam outros pássaros trabalhavam andavam
labutavam outros bichinhos pelo pátio, sapo-martelo, sauins-de-coleira,
rato-espinhoso, caiararas-brancos, ouriços-pretos, sanãs,
beija-flor-preto-e-branco... mas sem dar notícias do mundo aos homens e
mulheres e afilhados.
- Vamos passear de bíci? Tá um dia
como outro qualquer - sugeriu Picuá.
- É, é uma. Uma muito que ótima,
bótima.
- Faz um tempão que nem faço isso de
andar por tudo e passatempo!
- Vamos nessa, então. Chegou a hora.
Tô adorando! Tô precisando!
- Vamos até a ponte Hélio Serejo, sobre
o rio Paraná.
- Vamos até a ponte rodoferroviária
Rollemberg-Vuolo, entre sp-mt.
As meninas pegaram das pedaletes
quase voadoras e chisparam. E
pedalavam, pedalaram... nossa!, como pedalavam... parecia que iam cair e
derrapar e resvalar na brita da próxima esquina. Que nada! As duas eram muito
velozes e profissionais. Volta e volta e meia, mercado de São Brás, lado a lado
e apostando carreira... “vru-uuuu!...”
- Apesar do B ser muito de clima
tropical, o Pará (Estado) é de equatorial.
Entravam numa rua ali por trás do
cemitério, era a estrada Buarque de Macedo, depois a rua 7 de setembro, uma rua
coberta de flores jacarandás-cabiúnas e rua Bannach, descendo o morro da famosa
praça Castro Alves, freando na descida que o morro era alto e a velocidade era
descontrolada, faróis lanternas ligados o tempo todo.
- Olhe o Horto, Lilás! Lá o perigo
anda à solta e é grande. Pode ser ou nem ser, mas acredito que muitos animais
grandes e ferozes foram se esconder ali. Vivem como se nem houvesse amanhã como
se estivessem na floresta como se fosse o pantanal mato-grossense, em estado
primitivo, selvagem, predando, caçando e sendo caçados.
- O quê?! Nem me fale e nem me diga,
guria!
- Oi! Eu digo e provo. Comem, capturam,
se escondem, se protegem, correm, etc., procuram fazer o dever de casa. Os
grandes comem os pequenos, e os carnívoros papam os mansos, igual de antes,
como sempre foi, como se vê no documentário da tevê, uns com fome outros
famintos. Impera aquela velha e batida lei do mais forte. Grama alta, mato
fechado, água cristalina, cavernas e esconderijos. Uma selva com floresta com
mangue com igapós e banhados.
- Mas que perigoso! Mas que cercanias!
Mas que periferias! Mas que faxinais!
- E vivem convivem onças-pretas,
jaguatiricas, gatos-do-mato, lobos-guarás, sucuris, jacarés-de-papo-amarelo,
muriquis, macacos-prego e mais macacos, muitos micos, tamanduás-bandeiras,
tatus-canastras, mais cobras e lagartos e lagartixas e lacraias, peixes de
muitos estilos de nado e tipos de couro de escamas e aves aquáticas
arborícolas... e realmente muitíssimos insetos aos milhões zumbidores,
zuim-zuiiiii!...
As duas meninas entraram pela
estradinha do Horto e foram lá pro fundo do mato do capão grotão cafundó. Era
tudo mato e mato bem fechado. O vento sacudia as copas das árvores muito
lentamente, corticeiras-da-serra, frutas-de-burro, milocas, jardineiras,
piripiriocas... Quase nem se ouvia pio de passarinho nem se via voos de
borboletas ou besouros ou joaninhas. Quase nem se decifrava o zumbido das
ferozes vespas nem se captava nada assim de extraordinário ou que se pudesse
levar em conta.
Então as gurias travaram as bícis
ali no meio do mato, no meio da trilha. Olharam em volta e se arrepiaram,
exultaram, por pouco nem aplaudiram:
- Que que é isso, meu! - se admirou
a Picuá. Veja esta sumaumeira e que grande!
- Nem tem ninguém para nos receber e
nos guiar e nos informar, será?
- Acho brabo. Nem lembra que o mundo
parou, guria?! Parou, tá parado!
- Credo e vamos voltar, né?! As
histórias nem nunca falam da volta, hem?!
Ficaram aí se coçando, olhando uma
árvore e outra árvore, uma árvore mais alta que a outra, o vento mexendo com as
copas, o sossego, o clima, o espaço, uma erva botão-de-ouro, cipó-d’alho,
caruru-de-espiga, inhame-de-folha-roxa-pintada... e quase nada somente o
silêncio. Estavam no meio do Horto e mais nada. Estavam no mato sem cachorro
vira-lata. Estavam sonhando delirando com a praia Massaguaçu?
A Lilás achou de pensar alto, e sem
celular à mão desarmada:
- E agora? Nem é perigoso andar por
aqui? A natureza é que manda, nem é?!
- Se é! Nem me fale - arrepiou a
Picuá. Vamos nos alimentar de quê?
- É melhor a gente ir embora.
Procuraremos sem pressa uma sorveteria pacífica e aberta já nesta hora, é. Uma confeitaria
liberta de multidão e repleta de ofertas doces.
- Estamos longe de casa, também.
Onde passa e vai o rio Maguari?
- Bastantinho. E temos que cair fora
antes que alguma dessas feras nos tire pra dançar. Já ouviu falar em jurupari?
Já sabe da lenda do saci?
E as duas saíram pedalando na calma.
Voltando pelo caminho que entraram. Saindo pelo portão da entrada. Passando
pela bela ponte do rio Guamá. Olhando para mais além a ilha de Tatuoca.
Gostando imensamente de nem tirar registrar fotos.
- Nem me imagino sendo caçada no dia
a dia por um bicho do mato e predador. Isso nem combina com a minha ideia de
progresso. Seria até sem graça e até ridículo e sem sentido - arrepiou a Lilás.
- E sem contar os mosquitos... Sem
contar bichos rastejantes...
No meio da floresta a lei era da selva
selvagem. Precisavam fugir antes que uma fera pressentisse a presença delas.
Antes que uma onça em perigo de extinção as ameaçasse e com justiça. Antes que
fosse hora de almoço de uma planta carnívora.
- Agora eu imagino quanto pena e
despena um passarinho na hora h e quando um malvado tenta prendê-lo na gaiola -
disse a Picuá.
- Estas coisas ainda acontecem, meu?
Então a guerra continua.
De repente se viram alcançadas.
Foram cheiradas por quatro onças uma de cada cor, quatro irmãs, uma
onça-pintada, uma onça-parda, uma onça-vermelha, uma onça-preta, geminação de
felinas. As feras femininas já vinham de água na boca e babando, “gruuu!,
gruuuuu!...” As feras felinas já trocando orelhas e mostrando os dentes.
- Ah, nem falá! - exclamou Lilás.
- Minha nossa, meu! - exclamou
Picuá.
- Onde estão a polícia o corpo de
bombeiros os paramédicos, gentem!
- E a lei orgânica da cidade e sua
constituição, é pedir muito?!
Eram quatro onças potentes, de
dentes grandes e ótimos, olhos amarelos, olhos amarelos, olhos brabos e fixos,
um corpo felino e forte formoso. Sempre de boca aberta e rosnando,
“grrraaa!...” a cauda batendo no ar sem parar, a língua de fora já sentindo o
gosto da presa da carne tenra, orelhas estalando, “troque! troque!...” Muito
apetite lá com as quatro irmãs de quatro patas e bocarra babando saliva água na
boca sedentas.
- Vamos subir na árvore mais próxima
mais alta!
- Estou me sentindo uma comida um
prato cheio andante ambulante e bípede!
As meninas suavam frio, batiam os
queixos, batiam os joelhos, arrepiavam o cabelo, olhavam em volta pedindo: “por
favor!...” Talvez seria melhor dialogar com as feras, quem sabe! Será que
negociariam? Aceitariam um suborno uma propina uma gorjeta? Será que levariam
em conta a paciência? Nem seriam animais vegetarianos?
- Vamos falar com as feras... Talvez
falando com calma e no idioma delas...
- Você... você brama ruge a língua
delas?
Ficaram ali as duas tremendo
trêmulas meninas abraçadas estáticas sem coragem de dar um passinho pra trás
pro lado pra onde fosse pedalar correr e olhando as quatro onças que
arreganhavam os seus dentes potentes branquinhos feitos de marfim. Quatro onças,
uma do Pantanal outra da Amazônia outra do Pampa outra da Caatinga... (faltavam
do Cerrado e da Mata Atlântica). Que neste exato momento davam os primeiros e
lentos e definitivos passos pateavam, “le-te! le-te!...” em direção às pequenas
duas humanas melindrosas trêmulas medrosas glamorosas.
- Elas querem talvez falar, falar
mais de perto... - observou Lilás.
- Tô ligada. Tô concentrada. Tô
acompanhando. Tô suando.
- Cheias de dentes, pelos bonitos
camuflados manchados de cores...
- Vou correr como nunca, talvez. Vou
sair voando, quem sabe.
- Sim, temos que fazer alguma coisa
urgente e hoje mesmo.
- O quê? O quê, por exemplo? O quê,
por favor!
- Pois é, pedir a sal-va-ção!... E
por obséquio!
E as sedosas felinas iam se
aproximando com o jeito de gatas perigosas, olhos amarelos fixos nas gurias,
felinas, perigosas, bonitas e lindas. Corpinhos de gatas ágeis. Figuras de
álbum ou autorretratos. Figuras de filme. Figuras de safári. Figuras belas.
- Ah, cara, elas nem gostam de
lero-lero bate-papo conversa fiada e coisas desse tipo. Olhe só como balançam a
cauda em atitude de ataque. E vão dar o bote...
- Muita calma nesse minuto...
pe-ri-cli-tan-te!...
- Eu sempre quis morar numa ilha
tipo Urubuoca e comer açaí no pé, sabe?!
Aparentemente nada podia deter as
quatro bem poderosas feras com seus dentes pontiagudos mandíbulas e suas garras
retráteis. As quatro felinas soltas insociáveis eram e estavam donas do pedaço.
Donas do mundo selvagem. Donas de tudo e
da situação. Davam as cartas e conferiam o jogo. Donas das quatro operações
matemáticas. Apostavam jogavam acertavam conferiam e recolhiam as fichas, é.
Que situação, meu Senhor! Que perigo iminente imediato! Que sensação de suar
frio!
- Sou tão mocinha, manhêêêê!... -
foi a Picuá, fazendo no peito uma cruz imissa.
- Vou virar goma de mascar de...
de... eu quero minha mãaaae!... - era a Lilás.
O despreparo tomou conta das duas, e
para sempre. Nem entendiam nada que estava acontecendo e muito. Olhavam o
caminhar das felinas de grande porte, os dentes afiados, as garras potentes
quadradas e... iguais e as mesmas e mais e mais perto. As onças bufavam, “frou!
frou!...” muito próximas e roncando, “ronque! ronque!...” às vezes rugindo,
“grrraaa! grrraaa!...” e nem paravam de avançar, avançar a passos lentos,
torturantes, pedantes pesados... chegando, devagar e devagarzinho, e sempre.
Passos largos, patas grandes. Tão sempre quanto ferozmente. Deixando pegadas
marcas firmes onde pisavam tatuagens no chão de terra fofa. Criaturas de D.
Criadas por D.
- Nem consigo desviar os olhos dos
olhos das feras ferozes felinas.
- Somos a caça, o almoço, o lanche
da tarde, o tira-gosto, o manjar...
- Vou rezar na igreja na catedral na
basílica na capela no capitel e no santuário...
- Vou fazer vou me apresentar em
romaria fluvial romaria rodoviária moto-romaria procissão transladação
recírio...
Nem adiantava mais esperança alguma.
E até ali D nem atendera ou nem quisera ouvir as preces das garotinhas. As
feras já muito perto proximidades das gurias e daí?
- Mas, ah!... A lá pucha tchê!...
- À qual às quais e quê!...
As onças chegavam perigosamente,
muito próximas, e já há algum tempo. Tão perto que as meninas cheiravam as
feras contavam suas pintas sentiam o forte peso do bafo o ronco, “ronque!
ronque!...” dos seus estômagos vazios as línguas vermelhas lambendo os beiços
beiçudos bigodudos. E uma do lado da outra a canguçu a jaguar a suçuarana a
jaguaretê e as quatro avançando personagens protagonistas empoderadas.
Mas aí... surgiu do céu, do chão, do
nada, detrás de uma jaracatiá, e como um raio de relâmpago, mais rápida que um
corisco, surgiu muito rápido mesmo uma mãe com vassoura na mão, a dona Tinguá
com uma arma perigosa na mão, uma vassoura de folhas de piaçaba e caiu em cima
das onças felpudas. Foi um espanto, ora!... A Tinguá espantou logo as felinas e
salvou da carnificina as duas meninas de tenra idade. Tudo muito rápido e
eficiente. E acompanhada acompanhando os ganidos latidos do Pingue,
“au-au-au!...” E como num filme de quinta categoria, foram salvas encima da
risca.
- Simboralá, meninas! Pegam das
bícis e vamos embora definitivamente! - foi dizendo a Tinguá. Sem demora e
demorará!
E as meninas se salvaram das garras
daquelas poderosas e famintas onças de várias cores e temperamentos e
temperaturas. Aliás, as tais onças, que fugiram para o interior mais interior
do Horto florestal, foram correndo e comentando uma com outra:
- Nem acredito... - começou a dizer
a onça-parda, original da serra da Seringa.
- ...que uma simples mamãe... -
continuou a onça-preta, autóctone mandatária da ilha de Maracá.
- ...tenha nos enxotado com uma
vassoura... e mais um cusquinho... - dizia, indignada, a onça-vermelha
habitante ocasional passeadora no porto de Itaqui.
- ...pra nos levar a rica e dupla
refeição suculenta - completou a onça-pintada, natural da beira do rio
Curuá-Una.
- Nem acredito, nem acreditamos!! -
urraram em coro uníssonas uniformes as quatro felinas irmãs gêmeas e preciosas
e manhosas e pertencidas e caprichosas.
É, sim, as onças teriam que procurar
outro repasto outro lanche da tarde. Uma pena para as felinas, uma salvação
para as meninas elegantes. Total: a sorte continua, assim e conforme como o rio
Itacaiúnas desliza vai para o mar. Concorde o destino.
Enquanto isso, pedalando pela cidade
parada no tempo e no espaço, as meninas iam sorrindo, um riso no rosto
denunciando aventura futuro... E o celeste azul com passagens de nuvens brancas
aqui e ali mais altas nas 5 camadas que constituem o céu troposfera
estratosfera mesosfera termosfera exosfera, e a orla de Icoaraci.
- Uau!... Foi por um giz aquelas
tais e quais feras - comemorou Lilás.
- Uai!... Foi por um triz por nós e
por elas as feras - festejou a Picuá.
- Catedral da Sé, uma das célebres
maravilhas brasileiras do B.
- Qual o resultado de uma
multiplicação? O produto.
- O que comem e bebem comidas em
Santa Izabel do Pará? Caruru, chibé, maniçoba, moqueca, tacacá...
- Com que como dançam e festejam
muvuca em Canaã dos Carajás? Marujada e siriá e lundu marajoara e tecno brega,
calypso...
- A coruja-do-mato enxerga de noite
de dia? Enxerga.
- Perto de Mauá da Serra e do lado
de Apucarana com Rio Bom? Tamarana.
É, sim, as meninas tiveram sorte de
sair ilesas das garras das onças brabas bravas. Pois era assim mesmo, havia
aventuras e havia perigos e havia o que contar.
- Uma coisa, dona Tinguá - pergunta
de Lilás. Como foi que a senhora nos encontrou e nos descobriu e nos salvou?
Parabéns!
- Simples. Pingue foi seguindo os
rastos das bícis e eu fui seguindo o Pingue. Só fiquei preocupada em chegar a
tempo e em tempo na hora.
- Toda família deveria ter um Pingue
nos dias de aventuras - concluiu Lilás.
Chegando em casa de Tinguá e Picuá e
Pingue, uma surpresa uma novidade uma nova peça teatral. O que foi? Por toda
parte bacuris, muitos bacuris frutos. Ora, ora quanto bacuri! E bacuris verdes
ou maduros, bacuris pequenos e grandes, bacuris de roça ou de jardim ou do
campo. Uma plantação de bacurizeiros, milhares deles, uma festa de
bacurizeiros, país do bacuri, rechonchudos e fortes bacuris. E pra que tanto
bacuri? E todos os bacuris de bem com a sorte lá deles de bacuris, rindo à toa,
conversando coisas entre si. Bacuris de todo lado, bacurizeiros vindos da ilha
dos Papagaios e da biblioteca Arthur Vianna e mais da praça Siqueira Campos do
território dos tucuju ainda principalmente de Maripá e Floraí e São Carlos do
Ivaí... Eram bacuris nos seus devidos bacurizeiros e se comportando como gente
honesta justa importante.
- Que é isto, dona Tinguá? Que
bacuris bacurizeiros bacurizal é este? - perguntou, pra lá de espantada, a
Lilás.
- São meus bacurizinhos bacuriparis
combatentes, ora esta!
- Como assim? Por quê? Nem entendi.
- Lembra dos ingredientes que vocês
me trouxeram?
- Era pra isto? Era tudo isto? Que
transformação comoção!
- Sim, era pra isto, pra fazer esta
mágica, esta criação, esta plantação de bacuris fruto amazônico. De vários e
variados ingredientes produtos especiarias fiz esta tropa de elite, os bacuris
empreendedores fervorosos.
- Bacuris soldados? Nem entendi, nem
caiu a ficha. E que é isto, meu?
- Bom, explico. São bacuris
voluntários e pra combater o avanço terrível, assustador, avassalador dos
incêndios florestais. Nem sei se você reparou, mas depois que a cidade parou os
focos de incêndio aumentaram e tomaram conta, e se multiplicaram além do
tolerável, bilhões deles. Os incêndios também merecem consideração, mas nem em
tão alto número, entende?! Esse é o papel do batalhão de bacuris: conter a
invasão dos incêndios florestais matagais capoeiruçus.
- E se os frutos bacuris tomarem
conta do mundo? Nem será outra mania?
- Eles têm prazo de validade, nem
poderão se reproduzir e só comerão incêndios descontrolados. Tá satisfeita,
menina Lilás? Pensei em tudo, hem?!
- Nem há como comparar. Parabéns e
muito obrigada! Oquei!
Daquele dia em diante, pelos dias e
noites da cidade acomodada, os frutos bacuris iriam pelear contra os focos de
incêndio em guerras quentes, em lutas noturnas e diurnas aéreas e subterrâneas.
Bacurizeiros plantados aqui e ali acolá em muitos lugares estratégicos. Uma
peleia longa, talvez de anos, mas que tinha tudo para ser vencida pelos
rechonchudos frutos carnudos. E bacuris versus fogaréus.
- Que idioma se fala e um
norte-rio-grandense em RN? O potiguar.
- Qual a capital mundial do bagre-catinga?
O rio Paru.
- Eu mesma olho o sol a lua o açude
o camapu a cutiaia a Ourilândia do Norte...
- Eu já admiro as estrelas os
planetas as nebulosas os jutaís-do-alagado os caxinguelês os tamanduás-mirins a
Água Azul do Norte...
O tempo passava, parecia passar, nem
passavam. Nem passava o tempo porque o mundo estava estagnado e preso ao chão
como uma estaca. Mas o tempo sempre passa, mesmo quando nem passa e nunca
passam. Então, o tempo passava. O tempo se multiplicava ou se dividia em
partes. O tempo rodava como bobo dentro do relógio.
- Alguma coisa como ver um labirinto
uma espiral, o quê?! Oi!...
Dois dias depois desses episódios
valorosos, Lilás foi embora, saiu da aba da Tinguá e Picuá e Pingue, caiu fora
da sorte daquelas três boas criaturas. E andou pela cidade parada, foi pedalar
sua magrela por outras áreas da cidade e Casa das 11 Janelas e palácio palacete
mansão casarão sobrado. Pedalava à toa. Dias de feriadão.
- Já plantaram árvores frutíferas
nesta cidade das frutas, cupuaçu, pupunha, acaiá, muruci, bacaba, uxi, indaiá,
pequi, maracujá-roxo...
E num viaduto, o tal viaduto Chuí,
altíssimo e com jardim e com chafariz, a menina encontrou três folgadas
graxains. Elas três praticavam aquele jogo, aquele brinquedo que parece
esporte, o tal de pular com corda elástica. E a menina quis se meter também,
quis experimentar a sensação vertiginosa vertical vertigem, “uuuuh, aquiiii
vaaaaiiii!...”
- Ei, amigas! Posso? Me permitem
participar? Em pessoa?
- Nem. Saia, sai fora! - disse a
graxaim nº 1.
- Vamos ver. Talvez - disse a
graxaim nº 2.
- Claro que pode. Nem só pode como
deve - disse a graxaim nº 3.
Lilás nem entendeu a discórdia lá
entre elas aquelas três graxains. Cada uma dizia uma coisa diferente, cada qual
decidia uma coisa oposta e contraditória. E isso era bom ou ruim ou talvez? Vai
saber! Uma confusão. Uma política tripartida.
- Que baralhada é esta, sô? -
reclamou a menina. Posso, nem posso, talvez... hein, qual é?
- Já lhe disse que pode! - respondeu
a graxaim número 3.
- Já lhe falei que nem! E nem, é
nem! - respondeu a graxaim número 1.
- Já nem sei mais nada! Decidam
vocês duas! - respondeu a graxaim número 2.
Tudo na mesma. Nada decidiam. Eram
três opiniões diferentes, discordantes, modificadas, desiguais, bem repartidas.
Seriam três irmãs alopradas? Cada graxaim dizia uma coisa. Cada graxaim no seu
galho no seu quadrado na sua casinha ou cercado.
- Vocês parecem políticos em época
de eleição: falam um monte, dizem tudo e nem confirmam nada! Ficam nesse
empurra-empurra, deixa que eu deixo!...
- É, pois é! - disse a
graxaim-do-campo.
- É nem, nem é! - disse a
graxaim-do-mato.
- Talvez é e quem sabe e vai saber,
né?! - disse a guaraxaim.
A menina perdeu a bondade de rir?
Mais ou menos. A guria Lilás perdeu a esportiva de brincar? Também, hem! Deixa
pra lá! E o dia só estava ensaiando.
E Lilás tomou uma decisão aventurosa
sensacional radical e esta aqui:
- Vou experimentar esta corda
elástica e seja o que for, custe o que custar. E pra baixo todo santo ajuda. Eu
sou corajosa como cunhantã galibi.
Disse e se apresentou na brincadeira
para brincar. Se deixou prender na corda elástica, se afivelou, bem
amarradinha, respirou fundo, ia se jogar, começou a rir muito, estava um pouco
nervosa, um tanto ansiosa, queria muito voar em a cruz invertida...
- Ufo! ufo!... lá vou eu... ufo!
ufo!... - eram os suspiros da Lilás.
E se jogou do alto do viaduto Chuí,
se jogou com fé, coragem, receio, gritos, “iaeiouuuuh!...” cabelos
arrepiados... braços abertos como uma papagaio-de-fronte-azul, pulou no ar como
um pássaro feliz igual como um bem-te-vi, como uma gralha-azul, como um
gavião-de-bico-de-gancho ou caracoleiro, como um tiriba...
- Uai!... Nossa!... Ufa!... Que frio
na barriiiiga... que... valeu meeeesmo... - desabafava ela em pleno ar, em meio
ao pulo, no espaço, terminando o vai e vem do elástico e de cabeça pra baixo.
Pendurada pendente igual candelabro pendurado ou lustre de teto e com dois
braços.
E
ficou lá, balançando, agitando, solta no vácuo, atada e presa ao elástico,
dependurada como abóbora de feira, como se estivesse plantando bananeira no ar,
nem caía nem subia, ninguém puxava de volta. Lilás ficou assim... como um i
invertido...
- Quem vai resumir esta história pra
mim?, por favor!
O caso continuou na sequência. Na
verdade um problemão. Seguinte. É que as graxains saíram fora vazaram,
sacanearam a Lilás e a deixaram lá pendurada como ioiô como fruta madura como
pingente e por um fio suspensa.
- Minhas mãos estão abaixo da minha
cabeça, cara!
Pergunta. Quem tiraria a menina dali,
daquela posição incômoda? Outra coisa. Outra coisa grave e urgente. Debaixo do
viaduto, já foi dito, havia um lago também estagnado. Pois é. E nesse lago de
chuvas passadas, dentro desse olho-d’água... jacarés-açus, muitos jacarés-de-papo-amarelo,
etc. Talvez uns seis ou sete. E famintos, com esse bocão cheio de dentes.
Então, novamente o perigo na sorte da menina.
- Vou gritar ou vou espernear ou vou
bater palmas aplaudir?!
E como Lilás se salvará desse mais um
aperto? Ela poderá sair dessa enrascada? Alguém chegará a tempo de socorrê-la?
Convoquem os bombeiros voluntários de Tamboara e de Palotina e Nova Aliança do
Ivaí! Chamem os índios passé! Ou contem até 10! Ou rezem se quiserem rezar se
souberem rezar! Prometam mundos e fundos aos santos e santas! Façam romarias
aos lugares sagrados deste país do B!
- Oh, meu D! O que vai ser de mim?
Se fosse um filme a história nem acabaria até eu me salvar. (pausa) Já estou
ficando com enjoo e chateada. As ideias já estão escorrendo todas pra fora da
cabeça do casco do coco. Eu estou com sede... muita sede... toda a sede do
mundo... Eu estou por um fio... Eu nem estou... Eu vou estar...
Lilás reclamava e com razão pois
afinal a situação, a posição dela, ali de cabeça pra baixo, naquele perigo, nem
estava pra qualquer uma, nem era fácil. Ossos do ofício.
E, como já se disse e se diz se
sabe, “pouca sorte é bobagem”, eis que aparece ali no lago artificial pantanal
a turma dos jacarés-de-óculos. Grandes e cheios de dentes, bocões abertos, e
babando. E chegaram os jacarés-curuá com tudo. Falou o maior deles mandachuva
mais forte mais réptil mais papudo parrudo robusto alegórico:
- Nem tenha preocupação e
desassossego. Nem precisa arregalar os olhos e se contorcer torcer distorcer.
Pode se soltar, se desprender? Eu lhe pego aqui em baixo, desça, desça...
solte, se solte... E relaxe e se solte, me-ni-ni-nha!...
A aventureira olhava os
jacarés-coroa famintos lá embaixo, olhava de ponta cabeça, olhava de maneira
invertida. E era difícil. Se caísse chegaria direto na goela dos bichos
boquiabertos e famintos. Se nem saísse dali, pendurada como uma fruta no galho
da árvore, iria apodrecer e arruinar. Então, como vai ser? Como foi? Como o
quê?
- Pode se soltar, menina. Nós aqui
embaixo estamos com muita fome. Faz dias e dias que estamos famintos passando
fome. Desça. Se deixe cair. Deixe de morcegar ao sol e se deixe cair, menina
apetitosa... Vamos almoçar agora mesmo! É fácil!
É, sim, os jacaretingas tiravam um
sarro da garotinha e esperavam, esperavam com esperança e boca aberta e
paciência. Esses tipos de rastejantes duram mais de 20 anos na natureza
selvagem, embaixadores do rio Ivaí. Gostam muito de carne.
- Vamos, menina teimosa. Desça que
estou faminto...
- Vê se me esqueçam. Alguém virá pra
me salvar - falava a menina, com muita fé. Isso nem vai acabar assim... Nem
nasci ontem pra acabar hoje mesmo.
- Duvideodó! A cidade está deserta,
esqueceu? - retrucou o jacareúna.
- Vou esperar até o último momento.
- Você tá no papo. É apenas questão
de tempo minutos segundos... Contagem regressiva, dez, 9, oitavo, siete, six,
quinto...
Lilás continuava assim e
interessante, presa à corda elástica, balançando no espaço como uma fruta no
galho da árvore predileta. E de tanto desconforto, cansaço, falta do que fazer,
chegava a envelhecer e a inchar e a criar bolsa sob os olhos. Era mais que uma
novela de tevê ou seriado de livro ou episódio de gibi.
Tinha outra. Somente para assustá-la
ainda e mais, os répteis, vez em quando, davam uns saltinhos, uns pulinhos
tentando abocanhá-la, altos exercícios. É, sim, eles sempre fazem isso quando
querem alcançar alguma coisa importante, “upa! upa!...” Nem conseguiam
alcançá-la mas amedrontavam de montão, a coitada.
- El-Rei! El-Rei!... Socoooorro!...
- pedia ajuda a menina.
Correr aventuras é difícil, umas
vezes até insuportável. E a menina nem podia fazer nada, ali presa de cabeça
para baixo, a uns dois metros da boca dos aruás. Completamente sem ânimo ou
quase sem destino. O jogo jogado parecia no intervalo.
- Vou dormir ou vou relaxar?!
E nem resolvia nada a menina fazer
escândalo polêmica. Nem tinha ninguém mais perto que lhe pudesse valer. Somente
o eco, lá longe, lhe respondia. Um eco vazio e liso e limpo... Um eco sem
nuvens sem aviões sem aves de rapina...
- Pode gritar, pode berrar, pode
perder a voz que ninguém virá para salvá-la.
- Essa história só acaba quando
termina, ou seja, quando eu sair daqui, e numa boa, e sã e salva como uma
grande alma. Esta história apenas acaba quando eu quiser, entenderam, pescaram?!
- Nem. E desta vez nem vai ser bem
assim. E essa vez o bicho pega.
- Vai, vai ser como eu quero. E
claro que vai.
- Tem certeza, neném? Tem absoluta
confirmada riqueza, bebê?
- Tenho. Nasci tendo muita certeza,
por que perderia agora?
- Absoluta, absolutíssima certeza
que será salva?
- Tenho! Tenho! Tenho e terei!...
Será que o ururau tinha tem razão?
Seria mesmo o caso do fim de Lilás a menina? Por que Lilás nem podia se salvar,
ou nem tinha nenhum salvador, ou nem tinha condições de se safar sozinha? Os
arurás almoçariam a garotinha, mais cedo ou mais tarde? Como se fosse um manjar
dos deuses um sacrifício? Como se fosse numa festança de fim de ano? Como se
fosse carimã um mingau bem preparado?
Nem se esqueçam de deixar o positivo
e comentar os depoimentos neste final de episódio. Sem maiores delongas. Fui!
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