sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Lilás no Palácio Zodiacal

 


 

            O sábado estava um dia de sonho para a menina Lilás. E Lilás imprevisível, visível, quase modificada, quase certa e justificável de interior e exterior. Umas 15h em Porto Alegre. Achava tudo fácil ou agradável. Mais feliz que assim-assim, e partia, saía de viagem. Menininha, dez verões contados, foi ao Jardim Botânico de Barbacena. Só um porém muito chato ou pra lá de chatíssimo o contratempo: esqueceu o celular em casa sobre a mesinha de centro na sala de estar ou na cozinha sobre a cama ou em o elevador do condomínio... Quando viu e notou a carência, já estava fora na rua em plena selva de pedra.

            “Té logo, telefone! Por que essa pressa, guria?!”, resmungando com ela mesma.

E aí o JB de Barbacena acenava pra ela de qualquer jeito e bom. Uma região muito especial, bem cuidada, caprichada, verdinha, escolhida, tratada de muito verde, lagos, riozinho cantarolando, “blo-blu-bléeee!...” espécies de plantas, licuri, tambori, gameleira-branca, pinhão-roxo... o centro da terra e onde vivemos, fila indiana de buritis bem cuidados, lugar de águas e peixes felizes, quadrúpedes amigos, plumosos variados, seriema, saracura, inhambu, tuiuiú ou jaburu... passarinhos canoros, a maior tranquilidade, um paraíso vegetal animal natural ambiental terreal biodiverso.

“E meu celular para uma imagem, hein?! E minhas amigas nas redes, hem?!”

            Dia elegante, dia enfeitado de tons e sons, o sol limpo posto lá no começo do mundo aéreo azulzinho. Todo o mundo adorando. Todos adoravam. Os passarinhos principalmente e em primeiro lugar e já desde a hora da matina e matinada. Cantavam de bico aberto.

            “Quando eu era uma criança pequena pequenininha eu queria ser um pássaro, eu!”

            Lilás, camafeu e alegre e espontânea, distribuía carinho olhares significativos responsabilidades. Camisa de algodão bege manga comprida com abotoaduras no punho calças jeans desgastadas nos joelhos tênis azuis meias curtas azuis com florzinhas de pétalas amarelas. Cabelo composto disposto. Colar de contas sementes de açaí apertado no pescoço. Perfume identificado e miraculoso.

A menina caminhava por esse campo encantador, quando chegou a um lago e viu Peri e Ceci, apreciadores do naturismo, como índios tupinambá ou jabuti ou íra-tapuia ou mápanai ou anajá... pegando sombra debaixo de um frondoso cajueiro, desfrutando cajus. Ao ver os dois, despidos soltos numa boa de-boa, Lilás foi logo perguntando e sem constrangimentos:

            - Seu Peri, dona Ceci, é verdade que o paraíso nem tem dinossauros? Nunca teve? Já teve e com o tempo? Vocês gostam de nadar e mergulhar com os peixes de água doce?

            Peri, espantado com aquela menina lilás, falou aterrissou:

            - Que pergunta mais sem cabimento. Nem é da sua conta. Ou será que é e eu nem sei? Nem sei? Deixa pensar um pouco... Quem é vossa insolência pertinência e pertencida?

            - Sou a menina Lilás, prazer! Mas me digam uma coisa. Quem veio primeiro: o ovo ou a saracura-três-potes? Por que o céu é azul e nem fevereiro ou março? Por que a mata é verde e nem luar de lua cheia? Por que o rio Içana fica no Amazonas e nem no Acre?

            - Nosso paraíso, como você pode ver e ficar o quanto quiser, é um jardim sem construção nenhuma - foi dizendo Ceci. No paraíso todos são mansos e queridos e instruídos. Nem tocamos em nada com as plantas uirari do curare. E, principalmente, ainda nem é preciso respostar todas as perguntas e inquéritos. Respostas sim e nem e talvez dentro do padrão, tá certo?! Uma vez o óbvio, nada contra. O certo e o reverso.

            Nisso a ararinha-azul, que estava caminhando pelos galhos da cajazeira, e que escutara toda a conversa, interveio, entrou na conversa, pigarreou e trilou:

            - Pois eu também quero fazer umas perguntas. Na verdade somente esta: querem um caju dos mais maduros? Eu ofereço sem segundas e terceiras intenções, juro!

            - Nem, obrigada. Nem aceito presente de estranhos. E quer saber mais? A conversa nem chegou nos galhos mais ou menos altos - respondeu, desajeitada, a Lilás.

            - Tique-zum-glu!... Vai um guabiju? Umas pitangas? Uns caimitos?

            Ceci, interrompendo aquela conversa solta desparafusada, colocou, espalhou:

            - Bem, menina Lilás, deixando a ararinha-azul de lado e fora da nossa conversa... Me conte as novidades, as curiosidades, o diz que diz que da cidade urbanas. Que outros lugares você conhece, quais as modas, quais os desfiles de modas, quais as modelos da moda, quais as modas mais em modas, e várias outras novidades modernas modelares...

            - Bem, bem! Lá na minha terra se joga futebol aos domingos, ou vôlei na praia, ainda turismo no zoológico, e mais namoro, passeio, tevê, preguiça na rede carijó...

            - As mulheres se vestem com roupas como as suas, enfeites, colares, braceletes, cabelos curtos, soltos, coques, rabos de cavalo e franja, rabos de cavalo com topete...

            - Mais ou menos, né?! Depende da moda, da estação do ano, se é verão, se é primavera, se é inverno e se é o que for que seja que for... Em Prados as meninas se vestem como as gurias de Ressaquinha e as cunhantãs de Barroso...

            - E os carnavais nos salões nas praias nas ruas... Vocês gostam de pintar o corpo, usar tiaras, cantar nas festas, dançar ao ar livre e que eu sei lá?!

            - Sim, esses são os pontos principais. Eventos turísticos. Quem tem grana pendura joias pelo corpo, viaja muito, compra roupa todo dia, passa o verão as férias numa praia tipo praia de Palmas ou Pacoti ou Baturité ou Quixadá em a Pedra da Galinha Choca...

            - E essas mulheres e seus namorados então viajam nos seus carrões e jatinhos e iates? - perguntou Peri. Que que é?!

            - O negócio mais em conta é nem ficar parado parada estática mosqueando...

            No paraíso florestal, é claro, nem havia palácios capelas igrejas casas lojas e nada construído ou edificado. De repente havia uma ou duas grutas, uma ou duas cavernas naturais provocadas pela erosão. E sempre os lugares calmos, lugares de sombra e água cantante, jardins com cheiro de todo tipo de flores e plantas, montanhas azuis, montes verdes, serras povoadas de árvores gigantes, árvores de flores amarelas ou vermelhas ou verdes, sapucaia-pequena, caeté-açu, macambiras, piraguaia, tecas-do-brasil...

            - Tudo está como deve ser - completou Ceci.

Ceci, muito na dela e antropométrica, foi e se afastou para outro canto. Foi procurar trevo de quatro folhas. Foi ver bromélias e orquídeas e caranambus. A natureza única e a cada momento irreplicável e irreparável, por assim ver e ouvir. Sítio do casal cricrió.

            A menina Lilás meio que sentiu fome e apetite de frutas boas e mel de abelhas:

            - Culinária do sertão, é! Como por exemplo aprender a fazer torta de abacaxi, doce de araçá ou goiaba-do-mato, bolo de pequi, geleia de jabuticaba?

            A conversa seguiu sem muito interesse da parte dos contadores historiadores. Um casal de canários-da-terra trocava empurrões, fazia os voos rasantes. E o par os dois namoravam, brincavam, escolhiam lugares, namoricavam, conversavam sobre a sorte de voar, preparavam o futuro incerto, riam muito abraçados, beijos de bicos bicadas distraídas.

            Lilás se virou para a ararinha-azul, aladinha rara e bonita, e perguntou, piscou:

            - Por um favor. Essa árvore jequitibá vai apontar lá no céu? Hein, quem sabe?!

            - Pode ser mas o céu nem é pro seu alcance, menina Lilás. Quer uns muricis? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

            - Por que nem?! Acho que vou até lá no tope celeste celestial e passear uma voltinha, uma espiadinha bisbilhotadinha bizoiadinha. Nem tenho nada a perder.

            - Vai nada. Ninguém lhe convidou. Dou-lhe três: vendida a porção de pequis amarelinhos pra bela menina Lilás a minha frente. Total: cinco mil reais, R$5.000,00.

            - É, vou mesmo, decidi. Tenho que ir quando decido ir.

            - Que teimosa. Nem quer coquinhos, nem quer castanhas-do-pará, põe sonhos e fantasias caraminholas nas ideias de Ceci e Peri e agora quer falar com D? Tenha a santa paciência, minha filha, cre-cre-criiii!...

            - Com licença! - Lilás já subia pela árvore castanheira-do-maranhão ou iniá, de braço dado com a emoção que a transbordava.

            - Leve contigo consigo no bolso uma porção de azedinhas ou de pitangas ou de araticuns-do-mato ou tocaris. Talvez sinta fome no caminho, sabe como é, o céu é infinito.

            - Nem, e fica pra próxima. O dia, hoje mesmo, está aí.

            - Pois sim e nem, então, leve pra Nosso Senhor. Diz que é um presente da ararinha-azul, moradora do Jardim Botânico, vivente do paraíso florestal terráqueo fluminense carioca. Ele me reconhece. Ele me entende. Faz esse favor... ei!... as frutas silvestres todas.

            Mas Lilás já ia longe no alto, escalando a árvore açoita-cavalo, subindo para o céu azul. Terminada a escalada andou por um chão de nuvens, chão esfumaçado, até encontrar um casarão encantado e brilhante e surreal. Nenhum guarda guardando a portaria. Como a porta estava escancarada, como nem havia nem porta ou portão ou portal, entrou, passou. Como nem segurança tinha, entrou, foi em frente. Como o palácio de D alta potestade é ao ar livre do céu azul espacial sem paredes, entrou, chegou, concluiu que devia entrar.

            “Geeeenteeee!... Parece um palácio ou mansão de vapoooor!”, namorou a guria.

            O palacete era muito bonito, esplendoroso, decorado em todos os tons azuis ou verdes, torres, minaretes, catedrais, antenas, pontos de vista panorâmicos... Um palácio casarão casa-grande que parecia existir ou nem existir feita de nuvens pouco densas.

Lilás andou por vários cômodos sem ver um guarda, um anjo, um funcionário, um servente, uma anja, um querubim, uma irmã de caridade. Por fim encontrou a sala de estar e onde várias pessoas jantavam ou almoçavam ou lanchavam ou tomavam o café da manhã. Elas receberam a menina com muita alegria e gosto e especial atenção convidando-a para sentar entrar e se acomodar.

            - Com licença! - falou Lilás. Bom dia! Boa noite! E como estão?! Obséquio!

            - Seja bem-vinda ao palácio dos esportes e ao clube esportivo recreativo Alto Astral! É uma boa surpresa vê-la aqui, minha bela menina Lilás - falou a Mãe de eme (m) maiúsculo.

            - Sim, e obrigada! Valeu! Esqueci o celular e... na penteadeira... Umas plumas!

            A mesa era composta em total de cinco pessoas gente da família divina: a Mãe e o Pai e o Sacerdote e o Conselheiro e o Bebê, este que dormia tranquilo no berço. Uma gracinha! Sobre a mesa um maravilhoso jantar para vegetariano vegano nenhum botar defeito. Uma salada de variadas cores e grãos folhas frutas legumes raízes...

            - Bem, pessoal, vamos nos servir - falou o Pai. Fiquem todos à vontade, comam e bebam. Mãe, pode me passar o arroz, por favor!

            - Sim, pois naturalmente. Me passe a salada de tomates, por favor!

            - A menina gosta de saladas, acredito. Alimento da terra, hem?! - disse o Conselheiro. Coma e coma hortaliças orgânicas que tudo lhe correrá bem.

            E o almoço transcorreu perfumado sossegado gostoso colorido conversa miúda e leve, por favor!

            - Suco de abacaxi, de caju ou de açaí, menina - perguntou o Sacerdote.

            - Os três... quer dizer, um pouco de cada, tricolor, trilegal!

            O Bebê acordou e reclamou seu almoço urgente. Mãe o pegou no colo e lhe deu de mamar. O Bebê era um carinha que, por enquanto e por acaso, nem tinha ideia de nada e com muito futuro e um porvir respeitável. Inclusive especialmente um futuro previsto diretamente por nem mais nem menos que D e seu poder indicativo divino idolatrado.

            - Bonitinho meu Bebê, hem!, menina Lilás?

            - Lindo bonito e adorável! Se um dia me casar quero ter um igual. Ele tem hora pra chorar, pra dormir e pra acordar?

            - Nem, até que nem. É um bom filhote, mas ainda nem sabe de horários.

            Em pouco tempo o Bebê papou o leite e se acalmou, dormindo novamente. Mãe o colocou de volta no berço fofinho algodãozinho nuvenzinha azulzinha. Lilás perguntou:

            - A senhora pretende ter outros filhos filhas e divinos e maravilhosos?

            - Gostaria muito. Mas vamos dar um tempinho para que este cresça. Talvez daqui uns cinco milhões de anos.

            - Um casalzinho, nem é mesmo? - disse Lilás. Um casalzinho é muito joia.

            - E mais - falou a Mãe. Gostaria de ver o palácio cheio deles. Muitos e muitas correndo pelos espaços entre as nuvens. Um time de futebol com 11 selecionáveis de ambos os naipes mesclado gêneros e sexos.

            - E você, menina Lilás - perguntou o Sacerdote. Gostaria de ter um irmãozinho?

            Uma hora a menina pensava uma coisa, hora seguinte ela já pensava outra coisa. E nem tinha hora pra pensar. E tinha hora para pensar qualquer coisa. E imaginava durante horas disparando vários pensamentos ao mesmo tempo para todos os lados. Uma elegância safa esquiva para esconder se desfazer dos distúrbios pensares. Catequizando os sonhos e pensamentos em macetes truques recursos artifícios.

            - Vamos e venhamos! - alestou apressou dizer o Pai.

            - Dia depois de dia - manifestou carteou a Mãe.

            - Por que o rio Doce começa em mg cruza es e deságua no mar, né?! - articulou a menina Lilás, cor lilás dos pés à cabeça (salvos os cabelos cor de vinho).

            O jantar transcorreu assim, transcorreu calmo, morno, sossegado, oficial, transcorreu doce. Com atitude, porém sem picardia logro amuo enfado. Depois se dirigiram a uma sala ao lado, infinitamente um pouco menor, e se sentaram nas poltronas de braços. Tomaram chimarrão e café e chá de camomila.

            - Os jardins a horta o pomar do palácio Zodiacal oferecem tudo para nossa despensa - comentou o Conselheiro, um ancião sábio contemplativo racional lógico pragmático.

            - É, plantamos mais tomates porque gostamos de tomates no almoço e no jantar - declarou o Sacerdote, sujeito santo santíssimo e muito teológico no filosofar.

            Foi servido doce de chocolate, cubos de abacaxi em calda e sorvete de pitanga com pequi. Muitos nem souberam optar por um ou outro e então acabaram experimentando todos. A menina nem queria se mostrar gulosa na frente de gente tão boa mas, o apetite, a vontade de doces, o prazer dos doces foi maior. Experimentou tudo, repetiu...

            Lilás percebeu que todos ali levantavam cedo pela manhã, e que ela, então, deveria puxar o carro. A conversa estava ficando tarde. Ou a tarde estava ficando manhã.

            - Ótimo. Tá tudo perfeito perfeitíssimo, mas já tá na minha hora.

            - Nem quer ficar, dormir aqui com a gente e pernoitar? - convidou a Mãe. Temos aqui nas nuvens uns tantos cafofos bem legais e fofos e aconchegantes beneficentes...

            - Nem, obrigada! Vocês todos são ótimos mesmo, e tenho que ir. Preciso ainda chegar no último andar, já que tô nessa viagem interplanetária interestelar intercelestial, e trocar uma ideia com D, o Potentado o Todo-Poderoso o Criador. Vocês sabem.

            - É, é bom. D deve estar acordado, vai lhe receber com certeza. E quando quiser voltar aqui, já sabe, a casa é sempre sua, ouviu?! Pare para na volta mais um pouco com a gente, tá certo?! - convidou a Mãe.

            - Da próxima vez traga mala e cuia e fique alguns dias, passe as férias de aula de verão - convidou o Pai, fala harmoniosa eufônica (paréctase) bem-soante sons sagrados.

            - Tá certo, então! Vaaaa-leu!...

            Lilás se despediu de todos com beijos, “tepe! tepe!...” elogiou novamente a hospitalidade, prometeu voltar, abanou, deu tchauzinho e foi embora. Ali mesmo no palácio pegou o elevador e foi ao último andar - lá em cima cimeira, por dentro do azul, praticamente no terraço heliporto do superior céu. Em mais alto grau e valor.

            D nem tem problemas, Tupã nem tem ocaso, o sol nem tem dissabores ou dor de cabeça, a lua nem tem parentes ou competentes e, talvez, Lilás tenha tivesse lá ou aqui por insistência (até coincidência) seus pensamentos em estado nuvem garça-pequena.

E ela mesma entrou na sala em frente ao elevador e encontrou D diante da televisão do computador. Lilás foi logo chamando a atenção se anunciando de qualquer jeito:

            - Ah-hãaaa!... com licença, Senhor, Deus meu!, posso entrar? Saúdo! Saúde!

            D tirou os olhos da tela, ajeitou os óculos de grau; reconheceu a menina. D estava sim com suas barbas compridas e brancas e bíblicas, cabelos longos e brancos e bíblicos, vestia túnica branca latina bíblica roupa de uma única peça inconsútil. E o ditoso estilo de vida divina divino icônico católico ortodoxo.

            - Ah!, é você Lilás. Entre logo e nem feche a porta. Nem há porta portaria portal.

            - Obrigada! Qual é o programa? Jogo de peteca, futebol de areia, futevôlei, embaixadinha balãozinho altinha...

            - Um filme antigo, chama: “Eu e o descanso dos domingos”, já ouviu falar? Dublado em português brasileiro com sotaque caipira do interior paulista. Aceita um mastigo uma pipoca um sorvete de açaí um amendoim torrado um doce de abóbora? A película acabou de chegar e direto de Belém, Pará.

            O último céu, onde estavam e acomodados D e a Lilás, tinha sol o ano inteiro. Era verão pra sempre, por volta dos 40ºC. Um momento sopra uma brisa diretamente da origem do vento outro momento chegavam cantos de pássaros diretamente da origem das aves o perfume de flores diretamente do jardim da origem das plantas.

            - Uma pena peninha que meu telefone escorregou na subida durante a escalada, uma pena peninha que é nem poder fazer um autorretrato com Vossa Superpessoa Divina.

            - Te mando uma anja um milagre qualquer dia, pode crer e pode ser?!

            A sala toda em tons de azul, muito bem iluminada, quase nem possuía móveis. Decerto, Lilás pensou assim, que D nem tinha tempo para reparar nessas coisas. A tevê chamou o intervalo a pausa os comerciais anúncios propagandas prospectos de paraísos fiscais terráqueos terreais terrenhos avenidas alamedas com aleias de jacarandás-cabiúnas flores lilases caminhos de saibro ensaibrados bem cuidados bem manejados bem limpos.

            - Agora os nossos comerciais! Eu adoro comerciais - confessou Lilás.

            - São bem moderninhos, né?! Lembram a gente de comer pizza, andar de carro novo, beber guaraná, passar as férias na praia de Tramandaí ou Jurerê, nos campos de Itapiúna, nas montanhas de Buenópolis e Corinto e Vila Propício, nas paisagens diferentes sertanejas da reserva dos pipipã... Sempre digo e trovejo que é bom demais.

- E parecem sítios tão reais e que dão água na boca.

            - Quer mais pipocas, com sal ou doces? Vá pegando. E se sirva. E nem se acanhe.

            D trocava de canais, curioso curioso, intenso, agitado. Voltou ao filme de época. O filme já voltara do intervalo. A cena a seguir, os efeitos especiais trucagens, revisava os sete 7 dias da criação e tudo muito bem imaginado com zoom e etc. O personagem principal na sua cena consagradora levantando os braços aos céus, tambores rugindo...

            E o poderoso ser supremo único D, que assistia da sua poltrona favorita, nem perdia uma cena um diálogo do filme que Ele próprio inspirara num tempo num universo da sua mesma autoria. Às vezes rindo a bandeiras despregadas com vantagem vontade e prolongadamente, outras se emocionando, ou fazendo pouco-caso, ou ainda se irritando, rindo com a mão na barriga ou se assustando com o frege o bangulê banzé banguelê gritaria de algumas revoltas e revoluções e guerras ou mesmo festivais desfiles de carnaval.

            - Senhor D! Posso fazer uma pergunta meio indiscreta e urgente e necessária?

            - Fale, minha filha terráquea dileta.

            - É que... nunca vi sua esposa ou companheira ou amiga. O Senhor é solteirão ou descasado, hem?

            Bem, a pergunta era mesmo indiscreta. Uma pergunta difícil. Mas Deus é D e sabe tudo, todas as perguntas e todas as respostas. D respondeu assim, sem usar as tais figuras de linguagem ou de histórias de ficção e sua suprema sabedoria e onipotência onipresença:

            - Você quer pipocas com mel ou carameladas? Já sei, com sabor chocolate. Tudo bem, eu também gosto mais das quentinhas na hora recém-tiradas da panela micro-ondas.

            Já ia tarde, já ficava tarde e Lilás foi apagando, apagando, entrando no mundo dos sonhos e dormiu ali mesmo no sofá-cama e estendida pernas esticadas. Tinha sorte de dormir no céu, dentro do azul, na casa do Senhor dono do universo e mais aquém e além.

No dia seguinte a menina despertou acordou numa cama macia, perfumada, azul-azul. Se levantou preguiçosa e toda bocejante e foi ao banheiro azul-claro. Fez pipi azul, escovou os dentes azuis e depois foi procurar o que fazer pelo imenso azul decorado. Encontrou D, o Máximo, o Criador, o Identificado ainda grudado na tevê, tudo azul e tudo 10, tudo cem por cento. Ela a mesma, uma Lilás azulzinha, disse, conversando:

            - Bom dia, D Nosso Senhor do céu da terra do mar e mais!

            - Oh!, bom dia, minha menina simpática. Você dormiu bem em calma, em brancas nuvens azuis, tranquila? O barulho da televisão nem atrapalhou? Você pegou no sono aqui na poltrona de braços, lembra?

            - Pois é. Desculpe, tava pregada. E que filme é este de agora no momento?

            - É a “História do Egito”, e de frente pra trás, de hoje pra antigamente. É uma série da web. Falado em árabe e legendado em português brasileiro padrão acadêmico. Manja?!

            - O Senhor, e me desculpe intrometer, está fanático em vídeo, hein?!

            - Gosto mesmo, nem nego e incentivei sua invenção e criação. Me distrai.

            - Assiste futebol? Qual Seu time?

            - Bem... como sou D... nem devo torcer pra nenhum em particular, mas...

            - Mas... mas!...

            - Torço pra todos e que vença o melhor...

            - É uma!...

            Bom e decerto, D o Patrão o Juízo tinha muitas coisas para assistir e nem podia ficar ali dando bola o tempo todo, pensou a menina. Então achou melhor se despedir e mais uma vez puxar o trem. Afinal a menina Lilás pensava bem e corretamente totalmente certa.

            - Seguinte, Senhor do céu da terra e do mar e da síntese. Tudo bem, tudo muito bom mas vou Lhe deixar em paz, vou tocar meu barco a vela, como se diz.

            - Nem Me incomoda, nem. Se quiser ficar mais um pouco uma semana dois meses e até que achar necessário...

            - Beijos... tepe! tepe!... três pra casar... e tepe!...

            A menina Lilás saiu do palácio Zodiacal edificado perpetuado no céu total e puro. Ali mesmo no céu de anil, ninguém prestava atenção aos mascotes (npam). Esperou na estação pelo cometa das nove horas, 9h. Planejava chegar em casa antes do almoço, tipo: 11h e 55min. Sentia muito ter perdido o celular e ficar sem apoio companhia brinquedo algo pra fazer na viagem mandar um uatezápi.

            “Muita coisa acontecendo comigo e agora mesmo, é.”

E foi isso. No horário combinado, horário certo e pontual, o cometa da Pirotécnica&cia chegou e 10h e 20min. Embarque sem problemas sem pagar passagem ou propina. Outros passageiros se distraindo e distraídos com celulares lembraram a ela sua solidão. Os que nem ciscavam ali, minoria, espiavam olhando pelas janelinhas escotilhas. O céu espaçoso com satélites artificiais aqui e ali, outros astros lá e acolá, umas estrelas de pontas, umas estrelas sem cauda, umas estrelas de brilhantes, umas estrelas da cor do ouro, planetas itinerantes, espaçonaves outras e tripuladas... preenchido pelo nada escuro o vazio e mais nada perdido no espaço... reticências e etc.

            “Aqui viajo e já devo controlar o nada a minha ansiedade sem o que fazer, é.”

            Quando nem estamos fazendo coisas práticas e algo ou alguma ocupação com os pés e ou as mãos, o que acontece? Aonde vamos parar com os balões os botões? Assim sendo acontecendo, o pensamento cria nuvens baratas ou caras e os burros vão pela corda. Nuvens tecidas de vapor que nem duram nem rendem nem olham nem lembram nem falam desvestem descalçam investem sem os horizontes. Nuvens nos detalhes detalhadas pra cá e pra lá e que diluem gastam esgarçam e que passam voltam giram já descritas escritas escrituras rascunhos rasuras rasuradas.

            “Eu adoro muito cachorros gatos pássaros e bicicletas, eamcgpb.”

            No meio do caminho e do nada, um vácuo de sombra escuro com vazio, o cometa começou a apresentar falhas de energia, “tuque! tuque!...” Uma luzinha vermelha acendeu e piscou várias vezes, “plis! plis!...” E logo o motor da nave engasgou, “cra-cra-tuuuu!...” e apagou. O que quase por pouco nem gerou um pânico geral com alta gritaria em o meio dos passageiros de primeira ou costumada viagem.

O comandante do veículo anunciou, vocalizou pelo rádio da cabine, que teriam de fazer um pouso de emergência no planeta Marte. O defeito nem era grave, retomariam a viagem em seguida e sem demora, transtorno de poucos minutos e num piscar de olhos. Difícil de crer que uma empresa do céu fosse tão precária e desse defeito, porém... era o que se tinha, era o que sucedia. O mundo sempre tem margem para evoluir evolução.

            - E apertem o cinto para a aterrissagem forçada! - relatou o piloto-chefe.

            Marte está sempre na vanguarda do progresso, nem sei por quê. É sem dúvidas um planeta redondo e solto suspenso suspendido no ar em o vazio do nada. Como veio parar aí? Ninguém sabe. Ninguém viu. E isso gera incertezas e muitos relatos fictícios inventados mentirosos inexatos fofocas. E também fascínio surpresa fantasia imaginação. De cambulhada uma série de anedotas e filmes e novelas e livros. Planeta balangando oscilando no escuro do cosmos e... será que é habitado habitável de marcianos nativos?

            “Por esta eu nem esperava. E me causa interesse, agora mesmo.”

            Em o cosmoporto marciano, onde o cometa sentou para vistoria, Lilás desejou passar o tempo visitando a cidade grande, as províncias, os balneários, as praças, as ruas, os municípios adjacentes conurbados, Lassance, Aracoiaba, Augusto de Lima, Ibicuitinga, Flores da Cunha, Marau, Nicolau Vergueiro... caminhando pela metrópole, conhecendo a megalópole. E cidade de São Paulo? Cidade de Curitiba? Cidade de Brasília? E o planeta vermelho tinha tudo a ver com as descrições mais ótimas otimistas futuristas.

            “Vou dar um rolê uma volta a pé, enquanto isso enquanto aquilo e outro.”

Muita calma nessa hora. Caminhou pelas belas e largas e limpas artérias, avenida Rodrigues Alves, rua Cadete R. Rocha (bairro Mandaqui), calçadão Luís Delfino, travessa do Molinete... Olhando isso e aquilo, admirando as modernidades, a biblioteca Dom Silvério Gomes, a educação daquela raça de seres robóticos máquinas perfeitas, muitas cilindradas, muitos chipes e botõezinhos acesos de diferentes cores e funções e importâncias e necessidades.

“É mais uma cidade ideal e sem glória, com planeta incluído.”

Sim, porque Marte era um planeta encampado adotado por máquinas por robôs funcionais e profissionais e modernos e 9G. E todos estavam numa ordem lógica, sem nervosismos, sem remédios, sem médicos, sem advogados (defensores dativos), nada de psicólogos, sem políticos de plantão, sem salário no fim do mês... No lugar do coração tinham um motorzinho movido à energia nuclear e de duração longínqua. Eram todos amarelos, fortes, baixinhos e com antenas finas na cabeça, dois braços grossos, duas pernas longas, sem barba, sem bigode, sem pestanas, sem sobrancelhas e nada de cabelo cabeleira, sem pelos imberbes, pura lataria. Nem se distinguiam nem precisavam se distinguir no gênero sexo, unissex. Todos se pareciam, pois tinham sido feitos em série, como carros do ano, como geladeiras, como secadores de cabelo, como motocicletas, como garrafas, como sapatos, como bolsas ou sacolas, igual os vasos de plantas. Total e genérico: o robô.

“Aqui, aqui mesmo neste lugar, o povo nem curte cachorros gatos porcos (pnccgp).”

Outro importante detalhe ou item: com um cérebro supereficiente superestimulado superexaltado zero defeito sem psicologia sem sonhos sem filosofia. Nem tinham gostos ou vontades ou necessidades aleatórias. Cada um era feito para uma única função ou ofício, que durava o tempo que os equipamentos resistissem ao trabalho. Esses seres máquinas há muito acabaram por dominar e dominaram o planeta Marte. E exterminando, naquele então, os entes naturais as gentes que habitavam aí uns seres de carne e ossos e cartilagens (quase parecido com humanos terráqueos). E pronto. Os veículos nas ruas eram todos autônomos autodidatas robóticos hidráulicos e insensíveis. Tudo muito preciso e técnico e certo.

“Vou andando e sinto que mil olhos mil câmaras de vigilância me admiram, é.”

E assim, já está explicado até demais. Qualquer coisa mais se deve procurar indagar o gúguel, um programa bem informado. Uma enciclopédia virtual. Uma terra de ninguém, e de todos. Todos os defeitos, e muito boa. Procurar na internet e aí tudo sobre Marte.

“Vou chegar ali na esquina da rua Majorengo com a avenida Ventanista da Uca, e volto. Me doem os pés, já-já! E me parece tudo muito... marciano, no mas.”

Bem, e o que mais Lilás viu pelo planeta desumanizado? Ah, sim! O céu, nada comum, era vermelho, sem nuvens ocasionais. Sem estrelas ou planetas próximos e no visual. O inverno era muito brabo frio congelante congelativo. À noite piorava, claro, mas os seres máquinas foram construídos eram equipados para suportar variações térmicas bruscas. Ali nem existiam montanhas, rios, florestas e bichos (nem mais nada sobreviveu).

“Deve ser muito calmo e monótono e pacífico nos fins de semana, concordo.”

Era um planeta pelado e deserto e abandonado. Tudo era um longo, higiênico e seco deserto. Nada estava ou ficava fora do lugar ou sobrava esquecido. Tudo que saía de uso era reciclado, reaproveitado de alguma forma. O lugar já era um planeta bem resolvido e arejado. Dominado por máquinas muito lógicas, e o resto é bobagem e especulação.

“Tá certo, vou adquirir e comprar uma lembrancinha para os meus pais. Isso é muito legal da minha parte, né?! Eles merecem e eu gosto de comprar, então.”

            Lilás se distraiu tanto com esse passeio pela cidade marciana, que acabou esquecendo a hora. Quando retornou ao cosmoporto já era tarde. O cometa que a levaria de volta para a Terra já havia partido. Decepcionada, foi procurar apoio informações com um funcionário atendente empregado serviçal um robô que passava aí e ao acaso.

            - Oi!... Escute! É o seguinte. Fala português, seu robô?

            - Plique!... Falo qualquer língua que você desejar. Sei mais idiomas que você. Em que posso ajudá-la? - disse em brasileiro o eficiente robô, da cabeça aos pés e tronco e membros superiores inferiores todo em lataria rebrilhante.

            Estes seres desde a fábrica já sabiam traduzir qualquer língua no automático ou no aplicativo. Uma geração de robôs último grito da moda. Excepcionais e muito eficientes totalmente científicos tecnológicos. A menina já continuando e prosseguindo, assim, dizendo arguindo inquirindo:

            - Ótimo. Seguinte. Eu era pra sair nesse cometa que acabou de partir pra Terra. Só que nem! E eu o perdi, marquei touca e ele me deixou, entendeu?! Nem sou muito calma nessa hora, nem muito paciente, que os humanoides são ansiosos e nervosos...

            - Perfeito. Entendi. O próximo só amanhã.

            - O quê? Mais um dia nesse lugar esquisito... me desculpe, nem quis ofender. O que você me sugere? Tem e existe um plano b? Tenho acaso uma saída estratégica?

            - Deve esperar até amanhã - disse o funcionário robô robotizado, de olho de tela e boca tipo caixinha de interfone com voz de papagaio-comum com garganta áspera gripado.

            - Você nem entendeu? Quero ir embora, hoje! Nem existe uma... uma nave, um cometa, um disco voador que vá praquelas bandas? Socoooorrrrrroooo!...

            - Plique!... Vou verificar e nem garanto nada.

            O funcionário oficial, um zelote frio e calmo e lento, mas eficiente, telefonou e em poucos segundos obteve resposta. O servidor em questão era, obviamente, uma máquina e como toda máquina apenas pensava até onde fora programada planificada ordenada. Uma máquina nem surpreende. Uma máquina jamais será intempestiva ou atuará de forma propositalmente acintosa, por ex. Uma máquina robô nem sonha nem cria nem inventa, somente faz o que lhe colocaram na telha. Uma máquina nem demonstra demonstraria gentileza complacência benevolência amabilidade. O robô de bateria duradoura, e que atendia a menina muito eficientemente, foi desenrolou a fita o disco:

            - Tal e qual! Temos uma nave espacial que partirá agora para o planeta Mealhar-270120, já ouviu falar? Um planeta novo e recém-nascido duma galáxia pra lá de distante. Fica além do sistema solar. Então, no caminho essa nave especial fará um pouso de reabastecimento no planeta Terra. Sairá em uma hora. Aproveite e boa viagem!

            - Puxa, que legal, que sorte, que maravilha! Ainda bem, né, motor?!

            - Plique!... Compareça ao terminal w e portão 8.

            - Muito obrigada, valeu mesmo, obrigadão, tchau! E fica na boa você também! E até a vista! Quem sabe uma vez você nem visitará o planeta azul, hein?! F-o-i, fui!...

            A menina Lilás correu para o lugar indicado. E já procurou saber qual das naves estacionadas ali seguiria para a Terra. Um engenheiro de aço inoxidável se apresentou como o comandante-chefe da nave em questão:

            - Você deve ser a menina terráquea que deseja uma carona até a Terra, pois nem?! Sou o engenheiro Ucha-1547, piloto da nave.

            - Prazer, meu nome é Lilás. Sabe, perdi o meu cometa e fiquei sobrando. Uma sorte encontrar ocê. Os robôs sempre desde criancinha me fascinaram de montão, é.

            - Embarcaremos em meia hora. Somente faltam alguns exames de rotina.

            - Tudo bem, tá perfeito. Você conhece o meu planeta?

            - Plique!... Conheço. Pesquisamos muitos materiais nesse território importante.

            - E o B, onde moro?

            - Podemos mudar um pouco nossos planos. No Brasil também temos fontes de abastecimento e ambientes para bom pouso, discoportos, plataformas, aeroportos, tabulões ou tabuleiros, chapadões, campos de futebol.

            - Sei, sei o que vossência quer dizer. Os planos nem eram pousar no gigante B pela própria natureza, nem é mesmo? Os robôs sempre me despertaram interesse, sério!

            - Nossos planos eram pousar cerca da montanha K2, área do Tibete, na China. Um lugar forte em energia nuclear. Mas vamos lhe ajudar e pousaremos no Brasil iluminado ao sol do novo mundo e onde também temos um posto avançado preparado.

            - Em que área do B é melhor pra ocê, comandante Ucha-1547?

            - Plique!... Em Varginha, Minas Gerais. Fica ainda distante de sua casa?

            - Que nada! Tudo bem. Fica distante e tá ótimo. Suceeeesso!...

            Tudo pronto tudo bem e embarcaram na ultraveloz aeronave H26FI. Junto com o comandante Ucha-1547, auxiliava o copiloto Estuque-1509 - um protótipo igualzinho, porém para funções menos complicadas. Partiram numa velocidade de doer, fantástica sensacional fenomenal, “zzzzzzzzzziiiiuuummm!...” E possivelmente dando vantagem e ganhando da velocidade da luz. Nem dava para ver a paisagem lá fora. Era tudo um risco escuro no vácuo. “Havia paisagem lá fora?”, pensou Lilás. Pensou a menina e já incomodada com o silêncio o sossego o solilóquio os pensamentos pão-pão, queijo-queijo:

            “Há paisagem lá fora, meu? Tudo todos redondos bolas boliches pelotas bolitas.”

            E é aí que as nuvens as ideias os pensamentos ultrapassam a camada grossa dura óssea da cabeça e navegam flutuam aqui fora e fora da casinha. E nuvens sem ter de quê, sem fumaça, chuva sem vala vale ou calha, barco sem rio açude lago lagoa, calendário horários sem tempo para mais ou menos pouco muito tudo e nada.

            Nem importava se havia ou nem havia paisagem lá fora. O céu estava longe longe ou perto perto. Voavam numa velocidade absurda por dentro ou por fora do azul do céu. O espaço vazio e sem vento ou fragmentos de satélites artificiais, quase sem trânsito. Lilás perguntou, para descomplicar para destravar para quebrar o gelo e dizer algo alguma coisa:

            - Levaremos quanto tempo até a Terra, comandante Ucha-1547?

            - Trinta minutos com cinquenta e dois segundos.

            - Olha!... que potência. Outra coisa. Como é que vocês aprendem tão bem a língua dos outros povos? Nem é segredo, pois é?

            - Plique!... Muito espaço na memória.

            - Só isso, boa memória?

            - Eu fui feito com essa função.

            - Por que vocês pesquisam o planeta Terra e arredores?

            - Plique!... Para conhecer e ver possibilidades de novos materiais. Talvez materiais mais eficientes, duráveis, disponíveis, qualificados.

            - Ora, nem tenho do que me queixar. Vamos mudar de assunto, vamos?

            O grande planeta Marte, dominado pelas máquinas 9G, ficou para trás e até quem sabe um dia. Lugar seco e despovoado de bichos e pessoas. Ninguém gostava de mascotes (ngm). E máquinas fabricando motores transformadores peças chipes condutores baterias.

            “Desintegrou meu celular, que pena que pena que desgaste psicológico o meu!”

            A nave marciana pousou como ave migratória ali em Varginha (dos das varginhenses) e lá pelas dez da noite, trinta minutos e segundos depois de sair de Marte. Do lado e bem lado a lado de Três Corações, Monsenhor Paulo, Três Pontas, Carmo da Cachoeira. Enquanto Estuque-1509 verificava uns detalhes sobressalentes, Lilás trocou as últimas palavras sensações impressões com Ucha-1547:

            - Muito agradecida pela carona, seu comandante oficial Ucha-1547. Boa viagem aos dois e até outra vez que apareçam, tá ligado?! Inté!

            Em poucos décimos de segundo o disco voador subiu abriu e desapareceu no céu incomparável impalpável imensurável. Estrelas espontâneas alvissareiras, postes de luz empertigados e em posição, a paisagem em geral toda pintada em pinceladas noturnas, a lua de luar cromado, o horizonte feito de risco grafite uma linha contornando os montes, as horas acontecendo em números arábicos ou romanos. Todo um sistema.

            “D criou o universo e D que nem é bobo nem nada.”

O rio Tietê nasce em Salesópolis e cruza a capital paulista São Paulo, que nem é bobo nem nada. Um rio Tocantins nasce em Ouro Verde de Goiás e vai até a foz e desaguar na baía de Marajó, que nem é bobo nem nada.

Agora e dali pra frente, o plano da menina era muito simples: andar até a aldeia dos charrua, pegar um ônibus até Marília, dali um helicóptero até Capistrano, e então um avião até Curitiba, mais um trem-bala para Porto Alegre ou Poa. Resmungou para si mesma e com razão e já razoável racional:

            “Né!... Que diferença. Chegar de disco voador e agora ter que viajar pra casa de automóvel. Esta sorte minha de terráquea é um contraste. Porém é meu copo meio cheio!”

            Assobiando, “fiiiiu! fiiiiu!...” uma canção de sucesso, caminhando também pela rua Rodolfo Teófilo (sem trânsito suave quieta), dobrando esquina na rua Epitácio Pessoa, entre as ruas e ruas a praça Albacora-Branca, Lilás ia tranquila rumo da rodoviária da cidade.

De repente e rapidamente, um carro militar blindado se aproximou, “vuuupe!...” saindo do nada detrás de uma árvore e estacionou do lado da guriazinha. Um punhado de soldados com quepes verdes-olivas, um comando militar fortemente armado engatilhado até os dentes, grande aparato bélico, lhe barrou o caminho e deu voz de prisão:

- Oquei!... Segura aí!... Está detida, em nome da lei de segurança máxima!

- Que é?! - foi só e foi tudo que a menina pôde dizer de momento e tão assustada.

            - Alto aí, hem! Você tá preso! Ponha as mãos na cabeça ou levará chumbo!

            - Oi?!... Tá bom, tá bom mas, nem entendi a piada.  Querem me explicar? - disse Lilás, muito assombrada e já um pouco mais assustada precavida.

            Um dos soldados um primeiro-sargento se destacou do grupo e, muito cautelosamente, se aproximou da menina. Se percebia nos olhos dele o receio o pânico a surpresa a loteria o azar o pavor o difícil da missão.

            - Oquei!... Você está preso, hem! Nem se altere tanto! Mãos na cabeça!

            - Eu? Tá falando comigo? Que foi que fiz, meu?! Tá de brincadeira?!

            - Quieto, hem! Faça tudo com vagar! Agora suba no carro, e sem truques, ouviu?! Caso contrário leva chumbo quente, hem!

            - Dá pra explicar a piada? É pegadinha? Já sei, querem mangar comigo, sei. Olhe, vamos parar com essa palhaçada que nem tô com ânimo...

            - Oquei!... Su-ba no car-ro, hem!!

            Os soldados da tropa obedeciam às ordens de um general de brigada. Carrancudos sem uma palavra, roupas uniformes indumentárias de campanha verdes-olivas, precavidos nem se aproximavam muito da menina. Visivelmente receosos, ameaçavam apontando as metralhadoras com baionetas tipo armas brancas.

Lilás embarcou na viatura e seguiu com eles. Era o que era. Algo mais forte que ela.

            - Sou uma prisioneira? Então quero apelar para uma advogada procuradora - falou a menina constituinte indiciada, tentando pensar uma saída da situação limite inesperada em que se encontrava.

            - Que que vocês vieram fazer aqui na Terra, hem? Estão querendo acabar com a gente e nos caçar capturar raptar abduzir sequestrar? - arguia o segundo-sargento.

            - Nós quem? Eu sou Lilás, sou de Poa, tô de volta pro ninho pro berço pra casa!

            - Sei quem você é, seu marciano. Vimos quando pousaram, hem! Estamos de olho em vocês faz uma cara. Qual que é, hein?!... Querem nos aporrinhar apoquentar cacetear? Querem nos cercear impedir de vivermos em liberdade no nosso próprio planeta, hem?!

            - Ah!... Vê se entendi. O disco voador, claro, como nem me liguei antes. Olhem, eu explico. Realmente o disco voador era dos marcianos, mas eles só me deram uma carona, entendem?! Estão cometendo uma maldade e mais outra iniquidade comigo, tô avisando!

            - Oquei!... Vocês querem explorar a Terra, é? Qual que é?! Procuram metais preciosos? Vieram esgaravatar escarafunchar o nosso solo e subsolo? Poluir nosso ambiente com metais pesados radioativos perigosos contaminantes?

- Peraí, cara! Continuo. Eu estava no sétimo céu voltando pra casa, aí peguei um cometa. Vejam só isso! O cometa quebrou no caminho e tivemos que parar em Marte. Em Marte eu me distraí, andei pela cidade turistando, bisbilhotando e cheguei atrasada e depois da hora no cosmoporto. Então, por sorte, peguei carona nesse disco voador que vocês viram. Foi assim e essa é minha história... patética, bem da verdade! Entenderam? É sério! Falo a mesma língua que vocês. Agora podem me soltar. Sou mesmo terráquea e local conterrânea, embora da cor lilás. Veem como é simples?!

            - Opa!, seu marciano, pequeno no tamanho e grande na ciência. Nem entendi absurdamente nada. Nem caio em papo-furado - falou o soldado sargento-ajudante. Mas depois você conta o que bem bom quiser pro tenente-coronel. Agora fique quieto, hem!

            - Só um reparo, seu soldado da cor verde camuflada. Você tá usando palavras no masculino ao se referir a mim a minha pessoa, por quê? Já lhe disse que sou menina, a menina Lilás, e moro aqui na Terra, em Poa, também conhecida como Porto Alegre! Você é contador de piada e está me mangando me zoando? Observe os limites do bom senso!

            Chegaram ao quartel general, QG. Lilás foi obrigada a deixar o carro militar e entrar numa cela onde foi trancafiada. Sem mandato de prisão oficial por escrito autenticado carimbado assinado pelo juiz tal e qual, etc. Na cela somente ela e um colchão deitado no piso. O celular lhe tiraram e foi levado. Ali dentro de um prédio pardieiro de concreto armado umas portas de ferro pesadas umas grades de ferro grossas. Um presídio cárcere casa de detenção reclusão e no pior estilo. E até quebrando todas as regras da etiqueta.

            - Ei, galera!!... Esta história tá indo longe demais! Eu exijo os meus direitos de cidadã. Nem fiz nada. Me tirem daqui!... Sou de menor!... Meus direitos humanos!!... - berrou a menina, toda indignada e com razão.

            Nem responderam, deixaram a menina na cela e foram embora. Será mesmo que pensavam que Lilás fosse de sério uma extraterrestre interestelar bisbilhoteira e perigosa?! Vai ver assistiam muita película e série de 6

ª e 7ª categoria.

            O presídio de máxima segurança federal já possuía altos sistemas de seguridade. Guardas por toda a parte e alguns mascarados com proteção prevenção contra gases tóxicos venenosos. Muros com cacos de garrafa mais cerca elétrica e torres de vigilância com vigias 24h. Holofotes potentes móveis que bisbilhotavam tudo em derredor. Sistema de alta tecnologia em alarmes de calor e movimento. Cães policiais pastores alemães treinados para buscar agarrar e prender. Terreno minado em volta de todos os prédios e com arame farpado em espiral.

            E a menininha ficou isolada na cela solitária e com um catre um vaso inofensivo mefítico e o pensamento indo e vindo sem consolo. A umidade instilando injetando a água da chuva manchas espectros espalhados pelas paredes de cimento com as devidas gretas fraturas e a mica esfarelando granulada espedaçando migalhada no chão.

            Pensamento fragilizado flagelado adverso aflito da guriazinha, 10 de idade:

            “Que ideia, gente! Onde estou e vim parar?! Nem vejo por quê. Nem posso mais!”

            “Se eu pudesse sonhar sonharia com o parque Águas do Paraíso, e sem parar.”

A menina jamais tinha entrado em tão alta e perigosa engrenagem. Já nem era possível tamanha falta de noção de lógica de razão de tudo, enfim. Encafuada entocada como rato ratazana. E se vale o meu pitaco de ficcionista, digo: a aventureira intrépida estava no mato sem cachorro. Digo mais: sem explicação. Outra coisa que ela notou aí, lugar inóspito: ninguém gostava de cavalo gato e marreco (ngcgm).

“Sabia?, nem sabia?, agora tá sabendo!”

Foi na grade da janela, muito ventilada e sem proteção de vidros ou venezianas ou escuras, e olhou o céu nublado noturno. Nuvens inocentes ou culpadas? Nuvens compulsórias e enfadadas ardilosas manhosas astuciosas sagazes. Tanto era estranho a situação que a menina começou a pensar louca e adoidadamente:

“Meu celular uatezápi foi confiscado arbitrariamente?”, pensamento isolado isolada.

            “Eu posso alimentar meus amigos das redes sociais?”, mãos às costas.

            “O próprio céu está tão encaracolado?”, indo do colchão até as grades da janelinha.

            “Eles nem são e por que os meus passos?”, parando no meio da cela despovoada.

            “Neste local que é desde hoje?”, olhando as paredes de pedra lascada lavrada.

            Uma hora duas horas depois, que duraram dez ou vinte horas, alguém veio pelo corredor e chegou junto da porta, tossiu, “tofe! tofe!...” pigarreou, “ah-rãaaa!...” abriu uma entrada pequeníssima na base parte inferior e empurrou um jantar, uma refeição, um pasto pastoso, uma gororoba. Era o que tinha pra hoje e assim mesmo, o copo meio cheio, pegar ou largar. Resto de noite madrugada longa, aridez. Estava lá a sopa de batatas-doces com letrinhas de A a Z, e um canequinho esmaltado com água da torneira. Era duro, mas era queijo! Mais uma vez: nem tem tu, vai tu mesmo! Isso ou aquilo, tanto faz tanto fez!

            “Sim, é, prometo que vou embora daqui!”

            E as horas nem passavam. Nem uma hipótese? Nem uma história inventada? Nem mesmo uma mosca voando? Tudo parado quieto silêncio estático. Pouca gente gosta de cachorro, pggc. Que é hipótese? Por que é assim? Onde D se encontra que nem isso vê?!

            “Nem quero sonhar com tubarões, enguias, jacarés-açus, catetos, jiboias...”

            Nuvens leves como de desenhos infantis. O pensamento soprava leve como leves podem e devem ser a chuva o vento o sol a rua a ideia o rio. Folhas de laranjeira servindo de dinheiro-papel papel-moeda contando dinheiros ficando rica milionária comprando chocolate sorvete de açaí celular dobrável desdobrável R$8.600,00.

            Na manhã seguinte o tal soldado tenente-brigadeiro e outros, uns mais graduados, entraram na cela. A porta, que estava ali e sim estava, disse, rangendo: “greeeeiiii!...”

Os milicianos voluntários pareciam mesmo amedrontados e cheios de cuidado. Pensavam estar diante de um alienígena contagioso, contaminado ou radioativo, e por isso esse estresse todo sem brincadeira. Apontavam armas de fogo. Usavam capacetes de ferro com letras grandes significando o comando militar. Falou um soldado tenente-brigadeiro dos mais graduados e de alta patente e distintivos sobre o peito estufado de pombo:

            - Ah-hãaaa!... Oquei!... O que que vocês marcianos querem conosco, hum?! Pretendem invadir a Terra? Pretendem sequestrar os terráqueos humanos? Pretendem abduzir os habitantes e bichos deste pequeno e modesto planeta viajante? Querem nos colonizar? Querem pretendem nos escravizar? Querem vão fazer lavagem cerebral?

            - Quê?!... Ora, meu, qual que é?! De novo essa ladainha? Tá ficando ridículo, sabem?! - teimou responder a Lilás, e assim como digo e na lata do freguês.

            - Só queremos umas informações, hum! Depois a gente libera você. De onde você veio? E por quê? Por que escolheu este lugar tão sem maiores méritos ou deméritos?

            - Que pena! Já falei ontem, aliás, nem pude dormir preocupada. Que absurdo. E de mais a mais, quede minha refeição meu desjejum o café da manhã, hein?! - a menina teimava em ser bem atendida bem tratada bem cuidada. Nem me conformo, quer saber!

            - Oquei! Já creio em invasores sorrateiros! O que você gostaria de comer, hum?! Quer dizer, que que um marciano come? Onde aprendeu tão bem o nosso idioma, hum?!

            - Quem, eu?! Nem sou marciano! E parem de me tratar no masculino! Eu sou menina, me chamo Lilás, a menina Lilás! Entendem, compreendem? Seus amedrontados camuflados de japonas verdes e botas de cano alto com sola grossa coturnos! Oi?!...

            E lhe perguntavam uma vez e repetidamente outra vez. Um soldado primeiro-tenente preenchia escrevia atas autos laudas estudos grafológicos que seriam, quem sabe e provavelmente, enviados remetidos à justiça e a outros órgãos foros instâncias superiores.

            - Você fala e nos diz tudo que queremos ouvir. Faremos exames de laboratório. É um interrogatório de praxe - explicou o capitão-de-fragata, sobrancelhas altas.

            - Olá?!... Pra-xe! Praxe de quê? Quem é o praxe, meu? - a menina pedindo explicação tentando deslindar compreender o significado da palavra.

            - Oquei!... Tudo com calma! Sem nervoso, hum!, do contrário nós também partiremos pra ignorância - falou o soldado tenente-coronel, mimetizado no seu traje vestuário verde, se impacientando impaciente e com olhar esgazeado agitado inquieto.

            Havia um descompasso de interrogações afirmações informações apartes de parte a parte acusações bla-bla-blá diz que diz.

            - Oquei!... Se confessar direitinho e sem gritos, a sentença lhe será suave - registrou uma soldada primeiro-tenente, já de uns 28 anos de idade ensimesmados.

            - Quê?!... Vou repetir. Sou da Terra, me chamo Lilás e moro em Poa, conhece?! Fica ali do lado do sul do país, deste mesmo país do B que vos mantém!

            - Puxa vida! Quer dizer que é por lá que vocês pretendem entrar no nosso planeta, então? E por que o Brasil, hum?!, esta terra mais garrida.

            - Mas olha o cara!... Tô atônita!... Tô pasma!...

            Os soldados(as) tinham as armas preparadas e em posição de defesa ou ataque e combate. Nem acreditavam numa palavra da menina, embora falasse o português com sotaque do sul do B. O soldado terceiro-sargento, mais enxerido perguntador, continuou indagando e investigador pesquisando detetivesco:

            - Ufa!... Existem mais de vocês lá por Porto Alegre e arredores subúrbios?

            - Mais de vocês quem?! Meus parentes, você quer dizer? Claro, lá mora toda minha família, primos, tios, aderentes, consequentes, pretendentes, contentes, descontentes, colorados, gremistas e outros partidos.

            - Hum!... então são muitos? Sim e nem, são muitos - disse a soldada sargento, franja de cabelos cortada bem rente na testa ampla.

            - Claro como água de poço. Já somos uns quantos. Primos e primas então eu já nem ligo, já perdi a conta, tenho mais de 50. E se correr o bicho prende, se ficar o bicho almoça!

            - E o que concluem? O que pretendem? Submeter este planeta, que se desloca no espaço no cosmo e chamado Terra, aos vossos caprichos e ambições? Fazer guerra com nossa bola azul? Que que a Terra, este planeta que viaja rolando em volta de si mesmo, tem assim de importante que lhes possa interessar tanto? O que que vocês fazem por aqui, hum?! Seja sincero, seu marciano sem antena e da pele cor lilás ou roxa!

            Nessa parte nesse ponto os soldados chegaram numa temperatura de pura fervura, ficaram furiosos, bufaram, “freeerrr!...” como bichos ferozes feras raivosas danados. Pareciam e estavam muito inconformados e psicologicamente alterados. Teimavam ouvir as respostas que queriam precisavam ouvir. E batiam o pé no chão, “plaaaafe!...”

            - Você é marciano e nem pode continuar nos ludibriando, fique bem esclarecido - afirmava assegurava asseverava convicta a tenente, olhos saltados espantados assustadiços.

A Lilás pegou um ânimo de onde nem tinha e mais uma vez falou tentado convencê-los, assim muito alucinadamente e às vezes até escandindo as sílabas as palavras mais importantes do diálogo da discussão da polêmica:

            - Ah!... Oh!... Minha paciência! Vocês insistem nessa história de que sou um alienígena. Será que vocês nem percebem que sou... des-te mes-mo lu-gar?!

            - Ora nove horas! Mas você pode estar disfarçando disfarçado mentindo, hum!

            Uma soldada oficial primeiro-sargento anotava tudo na prancheta no notebuque digitando escrevendo e as instruções requerimentos alíneas códigos requisições parágrafos.

            Então, quer saber, Lilás contou toda toda a história novamente e mais uma e outra vez. Toda desalinhada o cabelo esgrouvinhado desgrenhada. Ela foi contando explicando para os soldados as soldadas e que mesmo assim nem conseguiam entender capiscar perceber. Mas, será que eles queriam entender? Poderiam compreender? Queriam ouvir aquelas respostas aquelas explicações? Será que uma captura de extraterrestre era tão valiosa assim, é? Que dinheiros e prestígios nem teriam um tamanho troféu, hem?

            E a menina levou um tempo para tentar explicar em detalhes. (Eu entendo e eu estou do lado da menina.) E repetindo com as mesmas palavras e tons e sons igual um gravador. Depois de tudo o ranzinza soldado soto-capitão ainda veio com esta:

            - Oquei!... Você é radioativo? Você se alimenta de quê, exatamente? Seria de urânio enriquecido em usinas nucleares? Você mora ou quer residir em Angra dos Reis? Um cidadão munícipe gentílico angrense? Que pretensão! Como ousas?! Isso me assusta!

            - Tô fora! Nem vou responder mais nada. Desisto e para sempre, então!

            Lilás se encaminhou para a porta da cela buscando a saída. Aí os soldados lhe apontaram as armas e ela teve que retroceder recuar e ficar ali mesmo, presa. Eles trancaram a porta, “tra-tro-tuuuu!...” e foram embora, saíram fora, prometendo voltar mais tarde para outra sessão de perguntas e mais um longo questionário interrogatório torturante.

            “Se eu passar por esta prova conquistarei o céu o céu! É, estou diante de uma das minhas mais incríveis difíceis e embaraçosas aventuras. E bota desventura nisso!”, foi o que pensou consigo mesma a aventureira menininha Lilás, 10 anos de serviços prestados e nem se sabe lá quantos muitos alta porção a mais.

Enfim, um interrogatório policial ou militar é assim mesmo, nem tem outro jeito. É muita interrogação e insistentes perguntas repetidas. Um enorme e cansativo teste de paciência resistência, de ambos os lados. E nem há paciência que dê jeito. E ninguém que vai preso, ninguém que vai presa, sabe dizer as respostas que os perguntadores querem ouvir. Os interrogadores querem debochar do entrevistado, os perguntadores querem fazer gato chué reles e sapato cambaio do depoente. Pelo sim ou pelo nem, então vejamos a continuação incansável cansativa. Quando muito ou quando pouco, duas horas depois:

- Oquei!... Você sempre quis ser jogador de vôlei? - era a pergunta do soldado raso.

- O que você achou daquele filme, “A volta dos que nem foram”? - indagação da soldada cabo-de-esquadra, olhar sem substância.

- De repente você já viu ou ouviu falar dos caaporté? - falou o soldado gregal.

- Um carro elétrico você vê que é uma boa alternativa para o futuro? - inquiriu o soldado tenente-coronel-aviador, olhar alcançável.

- Quando foi que você visitou a histórica cidade de Parati pela última vez? - fez a pergunta a soldada tenente-general, fulana bem despachada.

- Se ocê tiver de andar e cruzar a rua de bíci, você cruza na zebra ou pedala pelo meio entre os carros? - pergunta da comandante-em-chefe, echarpe verde-cré.

- Você é de fila procissão processionário ou fura fila? - inquiria a soldada recruta.

- Tu gostas aprecias amas as pizzas doces, tipo chocolate? - requeria a subtenente.

            E por isso mesmo a menina ficou cansada e vazia, outra vez. O caso estava entregue às forças armadas. Segredos de segurança nacional. Afinal nem é todo dia que o espaço aéreo do país do B era invadido por alienígenas perigosos. Assim mesmo e conforme e já como se vê no cinema e na literatura nos causos serões familiares. Nada mais a depor. Nada mais a decompor. Nada mais a decorar. Nada mais a latir. Nem mais nada a coaxar, palrar.

            “Se ergue e vai, soergue-se!”, foi o que ela mesma pensou tentando se reanimar.

Muito claro e explicado que a menina Lilás ficou demais preocupada com o próprio destino e sua própria sorte. Suspeita de atentar contra seu próprio país lesa-pátria? Isso é muito sério e perigoso e inadmissível. Porém era tudo novo pra ela, convenhamos. Nem acreditava que aquilo tudo, que parecia brincadeira sem graça, estava de fato acontecendo e ao vivo. Logo, cedo ou tarde, ação e consequências igual a carma.

            “Eu vou fazer o quê, então?!”, falou ela para si mesma e se perguntando.

            “Nem levo jeito comportamento de quem assiste filme de terror à noite.”

            “Já o embarque será às 16h:21min no portão 35 e plataforma Z7.”

            “Tenho tempo de ler o livro autoral, ‘Ana Paula na paisagem’, hein?!”

            “Sou feita constituída de fibras de palha fibromas?”

A menina se sentou no chão da cela em posição de flor de lótus, em posição de pirâmide, em posição de cone, em posição de estudante iogue da ioga. Ritual psicofísico de mãos sobre os joelhos com as palmas viradas para cima. E elevou seu pensamento, se concentrou. Procurou pensar em nada nada de seu e se ausentar de si. Seu coração, à medida que o tempo passava, batia mais lentamente, suavemente, pu-ri-fi-ca-da-men-te... Esquecia de tudo em volta, literalmente. Como num sonho do outro mundo. Nada nada a perturbava, nenhum pensamento nenhuma sensação. O vazio imenso e reticências...

Era o mundo leve leve dos sonhos mais suaves sutis. Adejando como uma borboleta sobre flores selvagens no campo. Cores de flores amarelas vermelhas azuis verdes perfumosas coloridas novas. Uma formiga áptera cerrando fila com o carreiro a colônia em rumo direção da árvore. Odonato balançando em a haste sobre o lago cristalino espelhado.

Olhando por fora a casca, a menina Lilás estava pregada no chão olhos fechados corpo paralisado na retranca e totalmente quieta. Igual como uma coisa. Um objeto inanimado. Uma cadeira bem amparada plantada nas 4 patas, por ex. Um tronco uma rocha com quinas arestas esquinas. Aparentemente indiferente densa pesada incapacitada atolada na realidade da cela. Como um casulo abandonado, é isso.

E aí o milagre em espírito. Em certo momento em certo sentido a guria começou a levitar, subir, flutuar, planar inteira e alma pura. E aí a magia continuou sublime. Seu cérebro já projetava na parede da cela uma luz azul, boa e apaziguadora. Uma luz raiada tipo as que atravessam os vitrais das igrejas e templos sagrados.

Em meio à luz azul surgiu um rosto de avó conselheira, também sentada em posição de lótus, de pirâmide, de iogue. Nada mais existia, somente as duas plantas de lótus.

Lilás e a vovó se olharam nos olhos transparentes translúcidos. Precisavam dizer alguma coisa? Parecia um encontro virtual teletransportado videoconferência telepatia de primeira ordem. Nem precisavam de som algum voz alguma para se comunicar.

Como se fosse um encontro no espelho, como se fosse um encontro pela tela da tevê, como um encontro na superfície do lago Serra da Mesa. Muito acima dos simples e pequenos mortais pessoas comuns corporais.

Aí, a vovó abriu a boca e engoliu a menina Lilás num transporte espiritual mental num sorvo de ar azul e limpo e perfumado. Como inspirando respirando um ar engraçado.

A menininha Lilás desceu garganta abaixo, então, e por dentro da vovó até chegar no coração que, “tum! tum! tum! tum!...” pulsava como bem pulsava. Era um centro do mundo como um centro de estrela um centro mágico. Onde tudo inventava. Onde começavam as palavras. Onde nasciam as palavras paramentadas em períodos e orações.

Tinha sim um mundo ali. Era um céu azul mas com nuvens bonitas espertas. Que interesse D tinha nisso? Se o coração da vovó era infinito como grande o universo. Nuvens bem apessoadas e tocando instrumentos de sopro oboés percussão cordas violas címbalos.

 Já no coração da vovó, Lilás se sentou na grama, esperou um tempo, se encheu de paz, de paciência, de calma, de sorrisos e de sabedoria positiva. Brincou um tantinho nos jardins do parque aos pés de uma itupava e os pássaros, uirapianas, pecaparras, gente-de-fora-já-chegou, frifriós, pixoxós, xanxões... Desfrutou do coração da velha senhora, “tum! tum!...” e por um período para lá de três mil anos, “tum! tum!...” Já podia retornar? Que já podia se quisesse. E estava tão bom, tão bom!

Estava entusiasmando D e todo mundo. O ambiente o local o lugar estava repleto de grama árvores rio corrente pedras preciosas dia quente cálido verão sol ainda pela manhã. O rio corria em zigue-zagues. O mar ondeava vivia arfava. As aves procuravam se divertir de todos os jeitos e pintassilgos, tajãs, tachãs, tesoureiras, bem-te-vis-do-gado, suiriris-cavaleiros, sanhaços-frades, sabiás-laranjas, matirões, saís-de-fogo. Passarinhos soltos voadores repetidos com ou sem registro. Algo mágico brilhante e inalcançável.

Havia entusiasmo por tudo e todos. As plantas florindo frutificando e cajueiros, toucás, tururis, canelas-brancas-do-brejo, maparajubas. Arvoredo rebolando remexendo gingando nos meneios. Brisas e ventos nas conversas macias de primavera. Os pássaros pulando voando ou acabando de pousar aterrissar. E que algazarra foi essa e estava acontecendo... Quase nem se falava se fala em outra coisa. Caxinguelês arteiros atônitos levípedes lisos rápidos corriam corriam ariscos ligeiros muquiranas muquiras e de repente estacavam... paradinhas inesperadas... e perscrutando o ambiente. Assim mesmo, tudo no mundo serve para alguma coisa e tem seu propósito prestígio. Se lembre lembrar disso!

Nuvens de aço completas partidas maioria minoria úmidas secas grandes redondas oblongas funcionais aposentadas extraviadas inoxidáveis. Nuvens desenhadas em vértices em pontas fofas vaporosas rendilhadas alfabetizadas rosáceas obrigatórias saltitantes.

Voltou e retornou e a Lilás voltou. Saiu pela boca da senhora octogenária como se fosse um bafo quente e perfumado. Acordou. E se materializou de novo, como era antes, corpo inteiro, no lugar de antes ali na cela. Abriu os olhos e num instante. A luz azul, com a imagem da vovó, sumiu da parede. O mundo, que tinha dado voltas, retornou ao mesmo lugar. Sem sombras de dúvidas.

E menina desceu, pousou, sentou no chão com as pernas transadas. Presente. Quando chegou a estacionar o corpo no piso, deitou recostou e relaxou amorteceu os músculos. Foi uma excelente estada de férias e experiência contemplativa. Uma incrível viagem no tempo no espaço no íntimo e no instinto, sem hora sem nota sem nome. E o fez muito bem. E a sensação melhor ainda. E o sentimento inteiro de espírito bom.

“Na dúvida chame um técnico”, pensou logo a menina, respirando fundo.

Vamos trabalhar o pão nosso de cada dia. O pão é nosso tempo permitido. E por que perguntamos? E por que todo mundo responde? E quanto vale este jogo jogado e lambaris pescados? Vamos comer o pão com café no desjejum de cada manhã. Vamos com tudo e vamos por partes. Vamos sem paradas sem parar de ir e com calma. Vamos abrir o leque.

Nuvens armadas como toldos de circo circense e elétricas premiadas roldanas argolas dobradiças rolimãs eixos cubos alçapões colheres polias ferrolhos gaxetas. Nuvens prenhas de filamentos tênues e rendimentos rendas salários pró-labores recompensas abonos ordenados remunerações.

            Certa hora da tarde e 14h e 37min daquele mesmo dia, uma serpente lilás, que estava ressonando na cela, acordou acordou. Sondou as possibilidades de fuga. Deslizou por ali mesmo, procurou buracos para se evadir, mostrou a língua bifurcada, gingou, rodou, se enrolou, se desbaratou da espiral, se espichou e se arrastou. Aproveitou a oportunidade por entre as grades da porta e vazou vazou. Silenciosa e desmembrada solta sutil.

            Do alto do muro amuralhado se soltou na água do fosso que rodeava a cidadela. A cobra gigante aquaplanou pelo charco da trincheira e rastejou pelo acostamento da cerca eletrificada. Camuflada na grama alta ninguém percebeu nenhum guarda-vigia notou anotou sua passagem. Estava com pressa. Uma cabeça triangular com olhos acesos.

            “Uta!... Lisa polida deslizo, por favor!”

            Nuvens de ter e haver e manter e régua telefone cavalete lápis porta-chapéus cata-vento caneta mesa cruz xícara. Nuvens de dou um pulo aí e já volto e candeeiro chinelo caixa-d’água copo relógio baguete caneca mástique gravata toalha cofre bibelô.

No pátio externo, rastejando no pó com cascalho, achou que um réptil sucuri era difícil e arriscado arriscando a própria pele a barriga e a fortuna da sorte. Nem gostou mais de ser uma serpente lenta e rastejante rente o chão. Queria ser olímpica, mais forte e mais alto e mais rápido. Recorde de força altura velocidade.

 Então decidiu virar uma felina jaguaretê de agilidade, de verdade, de quatro patas e garras retráteis e de corrida correr. Uma onça-vermelha e das brabas mimetizada. Correu, correu e correu tanto que nem é preciso dizer quanto. Estava com pressa. Deu vários saltos fugindo dos obstáculos, das bordas bordos margens contornos, dos prédios e construções, das paredes de tabique divisórias das atalaias e das cercas e barreiras e outros muros altos taipas tapumes do caminho. Pulos pulados de dois a quatro metros.

“Isso nem impede que eu pense e calcule e decida”, pensava a felina gata.

“Isso nem impede que eu vá para Santa Rita do Novo Destino”, bolava a felina onça-pintada de pelo camuflado na sombra.

“Isso nem impede que eu vire flor-da-imperatriz”, calculava a felina jaguar.

“Isso nem impede que eu seja bem recebida pelos cambiuá ou os aicanã/masacá”, imaginava a felina jaguatirica.

A fera a felina lilás saiu campo afora, pegou pelo mato, e sempre em disparada. Cruzou a nado o rio Castelão perto de Niquelândia. Todos os músculos apropriados. Animal que respirava forte e roncava grosso, “groooouuuu!...” Animal com superpoderes.

“Ufa!... Supero obstáculos adiante, por favor!”

Já chegava, pouco antes do anoitecer, à beira de um imenso penhasco um alcantilado cânion do Itaimbezinho. Ali no trampolim do precipício pulou espetacularmente para o abismo... Fez isso sem pensar muito, apenas por instinto, por atração do perigo. Sem pensar duas vezes. Estava com pressa. Estava ali.

À medida que ia caindo no vazio... à medida que ia caindo do perau para o abismo... à medida que ia caindo de uma altura imensa, e a gravidade puxando puxando, o corpo da feroz fera lilás se transformava, se metamorfoseava em um gavião-de-penacho e dos rapineiros. Cheio de plumas penas cauda asas garras de unhas curvas e bico adunco.

“Upa!... Arremeto empino alço voo, por favor!”

 E antes de tocar pechar contra o solo em queda mortal, sem demorar muito, o gavião-pomba lilás, ave enorme, sombra assustadora correndo pelo chão, dois metros de asas abertas, alçou voo, subiu, subiu até as nuvens, mais alto que todos os mortais, mais alto que todos os prédios altos e piou, grasnou, arrulhou, chilrou, “grrriuuu! grrriuuu!...”

Todas as florestas, todos os campos campinas pampas e coxilhas, todos os areais dunas e caatingas, todos os cerrados e pantanais e manguezais, todos os biomas, todas as ilhas que compõem os arquipélagos, todos os arrecifes e atóis, escutaram seu pio de ave de rapina, carcará de bico curvo aquilino: “grrrrriiiiiuuuuu!!, grrrrriiiiiuuuuu!...”

Complexo de nuvens carneirando pelo céu fundo azul e sapato de sola prateada livro de capa dura janela de caixilhos de alumínio anodizado jangada de troncos com a vela em triângulo vermelha. Nuvens floridas como jardineiras e trem sobre a ponte cipó-florão escalando o muro da escola jogo de bola na praia da Joaquina.

E ali estava o voo da ave lilás de volta que voltava voava para o ninho ninhal. Ponta a ponta das asas atingiam o leste e o oeste os braços do sol sistema solar. Voo sofisticado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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